terça-feira, 9 de outubro de 2007

Um Poema para os «Históricos»

... da Blogosfera Portuguesa

AOS EMUDECIDOS

«Oh, a loucura da grande cidade, quando à noitinha
Árvores raquíticas nos fitam junto ao muro negro,
O espírito do mal nos olha com máscaras de prata;
Luz com açoite magnético expulsa a noite de pedra.
Oh, o toque submerso dos sinos da tarde.
«Puta que pare uma criança morta em arrepio de gelo.
Louca, a ira de Deus chicoteia a fronte do possesso,
Peste purpúrea, fome que quebra olhos verdes.
Oh, o riso horrendo do ouro.
«Mas o silêncio sangra em escura caverna a mais muda
Humanidade. Forja com metais duros a fronte redentora.»
Fonte: Georg Trakl/ An Die Verstummten (Tradução de João Barrento).
Comentário: Este poema deve ser lido como o advento de uma nova geração de Luso-Bloggers e, portanto, como a despedida da «estirpe maldita» (verfluchten Geschlechts).
J Francisco Saraiva de Sousa

Miguel Sousa Tavares e a Internet

Raramente vejo a TVI. Porquê? Pergunta retórica: a TVI é um folhetim de telenovelas e programas demasiado rascas. Mas, por vezes e às terças-feiras, ouço os comentários de Miguel Sousa Tavares. Hoje (9 de Outubro de 2007) o Miguel disse uma barbaridade contra os utilizadores da Internet, em particular os bloguistas.
O seu argumento, apoiado em dois ou três blogues que o difamam, é este: a Internet criou uma nova forma de criminalidade, os crimes «impunes» (sic). A publicação da lista de nomes de pessoas que frequentam sites pornográficos, em particular pedófilos, não é nada interessante e iria abrir um precedente que o próprio Miguel deve condenar. A causa pode ter certa pertinência e deve ser discutida publicamente, mas a medida proposta é um terror.
A Internet tem duas faces como o deus Jano: uma boa e outra negra. Tomar a Internet pela sua face negra é um erro atroz: a Internet é uma nova promessa, a garantia de um espaço público onde todos, sem excepção, podem participar e ter direito à palavra. Isto é democracia real, sem mediadores. Querer inibir, de alguma forma, a liberdade oferecida pela Internet é uma tentação antidemocrática. Já existem muitos bloguistas, nomeadamente os chamados «históricos», que usam diversos estratagemas para cercear a liberdade dos outros, de modo a garantir o seu pequeno e medíocre monopólio! A intervenção do Estado ou da União Europeia neste domínio seria catastrófica: as figuras de Maomé mostraram que as pessoas estão a perder o bom senso e que, absorvidas nas suas vidinhas metabolicamente reduzidas, abdicam facilmente da liberdade à palavra.
Isto é muito mais preocupante do que o lado negro da Internet que até pode ser controlado discretamente, sem pôr em questão a circulação livre de ideias. Lobo Xavier chamou diplomaticamente «donzela» a Pacheco Pereira, quando este criticava injustamente Pinto da Costa e a sua linguagem. Uma linguagem mais forte, portanto mais masculina e apropriada ao momento, não é necessariamente insultuosa. Quem não está preparado para ser criticado, não deve aparecer em público. Saiam da esfera pública e abdiquem de participar, porque quem participa está sujeito à crítica e ainda bem. Querer controlar a crítica por meios antidemocráticos -- e o recurso aos tribunais pode ser também um meio antidemocrático, é «cobardia» pura, mais vulgar e reles do que aquela exibida pelos bloguistas que insultam anonimamente.
J Francisco Saraiva de Sousa

BlogoFranciscanos

No blogue de Paulo Querido, travou-se uma polémica sobre a blogosfera portuguesa, na qual participei, inicialmente substituindo «definhamento» por «depressão». Mas o jpt não concordou, dando origem a uma polémica deveras interessante.

Apenas retenho o final dessa polémica, onde PQ me reduz a «leitor», e o jtp chama-me «blogofranciscano». Trata-se, no fundo, de uma controvérsia entre os auto-intitulados «históricos» e os mais novos, como eu ou o autor do blogue «Intervenção Maia».

1. Sou efectivamente «blogofranciscano», até porque me chamo Francisco, que faz lembrar provavelmente S. Francisco, que lutou contra a pobreza e a miséria. E o uso no plural, «blogofranciscanos», parece indicar que já tenho «seguidores» (sic). Ora, se assim for, a nossa causa não é lucrar com a blogosfera, mas convertê-la num espaço livre onde todos os cidadãos tenham acesso à palavra, como diria Hannah Arendt.
O objectivo último deste meu blogue é precisamente trazer o pensamento crítico para a blogosfera e acordar as pessoas para a política e para a participação política responsável. Uma tarefa absolutamente estranha aos jornalistas ou a todos aqueles que fazem um uso mais «privado» da blogosfera!
Se este objectivo é «ético», como diz jtp, tanto melhor, porque sempre defendi a dignidade da política, contra a sua instrumentalização pelos luso-abusadores do poder. Jtp sente aversão pela «comunidade ética», afirmando que, no bloguismo, «nada é desinteressado»: «livremo-nos dos desinteressados (ainda que depois apareçam os blogofranciscanos a protestarem com os fulanos que saltam dos blogs para os jornais, tv ou revistas - mas não é porreiro ver as constantes contradições nos assertivos?» Qualquer actividade pública é interessada: manifesta-se num mundo comum e partilhado, mas os interesses são diferentes. Defender a verdade e a emancipação é um interesse nobre e é efectivamente o único interesse que me move na blogosfera.

2. PQ reduz-me a «leitor», «o leitor Francisco». É verdade: sou leitor desde que aprendi a ler e, ocasionalmente, leio algumas coisas menos interessantes, para me actualizar e encontrar animo para a minha cruzada: a desconstrução da luso-mediocridade. Mas as minhas leituras preferidas são outras, conforme se adivinha lendo os textos que edito nos meus blogues. Também leio os «históricos», embora não me reconheça nesta frase de jpt: «o texto acusatório dos históricos» não é meu! Não acusei os «históricos», apenas penso que eles entraram em depressão, talvez porque não saibam competir e partilhar o espaço virtual com outros, temendo, como diz o autor de «Intervenção Maia», perder audiência!

Em suma, acho divertida a designação que me foi atribuída: «blogofranciscano» e, embora não seja humeano neste aspecto, porque não procuro «fama», fico feliz por saber que alguns «históricos» frequentam os meus blogues e que já usam a minha terminologia e conceitos, embora um ou outro me atribua erradamente uma filosofia teológica da história, digna de ser «objecto de estudo». Mas a minha problemática de fundo é outra: defesa da DEMOCRACIA contra os seus inimigos.

J Francisco Saraiva de Sousa

Intervenção Maia

Aconselho a leitura frequente deste blogue interveniente e pertinente:
http://intervencaomaia.blogspot.com/

Prós e Contras: O Crime e o Medo dos Cidadãos

O debate de hoje (8 de Outubro de 2007) debruçou-se sobre a política de segurança, sem definir previamente o que se entende por segurança e, se há efectivamente um sentimento de insegurança, quais as suas causas profundas. Chegámos ao final deste programa de «Prós e Contras» sem saber qual a política de segurança e quais as razões que levaram o governo a fazer estas reformas.


Sabemos que há uma clara distinção entre uma perspectiva de Direita, bem defendida por Paulo Portas, e uma perspectiva de Esquerda, protagonizada pelo ministro da Administração Interna, que, diga-se a verdade, conhece muito bem a sua «pasta».


Uma perspectiva de Direita defende uma «política de segurança securizante», com aumento dos efectivos policiais (populismo), maior poder para as polícias que deveriam obedecer ao mesmo ministro, segundo um modelo vertical e hierárquico simples, aumento e agravamento das penas, menor sensibilidade em relação à pessoa dos chamados «criminosos», amedrontamento irracional das populações, enfim invenção de novos terrorismos, por exemplo, o «ecoterrorismo». Uma proposta francamente má e reaccionária, que levada a cabo produziria um Estado Policial, com tentações totalitárias: o indivíduo e a liberdade seriam esmagados! O populismo de Paulo Portas tende a encobrir ou a tornar aceitável aquilo que defende: um Estado autoritário que amedronta as pessoas para as submeter, subjugar e sujeitar ao poder de uma minoria. Muito próximo daquilo que defendia de Maistre! O poder do carrasco!


Uma perspectiva de Esquerda deveria ser mais atenta a outras concepções de segurança e não se deixar intimidar pelo terrorismo, pelos crimes grupais e violentos e pelas catástrofes. Ao intimidar-se, cai necessariamente no erro de definir a insegurança como um sentimento subjectivo, e a segurança, como medida objectiva de protecção. Este é o jogo da Direita ultraconservadora, muito pouco liberal, porque, se o fosse, não sacrificava a liberdade à segurança, como fez Paulo Portas, embora no final tenha feito a fita da defesa da individualidade. Rui Pereira foi muito jurídico e poderia ter ido mais longe na clarificação de uma política de segurança socialista.


Em defesa de uma política socialista de segurança, defendo a tese de que a segurança deve ser vista numa perspectiva mais ontológica: associar de imediato segurança e «criminalidade» conduz a falsas alternativas. Aliás, duvido que os portugueses vivam tão intensamente esse sentimento de insegurança relacionado com a possibilidade de serem alvo de um acto criminoso, embora saibam bem que zonas e pessoas evitar e a que horas do dia. Esta insegurança deriva de uma insegurança ontológica fundamental, provavelmente uma constante da condição humana, que sofre actualmente o impacto brutal da globalização. Uma política de segurança não é apenas um problema policial: numa sociedade de desemprego elevado, as pessoas temem pelo seu futuro, não por temerem vir a ser assaltadas ou assassinadas, mas por terem receio de perder o seu lar, a sua autonomia, a sua independência, enfim a dignidade de uma vida humana.


Quem ameaça essa dignidade da vida humana? Em Portugal, é o sistema de luso-corrupção: aquele conjunto de pessoas «impunes» (como foi dito) que roubam a oportunidade dos portugueses poderem vencer orgulhosamente na vida e construir um país mais justo, solidário, livre e «rico». A ultrasegurança desse sistema de luso-corrupção produz a insegurança de todos, a imensa maioria dos portugueses, muitos dos quais não têm outra alternativa senão se tornarem «criminosos», delinquentes, sem-abrigo ou simplesmente bandidos, para os quais Paulo Portas quer agravar as penas, logo a partir dos 14 anos.
Uma boa intervenção do ministro Rui Pereira que venceu claramente o debate contra Paulo Portas, mas insuficiente para clarificar os problemas colocados sobre a mesa. Cada vez estou mais convencido que, para se ser bom político, é necessário saber filosofia e ter uma experiência de vida rica, ou seja, muito bom senso, aquilo que a política parece ter perdido.


J Francisco Saraiva de Sousa

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Blogosfera Portuguesa

É habitual definir a blogosfera como toda a comunidade e os conteúdos que constituem os blogues ou como o conjunto de quem faz, de quem disponibiliza e de quem lê os blogues.
Um tal conceito é mais descritivo do que explicativo, mas, mesmo como conceito descritivo, dificilmente se aplica à blogosfera portuguesa. Com efeito, a luso-blogosfera não é uma comunidade mas um conjunto ou amontoado de blogues, cujos autores são, na maior parte dos casos, absolutamente autistas e incapazes de estabelecer contactos regulares online, sobretudo os mitologicamente chamados «históricos». Todos visam conquistar audiências vastas, como se estivessem no centro de um mundo intersubjectivo real, que, na realidade, é o seu pequeno mundo medíocre e fechado exposto à visibilidade pública. Desejam ser lidos e comentados mas sem retribuir e sem se aperceberem que os comentários são «oportunistas» ou irónicos. Como não respondem altruisticamente, acabam por ficar isolados, imaginando que ainda são lidos por um número alargado de pessoas. Até podem ser destacados noutros meios de comunicação social, mas isso deve-se, não à qualidade dos conteúdos, mas ao luso-sistema de corrupção e, diga-se em abono da verdade, à presença de muitos jornalistas ou das chamadas pejorativamente vedetas públicas que usam a blogosfera para prolongar a sua actividade profissional ou a sua campanha de publicidade.
Não há efectivamente uma comunidade de bloguistas portugueses! Há apenas um amontoado de blogues, cada um mais autista do que o outro. O português é um ser pouco seguro de si próprio e, por isso, receia a crítica aberta ou o debate de ideias: a crítica é sempre levada a peito, como se a desconstrução de uma ideia ou tese implicasse a destruição psicológica e social do seu defensor. O português encara o conhecimento como resultado do seu metabolismo e não como uma busca cooperativa da verdade. Sente-se constantemente ameaçado como pessoa e, quando não lhe dão «palha», isola-se no seu mundo, neste caso no seu blogue, imaginando que as suas ideias irão produzir efeitos nos comportamentos de outros distantes. Esquece-se que os outros são semelhantes a si e, portanto, estão também fechados no seu pequeno universo. A mediocridade nacional é geral e atravessa tudo.
Contrariar esta tendência constitui uma tarefa difícil e condenada ao fracasso, dada a inércia mental portuguesa. Portugal parece ser um país eternamente condenado ao fracasso e à mediocridade e, se assim for, é preciso encarar o problema de uma outra perspectiva.
J Francisco Saraiva de Sousa

domingo, 7 de outubro de 2007

Jornalismo: O Inimigo da Democracia

A tese que pretendo defender é impopular e difícil de expor: o jornalismo que se faz em Portugal é inimigo da democracia, da república e da liberdade.
O que está aqui em questão não são os jornalistas como pessoas, mas a prática do jornalismo e as suas pretensões corporativistas. Esta prática é absolutamente contrária ao espírito democrático e à noção de que todos os cidadãos responsáveis têm o direito e o dever de participar na esfera pública, sem mediadores. Ora, em Portugal, a esfera pública é claramente monopolizada pelo poder político instituído e pelos jornalistas que encaram a sua actividade como um «quarto poder», com amplos poderes de vigilância sobre a actividade política e os seus protagonistas. Esta ideologia jornalística espontânea visa veladamente ou mesmo descaradamente assegurar interesses corporativistas e garantir o monopólio das «notícias» e da «comunicação».
O poder político não fez nada para travar esta pretensão do jornalismo corporativista; pelo contrário, facilitou-lhe a vida, permitindo a aprovação de legislação favorável ou mesmo a abertura de cursos de jornalismo e de comunicação. Actualmente, o jornalismo não é uma actividade livre de cidadãos responsáveis, mas uma «carreira» que começa na universidade e que termina Deus sabe lá onde: o mais provável no desemprego! Sim, porque os jornalistas instalados aprenderam com os governantes ou com as pseudo-elites a bloquear a vida daqueles que os ameaçam: o jornalismo instalado é medíocre e, por isso, açambarca tudo o que pode, incluindo licenciaturas da treta e carreiras universitárias e políticas, para impedir uma reprodução renovadora e vivificadora do sistema. Seguindo o triste exemplo de outras ordens profissionais ou sindicais, os jornalistas instalados anseiam por uma corporação fechada, capaz de garantir os seus interesses, em detrimento dos interesses políticos, os da democracia e do bem público.
Distanciei-me ligeiramente do meu objectivo, mas com resultados positivos. Curiosamente, reli a obra de Oscar Lewis sobre a «antropologia da pobreza: cinco famílias mexicanas» e constatei que uma das suas conclusões ajuda a explicar a miséria nacional. Lewis diz que, apesar da mobilidade social e de algumas famílias terem ascendido na escala social, a sua cultura permanece sempre a mesma, a do estrato social inferior de que provêm. Em Portugal, após o 25 de Abril, assistimos a diversas ascensões sociais: as classes populares tiveram a sua oportunidade e, sobretudo nos meios rurais, arranjaram empregos de responsabilidade ou tomaram conta deles sem qualquer preparação, e muitos vieram depois para as cidades, sendo hoje figuras públicas. O nível de vida e o estatuto social subiram aparentemente, mas a formação cultural permanece a mesma do grupo inferior de que são provenientes. É certo que publicamente dizem detestar a «cultura popular» ou «cultura pimba» e fazem tudo para apagar esses vestígios da origem social, negando o passado ou inventado genealogias sociais, mas, lá no fundo, continuam a ser «parolos» e muito «rascas». A sua auto-estima é muito baixa, bem como a sua auto-confiança: daí o ódio que nutrem por tudo o que é realmente «superior» e egrégio. O sistema de ensino nada pode fazer para travar esta mediocridade, porque, ele próprio, a produz, através dos seus professores cuja licenciatura é a da «cultura popular», do «zé-parolo». O que é verdade para estas categorias sociais, também é verdade para os jornalistas: a ralé grassa por todos os lados e age de modo a bloquear o futuro de Portugal.
Penso que, de momento, não preciso acrescentar nada mais à tese que coloco em discussão: vejam os jornalistas em acção, estudem o seu comportamento e o modo como «fabricam notícias», e tirem as vossas conclusões.
J Francisco Saraiva de Sousa

Joseph de Maistre

ou o Discurso Antidemocrático.

Joseph de Maistre (1753-1821) tem sido retratado de diversas maneiras, mas, como demonstrou Isaiah Berlin, o seu objectivo primordial «foi destruir o século XVIII e seu pensamento racionalista». A sua teoria fundamental afirma que «a natureza tem os dentes e as garras sangrentos, é um vasto cenário de carnificina e destruição».


«No vasto domínio da natureza viva reina uma violência aberta, um género de fúria prescritiva que arma todas as criaturas para a sua perdição comum. Assim que deixamos o reino inanimado, deparamo-nos com o decreto da morte violenta inscrito nas próprias fronteiras da vida. Sentimo-lo logo no reino vegetal: da enorme catalpa à erva mais pequena, quantas plantas morrem e quantas são mortas! Mas no momento em que entramos no reino animal, esta lei revela-se subitamente com a mais aterradora evidência. Um poder violento, ao mesmo tempo oculto e palpável (...), designou, em cada subdivisão principal dos animais, um determinado número de espécies para devorar as outras. Assim, existem insectos predadores, répteis predadores, aves de rapina, peixes predadores, quadrúpedes predadores. Não há instante de tempo em que uma criatura não esteja a ser devorada por outra. O homem está colocado acima de todas essas numerosas raças de animais e a sua mão destruidora não poupa nada que tenha vida».
Esta concepção crua e despida de lentes teóricas, metafísicas, lógicas ou geométricas, da natureza aplica-se também ao homem que, apesar de nascer para amar, é de todos os animais o mais violento e cruel.
«O homem mata para se alimentar e mata para se vestir. Mata para se adornar e mata para atacar. Mata para se defender e mata para se treinar. Mata para se divertir e mata por matar. Rei soberano e terrível, tudo deseja e nada lhe resiste (...). Ao cordeiro (exige) as suas entranhas para fazer ressoar a sua harpa (...), ao lobo o seu dente mais mortífero para polir as suas frívolas obras de arte, ao elefante as suas defesas para construir o brinquedo de uma criança: cobre a sua mesa de cadáveres (...). Mas quem (na carnificina permanente) exterminará aquele que extermina todos os outros? Ele próprio. É o homem o responsável pela chacina do homem (...). Assim se cumpre (...) a grande lei da destruição violenta dos seres vivos. A Terra inteira, perpetuamente embebida em sangue, nada mais é do que um imenso altar, sobre o qual tudo o que vive tem de ser imolado sem fim, sem medida, sem descanso, até à consumação das coisas, até à extinção do mal, até à morte da morte». (Este cenário faz-nos lembrar a mitologia asteca e o seu canibalismo ritualizado!)
A guerra é divina e, como tal, constitui a lei do mundo. Se quisermos compreender o comportamento humano, devemos abandonar as teorias racionalistas e procurar a sua explicação no domínio irracional. O cálculo racional não ajuda a vencer as guerras, ideia usada recentemente por Bauman para explicar o holocausto, porque a razão não é a grande soberana dos acontecimentos. Contra o racionalismo predominante no seu tempo, embora exibindo tonalidades diferentes mas francamente optimistas, Maistre defende três teses deveras obscurantistas e claramente antidemocráticas:
  1. A única coisa capaz de dominar sempre os homens é o «mistério impenetrável», que Maistre coloca no lugar da razão e do conhecimento emancipador.
  2. A única maneira de obrigar os homens a viverem em sociedade é impedi-los de questionarem: a ignorância é colocada no lugar da educação e da formação cultural.
  3. A única maneira de manter os homens silenciosos e em condições de não-liberdade é através do terror. Maistre é contra qualquer tipo de liberdade. Todo o poder depende do carrasco. Ele é o terror da sociedade humana e o elo que a mantém unida. Estranha e terrível noção de «contrato»! Não admira que Émile Faguet afirmasse que o cristianismo de Maistre era o «cristianismo de terror», colocado ao serviço da monarquia e da autoridade papal, contra a corrente emancipadora da História. Também Miguel Unamuno refere-se ao seu «matadouro», onde os homens se auto-imolam para fundar a sociedade, obedecer ao poder divino do monarca ou do papa e cumprir o seu desígnio divino oculto, ao serviço não deste mundo mas de outro mundo impenetrável.
Curiosamente, talvez por influência de Unamuno, Guerra Junqueiro fala frequentemente de «matadouro» para designar a vida social e política portuguesa. A verdade é que a visão desapaixonada da natureza e do homem de Maistre não pode ser facilmente descartada, embora o seu misticismo obscurantista possa ser anulado: a violência humana é evidente! Em termos contemporâneos, Maistre é um fascista extremamente reaccionário que aconselhava o terror como meio de dominar os homens e mantê-los ignorantes, passivos e submissos. A sua teoria opõe-se frontalmente à democracia e, de certo modo, mais ao menos disfarçada sob formas mais ténues de violência, continua a ameaçá-la de morte. A corrupção é uma versão moderada dessa teoria fascista que, sem recorrer ao terror evidente, cumpre os mesmos objectivos visados pelo poder tal como formulado por Maistre. As forças subterrâneas antidemocráticas ainda estão presentes nas nossas democracias ocidentais. Convém nunca esquecer isso, se não quisermos regressar à idade do Terror!
J Francisco Saraiva de Sousa

sábado, 6 de outubro de 2007

A Cidade Antiga

Fustel de Coulanges

Quando era criança perdia-me frequentemente na selva e todos os cenários de perigo que irrompiam no meu pensamento eram anulados pelo chamamento que me protege desde sempre. Num desses momentos, nomeei o fogo de casa e o nome que inventei era efectivamente o nome do fogo do lar. Esta lembrança infantil conduziu-me mais tarde a Fustel de Coulanges (1830-1889) e à sua extraordinária obra «A Cidade Antiga» (1864).
Numa livraria do Porto, olhei e apenas vi Fustel de Coulanges. Agarrei-o e, desde então, nunca mais o larguei. Planeava escrever um ensaio sobre esta obra, de modo a situá-la no seio da filosofia da história, mas o tempo corre velozmente e os afazeres não me dão tréguas. Mas deixo aqui um sabor do pensamento profundo de Fustel de Coulanges, sem comentários adicionais:
«Esta religião dos mortos parece ter sido a mais antiga entre os homens. Antes de conceber e de adorar Indra ou Zeus, o homem adorou os seus mortos; teve medo deles e dirigiu-lhes preces. Parece ser essa a origem do sentimento religioso. Foi talvez diante da morte que o homem, pela primeira vez, teve a ideia do sobrenatural e quis abarcar mais do que os seus olhos humanos podiam lhe mostrar. A morte foi, pois, o seu primeiro mistério, colocando-o no caminho de outros mistérios. Elevou o seu pensamento do visível para o invisível, do transitório para o eterno, do humano para o divino».
J Francisco Saraiva de Sousa

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Cavaco Silva e a Educação

Dia da República, Dia da Educação
O discurso do Presidente da República, Cavaco Silva, foi simplesmente excepcional, quer pelo tema escolhido (a educação), quer pelo seu conteúdo (crítica da política da educação). Um discurso adequado ao momento que, na linha do profundo pensamento republicano, exige um maior cuidado com a educação.
Cavaco Silva denunciou a concepção da escola como «fábrica de ensino», onde os pais depositam os filhos, exigindo aos professores que cuidem da sua educação, sem se coresponsabilizarem pela sua educação. Esta denúncia situa-se na linha da teoria crítica da educação, bem como da «pedagogia do oprimido» de Paulo Freire ou mesmo da crítica radical da escola de Ivan Illich.
Este discurso presidencial critica frontalmente alguns princípios da actual política da educação: as referências aos pais e ao prestígio dos professores são claramente críticas da política da educação e, de certo modo, da sua representante máxima. Pela primeira vez, escutei um discurso de Cavaco Silva fora do seu habitual âmbito de competência e, ainda por cima, um discurso que rompe com uma abordagem economicista da educação.
A república portuguesa abre-se, com este discurso seminal, à educação e à formação cultural dos portugueses.
J Francisco Saraiva de Sousa

Prós e Contras: Crimes de Colarinho Branco e Segurança

Na próxima segunda-feira, a RTP1 emite mais um programa «Prós e Contras», desta vez dedicado aos crimes e à segurança. Embora ainda não nomeado (sem nome), este programa confronta o ministro da Administração Interna, Rui Pereira, um homem inteligente que já leu Rawls, e o líder do CDS, Paulo Portas, além de contar com a presença de muitos «especialistas», como lhes chama Fátima Campos, e polícias, provavelmente formados na «escola luso-inglesa».
Estranha esta ausência de título! Por isso, como o programa está em aberto, proponho o título bem actual: «Crimes de Colarinho Branco e Segurança», e como questão de base a seguinte: Quem garante a segurança dos portugueses contra os abusos de poder das elites luso-corruptas?
Como a criminologia envereda pela via construtivista social, torna-se necessário reformular os códigos e classificar os diversos abusos de poder, a todos os níveis da luso-sociedade, como crimes, prevendo penas dissuasoras em função da sua gravidade.
Abuso de poder é crime! E, como qualquer outro crime, deve ser punido! Os portugueses devem contar com protecção contra estes abusos de poder que irradiam do próprio Estado, contaminando todo o tecido social, do ensino à economia, passando pelas interacções sociais quotidianas nos locais de trabalho ou mesmo entre «amigos» e familiares. Aliás, os crimes de abuso de poder não precisam do construtivismo social: temos um modelo mais seguro e científico, sem metáfora, o modelo do abuso sexual, assédio sexual e violência sexual.
Mas deixo para mais tarde os comentários mais extensos deste célebre luso-programa da RTP1, dedicado ao «crime contra Portugal»: antes e depois...
J Francisco Saraiva de Sousa

O Fim da História?

Francis Fukuyama e a Teoria da Posthistoire


Lutz Niethammer estudou a surgimento de uma teia impressionante de especulações sobre o fim da história, nas mais altas esferas da intelligentsia europeia em meados do século XX. No campo da posthistoire --- termo francês que só existe em alemão, adoptado por Arnold Gehlen nos anos 50, a partir de uma leitura de Henri de Man ---, discrimina três variantes principais:
  1. a ideia de um encerramento espiritual do repertório de possibilidades heróicas, herdada de Nietzsche;
  2. a visão de uma petrificação da sociedade numa única e vasta máquina ou «jaula de ferro», associada a Max Weber; e
  3. as insinuações de entropia civilizacional, decorrentes de Henry Adams.

No entanto, o foco do estudo de Niethammer situa-se na configuração intelectual localizada na área franco-alemã entre a época da Frente Popular e o Plano Marshall, trazendo à luz as afinidades ocultas (culturais e políticas) no seio de um grupo de teóricos do período que contrastavam sob muitos outros aspectos: Henri de Man, Arnold Gehlen, Bertrand de Jouvenel, Carl Smith, Alexandre Kojève, Ernst Jünger, Henri Lefebvre e, à sua maneira, Walter Benjamin e Theodor Adorno. Conforme diz Niethammer, a posthistoire é o produto inteligível de uma conjuntura política interpretada a partir das categorias de uma tradição filosófica e que rompe com as teorias optimistas da história dos séculos XVIII e XIX, baseadas no Iluminismo. A posthistoire abandona as expectativas originais dessas teorias optimistas, mas retém a «metafísica de uma transfiguração histórica», com sinal invertido: O optimismo do progresso evolutivo ou a vontade colectiva cedeu o lugar a um pessimismo cultural, profundamente elitista, que só viu massificação e ossificação nas democracias ocidentais estabilizadas depois da Segunda Guerra Mundial. O tema do fim da história é visto mais como o fim do significado do que como o fim do mundo, apesar das ameaças concretas e reais da guerra nuclear. A perspectiva de Niethammer é a de um obituário, que sepulta uma doutrina esotérica cujo tempo criativo pertence ao passado.


Todavia, pouco depois da publicação do estudo de Niethammer, Francis Fukuyama publicou, em Julho de 1989, o seu ensaio «The End of History?» em Washington, que retoma a ideia central da posthistoire supostamente sepultada por Niethammer. Segundo Fukuyama, a humanidade atingiu o ponto final da sua evolução ideológica com o triunfo da democracia liberal ocidental sobre todos os seus concorrentes no final do século XX. A figura de Alexandre Kojève, na qual se baseia a sua argumentação, liga Fukuyama ao nexo franco-alemão e, contrariamente ao veredicto de Nietzhammer, esta nova versão do fim da história provém dos gabinetes do próprio Departamento de Estado e o seu tema estrutural é de confiante optimismo. Não admira que Fukuyama privilegie mais a política e a história do que a filosofia e que a fraqueza dos seus conceitos filosóficos se reflicta nas interpretação errónea que faz de muitos acontecimentos mundiais.


Sem pretender analisar esta concepção optimista do fim da história, prefiro acompanhar Perry Anderson e interpretar a tese original de Fukuyama como o fim do socialismo e o triunfo da democracia capitalista liberal, vista como estádio final do processo histórico. Contra este optimismo exagerado, de resto desmentido pelo terrorismo islâmico e pela resistência do Terceiro Mundo em aderir à democracia, culpabilizando o Ocidente por todas as suas desgraças, incentivando racismos locais de sinal invertido e encobrindo a ganância dos seus próprios governantes locais (dialéctica do reconhecimento de Hegel? ou o thymos de Platão?), preferimos galvanizar o poder criativo da imaginação humana e retomar a filosofia da história de Ernst Bloch e a sua utopia concreta, de modo a relançar um novo socialismo ou social-democracia.


O novo socialismo abdica de qualquer tipo de concepção de fim da história e, por isso, não pretende colonizar o futuro e «encerrá-lo»: o futuro permanece sempre aberto. A missão deste pensamento é, em primeiro lugar, zelar pela qualidade da democracia, combatendo a corrupção que a ameaça internamente (políticas contra a corrupção), e as forças obscuras exteriores que encontram internamente «colaboradores», sempre prontos a trabalhar pelo regresso à barbárie (políticas religiosas, étnicas, culturais e civilizacionais). Aliás, apresentar a democracia liberal como termino da história desarma-nos contra o terrorismo islâmico. Este evidencia claramente a noção de que a democracia não é um «dado adquirido e estável», garantido para toda a «eternidade»: a democracia corre perigos e, por isso, deve ser protegida, incentivada e aprofundada.


J Francisco Saraiva de Sousa

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

A Antropologia de Ortega y Gasset

Ortega y Gasset é, provavelmente, o filósofo espanhol mais conhecido mundialmente e, apesar da Espanha ser nossa vizinha e partilhar connosco uma história de lutas e de amores, os portugueses nunca leram seriamente a obra de Ortega y Gasset, que, no seu tempo, soube impor-se através dos meios de comunicação escrita, quando os jornalistas faziam jornalismo sem pretensões intelectuais ilegítimas. E, mesmo quando é mencionado, os portugueses fazem-no por pensar erradamente que o seu pensamento é acessível e de fácil assimilação. No entanto, apesar da linguagem clara de Ortega y Gasset, as análises nacionais mostram-se, tal como sucede com a «apropriação» dos pensadores portugueses, incapazes de compreender a filosofia deste ilustre filósofo espanhol. Esta incapacidade nacional de pensar com conceitos revela o estado da cultura e do ensino nacionais e a razão de ser desta situação desgraçada: o sistema da luso-corrupção que também escolhe e dirige «quem ensina o quê aos portugueses, de modo a que estes continuem atrasados e a-críticos».
«La Rebelión de las Masas», obra que está por detrás da elaboração do conceito de «indústria cultural» (Horkheimer & Adorno), «La deshumanización del Arte» e «Que es Filosofia?» são obras de Ortega y Gasset editadas recentemente em português, relativamente conhecidas, mas raramente lidas e bem compreendidas. As elites nacionais falam muito da política da leitura e da necessidade da leitura, acusando os portugueses, entenda-se a ralé, de não terem hábitos de leitura, mas a verdade é que o mau exemplo parte delas: se elas lessem, compreendessem e ensinassem, os portugueses seriam mais cultivados e, depressa, compreenderiam que o que está mal em Portugal e que bloqueia o seu desenvolvimento são precisamente as elites organizadas em máfias envolvidas na teia da luso-corrupção que engorda à custa da esmagadora maioria dos portugueses.
Até aqui o meu discurso tem sido muito democrático e este tom democrático parece não estar em consonância com o estilo aristocrático de Ortega y Gasset. De facto, politicamente falando, pertencemos a «famílias» políticas muito diferentes, mas, apesar de reconhecer e criticar o conservadorismo de Ortega y Gasset, admiro a sua obra, com a qual entrei em contacto, na sua própria língua, desde praticamente bebé, como costumo dizer quando desejo destacar a minha «autoridade biológica». Ao ler Ortega y Gasset devemos ter esse cuidado: analisar as suas teses filosóficas à luz dos seus potenciais efeitos ideológicos e políticos e «apropriarmo-nos» dos conceitos filosófica e cientificamente relevantes, transformando-os em conceitos mais democráticos e descontaminados de conservadorismo.
Ora, um conjunto desses conceitos pertinentes encontra-se numa obra relativamente ignorada ou, pelo menos, silenciada de Ortega y Gasset: «Hombre y la Gente» (2 volumes na edição espanhola que possuo/Revista de Occidente).
«Hombre y la Gente» é uma obra de antropologia filosófica elaborada contra as ciências sociais e humanas, nomeadamente a sociologia e a linguística. A antropologia de Ortega y Gasset é essencialmente «sociológica», ou melhor, expõe uma teoria da sociedade mediada linguisticamente. Esta formulação é intencionalmente provocante, mas capta efectivamente a originalidade de Ortega y Gasset que reivindica «una nueva linguística»:
«Resulta, pues, vivimos, desde que vemos la luz, sumergidos en un océano de usos, que estos son la primera y más fuerte realidad con que nos encontramos: son sensu stricto nuestro contorno o mundo social, son la sociedad en que vivimos. Al través de ese mundo social o de usos, vemos el mundo de los hombres y de las cosas, vemos el Universo».
A partir daqui Ortega y Gasset elabora uma teoria que sabe traçar as linhas de demarcação entre as suas teses e as defendidas por outros, abrindo as portas à teoria da comunicação, enraizada no «decir de la gente» (opinião pública). De certo modo, esta obra procura fundamentar o seu pensamento político, exposto na obra «La Rebelión de las Masas». Mas onde fica o seu conservadorismo? A releitura permite neutralizá-lo, aliás já o neutralizámos quando responsabilizámos as pseudo-elites nacionais pelo estado de ofuscamento e de miséria nacionais, e com a ajuda de Ortega y Gasset:
«Conviene que el intelectual no crea demasiado en sí mismo. Después de todo, lo más bello que hay en la inteligencia, lo que la distingue de otras calidades más toscas --- como la belleza física, la fuerza, la nobleza genealógica o el dinero ---, es que siempre es problemática. (...) El hombre inteligente ve constantemente a sus pies abierto e insondable el abismo de la estulticia. Por eso es inteligente: lo ve y retiene su pie cautelosamente».
J Francisco Saraiva de Sousa

A Intencionalidade do Luso-Mal

«Os refractários eliminam-se. Ou aplaudir e ser cúmplice, ou protestar e ser vítima» (Guerra Junqueiro).

Sem querer entrar na polémica sobre a maldade humana e tomar partido ou pela tese do mal radical (Kant) ou pela tese da banalidade do mal (Arendt), pretendo apenas lançar o conceito de intencionalidade da maldade, para o qual posso fornecer evidência empírica.
Em Portugal, existem pessoas que prejudicam intencionalmente outras pessoas e, em muitos casos, estes comportamentos maldosos podem matar em vida as «vítimas» ou os «cadáveres vivos», no sentido de Arendt, por vezes induzindo o suicídio nas suas vítimas. Aliás, as pseudo-elites nacionais conhecem bem este tipo de maldade diabólica. Este procedimento de prejudicar o próximo, isolando-o, é sistematicamente utilizado quando alguém, julgando que tem poder, liquida aqueles cuja mera existência o ameaça, com a cumplicidade dos seus pares ou «subalternos». A luso-maldade é, pois, altamente organizada e está alojada em todos os centros nacionais de decisão, funcionando em rede, tal como os grupos terroristas islâmicos.
As acções intencionalmente maldosas estão, pois, presentes em todas as arenas da sociedade portuguesa, incluindo aquela que aparentemente mais condena a maldade, a Igreja Católica. Clientelismo, cunhismo, compadrio político, duplas-lealdades, distorção da lei e dos concursos públicos ou privados, perseguições, escutas imorais, calúnias, direitos quase hereditários, desprezo pelo chamado «povo», luvas, enfim, corrupção, corrupção e mais corrupção: tudo isto é prática diária das luso-máfias, não as da droga ou da prostituição, mas as do poder.
Guerra Junqueiro já tinha alertado para este facto, ou melhor, para esta desgraça nacional: A luso-sociedade «é a sociedade organizada para o mal. Os refractários eliminam-se. Ou aplaudir e ser cúmplice, ou protestar e ser vítima». O povo português é um «povo que deixa prostituir a consciência», submetendo-se e sujeitando-se às «mentiras» e às práticas das pseudo-elites, cuja filosofia de vida é «a filosofia do porco: devorar». Eles devoram tudo, sobretudos os empregos bem remunerados e, não satisfeitos com um, açambarcam vários, privados e públicos, de modo a negar o futuro a Portugal.
Muito recentemente tomei consciência de que a análise dos judeus nos campos de concentração realizada por Hannah Arendt pode ser aplicada ao estudo da homofobia (Weinberg) ou do preconceito sexual (Herek). De facto, o heterosexismo é um regime de terror total e, como mortificação dos não-heterossexuais, mata a pessoa jurídica, a pessoa moral e a pessoa psicológica. Uma morte permanente em vida, levada a cabo em nome de princípios cristãos, como se a Bíblia contivesse conceitos transculturais. Aliás, as pseudo-elites simpatizam com as «Obras de Deus» e, quando assumem cargos públicos, servem dois deuses, ambos pagãos, a Cúpula eclesial e o Estado, ou melhor, mais a primeira do que o segundo.
Basta pensar que os não-heterossexuais são sexualmente abusados na infância e vida adulta, são maltratados e negligenciados pela família, vizinhos e colegas de escola, são alvos de violência doméstica e de despedimento... e nada acontece no país. A democracia e o Estado não os apoiam: as instituições tratam-nos como se fossem «pessoas sem pessoalidade» e interpelam-nos como se fossem heterossexuais. Muitos pseudo-heterossexuais homofóbicos são cúmplices neste processo de mortificação em vida dos não-heterossexuais, embora tenham casos nas estações de serviço ou noutros lugares do género. Contudo, alguns sectores do luso-poder falam muito de exclusão e de inclusão sociais, mas, face à realidade, essa conversa é hipócrita e visa mais iludir do que resolver as realidades correspondentes aos conceitos. Isto é claramente terrorismo ideológico.
Paradoxalmente as «vítimas» deveriam estar agressivas e exibir essa agressividade, como mostram os neuro-estudos de exclusão social, mas, em vez disso, estão resignadas e deprimidas, continuando a frequentar os lugares escuros em busca compulsiva de parceiros sexuais. Nestes lugares reais e/ou virtuais, os opressores confraternizam com os oprimidos sexuais. Afinal, todos são não-heterossexuais, uns mais avançados do que outros no processo de coming out. Até os paladinos da direita conservadora ou liberal, tão arrogantes e elitistas nos discursos públicos, confraternizam com a chamada escória popular!
Portugal é assim: infinitamente cinzento e falso, infinitamente medíocre e invejoso, infinitamente corrupto e maldoso. E, como seria de esperar, todos aqueles que dizem defender a «vida humana» como um valor supremo (ideia terrível) são também aqueles que praticam mais atentados contra a dignidade da vida de pessoas cujo único anseio é mudar Portugal. Esta teia mafiosa governa Portugal, mesmo na oposição!

J Francisco Saraiva de Sousa

SIC Ficções

A SIC e a SIC Notícias não existem! Simplesmente não existem! É tudo ficção! Masturbação, mais masturbação, masturbação infinita! Notícias são ficções! Comentários são ficções onanistas! Jornalistas são ficções fantasmagóricas! Balsemão é uma terrível ficção! O PSD é outra ficção perdida num mundo de ficções quiméricas! Pacheco Pereira é ficção! E, o pior, é que a masturbação destes amigos da ficção é também ficção! Até a leitura que fazem dos comentários dos ingleses sobre o caso Maddie é ficção da ficção, porque o caso é ficção! A polícia é ficção!
Portugal não existe: é a maior das ficções! Marcelo é ficção! Paulo Portas é ficção! Soares é ficção perdida na história-ficção! Cavaco é ficção! As luso-personagens são todas elas ficções copiadas sem originalidade de um filme de terror! Maldito país de quimeras! Isto não tem solução, porque até as soluções são ficções! Os diplomas são ficções! Os títulos são ficções! Os cargos são ficções! O trabalho é ficção! A cultura é ficção! A economia é ficção! A educação é ficção! Os tribunais são ficções! Tudo é ficção! Não há absolutamente nada fora e para além da ficção! A blogosfera é ficção!

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Pascal e o Pavor pelos Espaços Infinitos

«Quando medito na pequena duração da minha vida, absorvida na eternidade que precede e na que segue, o pequeno espaço que preencho e mesmo que vejo, abismado na infinita imensidão dos espaços que ignoro e que me ignoram, assusto-me e admiro-me de me ver aqui, e não ali, pois não há razão nenhuma para estar aqui, e não ali. Porquê no presente, e não noutro tempo? Quem me pôs aqui? Por ordem e acção de quem este lugar e este tempo me foram destinados, a mim? Memoria hospiti unius diei praetereuntis (Lembrança de um hóspede de um dia que passa. Sabedoria)».
«O silêncio eterno destes espaços infinitos apavora-me».
«Apenas vejo infinidades de todos os lados, que me envolvem como um átomo e como uma sombra que dura apenas um instante e nunca mais volta. Tudo quanto sei é que em breve devo morrer, mas o que mais ignoro é esta morte que não poderei evitar».
Estas palavras de Pascal, tão existenciais, tiveram um enorme impacto sobre a filosofia de Heidegger, que viu no homem (Dasein) um «ser-para-a-morte» e na morte certa um estímulo para sair do mundo da tagarelice e adoptar um modo de vida autêntico.
Pena é que muitos portugueses não se apercebam que a morte como acontecimento certo constitui um convite para levar uma vida mais serena e mais autêntica, longe das intrigas e das tagarelices quotidianas, que afastam os homens da sua verdadeira tarefa neste mundo: viver num mundo comum que nos antecede e que continuará a existir mesmo depois de morrermos.
J Francisco Saraiva de Sousa

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Luís Filipe Menezes

Muitos estranham o meu silêncio em relação às eleições no PSD e à vitória de Luís Filipe Menezes.
Devo dizer que não sou bisbilhoteiro e «vulgar». Respeito as opiniões dos outros e já li boas análises feitas por bloggers, mas considero que Menezes não é pior ou melhor do que os outros. Tem feito bom trabalho à frente da Câmara Municipal de Gaia e apoia sempre o S. João do Porto. Espero que resista ao populismo e que saiba fazer oposição construtiva.
É evidente que o PSD precisa de uma limpeza interna profunda e de repensar a sua ideologia política: ou é PPD ou é PSD e, neste último caso, não vejo como se possa diferenciar do PS. De facto, os ditos partidos da Direita portuguesa debatem-se com uma dualidade interna (CDS/PP, PSD/PPD), o que parece indicar uma estratégia oportunista de mera conquista do poder: «vale tudo», mesmo a ambiguidade ideológica... No fundo, a sua ideologia é o populismo usado para conquistar o poder. A clarificação é necessária no jogo político português.
J Francisco Saraiva de Sousa

Anexo: O Caso da Esmeralda

O meu comentário sobre o programa «Prós e Contras» de hoje foi intencionalmente feito muitíssimo antes de ouvir o debate.
Previsivelmente, o debate não trouxe nada de novo: as posições dos intervenientes eram previamente conhecidas ou, pelo menos, previsíveis, em função da categoria profissional exibida por cada um e, também este aspecto, foi tratado com muita ironia no nosso post anterior. Tudo isto é demasiado previsível e o luso-sistema funciona sempre igual a si mesmo, obedecendo a poucas regras que podem ser e já foram enunciadas em posts anteriores. É um sistema ultra-fechado e rígido e, por isso, demasiado previsível.
Esta rigidez quase eleática ficou bem patente nas intervenções dos juízes, cujo entendimento das leis é, no mínimo, bizantina, para não dizer absolutamente contrária ao espírito democrático. E, no que se refere à reforma do sistema judicial e à cultura jurídica, não podemos ser tolerantes: é uma reforma urgente que deve ser levada a cabo, mesmo contra os seus altos funcionários, que recusam debater assuntos de justiça com os cidadãos, como se fossem detentores de um tipo de conhecimento de justiça inacessível ao comum dos mortais e para além do discernimento da filosofia e da ciência. Não sei que teorias do direito frequentam, mas suspeito que se inspirem nalgum tipo de «positivismo» islâmico. Espero que os bons juristas portugueses façam ouvir as suas vozes mais vezes e contribuam para a mudança qualitativa do sistema jurídico português. Que o caso da Esmeralda condenada a ser o tubo de ensaio desta experiência ilumine, pelo menos, as mentes esclarecidas, levando-as a protagonizar a necessidade substancial e urgente de reformas que impossibilitem que casos como este voltem a acontecer!
De resto, houve vacilações entre os outros participantes, com uns mais empenhados do que outros ou talvez mais honestos do que outros, mas, apesar disso, a vontade de participar manifestada pela sociedade civil deve ser fortemente elogiada, incentivada e apoiada.
Uma observação final: os portugueses costumam recorrer a «argumentos de autoridade», exibindo títulos ou anos de serviço e de experiência (negligencio a nova retórica de Perelman, pensando nela), para aumentar a eficácia da sua argumentação. É um direito que lhes assiste, mas, contra essa estratégia argumentativa, uso outro argumento, a que chamarei «argumento de autoridade biológica»: «Sou inteligente e doutor desde bebé!» Com isto pretendo ridicularizar o próprio adversário. De facto, quem precisa de 20 ou 30 anos de experiência para merecer a nossa confiança foi certamente abandonado por Deus, que se esqueceu de lhes insuflar as arquitecturas neurais da inteligência!
J Francisco Saraiva de Sousa

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Prós e Contras: Quem decide pelos mais pequenos?

A agenda do programa «Prós e Contras» de hoje (1 de Outubro de 2007), dedicado ao tema «Quem decide pelos mais pequenos?», é a seguinte:
«O valor da criança!
A família!
Os Afectos!
O veredicto do tribunal e as opiniões dos especialistas da saúde!
Quem decide pelas crianças?
Quem decide pela pequena Esmeralda?»
Os convidados são: Maria Barroso, Eduardo Sá, António Martins. Carla Oliveira, Rosário Carneiro e Leonor Beleza.
A formatação deste programa irá, como veremos logo à noite, condicionar fortemente o espaço de discussão, deformando-o, e a escolha de convidados cujas opiniões são sobejamente conhecidas promete pouca novidade.
O programa gira em torno do caso da pequena Esmeralda, cuja vida foi devassada pelos mass media e pelos tribunais. É evidente que um tal terramoto não traz grandes benefícios para o seu desenvolvimento emocional e cognitivo e, neste aspecto, parecem estar todos de acordo, excepto o tribunal que deu a custodia ao pai biológico, quando este, segundo depoimento da mãe biológica, tinha rejeitado a paternidade (negligência paternal evidente) e todos os portugueses se manifestaram contra a decisão dos tribunais, no uso pleno dos seus direitos de cidadania que lhes garantem a participação activa nos «assuntos públicos».
Uma criança que tinha sido rejeitada pelo pai biológico ainda antes de nascer e que foi acolhida por um casal que a tratou com afecto genuíno e amor nunca teria sido submetida a todo este processo vergonhoso, se os tribunais e a segurança social, em particular os seus funcionários, tivessem algum bom senso e experiência humana rica. Mas os tribunais e seus altos funcionários foram insensíveis a tudo isto e, sobretudo, à humanidade da criança e decidiram de modo autoritário e inumano: decidiram dificultar a vida da pequena Esmeralda, bem inserida no seio da sua família, que, para ela, não era uma «família de adopção» (ponto de vista externo e burocrático), mas simplesmente os seus pais afectivos verdadeiros e restantes familiares.
Os pedopsiquiatras e restantes «especialistas da saúde» (sic), se estiverem bem informados, concordam com esta opinião, segundo a qual os tribunais decidiram sem levar em conta os interesses reais da criança, tratando-a como uma «coisa» (reificação jurídica) que transita de uma família para outra estranha, em função da interpretação insensível e autoritária que os juízes fazem das leis. Se o direito é uma «questão hermenêutica» (Ronald Dworkin), eles limitaram-se a uma leitura restritiva e autoritária das leis, levada a cabo fora do universo social em que estão inseridas, ou seja, abusaram do seu poder que carece de legitimidade democrática e, movidos pela lógica totalitária do processo, brilhantemente criticada por Hannah Arendt, trataram a criança, um mero mortal, como uma coisa, algo simplesmente material que podem usar a seu bel prazer, sem ter em conta a sua afectividade e seus interesses reais como sujeito. E, neste procedimento kafkiano, sobrepuseram-se a outras instituições sociais veneráveis, tais como a família, cuja vida privada deveria ser passada longe da esfera pública, porquanto a vida familiar e doméstica não constitui parte integrante da esfera pública e, actualmente, talvez devido à perda de outros sistemas de decisão e de controle, o Estado sente uma enorme tentação em invadir a esfera privada dos seus cidadãos, roubando-lhes os direitos de gerir a sua própria vida.
Assistimos, portanto, à recaptura política da vida privada e doméstica. Se vivessemos num sistema verdadeiramente democrático, em que o poder emana do povo, os tribunais não teriam o direito de não acatar o bom senso popular, representado por ilustres cidadãos, especialistas ou não em pedopsiquiatria, porque a «natalidade» e os cuidados com as crianças antes de serem um assunto médico constituem um assunto das famílias, nomeadamente dos pais que, segundo a teoria da vinculação de John Bowlby, de resto reconfirmada por estudos de neurociência social (Insel, Carter), são dotados dos programas biológicos necessários para cuidar das suas crianças sem precisar da ajuda burocrática, portanto exterior e invasora, de estranhos. Esmeralda está sujeita a perder a protecção do seu lar e é provável que tema, neste momento, ser separada dos seus pais amados (ansiedade de separação).
Acha que vale a pena ver o programa logo à noite? Aconselho-o antes a fazer um uso produtivo do seu tempo: leia John Bowlby (psiquiatria infantil), Ronald Dworkin (filosofia do direito) e Hannah Arendt (filosofia política) e contribua activamente para a sua formação, sem ficar dependente de opiniões de outros, de resto pouco credíveis, como já sabe!
J Francisco Saraiva de Sousa

domingo, 30 de setembro de 2007

O Génio de Karl Marx

Contra a intelectualidade medíocre dos nossos dias, é preciso reler Marx como pensador radical da Modernidade e relançá-lo nas lutas contra os novos obscurantismos. No «Manifesto do Partido Comunista» encontramos esta ideia magnífica: «Tudo o que é sólido se dissolve no ar». Esta ideia encontra-se inserida nesta frase:
«O que distingue a época burguesa de todas as precedentes é a alteração incessante da produção, o derrubamento contínuo de todas as instituições sociais, em suma, a permanência da instabilidade e do movimento. Todas as relações sociais imobilizadas na tradição, com o seu cotejo de concepções e de ideias, fixas e veneráveis, se dissolvem; aquelas que as substituem caducam antes mesmo de cristalizarem. Tudo o que tinha solidez e perdurabilidade esvai-se em fumo, tudo o que era sagrado é profanado e os homens são forçados, finalmente, a encarar com olhos desiludidos as suas condições de existência e as suas relações mútuas».
Hannah Arendt leu e estudou bem as obras de Karl Marx e, no seu confronto corajoso com este pensamento superior, acabou por integrar os conceitos de Marx, que relidos, no espaço liberto da terrível experiência comunista ou mesmo da social-democracia reformista, podem voltar a adquirir uma nova vida, capaz de desafiar a ausência de pensamento e iluminar esta sociedade metabólica criticada por Arendt como decorrência natural do marxismo. Mas devemos ir mais longe e retomar a tradição que, na perspectiva de Arendt, termina com Marx. Só assim podemos continuar a zelar pelo passado, presente e futuro da Civilização Ocidental.
J Francisco Saraiva de Sousa