sábado, 19 de janeiro de 2008
Conspiração Silenciosa contra a Democracia
Linguagem, Pensamento e Realidade (2)
sexta-feira, 18 de janeiro de 2008
Herbert Schiller e Globalização da Comunicação
quinta-feira, 17 de janeiro de 2008
Marxismo, Ateísmo e Cristianismo
«A miséria religiosa constitui ao mesmo tempo uma expressão da miséria real e um protesto contra a miséria real. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o sentimento de um mundo sem coração e a alma de situações sem alma. É o ópio do povo.
«A abolição da religião enquanto felicidade ilusória dos homens é uma condição para a sua felicidade real. O apelo para que abandonem as ilusões a respeito da sua condição é o apelo para abandonarem uma condição que precisa de ilusões. A crítica da religião é, pois, a crítica embrionária do vale de lágrimas de que a religião é a auréola.
«A crítica colheu das cadeias as flores imaginárias, não para que o homem suporte as cadeias sem capricho ou consolação, mas para que lance fora as cadeias e colha a flor viva. A crítica da religião liberta o homem da ilusão, de modo que pense, actue e configure a sua realidade como homem que perdeu as ilusões e reconquistou a razão, a fim de que ele gire em torno de si mesmo como seu verdadeiro sol. A religião é apenas o sol ilusório à volta do qual gira o homem enquanto não circula em torno de si próprio.
«Consequentemente, a tarefa da história, uma vez que o outro mundo de verdade se desvaneceu, é estabelecer a verdade deste mundo. A imediata tarefa da filosofia, que está ao serviço da história, é desmascarar a auto-alienação humana na sua forma secular, agora que ela foi desmascarada na sua forma sagrada. A crítica do céu transforma-se deste modo em crítica da terra, a crítica da religião em crítica do direito, e a crítica da teologia em crítica da política». Este texto (mais do que a "Questão Judaica" que merece ser estudada em diálogo com a sociologia da religião de Max Weber) circulou por todo o mundo e foi lido, juntamente com os escritos de Nietzsche e de Freud, com os quais tem algumas semelhanças, como uma espécie de manifesto do ateísmo, quando na realidade ele assume que o ateísmo foi uma ideologia burguesa realizada/superada e que, por conseguinte, a luta nesse momento era (e ainda é) contra a alienação económica. Embora Jean-Paul Sartre tenha assumido o ateísmo e, portanto, o humanismo, a maior parte dos grandes pensadores marxistas nunca defenderam o marxismo como um ateísmo. Louis Althusser que rejeitou as obras de juventude de Marx, anteriores a 1845, como não sendo «marxistas», foi peremptório nesta «matéria»: «...o ateísmo é uma ideologia religiosa (ateísmo como sistema teórico) e, por isso, o marxismo não é um ateísmo. (...) O Marxismo não é um ateísmo tal como a física moderna não é uma física anti-aristotélica. (...) O marxismo trata a religião, o teísmo e o ateísmo do mesmo modo que a física moderna trata a física aristotélica, lutando teoricamente contra ela quando esta constitui um obstáculo teórico, combatendo-a ideológica e politicamente quando constitui um obstáculo ideológico e político. Do ponto de vista teórico o marxismo opõe-se a toda e qualquer pretensão teórica da religião. Teoricamente, o marxismo não é um ateísmo, é uma doutrina que, na medida em que a religião existe como obstáculo, se vê obrigado a lutar contra ela. É preciso que isto se diga porque é verdade. Ora bem, existem leis para a luta teórica, ideológica e política; lutar não quer dizer matar as pessoas nem forçá-las a renunciar às suas ideias. Lutar pode ser também reconhecer o que certas ideias aberrantes escondem de positivo... com as ideias existentes, portanto, uma luta sem trégua. Com o positivo que as ideias indicam, escondendo-o. existem amplas possibilidades de entendimento e esclarecimento...» (Carta a Michel Simon, Agosto de 1966). Curiosamente, quer Althusser tenha ou não tomado conhecimento, a obra de Ernst Bloch pode ser vista como uma leitura positiva de Marx com a religião judaico-cristã, levada a cabo em chave ateia, como testemunha a sua magnífica obra "Atheismus im Christentum. Zur Religion Des Exodos Und Des Reichs" (1968), de resto já presente nas suas obras anteriores "O Princípio Esperança" e "O Espírito da Utopia" (1918), para já não referir "Thomas Münzer: Teólogo da Revolução" (1919). Nesta obras, Bloch distingue uma corrente fria e uma corrente quente no marxismo: a primeira protagonizada por Engels é mais científica (ciência dialéctica das tendências), enquanto a segunda é mais utópica (nova ciência do futuro), não num sentido abstracto mas concreto: a Utopia Concreta, cujo conceito é pensado a partir de um novo materialismo ("Experimentum mundi", 1975). Para Bloch, «ateísmo e utopia concreta constituem, na radicalidade de um mesmo acto, simultaneamente a destruição da religião e uma esperança religiosa herética, uma esperança recolocada sobre os seus pés. A utopia concreta é a filosofia e a prática do conteúdo tendencial presente no mundo em estado de latência». O conceito de «transcender sem transcendência» (também usado por Jean-Paul Sartre) pode ser visto como outra maneira de dizer que a teoria de Marx está vinculada a uma filosofia escatológica da história que visa, em última análise, a realização do «reino da liberdade» (o equivalente marxista do Reino de Deus, mas sem Deus), num mundo sempre aberto à novidade e, portanto, à experiência do futuro, à experiência do mundo. Neste sentido, o marxismo autêntico e o cristianismo autêntico coincidem, tal como testemunharam as lutas dos camponeses guiadas pela "teologia da revolução" de Thomas Münzer. Embora refira Feuerbach, tal como fizera Marx, Bloch podia ter mostrado que a "Fenomemologia do Espírito" de Hegel era já, também ela, uma "antropologia secularizada e ateia". Sem este espírito utópico, o marxismo frio torna-se incapaz de orientar a práxis transformadora que visa a emancipação humana, bem como a "ressurreição da natureza", outro conceito de Marx muito pouco compreendido pelos seus discípulos (Veja Filosofia de Ernst Bloch). A filosofia da Esperança de Bloch inspirou a "Teologia da Esperança" de Jürgen Moltmann e a Teologia da Libertação na América Latina (Gustavo Gutierrez e Leonardo Boff). Todas superam o dualismo tradicional entre "história da salvação" e "história do mundo", sendo levadas a propor a realização da utopia concreta no horizonte da escatologia da história. Gutierrez defende que a história humana não é uma história paralela ao projecto salvífico de Deus, mas a estrutura concreta onde acontece a história da salvação: a história humana foi completamente assumida por Jesus Cristo. Ora, segundo a concepção de Bloch da religião desteocratizada e do "transcender sem transcendência", a ênfase é colocada na afinidade entre a escatologia utópica da Bíblia e a escatologia secularizada do marxismo. Para Bloch, o marxismo, dado ser um salto mediatizado do reino da necessidade no reino da liberdade, deve reclamar para si toda a herança subversiva e anti-estática expressa (evidente ou implicitamente) na Bíblia. Por isso, afirma que a Bíblia deve ser lida com os olhos do "Manifesto Comunista", sem deixar que o sal do ateísmo se torne insosso.
quarta-feira, 16 de janeiro de 2008
Fuga do Mundo e Reconciliação
Este poema de Else Lasker-Schüler (1869-1945) traz a marca de um pensamento profundo, de um pensamento que deseja pensar o Eu que pensa, como se o pensamento resultasse de uma acto de volição! As "Baladas Hebraicas" assentam num substrato pré-bíblico que não permite que o episódio do Antigo Testamento seja lido à luz do lugar-comum ou da tradição legitimadora. Se «o que é importante não é o poema, mas o estado poético», então este estado poético deve escapar a uma leitura legitimadora, quase oficial, afim de possibilitar «o regresso a mim».
De facto, a sociedade é vista como uma prisão que sufoca a criatividade da imaginação e, deste modo, o desenvolvimento da interioridade do eu. Ao impor os seus lugares-comuns aos "seus" indivíduos, a sociedade veda-lhes os caminhos da individualização e da autonomia. O mundo dos indivíduos sobresocializados é o mesmo para todos eles: um mundo fechado à possibilidade e à alternativa, um mundo que não possibilita a di-ferença e no qual todos falam a mesma linguagem.
Ora, é a um tal mundo de confusão anestesiante que a poetisa deseja escapar e que já não quer ver o mundo tal como este se vê a si próprio. Esta fuga ao sentido literal, ou melhor, ao sentido oficial e colectivo, segue os caminhos da rebeldia. Estes caminhos de revel nada mais são do que os caminhos da interioridade do eu, espelhado na transcendência ou nas fantasias sem limites das histórias «orientais» inventadas para rejeitar o mundo real, onde não há di-ferença, porque há mais sociedade do que indivíduo.
O título do poema diz o que o poema tematiza: "Fuga do Mundo" (Weltflucht). Contudo, esta fuga do mundo não é uma manifestação de ascese (Weber): não se trata de fugir a um mundo e agarrar-se a outro mundo já pré-fabricado. A fuga do mundo é encarada desde logo como um «regresso a mim». Porém, este regresso da poetisa a si própria não é nada fácil, dado que a poetisa, tal como qualquer outro mortal, está lançada num mundo que não escolheu e que, durante o seu longo processo de socialização, foi interiorizado pelo eu, incorporou-se ao eu. Conforme diria George H. Mead, a sociedade e a linguagem são anteriores ao "eu", donde resulta a concepção do eu como produto da sociedade e da interacção social. Ora, este eu sobresocializado carece de força para tentar libertar-se da presença do opressor que nele parece habitar. Só parece haver uma saída para quem deseja regressar a si próprio: «querer chegar ao sem limite», isto é, desejar escapar à sociedade intrasubjectivamente omnipresente, a ponto de nessa vertigem correr o risco da aniquilação individual total. Nesta vertigem, o indivíduo pode testar as suas próprias forças de individualização e os sem limites da sua imaginação. Chegar ao «sem limite», lá onde já não parece haver outra alternativa senão a resignação perante o poder da totalidade social, pode ser uma viagem sem regresso. Tudo parece depender daquela parte de si próprio que permanece enraizada na biologia sui generis de cada indivíduo: o impulso, a espontaneidade, a criatividade, enfim a imaginação poética. Cabe a este si próprio rebelde à socialização medir as suas forças interiores contra as forças indiferenciadas da sociedade. Muitos perdem-se nessa confusão: «tarde de mais, quem sabe... regressar». Mas quem não arrisca nunca saberá se seria demasiado tarde para tentar a sua sorte e regressar a si próprio. Para saber isso, é necessário que tenha a coragem de assumir esse risco fatal. Quem já não suporta ser sufocado pelo mundo comum, demasiado impessoal e colectivo, deve correr esse risco e correr este risco é apetrechar-se dos meios que a sociedade ainda lhe faculta e usá-los contra a sociedade da confusão. É quase como que se colocar num lugar originário anterior à formação da sociedade e, através da imaginação poética, criar mundos irreais que, quando confrontados com a sociedade estabelecida, mostram que esta é apenas uma possibilidade entre muitas outras sociedades possíveis. Contudo, uma tal transcendência dentro da sociedade que se pretende transcender é um movimento político: exige uma mudança radical e qualitativa da sociedade real. Mas, antes de mudar a sociedade da confusão, é necessário criar indivíduos que desejam libertar a sociedade, começando por se libertar a si próprios. Estes indivíduos que se re-belam só podem surgir do ardil: confundir a sociedade que confunde, de modo a «fugir para dentro de mim».
Mas o que significa aqui confundir? Confundir significa «fundir juntamente, ou misturar», «tomar as pessoas ou as coisas por outras, não distinguir», «pôr em desordem, misturando várias coisas», «perturbar a alma», «convencer com razões e envergonhar, rebatar, desmascarar», enfim, «humilhar, vexar, cobrir de vergonhas, levar alguém a não saber que responder». A tarefa poética de «pôr fim à confusão, confundindo, e fugir para dentro de mim» é extremamente arriscada. A sociedade funde juntamente todos os seus indivíduos, sufocando a sua voz que se perde, sem ser escutada, e morre numa voz que não é a sua voz mas a voz de um colectivo impessoal. Onde há excesso de sociedade, há défice de individualidade criadora: a língua só deixa pensar aquilo que sempre já foi pensado por todos os que nos precederam, ou seja, pela sociedade e pelos seus lugares-comuns cristalizados.
A distinção, isto é, a di-ferença, é neutralizada e silenciada numa só voz: a sociedade, o colectivo impessoal que sufoca, é, por natureza, in-diferente. Pôr fim a este estado de in-diferenciação impessoal, de confusão, é uma luta desigual, na medida em que o indivíduo já está socializado e, portanto, aprisionado nas teias simbólicas da sociedade. Ninguém que se atreva a escapar da tirania da sociedade sabe de antemão se será bem sucedido: pode ser tarde de mais para fugir do mundo que nos priva da nossa interioridade subjectiva.
«Outono» é a figura precisamente usada para designar o carácter arriscado dessa fuga do mundo, fuga esta que não é uma fuga para o deserto, longe da cidade dos homens, como sucedeu com os monaquistas, mas uma fuga para dentro de si próprio, permanecendo no entanto entre os homens na sua sociedade in-diferenciada. O caminho a seguir é, portanto, «confundir a confusão». Confundir a confusão significa, num só momento ou movimento, desmascarar e perturbar a confusão que não di-ferencia, opondo-lhe a fantasia sem limites das histórias inventadas como resposta da criatividade do eu mais profundo ao mundo real da in-diferenciação. Confrontar os outros «que convosco me sufocais» com outros universos virtuais que embaraçam a predominância hegemónica e a opacidade essencial do mundo comum real. Estes universos possíveis não são irreais, mas possibilidades bem mais reais, sobrereais, que abrem fendas no mundo real, criando agitação louca entre aqueles que não se diferenciaram do nós, uns dos outros, num mundo indi-ferenciado. Confundir a confusão é agitar e perturbar a in-diferenciação, deixando-a sem método e desorientada, e, nessa agitação, levar consigo para dentro de si próprio aquilo que sempre já lá estava: o substrato a partir da a-propriação do qual o eu genuíno, a interioridade do eu, pode ser re-feita, libertada dos sentidos sedimentados num meio simbólico demasiado oficial.
A poetisa a-propria-se assim da língua que é sempre a nossa língua, dando-lhe uma nova possibilidade de vir a ser, não a língua da con-formidade, mas a linguagem da re-volta. Com efeito, fugir para dentro de si próprio é re-voltar-se no sentido de regressar a si próprio, num diálogo interior em que o Si mesmo fala com o Mim, aquilo que já está previamente sedimentado e cristalizado em cada um de nós, o social, tendo em vista dar novos sentidos, novas direcções e novas orientações ao eu como ao mundo. «Regressar a mim» é voltar a si próprio, àquela esfera mais própria e mais íntima da nossa subjectividade, voltando a pensar de novo, desde a sua "origem", novas possibilidades de ser no mundo e para o mundo. O substrato, isto é, o Ilimitado é o pensamento "puro", o pensamento «sem limites», sem constrangimentos e sem coacções externas, sem barreiras. Puro acto de criação poética! Aquilo que é sem limites é o ilimitado e o pensamento que deseja pensar sem limites a-briga-se no Ilimitado, na clareira de Rilke, o lugar original donde briga, isto é, luta contra o limitado. O limitado é aquilo que vive confinado a si mesmo, o fechado em si mesmo, dentro dos seus limites. O mundo donde a poetisa deseja fugir é o mundo limitado e este mundo é o mundo que põe limites ao eu e à sua actividade autoreflexiva, o mundo que o mergulha profundamente na in-diferenciação. (Continua) J Francisco Saraiva de Sousa
terça-feira, 15 de janeiro de 2008
Uma Nova Antropologia da Libertação
Prós e Contras: As Consequências da Decisão
segunda-feira, 14 de janeiro de 2008
A Cultura Internet
Notas sobre a Galáxia Internet
O título reconduz-nos a outra grande obra no domínio das tecnologias da comunicação: A Galáxia de Gutenberg de Marshall McLuhan (1962). Esta recondução é feita pelo próprio Manuel Castells na Introdução, cujo título lembra outra tese defendida por McLuhan, segundo a qual «o meio é a mensagem», à qual Castells opõe esta: «A Rede é a mensagem». Como escreve Castells: «A Internet é um meio de comunicação que permite, pela primeira vez, a comunicação de muitos para muitos em tempo escolhido e a uma escala global. Do mesmo modo que a difusão da imprensa no Ocidente deu lugar ao que McLuhan denominou de "Galáxia de Gutenberg", entramos agora num novo mundo da comunicação: a Galáxia Internet». De certo modo, Castells parece elaborar uma periodização das tecnologias da comunicação, na qual a Galáxia de Gutenberg está a ser rapidamente substituída, desde finais do século XX, pela Galáxia Internet. Se a primeira possibilitou «a formação do homem tipográfico», a segunda parece ser dominada por diversos tipos de ciberhomens, em particular os Hackers, as Tecno-elites, os Crackers, as Comunidades virtuais e os Empreendedores. Contudo, há uma diferença significativa entre estes dois autores: McLuhan propõe uma das filosofias da história mais importante do século XX, apresentada sob a forma de diversos mosaicos capazes de revelar as operações causais na história e alargada posteriormente ao estudo da Internet pelo seu discípulo Derrick de Kerckhove (1995), enquanto Castells se dispersa em descrições de todas ou quase todas as dimensões da vida social, embora atribua a incapacidade de levar a cabo essa ambição ao facto de não dispor da energia e do tempo suficientes para analisar aprofundamente todas essas dimensões (1) e ao facto do objecto de estudo se desenvolver e mudar muito mais rapidamente que o próprio sujeito (2). McLuhan produziu uma filosofia da história a partir das fases do desenvolvimento das tecnologias da comunicação, encaradas como «extensões do homem», cujo valor ainda não foi avaliado pelos chamados filósofos profissionais; Castells expõe muitos dados à maneira da sociologia académica, como se tivesse alcançado e definido um novo paradigma, capaz de iluminar a era da informação. Porém, Castells esquece que o modo de produção continua a ser o mesmo e que muitas das ocorrências que apresenta como "novidades" são meras invenções sociológicas, sempre retomadas para condenar um sistema imune à sua crítica. Este tipo de sociologia revela a sua incapacidade e a sua inutilidade. Actualmente, a sociologia académica é uma inimiga da mudança social qualitativa. Daí que tenda a dissolver-se num tipo de história factual e muito opinativa, avessa ao pensamento conceptual e aos seus instrumentos de trabalho: os conceitos. Este é o aspecto que pretendo destacar neste post: a falência do sistema de ensino e de educação. As elites intelectuais não executam o seu trabalho: produzir conhecimento digno deste nome. Em vez disso, opinam e opinam muito mal, como se fossem destituídas de memória e de "arquivos dinâmicos"! O seu conhecimento é o resultado efémero de uma interface que o sujeito estabelece com certas fontes e recursos de informação presentes no momento de produzir um texto. A tirania da opinião é a face visível da regressão mental e cognitiva, um traço típico do homem metabolicamente reduzido, aquele que não precisa do pensamento para sobreviver. Castells não consegue produzir o conhecimento total e global da Internet e do seu impacto sobre a sociedade, a economia e a cultura, não porque o objecto esteja a mudar rapidamente, mas porque não é capaz de lidar com o pensamento conceptual. Em matéria de conhecimento científico, pensar é trabalhar com conceitos e saber articulá-los, de modo a elaborar sistemas teóricos capazes de iluminar a realidade em devir constante. Este trabalho exige memória e imaginação, portanto, aprendizagem de conteúdos objectivos de conhecimento, aquilo que o sistema de ensino destruiu em nome do espírito crítico. J Francisco Saraiva de Sousa
domingo, 13 de janeiro de 2008
Média Electrónicos e Cidadão Bem Informado
A teoria crítica foi sempre assombrada pela ideia de realização plena de uma sociedade livre, justa, racional e pacífica, sem nunca ter pensado o que os mortais fariam numa tal sociedade. Muitas das ambiguidades atribuídas a Marx, nomeadamente a sua posição em relação ao trabalho, à tecnologia, a democracia ou mesmo ao Estado, derivam desta miopia em relação à verdadeira condição humana. Aquilo que muitos teóricos críticos recusaram pensar está presente veladamente nessa ideia de sociedade perfeita: a morte. Uma sociedade perfeita seria, será ou já é aquela sociedade que conseguir domesticar (Lorenz) de tal modo a humanidade que esta se sinta satisfeita com uma vida metabolicamente reduzida. E o metabolismo está relacionado com a produção (Marx) e não com a significação (Braudillard) ou com a informação (Poster). Ao abandonar a crítica da economia política, a favor unicamente da crítica da cultura e da comunicação desenraízadas do modo de produção de Marx, a teoria crítica continua a cometer o mesmo erro que condenou a sua política revolucionária ou reformista ao fracasso avaliado à luz dos seus próprios "ideais" e "princípios". O grande erro da filosofia política oriunda da teoria crítica é esquecer a animalidade desse ser mortal capaz de fazer uso da palavra e de participar na esfera pública. Ironicamente, a sua sociedade ideal realiza-se a passos acelerados: a sociedade de consumo ou, como prefere dizer Hannah Arendt, a sociedade dos consumidores, tal como a conhecemos, é uma sociedade metabolicamente reduzida e o seu pretenso cidadão mais não é do que um ser metabolicamente reduzido: um animal doméstico servilmente passivo, obediente, integrado e resignado, que perdeu o contacto com a sua natureza instintiva e cultural rebeldes.
Ora, para quem ainda não dispensa o pensamento e os laços que o unem à nossa Herança Ocidental, a experiência da Internet mostra facilmente que a maior parte dos seus utentes não são "cidadãos bem informados", como supõe Poster. A sociedade dos cibernautas não é efectivamente uma sociedade de cidadãos bem informados. Pelo contrário, observamos facilmente que, no âmbito da blogosfera, a imensa maioria dos blogues revela um perfil humano incapaz de criar a sua própria agenda e de contribuir para o esclarecimento geral: a sua agenda não é apenas aquela imposta pelas práticas de "agenda setting" dos mass media tradicionais, os da "primeira era da média" (Poster), severamente criticados por Adorno, mas também a de seres incapazes de pensar por conta própria e de contribuir para uma nova filosofia política capaz de responder às próprias potencialidades emancipadoras desta nova tecnologia interactiva que é a Internet. O mais preocupante é que já nem sequer merecem a designação de "animais sociais": os links e as interfaces são usados não para alargar o campo de participação num projecto comum de esclarecimento e de mudança qualitativa, mediante a criação de comunidades virtuais ou de alianças interblogues, mas para garantir, ainda que de modo ilusório e narcisista, os interesses metabolicamente reduzidos dos seus agentes humanos.
A noção de cidadão bem informado foi criada por um filósofo que fundou a fenomenologia social, a partir de um diálogo profundo entre o seu mestre Husserl e a sociologia compreensiva de Max Weber: o seu nome é Alfred Schutz (1899-1959). No seu célebre ensaio "O Cidadão Bem Informado: Ensaio sobre a distribuição social do conhecimento", Schutz trata precisamente da distribuição social do conhecimento. Este tema da distribuição social do conhecimento, posteriormente retomado por Berger e Luckmann na sua sociologia conservadora do conhecimento, mais não é do que uma versão travestida da teoria de Marx das desigualdades sociais, colocada não ao serviço da emancipação e da formação cultural de todos os cidadãos, mas encarada na esfera restritiva da vida quotidiana, a esfera predilecta dos seres metabolicamente reduzidos, correspondente à vida doméstica dos escravos na Grécia Antiga. Além dissoo, a elaboração de três tipos ideais, nomeadamente o especialista, o homem comum e o cidadão bem informado, surge como uma legitimação da sociedade desigual estabelecida, dado alegar que os membros de uma sociedade não podem dominar todo o acervo de conhecimentos disponíveis: as desigualdades sociais são assim legitimadas, cabendo aos especialistas, os nossos burocratas administrativos, governar os destinos dos demais, dado o seu conhecimento não estar assente em meras conjecturas ou suposições vagas. O homem comum situa-se na base desta hierarquia profissional do conhecimento, visto estar dotado de um conjunto funcional de conhecimentos incoerentes entre si, incapaz de o orientar na governação do seu próprio destino e, por isso, colocando-o na dependência dos especialistas, cuja missão é tomar medidas para os orientar até mesmo na direcção dos seus assuntos práticos. Embora situado entre os especialistas e os homens comuns, o cidadão bem informado tem uma missão quase de relações públicas: apesar de não possuir um conhecimento de especialista, é capaz de formular opiniões razoavelmente fundamentadas em diversos campos dotadas de um interesse mediato que, ao transcender o conhecimento de receitas que indicam como obter, em situações típicas, resultados típicos por meios típicos, o colocam acima do homem comum.
Esta tipologia justifica a hierarquia das profissões corporificada por cada tipo ideal e, ao fazê-lo, apresenta as desigualdades sociais como algo incontornável: os especialistas governam, os homens comuns executam as suas tarefas em função dos seus conhecimentos rotineiros e obedecendo cegamente às medidas tomadas pelos especialistas que os espoliam da sua autonomia, e os cidadãos bem informados funcionam como intermediários, apresentando a situação dos homens comuns como um destino inexorável. Esta distribuição social do conhecimento revela o seu rosto ideológico quando se torna conhecimento socialmente aprovado por toda a sociedade e, como tal, funciona ideologicamente como fonte de prestígio e de autoridade, contando com a ajuda dos mass media que promovem a opinião pública. Nesta perspectiva, a democracia já não é a instituição política na qual deve predominar a opinião do homem comum, mas sim aquela forma velada de oligarquia, em que a opinião do cidadão bem informado predomina sobre a opinião do homem comum, condenado a não ter direito ao uso livre e responsável da palavra e, portanto, a não participar na esfera pública. Apesar de ser uma filosofia, a fenomenologia social acaba por ceder aos interesses de poder da sociologia administrativa, criticada por Adorno por ser uma mera apologética da sociedade estabelecida e das suas desigualdades sociais injustas. Tarefa que executa com a ajuda dos lacaios das classes dirigentes: os profissionais dos mass media que, em vez de informarem, fazem tudo para impedir os mortais comuns de compreender a sociedade a que pertencem e, portanto, de participar na governação dos seus destinos, dado que abdicaram do direito de cidadania, a partir do momento em que se deixam aprisionar pela natureza tirânica dos mass media que lhes rouba tempo, o tempo necessário para processar adequadamente as informações que circulam a ritmo acelerado e, deste modo, formarem as suas próprias opiniões racionalmente fundamentadas. Ao perder a memória e a imaginação, os homens comuns tornaram-se seres incapazes de pensamento independentes e, por isso, dependentes das ordens provenientes de cima, dos especialistas, difundidas pelos cidadãos bem informados, os lacaios dos poderes instituídos. Incapazes de exercer a actividade do pensamento interior e de a exteriorizar com os outros, de modo a libertarem-se da tutela dos especialistas e dos cidadãos bem informados, os homens comuns entregam-se cegamente às ordens emanadas dos seus dirigentes, cuja autoridade já não conseguem questionar, visto terem aceitado ser tratados como gado doméstico, sem se aperceberem que os seus governantes ou lideres são tão incultos quanto eles, dado o fracasso da educação ser total.
J Francisco Saraiva de Sousa
sábado, 12 de janeiro de 2008
Sadismo, Masoquismo e Internet
sexta-feira, 11 de janeiro de 2008
Linguagem, Pensamento e Realidade (1)
Todavia, na literatura antropológica, a hipótese de Sapir-Wholf é a única que pretende resolver os problemas da linguagem colocados no início deste post. As ideias contidas nesta hipótese concordam com o pensamento de W. von Humboldt e sua teoria do campo e foram formuladas nos anos 20 e 30 do século XX. Ligada directamente às pesquisas etno-linguísticas da antropologia cultural americana, esta hipótese inspira-se nos estudos linguísticos realizados por F. Boas.
Franz Boas (1859-1942) rejeitou as teorias que atribuíam à linguagem um papel criador em relação à cultura, pronunciando-se a favor das teorias que sublinhavam a função activa da cultura em relação à linguagem. Boas sublinhou sempre a importância dos estudos linguísticos para a etnologia e etnólogos, tais como R. Benedict, A.A. Goldenweiser, M. Y. Herskovits, A. L. Kroeber, R. H. Lowie, R. Radin ou E. Sapir, foram seus alunos. (Continua)
J Francisco Saraiva de Sousa