«Toda a filosofia da cultura deve acolher a noção de níveis pedagógicos. Toda a cultura é solidária com o plano de estudos, com o ciclo de estudos. A pessoa afeita à cultura científica é um eterno estudante. A escola é o modelo mais elevado da vida social. Continuar a ser estudante deve ser o voto secreto de todo o professor. Devido à própria natureza do pensamento científico na sua prodigiosa diferenciação, e devido à inevitável especialização, a cultura científica coloca incessantemente o verdadeiro cientista na situação de estudante. (...) O verdadeiro educador é aquele que ainda cresce psiquicamente ao fazer crescer, aquele que institui como indução psíquica a correlação do racionalismo docente com o racionalismo ensinado». (Gaston Bachelard) A obra epistemológica de Gaston Bachelard é muito densa e extremamente rica, compreendendo 14 títulos de livros, além de inúmeros artigos especializados. Embora não pretenda apresentar uma chave de leitura integral desta imensa obra, articulando-a com a sua poética, a partir de uma teoria junguiana da alma, tentarei destacar o traço mais constante da epistemologia bachelardiana: o facto de ser polémica. A filosofia da ciência de Bachelard é filha de uma polémica, de uma discussão, de uma luta teórica, constantemente retomada contra a "epistemologia unitária" dos filósofos. Do realismo meyersoniano ao existencialismo de Sartre, passando pela filosofia de Heidegger, nenhuma filosofia escapou ao crivo da sua crítica ou mesmos aos seus sarcasmos. A polémica incessante de Bachelard não tem origem dentro da filosofia, mas fora da filosofia, mais precisamente nas perturbações que a história real das ciências conheceu no princípio do século XX: o desenvolvimento das geometrias não-euclidianas, da teoria da relatividade de Albert Einstein e da mecânica quântica. Consideradas "sem precedente" por Bachelard, as novas disciplinas têm a função de uma ruptura epistemológica na história real das ciências. Sob a designação de "lei dos três estados do espírito científico", Bachelard sistematizou a evolução ternária que conduz do "espírito pré-científico" ao "espírito científico", e depois ao "novo espírito científico", impulsionado e protagonizado pelas novas ciências: as geometrias não-euclidianas, a mecânica não-newtoniana, a química não-lavoisiana, a lógica não-aristotélica, enfim a epistemologia não-cartesiana. Resultantes de verdadeiros actos epistemológicos, isto é, de "impulsos do génio científico que provocam impulsos inesperados no curso do desenvolvimento científico" e a irrupção no saber de novas "problemáticas teóricas", as novas disciplinas constituem "ciências sem antepassados", para a compreensão das quais Bachelard propõe uma categoria filosófica inédita, cuja função é discursiva: a categoria do Não. Constituída pela extensão regular da negação, que tinha sido utilizada para pensar a novidade desconcertante das geometrias não-euclidianas, a categoria do não tem uma dupla-função, descritiva e normativa, visto que tem de dar conta do facto da mutação que se produziu durante duas "pesadas décadas" da história das ciências do século XX, mas que implica ainda a exigência de que a filosofia reforme as suas noções mais fundamentais para pensar esta novidade inaudita. Ao assumir como tarefa a renovação da filosofia da ciência, Bachelard encontrou, para nela embater, a "filosofia dos filósofos", sobretudo a teoria do conhecimento de Émile Meyerson. A filosofia bachelardiana, que não parte de um "princípio", mas de um atraso da filosofia em relação às ciências, atraso desencadeado pela reorganização contemporânea das ciências "exactas", embateu, no próprio reconhecimento do seu objecto, num conjunto de teses filosóficas que constituíam obstáculos epistemológicos, os quais Bachelard pretende superar através da elaboração de uma nova filosofia da ciência. Além disso, outra consequência do encontro com a filosofia de Meyerson é ainda mais decisiva: Bachelard descobriu na filosofia de Meyerson a solidariedade entre uma tese sobre a teoria do conhecimento, o realismo, e uma tese sobre a história das ciências, o continuismo. A continuidade histórica do conhecimento apoia-se aqui na homogeneidade das formas de conhecimento: o conhecimento comum e o conhecimento científico. Censurando a primeira tese, Bachelard arruína a segunda: aqui reside o duplo-sentido, epistemológico e histórico, da noção de ruptura epistemológica, tal como funciona na filosofia bachelardiana. O princípio de continuidade defendido por Meyerson afirma que os progressos científicos são contínuos, porque os começos são lentos. Deste modo, a filosofia de Meyerson priva-se de compreender a evolução do conhecimento científico como evolução do espírito, no decurso da qual "o espírito científico só pode constituir-se destruindo o espírito não científico". De certo modo, a filosofia dos filósofos é uma filosofia de "homens idosos": quer dizer que a sua filosofia tem a "idade dos seus preconceitos". A velhice impede o acesso à ciência, porque "ter acesso à ciência é, espiritualmente, rejuvenescer, é aceitar uma mutação brusca que deve contradizer um passado". Dado não terem reconhecido e abordado as "descontinuidades do saber", os filósofos obstinados continuam a afirmar tranquilamente a "continuidade do saber". O seu espírito tornou-se incapaz de instruir-se e, por conseguinte, de transformar-se: a noção de que "o progresso é a própria dinâmica da cultura científica" é-lhes completamente alheia. A história das ciências que praticam esquece que esta história é a das "derrotas do irracionalismo". A filosofia dos filósofos é, pois, uma filosofia fechada, à qual Bachelard opõe uma "filosofia aberta" e "dialogada" que é "tão móvel quanto a ciência". Doravante, após ter verificado a distância da filosofia em relação à ciência em evolução, o objectivo proposto por Bachelard é "atribuir à ciência a filosofia que merece", a qual vai ser elaborada não só à margem de todas as teorias tradicionais do conhecimento, mas fundamentalmente contra elas. O atraso da filosofia aparece-lhe, portanto, como o deslocamento sistemático de qualquer teoria filosófica do conhecimento em relação ao trabalho efectivo dos cientistas. Bachelard propõe uma "topologia da filosofia", o "teclado com que se toca a maioria das discussões filosóficas referentes à ciência", que assume a forma de um "espectro", onde aparecem, dispersas à volta da realidade do trabalho de produção dos conceitos científicos, todos os tipos de teoria do conhecimento, pelo que esta topologia revela ser uma verdadeira tipologia da filosofia. O eixo é ocupado pelo racionalismo aplicado e pelo materialismo técnico, portanto, pela produção permanente de conceitos científicos, em redor do qual dançam sempre duas "filosofias contrárias": o idealismo e o realismo, nos dois extremos; o convencionalismo e o empirismo, em posição intermédia; e o formalismo e o positivismo, em posição mais próxima do eixo. Pensado unicamente para as ciências físicas e químicas, o espectro revela dois traços bastante notáveis: (1) qualquer filosofia, pelo facto de conter como peça mestra uma teoria do conhecimento, como exige o kantismo, define-se aqui pelo lugar, isto é, pelo seu deslocamento específico, em relação ao conhecimento científico; e (2) o conhecimento científico tem a função de um eixo, donde resulta que, pelo simples retorno à volta deste eixo, podemos fazer coincidir as várias "formas típicas da filosofia". Destes dois traços, Bachelard infere três conclusões: 1) o que se toma pelo conteúdo da "filosofia especulativa" mais não é do que a materialização fantasmagórica da sua distância à ciência; 2) a coincidência, sempre possível, das formas típicas, simétricas e opostas, da filosofia é o índice de uma identidade fundamental, pela qual qualquer forma filosófica não é mais do que a forma invertida mas idêntica de uma forma oposta; e 3) a essência da filosofia só pode ser determinada pela perspectiva do eixo, isto é, pela perspectiva de uma "filosofia científica" que "renuncie ao real imediato e que ajude a ciência na sua luta contra as intuições primeiras", destruindo sistematicamente os "limites" impostos à ciência pelas tradicionais filosofias dos filósofos: "A ciência cria filosofia". A análise espectral mostra como se distribuem as variantes de uma "polifilosofia". Um tal "pluralismo" permite atribuir a cada problema científico o seu respectivo "coeficiente filosófico" e, ao mesmo tempo, possibilita captar o "perfil epistemológico" de cada conceito científico no curso do seu desenvolvimento histórico: "Cada hipótese, cada problema, cada experiência, cada equação" recebe a sua própria filosofia e, sendo assim, podemos fundar uma "filosofia científica diferencial" que esteja em harmonia com a "filosofia integral dos filósofos". Para Bachelard, a ciência só pode ter toda a sua eficácia se o espírito se transformar: "A ciência instrui a razão. A razão deve obedecer à ciência, à ciência mais evoluída, à ciência em evolução. A razão não deve sobrevalorizar uma experiência imediata; deve, pelo contrário, pôr-se em equilíbrio com a experiência mais ricamente estruturada. Em todas as circunstâncias, o imediato deve ceder ao construído". (CONTINUA) J Francisco Saraiva de Sousa
domingo, 15 de fevereiro de 2009
Filosofia da Ciência de G. Bachelard (1)
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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
Charles Darwin: 200 Anos
... Comemoração do Bicentenário do Nascimento de Charles Darwin. Hoje em dia as diversas versões do darwinismo defendem a ideia de que a evolução dos seres vivos resulta apenas do acaso, filtrado pela selecção natural. A teoria da evolução é essencialmente uma teoria de dois factores: a diversidade e a adaptação harmoniosa do mundo orgânico resultam da produção constante de variações e dos efeitos selectivos do meio ambiente. A diversidade orgânica é uma resposta da matéria viva à diversidade de ambientes e de oportunidades para diferentes formas de vida no nosso planeta. Darwin explicou naturalmente a diversidade dos organismos e as suas imperfeições sem atribuir estes fenómenos naturais aos desígnios do Criador: o seu princípio da imperfeição exclui qualquer explicação baseada num desenho preestabelecido. A biologia molecular reforçou a ideia de unidade da vida, descobrindo uma notável uniformidade nos componentes moleculares dos organismos, tanto na sua natureza como na forma como são interligados e utilizados: a unidade molecular (o código genético, por exemplo) revela a continuidade genética dos organismos vivos. Todos os organismos estão aparentados e descendem, portanto, de um antepassado comum.
1. A teoria clássica da evolução de Charles Darwin (1809-1882) e dos seus seguidores próximos pode ser resumida em quatro afirmações: (1) Os seres vivos que vivem actualmente descendem de seres muito diferentes que viveram no passado; (2) as mudanças evolutivas foram de tal modo graduais que, se fosse possível reunir todos os habitantes da Terra, do passado ao presente, surgiria um conjunto de formas razoavelmente contínuo; (3) algumas destas mudanças foram divergentes e muitas das espécies vivas descendem de um número de espécies ancestrais que é tanto menor quanto mais longe se retrocede no passado; (4) todas as mudanças foram produtos de causas que continuam a operar e que, por isso, podem ser estudadas cientificamente. Darwin deu à sua teoria da evolução o nome de "teoria da descendência com modificação": as modificações correspondem à adaptação dos órgãos ao modo de vida particular de cada espécie. Tal como Lamarck, Darwin parte da constatação fundamental de uma adaptação ou adequação entre a forma dos seres vivos e o seu modo de vida: os organismos respondem às mudanças ambientais desenvolvendo uma forma, função ou comportamento mais adequado às novas circunstâncias. A teoria darwinista da evolução afirma que os seres vivos mudam e diversificam-se com o tempo e que os organismos muito díspares descendem de um antecessor comum que viveu no passado. A teoria de Darwin assenta em duas observações e em duas conclusões fundamentais. As observações são as seguintes: (1) A variação, sob a forma de diferenças individuais, existe em todas as espécies e populações; (2) todos os organismos produzem descendentes em número muito maior do que aquele que sobrevive até à idade reprodutiva. Darwin e Wallace deduziram a selecção natural do princípio de Malthus: qualquer população tende a crescer numericamente numa progressão geométrica e, consequentemente, mais cedo ou mais tarde, será confrontada com os recursos limitados à custa dos quais subsiste. Só uma pequena parte da progénie sobrevive; a maior parte morre, sem atingir a idade reprodutiva: os sobreviventes são aqueles indivíduos que são dotados de traços mais bem adaptados às circunstâncias de vida. Destas observações Darwin deduz duas conclusões: (1) Existe uma competição ou luta pela sobrevivência (termo retomado de Spencer), na qual muitos indivíduos mais fracos são eliminados em benefício dos indivíduos mais fortes: o progresso evolutivo assenta nesta luta pela sobrevivência. (2) As características dos indivíduos que são favorecidos neste processo de eliminação são transmitidas à geração seguinte e às futuras gerações. Segundo Darwin, a base da evolução consiste, portanto, no aparecimento de modificações aleatórias e herdáveis nos indivíduos de uma população. A selecção natural adopta as modificações benéficas e elimina as prejudiciais. Isto significa que a adaptação evolutiva implica uma mistura de diversidade e selecção, de acaso e de necessidade.
A ideia básica de que o processo evolutivo das espécies consiste no aparecimento de variações naturais nas populações sobre as quais a selecção natural actua, de modo a eliminar as modificações prejudiciais, estava assente, mas Darwin não soube explicá-la, sendo obrigado a reter a hereditariedade dos caracteres adquiridos de Lamarck como mecanismo subsidiário. Nas décadas de vinte e trinta do século XX, S.T. Tshetverikov, Ronald A. Fisher, Sewall Wright e J.B.S. Haldane lançaram os fundamentos da moderna teoria biológica da evolução, apoiados sobre deduções matemáticas de alguns postulados fundamentais da hereditariedade mendeliana. Este conjunto de desenvolvimentos constitui a teoria neo-darwinista ou teoria sintética da evolução, a qual foi aperfeiçoada por T. Dobzhansky, G.L. Stebbins, James W. Valentine, Francisco J. Ayala, Ernst Mayr e George G. Simpson. Nesta perspectiva, a definição mais geral de evolução foi dada por Lewontin: "O estado actual de um sistema é o resultado de modificações mais ou menos contínuas do seu estado original". Ou, como prefere dizer Dobzhansky: "A evolução consiste numa alteração da composição genética das populações", ou, com maior precisão, numa alteração da frequência de alelos no seio das populações. A redescoberta das leis de Mendel (1822-1884) realizada por Hugo de Vries permitiu resolver o problema da variação: a genética mendeliana rejeita a teoria da hereditariedade por mistura, mostrando que a hereditariedade se baseia em "partículas elementares", os genes, que não se misturam entre si à maneira dos líquidos, mas permanecem bem distintos durante a transmissão hereditária. O esquema darwinista é revisto à luz do mendelismo: as variações espontâneas mais não são do que mutações (T.H. Morgan, o pai da genética moderna) em que a selecção natural viria operar e a competição passa a situar-se ao nível do mutante e do normal, devendo o mais dotado vencer o menos dotado e acabando, através de cruzamentos, por impor a sua descendência a todo o grupo. A selecção natural limita-se a fazer uma triagem ou "escolha" entre o "gene selvagem" e a sua mutação, para conservar apenas o mais bem adaptado às exigências do meio. O processo de mutação fornece o material genético bruto com o qual a selecção pode trabalhar. A emergência da moderna teoria da evolução foi pensada como resultado de uma revolução filosófica: a substituição do modo de pensamento tipológico pelo modo de pensamento populacional (Mayr). Esta mudança de paradigmas está na base do desenvolvimento da genética das populações.
Bicentenário do nascimento de Darwin. Ernst Mayr sempre apresentou a teoria sintética da evolução ou síntese moderna (Huxley) como a teoria unificadora da biologia. Porém, apesar da beleza desta teoria unificada, os darwinistas dividem-se em grupos envolvidos em controvérsias científicas: os gradualistas defendem que a evolução ocorre por meio de uma sequência de modificações imperceptíveis, desde que se espere bastante tempo, enquanto os saltacionistas ou mutacionistas admitem descontinuidades maiores no decorrer do processo evolutivo. Esta última teoria foi elaborada por Hugo de Vries: um espécime pode nascer de um único mutante, desde que a mutação seja suficientemente profunda para conferir ao seu portador caracteres inteiramente novos e muito favoráveis. R. Goldschmit e, mais recentemente, Stephen Jay Gould e Niles Eldredge retomaram esta teoria: o esquema das mudanças bruscas ou da evolução por saltos opõe-se à visão de Darwin da evolução como um processo gradual, operando por intervenções sucessivas, disseminadas por longos períodos de tempo, e avesso a modificações bruscas e únicas, destituídas de valor evolutivo. Ao defender a ideia de que o nascimento de uma espécie se faz por um salto, a partir de uma espécie-mãe, a teoria mutacionista pode ser qualificada como antidarwinista: a evolução por saltos proposta por Goldschmit é realmente contrária à teoria darwinista. Outra controvérsia científica derivada da discussão da estrutura genética das populações (a relação entre selecção natural e o polimorfismo genético) é a que eclodiu entre seleccionistas e neutralistas, a propósito do papel do acaso na evolução: os seleccionistas consideram que o alvo da evolução não é o indivíduo ou o gene, mas sim a população, isto é, o conjunto de indivíduos interfecundos, vivendo na mesma época e num mesmo lugar e participando do mesmo pool de genes; enquanto os neutralistas, liderados por Motoo Kimura, postulam que a maior parte das mutações permanecem neutras, ou seja, defendem que os diferentes alelos de uma mesma série têm o mesmo valor selectivo. Estas mutações neutras distribuem-se de acordo com as leis do acaso: a selecção natural não constrói e não inova; pelo contrário, protege e mantém, eliminando apenas as raras mutações desfavoráveis. Estas controvérsias científicas, bem como outras que não vou analisar, são extremamente saudáveis: elas ajudam a acelerar o crescimento do conhecimento científico dos mecanismos do processo de evolução, tanto da evolução filogenética que consiste nas mudanças graduais que se produzem com o tempo numa só linha de descendência, como da especiação que se verifica quando uma linha de descendência se divide em duas ou mais linhas, dando origem à diversidade da vida, através da implementação de experiências deveras interessantes e inovadoras. Neste aspecto, apesar de não concordarmos com a filosofia implícita na sociobiologia, devemos integrar os contributos decisivos dos defensores do princípio do egoísmo genético: todos estes biólogos ajudaram a esclarecer não só a história evolutiva dos organismos, mas também a descobrir os mecanismos que explicam a mudança evolutiva, tais como a recombinação genética ou a derivação genética. 2. Os evolucionistas do século XIX, incluindo Jean-Baptiste Lamarck (1744-1829), procuraram fundamentalmente demonstrar que a evolução era um processo que tinha ocorrido efectivamente na história geológica da Terra. Darwin apresentou, na sua obra "A Origem das Espécies" (1859), um conjunto de cinco categorias de provas da evolução: as provas paleontológicas, biogeográficas, sistemáticas, morfológicas e embriológicas. As provas paleontológicas testemunham a maneira como realmente decorreu a evolução das espécies à superfície da Terra: os restos fósseis são os arquivos da história da vida e a análise de alguns exemplos corrobora a noção de evolução. As provas biogeográficas estão relacionadas com a distribuição das espécies na superfície da Terra: Darwin procurou explicar a distribuição geográfica de determinadas faunas particulares através da noção de "descendência com modificação". As provas sistemáticas referem-se à classificação das espécies num vasto sistema de géneros, famílias, ordens, classes, etc.: as classificações são, para Darwin, genealogias, capazes de fornecer o "plano da Criação", e, como não são arbitrárias, reflectem aglomerados de formas orgânicas objectivamente observáveis e às quais Darwin atribui a uma descendência comum. As provas morfológicas referem-se à morfologia dos animais: as homologias existentes na organização de traços anatómicos de espécies distintas testemunham a existência de relações genéticas comuns. As provas embriológicas dizem respeito ao desenvolvimento dos embriões: a famosa "lei da recapitulação" de Ernst Haeckel (1834-1919) afirma que a ontogénese (o desenvolvimento embrionário) recapitula a filogénese (a formação sucessiva das espécies por descendência durante os tempos geológicos). Bicentenário do nascimento de Darwin. O conjunto destas provas da evolução apresentado por Darwin foi suficiente para convencer quase todos os membros da comunidade científica até aos nossos dias: as espécies nascem de outras espécies que são os seus antepassados. Porém, muito recentemente, Michael Denton negou o próprio facto da evolução das espécies, dando abertura ao aparecimento de uma biologia criacionista. É difícil explicar este ressurgimento retrógrado das teorias das criações sucessivas, defendidas no passado por Georges Cuvier (1797-1832), Louis Agassiz (1797-1873) ou Alcide d'Orbigny (1802-1857), e com as quais Darwin tinha rompido ou, pelo menos, aberto o caminho para a ruptura, a não ser em função do desenvolvimento acelerado da biologia molecular e da bioquímica do nosso tempo, cujos maiores triunfos foram alcançados com o auxílio da biologia cartesiana que visa reduzir a biologia à posição de um ramo especializado da química e da física, explicando as leis biológicas a partir de leis físico-químicas. Ora, Denton é bioquímico e, como tal, nunca observou os seres vivos na natureza. A sua teoria foi elaborada não a partir do que revelam os seres vivos inteiros, mas sim a partir de uma sopa molecular colocada em provetas: a nossa cultura científica já não é uma cultura naturalista. Michael Behe é outro bioquímico que rejeita completamente a teoria da evolução, alegando que as máquinas vivas foram planeadas por um arquitecto superior. No entanto, este retrocesso teórico pode ser explicado pelo desencanto produzido pela versão ultra-adaptacionista do darwinismo, protagonizada pela sociobiologia, tal como é praticada por W.D. Hamilton, Richard Dawkins, John R. Krebs, Nicholas B. Davies, John Maynard Smith, George C. Williams, R.L. Trivers e Edward O. Wilson, e pela sua associação íntima com o pensamento de Direita ou mesmo com a Nova Direita. É evidente que Darwin, na sua obra "A Origem do Homem e a Selecção Sexual" (1871), colocou (parcialmente, dado Wallace ter sido mais radical) o homem ao mesmo nível das outras espécies de seres vivos: destronou o homem da sua posição dominante no mundo, prolongando assim a revolução desencadeada por Copérnico, pela qual a Terra, habitat do ser humano, tinha sido destituída da sua posição de centro do mundo, como vimos em posts anteriores. A revolução darwinista completa a revolução copernicana: com Darwin, bem como com Marx e Freud, o homem parece condenado a admitir que o seu lugar na natureza não é central e que o seu aparecimento enquanto espécie foi contingente. A sociobiologia vai mais longe quando pretende ser portadora de uma mensagem sobre o sentido da existência humana. É esta conversão da teoria da evolução numa "teoria moral" (Robert Wright) que está na raiz das recentes controvérsias científicas: R.C. Lewontin acusa os sociobiólogos de apresentarem e defenderem uma imagem do homem redutora e moralmente chocante e a embriologista Rosine Chandebois propôs uma nova teoria explicativa dos fenómenos evolutivos que, excluindo simultaneamente o acaso e o papel da selecção natural, abandona ao mesmo tempo o darwinismo.
J Francisco Saraiva de Sousa
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terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
Prós e Contras: À Beira do Desemprego
Dedicado ao problema do desemprego em Portugal, com o título "À Beira do Desemprego", o debate Prós e Contras de hoje (9 de Fevereiro de 2009) contou com a participação, no palco, de Vieira da Silva (Ministro da Segurança Social), António Borges (PSD), Carvalho da Silva (sindicalista da Inter), João Proença (sindicalista da UGT), António Saraiva (CIP) e Alberto Figueiredo (empresário), e, na plateia, inúmeros representantes das Comissões de Trabalhadores, autarcas e alguns empresários de Vila do Conde, Mangualde, Santa Maria da Feira, Guimarães, Caldas da Rainha e Évora. De Norte a Sul de Portugal, milhares de trabalhadores perdem o emprego e, neste momento, existem 434 mil desempregados registados, sem contar com outros largos milhares que não têm direito ao subsídio de desemprego ou que desistiram de encontrar emprego. Há uma frase de Marx que ajuda as pessoas a compreender a precariedade da sua situação no mundo: "Tudo o que é sólido se dissolve no ar". Numa sociedade capitalista, ninguém, com excepção dos verdadeiramente muito ricos e estes são poucos, tem a vida segura e assegurada: a ilusão da segurança está prestes a ruir e qualquer pessoa pode acordar no desemprego e, a seguir, tornar-se um sem-abrigo. Esta é a lógica do capitalismo: todos somos potencialmente seres sem-abrigo. A génese do capitalismo foi sangrenta: a acumulação primitiva do capital desapropriou as pessoas da terra e dos meios de produção, convertendo-as em mão-de-obra. A corrupção que está por detrás desta crise financeira e económica é mais outra versão da acumulação de capital e do seu alargamento aos gestores, administradores e políticos. Os desempregados engrossam as fileiras do exército de mão-de-obra que os empresários vão tentar explorar ao máximo. O desemprego é, como disse António Borges, um "problema sério e crónico", dado já vir detrás, não sendo completamente atribuível à actual crise económica. O atraso estrutural de Portugal vai acentuar e agravar os efeitos nefastos da crise económica que vivemos, talvez a maior crise mundial que vai afectar negativamente a economia e a sociedade portuguesas. Basílio Horta comparou a nossa crise económica com um "terramoto": o colapso da economia portuguesa é um acontecimento angustiante diário. Vieira da Silva, aliás um bom e sábio ministro, reconheceu claramente que Portugal vive momentos de "grande dificuldade", lembrando que, ao contrário do que tinha dito António Borges, a crise financeira afectou profundamente a economia real. A crise económica não pode ser minimizada e muito menos escamoteada. Dias cada vez mais negros, "dias de angústia" (Basílio Horta), "dias de desespero" atroz (António Borges), "dias difíceis" (Vieira da Silva) aproximam-se, ameaçando a segurança social e moral das pessoas. Os intervenientes suspeitam que, após a crise económica, pode vir a seguir uma "grave crise social", podendo o Estado "decretar" o estado de "emergência social". Alberto Figueiredo esboçou um breve diagnóstico e prognóstico da crise: "Muita produção e pouca procura", portanto, uma espécie de crise de superprodução, desencadeada pela crise financeira, pela falta de confiança e pela queda do consumo, que leva as empresas à falência, à deslocalização (em busca de trabalho mais barato) e ao fechamento, ou, pelo menos, a introduzir reduções no número de empregos, engrossando assim as fileiras de desempregados. Vieira da Silva acrescentou a este cenário da quebra da procura as dificuldades de crédito: a crise financeira (a superbolha) produziu escassez de crédito às empresas, a escassez de crédito leva as empresas à falência e a falência ou o fechamento das empresas aumenta astronomicamente o desemprego. O resultado final é que as pessoas têm cada vez menos dinheiro e, sem este, o consumo desce até aos limiares da pobreza e da miséria mais ignóbil: as empresas produzem mas não vendem. Enfim, sem vender os seus produtos no mercado interno ou através da sua exportação e sem o recurso ao crédito, as empresas não podem sobreviver, sendo obrigadas a fechar ou a reduzir drasticamente o número dos seus empregados. É evidente que uma tal análise económica enfureceu os sindicalistas, principalmente Carvalho da Silva, cuja intervenção inicial pretendia repor "ordem na mesa", de modo a evitar um "desvio" do tema fundamental: o desemprego, "o maior problema nacional". Usou um argumento humanista: o desemprego não são só números, mas pessoas que perdem o seu status social e todos os outros atributos que dependem do status, o que põe em causa a "coesão nacional". Contudo, coube a João Proença denunciar a "imoralidade" do fechamento de certas empresas, lembrando que a Inspecção Geral do Trabalho já levantou 9 processos. Estas falências são fraudulentas e ilícitas, graves e criminosas. O empresário Alberto Figueiredo reconheceu a possibilidade de alguns casos de falências fraudulentas; porém, preferiu destacar as excepções, alegando que muitos empresários como ele sofreriam muito se tivessem de fechar as suas empresas. Para estes empresários, fechar as suas empresas seria "perder a vida", uma viva investida na criação e no crescimento das suas empresas, além de constituir um "drama social" com graves repercussões na qualidade de vida dos seus trabalhadores. Carvalho da Silva reage furiosamente a esta "boa intenção" dos empresários, afirmando que o "desrespeito das leis" produz entre as pessoas um "sentimento de impunidade" dos empresários. Na sua perspectiva, deve ser dada "visibilidade mediática" a todas estas falências fraudulentas. A falta de inspectores e a recente "má alteração da lei do trabalho" agravam mais a situação precária dos trabalhadores. António Saraiva responde-lhe, dizendo que "ver a cesta da fruta e só ver a maçã podre" é uma visão muito redutora, até porque existem bons e maus empresários, tal como também existem bons e maus sindicalistas ou trabalhadores. Lançar um "anátema" sobre todos os empresários é, portanto, um abuso de linguagem. João Proença reforça a sua crítica dos empresários desonestos que aumentam os contratos a prazo, o que não possibilita aos jovens salvaguardar o seu futuro, de resto um futuro provavelmente muito negro. Contudo, interrompendo esta discussão entre empresários e sindicalistas, um "empresário" de Guimarães disse que anda à procura de 10 novas empregadas para a sua empresa têxtil, mas que até agora não conseguiu recrutá-las, o que o levará a fechar a empresa no final do mês corrente. Ele paga-lhes o ordenado mínimo nacional, mas, como o subsídio de desemprego é de valor equivalente ou mesmo superior, os trabalhadores preferem não trabalhar, conjugando o subsídio de desemprego com um emprego clandestino ou paralelo. O português, além de ser preguiçoso, é vigarista. António Borges lembrou que a mão-de-obra portuguesa no estrangeiro é muito apreciada, mas esqueceu referir a baixa produtividade do trabalho dos portugueses que trabalham e vivem em Portugal. Além disso, a economia paralela é uma terrível e funesta realidade em Portugal: Vieira da Silva recordou que o cruzamento da informação tem permitido cortar o subsídio de desemprego a estes vigaristas. Estas contradições dialécticas devem ser seriamente ponderadas: o apoio social e os direitos adquiridos constituem obstáculos ao desenvolvimento e à competitividade da economia nacional, reforçando o lado animal preguiçoso do homem. Como resistir? O que fazer para contornar a crise? Como dar a volta?: eis as últimas perguntas dirigidas por Fátima Campos Ferreira aos seus convidados. Algumas medidas aprovadas pelo governo para evitar o aumento do desemprego foram referidas, em especial os 3 mil milhões de euros que serão usados para combater o crescimento galopante do desemprego ou mesmo as verbas previstas para apoiar as empresas, sobretudo as médias e pequenas empresas, de modo a evitar o seu fechamento. Este apoio é visto como uma medida que visa manter o emprego, mesmo no caso de empresas cujos produtos não se vendam. Empresas que eram até há pouco tempo altamente competitivas tornaram-se nos últimos meses empresas fracas que atravessam muitas dificuldades, devido à perda de mercado para os seus produtos. António Borges defendeu o fomento do "apetite pelo emprego" que o governo deve desenvolver e incentivar nas empresas: precisamos de "empresas sólidas e não de joelhos". (As empresas de joelhos reconduzem-nos para outro problema nacional: o sexo oral que invadiu os espaços sociais e institucionais, os espaços de trabalho e de lazer!) E os dois empresários aconselham o Estado a pagar as suas dívidas às empresas, de modo a reaverem atempadamente as dívidas de IVA e a injectar capital no mercado, o bem-fetiche que escasseia neste momento de aflição. Alberto Figueiredo relatou o sucesso mundial da sua empresa, para reforçar a ideia de defender as "boas empresas" e criar mais empresas. António Borges viu nessa via e não no "deitar dinheiro para cima das situações" periclitantes por parte do Estado, dinheiro que se "agarra com cola a certas mãos corruptas" (Carvalho da Silva), a melhor via para dar a volta a esta crise. São as empresas que devem criar emprego e não o Estado, cujo papel deve ser o de facilitador. A palavra de ordem lançada por Alberto Figueiredo é uma palavra de optimismo, em contraste com a frase moderada e sábia de Vieira da Silva, "a crise não é eterna": "Lutar muito para vencer" (Alberto Figueiredo), luta esta que não passa por "medidas tardias e paliativas" (António Borges) ou por medidas com "falsa eficácia estatística" (Carvalho da Silva). Se esta crise é um colapso do sistema económico vigente, ela só pode ser debelada pelo uso criativo de uma nova imaginação política, capaz de inventar um novo futuro, um futuro que já não pode ser protagonizado pelas mesmas figuras que nos conduziram à miséria presente e que, como estamos a ver, estão envolvidas na corrupção: as figuras da desgraça nacional devem ser substituídas por novas figuras mais competentes e honestas. O futuro deve ser construído pelos portugueses que não se corromperam e cujo mérito pode salvar Portugal de uma grave crise social. A nova imaginação política de que precisamos é uma imaginação dialéctica e, como tal, não se coaduna com a política de "dar as mãos" proposta por Alberto Figueiredo: a concertação social faliu completamente em Portugal. O futuro não resulta de mesas redondas onde as partes procuram garantir os "direitos adquiridos", com o desconhecimento total da realidade social e humana portuguesa. Para que a crise não seja "eterna" (Vieira da Silva), é necessário ter coragem e dar o salto qualitativo: redimensionar a economia nacional e mudar radicalmente de paradigma de sociedade. Os portugueses estão cansados de "mais do mesmo", "as mesmas moscas, a mesma merda": os que mergulharam Portugal no atraso agravado pela actual crise económica não podem vir a ser milagrosamente os salvadores da pátria. Sindicalistas, empresários, gestores e políticos visíveis, quase-eternos e identificados com a degradação do país são figuras responsáveis pela momento difícil que vivemos. Eles devem ser responsabilizados e punidos (António Borges) ou, como prefiro dizer de modo provocante, condenados à Pena de Morte. J Francisco Saraiva de Sousa
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sábado, 7 de fevereiro de 2009
O Nascimento da Ciência Moderna (4)
«(Na mecânica ondulatória,) as leis da natureza não têm um carácter tão exacto como na física clássica; não há já um determinismo rigoroso dos fenómenos, mas somente leis de probabilidade (= leis estatísticas). É o que exprime de modo preciso o célebre "princípio de incerteza" enunciado por Werner Heisenberg. As próprias noções de causalidade e de individualidade tiveram que ser submetidas a um novo exame, e desta considerável crise de princípios directores das nossas concepções físicas sairão, sem dúvida, consequências filosóficas ainda hoje não bem compreendidas». (Werner Heisenberg) Se lermos com muita atenção a obra de W. Heisenberg, ficamos com a impressão de que a revolução científica do século XX pode ser vista como uma espécie de revolução anti-copernicana, a qual exige uma nova filosofia. Quando formula em termos matemáticos as leis da natureza, a mecânica quântica "pressupõe sempre o homem e não devemos esquecer, como diz Niels Bohr, que, no espectáculo da vida, nunca somos apenas espectadores, mas também, constantemente, actores" (Heisenberg). O reconhecimento do homem como "actor" leva Heisenberg a apostar na cultura humanística que deriva inexoravelmente do pensamento grego e a identificar essa aposta com a "opção pelo Ocidente". Nesta perspectiva, não há "teorias mortas", como afirmam muitos burrecos nacionais que pretendem filosofar e criticar sem previamente terem adquirido conteúdos objectivos de conhecimento, como se a crítica fosse anterior ao conhecimento e à própria entrega ao objecto. A perspectiva destes luso-burrecos é a da tagarelice ou, como diz Heidegger, a da vida inautêntica e fácil de homens alienados do seu poder-ser. Darwin, Marx e Freud foram lidos como tendo levado a revolução copernicana até à intimidade do homem, embora Marx nunca tenha usado essa expressão para caracterizar a sua imensa revolução teórica. A mecânica quântica imprime outro rumo, recolocando o homem na natureza e atribuindo-lhe um papel activo no conhecimento da natureza. A imagem científica da natureza deixa de ser supostamente uma imagem da natureza "em si mesma" ou tal como Deus a concebeu na criação e passa a ser a imagem da relação do homem com a natureza. A noção de limite readquire um novo estatuto epistemológico e metafísico, questionando e comprometendo a própria noção de progresso. Deste modo, Heisenberg estabeleceu uma conexão essencial entre a "cosmologia" e a antropologia, conexão que foi pensada pelos físicos posteriores e, aparentemente, desprezada pelos filósofos absorvidos na tarefa de destronar ou destruir o homem. O positivismo teve este efeito perverso na cultura ocidental: "separar" as duas culturas (S.P. Snow), como se elas fossem irreconciliáveis, dando prioridade à cultura científica sobre a cultura filosófica. Contudo, tanto a revolução científica do século XVII como a revolução científica em andamento desmentem cabalmente o positivismo e a sua pobre visão do mundo. Nos seus últimos desenvolvimentos teóricos, a própria física "regressa" à filosofia ou, como diz Heisenberg, "é filosofia", e, curiosamente, quando Stephen Hawking fala do "fim da física", retoma um velho conceito hegeliano. Uma tal teoria unificada e, portanto, completa do cosmos, visa reconciliar os dois pilares da física contemporânea, a teoria da relatividade geral de Albert Einstein, que permite compreender o universo em grandes escalas (estrelas, galáxias e a imensidão do universo), e a mecânica quântica, que permite compreender o universo nas mais pequenas escalas (átomos, moléculas, electrões e quarks). A teoria das supercordas pretende casar as leis que regem o grande e o pequeno, superando os seus conflitos e mostrando que as duas teorias precisam uma da outra: toda a matéria e todas as forças (electromagnética, fraca, forte e gravítica) são unificadas sob o mesmo conceito de oscilações de cordas. (Regressemos ao nosso tema!) 3.3. A Física de Galileu. Durante o seu período de Pisa, o jovem-Galileu tenta, aliás na peugada de Benedetti, matematizar a física do impetus, mas, como não consegue superar o seu impasse, será levado a edificar uma nova física, cujo modelo lhe é fornecido por Arquimedes. O jovem-Galileu desenvolve a dinâmica do impetus, de modo a mostrar que o movimento do móvel é um efeito da força que o anima: a força motriz imprimida ao móvel explica o fenómeno do arremesso, sem ser necessário recorrer à reacção do meio, como fez Aristóteles. A noção de força motriz permitiria a formulação do princípio de inércia, desde que concebesse a continuação indefinida do movimento, mas, para Galileu e Benedetti, o movimento eterno era um absurdo, porque a força que produz um movimento não pode permanecer a mesma em dois momentos consecutivos e, por isso, o movimento produzido desacelera até se extinguir. Deste modo, a física do impetus não só é incompatível com o princípio de inércia, como também nega a aceleração do movimento de queda. Para o jovem-Galileu, a velocidade ou a lentidão do movimento de queda depende do maior ou menor peso do corpo que cai. A velocidade não é função da resistência do meio, como em Aristóteles, mas é algo inerente e intrínseco ao próprio movimento: a velocidade da queda de um corpo é proporcional ao seu peso e o seu valor é constante para cada corpo dado. É certo que um corpo que cai, cai cada vez mais depressa, mas esta aceleração só se dá no início do movimento da queda até ao momento em que o corpo em queda atinge a sua velocidade própria, proporcional ao seu peso. Nesse momento, a velocidade permanece constante e o movimento acelerado transforma-se em movimento uniforme. A velocidade própria de um corpo em queda é função do seu peso, não do seu peso absoluto, mas do seu peso específico ou relativo. Com a introdução da noção de peso relativo, Galileu faz rebentar a física do impetus. O caso de um corpo pesado lançado ao ar verticalmente permite-lhe compreender que a leveza e o peso são definidos a partir dos efeitos que produzem: a leveza faz com que o corpo suba e o peso faz com que o corpo desça. Leveza e peso não são qualidades absolutas, mas sim propriedades relativas ou meras relações. Um corpo leve eleva-se e um corpo pesado desce em função do meio em que está colocado: a força com que sobe ou desce é medida pela diferença entre o seu peso específico e o peso de um volume igual do meio em que se encontra. O facto de um corpo possuir um peso absoluto leva Galileu a reconhecer que o único movimento natural é o movimento dos corpos pesados para baixo, ou seja, para o centro do mundo. A distinção entre peso absoluto e peso relativo, conjugada com a ideia de que a velocidade da queda de um corpo é função do seu peso relativo no meio dado, conduzem Galileu a reconhecer que é no vazio e apenas no vazio que os corpos pesam os seus pesos absolutos e caem com uma velocidade que é a sua velocidade própria. Com esta última noção, Galileu é levado a definir o movimento como estado. A ruptura com Aristóteles e a física do impetus consuma-se: Galileu já pode elevar-se ao nível de uma física matemática, embora tenha retido a noção de centro do mundo onde se situam os corpos pesados e ao seu redor, em camadas concêntricas, os corpos mais leves. O que é o movimento para Galileu? O movimento é algo estranho que não afecta o corpo que dele é dotado, como pensavam os aristotélicos ou mesmo Leibniz: estar em movimento ou estar em repouso não afecta, isto é, não altera o corpo em movimento ou em repouso. O corpo é totalmente indiferente ao movimento e ao repouso. Assim, não podemos atribuir o movimento a um determinado corpo em si mesmo, porque um corpo só está em movimento em relação a outro corpo que supomos estar em repouso. Todo o movimento é relativo e, por isso, pode ser atribuído ad libitum a um ou a outro dos dois corpos. Porém, embora seja relação, o movimento é um estado, tal como o repouso. Ambos são estados persistentes. De acordo com a famosa lei da inércia, a primeira lei do movimento de Newton, que não foi formulada por Galileu, como lhe foi atribuído pelos seus seguidores, Cavalieri, Torricelli e Gassendi, mas por Descartes, um corpo abandonado a si mesmo persiste eternamente no seu estado de movimento ou de repouso, a não ser que sofra a acção de uma força externa que transforme um estado de movimento em estado de repouso e vice-versa. A eternidade não é inerente a todo o tipo de movimento, mas apenas ao movimento uniforme em linha recta. Uma vez posto em movimento, um corpo conserva eternamente a sua direcção e a sua velocidade, desde que não sofra a acção de uma força externa. Embora conhecesse o movimento circular e eterno das esferas celestes, o aristotélico Simplício, no caso do diálogo galilaico, retorquía que nunca tinha encontrado um movimento rectilíneo permanente e com razão, porque um tal movimento, conforme mostrou Salviati, só pode ser produzido no vácuo. Isto significa que os corpos que se movem num espaço vazio e infinito não são corpos reais que se deslocam num espaço real, mas corpos matemáticos que se deslocam num espaço matemático homogéneo e infinito. A conclusão de Salviati de que todos os corpos caem com a mesma velocidade, independentemente do peso (massa), exige, evidentemente, o auxílio da segunda lei do movimento e da lei da gravitação de Newton. A lei da aceleração afirma que, se um corpo sofrer uma acção de uma força externa, ele acelerá no sentido dessa força, e a aceleração será proporcional à força e inversamente proporcional à massa do corpo (F= ma). A lei da gravitação universal de Newton afirma que todo o corpo, partícula ou quantidade de massa no universo atrai todos os demais corpos do universo, com uma força proporcional ao produto das suas massas e inversamente proporcional ao quadrado da distância entre eles. Estas leis do movimento, incluindo a lei da acção e reacção, e a lei da gravitação universal foram formuladas por Newton no seu livro "Os Princípios Matemáticos da Filosofia Natural" (1687). Antecipada filosoficamente por Giordano Bruno, a noção de universo infinito é consumada pela física de Newton. Embora acredite no éter que enche o espaço do nosso sistema solar, Newton concebe esse éter como uma substância de tal modo ténue e elástica que não chega a encher completamente o espaço físico. O movimento dos cometas mostra que existe espaço vazio, porque, caso contrário, não se moveriam com liberdade em todas as direcções, conservando o seu movimento, mesmo quando se movem na rota contrária à dos planetas. E, dado a matéria sem vis inertia (resistência) ser impensável, os espaços celestes são destituídos de matéria: a estrutura do éter é descontínua, isto é, compõe-se de partículas extremamente pequenas, entre as quais existe vácuo. Esta estrutura elástica do éter implica necessariamente o vácuo, ideia que Newton opõe à concepção cartesiana de um mundo constituído por matéria uniforme e que, portanto, se estende de modo contínuo, impedindo a elasticidade e o próprio movimento. Portanto, Newton considera inadmissível a existência de um espaço completamente ocupado ou de um plenum que oporia uma resistência extraordinária ao movimento, tornando-o impossível e obrigando-o a cessar, ao mesmo tempo que advoga que os espaços celestes são constituídos por um éter extremamente rarefeito, fino e ténue, dotado de uma estrutura granular, que possibilita a existência do vácuo e a recusa de um meio contínuo. Além disso, ao estipular a existência de um espaço absoluto e de um tempo absoluto, distintos do espaço e do tempo relativos, Newton pode conceber um tempo matemático que flui uniformemente, sem relação com nada exterior, e um espaço que permanece sempre semelhante e imóvel, de modo a garantir um movimento absoluto, uniforme, rectilíneo e inercial, distinções que serão abandonadas pela teoria geral da relatividade de Einstein. A libertação do espaço de tudo o que o enche identifica-o com o espaço euclidiano, aquele que toma a forma de um continente. A revolução galilaica consiste em explicar o ser real pelo ser matemático ou, como declara o próprio Galileu, o livro da natureza está escrito em caracteres matemáticos ou geométricos. O verdadeiro assunto do "Diálogo dos Grandes Sistemas" não é tanto a oposição entre dois sistemas astronómicos, mas fundamentalmente a defesa da explicação matemática da natureza em oposição à explicação não-matemática do senso comum e da física aristotélica. Dirigido ao "grande público", o livro de Galileu visa a destruição da concepção aristotélica do mundo e da ciência e a sua substituição pela concepção copernicana do mundo, embora sem o fazer directa e explicitamente. Trata-se, portanto, de uma obra de filosofia da natureza escrita na forma de diálogo, cujos intervenientes são Salviati, o próprio Galileu, Sagredo, o leigo inteligente, e Simplício, o sage aristotélico. Em vez de "imaginar" o movimento em termos de esforço (impetus) e de deslocamento, como fazia a ciência medieval, Galileu "pensa"-o em termos de velocidade e de direcção. Contra a ciência aristotélica, baseada na experiência e na percepção dos sentidos, Galileu reclama o poder do pensamento e, por conseguinte, a herança do matematismo platónico: o pensamento puro e sem mistura, e não a experiência sensorial, é que está na base da "nova ciência matemática da natureza". Isto é dito claramente aquando da discussão do famoso exemplo da bala que cai do alto do mastro de um navio em movimento. Galileu explica longamente o princípio da relatividade física do movimento, a diferença entre o movimento do corpo em relação à Terra e o seu movimento em relação ao navio, e, a seguir, sem fazer qualquer referência à experiência, conclui que o movimento da bala em relação ao navio não muda com o movimento deste último. Quando Simplício lhe faz a pergunta, "Fizeste uma experiência?", Galileu responde: "Não, e não preciso fazê-la, e posso afirmar, sem qualquer experiência, que é assim, porque não pode ser de outra forma". A física galilaica desenvolvida em Pádua é uma ciência feita a priori. A teoria precede a experiência: eis o sentido do vector epistemológico estabelecido por Galileu. A experiência é inútil, porque, antes de toda a experiência, já possuímos o conhecimento que procuramos. Ao contrário da teoria do conhecimento elaborada mais tarde por Newton, fundada sobre o lema hypotheses non fingo (não imagino hipóteses), os conceitos galilaicos não são arrancados da experiência: eles são pressupostos e, como tal, são conceitos "fictícios". É certo que a realidade da experiência pode não estar completamente de acordo com a dedução, mas são estes conceitos prévios que nos permitem compreender e explicar a natureza e fazer "experiências", isto é, fazer perguntas e interpretar as respostas. As leis fundamentais do movimento, leis que determinam o comportamento espacial e temporal dos corpos materiais, são leis de natureza matemática, portanto, leis dotadas da mesma natureza que as leis que governam as relações das figuras e dos números. Estas leis não se encontram na natureza, mas no nosso espírito e na nossa memória, como ensinou Platão: conhecer é recordar. É por isso que somos capazes de dar provas puramente matemáticas das proposições que descrevem os sinais do movimento e de desenvolver a linguagem da ciência natural, de questionar a natureza através de experiências construídas de maneira matemática e de ler o grande livro da natureza que está escrito em linguagem matemática. A física galilaica é, pois, uma geometria do movimento, do mesmo modo que a física do divus Archimedes era uma física do repouso (hidroestática). A passagem de um mundo fechado para um universo aberto, para utilizar a bela expressão de Koyré, é determinada, em última instância, pelo abandono de um estado natural predominante na Idade Média em que cada coisa estava no seu lugar próprio e a Terra em repouso permanecia no centro do universo (geocentrismo) e pela adopção de um estado natural no qual o trabalho é muitíssimo valorizado e o mundo, tal como a Terra girando em torno do Sol (heliocentrismo), se põe em movimento. Desta perspectiva, a dinâmica afigura-se como uma correspondência da economia de mercado aberta em vias de nascimento acelerado. O primado do movimento sobre o repouso significa que emergia, no novo mundo social, dominado pela burguesia mercantil, um mercado cada vez mais aberto e extenso, completamente em rota de colisão interna com o anterior mercado fechado, onde o trabalho e a actividade mercantil eram subestimadas pelos estratos sociais superiores da sociedade feudal. No Renascimento, a linha divisória entre os seguidores de Aristóteles e os de Platão era clara: os platónicos eram aqueles que reivindicavam para as matemáticas uma posição superior, atribuindo-lhes um real valor e uma posição decisiva na física, enquanto os aristotélicos eram aqueles que viam a matemática como uma ciência abstracta e de menor valor do que a física e a metafísica, embora não duvidassem da certeza das proposições ou demonstrações geométricas e não negassem o direito de medir o que é mensurável e de contar o que é numerável. O que os distinguia realmente era a concepção que tinham da estrutura do ser e da estrutura da ciência. Neste campo de luta teórica, Galileu colocava-se na posição dos platónicos e era como platónico que os seus contemporâneos o viam: a sua filosofia matemática da natureza constituía um retorno a Platão e a sua ciência, uma vitória empírica de Platão sobre Aristóteles. Galileu mostrou que a ciência matemática da natureza era possível, sem no entanto ter refutado as objecções aristotélicas à matematização da natureza. Aristóteles alegava contra Platão que as qualidades sensíveis e as essências não podem ser matematizadas. Galileu (e a sua física dos graves), Descartes (e a sua física dos choques) e Newton (e a sua física das forças) conseguiram matematizar a física à custa de rejeitar as propriedades qualitativas e de renunciar ao mundo da percepção sensível e da experiência comum, substituindo-o pelo mundo abstracto e incolor de Arquimedes. O movimento é o movimento dos corpos arquimedianos no espaço homogéneo e infinito da nova ciência: o único movimento que é governado pelos números, isto é, pelas leges et rationes numerorum. (FIM da série dedicada ao nascimento da ciência moderna.) J Francisco Saraiva de Sousa
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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
O Nascimento da Ciência Moderna (3)
«Os leitores de novelas sherlockianas sabem como as pistas falsas perturbam a história e atrasam a solução. O método de raciocinar ditado pela intuição era uma pista errada que levou a ideias falsas sobre o movimento, as quais perduraram por séculos. A grande autoridade de Aristóteles foi talvez a causa principal da longa fé no intuito. Na Mecânica, que há dois mil anos é atribuída a esse filósofo, lemos o seguinte: O corpo em movimento estaciona quando a força que o impele cessa de agir». (Albert Einstein) 3. Desenvolvimento da Física Clássica. De acordo com A. Koyré, podemos distinguir, na história do pensamento científico da Idade Média e do Renascimento, três épocas de desenvolvimento científico que correspondem a três tipos diferentes de pensamento científico: a física aristotélica, a física do impetus, extraída do pensamento grego e elaborada no decurso do século XIV pelos nominalistas parisienses, e, finalmente, a física moderna, a de Arquimedes e de Galileu. Estas etapas encontram-se no próprio desenvolvimento do pensamento científico de Galileu, a quem se deve uma exposição deveras interessante da teoria do impetus. A passagem da física aristotélica e da física do impetus à física matemática de Galileu deve-se fundamentalmente à recepção e à compreensão gradual da obra de Arquimedes e do seu mestre Platão. As duas primeiras teorias pensam em termos de experiência quotidiana, enquanto a teoria de Galileu pensa em termos estritamente matemáticos: o seu livro da natureza está escrito em linguagem matemática.
3.1. A Física de Aristóteles. A física aristotélica é uma ciência teoricamente elaborada que, partindo naturalmente dos dados do senso comum, os submete a uma tratamento teórico extremamente coerente e sistemático. Para Aristóteles (384-322 a.C.), o fundamento da verdadeira ciência do mundo físico reside na percepção e não na especulação matemática, na experiência e não no raciocínio geométrico a priori. A sua ciência que foi a ciência medieval articula intimamente uma metafísica finalista e a experiência normal do senso comum, dois traços que serão rejeitados por Galileu, Descartes e Newton. Quando atribuiu à autoridade de Aristóteles o atraso da "solução" do problema do movimento, Einstein esquece, talvez por ignorância e por preconceito positivista, que a física aristotélica, além de ser uma ciência coerente e corroborada pelos dados da experiência comum, exibe semelhanças com a sua teoria geral da relatividade: o movimento circular dos astros aristotélicos parece estar particularmente difundido no mundo, tanto ao nível macroscópico (galáxias e nebulosas) como ao nível microscópico (átomos e electrões). Einstein mostrou que uma curvatura local do espaço pode produzir movimentos deste género, e o seu universo, tal como o cosmos de Aristóteles, não é infinito, mas finito, embora tenha limites (noção estranha a Aristóteles). Não existe rigorosamente nada fora do universo einsteiniano, pela simples razão de todo o espaço estar dentro e não fora do universo: o tempo e o espaço estão no universo e, não como pensava Newton, o universo contido neles. Sem os recursos da geometria riemaniana, Aristóteles já sabia que fora do mundo não existe nada, nem pleno, nem vácuo (princípio da plenitude do universo ou horror vacui), e que todos os lugares estão no interior do mundo. A diferença substancial entre Aristóteles e Einstein reside no facto da concepção do primeiro ser metafísica e da concepção do segundo ser matemática: o mundo finito de Aristóteles não é geometricamente curvado, como o de Einstein, mas é metafisicamente curvado. (Observação: A relatividade especial mostrou que as distâncias e os intervalos de tempo dependem da velocidade e que a massa é equivalente à energia, enquanto a relatividade geral mostra que a massa determina a geometria do espaço circundante: Einstein rejeita, portanto, a tese de Leibniz de que o espaço é fisicamente vazio; o espaço é um campo físico, embora não seja o campo euclidiano indicado por Newton na sua experiência do balde.)
Para Aristóteles, a ciência começa quando se procura explicar as coisas que parecem naturais, tais como "um corpo pesado cair para baixo" ou "a chama de um fósforo dirigir-se para cima". O seu objectivo é traduzir ou exprimir na sua linguagem elaborada estes dados do senso comum, ao mesmo tempo que os «transfigura». A distinção aristotélica entre movimentos naturais e movimentos violentos enquadra-se numa concepção de conjunto da realidade física, cujos traços principais são: a crença na existência de naturezas qualitativamente definidas (1), e a crença na existência de um Cosmos (2), mais precisamente a crença na existência de princípios de ordem em virtude dos quais o conjunto dos seres reais constitui um todo hierarquicamente ordenado e harmónico. Este último conceito implica que, no universo, as coisas estão distribuídas e dispostas numa determinada ordem, e que a sua localização não é indiferente, nem para elas, nem para o universo. Pelo contrário, cada coisa tem, segundo a sua própria natureza, um lugar determinado no universo, ou melhor, o seu lugar próprio. O conceito de lugar natural exprime, na física aristotélica, uma exigência teórica: um lugar para cada coisa e cada coisa no seu lugar.
O conceito de lugar natural baseia-se numa concepção puramente estática da ordem, na medida em que, se cada coisa estivesse em ordem, estaria no seu lugar natural e aqui permaneceria para sempre. Isto significa que cada coisa resiste naturalmente a todo o esforço para a afastar do seu lugar natural. Para a expulsar desse lugar, é preciso «imprimir-lhe» algum tipo de violência, capaz de colocar um corpo fora do seu lugar, mas, após ter sido afastado do seu lugar, o corpo procura voltar a ele. O movimento implica alguma espécie de desordem cósmica, uma perturbação no equilíbrio do universo, porque é ou o efeito directo da violência ou, pelo contrário, o efeito do esforço do ser no sentido de compensar essa violência, para recuperar a ordem e o equilíbrio perturbados, isto é, para recolocar as coisas nos seus lugares naturais, onde devem ficar e permanecer. O movimento natural mais não é do que o retorno à ordem. Perturbar o equilíbrio, voltar à ordem: eis uma concepção estática e ordenada do cosmos que dispensa uma explicação do estado de repouso. A própria natureza ontológica do cosmos explica o facto da Terra estar em repouso no centro do mundo. O conceito de uma ordem estática implica a ideia de que o movimento é necessariamente um estado transitório: um movimento natural cessa naturalmente quando o corpo atinge o seu objectivo. Porém, afirmar que o movimento cessa quando o corpo alcança o seu objectivo é o mesmo que dizer que o movimento não pode ser definido como estado, até mesmo como estado transitório, porque todos os corpos do universo tendem para a ordem cósmica. Para Aristóteles, o movimento é um processo de mudança, em oposição ao repouso, o qual, sendo o objectivo e o fim do movimento, deve ser considerado como um estado. Todo o movimento é mudança (actualização ou corrupção) e, por conseguinte, um corpo em movimento não só muda em relação a outros corpos (1), como também, ao mesmo tempo, está ele próprio submetido a um processo de mudança. O movimento afecta sempre o corpo que se move e, se o corpo for dotado de dois ou mais movimentos, estes perturbam-se mutuamente, entravam-se uns aos outros e, por vezes, podem ser incompatíveis. Considerado como um processo de mudança, um vir-a-ser, o movimento não pode prolongar-se espontânea e automaticamente. Para persistir, o movimento exige a acção contínua de um motor ou de uma causa e, quando esta causa cessa de exercer o seu efeito, o movimento do corpo também cessa. Cessante causa cessat effectus. O tipo de movimento postulado pelo princípio de inércia é totalmente inadmissível na física aristotélica. Aristóteles não admite a acção à distância: cada transmissão de movimento implica um contacto. Só existem dois tipos de transmissão: a pressão e a tracção. Para fazer com que um corpo se mova, é preciso empurrá-lo ou puxá-lo. Não existem outros meios para pôr um corpo em movimento. Quando uma destas acções cessa, o corpo regressa ao seu lugar natural e permanece em repouso. A dinâmica aristotélica nega o vazio e o movimento no vazio, porque, na sua perspectiva, o vazio não só não favorece o movimento como também o torna impossível. Esta dupla-rejeição reflecte a antiga concepção grega da plenitude do universo, geralmente referida como horror vacui ou aversão da natureza pelo vácuo: a natureza age sempre de maneira a evitar a formação do vácuo. A teoria aristotélica do movimento está ligada intimamente ao conceito de um espaço finito e completamente ocupado: o seu cosmos é auto-suficiente e autocontido, não deixando nada fora dele. Como vimos, quando um corpo é deslocado do seu lugar por uma força externa, ele tende a regressar ao seu lugar natural e este movimento efectua-se pelo caminho mais curto e mais rápido, portanto, em linha recta. Se o meio no qual o corpo se move não opusesse qualquer resistência ao seu movimento, tal como se passaria no vácuo, então o corpo dirigir-se-ia para o seu lugar com uma velocidade infinita. Ora, segundo Aristóteles, este movimento instantâneo no vazio é absolutamente impossível. E, no caso do lançamento, o movimento no vazio equivale a um movimento sem motor e, como o vazio não é um meio, não pode receber, isto é, transmitir e conservar o movimento, mais outra impossibilidade. Um universo infinito não pode coexistir com o universo finito de Aristóteles, por duas ordens de razões fundamentais. Em primeiro lugar, um espaço infinito não tem centro: cada ponto está a igual distância de todos os outros pontos da periferia. Ora, se não existir centro, não só não há um lugar escolhido no qual o elemento pesado terra possa ser agregado, como também não há o intrínseco "para cima" e "para baixo" a fim de determinar o movimento natural de um elemento (terra, água, ar e fogo) ao regressar ao seu lugar próprio. Isto equivale a dizer que, num universo infinito, não existem lugares naturais, porque cada lugar é igual a qualquer outro. Aristóteles liga os conceitos de espaço finito e completamente ocupado, de modo a mostrar que a noção de vazio é incompatível com a ideia de uma ordem cósmica. As interacções da matéria e do espaço determinam o movimento e o repouso dos corpos. Com efeito, no vácuo não há lugares naturais ou mesmo quaisquer lugares: o vazio não é nada e situar qualquer coisa nesse nada é absurdo. Em segundo lugar, a noção de espaço infinito não só elimina a noção de centro, como também retira o homem e a Terra do centro do universo: ela é incompatível com o «facto» de toda a terra, água, ar e fogo estarem agregados num único ponto, nos seus respectivos lugares naturais. (O éter, um sólido cristalino, era, para Aristóteles, o elemento celeste.) No vácuo, não há lugares nem direcções privilegiadas, portanto, no vazio um corpo não teria razão para se mover numa direcção de preferência a uma outra, ou melhor, não teria razão para se mover. Descartes rejeita o vazio de modo mais radical do que Aristóteles: a sua identificação entre a extensão e a matéria leva-o a considerar o vazio como um nada existente, donde resulta a ideia de que o espaço não é uma entidade distinta da matéria que o "enche", bem como a ideia de um mundo indefinido. (Para Descartes, só Deus é infinito.) 3.2. A Física do Impetus. O maior defeito da física aristotélica reside no facto de ser desmentida pela prática quotidiana do lançamento ou arremesso. Porém, Aristóteles não se rende e procura explicar o lançamento pela reacção do meio, o ar ou a água. A solução de Aristóteles é engenhosa e genial: o movimento, aparentemente sem motor, do projéctil é explicado por um processo turbilhonante no meio envolvente do corpo, neste caso no ar, que age sobre este último arrastando-o e impelindo-o. De certo modo, Aristóteles inventa um meio particularmente apto a mover-se, portanto, um "meio elástico": o ar. Os nominalistas parisienses, nomeadamente Buridan e Nicolau Oresme, retomam os argumentos de Filão, o fundador grego da teoria do impetus. Filão aponta dois grupos de argumentos contra a dinâmica aristotélica: os argumentos de ordem material sublinham o quanto é improvável a suposição segundo a qual um corpo grande e pesado, por exemplo, a bala de um canhão, a mó que gira ou a flecha que voa contra o vento, possa ser movido pela reacção do ar, enquanto os argumentos de ordem formal assinalam o carácter contraditório da atribuição ao ar de um duplo-papel, o de resistência e o de motor, assim como o carácter ilusório de toda a teoria aristotélica. Filão acusa Aristóteles de ter deslocado o problema do corpo para o ar, sendo obrigado a atribuir ao ar o que recusa aos outros corpos, nomeadamente a capacidade de manter e conservar o movimento de um corpo separado da sua causa externa. Estes argumentos foram retomados, desenvolvidos e aperfeiçoados por Hiparco, João Filopono, Buridan, Nicolau Oresme, Alberto da Saxónia, Leonardo da Vinci e Benedetti, bem como pelo jovem-Galileu e pelo seu mestre Bonamico. A concepção do movimento que sustenta e apoia a teoria do impetus é completamente diferente da concepção de movimento terrestre da teoria aristotélica. O movimento não é mais interpretado como um processo de actualização. Contudo, continua a ser visto como mudança e, como tal, exige a sua explicação pela acção de uma força ou de uma causa determinada. O impetus é precisamente essa causa imanente que produz o movimento, o qual é, converso modo, o efeito produzido por ela. Assim, o impetus impressus produz o movimento, isto é, move o corpo, ao mesmo tempo que desempenha outro papel muito importante: domina a resistência que o meio opõe ao movimento. Contudo, apesar das excelentes clarificações realizadas por Benedetti, a teoria do impetus (força motriz) foi incapaz de elaborar um conceito novo e original do movimento. O jovem-Galileu mostrou que, embora fosse compatível com o movimento no vacuum, a física do impetus era incompatível com o princípio de inércia e, portanto, incompatível com o método matemático. O contributo original de Galileu será, como veremos, abandonar esta concepção e edificar uma física matemática na perspectiva da estática de Arquimedes, mediante a elaboração de um conceito novo de movimento. (CONTINUA com o título "O Nascimento da Ciência Moderna 4", o último post desta série.)
J Francisco Saraiva de Sousa
3.1. A Física de Aristóteles. A física aristotélica é uma ciência teoricamente elaborada que, partindo naturalmente dos dados do senso comum, os submete a uma tratamento teórico extremamente coerente e sistemático. Para Aristóteles (384-322 a.C.), o fundamento da verdadeira ciência do mundo físico reside na percepção e não na especulação matemática, na experiência e não no raciocínio geométrico a priori. A sua ciência que foi a ciência medieval articula intimamente uma metafísica finalista e a experiência normal do senso comum, dois traços que serão rejeitados por Galileu, Descartes e Newton. Quando atribuiu à autoridade de Aristóteles o atraso da "solução" do problema do movimento, Einstein esquece, talvez por ignorância e por preconceito positivista, que a física aristotélica, além de ser uma ciência coerente e corroborada pelos dados da experiência comum, exibe semelhanças com a sua teoria geral da relatividade: o movimento circular dos astros aristotélicos parece estar particularmente difundido no mundo, tanto ao nível macroscópico (galáxias e nebulosas) como ao nível microscópico (átomos e electrões). Einstein mostrou que uma curvatura local do espaço pode produzir movimentos deste género, e o seu universo, tal como o cosmos de Aristóteles, não é infinito, mas finito, embora tenha limites (noção estranha a Aristóteles). Não existe rigorosamente nada fora do universo einsteiniano, pela simples razão de todo o espaço estar dentro e não fora do universo: o tempo e o espaço estão no universo e, não como pensava Newton, o universo contido neles. Sem os recursos da geometria riemaniana, Aristóteles já sabia que fora do mundo não existe nada, nem pleno, nem vácuo (princípio da plenitude do universo ou horror vacui), e que todos os lugares estão no interior do mundo. A diferença substancial entre Aristóteles e Einstein reside no facto da concepção do primeiro ser metafísica e da concepção do segundo ser matemática: o mundo finito de Aristóteles não é geometricamente curvado, como o de Einstein, mas é metafisicamente curvado. (Observação: A relatividade especial mostrou que as distâncias e os intervalos de tempo dependem da velocidade e que a massa é equivalente à energia, enquanto a relatividade geral mostra que a massa determina a geometria do espaço circundante: Einstein rejeita, portanto, a tese de Leibniz de que o espaço é fisicamente vazio; o espaço é um campo físico, embora não seja o campo euclidiano indicado por Newton na sua experiência do balde.)
Para Aristóteles, a ciência começa quando se procura explicar as coisas que parecem naturais, tais como "um corpo pesado cair para baixo" ou "a chama de um fósforo dirigir-se para cima". O seu objectivo é traduzir ou exprimir na sua linguagem elaborada estes dados do senso comum, ao mesmo tempo que os «transfigura». A distinção aristotélica entre movimentos naturais e movimentos violentos enquadra-se numa concepção de conjunto da realidade física, cujos traços principais são: a crença na existência de naturezas qualitativamente definidas (1), e a crença na existência de um Cosmos (2), mais precisamente a crença na existência de princípios de ordem em virtude dos quais o conjunto dos seres reais constitui um todo hierarquicamente ordenado e harmónico. Este último conceito implica que, no universo, as coisas estão distribuídas e dispostas numa determinada ordem, e que a sua localização não é indiferente, nem para elas, nem para o universo. Pelo contrário, cada coisa tem, segundo a sua própria natureza, um lugar determinado no universo, ou melhor, o seu lugar próprio. O conceito de lugar natural exprime, na física aristotélica, uma exigência teórica: um lugar para cada coisa e cada coisa no seu lugar.
O conceito de lugar natural baseia-se numa concepção puramente estática da ordem, na medida em que, se cada coisa estivesse em ordem, estaria no seu lugar natural e aqui permaneceria para sempre. Isto significa que cada coisa resiste naturalmente a todo o esforço para a afastar do seu lugar natural. Para a expulsar desse lugar, é preciso «imprimir-lhe» algum tipo de violência, capaz de colocar um corpo fora do seu lugar, mas, após ter sido afastado do seu lugar, o corpo procura voltar a ele. O movimento implica alguma espécie de desordem cósmica, uma perturbação no equilíbrio do universo, porque é ou o efeito directo da violência ou, pelo contrário, o efeito do esforço do ser no sentido de compensar essa violência, para recuperar a ordem e o equilíbrio perturbados, isto é, para recolocar as coisas nos seus lugares naturais, onde devem ficar e permanecer. O movimento natural mais não é do que o retorno à ordem. Perturbar o equilíbrio, voltar à ordem: eis uma concepção estática e ordenada do cosmos que dispensa uma explicação do estado de repouso. A própria natureza ontológica do cosmos explica o facto da Terra estar em repouso no centro do mundo. O conceito de uma ordem estática implica a ideia de que o movimento é necessariamente um estado transitório: um movimento natural cessa naturalmente quando o corpo atinge o seu objectivo. Porém, afirmar que o movimento cessa quando o corpo alcança o seu objectivo é o mesmo que dizer que o movimento não pode ser definido como estado, até mesmo como estado transitório, porque todos os corpos do universo tendem para a ordem cósmica. Para Aristóteles, o movimento é um processo de mudança, em oposição ao repouso, o qual, sendo o objectivo e o fim do movimento, deve ser considerado como um estado. Todo o movimento é mudança (actualização ou corrupção) e, por conseguinte, um corpo em movimento não só muda em relação a outros corpos (1), como também, ao mesmo tempo, está ele próprio submetido a um processo de mudança. O movimento afecta sempre o corpo que se move e, se o corpo for dotado de dois ou mais movimentos, estes perturbam-se mutuamente, entravam-se uns aos outros e, por vezes, podem ser incompatíveis. Considerado como um processo de mudança, um vir-a-ser, o movimento não pode prolongar-se espontânea e automaticamente. Para persistir, o movimento exige a acção contínua de um motor ou de uma causa e, quando esta causa cessa de exercer o seu efeito, o movimento do corpo também cessa. Cessante causa cessat effectus. O tipo de movimento postulado pelo princípio de inércia é totalmente inadmissível na física aristotélica. Aristóteles não admite a acção à distância: cada transmissão de movimento implica um contacto. Só existem dois tipos de transmissão: a pressão e a tracção. Para fazer com que um corpo se mova, é preciso empurrá-lo ou puxá-lo. Não existem outros meios para pôr um corpo em movimento. Quando uma destas acções cessa, o corpo regressa ao seu lugar natural e permanece em repouso. A dinâmica aristotélica nega o vazio e o movimento no vazio, porque, na sua perspectiva, o vazio não só não favorece o movimento como também o torna impossível. Esta dupla-rejeição reflecte a antiga concepção grega da plenitude do universo, geralmente referida como horror vacui ou aversão da natureza pelo vácuo: a natureza age sempre de maneira a evitar a formação do vácuo. A teoria aristotélica do movimento está ligada intimamente ao conceito de um espaço finito e completamente ocupado: o seu cosmos é auto-suficiente e autocontido, não deixando nada fora dele. Como vimos, quando um corpo é deslocado do seu lugar por uma força externa, ele tende a regressar ao seu lugar natural e este movimento efectua-se pelo caminho mais curto e mais rápido, portanto, em linha recta. Se o meio no qual o corpo se move não opusesse qualquer resistência ao seu movimento, tal como se passaria no vácuo, então o corpo dirigir-se-ia para o seu lugar com uma velocidade infinita. Ora, segundo Aristóteles, este movimento instantâneo no vazio é absolutamente impossível. E, no caso do lançamento, o movimento no vazio equivale a um movimento sem motor e, como o vazio não é um meio, não pode receber, isto é, transmitir e conservar o movimento, mais outra impossibilidade. Um universo infinito não pode coexistir com o universo finito de Aristóteles, por duas ordens de razões fundamentais. Em primeiro lugar, um espaço infinito não tem centro: cada ponto está a igual distância de todos os outros pontos da periferia. Ora, se não existir centro, não só não há um lugar escolhido no qual o elemento pesado terra possa ser agregado, como também não há o intrínseco "para cima" e "para baixo" a fim de determinar o movimento natural de um elemento (terra, água, ar e fogo) ao regressar ao seu lugar próprio. Isto equivale a dizer que, num universo infinito, não existem lugares naturais, porque cada lugar é igual a qualquer outro. Aristóteles liga os conceitos de espaço finito e completamente ocupado, de modo a mostrar que a noção de vazio é incompatível com a ideia de uma ordem cósmica. As interacções da matéria e do espaço determinam o movimento e o repouso dos corpos. Com efeito, no vácuo não há lugares naturais ou mesmo quaisquer lugares: o vazio não é nada e situar qualquer coisa nesse nada é absurdo. Em segundo lugar, a noção de espaço infinito não só elimina a noção de centro, como também retira o homem e a Terra do centro do universo: ela é incompatível com o «facto» de toda a terra, água, ar e fogo estarem agregados num único ponto, nos seus respectivos lugares naturais. (O éter, um sólido cristalino, era, para Aristóteles, o elemento celeste.) No vácuo, não há lugares nem direcções privilegiadas, portanto, no vazio um corpo não teria razão para se mover numa direcção de preferência a uma outra, ou melhor, não teria razão para se mover. Descartes rejeita o vazio de modo mais radical do que Aristóteles: a sua identificação entre a extensão e a matéria leva-o a considerar o vazio como um nada existente, donde resulta a ideia de que o espaço não é uma entidade distinta da matéria que o "enche", bem como a ideia de um mundo indefinido. (Para Descartes, só Deus é infinito.) 3.2. A Física do Impetus. O maior defeito da física aristotélica reside no facto de ser desmentida pela prática quotidiana do lançamento ou arremesso. Porém, Aristóteles não se rende e procura explicar o lançamento pela reacção do meio, o ar ou a água. A solução de Aristóteles é engenhosa e genial: o movimento, aparentemente sem motor, do projéctil é explicado por um processo turbilhonante no meio envolvente do corpo, neste caso no ar, que age sobre este último arrastando-o e impelindo-o. De certo modo, Aristóteles inventa um meio particularmente apto a mover-se, portanto, um "meio elástico": o ar. Os nominalistas parisienses, nomeadamente Buridan e Nicolau Oresme, retomam os argumentos de Filão, o fundador grego da teoria do impetus. Filão aponta dois grupos de argumentos contra a dinâmica aristotélica: os argumentos de ordem material sublinham o quanto é improvável a suposição segundo a qual um corpo grande e pesado, por exemplo, a bala de um canhão, a mó que gira ou a flecha que voa contra o vento, possa ser movido pela reacção do ar, enquanto os argumentos de ordem formal assinalam o carácter contraditório da atribuição ao ar de um duplo-papel, o de resistência e o de motor, assim como o carácter ilusório de toda a teoria aristotélica. Filão acusa Aristóteles de ter deslocado o problema do corpo para o ar, sendo obrigado a atribuir ao ar o que recusa aos outros corpos, nomeadamente a capacidade de manter e conservar o movimento de um corpo separado da sua causa externa. Estes argumentos foram retomados, desenvolvidos e aperfeiçoados por Hiparco, João Filopono, Buridan, Nicolau Oresme, Alberto da Saxónia, Leonardo da Vinci e Benedetti, bem como pelo jovem-Galileu e pelo seu mestre Bonamico. A concepção do movimento que sustenta e apoia a teoria do impetus é completamente diferente da concepção de movimento terrestre da teoria aristotélica. O movimento não é mais interpretado como um processo de actualização. Contudo, continua a ser visto como mudança e, como tal, exige a sua explicação pela acção de uma força ou de uma causa determinada. O impetus é precisamente essa causa imanente que produz o movimento, o qual é, converso modo, o efeito produzido por ela. Assim, o impetus impressus produz o movimento, isto é, move o corpo, ao mesmo tempo que desempenha outro papel muito importante: domina a resistência que o meio opõe ao movimento. Contudo, apesar das excelentes clarificações realizadas por Benedetti, a teoria do impetus (força motriz) foi incapaz de elaborar um conceito novo e original do movimento. O jovem-Galileu mostrou que, embora fosse compatível com o movimento no vacuum, a física do impetus era incompatível com o princípio de inércia e, portanto, incompatível com o método matemático. O contributo original de Galileu será, como veremos, abandonar esta concepção e edificar uma física matemática na perspectiva da estática de Arquimedes, mediante a elaboração de um conceito novo de movimento. (CONTINUA com o título "O Nascimento da Ciência Moderna 4", o último post desta série.)
J Francisco Saraiva de Sousa
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terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
Prós e Contras: Caso FreePort
Portugal é de cima a baixo e transversalmente corrupto, degradante e medíocre, e todos nós, portugueses, sabemos isso por experiência ou talvez mesmo por consentimento e silêncio cúmplice e tácito. Prós e Contras debateu hoje (2 de Fevereiro de 2009) o caso FreePort. O título inicialmente previsto, "O que podem pensar os portugueses do caso freeport?", foi, como já é hábito, substituído por este título mais neutro: "Caso Freeport". De facto, este último é mais correcto, porque, ao contrário do que diz a ideologia espontânea do jornalismo português, os portugueses não acreditam na sua classe política ou em qualquer outra elite associada aos mais diversos poderes, tais como a dos magistrados, dos juízes, da polícia judiciária e dos jornalistas denunciados pelos seus rostos embrutecedores. A audiência deste caso mediático é muito pouco representativa da população portuguesa, o que significa que o jornalismo português está profundamente desacreditado. Os primeiros intervenientes directamente envolvidos no caso da construção do centro comercial de Alcochete, Dias Inocêncio e Rui Gonçalves, acentuaram a importância deste empreendimento para o desenvolvimento do Concelho de Alcochete, portanto, o interesse público da obra, alegando o desconhecimento de pagamentos ilícitos e a ausência do secretário de Estado no único encontro que se realizou no Ministério do Ambiente, do qual esteve ausente o Presidente da Empresa do freeport. Contudo, uma carta anónima, cujo autor já conhecemos, despoletou este processo, no qual o Ministro do Ambiente, actual Primeiro-Ministro, é suposto estar envolvido na prática de corrupção por ter recebido pagamentos para acelerar a construção da obra numa zona natural protegida, mediante um parecer favorável do estudo de impacto ambiental, com o qual um dos seus técnicos, Henrique Pereira dos Santos, não estava de acordo. Mas, como acentuou Miguel Júdice, em Portugal, as instituições consultadas em vez de realizarem os seus estudos específicos, tendem a opinar sobre outros assuntos que não são da sua competência restrita: "toda a gente opina", sem saber do que fala, mais outro traço nacional que dificulta a tomada de decisões céleres, racionais, transparentes e competentes. Fátima Campos Ferreira procurou moldar o debate em função de três dimensões do caso freeport: a jurídica, a política e a mediática. De todos os convidados presentes no palco, José Dias Inocêncio (ex-Presidente da CM de Alcochete), Rui Gonçalves (ex-secretário de Estado do Ambiente), José Miguel Júdice (advogado), Saldanha Sanches (fiscalista) e Raposo Subtil (advogado), Miguel Júdice foi o único que desenvolveu uma concepção coerente sobre o caso, levando em consideração as três dimensões. Por isso, e dado o caso ser relativamente conhecido por envolver o actual Primeiro-Ministro, José Sócrates, e alguns membros da sua família, um tio e um primo ingratos e levianos, que abonaram pouco a seu favor, vou começar por resumir a sua perspectiva. Miguel Júdice apontou dois erros básicos neste processo: A investigação criminal portuguesa foi uma "má investigação". Começou por enviar um pedido de colaboração para a polícia de Londres e, passados dois anos, recebe uma carta inglesa, onde José Sócrates aparece como "suspeito" de corrupção, sem ter feito previamente investigação criminal de qualidade; caso contrário, a polícia judiciária teria detectado que a data da reunião convocada pelo Presidente da CM de Alcochete estava errada, porque, nesse dia, o secretário de Estado estava no Japão e, por isso, não poderia estar presente nesse encontro. Um "episódio caricato" construído em torno de uma "realidade factual impossível"! A investigação criminal lusa foi caracterizada como "banda desenhada do TinTin", isto é, acusada de seguir a "lógica da confissão", em vez de "cruzar as informações" e fazer alguns telefonemas. Esta má investigação criminal "destrói o Estado de Direito". O segundo erro reside na violação do segredo de justiça. E, mais tarde, Miguel Júdice condena a entrevista dada pela Procuradora, Cândida Almeida, à TV: "um dia infeliz do Ministério Público", embora Júdice acredite na autonomia e na independência do Ministério Público, desmentidas por Saldanha Sanches. Ao comparar esta entrevista com a entrevista de Dias Loureiro, Júdice quis talvez mostrar que os entrevistados acabaram por se enterrar a si mesmos, levantando uma suspeita generalizada em torno da credibilidade moral e psicológica do seu perfil e da seriedade da sua acção. Como mostra o fracasso da investigação criminal em diversos casos mediáticos consecutivos, "não se pode confiar e colaborar com a polícia portuguesa": o segredo de justiça é constantemente violado e, nos casos que envolvem a colaboração de outras polícias estrangeiras, a imagem de Portugal difundida pelo mundo é muito má e pouco prestigiante. Em suma, o caso freeport foi construído sobre "pseudo-factos", no sentido de serem realidades impossíveis ou forjadas por definição prévia, mais precisamente por má-fé, o que pode justificar a suspeita do Primeiro-Ministro de estar a ser alvo de uma "campanha negra" orquestrada por "forças ocultas", tais como jornalistas sem escrúpulos, magistrados e agentes judiciários vingativos e avessos às reformas judiciais implementadas pelo governo, de resto um cenário imaginado e exposto por Rui Gonçalves. Com efeito, conforme referiu Miguel Júdice, nenhum destes estratos burocráticos do Estado goza de credibilidade entre os portugueses, aos quais Manuel Meirinho acrescentou a classe política e os seus aparelhos partidários, com base em estudos de percepção, provavelmente realizados no seu departamento. Em suma, para Miguel Júdice, o caso freeport revela, na sua dimensão jurídica, a situação má do sistema judicial português, já testemunhado pelo fracasso sucessivo de outros casos mediáticos (1); na sua dimensão política, a ingovernabilidade de Portugal, a falta de vontade para seguir uma carreira política, sempre sujeita ao escrutínio pouco sério da comunicação social degradante e degradada, e, dado a democracia e a liberdade não estarem garantidas, a ameaça da instauração, no final de um longo caminho de corrupção agravada e incontornável, de alguma forma de totalitarismo (2); e, no plano mediático, a mediocridade irresponsável do jornalismo luso, bem patente no caso de um mesmo jornal publicar notícias contraditórias, porque, nesse jornal, segundo o seu director, cada jornalista tem o seu próprio informante na polícia judiciária (3). No fundo, isto significa que cada um selecciona a sua própria perspectiva da informação em função da dimensão mais ou mesmo reduzida do seu cérebro e dos seus interesses mesquinhos e umbilicais. O jornalismo português é excessivamente medíocre e, de certo modo, é responsável pela degradação da vida social portuguesa. Inicialmente, pensei que Saldanha Sanches, o paladino da denúncia da corrupção endémica das autarquias e da sua captura do Ministério Público, e Raposo Subtil endossassem a visão de Miguel Júdice, mas estava enganado, como confirmei no decorrer do debate. Apesar de Saldanha Sanches ser incompreensível nas suas intervenções televisivas, avançou com a ideia de uma "nova captura" que identifica como conceito sociológico (sic). Se o compreendi bem, ele afirmou que existe uma campanha do governo para "manietar a polícia judiciária". Ora, este confronto entre o governo e a polícia judiciária é, na sua opinião, um "conflito trágico", com o qual o país fica a perder. Raposo Subtil parece acreditar na Carta Rogatória e, como a justiça é paga, negou o efeito político do caso freeport. E dado o Procurador Geral da República e a Procuradora terem afirmado que José Sócrates não era suspeito, "não há processo". Porém, Raposo Subtil considerou a entrevista de Cândida Almeida como um "ataque ao Direito e à Democracia". A participação dos outros convidados da plateia merece pouca consideração: Carlos Alberto Amorim limitou-se a fazer a apologia de Pedro Santana Lopes, como se houvesse qualquer semelhança entre esta figura desgastada e a de José Sócrates. O PSD está a tornar-se cada vez mais um partido desacreditado: os seus governos não deixaram "lastro de dúvida", mas uma certeza, a sua incapacidade governativa. A conjectura de Paulo Morais de que as leis são elaboradas propositadamente numa linguagem obscura foi abraçada por Saldanha Sanches e alguém presente recordou uma intervenção recente do Presidente da República, onde este afirmou que as leis emanadas do Parlamento eram escritas numa linguagem má. Com esta crítica, Cavaco Silva acusa indirectamente a ausência de competência dos deputados, isto é, denuncia a sua "burrice", no que expressa legitimamente a opinião geral dos portugueses. Mas quem as promulga, como frisou Júdice, não pode lavar as mãos, sendo também co-responsável pela fraca qualidade das leis portuguesas. Que saída?, perguntou Fátima Campos Ferreira. Saldanha Sanches respondeu que não conhecia uma outra saída, a não ser uma má saída para todas as partes envolvidas. Contudo, nesta hora de grave e profunda crise económica, e dado não haver alternativa política credível, é desejável que o caso seja resolvido com rapidez e devidamente esclarecido, pelo menos algumas "provas" apresentadas, para que o Ano Eleitoral decorra normalmente, liberto de suspeitas talvez infundadas, e para que o novo governo tenha coragem suficiente para erradicar a corrupção em Portugal, mediante uma reforma substantiva do Estado, do sistema judicial e do sistema educativo e de ensino, incluindo o ensino universitário, de modo a prevenir a decadência total da República Portuguesa, cujas actuais gerações estão irremediavelmente perdidas. Precisamos de bom senso para fazer face às diversas crises que ameaçam o futuro de Portugal. Só o reforço da educação pode ajudar Portugal a criar uma nova geração capaz de libertar o futuro, com a ajuda dos portugueses que têm realmente mérito. A guilhotina foi inventada para liquidar os corruptos e todos aqueles que boicotam o futuro risonho e próspero de Portugal: a transparência é a maior aliada da cultura de mérito sufocada pelas classes instaladas e perfeitamente inúteis e contrárias ao interesse nacional. Em caso do futuro continuar a ser bloqueado pelos corruptos, o Estado tem direito de recorrer à repressão e até mesmo de decretar umas férias jornalísticas. Combater a actual crise económica é avançar com um novo plano e mudar radicalmente de direcção: cabe aos governantes imaginarem um futuro novo que evite o regime estabelecido, causador de desigualdades sociais, da devastação da natureza, da regressão cognitiva, da pobreza e da formação de comunidades emocionais refractárias à racionalidade e ao bom senso. Esta é a hora de mudança social qualitativa! J Francisco Saraiva de Sousa
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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
O Nascimento da Ciência Moderna (2)
«Vejo estes espaços medonhos do universo que me envolvem e encontro-me preso a um canto desta imensa vastidão, sem que eu saiba porque estou colocado neste lugar, e não noutro, nem por que razão este pouco tempo que me é dado para viver me é atribuído neste momento, e não noutro de toda a eternidade que me precedeu e de toda aquela que há-de vir depois de mim. Apenas vejo infinidades de todos os lados, que me envolvem como um átomo e como uma sombra que dura apenas um instante e nunca mais volta. Tudo quanto sei é que em breve devo morrer, mas o que mais ignoro é esta morte que não poderei evitar.
«Posso muito bem conceber um homem sem mãos, sem pés, sem cabeça. Mas não posso conceber o homem sem pensamento: seria uma pedra ou um bruto. O pensamento faz a grandeza do homem. O homem não passa de um caniço, o mais fraco da natureza. Mas é um caniço pensante». (Blaise Pascal)
O que os fundadores da ciência moderna, entre os quais Copérnico, Galileu, Kepler, Descartes e Newton, fizeram foi destruir um mundo e substitui-lo por outro. Ora, uma tal destruição implica necessariamente uma "reforma da nossa própria inteligência", para usar esta bela expressão de Espinoza, e a elaboração de um novo conceito de ciência, com o objectivo de substituir o ponto de vista natural e normalizado, geralmente identificado com o senso comum, por um outro ponto de vista, neste caso particular, pelo ponto de vista arquimediano, o da ciência universal: os neoplatónicos do Renascimento, em especial Ficino, Nicolau de Cusa e Giordano Bruno, muito antes de Copérnico ou de Galileu, foram os primeiros a abolir a dicotomia entre a Terra e o Céu que a cobria, promovendo o Sol à categoria de estrela nobre e dando-lhe um lugar nobre num universo eterno e infinito. 2. A Destruição do Cosmos. A dissolução do Cosmos significa a destruição da ideia de um mundo de estrutura finita, hierarquicamente ordenado e qualitativamente diferenciado do ponto de vista ontológico, e a sua substituição pelo conceito de um Universo aberto, indefinido e até infinito, unificado e governado pelas mesmas leis universais. Neste novo universo, todas as coisas, sejam celestes ou terrestres, pertencem ao mesmo nível do ser, contrariamente à concepção aristotélica tradicional que distinguia e opunha os dois mundos, o do Céu e o da Terra. Com a fusão das leis do Céu e da Terra, a astronomia e a física tornaram-se interdependentes, unificaram-se e uniram-se. Esta grande unificação implicou o desaparecimento da perspectiva científica de todas as considerações baseadas no valor, na perfeição, na harmonia, na significação e no desígnio. Tais considerações desapareceram no espaço infinito do novo universo, onde uma geometria se fez realidade e no qual as leis da física clássica encontraram valor e aplicação. A destruição do Cosmos é fundamentalmente a perda do centro pela Terra e, como se tornou evidente no decorrer da revolução científica, a perda do privilégio do Homem, ou seja, a perda do lugar privilegiado do homem no cosmos. Blaise Pascal resume a última implicação da destruição do Cosmos nesta frase enfática: "O silêncio eterno destes espaços infinitos apavora-me". Ou, por outras palavras, a perda pela Terra da sua posição central e singular no mundo implicou a perda pelo homem da sua posição privilegiada no drama teocósmico da Criação. Doravante, o homem deixa de ser a figura central desse drama e é obrigado a sair da cena. A astronomia de Copérnico inicia esta destruição, embora permaneça prisioneira da concepção de um universo finito e ordenado: Copérnico deu o primeiro passo, detendo o movimento da esfera das estrelas fixas, mas hesitou em dar o segundo passo que seria dissolver essa esfera estelar num espaço ilimitado. O seu universo continua a ser um mundo ordenado e finito, cujo limite está fixado pela esfera das estrelas fixas. Thomas Digges levou a astronomia copernicana mais longe, substituindo o mundo fechado e finito pelo universo aberto, substituindo o diagrama copernicano do mundo por outro diagrama, no qual as estrelas se encontram distribuídas por toda a página, tanto acima como abaixo da linha com a qual Copérnico representou a ultima sphera mundi. Até mesmo Johannes Kepler que fez a astronomia de Copérnico funcionar negou a infinidade do novo universo, por aceitar uma epistemologia empirista, sujeita às leis da óptica: os limites da astronomia são ditados pela visão e, por isso, não pode conceber coisas que desmintam as leis da óptica. (Kepler desconhecia o telescópio, posteriormente utilizado por Galileu.) Para Kepler, o mundo é uma expressão de Deus, simbolizando a Trindade e materializando na sua estrutura uma ordem e uma harmonia matemáticas. Embora aceite a nova astronomia, Kepler retém a metafísica aristotélica, alegando que não "é bom para o viajante perder-se naquele infinito". Deste modo, Kepler é levado a rejeitar e a refutar a concepção infinitista do universo, isto é, a hipótese da distribuição uniforme das estrelas no espaço, afirmando que o princípio da razão suficiente impede Deus de escolher uma estrutura adequada, portanto, geométrica, para um mundo infinito. Porém, como já vimos, Giordano Bruno, um dos alvos da crítica de Kepler, tinha desenvolvido a teoria do universo descentralizado, infinito e infinitamente povoado por outros seres inteligentes: em nome da movimento da Terra em torno do Sol, Bruno defende que "o mundo é infinito e, por conseguinte, não existe nele nenhum corpo ao qual coubesse simpliciter estar no centro, sobre o centro, na periferia ou entre esses dois extremos do mundo". Tal como Nicolau de Cusa ou mesmo Lucrécio, Bruno regozija-se com a infinidade do mundo. O deslocamento da Terra do centro do mundo não é visto como uma degradação, mas como uma perfeição da obra criada por Deus. Com efeito, na filosofia de Bruno, o princípio da razão suficiente, posteriormente tematizado por Leibniz, reforça e suplementa o princípio da plenitude: a obra de Deus deve conter tudo o que é possível, isto é, inumeráveis seres individuais, inumeráveis Terras, inumeráveis astros e sóis, afim de ser perfeita e digna do Criador. Isto significa que Deus precisa de um espaço infinito para nele colocar o mundo infinito, isto é, o universo com dimensões infinitas e os seus inumeráveis mundos, um universo que não pode ser objecto dos sentidos, mas apenas do pensamento. A possibilidade implica a realidade. Esta concepção de Bruno contrasta fortemente com aquela que foi definida mais tarde por Pascal, a de um universo mudo e aterrorizante, ou mesmo com a da filosofia científica moderna, a de um mundo desprovido de sentido, do qual resultam o niilismo e o desespero. A sua concepção do espaço infinito foi adoptada e aperfeiçoada por Henry More e Isaac Newton (1643-1727). Ora, uma tal revolução intelectual, pensada através do conceito de ruptura epistemológica de Gaston Bachelard, não tem nem pode ter "precursores". A sua novidade é radical e Galileu foi um dos seus principais protagonistas, na medida em que se colocou, sem qualquer ambiguidade, ao nível do ponto de vista arquimediano. Caverni e Duhem julgaram poder encontrar os precursores de Galileu em Buridano, Oresme ou mesmo no seu mestre Filão, os chamados "precursores parisienses de Galileu", mas este princípio de continuidade é cabalmente desmentido pelos estudos de E. Cassirer, A. Koyré e de T.S. Kuhn. Se há algum precursor, este só pode ser Arquimedes e o seu mestre Platão. (CONTINUA com o título "O Nascimento da Ciência Moderna 3".) J Francisco Saraiva de Sousa
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domingo, 1 de fevereiro de 2009
Capitalismo e Nascimento da Ciência Moderna
«A filosofia está escrita nesse livro imenso que está sempre aberto diante dos nossos olhos, quero dizer, o Universo, mas só podemos compreendê-lo se nos dedicarmos primeiro a compreender a sua língua e a conhecer os caracteres com que está escrito. Está escrito na linguagem matemática e os seus caracteres são triângulos, círculos e outras figuras geométricas, sem o recurso aos quais é humanamente impossível compreender uma palavra. Sem eles, é uma divagação vã num labirinto obscuro». (Galileu Galilei)
«As matemáticas escrevem-se para os matemáticos». (Copérnico)
«Se não puderes medir, o teu conhecimento é deficiente e insatisfatório». (Lord Kelvin)
A Física pode ser definida como a "ciência da medida", isto é, como a ciência que exprime em números tudo aquilo que estuda. A definição de uma grandeza física deve prover um conjunto de regras para a calcular em termos de outras grandezas que possam ser medidas. Assim, por exemplo, quando o momento linear é definido como o produto da massa pela velocidade, a regra para o calcular está contida na definição, sendo apenas necessário saber como medir a massa e a velocidade. Ora, esta aliança entre a física e a matemática está na base da física matemática moderna e, como tal, constitui uma invenção relativamente recente: a filosofia matemática da natureza data dos séculos XVI e XVII e deve-se a Copérnico (1473-1543) e a Galileu Galilei (1564-1642), cujo precursor foi o seu mestre Arquimedes (287-212 a.C.), o philosophus platonicus segundo a tradição doxográfica, fundador da estática enquanto ciência do equilíbrio. Copérnico e Galileu foram influenciados pelo neoplatonismo florentino que defendia o estilo matemático do pensamento (magia matemática), o culto do Sol, ideia subjacente à noção copernicana de um sistema construído sobre o Sol central (heliocentrismo), e a perfeição de um mundo infinito. Ambos abraçaram a epistemologia platónica, rompendo não só com a epistemologia aristotélica mas também com a física e a metafísica de Aristóteles.
A Física abrange diversos ramos e disciplinas, entre os quais destacamos o mais famoso, a mecânica, que estuda as relações entre força, matéria e movimento. A mecânica compreende a dinâmica, que estuda o movimento e as forças que o causam, a estática, que trata de casos especiais em que a aceleração é nula, e a cinemática, que lida unicamente como o movimento, matematicamente falando. A dinâmica moderna cobre quase toda a mecânica e o seu fundador foi, num primeiro momento, Galileu Galilei. É esta fundação, mais precisamente a revolução científica, bem como o conceito de ciência nela implicada, que iremos estudar. A revolução científica dos séculos XVI e XVII, à qual estão ligados os nomes de Copérnico, Galileu, Descartes, Kepler e Newton, entre tantos outros, implicou uma mutação intelectual radical, da qual a ciência física moderna e a filosofia moderna são, ao mesmo tempo, os frutos e as expressões. O princípio de continuidade defendido por P. Duhem é cabalmente desmentido pelos estudos histórico-filosóficos de A. Koyré, T.S. Kuhn e H. Butterfield.
1. Teorias da Revolução Científica. A revolução científica dos séculos XVI e XVII constitui talvez a maior revolução intelectual consumada, embora ainda não tenhamos uma teoria cabal desta grande mutação intelectual que se inicia durante o Renascimento e que se prolonga até ao século XVIII, pelo menos até Kant. Geralmente, os seus estudiosos têm dado mais atenção à revolução copernicana e ao renovar da astronomia: a substituição da astronomia de Ptolomeu (século II d.C.) pela astronomia copernicana, substituição consumada por Kepler (1571-1630) graças às observações cuidadosas e fidedignas acumuladas por Tycho Brahe (1546-1601). Mas esta é uma mutação radical que se reflecte em diversos níveis do conhecimento e da vida cultural e social. Foram propostas, pelo menos, três teorias fundamentais para explicar esta mutação intelectual. 1.1. A primeira teoria explica esta revolução pela transformação completa e radical de toda a atitude fundamental do espírito humano: o seu traço fundamental reside na substituição de uma vita contemplativa (theoria) por uma vita activa. Geralmente, os defensores desta teoria tendem a destacar o papel de Bacon (1561-1626). Para Bacon, conhecer é poder. Isto significa que o conhecimento da natureza é virtualmente o domínio da natureza. A moderna ciência da natureza dirige-se não a um conhecimento teórico, mas a uma acção: ciência e técnica estão intimamente ligadas. A tendência mecanicista da física clássica é explicada por este desejo de dominar e de agir do homem moderno. A física de Galileu, de Descartes ou de Hobbes é uma sciencia activa que visa tornar o homem "senhor e dono da natureza" (Descartes). Leroy e Borkenau explicaram o nascimento da ciência e da filosofia cartesianas pelo aparecimento de uma nova forma de empresa económica: a manufactura. Esta perspectiva não implica que a ciência clássica seja obra de artesãos, técnicos ou engenheiros: ela foi desenvolvida efectivamente por teóricos e filósofos. Apesar disso, Hannah Arendt ou mesmo Bergson têm razão quando a consideram como uma aplicação à natureza das categorias do pensamento do Homo faber: "Não foi a razão, mas um instrumento feito pela mão do homem, o telescópio, que realmente mudou a concepção física do mundo", isto é, o que levou os fundadores, em especial Galileu e Descartes, ao novo conhecimento "não foi a contemplação, nem a observação, nem a especulação, mas a entrada em cena do homo faber, da actividade de fazer e de fabricar" (H. Arendt). 1.2. A segunda teoria insiste sobretudo na luta de Galileu contra a autoridade e contra a tradição de Aristóteles e da Igreja, destacando o papel da observação e da experiência na elaboração da nova ciência da natureza. Esta teoria não é incompatível com a primeira, mas convém, neste momento, distinguir entre a "filosofia espontânea dos cientistas" (Althusser), tal como se revela depois do positivismo, uma degenerescência do impulso da revolução científica, e a filosofia da ciência: o discurso da experiência no sentido da "pergunta colocada à natureza" (Galileu) não é "real". As experiências relatadas por Galileu ou por Pascal não foram efectivamente realizadas e, se tivessem sido realizadas, os resultados desmentiriam as novas teorias. A teoria matemática precede a experiência e as experiências referidas pelos fundadores foram experiências de pensamento. Como observou H. Arendt, a moderna reductio scientiae ad mathematicam anulou o testemunho da observação da natureza a curta distância pelos sentidos e esta anulação está claramente presente na obra de Giordano Bruno (1548-1600), que, acompanhando Nicolau de Cusa, defendeu os conceitos de universo infinito e de infinidade de mundos, povoados por outros seres inteligentes. De facto, esta perspectiva teórica da revolução científica pode ser esclarecida pela distinção que Kuhn estabelece entre "ciências clássicas" e "ciências baconianas": as primeiras protagonizaram a revolução científica, pelo menos nos seus primeiros momentos heróicos. A. Koyré e H. Butterfield têm razão quando afirmam que a filosofia de Bacon foi, em termos da nova ciência, uma espécie de "embuste". As descobertas experimentais desempenharam um papel pouco relevante na revolução científica. Em 1610, a Igreja Católica entrou oficialmente na luta contra o copernicianismo e os copernicanos deixaram de ser rotulados de infiéis e ateus e passaram a ser formalmente acusados de heréticos. Em Roma, Giordano Bruno foi queimado vivo na fogueira da Inquisição. Em 1616, o obra de Copérnico e todas as obras que afirmassem o movimento da Terra em torno do Sol foram colocadas no Índex, os copernicanos católicos foram expulsos e as suas opiniões condenadas e, em 1633, Galileu foi preso e obrigado a retractar-se. De facto, a Igreja tinha "razão" ao proceder deste modo, porque o copernicanismo era potencialmente destrutivo de toda uma forma ou estilo de pensamento, mas a sua reacção contra a nova ciência realizou-se durante a Contra-Reforma, portanto, mais como uma reacção contra a Reforma protestante do que pelo conhecimento pleno das implicações revolucionárias do copernicanismo. Muito antes da Igreja Católica ter tomado esta decisão oficial, a doutrina de Copérnico já era atacada por Lutero e por Calvino, mediante a alegação de que desmentia a Sagrada Escritura. Com a teoria de Copérnico, o mundo fechado cedia o seu lugar a um universo aberto: não somente um universo cognitivo mas também um novo universo social, onde o homem perdeu o seu lugar e a sua posição privilegiada na "criação": a sua alienação do mundo coincide com o subjectivismo da filosofia moderna e a racionalidade instrumental (Horkheimer & Adorno). 1.3. Nenhuma das teorias anteriores é completamente verdadeira ou completamente falsa: cada uma delas acentua traços importantes da nova ciência da natureza, embora não sejam necessariamente os traços mais marcantes. A. Koyré elaborou uma terceira teoria que afirma que a atitude intelectual da ciência clássica se caracteriza por dois traços que se completam um ao outro, a saber: a destruição do cosmos e, consequentemente, o desaparecimento na ciência de todas as considerações baseadas nessa noção de um mundo finito, nomeadamente o princípio aristotélico da teleologia (1), e a geometrização do espaço, isto é, a substituição da concepção de um espaço cósmico qualitativamente diferenciado e concreto, o espaço da física pré-galilaica, pelo espaço homogéneo e abstracto da geometria euclidiana (2). Isto significa que a ciência clássica fundada por Galileu e Newton pode ser caracterizada por duas características: a matematização (geometrização) da natureza e, por conseguinte, a matematização (geometrização) da ciência. Esta última característica deve-se mais a Descartes do que a Galileu ou mesmo a Newton. Ora, o Renascimento trouxe consigo a ascensão da burguesia e, portanto, a ascensão de uma economia de mercado, na qual o valor qualitativo dos produtos do trabalho humano se evapora cada vez mais no valor quantitativo de troca desses produtos no mercado. A mercantilização de todos os homens e de todas as coisas transforma as qualidades do trabalho e dos seus objectos em magnitudes abstractas, expressáveis em números. Este interesse mercantil acentua-se com o desenvolvimento da manufactura. Aqui reside o interesse pelo cálculo e pelo domínio contável da realidade. Esta base económica da formação do cálculo matemático contribuiu decisivamente para o prestígio dos números, que na Idade Média foram considerados somente de um modo mágico, como mística aritmética. Podemos dizer que não há uma matemática medieval, embora os árabes tenham introduzido a álgebra e o número zero já fosse conhecido. A Península Ibérica que iniciou o movimento das descobertas geográficas auto-excluiu-se do processo capitalista: os seus livros de contabilidade limitavam-se a anotar as dívidas. A época do florescimento matemático desenvolveu-se em França, onde a relação entre a matemática e a economia burguesa foi particularmente estreita e evidente. A captação dos objectos da natureza numa ordem matemática está associada ao surgimento de uma economia de mercado. Este "factor extra-lógico" ajuda a compreender os traços destacados por Koyré da revolução intelectual do século XVII, levando em conta os traços acentuados pelos outras duas teorias expostas. A relação entre a matemática e a economia de mercado não é uma relação simples, mas uma relação complexa e mediatizada, sem a compreensão da qual não podemos explicar integralmente a revolução científica e as reacções cépticas e/ou adversas que produziu até aos nossos dias. A filosofia da matemática, pelo menos na sua versão logicista, é incapaz de explicar a relação entre a matemática e a realidade, talvez por ser demasiado platónica e por desprezar a sua associação com a economia de mercado, de resto revelada pela teoria de Marx. (CONTINUA com o título "O Nascimento da Ciência Moderna 2".)
J Francisco Saraiva de Sousa
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