terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Prós e Contras: O Tratado de Lisboa

O debate de hoje (10 de Dezembro de 2007) centrou-se na discussão do Tratado de Lisboa, embora na primeira parte tenha tratado da Cimeira UE/África. Por isso, trataremos estes dois assuntos separadamente.
Cimeira UE/África. Pacheco Pereira protagonizou a oposição, muito mais à esquerda do que Miguel Portas, dado ter recorrido a argumentos de cariz marcadamente neocolonial. E, nesse aspecto, não foram acompanhados pelos dois africanos presentes, um de Cabo Verde, outro de Guiné-Bissau.
A Cimeira foi inegavelmente um sucesso, não pelos seus resultados económicos imediatos, mas pelo facto de ter aberto uma porta de diálogo fechada desde o fracasso da Cimeira de Cairo. Embora o secretário-de-Estado tenha minimizado a concorrência com a China, a UE deve estar mais atenta aos países africanos e ajudá-los tanto quanto possível, mostrando-lhes a necessidade de garantir os chamados Direitos Humanos e de caminhar rumo a uma sociedade mais aberta, transparente e democrática. Mas, como temos dito, as burocracias europeias também não são democráticas, não respeitam (alguns) direitos humanos básicos no seio da própria Europa e são inimigas da política digna. Elas são profundamente corruptas, tal como as "elites" africanas que criticam internamente, mas com as quais fazem "negócios". A corrupção é efectivamente o maior mal social do mundo contemporâneo.
O desenvolvimento das diversas regiões do mundo é necessariamente desigual: esta foi uma das "leis" definidas por Lenine e, conforme a história tem demonstrado, muito difícil de ser contrariada. Os participantes africanos perceberam muito bem isso e, por isso, mostraram-se mais satisfeitos com os resultados da Cimeira que os ilustres opositores portugueses. Portugal desempenha um papel privilegiado nessa ligação e cabe-lhe desenvolver essas relações sobretudo com os países lusófonos. Os africanos devem responsabilizar os seus lideres pela sua situação de penúria, esquecer o colonialismo e negociar de igual para igual, pelo menos no plano formal, com os europeus as suas vias de desenvolvimento.
Tratado de Lisboa. Pacheco Pereira tem razão ao denunciar a falta de debate em torno do Tratado de Lisboa, mas, conforme disse o secretário-de-Estado, não cabe ao governo forçar a sociedade civil a realizar esse debate extenso.
A verdade é que, com excepção do Partido Comunista e do Bloco de Esquerda, todos estão de acordo ou dizem estar de acordo e, por isso, em vez de debate, há unanimidade. Falsa, como afirma Pacheco Pereira? Mas outro facto evidente é que ninguém deseja ver Portugal fora da União Europeia ou da zona Euro.
Contudo, neste debate, estou mais do lado de Pacheco Pereira ou de Miguel Portas do que do lado do eurodeputado Sérgio Sousa, cujo discurso foi excessivamente retórico e afirmativo, para merecer o consentimento do espírito crítico. Sou um defensor da Europa Unida, idealmente federalista, mas, levando em conta o nosso passado de guerras sucessivas, convém ser prudente e caminhar mais devagar, sem excluir a participação dos europeus dos 27 países que a compõem. Ora, a ideia da Europa tem sofrido modificações ao longo dos anos e a queda do Muro de Berlim, como tenho dito diversas vezes, modificou substancialmente a situação, não por ter trazido de volta os "interesses", como disse Pacheco Pereira, porque estes sempre estiveram presentes, mas porque as novas classes dirigentes auto-constituíram-se antidemocraticamente como elites, altamente burocráticas, tecnocráticas e antidemocráticas, que tomaram conta dos poderes nacionais e europeus. Isto pode significar que o projecto europeu está a ser construído sem a participação democrática dos europeus. É certo que, como diz o secretário-de-Estado, os documentos estão acessíveis online, mas o Tratado é de tal modo pouco transparente que não convida à leitura. Os eurocratas conseguiram converter o "povo" numa manada movida apenas pelo desejo de pastar. A passividade doméstica dos europeus é um dos sinais de alerta de que a democracia está a ser subvertida pelas novas classes dirigentes.
Esta é a verdade: a democracia está a ceder o seu lugar à oligarquia cleptocrática. Os burocratas e os eurocratas funcionam como "elites de vanguarda", o que nos faz lembrar a era estalinista, como se eles fossem os depositários de soluções milagrosas indiscutíveis! Ora, o que eles defendem são os seus próprios "interesses de classe" e não é por mero acaso que o Banco Europeu concentre no Tratado mais poder do que o Tesouro Americano. Só o futuro dirá se este Tratado será capaz de garantir a unidade da Europa ou se será o seu "couveiro", ideia mais em consonância com o pensamento de Pacheco Pereira.
A hierarquização das nações da Europa é uma ideia pouco democrática e, numa Europa Democrática, não faz sentido alimentar as ilusões de grandeza de uma França, a eterna derrotada, de uma Inglaterra, a eterna candidata a potência mundial, de uma Alemanha Reunificada, a eterna autoridade, ou de uma Itália, a eterna pátria da histeria colectiva. A política europeia de alargamento foi demasiado precipitada e a sua intervenção militar na ex-Jugoslávia simplesmente um desastre. Porque as novas classes dirigentes são profundamente incultas, destituídas de "sentido do passado" e de "visão do futuro". A geração grisalha age como se fosse a última geração da Europa ou do Mundo: o envelhecimento da população europeia é o maior inimigo biológico e social da Europa e poderá ser efectivamente o seu couveiro. Pense nas figuras públicas nacionais nos últimos 30 anos: são sempre as mesmas figuras! E sabe porquê? Porque elas apoderaram-se do Estado e gerem os bens públicos como se fossem sua propriedade privada. A sua velhice é a mesma que a da corrupção, da qual são o rosto. E a sua "cultura" espelha-se no "hino" que irá acompanhar a assinatura do Tratado de Lisboa!
Esta geração grisalha sacrifica tudo para conservar a sua passagem pela vida num estado de felicidade egoísta. Mas a paz é uma ideia de pouca duração e, a menos que se crie um inimigo externo que alimente a unidade europeia, a Guerra terá sempre a última palavra. Sempre foi assim e assim será também num futuro mais próximo do que se imagina! Aliás, a guerra renova a vida e a Europa precisa de renovar a sua população. Apesar disso, desejo que este Tratado não venha a ser um terramoto, como o de Lisboa.
J Francisco Saraiva de Sousa

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Hipótese do Cérebro Social

Quando se pretende dizer que o homem é um animal social, recorre-se geralmente à célebre frase de Aristóteles: «O homem é, por natureza, um ser vivo político», porque «só o homem, de entre todos os seres vivos, possui a palavra» (Política). É certo que esta frase tem sido muito mal compreendida, até porque a segunda parte que justifica, isto é, fornece a razão de ser de uma tal «natureza» excepcional do homem, foi quase sempre omitida, mas, apesar disso, a mera referência a Aristóteles permite-nos compreender e demolir a estratégia anexionista das chamadas ciências sociais e humanas: apropriaram-se indevidamente de território que pertence à Filosofia, vulgarizaram-no e não acrescentaram mais-valia de conhecimentos relevantes. São, como diria Althusser, disciplinas «sem objecto», ou seja, meras técnicas de adaptação social que ajudaram a construir o actual estado de burocratização, precisamente o inimigo do pensamento crítico.
Diante deste estado de apatia cognitiva, a Filosofia deve reconquistar o seu território, expulsar os invasores e procurar dialogar com as verdadeiras ciências. E, no domínio do "social", uma dessas ciências é a neurociência social. Embora não pretenda apresentar esta neurociência relativamente recente, o que farei provavelmente no meu blogue NeuroFilosofia, apenas quero destacar a hipótese do cérebro social (ou hipótese da inteligência maquiavélica) que a Filosofia deve «acarinhar» e ajudar a elaborar, «relendo-a» na sua própria história, de modo a clarificar os seus conceitos, bem como as suas metodologias.
O cérebro dos primatas, sobretudo o do homem, beneficiou muito da própria estrutura social primata e dos seus traços específicos, e o seu tamanho e a sua complexidade reflectem a complexidade dessa organização social. As neurociências já destacaram algumas estruturas neurais que desempenham um papel fundamental na orientação dos comportamentos sociais: a amígdala, o córtex frontal ventromedial e os córtices somato-sensoriais. Muito sumariamente podemos dizer: a amígdala desempenha um papel chave nos julgamentos ou juízos sociais das faces, o córtex pré-frontal ventromedial desempenha o papel chave nos raciocínios sociais e na tomada de decisões, levando em conta as experiências emocionais, como mostrou António Damásio, e os córtices somato-sensoriais desempenham o seu papel na empatia.
Este conjunto de habilidades pode ser integrado na cognição social. De facto, a neurociência cognitiva estuda como as habilidades cognitivas sociais se desenvolvem ao longo da infância e quais os factores genéricos que as influenciam. E é neste domínio da cognição social que a Filosofia deve dar o seu maior contributo, aderindo às novas tecnologias e às novas metodologias, podendo brilhar na elucidação do modo como nós representamos as mentes dos outros (Theories of Mind).
Anexo: A Filosofia deve distanciar-se das Faculdades de Letras e das Ciências Sociais e ser integrada nas Faculdades de Ciências e/ou de Matemática.
As alternativas profissionais que os cursos de Filosofia oferecem, nomeadamente relações públicas, são tarefas para ser executadas por escravos e não por filósofos. Os professores universitários portugueses de Filosofia revelam nestas propostas a sua imbecilidade congénita. O seu lugar não é na academia, mas num hospício para atrasados mentais, que, sem competências, se apoderaram por métodos escusos de empregos garantidos e sem real avaliação. As Tias-do-Chá e os Pandas devem ser denunciados e humilhados publicamente, pelo lixo dos seus trabalhos publicados, pela falta de qualidade das suas aulas, meras projecções da sua substância protoplasmática diabolizada, e pela incompetência manifestada pelos seus licenciados, mestres e doutores. Mais: os seus crimes, bem como as suas ligações corruptas a outras instituições obscuras, devem tornar-se públicos e alvo de punições disciplinares.
E, para evitar que a Filosofia seja seguida pelos mais néscios dos alunos, torna-se necessário obrigá-los a estudar matemática e ciências, com domínio pleno da estatística e de outros métodos quantitativos. Platão não estudava "porcaria", mas matemática. Por isso, é muito estranho que se ensine Platão sem se saber matemática! Estou certo que não será este governo a levar a cabo estas reformas estruturais do ensino, mas a denúncia fica feita neste país que nega o futuro desafogado, devido à mediocridade das suas elites incultas mas diabólicas. (O mesmo poderia ser dito de outros cursos. Mas coube-me aqui salvar a honra da minha dama: a Filosofia.)
J Francisco Saraiva de Sousa

domingo, 9 de dezembro de 2007

Ciúme, Género e 2D:4D Digit Ratio

Justin H. Park, Martijn B. Wieling, Abraham P. Buunk and Karlijn Massar (2007) estudaram a relação entre digit ratio e o ciúme romântico. Sabemos que as mulheres são mais ciumentas do que os homens e, neste estudo, os autores mostraram que os homens com padrões femininos de digit ratio são mais ciumentos do que os homens com padrões masculinos normais de digit ratio, o que mostra o papel (organizacional) desempenhado pela testosterona pré-natal na diferenciação sexual do cérebro. (Convém dizer que a diferenciação sexual do cérebro não está somente sob controle hormonal. Diversos estudos recentes mostram claramente a existência de um mecanismo genético que parece comandar a diferenciação celular muito antes da testosterona ser libertada pelos testículos fetais.)
O a
bstract da sua pesquisa é este:
«The ratio of index finger length to ring finger length (2D:4D) is an index of prenatal androgen exposure. In a study with 71 female and 52 male undergraduate students, we assessed the relationship between 2D:4D and jealousy with respect to various dimensions of rival characteristics. Following the presentation of a jealousy-evoking scenario, participants rated the extent to which they would feel jealous if the rival possessed various characteristics (some which have been found to be more jealousy evoking for men, others which have been found to be more jealousy evoking for women). Men with higher, more feminine 2D:4D reacted more jealously toward more socially dominant rivals. Women with lower, more masculine 2D:4D reacted more jealously toward more physically attractive rivals. These results show that the level of prenatal testosterone affects which rival characteristics elicit the highest level of jealousy, which are different for men and women».
J Francisco Saraiva de Sousa

Internet Sex Addiction

Este post recolhe alguma informação colhida de um outro post já publicado no meu blogue «CyberPhilosophy», com algumas alterações, com o objectivo de clarificar as novas adições tecnológicas. (É evidente que os dados da nossa pesquisa foram substancialmente omitidos.)
Os resultados da nossa cyberpesquisa mostraram que os frequentadores de "chat rooms" ou de sites pornográficos da Internet, estão, uns mais que outros, viciados, ou melhor, desenvolveram uma forte dependência sexual da Internet. Este conceito implica a sobreposição de duas dependências: a dependência sexual e a dependência da Internet, cuja relação é extremamente complexa, embora os nossos resultados de campo tenham revelado que aqueles indivíduos que já eram viciados em sexo começaram a recorrer aos serviços da Internet para alargar o seu espaço de conquista sexual. Portanto, a adição sexual era anterior à adição da Internet.
Com poucas excepções, provavelmente daqueles utentes mais novos já criados na era da Internet, a dependência sexual facilita e reforça a dependência sexual da Internet: quer dizer que os utentes com determinados tipos de perturbações de comportamento, tais como a compulsividade sexual e fraco auto-controle, estão logo à partida mais predispostos para a dependência sexual da Internet, embora a utilização e a frequência de canais seja, só por si, capaz de criar dependência, induzindo provavelmente o desenvolvimento de uma sindrome aditiva, talvez devido à depressão e outros factores associados.
As adições tecnológicas são adições não-químicas, portanto, comportamentais, que envolvem uma interacção excessiva entre homem e máquina. Podem ser passivas (televisão) ou activas ("computer games") e, geralmente, contêm características indutoras e reforçadoras que podem promover as tendências aditivas (Griffiths, 1995). Incluem também muitas componentes da adição, tais como "salience", "mood modification", "tolerance", "withdrawal", "conflict" e "relapse" (Griffiths, 1996). O comportamento de uso da Internet que obedeça a estes critérios pode ser operacionalmente definido como adição.
· A salience ocorre quando o Internet sex se torna a mais importante actividade na vida de uma pessoa e domina os seus pensamentos (preocupações e distorções cognitivas), sentimentos (craving) e comportamentos (deterioração do comportamento social).
· A modificação de humor refere-se às experiências subjectivas que as pessoas relatam como uma consequência do envolvimento em Internet sex e pode ser vista como uma coping strategy.
· A tolerância é o processo pelo qual quantidades crescentes de Internet sex são exigidas para atingir os efeitos de modificação de humor desejados.
· Os sintomas de withdrawal (abstinência) são os estados de sentimentos desagradáveis e/ou os efeitos físicos que ocorrem quando o Internet sex é descontínuo (interrompido) ou subitamente reduzido.
· O conflito refere-se aos conflitos entre o utente da Internet e aqueles que o rodeiam (conflito interpessoal), conflitos com outras actividades (emprego, vida social, hobbies e interesses) ou conflitos interiores (conflito intrapsíquico e/ou sentimento de perda de controle), os quais estão relacionados com o dispêndio de muito tempo no Internet sex.
· A reincidência ou recidiva é a tendência para repetir novamente padrões de Internet sex, após vários anos ou meses de abstinência ou controle, restaurando-os e provavelmente em doses excessivas.
Young (1999) considera que a Internet addiction pode ser melhor categorizada por cinco subtipos específicos:
· Adição cibersexual (cybersexual addiction), envolvendo tipicamente o uso compulsivo de websites adultos para cibersexo e ciberporn.
· Cyber-relationship addiction, envolvendo tipicamente o sobre-envolvimento em relações online. Esta adição parece ser mais frequente entre homens heterossexuais do que entre homens homossexuais e bissexuais, talvez porque estes últimos são sexualmente mais promíscuos do que os primeiros.
· Net compulsions, envolvendo tipicamente actividades obsessiva/compulsivas, tais como online gambling, shopping, day-trading, etc. Os jovens são mais propensos às compulsões do tipo "online gambling".
· Information overload, envolvendo tipicamente navegação compulsiva na web ou pesquisa de database.
· Computer addiction, envolvendo tipicamente obsessive computer game playing on games, tais como Doom, Myst, Solitaire, etc.
Destas categorias de adição da Internet, apenas a adição cibersexual e a adição de relações online são adições sexuais.
Existem efectivamente indivíduos que manifestam algum tipo de adição relacionada com o uso sexual da Internet, mas não são muito raros aqueles que perderam ou perdem o controle sobre os seus comportamentos, ficando perdidos e sozinhos num meio virtual. Estes casos, observados sobretudo em homens gay, heterossexuais e bissexuais, obedecem, pelo menos, a três critérios da adição: o uso sexual da Internet torna-se a actividade mais importante das suas vidas, não conseguem libertar-se das suas vidas on-line, o que os leva a despender mais tempo diante dos computadores, e entram em rota de colisão ou conflito com os seus amigos ou familiares, alguns dos quais prejudicam as suas carreiras profissionais. Os encontros sexuais passam a ser marcados via Internet e, frequentemente, tornam-se tão dependentes das novas tecnologias que começam a usar a Web-cam ou o telefone para fazer sexo com estranhos próximos ou distantes. É evidente que os portadores de HIV recorrem muito à Internet para arranjar novos parceiros sexuais: uns limitam-se ao cybersexo ou sexo via Web-cam ou via telefone, mas outros não se privam de marcar encontros sexuais offline, sem usarem o preservativo.
J Francisco Saraiva de Sousa

sábado, 8 de dezembro de 2007

2D:4D Digit Ratio

Terrance J. Williams et al. (2000) examinaram 720 adultos que frequentavam as ruas públicas da área de San Francisco, que foram previamente interrogados sobre o seu género, idade, orientação sexual, handedness (preferência manual) e o número e o género de crianças que as suas mães tinham transportado antes deles.
Assim, nas mulheres, o dedo indicador (2D) é quase do mesmo comprimento que o quarto dedo (4D), embora possa ser ligeiramente mais comprido ou mais curto, enquanto, nos homens, o dedo indicador é frequentemente mais curto que o quarto dedo (anelar). Conforme seria de esperar, os homens tinham significativamente dedos mais compridos do que as mulheres e confirmou-se a observação de que a ratio 2D:4D era maior nas mulheres do que nos homens.
Além disso, esta diferença sexual na proporção 2D:4D é maior na mão direita do que na mão esquerda, o que parece sugerir que a mão direita é mais sensível aos androgénios fetais que a mão esquerda. A ratio 2D:4D da mão direita das mulheres homossexuais era significativamente menor e, portanto, mais masculina, do que a das mulheres heterossexuais e não diferia significativamente da dos homens heterossexuais ou homossexuais. Do mesmo modo que as emissões otoacústicas, estas ratios dos comprimentos dos dedos sugerem que, pelo menos, algumas mulheres homossexuais foram expostas a níveis mais elevados de androgénios fetais do que as mulheres heterossexuais, pelas menos aquelas que são manifestamente masculinizadas.
Contudo, a ratio 2D:4D dos homens homossexuais não era significativamente diferente da dos homens heterossexuais no que se refere à mesma mão, mas variava em função do número de irmãos mais velhos. Com efeito, a ratio era significativamente mais masculina nos homens homossexuais que tinham irmãos mais velhos, sobretudo no que respeita à mão direita. Este resultado sugere que algumas características hiper-masculinas exibidas pelos homens homossexuais, provavelmente pela maioria deles, estão relacionadas com acontecimentos pré-natais, nomeadamente com elevados níveis de testosterona. Este facto parece excluir a ideia estabelecida de que todos homossexuais seriam indivíduos com «cérebros femininos» e, obviamente, tem o enorme mérito de fornecer uma explicação plausível para aqueles homens homossexuais, talvez os mais numerosos, que exibem características hiper-masculinas.
A 2D:4D digit ratio é não somente um marcador dos níveis pré-natais de testosterona como também um indicador de saúde.
J Francisco Saraiva de Sousa

Depressão e Internet Addiction

Diversos estudos mostraram a existência de um uso aditivo, portanto, patológico, da Internet, de resto associado significativamente com problemas sociais, psicológicos e ocupacionais.

Os netviciados usam a Internet, em média, 38 horas por semana, para fins não-académicos ou não-profissionais. Este uso compulsivo provoca efeitos negativos no desempenho académico dos estudantes, desavenças nos casais (as infidelidades on-line, por exemplo) e redução do desempenho profissional na população dos empregados.

Os indivíduos não-viciados usam a Internet, em média, 8 horas por semana, e não relatam efeitos negativos.

As capacidades interactivas da Internet que parecem ser mais aditivas (em termos comportamentais) são os "chat rooms" e os "on-line games", para já não falar da pornografia e de outros usos sexuais da Internet.

O alcoolismo e a toxicodependência estão geralmente associados a perturbações mentais, tais como a depressão. Ora, o uso compulsivo da Internet também foi associado à depressão, através da utilização do "Beck Depression Inventory", aliás ligado às terapias cognitivas da depressão, já referidas aqui noutro post. Young & Rodgers (1998) demonstraram que o uso patológico da Internet está fortemente associado à depressão. Contudo, a relação causal ainda não foi esclarecida. Os nossos dados parecem mostrar que níveis elevados de isolamento social conduzem ao dispêndio excessivo de tempo diante do computador, donde resulta um aumento da depressão, a qual poderá constituir um factor etiológico no desenvolvimento de qualquer "addictive syndrome". (Ver posts editados nos meus blogues CyberPhilosophy e CyberBiologia e CyberMedicina.)

J Francisco Saraiva de Sousa

Cimeira UE-África

Lisboa tornou-se a capital da loucura. Nunca tinha visto, via TV, tão elevada concentração de lideres que, bem analisados em termos clínicos, sofrem de alguma perturbação mental, salvo raras excepções. Vi mas não ouvi Mugabe, mas escutei as palavras proferidas pelo Presidente da Líbia, na Universidade de Lisboa, para a sua própria audiência e, depois, soube que estava alojado numa tenda no forte de S. Julião ou coisa do género.
As Nações Unidas são uma "ditadura", disse o "ilustre" presidente, talvez da corrupção, e, neste aspecto, ainda podemos acompanhá-lo, mas quando afirma que a situação africana se deve ao colonialismo, para depois exigir às potências colonizadoras uma indemnização, neste ponto a paciência esgota-se e nós europeus devíamos pensar bem nos nossos verdadeiros interesses, que não estão a ser defendidos dignamente pelos nossos representantes políticos, de resto a geração mais medíocre de lideres europeus.
Sejamos verdadeiros e honestos! Os africanos devem assumir as suas próprias responsabilidades e a sua "agressividade" devia ser dirigida contra os seus próprios lideres políticos. E deviam pensar se preferem lidar com os europeus ou com os chineses. Mas as cabecinhas despreparadas preferem reivindicar, em vez de pensar, como se alguém estivesse verdadeiramente interessado nas suas causas. Enquanto não encararmos a verdade de frente, não podemos imaginar soluções racionais, até porque, como diz Ana Gomes, eurodeputada socialista, a maior parte dos lideres africanos devia estar na prisão.
Os africanos não têm Estados sustentáveis, independentemente do regime político, seja ele democrático ou autoritário. Os africanos não têm capital e mão-de-obra qualificada. Os africanos não são unidos: a sua "união" consiste em retomar o papão do colonialismo para sacar alguns trocos concentrados nas mãos das suas falsas elites. Os africanos após a independência dos seus "países" destruíram o património que herdaram do colonialismo e inventaram uma história nacional falsa. Os africanos esquecem facilmente que a sua situação degradou-se mais depois do fim da Guerra Fria.
Porém, nem tudo é negro. Os africanos começam a acordar para a armadilha chinesa. A China precisa garantir 20 milhões de novos empregos por ano e uma das soluções tomadas pelo governo central ou mesmo local é investir em África, levando a sua própria mão-de-obra. A China não é colonizadora, mas invasora e esclavagista. Se os africanos embarcarem na onda chinesa, dentro de pouco tempo África não será negra mas amarela. Os europeus também devem estar atentos à ameaça chinesa, porque não temos boas memórias passadas dos nossos contactos com essa região profundamente nefasta da Terra, quando tentaram invadir-nos.
Este pode ser o "miolo" do acordo entre a Europa e África, mas nós (europeus e africanos) que não estamos no poder sabemos que estamos mal representados: os representantes europeus desconhecem a sua história, em particular o seu berço, e os representantes africanos desejam é sacar dinheiro e enriquecer, sem pensar no futuro das suas gentes. A questão da Democracia e dos Direitos Humanos é mera retórica. A Europa Cadela desconhece a verdadeira democracia, reduzida a mera formalidade, e, tal como os países africanos, é governada por uma oligarquia cleptocrática, que sacrifica tudo, inclusivamente o futuro da nossa Civilização Ocidental, ao lucro e enriquecimento privados fáceis. Tanto negocia com um ditador como com um democrata: a sua motivação é toda dirigida para o roubo global e, portanto, para o empobrecimento global. E também nós europeus, tal como vós africanos, somos responsáveis: permitimos que nos roubem, é certo que com mais "elegância" do que vós africanos que sóis roubados por perturbados mentais que se comportam como lideres tribais ou animais que qualquer Jardim Zoológico gostaria de exibir nas suas jaulas, até porque falam, pelo menos aparentemente.
Mas, como o Planeta Vivo dá sinais de cansaço, o melhor é aguardar a catástrofe, diante da qual seremos todos iguais. A morte vence-nos sempre e ainda bem que é assim, porque só ela pode garantir a paz eterna. Ou nos unimos em torno dessas duas causas (recusa da expansão da China e defesa do Planeta que não tolera um sistema global semelhante ao ocidental, também ele ameaçado e insustentável), reforçadas por outras ajudas estruturais e culturais, ou aguardamos a Guerra e a Catástrofe! E, nesse momento, a raça ou etnia, como lhe queiram chamar, terá a primeira e a última palavra! Dizer outra coisa seria hipocrisia e mentira cruel, sobretudo se fosse dito por mim, um defensor da biodiversidade.
J Francisco Saraiva de Sousa

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Ideologia: A Velha Senhora

Louis Althusser será sempre conhecido pela sua tentativa de elaborar uma teoria geral da ideologia. Para combater o poder metabolicamente desejado da ignorância, deixo aqui um texto da sua autoria, onde apresenta a sua concepção inicial de ideologia, posteriormente modificada:
«Ao nascer (os homens) encontram-se perante uma representação já feita, existente na sociedade, tal como já encontram estabelecidas as relações políticas e as relações de produção dentro das quais deverão viver. Do mesmo modo que nascem «animais económicos» e «animais políticos», poderíamos dizer que os homens nascem «animais ideológicos».
«Tudo se passa como se os homens tivessem necessidade, para poder existir como seres sociais conscientes e activos na sociedade que condiciona e determina toda a sua existência, de dispor de uma certa «representação» do mundo em que vivem, representação essa que pode permanecer em grande parte inconsciente ou ser, pelo contrário, mais ou menos consciente e pensada.
«A ideologia surge assim como uma certa «representação do mundo» que une os homens às suas condições de existência e une os homens entre si, na divisão das suas tarefas e na igualdade ou desigualdade do seu destino [...].
«As representações da ideologia acompanham, portanto, consciente ou inconscientemente, todos os actos dos indivíduos, toda a sua actividade e todas as suas relações. Se se representar a sociedade, segundo a metáfora clássica de Marx, por um edifício no qual uma supraestrutura jurídico-política assenta na infraestrutura da base, isto é, nos fundamentos económicos, deve dar-se à ideologia um lugar muito especial. Para compreender o seu tipo de eficácia torna-se necessário situá-la na supraestrutura e atribuir-lhe uma «relativa autonomia» em relação ao direito, ao Estado e à base económica que a determina «em última instância»; mas, ao mesmo tempo, para compreender a sua forma de presença mais geral, é necessário considerar que a ideologia se infiltra em todas as partes do edifício e é como que uma espécie de cimento de natureza especial que assegura a coesão e o ajustamento dos homens aos seus papéis, às suas funções e às suas relações sociais.
«De facto, a ideologia impregna todas as actividades do homem, entre elas a prática económica e a prática política; está presente nas atitudes perante o trabalho, perante os agentes da produção, perante as obrigações da produção; encontra-se nas atitudes e juízos políticos: o cinismo, a boa consciência, a resignação ou a rebeldia, etc.; governa a conduta familiar dos indivíduos e o seu comportamento para com os homens, a sua atitude perante a natureza, os seus juízos sobre o «sentido da vida» em geral e os seus diferentes cultos (Deus, o príncipe, o Estado, etc.).
«A ideologia está a tal ponto presente nos actos e nos gestos dos indivíduos que é indistinguível da sua «experiência vivida» e por isso toda a descrição imediata do «vivido» se encontra profundamente marcada pelos conteúdos da «evidência» ideológica. Quando um indivíduo (ou o filósofo empirista) julga estar perante uma percepção pura e nua da própria realidade, perante uma prática pura, perante o «vivido», o «concreto», encontra-se, na realidade, frente a uma percepção ou a uma prática impuras, marcadas pelas estruturas invisíveis da ideologia. Mas como não se apercebe da ideologia considera a sua percepção das coisas e do mundo como a percepção das «próprias coisas», sem se dar conta de que esta percepção se lhe apresenta sob o véu de formas insuspeitas de ideologia, se encontra, de facto, marcada pela estrutura invisível das formas ideológicas». (Louis Althusser,1967)
J Francisco Saraiva de Sousa

Crítica e Sociedade

«Tudo fervilha de comentários; de autores há grande penúria». (Montaigne)
Numa sociedade sem oposição, como a nossa, e não me refiro à ausência de oposição política credível ao governo socialista de José Sócrates, convém lembrar um dos filósofos que dedicou toda a sua vida a criticar a sociedade estabelecida, em nome de um princípio de realidade mais livre, justo e solidário: Herbert Marcuse. Mas, antes de passar ao seu texto, desejo retomar Montaigne, que, numa única frase, caracterizou profeticamente o estilo de pensar da nossa gente metabolicamente reduzida: «Tudo fervilha de comentários; de autores há grande penúria». De facto, ouvindo os nossos comentadores, jornalistas, políticos ou até amigos, concluímos que, sem assunto ordenado, sagaz e competente, a conversação degenera em tolice. Os luso-tolinhos falam, sem se darem conta que «os reis e os filósofos defecam, e as senhoras também». O comentário feito sem conhecimento, competência e espírito crítico, é sintoma de atrofia cognitiva e mental. O tratamento consiste em apostar novamente num ensino centrado na aprendizagem de conteúdos objectivos de conhecimento, sem os quais a crítica degenera em retardamento mental.
Aqueles que desejam salvar a sua mente encontram neste texto de Marcuse uma orientação crítica, que os pode ajudar a livrar-se das pseudo-verdades do positivismo do pensamento único, do «politicamente correcto» e da sua falta de coragem, de modo a conquistar a sua autonomia. Os bloguistas devem ler este texto e meditar seriamente na sua compulsão opinativa e bajuladora em relação a supostos poderes estabelecidos na blogosfera. Vejam como Marcuse opõe a dialéctica ao positivismo:
«A filosofia de Hegel é, na verdade, aquilo de que foi acusada pelos seus opositores imediatos: uma filosofia negativa. Ela é, na sua origem, motivada pela convicção de que os factos que aparecem ao senso comum como indícios positivos da verdade são, na realidade, a negação da verdade, tanto que esta só pode ser estabelecida pela destruição daqueles. A força que move o método dialéctico está nesta convicção crítica. A dialéctica está inteiramente ligada à ideia de que todas as formas do ser são perpassadas por uma negatividade essencial, e que esta negatividade determina o seu conteúdo e movimento. A dialéctica constitui a oposição rigorosa a qualquer forma de positivismo. De Hume aos positivistas lógicos da actualidade o princípio de tal filosofia tem sido o prestígio definitivo do facto, e o seu método fundamental de verificação, a observação do dado imediato. O positivismo assumiu, em meados do século XIX, e principalmente em resposta às tendências destrutivas do racionalismo, a forma de uma “filosofia positiva” que englobaria todo o saber e que iria substituir a metafísica tradicional. As figuras mais eminentes deste positivismo acentuaram com muito vigor a atitude conservadora e acrítica da sua filosofia: o pensamento era por ela induzido a contentar-se com os factos, a renunciar a transgredi-los e a submeter-se à situação vigente. Para Hegel, os factos, enquanto factos, não têm autoridade. Eles são propostos pelo sujeito, que os mediatiza pelo processo de compreensão do seu desenvolvimento. A verificação repousa, em última análise, neste processo, ao qual se relacionam todos os factos, e que lhes determina o conteúdo. Tudo o que é dado tem que se justificar ante a razão; esta nada mais é que a totalidade das capacidades da natureza e do homem.
«A filosofia de Hegel, entretanto, que começa com a negação do dado e conserva por toda a parte tal negatividade, chegará a concluir que a História atingiu a realidade da razão. Os conceitos hegelianos básicos estão ainda vinculados à estrutura social do sistema dominante e, sob este aspecto, pode dizer-se que o idealismo alemão preservou a herança da Revolução Francesa.
«Mas a “reconciliação da ideia com a realidade”, proclamada na Filosofia do Direito, de Hegel, contém um elemento decisivo que anuncia mais do que a mera reconciliação. Este elemento foi preservado e utilizado pela doutrina posterior de negação da filosofia. A filosofia atinge a sua meta quando formula a visão de um mundo no qual se realiza a razão. Se neste momento a realidade reunir as condições necessárias para materializar a razão, o pensamento pode deixar de se referir ao ideal. A verdade exigiria então a prática histórica real para realizar o ideal; ao deixar este de lado, a filosofia renuncia à sua tarefa crítica, transferindo-a a uma outra força. O ápice da filosofia é, pois, ao mesmo tempo, a sua renuncia. Libertada da preocupação com o ideal, a filosofia desobriga-se também da sua oposição à realidade. Isto significa que ela deixa de ser filosofia. Não se conclua, porém, que o pensamento deva compactuar com a ordem existente. O pensar crítico não cessa, mas assume nova forma. Os esforços da razão voltam-se para a teoria social e para a prática social» (Herbert Marcuse, Razão e Revolução).
J Francisco Saraiva de Sousa

Emissões Otoacústicas Espontâneas

McFadden & Pasanen (1999) descobriram diferenças entre homens e mulheres heterossexuais e homossexuais em relação a um traço sexualmente dimórfico. Quando se apresenta à cóclea do ouvido interno um som breve, ela responde com um som próprio, seguramente devido à contracção das células ciliadas externas. Além disso, a cóclea produz sons por sua própria conta, inclusivamente quando tudo está em silêncio: são as emissões otoacústicas espontâneas. Por alguma razão ainda desconhecida, a cóclea das mulheres deve produzir mais emissões deste tipo que a dos homens.
McFadden & Pasanen (1999) colocaram um pequeno microfone na orelha de homens e mulheres homossexuais, bissexuais e heterossexuais e mediram as suas emissões otoacústicas espontâneas. Descobriram a diferença que era suposta existir entre homens e mulheres. Contudo, as emissões das mulheres homossexuais e bissexuais eram menos frequentes que as das mulheres heterossexuais. Nos três grupos de homens não havia diferenças na frequência de emissões cocleares.
Esta descoberta de McFaddden & Pasanen (1999) é extraordinária por diversas razões: em primeiro lugar, revela uma diferença sexual entre homens e mulheres, mais um caso de dimorfismo sexual; em segundo lugar, revela uma diferença sexual entre mulheres em função da sua orientação sexual: as lésbicas e as mulheres bissexuais tendem a aproximar-se de um padrão masculino que não varia em função da orientação sexual dos homens; finalmente, mostra que as mulheres homossexuais e bissexuais têm valores aproximados: este traço não permite diferenciar estes dois tipos de mulheres. Ambos os grupos exibem um padrão masculinizado.
No caso masculino, as emissões otoacústicas espontâneas não têm nada a ver com a orientação sexual ou a actividade sexual. Contudo, o facto da orientação sexual de uma mulher ter um efeito sobre este traço sugere que pode haver diferenças biológicas entre mulheres que se sentem atraídas por outras mulheres e as mulheres que apenas se sentem atraídas por homens. Talvez a exposição de um feto em desenvolvimento a maiores quantidades de androgénios afecte a sua orientação sexual, tal como outros traços que não estejam relacionados com a sexualidade. Estudos de gémeos confirmam estes dados e alguns deles já foram tratados no meu blogue CyberBiologia e CyberMedicina.
J Francisco Saraiva de Sousa

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Depressão e Suicídio

Em Portugal, seis pessoas suicidam-se por dia e nós já chamámos a atenção para este fenómeno noutro post, Suicídio e Política, onde esboçámos brevemente uma política (negativa) do suicídio. Geralmente, quando se fala de suicídio, ele é quase sempre associado à depressão, como se a depressão fosse a única causa do suicídio! Contudo, convém ter presente que esta associação é muito mais complexa do que o senso comum pensa.
Sem pretender analisar exaustivamente este problema, daremos algumas noções simples que permitem compreender melhor o suicídio numa perspectiva fisiológica. Actualmente, sabemos que as perturbações de humor envolvem mudanças de humor que variam da depressão profunda até à mania e estima-se que 8% da população sofrerá de uma perturbação de humor nalgum momento da vida. Estas perturbações estão divididas em dois grupos: as perturbações depressivas ou unipolares, nas quais a depressão é o principal sintoma, e as perturbações bipolares, nas quais a depressão alterna com a mania (períodos de excitação e actividade intensa). (Omitimos aqui a distinção entre perturbação distímica e perturbação ciclotímica: a primeira uma forma menos severa de perturbação depressiva, a segunda uma forma menos severa de perturbação bipolar.) Ora, estes dois grupos de perturbações de humor estão geralmente associados ao suicídio. (Para a obtenção de mais conhecimentos, convém consultar DSM-IV-R.)
Levando em conta apenas os sintomas de humor, diremos que, durante os episódios maníacos, o humor predominante é a euforia, com o paciente empolgado, excessivamente feliz, emocionalmente expansivo e a «sonhar alto», e, durante os períodos depressivos, o paciente sente-se deprimido, melancólico, triste, sem esperança, desencorajado, e, frequentemente, sente-se isolado, rejeitado e não-amado. As explicações neurobiológicas do suicídio giram em torno do neurotransmissor serotonia. Os estudos revelaram que baixos níveis de serotonina estão associados ao suicídio. Um estudo clássico, realizado com pacientes deprimidos, verificou que apenas alguns dos pacientes apresentavam baixos níveis de serotonina. Mas foram precisamente estes indivíduos os mais propensos a ter tentado o suicídio (40% versus 15%). Além disso, também foram os mais propensos a usar meios violentos para tentar o suicídio.
Ora, baixos níveis de serotonina podem causar depressão, o que pode levar a supor que a relação serotonina/suicídio é simplesmente mediada pela depressão, donde resulta esta relação causal: baixos níveis de serotonina produzem depressão e esta, por sua vez, leva ao suicídio. É provável que este mecanismo explique alguns casos de suicídio, mas não explica todos os casos, porque baixos níveis de serotonina e de norepinefrina (noradrenalina) produzem depressão, mas o suicídio é mais elevado entre os indivíduos com baixos níveis de serotonina. Além disso, quando os indivíduos recebem drogas que aumentam os níveis destes dois neurotransmissores, as drogas que aumentam os níveis de serotonina são mais eficazes a reduzir o suicídio do que as que aumentam os níveis de norepinefrina. Convém dizer que outros estudos mostraram que baixos níveis de serotonina conduzem tanto à depressão como à agressão. Os níveis normais de serotonina inibem as respostas agressivas ou punitivas, mas, quando estes níveis descem, a inibição é reduzida e, por isso, as respostas agressivas ou punitivas são exibidas. Estes dados permitem esclarecer o processo que liga a serotonina e o suicídio: um baixo nível de serotonina provoca um aumento de depressão e uma redução na inibição de respostas, de modo que, quando a depressão conduz a pensamentos de auto-destruição, não há inibição suficiente do comportamento auto-destrutivo e o indivíduo tenta o suicídio.
Resta saber o que provoca os baixos níveis de serotonina. Existem duas explicações: uma afirma que o stress pode causar uma redução dos níveis de serotonina, o que é confirmado pelos estudos que mostraram que os indivíduos suicidas experimentam quatro vezes mais acontecimentos stressantes na vida do que os indivíduos não-suicidas; a outra explicação afirma que os níveis baixos de serotonina podem ser herdados, o que explica a relação genes/serotonina/depressão/suicídio em indivíduos que não foram expostos a stress. Diversos estudos genéticos de famílias, de gémeos e de adopções mostram o papel desempenhado pelos genes, de resto já bem confirmado por estudos moleculares.
As taxas de suicídio aumentam com a idade, com a taxa mais elevada a ocorrer após os 65 anos, e este aumento é maior nos homens brancos. Contudo, suspeita-se que estas taxas continuam a aumentar, sobretudo entre pessoas jovens, como parece ser o caso português. Estas cifras subestimam a taxa verdadeira, porque muitos suicídios são encobertos. Os suicídios tendem a ocorrer mais na primavera ou no início do Verão e a segunda-feira tende a ser o dia de maior risco. Das diversas explicações do suicídio (psicodinâmicas, da aprendizagem, cognitivas), destacámos apenas as fisiológicas, as quais garantem tratamentos mais eficazes de combate ao suicídio.
Muito ficou por dizer, em particular sobre as estruturas neurais, os tratamentos e a complexidade do suicídio, mas o que foi dito é suficiente para chamar a atenção para estes problemas (depressão e suicídio) cada vez mais frequentes entre os portugueses, como revelaram algumas estatísticas recentes. O poder político deve estar mais atento a estes fenómenos que também podem ser sobredeterminados por factores psicossociais, tais como desemprego, anomia, desajustamento social, baixa auto-estima e tantos outros.
J Francisco Saraiva de Sousa

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

A Castidade das Mulheres

Num dos seus ensaios, Montaigne insurge-se contra a violência que se faz contra a castidade das mulheres e, dirigindo-se a «um sábio autor (parisiense) desta época» (século XVI), escreve:
«Aborrece-me que ele não tenha sabido, para acrescentar às suas histórias (muito machistas), da tirada que me contaram em Toulouse, de uma mulher que passara pelas mãos de alguns soldados: "Deus seja louvado, dizia ela, que, pelo menos uma vez na vida, eu me fartei sem pecado!"».
Entende-se a perspectiva dessa mulher se pensarmos que, naquele tempo, as mulheres eram muito oprimidas em termos de expressão sexual e que eram obrigadas a manter-se castas até ao casamento: fornicar antes era pecado, sobretudo quando desejado conscientemente por elas. Contudo, esta mulher tinha sido violada pelos soldados e, dado não ter sido um acto provocado por ela, saciou os seus desejos sexuais sem pecado.
Neste caso, os vilãos são os homens, esses seres que se entusiasmam com a perspectiva da violação e que gostam de controlar e dominar sexualmente as mulheres. De facto, há uma teoria da supressão da sexualidade feminina, segundo a qual esta supressão é um padrão de influência cultural através do qual as raparigas e as mulheres são induzidas a evitar sentir desejo sexual e a refrear ou reduzir o seu comportamento sexual. No âmbito desta teoria destacam-se duas hipóteses ou duas versões da teoria da supressão: a teoria do controle masculino e a teoria do controle feminino. A primeira afirma que os homens têm sido a principal fonte de tal influência, enquanto a segunda defende que as mulheres são a principal fonte da supressão da sexualidade feminina.
Montaigne parece adoptar a primeira teoria, a do controle masculino, considerando que os homens estão interessados em suprimir a sexualidade feminina, talvez porque temem ser traídos pelas suas mulheres (os seus "cornudos") e virem a cuidar e garantir o sustento de filhos que não são seus (os bastardos). Esta teoria defende que os homens suprimem a sexualidade feminina, com o objectivo de controlar as mulheres, garantir paz e ordem na sociedade e reduzir o risco de infidelidade das esposas. Contudo, diversos estudos contemporâneos concluem que a evidência empírica favorece a teoria do controle feminino: as próprias mulheres cooperam entre si para restringir a sexualidade umas das outras, de modo a garantir que a troca de sexo por outros recursos fornecidos pelos homens possa ocorrer de um modo favorável às mulheres. É curioso observar que Marx e Engels já tinham observado que a prostituição era a forma mais explícita de troca que caracteriza as relações de género em geral. Aliás, eles descreveram o casamento como «prostituição legalizada», na qual as mulheres trocam sexo pelo dinheiro dos seus maridos, embora de uma maneira mais subtil do que na prostituição propriamente dita.
J Francisco Saraiva de Sousa

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Montaigne e Eros Liberto

Lido por Descartes, Pascal ou mesmo por Kant, Michel de Montaigne ocupa um lugar fundamental na história das "cartografias do Self", junto de Platão, Santo Agostinho, Descartes, Locke e Rousseau.
Com efeito, a sua obra «Os Ensaios», dedicados à descrição de si mesmo, inicia um outro tipo de individualismo moderno, o da auto-descoberta, que difere do cartesiano tanto no objectivo como no método. Montaigne procura identificar o indivíduo na sua diferença e desenvolve o seu pensamento por meio de uma crítica de auto-interpretações de primeira pessoa, ao passo que Descartes nos fornece uma ciência do sujeito na sua essência geral, utilizando as provas do raciocínio impessoal. Portanto, Montaigne parte à busca do Self para chegar à harmonia consigo mesmo, de modo a mostrar «aquilo que sou essencialmente» (identidade).
Este post vem a propósito de um diálogo que Aveugle.Papillon estabeleceu comigo no meu post Auto-Estima e Tamanho do Pénis. Com efeito, a pesquisa das dimensões do pénis ainda é, pelo menos em Portugal, um assunto tabu. Ora, no seu tempo (século XVI), Montaigne tratou desse assunto, de uma forma arrojada e muito actual, denunciando a hipocrisia do seu tempo e retomando a coragem dos autores clássicos, incluindo Platão, que falavam (e representavam) natural e abertamente do nudismo, do "acto genital" ou das "partes pudendas". Montaigne afirma mesmo que «cada uma das minhas partes me faz tão igualmente eu quanto qualquer outra. E nenhuma outra me faz mais propriamente homem do que essa (o pénis e seu tamanho)».
Como argumento de base, lembra que «em quase todo o mundo, essa parte do nosso corpo era deificada». Por isso, para Montaigne, não faz sentido não ousar «falar dele sem vergonha» e excluí-lo das «conversas sérias e regradas». Porém, Montaigne vai mais longe na denúncia dessa hipocrisia: «Acaso não podemos dizer que, durante esta prisão terrestre, não há em nós nada puramente corporal nem puramente espiritual, e que injustamente dilaceramos um homem vivo; e que parece haver razão para que nos comportemos, com relação ao exercício do prazer, pelo menos tão favoravelmente quanto o fazemos para com a dor?» Com esta questão (retórica), Montaigne revela a sua concepção da condição humana e defende uma «filosofia das voluptuosidades corporais», injustamente denegridas pelas doutrinas que desprezam uma parte da natureza humana. E, fazendo-nos lembrar a obra de Marcuse, «Eros e Civilização», professa valorizar todos os prazeres, ampliando-os para além da sua dimensão sensual (relativa aos sentidos), com a participação da alma, de modo a levarmos uma vida conforme a condição humana.
Fonte: Livro III d' Os Ensaios de Montaigne, V/Sobre Versos de Virgílio, mais conhecido por Do Amor.
J Francisco Saraiva de Sousa

Prós e Contras: Tempo para Nascer

O programa «Prós e Contras» de Fátima Campos (3 de Novembro de 2007) foi dedicado à «baixa da natalidade» que se verifica em Portugal, aos seus efeitos no futuro dos portugueses, às suas causas, às medidas governamentais de incentivo à natalidade e aos anseios e às dificuldades das famílias, sobretudo das famílias numerosas.
Gostei sinceramente do programa e do seu tom ameno e cooperativo, devido muito à presença de um grande ministro deste governo socialista de José Sócrates, um homem inteligente, competente, profundo conhecedor dos assuntos, erudito, dotado de um extraordinário bom senso e de uma enorme capacidade de escuta das outras opiniões, sem mostrar qualquer traço de «autoritarismo» ou de «enervamento». E as restantes participações foram muito boas e todas elas contribuíram para um debate de alto nível e extremamente fértil. Esta qualidade não tinha sido verificada no debate anterior dedicado ao «Trabalho» ou num outro debate dedicado à «Sociedade em Rede», talvez devido ao facto dos participantes estarem mais preocupados com os seus "umbigos" e, portanto, incapazes de elevar o nível dos debates ao plano do interesse nacional, que diz respeito a todos. Mas a presença do Ministro da Segurança Social, Vieira da Silva, tem sempre esse efeito de colocar o interesse nacional acima dos interesses privados, de modo elegante, inteligente e cordial.
A principal questão colocada e que serviu de fio condutor do debate foi a diferença entre os filhos que os casais portugueses têm e aqueles que gostariam de ter. Segundo o ministro, as medidas de incentivo à natalidade, em particular o abono pré-natal e a "cobertura do pré-escolar" até aos 3 anos, devem procurar reduzir este fosso ou este diferencial, de modo a possibilitar aos casais terem efectivamente os filhos que desejam ter. Os outros intervenientes destacaram muitas causas que explicam a baixa natalidade dos portugueses, mas afinal quase todas as razões referidas prendem-se com questões de ordem económica, social ou mesmo de mentalidade e de valores, às quais o Professor de Ginecologia, Agostinho Santos, acrescentou e muito bem o problema preocupante da infertilidade (masculina e feminina) e o facto das mulheres preferirem ter filhos mais tarde, muito após o seu período de elevada fertilidade (27 anos), que agrava a qualidade de vida dos seus filhos, muitas vezes correndo o risco de sofrerem anomalias genéticas, devido à idade tardia das mães.
O Professor Mário Leston Bandeira da Associação Portuguesa de Demografia fez inicialmente uma observação deslocada e errónea ao opor Marx a Malthus, para acentuar que a natalidade não é uma "questão social" e que, por isso, Marx não tinha compreendido nada de demografia. Penso que esta foi uma afirmação disparatada, se pensarmos que muitos dos seus conhecimentos de demografia derivam fundamentalmente do estudo das obras de Alfred Sauvy, um grande demografo que nunca rejeitou o contributo de Marx. As causas apontadas referiam-se quase todas elas a razões de ordem económica e, por isso, mostram que a crítica de Marx à teoria (económica, política e moral) de Malthus continua a ser pertinente, pelo menos no plano político, de resto bem testemunhada pela psicóloga que tem mais nove irmãos e que não trocava nenhum deles por um "jantar mais sofisticado", apesar das dificuldades sentidas pela sua família numerosa. Por isso, atribuo estas afirmações de Leston Bandeira ao desconhecimento dos textos de Marx e à sua má vontade ideológica, que fragilizou o seu discurso. Porque, na verdade, a necessidade de incentivar a natalidade deve-se ao sistema de segurança adoptado pelo Estado Social e às pressões de uma economia capitalista em expansão que necessita de populações muito grandes para manter os seus lucros sempre crescentes. Para isso, usa e abusa das disciplinas técnico-burocráticas e seu cálculo actuarial que os ajudam a controlar esses problemas de modo a servir os seus interesses. Na verdade, levando em conta a tese fundamental de Malthus, seriamos obrigados a reconhecer que a explosão demográfica pode pôr em perigo o futuro do planeta, esgotando os seus recursos e degradando as condições ideais de vida na Terra, como sublinhou Konrad Lorenz. (A concepção de Marx da "reserva de mão-de-obra" é muito pertinente e continua muito actual: Desafio Leston Bandeira a desmenti-la empiricamente!)
Muitas das medidas propostas não podem ser suportadas pelo Estado, como lembrou o ministro, até porque este não tem um "saco de dinheiro sem fundo", capaz de auxiliar todas as famílias, embora Vieira da Silva tenha reconhecido que as medidas deste governo eram um inicio e que poderiam ser aprofundadas a partir de 2008, levando em conta algumas outras medidas sugeridas, nomeadamente a do consumo da água subir de escalão, sem levar em conta o número de pessoas do agregado familiar. O governo mostrou-se receptivo a estudar algumas dessas propostas, mas rejeitou o regresso a um "Interior pobre", sugerido por Leston Bandeira: "aquilo que não queremos para os portugueses", afirmou o ministro. A miséria das pessoas do interior!
Contudo, penso que, apesar de terem encarado "a natalidade como um problema interdisciplinar" (termo que não gosto muito), foram incapazes de ver o lado biológico da natalidade e da família, bem como parecem ter esquecido que a natalidade e não a mortalidade constitui a questão política por excelência, como recorda constantemente Hannah Arendt. Antes de ser um "valor", a família é um agrupamento biológico e, sem nascimentos, a humanidade estaria condenada à extinção: tudo isso tem um valor selectivo, ao qual não é estranho a sua dimensão afectiva (genética das populações). Esta visão biológica, mais do que a médica, ajuda a clarificar a natureza destes problemas, sem menosprezar os seus aspectos sócio-culturais e afectivos, bem destacados por Anália Torres. Como já tinha dito no post anterior, «Maldita Geriatria», o prolongamento da vida humana ou da sua esperança de vida traz novos problemas que devem ser pensados seriamente, para evitarmos num futuro próximo ou distante a "solução esquimó": abandonar os velhos à morte solitária. É apenas um aviso, não uma inevitabilidade histórica. Porque os europeus colocam efectivamente a família como a prioridade das suas vidas, as quais podem juntar durante muito tempo três gerações (avós, filhos e netos).
Uma última palavra sobre a interdisciplinaridade: Uma teoria da natalidade não exige uma mesa redonda onde se reúnam diversas pessoas, cada uma com a sua "especialidade". O economista dá a sua opinião, o sociólogo a sua, o demografo a sua e assim sucessivamente, de modo a produzir um texto que contemple todos essas perspectivas. Isto é uma "manta de retalhos", não é uma teoria. A burocracia aprecia este tipo de texto interdisciplinar, até porque ele legitima alguns tipos de emprego, mas à custa do rigor científico. Uma teoria da natalidade pode ser pluricausal, se for necessário, mas esse seu carácter deve ser "orgânico" e não resultado de uma síntese de perspectivas. E, nas actuais circunstâncias, é preciso ter em conta a "segurança", entendida no seu sentido económico ou mesmo moral: emprego pleno. A política da natalidade deve fomentar o emprego e a segurança, levando as pessoas a confiar no futuro e a realizar os seus "projectos afectivos", com incentivos fiscais e financeiros. Neste sentido, o debate foi extremamente positivo, convidando todos os cidadãos, mas também as empresas, a pensar seriamente no futuro.
J Francisco Saraiva de Sousa

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Maldita Geriatria

O meu post sobre "Marx e José Sócrates" deu origem a uma troca de ideias fértil entre mim e a minha amiga Helena, autora do blogue «Socióloga Avense». Apesar das nossas simpatias partidárias serem diferentes, partilhamos muitos pontos de vista, como se pode verificar consultado a secção de comentários desse post, bem como doutros.
No meu último comentário, desafiei a Helena a meditar sobre a "geração grisalha", aquela que teve a vida facilitada, sobretudo no domínio da função pública, e que vão ter uma reforma garantida, embora não tenham sabido governar bem Portugal, sobretudo depois do 25 de Abril de 1974. Por isso, dado o estado precário do país e o desemprego galopante, coloquei a questão de saber se vale a pena continuar a sacrificar o futuro de Portugal por causa das "regalias" e dos "direitos adquiridos" dos funcionários públicos e das elites nacionais. Esta malta incompetente domina a vida pública há mais de 30 anos: o tempo passa, mas eles permanecem nos seus postos, quais monarcas. A geriatria constitui um problema e até mesmo os já reformados com reformas chorudas continuam a acumular empregos, roubando-os aos desempregados, muitas vezes com melhores qualificações e competências do que eles.
Se isto continuar assim e se não se fizer nada para expulsar esses párias corruptos da vida pública, justifica-se uma revolta dos desempregados contra os instalados que não querem partilhar os seus múltiplos empregos, e sobretudo uma insurreição dos jovens contra a geração dos velhos incompetentes e gananciosos. Portugal precisa mudar de rosto! Caso contrário, é preciso expulsar a geração grisalha incompetente e tirar-lhe todas as regalias adquiridas, condenando-a à miséria, aquela a que ela condena todos os outros. Devem ser julgados e condenados pelos crimes cometidos contra Portugal e o seu futuro. Além disso, os portugueses deviam recusar endividar as gerações futuras para garantir este sistema de privilégios injusto e irracional. Se não trabalharam bem durante a sua longa existência, não merecem reformas. Que regressem à casa dos seus pais nas aldeias e cultivem os terrenos para garantir a sua subsistência. Esta "geração feliz" precisa sentir na sua própria carne os efeitos que produzem na carne daqueles que nunca tiveram ou terão a vida facilitada. A política é uma questão de natalidade e não de mortalidade. Deixemos a "brigada do reumático" morrer sem conforto médico ou reformas. O futuro já não lhes pertence. Façam o favor de morrer e morrer rapidamente, não todos, mas aqueles que nunca trabalharam e deram um contributo para o desenvolvimento de Portugal.
As pseudo-elites que nos «governam» são simplesmente "rascas", néscias e, por isso, más (em termos morais), porque, se fossem competentes, o país não estava como está: na miséria e sem perspectiva futura, com um presente recheado de assaltos e de crimes organizados. Em vez de se preocupar com o tabaco, o governo devia preocupar-se com a droga. Em vez de se preocupar com o falso "apito dourado", o governo devia preocupar-se com o crime organizado, como lhe lembrou Rui Rio. Em vez de ir enriquecer as recentes "natas do plano tecnológico", o governo devia estudar bem quais as áreas que merecem investimentos e que possam garantir um desenvolvimento económico sustentável. Em vez de tomar medidas educativas gratuitas, o governo devia já saber que o problema está em cima, no ensino universitário, como o demonstram os casos tristes das universidades privadas. Antes de falar, os "catedráticos" deviam sondar os seus conhecimentos ou, como se diz por ai, ver se ainda se lembram da tabuada, porque fazem uma triste figura nos ecrãs da TV. É esta a geração que tem governado Portugal e que recusa abandonar o poder, explorando descaradamente a população portuguesa. Isto não é democracia, mas oligarquia corrupta e ladra: pseudo-democracia cleptocrática. (Veja este post "Amamentai-vos e Crescei e Amamentai-vos!" no blogue Hípias Maior.)
J Francisco Saraiva de Sousa

domingo, 2 de dezembro de 2007

Salvos na Esperança

"Spe Salvi" é a mais recente encíclica publicada pelo Papa Bento XVI no dia 30 de Novembro de 2007 e, como sempre, está acessível online em língua portuguesa no website do Vaticano. Aconselho a sua leitura, embora reserve a minha crítica para quando tiver acesso ao livro.
Contudo, devo destacar a "crítica" que o Papa faz da noção (racionalista) de Progresso, começando por referir Francis Bacon, depois Kant, Engels, Marx e até mesmo Lenine, e, finalmente, com especial destaque, os pensadores da Escola de Frankfurt: Adorno e Horkheimer.
Esta leitura dos mestres da Filosofia assenta no pressuposto de que esta noção de progresso, tal como a conhecemos ao longo da história recente, na sua versão racionalista, resulta da secularização da visão cristã da História (Karl Löwith, Étienne Gilson), uma leitura muito do agrado imbecil da Direita que, ao mesmo tempo que a usa para denegrir o marxismo, afirma ser cristã. (O Papa faz bem em demarcar-se desta Direita conservadora, oportunista, populista e reaccionária.)
À primeira vista, parece-me que o Papa Bento XVI não rejeita completamente essa herança histórica, limitando-se a lembrar que lhe falta a dimensão do amor. E, neste aspecto, mostra-se consequente com a sua própria tradição cristã. Com efeito, até Hegel sabia bem que a individualidade e a historicidade eram noções cristãs e, como se sabe, a sua antropologia foi lida como uma secularização consumada da antropologia cristã (Kojève). Esta é, de facto, uma dívida que a Filosofia tem em relação ao cristianismo e, por isso, o cristianismo faz parte integrante da nossa tradição crítica.
Mas o que nos diferencia hoje é precisamente o «futuro», mais precisamente aquilo que desejamos no presente e no futuro. Se há lição a tirar da história recente, ela só pode ser a de que não devemos «colonizar o futuro». Aliás, uma ideia que Horkheimer elaborou a partir da Bíblia: não devemos definir positivamente a «sociedade ideal», seja ela o "reino de Deus" ou o "comunismo" ou qualquer outra coisa. A nossa esperança é histórica e quer ser satisfeita na e pela história. A nossa alma deseja ser amada enquanto encarnada e viva. A nossa esperança continua a ser política. Aqui reside a diferença: o cristianismo não é político e ainda bem que assim é.
J Francisco Saraiva de Sousa

Economicismo Perigoso

Na sua obra «A Miséria da Filosofia», Marx apresenta uma classificação dos economistas bastante actual, apesar da economia moderna fazer tudo para denegrir o seu nome ou o seu contributo, de resto reconhecido por Joseph A. Schumpeter.

Marx distingue três escolas de economistas: a escola dos economistas fatalistas, que compreende os clássicos (Adam Smith e Ricardo) e os românticos, a escola humanitária e a escola filantrópica. Todos os economistas destas escolas «são os representantes científicos da classe burguesa», aos quais Marx opõe «os socialistas e os comunistas», «os teóricos da classe proletária», onde se inclui. Mas actualmente há uma nova classe de economistas que, ao contrário dos clássicos, não encara a miséria como «a dor que acompanha qualquer parto, na natureza como na indústria», adoptando intencionalmente traços das restantes escolas. Como os românticos, são «fatalistas indiferentes que, do alto da sua posição (adquirida na segunda metade do século XX), lançam um soberbo olhar de desdém sobre os homens locomotivas que fabricam as riquezas». Sabem que «a miséria é gerada em tão grande abundância como a riqueza», mas preferem negar «a necessidade de antagonismo», por vezes deplorando «o infortúnio do proletariado», quando, na verdade, estão interessados na manutenção das desigualdades sociais, que justificam a subjugação apresentada como fatalista da política à economia, a sua economia burocrática e o pensamento único.

Este economicismo classista que pretende reduzir tudo à economia - o homem, a sociedade, a cultura e a natureza são colonizadas pela economia instrumental e funcional - é o maior inimigo da democracia e, desde a queda do muro de Berlim, já não consegue encobrir o seu rosto, que mostrei no meu post Notas sobre Burocracia. Com efeito, tal como os economistas filantrópicos de Marx, os economistas burocratas do nosso tempo «querem conservar as categorias que exprimem as relações burguesas (relações de desigualdade social injusta), sem ter o antagonismo que as constitui». Por isso, inventaram (algumas) políticas de segurança social: o seu rosto pseudo-humanitário, as quais, além de serem (racionalmente) insustentáveis, criam párias sociais, isto é, animais profundamente dependentes e, portanto, submissos. O sentido de muitas destas políticas é contrário ao «desenvolvimento da individualidade» e das suas potencialidades subjectivas exigido por Karl Marx. É este Marx liberal, finalmente liberto da prisão do «marxismo soviético», que deve ser resgatado pela Esquerda socialista ou social-democrata, bem como a sua crítica da economia política, conforme mostrei neste post Prós e Contras: O Trabalho.
J Francisco Saraiva de Sousa

Marx e José Sócrates

Lembro-me de ouvir uma entrevista do nosso Primeiro-Ministro, José Sócrates, dada antes de ter vencido as eleições, onde revelou uma das suas leituras: Eduard Bernstein e o seu socialismo reformista, isto é, «evolucionário», brilhantemente criticado por Rosa Luxemburgo. Embora a questão reforma versus revolução que ainda parece dividir a Esquerda esteja ultrapassada, convém conhecer essa história do socialismo nos seus próprios textos e, para iniciar esse estudo, recomendo o livro de C. Wright Mills, «Os Marxistas», que fornece alguns textos fundamentais dos pais do socialismo, a partir da qual o leitor pode posteriormente escolher a sua própria bibliografia.
Dessa obra de Bernstein retenho a sua célebre frase: «Os chamados objectivos finais do socialismo não são nada, mas o movimento é tudo», de resto severamente criticada por G. Plekhanov. De facto, vista em retrospectiva, esta frase pode ser elucidativa quanto à natureza das políticas socialistas em curso, desde que não se considere a crítica «quase sempre destrutiva», porque, como se apressa a acrescentar Bernstein, «para um partido que tenha de acompanhar uma evolução verdadeira, a crítica é indispensável e a tradição pode tornar-se um peso, uma cadeia opressora». E Bernstein soube defender a via reformista para a social-democracia recorrendo aos textos de Marx e de Engels.
Dado ter lido atentamente Bernstein, durante a sua juventude política, podemos supor que José Sócrates, quando propôs o plano tecnológico, inicialmente o «choque tecnológico», tivesse em mente alguns textos de Marx. Mas quais são esses textos que o PM leu mas não quis partilhar? Como sabemos, em matéria de desenvolvimento tecnológico, portanto, das forças de produção, Marx é muito prolixo, a ponto de K. Axelos ter escrito uma obra intitulada, «Marx, Pensador da Técnica», aliás elogiada por Henri Lefebvre.
Mas só muito recentemente tive a ideia de que essa obra de Marx só podia ser «Miséria da Filosofia», dirigida contra Proudhon, o economista, contra o qual Marx se afirma pela primeira vez como economista e filósofo. Nesta obra, encontramos esta frase tão citada tanto pelos adeptos como pelos adversários de Marx: «As relações sociais estão intimamente ligadas às forças produtivas. Adquirindo novas forças produtivas, os homens mudam o seu modo de produção, e mudando o modo de produção, a maneira de ganhar a vida, mudam todas as suas relações sociais. O moinho manual dar-vos-á a sociedade com o suserano; o moinho a vapor, a sociedade com o capitalismo industrial». Esta frase tem servido de lema a todos os defensores de uma visão tecnológica da sociedade e das mudanças, de resto conciliável em muitos aspectos com a obra de Marshall Mcluhan e Derrick de Kerckhove, e é nela que vejo o fundamento filosófico, isto é, marxista do plano tecnológico, de resto já mencionado em diversos posts, em particular neste: Prós e Contras: A Sociedade em Rede. Ao apostar «nas novas oportunidades e na qualificação», o plano tecnológico visa transformar a sociedade portuguesa e dinamizar o seu desenvolvimento tecnológico e a inovação, de modo a tornar a nossa economia produtiva e competitiva. Deste plano parece resultar uma nova noção de socialismo, a que podemos chamar socialismo tecnológico: acelerar a mudança tecnológica e, por seu impulso, modificar a sociedade e a economia portuguesas. Há aqui um objectivo claro, simples mas claro: sem mão de obra qualificada e inovação tecnológica, não é possível mudar os rumos da sociedade portuguesa e muito menos garantir um Estado com preocupações sociais. Com efeito, as novas tecnologias são intrinsecamente democráticas e parecem trazer no seu bojo a promessa de uma sociedade mais justa, livre e autónoma; mas, para que essa promessa tecnológica intrínseca, se realize, é necessário implementar políticas que salvaguardam a potencialidade democrática e criativa das novas tecnologias, possibilitando o acesso responsável de todos os cidadãos ao novo espaço público virtual. A individualidade promete desabrochar neste novo espaço virtual. E Marx, como lembra A. MacIntyre, era um «individualista», ou melhor, um liberal.
Contudo, Marx diz algo mais: Marx diz que «os mesmos homens que estabelecem as relações sociais em conformidade com a sua produtividade material produzem também os princípios, as ideias, as categorias, em conformidade com as suas relações sociais». E lembra-nos que «estas ideias, estas categorias são tão pouco eternas quanto as relações que exprimem. São produtos históricos e transitórios». Isto sugere um conceito que temos defendido recorrentemente neste blogue: Sem a aposta na formação humanística, o plano tecnológico carece de alma: Memória e Amnésia Histórica do Socialismo e sobretudo Socialismo e Políticas do Sentido explicitam esta ideia. José Sócrates está certo quando «abandona» certos aspectos ou, pelo menos, reformula-os, da tradição socialista, sempre respeitando e procurando reforçar a democracia política, mas ainda não avançou com uma concepção (mesmo que negativa) de socialismo que esteja em conformidade com as mudanças radicais que o seu governo está a executar. Precisamos de um modelo orientador de sociedade socialista e, sem o impulso das humanidades, em particular da Filosofia, esse modelo corre o risco de nunca chegar a ver a luz do sol. "Sonhar para a frente" (Bloch) é aquilo que sempre definiu o socialismo (social-democracia) e que distingue a Esquerda Socialista da Direita. Só a crítica pode galvanizar esse sonhar acordado e obrigar o Partido Socialista a acompanhar a verdadeira evolução do mundo global, sem se descaracterizar ou sem esquecer a sua tradição, ela própria uma tradição crítica, bem visível nesta obra de Marx: «Miséria da Filosofia», a qual convido a ler.
Alguns leitores poderão pensar que o recurso ao texto de Marx não acrescenta nada ao plano tecnológico. Mas esta reacção só pode desencadear um sorriso filosófico. O que verdadeiramente está em causa é a reintrodução do pensamento na política e José Sócrates tem essa dívida não só em relação a Marx (a sua tradição política) mas em relação ao filósofo chamado Sócrates, que trouxe o pensamento para a política. Deste modo, o PM pode defender-se melhor das ameaças internas da democracia, as novas classes dirigentes, que defendem um economicismo fatalista, de resto denunciado por Marx nessa mesma obra. (Convém lembrar os "comunistas" que Marx não é património do Partido Comunista, que não sabe ler Lenine e a sua aversão pela luta sindical, sobretudo quando essa luta é metabolicamente reduzida, visando manter privilégios muito pouco justos e "igualitários".)
J Francisco Saraiva de Sousa

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Mário Soares e Guerra Junqueiro

(Dia Mundial de Luta contra a Sida (1 de Dezembro de 2007): Leia o meu post A SIDA é uma Metáfora?. Em termos de epidemiologia, o conceito de grupos de risco deve ser tido em conta e bem compreendido, sem demagogia barata. É certo que a Sida contamina todos, mas existem grupos sócio-sexuais que, devido ao seu estilo de vida sexualmente promíscuo, entre os quais o dos bissexuais masculinos, facilitam enormemente o seu alastramento. O que está em causa e merece debate é a sexualidade compulsiva e predadora, contra a qual o uso do preservativo (sempre aconselhável) não é suficiente.)
«Os refractários eliminam-se. Ou aplaudir e ser cúmplice, ou protestar e ser vítima». (Guerra Junqueiro)
O novo programa da RTP1, em torno da figura heróica e profundamente humana de Mário Soares, de resto protagonizado pelo próprio, revelou, na sua primeira manifestação (29 de Novembro de 2007), mais um magnifico traço de Mário Soares: o seu gosto pela poesia e pensamento de Guerra Junqueiro, uma preferência que aparentemente espantou a jornalista do «Eixo do Mal», mais voltada para Fernando Pessoa e Samuel Beckett. Foi numa livraria de Paris que Mário Soares revelou esta sua vontade de ver Guerra Junqueiro recuperado para o pensamento português, após ter comentado algumas obras, em particular as de Victor Hugo e de Sade, ambas recheadas de belas ilustrações.
Como sou um dos poucos portugueses que admira verdadeiramente Guerra Junqueiro, aproveito esta ocasião para reconduzir os meus amigos e leitores online para alguns textos editados sobre esta ilustre figura nacional, os quais dedico ao «Grande Pai da Democracia Portuguesa»: Mário Soares.
Os textos são os seguintes: Guerra Junqueiro: Poesia e Filosofia, onde elaboro uma nova chave de leitura da obra de Guerra Junqueiro, Um Poema contra a Luso-Corrupção, onde deixo Guerra Junqueiro poetizar a nossa luso-corrupção, A Intencionalidade do Luso-Mal, onde recordo uma expressão feliz e sempre pertinente de Guerra Junqueiro, e Fim das Ideologias Políticas?, onde mostro que a linguagem deste republicano conserva o seu potencial negativo para retratar a actual sociedade portuguesa: a «ditadura do engorda». Estes textos foram editados neste blogue.
No blogue «CyberPhilosophy» editei, pelo menos, mais dois textos: Poesia do Sem-Abrigo na Era Digital e Regresso ao Lar: Desconstrução de Portugal. Estes últimos fazem parte de um projecto mais geral, a desconstrução da «mitologia nacional» que pretende apresentar-se como "filosofia especificamente portuguesa". O projecto está mais ou menos concluído, mas precisa de ser corrigido, tarefa que não suporto, pelo menos em relação aos meus escritos.
Anexo: Mário Soares disse que «Os Miseráveis» de Victor Hugo estavam na origem da sua sensibilidade pela causa socialista. Aqueles, sobretudo os mais jovens, que criticam o marxismo sem o conhecer, deviam ler também esta obra de Victor Hugo e, a seguir, «A Situação da Classe Trabalhadora em Inglaterra» de F. Engels, para compreenderem que a maior parte da população mundial deriva dessa classe humilde e pobre, até mesmo os nobres no seu tempo eram descendentes de "pelintras anónimos", cuja memória foi esquecida pela História. Muitas outras obras deviam ser lidas e relidas. O desconhecimento da história, enfim da historicidade e da temporalidade, pode ser interpretado como um traço esquizofrénico da identidade pós-moderna: o vagabundo.
J Francisco Saraiva de Sousa

Filosofia Clínica e Reconstrução da Identidade

No post anterior apresentei uma obra de K.J. Gergen e, neste post, quero desafiar os filósofos a profissionalizar a sua actividade, pelo menos em alguns sectores. Uma área de profissionalização é ou deveria ser em Portugal a Filosofia Clínica. Por isso, recomendo a leitura de outra obra de Sheila McNamee e Kenneth J. Gergen, «Therapy as Social Construction» (1995).
Esta obra revela a riqueza de uma abordagem construtivista social do processo terapêutico, sobretudo no domínio da saúde mental, destacando a noção de vidas construídas socialmente, com fortes implicações nas nossas noções de eu, identidade e projecto de vida. Estas noções não são determinadas por um único "roteiro cultural", mas sobredeterminadas pelo contexto social e cultural do qual não podem ser dissociadas. Isto significa que a terapia construtivista social assenta num diálogo entre o terapeuta e o "cliente": estes trabalham juntos na co-criação de novas histórias de vida mais satisfatórias.
Mas esta é apenas uma perspectiva da terapêutica, aliás muito circunscrita ao domínio das chamadas "doenças mentais", como se nas outras doenças não fosse igualmente necessário "cuidar da alma" dos pacientes. A Filosofia apresenta outras abordagens, nomeadamente a fenomenológica, e não precisa que outros (psiquiatras, psicólogos clínicos, assistentes sociais, etc.) as apliquem em seu lugar: A filosofia académica deve zelar pelo futuro dos seus membros (alunos).
Para que os meus leitores não fiquem perplexos, darei alguns exemplos: A filosofia de Marx exerceu uma influência decisiva sobre o pensamento de Erich Fromm e de Wilhelm Reich, a filosofia dialéctica de G. LuKács permitiu a Joseph Gabel compreender melhor o mundo da loucura (a esquizofrenia), a filosofia existencialista de Jean-Paul Sartre foi assimilada pelo movimento da antipsiquiatria, liderado por R.D. Laing e D.G. Cooper, as terapias cognitivas (Aaron T. Beck) estão muito marcadas por determinadas tendências da filosofia da mente e pelo cognitivismo, a etnopsiquiatria (Devereux) ou a antropologia psicanalítica de Géza Róheim são profundamente marcadas pela filosofia, a psicologia de Karl Jaspers é já um clássico da psiquiatria, bem como a de William James, e até mesmo a filosofia existencial de Heidegger deu origem à analise existencial aplicada à psiquiatria por L. Binswanger ou às brilhantes análises de E. Minkowski, para referir apenas os casos mais evidentes dentre centenas deles que percorrem toda a história conjunta da medicina e da filosofia. O problema é que a filosofia ensinada nas Universidades portuguesas desconhece realmente a sua própria história e riqueza conceptual.
J Francisco Saraiva de Sousa