A teoria neuro-hormonal do desenvolvimento da orientação sexual mostrou que os efeitos hormonais pré-natais sobre a diferenciação do cérebro e do comportamento envolvem padrões complexos de masculinização, desmasculinização, feminilização e desfeminilização, associados com padrões particulares de orientação sexual (Ellis & Ames, 1987; Pillard & Weinrich, 1987). J.R. Feierman (1990) conjecturou que os padrões da diferenciação sexual do cérebro podem estar ligados aos padrões de características preferidas do parceiro baseadas na avaliação de traços do alvo em relação ao sujeito. Assim, por exemplo, Feierman sugeriu que um cérebro masculinizado e desfeminizado provoca atracção sexual por parceiros mais jovens e mais femininos do que o sujeito e, nesta categoria, incluem-se os homens heterossexuais adultos, bem como os pedófilos heterossexuais e homossexuais e os homens atraídos por jovens adolescentes. Por outro lado, Feierman conjecturou que os cérebros masculinizados e feminizados dirigem a sua atracção erótica para parceiros mais jovens e mais masculinos do que o sujeito e os homens homossexuais podem ser incluídos nesta categoria. Existe muita evidência empírica de que os homens homossexuais são especialmente atraídos por homens com aspecto masculino (B. Mealey, 1997; Muscarella, 2001). Contudo, estas sugestões não esgotam todas as «preferências sexuais» dos homens homossexuais e heterossexuais. Feierman (1999) considera que os cérebros dos homens heterossexuais são masculinizados e desfeminizados, dirigindo a atracção para alvos que são mais novos e mais femininos do que eles. Os cérebros dos homens homossexuais são masculinizados e feminizados, dirigindo a atracção para alvos que são mais novos e mais masculinos do que eles. Ora, os nossos dados desmentem a uniformidade deste conceito de homossexualidade masculina: os homens homossexuais variam entre si em diversos traços, exibindo padrões ora mais masculinos, ora mais femininos (De Sousa, 2006). Estes resultados são congruentes com a hipótese neuro-hormonal diferencial da orientação sexual: as diferenças sexuais estão presentes no seio da população homossexual, porquanto os homossexuais variam entre si em traços críticos, com os homossexuais efeminados a exibir um maior número de traços sexuais atípicos (desmaculinização) e os homossexuais masculinizados a exibir traços sexuais típicos (masculinização) e, nalguns aspectos, hipermasculinos (Becker et al., 2005). Os cérebros homossexuais exibem padrões de diferenciação sexual diferentes e talvez distintos, não podendo ser reduzidos a um único «cérebro feminizado». O único traço comum a todos eles reside no facto de sentirem maior atracção sexual por parceiros com «aspecto masculino» e de reagirem com elevada excitação genital a estímulos sexuais masculinos (Chivers, Rieger, Latty & Bailey, 2004; Lippa, 2006; Rieger, Chivers & Bailey, 2005). De facto, os homens homossexuais destacam o papel desempenhado pela atractividade física e sexual na escolha de parceiro (Gonzales & Meyers, 1993; Siever, 1994; Sergios & Cody, 1985-86), preferindo parceiros com «aspecto masculino» (Mealey, 1992), como demonstraram as análises dos anúncios íntimos (Bailey et al., 1997; De Sousa, 2006). A estrutura neural responsável pela atracção sexual nos homens homossexuais é feminizada e desmasculinizada. Se os grupos heterossexuais fossem diferenciados, é provável que algumas diferenças intra-homossexuais observadas estivessem também presentes entre os heterossexuais, o que poderia clarificar o âmbito da pesquisa neuroendocrinológica e genética da orientação sexual. Mas, independentemente dos resultados dessa pesquisa futura, resulta destas observações o facto de ser necessário falar de masculinidades no plural (Schauer, 2004; Beynon, 2002; Connell, 1995, 2000; Whitehead, 2002), em vez de masculinidade no singular e no sentido heterosexista do termo. Este facto parece ser independente da identidade de género, porquanto, como demonstraram Swaab & Hofman (1995), o tamanho do núcleo do leito da estria terminal é similar entre os homens heterossexuais e homossexuais, tendo nos transexuais um tamanho ligeiramente menor ao das mulheres heterossexuais. A existência de diversos tipos de homossexuais masculinos e femininos, entre os quais se evidenciam claras diferenças sexuais e padrões distintos de comportamento, sugere que a via da orientação sexual está submetida a regulação multi-génica, como seria de esperar de um traço comportamental complexo. Esta ideia coaduna-se com os resultados de Mustanski et al. (2005) e Bocklandt et al. (2006). Dado os homens transexuais serem geralmente provenientes dos grupos dos homossexuais hiperefeminados, em especial dos agitados, podemos supor que genes do cromossoma X tenham uma grande influência sobre o desenvolvimento da orientação sexual deste grupo de homossexuais. Com efeito, estes transexuais exibem um aumento da ratio maternal tio/sobrinho similar à de alguns homens homossexuais (Green & Keverne, 2000; Turner, 1995). Na tentativa de explanar uma base genética e endócrina para a selecção do comportamento homossexual, Rahman & Wilson (2003) propuseram o seguinte cenário: Durante a evolução humana, a agressão intra-sexual constituía um problema adaptativo, porque provocava a redução da sobrevivência individual e o infanticídio (Diamond, 1992; Wrangham, 1987). Por isso, ocorreram mutações genéticas que garantiram a plasticidade evolucionária da diferenciação sexual neuroendócrina. A plasticidade não é aqui usada para designar um mecanismo neuro-endócrino infinitamente flexível mediante o qual se produz polimorfismo sexual infinito, mas um mecanismo neuro-anatómico, neuroquímico e neuro-endócrino ancestral conservado entre os vertebrados, sobre o qual a selecção age para gerar variação nos fenótipos individuais. Rahman & Wilson baseiam a sua teorização sobre o estudo de M.S. Grober (1997) com um peixe teleóstico, que exibe uma variedade de fenótipos sexuais. Os desvios observados no sexo do peixe, isto é, machos sexualmente activos e fêmeas que se transformam regularmente em machos, com uma morfologia masculina adequada, são acompanhados por mudanças correspondentes no comportamento sexual. O mecanismo neuroendócrino que permite estas alterações é plástico na sua habilidade para mudar a estrutura e a função (Grober et al., 1991), envolvendo mudanças nas hormonas produzidas pelo eixo hipotálamo-pituitária-adrenal (HPA) e pelo eixo hipotálamo-pituitária-gonadal (HPG). Sinais sociais afectam os substratos neurais, os quais alteram os níveis das hormonais sexuais através de mecanismos de feedback das alças associadas com cada um dos eixos neurais. Grober & Sunobe (1996) demonstraram que a mudança de sexo serial que é mediada socialmente no Trimma okinawae (marina goby) envolve alterações significativas e reversíveis no tamanho da arginina vasotocina produzida pelas células do cérebro anterior. Mudanças nestas hormonas sexuais causam alterações estruturais e funcionais nas estruturas neurais associadas com o comportamento sexual, tais como a área preóptica do hipotálamo e o núcleo supraquiasmático, as mesmas áreas que estão associadas com a orientação sexual nos mamíferos, incluindo os seres humanos (Swaab, 2004; Morris, Jordan & Breedlove, 2004; Gooren, 2006). Rahman & Wilson (2003) aceitam a ideia de que o comportamento homossexual pode ter sido adaptativo por causa da sua contribuição para a formação de alianças, mas rejeitam o conceito de que os seres humanos são basicamente bissexuais, argumentando a evidência empírica suporta uma orientação sexual masculina bimodal e, possivelmente, uma orientação sexual feminina trimodal. Daí que tenham recusado a tentativa de Kirkpatrick (2000) e de Muscarella (1999, 2000) de conceptualizar uma base neuroendócrina para a selecção do comportamento homossexual. Baseados na pesquisa sobre a mudança de sexo nesse peixe e sobre a teoria de Miller (2000) da selecção de traços femininos nos homens, Rahman & Wilson propõem que as variações nos genótipos produziram machos hominídeos que eram mais femininos nos traços comportamentais e mais bissexuais nas preferências sexuais. Este genótipo produziu machos ancestrais que exibiam tais características. Além de terem contribuído para a afiliação do mesmo sexo e conduzido à formação de alianças, estas características atraiam as fêmeas, porque estavam associadas com a diminuição da agressão e do infanticídio, o melhoramento do comportamento parental e das qualidades parentais, o compromisso e a afiliação com outros machos menos poderosos e o aumento da viabilidade das crias. Durante todo esse período de tempo, as fêmeas escolheram os machos que exibiam traços femininos, o que levou à proliferação dos alelos da feminização. A consequência dessa escolha sexual feminina foi a evolução de alelos associados com o interesse homossexual exclusivo (alelos exclusivamente gay). A contribuição positiva dos traços femininos dos homens para o parentesco e a viabilidade das crias compensaram os seus efeitos reprodutivamente deletérios. A selecção sexualmente antagonista favorece os genes que optimizam os traços de um dos sexos, apesar de diminuírem a aptidão directa quando são expressos pelo outro sexo. O resultado foi a sexualidade bimodal. Deste modo, os alelos para a homossexualidade bimodal foram conservados num polimorfismo balanceado. No entanto, este argumento parece ser inconsistente, já que supõe que os genótipos particulares presentes entre os hominídeos produziram machos mais femininos nalguns traços comportamentais e bissexuais nas preferências sexuais. Assim, a bissexualidade foi uma estratégia de sobrevivência e de reprodução bem sucedida entre os machos ancestrais e houve selecção para que assim fosse. Daqui decorre que a maioria dos machos humanos deveria ser basicamente bissexual ou, pelo menos, ter o potencial para a bissexualidade sob determinadas condições. Este é, aliás, o argumento de Kirkpatrick (2000) e de Muscarella (1999; 2000). Contudo, Rahman & Wilson recusam o conceito de que os machos humanos são basicamente bissexuais. Como poderia uma população de machos humanos ter evoluído para a actual heterossexualidade quando a selecção era para reter traços bissexuais? Num inquérito realizado nos USA por Laumann et al. (1994), apenas 0.8% dos homens foram categorizados como bissexuais e 96.9% foram categorizados como heterossexuais. Estes dados indicam que apenas uma pequena percentagem de homens está predisposta para uma orientação homossexual exclusiva, devido à variação normal dos genótipos que regulam algumas preferências sexuais, mas não explicam como um genótipo para a preferência sexual teorizado para ser o mais adaptativo possa ter desaparecido durante o curso da evolução humana, levando a genótipos para alternativas menos adaptativas. É possível que, apesar dos estudos contemporâneos mostrarem uma distribuição bimodal da orientação sexual, este fenómeno possa reflectir os efeitos de constrangimentos culturais e não a actual variação genotípica. Assim, por exemplo, embora a psicologia evolutiva afirme que os machos evoluem para ser sexualmente promíscuos (D.M. Buss, 1999), a maioria dos homens americanos casados permanecem fiéis às suas mulheres (Laumann et al., 1994), envolvendo-se em compromissos monogâmicos. Muitos etólogos consideram que esta monogamia pode ser explicada como o resultado de constrangimentos culturais exercidos sobre predisposições evolucionárias. De modo similar, pode ser precipitado assumir que a incidência de um comportamento tão complexo e tão pouco compreendido como a orientação sexual humana reflicta variação genotípica livre de influências sociais e culturais. Neste aspecto, a teoria da selecção de traços bissexuais na evolução humana de Rahman & Wilson assemelha-se às teorias propostas por Kirkpatrick (2000) e Muscarella (1999, 2000), com as quais pretende ter rompido. As primeiras teorias evolutivas tentaram explicar como o comportamento homossexual era ou uma má adaptação ou um bi-produto biologicamente irrelevante da plasticidade do cérebro humano. Entretanto, como vimos, emergiu uma nova visão da evolução do comportamento homossexual na psicologia evolutiva, a qual defende que algum tipo de comportamento homossexual foi adaptativo no decorrer da evolução humana e, por causa disso, foi seleccionado. Surgiram duas grandes perspectivas sobre este assunto: a primeira destaca que o comportamento homossexual reforça alianças do mesmo sexo, o que contribuiu directamente para a sobrevivência e indirectamente para a reprodução (Kirkpatrick, 2000; Ron et al., 2000; Muscarella, 2000), enquanto a segunda perspectiva defende que o comportamento homossexual foi adaptativo nos meios ancestrais, explicando a sua base neuroendócrina através da feminilização do cérebro masculino, especialmente dos cérebros associados com a orientação homossexual (Miller, 2000; Rahman & Wilson, 2003). Porém, uma tal perspectiva parece ser constrangida pelos estereótipos culturais e científicos comuns, segundo os quais os homens com uma orientação homossexual são, de alguma forma, menos masculinos e mais femininos do que os homens heterossexuais. A investigação neuroendocrinológica mostrou que efeitos hormonais pré-natais organizacionais e possivelmente alguns efeitos pós-natais determinam, em grande medida, o desenvolvimento da orientação sexual (Pillard & Weinrich, 1987). Embora a evidência empírica desses efeitos tenha sido provada (Breedlove, 1992; Gorski, 1986), a pesquisa que procura mostrar diferenças persistentes entre homens heterossexuais e homossexuais tem revelado alguns dados inconsistentes (Meyer-Bahlburg, 1995), talvez por ser constrangida pelo estereótipo cultural de que a orientação homossexual dos homens possa ser completamente igualada à feminilidade: os estudos neuro-endrócrinos mostraram que os homens homossexuais exibem funcionamentos hormonais e neuroendócrinos, bem como estruturas neurais, mais similares aos das mulheres do que aos dos homens heterossexuais. Estes resultados são apoiados pelos estudos de populações clínicas (Cohen-Bendahan, van de Beek & Berenbaum, 2005; Hines, 2006). As inconsistências observadas resultam da não diferenciação interna dos grupos homossexuais. Se os homens homossexuais possuíssem um endofenótipo absolutamente similar, eles estariam dependentes dos homens heterossexuais em termos de satisfação sexual. Ora, uma tal dependência sexual não se verifica: a população homossexual goza de independência sexual. Como é evidente, um modelo teórico único não pode explicar um fenómeno tão complexo como a orientação sexual humana. Muscarella et al. (2001) apresentaram um modelo integrado, de acordo com o qual algum tipo de comportamento homossexual tinha valor adaptativo sob determinadas condições durante a evolução humana ancestral e esta é a razão pela qual os genes responsáveis por este comportamento permaneceram na população. Factores hormonais e neuroendócrinos estão indubitavelmente envolvidos no comportamento homossexual, dado estarem envolvidos no controle de muitos aspectos do comportamento sexual de diversas espécies animais (Morris, Jordan & Breedlove, 2004). Muscarella et al. (2001) conjecturam que, no passado evolucionário da humanidade, ocorreu selecção dos traços mais femininos e, portanto, bissexuais, nos homens. Ross & Wells (2000) conjecturam que a homosociabilidade foi uma pré-adaptação para a homossexualidade e Kirkpatrick (2000) lançou a hipótese de que a selecção ocorreu através do altruísmo recíproco. As duas últimas abordagens não implicam a selecção de traços femininos para a interpretação da orientação sexual humana. O comportamento homossexual pode representar uma forma de flexibilidade sexual não muito diferente da escalada comportamental de muitos comportamentos de animais de outras espécies (Barash, 1982). Assim, por exemplo, durante a estação de acasalamento, os machos sea lions não se toleram uns aos outros e lutam furiosamente entre si. Depois da estação de acasalamento, eles estendem-se e refastelam-se bastante juntos e de modo afectivo na praia. De modo semelhante, os pares de deambulação de machos adultos são extraordinariamente agressivos, embora participem em comportamentos homossexuais frequentes uns com os outros (Bagemihl, 1999). O comportamento destes animais não é explicado em termos de feminilização excessiva, mas antes como simples escalada comportamental. Em conformidade com estas observações, os machos humanos podem ter evoluído para exibir algum grau de comportamento bissexual sob determinadas condições. A orientação predominantemente homossexual exibida por uma pequena percentagem de homens pode ser devida a uma grande predisposição genética, como resultado da variação genética, em combinação com factores culturais e sociais que possibilitam a sua expressão. As inconsistências encontradas na pesquisa neuroendócrina podem ser devidas ao facto dessa pesquisa fundar-se num pressuposto falso: o de que a orientação sexual é seguramente dicotómica. Dado as características determinadas geneticamente tenderem a ser contínuas (Lewontin, 1982), a expressão geneticamente mediada do comportamento homossexual poderá, de modo similar, ser igualmente contínua. As medidas da orientação sexual que reflectem uma distribuição bimodal de heterossexualidade /homossexualidade, pelo menos nos países ocidentais, podem não reflectir adequadamente a actual variação genotípica e a sua correspondente variação neuroendócrina. A maior parte dos estudos realizados usam voluntários auto-rotulados como homossexuais, bissexuais ou heterossexuais. E, dado existirem pressões sociais contra o reconhecimento público da orientação homossexual, o grupo homossexual é auto-seleccionado pelas suas psicologia e endocrinologia, que estão na base dos comportamentos exibidos. No entanto, assumindo que o genótipo do comportamento homossexual é contínuo, torna-se necessário dar mais atenção às variações observadas no seio dos grupos heterossexuais, bissexuais e homossexuais de ambos os sexos. A variação observada no comportamento sexual visível pode ser gerada pela correspondente variação genotípica, o que explica a proporção elevada de comportamento homossexual observada em homens auto-identificados como heterossexuais com acesso limitado a parceiros do sexo oposto (Bancroft, 1989). (CONTINUA com o título "Paradoxo Darwiniano: a Homossexualidade 3".) J Francisco Saraiva de Sousa
domingo, 15 de março de 2009
Paradoxo Darwiniano: a Homossexualidade (2)
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sexta-feira, 13 de março de 2009
Paradoxo Darwiniano: a Homossexualidade (1)
No campo da psicologia evolutiva, tem predominado a concepção de que o comportamento homossexual humano não é biologicamente adaptativo, porque não apresenta qualquer ligação com o potencial sucesso reprodutivo do indivíduo e da espécie (Archer, 1996; Gallup, 1995; Gallup & Suarez, 1983; Stevens & Price, 1996). Nesta perspectiva, o comportamento homossexual foi explicado como um bi-produto da plasticidade do cérebro humano e da variabilidade resultante da sexualidade humana (Buss, 1994; Wright, 1994; McKnight, 1997; Thiessen, 1996). No entanto, a pesquisa genética recente sugere que a orientação sexual é influenciada, em parte, por factores genéticos. A homossexualidade está presente no seio das famílias (Bailey & Bell, 1993; Pattatucci & Hamer, 1995): os gémeos monozigóticos, que partilham todos os seus genes, são mais propensos a concordar na sua sexualidade do que os gémeos dizigóticos, que partilham, em média, metade dos seus genes (Kendler et al., 2000; Kirk et al., 2000). Nas sociedades ocidentais contemporâneas, os indivíduos homossexuais tendem a ter menos filhos do que os indivíduos heterossexuais (Bell & Weinberg, 1978; Bell, Weinberg & Hammersmith, 1981; Pattatucci & Hamer, 1995; Van de Ven, Rodden, Carwford & Kippax, 1997). Devido à plasticidade das sexualidades de género feminino (Baumeister, 2000; Diamond, 2000), as lésbicas têm mais filhos do que os homens homossexuais, mas o seu sucesso reprodutivo é menor do que o das mulheres heterossexuais (Bell & Weinberg, 1978; LeVay, 1996). Ora, se o baixo sucesso reprodutivo foi o caso dos homens homossexuais ancestrais (Pillard & Bailey, 1998), torna-se necessário explicar como é que a homossexualidade evoluiu e como foi conservada na população com uma frequência relativamente elevada. Este é o paradoxo darwiniano que a investigação científica contemporânea procura resolver. A sociobiologia e a psicologia evolutiva recente romperam com a noção de que o comportamento homossexual não tem valor adaptativo, propondo diversas teorias para explicar o paradoxo darwiniano. E. O. Wilson (1975, 1978) propôs a teoria da selecção familiar ou de parentesco (kin selection) para explicar o modo como os genes que predispõem para a homossexualidade podem ser conservados e perpetuados nas populações humanas (Maynard Smith, 1964): os indivíduos homossexuais ajudaram os seus irmãos nos meios ancestrais a reproduzirem-se com maior sucesso, mediante a provisão de recursos e os cuidados com as crianças. Embora reduzissem o sucesso reprodutivo directo do indivíduo que os possuia, os genes da homossexualidade sobreviveram indirectamente através das linhagens familiares, dado induzirem-no a promover o sucesso reprodutivo dos seus parentes próximos. Trivers (1972, 1974) elaborou a noção de investimento parental para designar "todo e qualquer investimento dos progenitores num descendente individual que lhes aumente as possibilidades de sobrevivência (e, por conseguinte, o êxito reprodutivo), em detrimento da capacidade de os pais investirem noutros descendentes". A teoria de Trivers destaca a manipulação parental (Alexander, 1974) da orientação sexual dos filhos: ter filhos homossexuais beneficia a reprodução parental. Os progenitores podem induzir a homossexualidade nalguns filhos através da regulação dos recursos ou da sua socialização, de modo a torná-los menos competitivos nos papéis reprodutivos e a aumentar a sua assistência prestada à reprodução dos outros irmãos, isto é, a própria aptidão parental inclusiva. De certo modo, os filhos homossexuais são sacrificados e os seus interesses vitais individuais são subordinados à pretensa exigência de uma solidariedade de família. Ambas as teorias sociobiológicas são fascinantes, mas carecem de evidência antropológica substancial (Kirkpatrick, 2000). E. M. Miller (2000) sugeriu que a homossexualidade masculina é um bi-produto da variável feminilização do cérebro associada com traços da personalidade, nomeadamente a sensibilidade acrescida, a empatia e a generosidade, que tornam os machos mais atractivos para as fêmeas (Sprecher, Sullivan & Hatfield, 1994), especialmente quando exibem também características faciais femininas (Perret et al., 1998; Rhodes, Hickford & Jeffrey, 2000), e que fazem deles bons pais. Nesta teoria sociobiológica, a orientação sexual é conceptualizada como um traço poligénico, isto é, como uma característica influenciada por um determinado número x de genes, alguns dos quais podem alterar o desenvolvimento do cérebro masculino e, por conseguinte, o comportamento, na direcção da via feminina. Com base na teoria do efeito fraternal da ordem de nascimento (Blanchard & Bogaert, 1996; Blanchard & Klassen, 1997), Miller (2000) encarou a homossexualidade como um bi-produto do mecanismo mediante o qual os filhos nascidos mais tarde desenvolvem personalidades desviadas na direcção feminina e pelo qual a competição fraterna pelos mesmos nichos é reduzida. Embora algum grau de feminilização seja necessário para o sucesso reprodutivo masculino (McKnight, 1997), ele também pode ter efeitos deletérios. Devido à variação genética normal, uma pequena percentagem de homens pode ser sobre-feminilizada, exibindo cérebros, comportamentos e corpos mais femininos do que os outros homens. Contudo, além de não haver evidência empírica a suportar esta associação linear entre o desenvolvimento do cérebro, do comportamento e da morfologia entre os homens homossexuais, a não ser no caso de homossexuais hiperefeminados e dos transexuais, a pluralidade das homossexualidades masculinas (e femininas) desmente a orientação geral desta hipótese (De Sousa, 2006). M.W. Ross & A.L. Wells (2000) elaboraram uma outra perspectiva sobre o comportamento homossexual, alegando que as explicações evolutivas da homossexualidade propostas foram elaboradas com base no comportamento homossexual tal como se manifesta nas sociedades ocidentais contemporâneas. Ora, os actuais meios sociais não reflectem os meios ancestrais (environments of evolutionary adaptedness, EEA), nos quais o comportamento homossexual evoluiu, nem tão pouco as condições ecológicas que afectaram a sua expressão. Assim, Ross & Wells (2000) propõem que o comportamento homossexual é uma «exadaptação» (exaptation) do comportamento homosocial (homosocial behavior). Uma exadaptação não é um produto directo da selecção natural, mas uma variação neutral de um comportamento, o qual com o decorrer do tempo demostra alguma aptidão (fitness), sobre a qual a selecção natural actua. Nesta perspectiva, o comportamento homossexual masculino contribuiu para a sobrevivência dos homens mediante o reforço do apoio social e do acesso aos recursos. Além disso, o comportamento homossexual pode ter reforçado os grupos homosociais e, por isso, foi preservado pela selecção natural. O conceito de exadaptação já tinha sido utilizado por P. Vasey (1995) para explicar a evolução de alguns aspectos do comportamento homossexual dos primatas: a homosociabilidade masculina é um factor que parece incrementar ou, pelo menos, facilitar a ocorrência do comportamento homossexual (Khan, 2001), como sucede nas instituições masculinas, tais como prisões, colégios unisexo e exército. Vasey (1995) e Bagemihl (1999) mostraram que a homossexualidade dos primatas não-humanos desempenha um papel determinante na redução da agressão intra-sexual e no aumento dos pares do mesmo sexo, tanto nos meios naturais como no laboratório. Kirkpatrick (2000) e Muscarella (2000) defenderam que o estudo evolutivo da orientação sexual deve concentrar-se sobre o comportamento homossexual, em vez de recorrer ao conceito inseguro de homossexualidade. A revisão da evidência histórica e transcultural revela dois supostos factos: a) o comportamento bissexual constitui a norma para a maior parte das espécies estudadas e da história humana; e b) a maior parte do comportamento homossexual tem sido exibido por pessoas que não se consideram a si mesmas como homossexuais. Muscarella e Kirkpatrick defendem a noção de "bissexualidade básica", rejeitando a orientação sexual bimodal a favor de um único contínuo de variação sexual. Esta perspectiva evolucionária do comportamento homossexual atribui-lhe valor adaptativo entre os seres humanos. No decurso da evolução humana, o comportamento homossexual pode ter reforçado as alianças do mesmo sexo, as quais contribuíram directamente para a sobrevivência (Kirkpatrick, 2000; Muscarella, 1999, 2000) e, indirectamente, para a reprodução. Kirkpatrick (2000) encara o comportamento homossexual como resultado da selecção da formação de alianças através do altruísmo recíproco, o qual pode ter contribuído para a exploração e a troca de recursos e para uma redução da agressão intra-masculina. De facto, os homens gay são mais empáticos e menos agressivos do que os homens heterossexuais (Pillard, 1991; Gladue & Bailey, 1995). Por sua vez, Muscarella (2000) argumenta que os hominídeos adolescentes e adultos jovens eram, provavelmente, machos socialmente periféricos e que a capacidade de participar no comportamento homossexual reforçava as alianças masculinas, as quais contribuíram directamente para a sobrevivência. Posteriormente, estas alianças beneficiaram unicamente as necessidades reprodutivas de cada um dos sexos. Os aliados do mesmo sexo ajudavam os homens a ascender na hierarquia social de modo mais efectivo, facilitando o acesso às fêmeas e às oportunidades reprodutivas, enquanto, entre as mulheres, os aliados do mesmo sexo ajudavam-nas a deslocar-se para o centro seguro e rico em recursos do grupo, o que aumentava as suas oportunidades de criar os filhos com sucesso. As teorias de Kirkpatrick e de Muscarella não se dirigem à orientação sexual per se, mas sim à selecção de uma resposta comportamental, assumindo que esta última tem uma base genética, que varia de tal modo entre os indivíduos que alguns podem ter uma predisposição maior do que outros para esse comportamento. Os diversos graus das disposições para participar no comportamento homossexual podem interagir com uma série de experiências pessoais, condições ecológicas e processos psicológicos, resultando numa orientação sexual geral. A homossexualidade não tem sido dócil à explicação biológica por um único modelo causal, devido à incontestável complexidade dos factores que influenciam o seu desenvolvimento. Por isso, Muscarella et al. (2001) adoptaram recentemente uma abordagem mais integrativa, com o propósito de apresentar uma teoria actual sobre a evolução do comportamento homossexual, integrando-a no quadro de referência da teoria neuroendocrinológica (Ellis & Ames, 1987) e da genética. Os estudos neuroendócrinos (Dörner, 1978; Newmark et al., 1979; Dörner, 1981; Gladue et al., 1984; Elias & Valenta, 1992) revelaram que a homossexualidade masculina, bem como a feminina, é apenas uma expressão do comportamento sexual num contínuo de variação sexual que pode ser significativamente influenciado pelas mudanças e alterações hormonais. A preferência sexual masculina pode ser ditada pela acção organizacional da testosterona sobre o cérebro, a qual começa no período pré-natal e continua durante o período crítico pós-natal (Roper, 1996; Dabbs, 2000). Robinson & Manning (2000) apresentaram nova evidência empírica a favor desta teoria neuro-endocrinológica, a partir da medição da ratio 2D:4D de homens bissexuais, homossexuais e heterossexuais: os homens homossexuais mostraram uma ratio 2D:4D mais masculinizada do que a dos homens heterossexuais, mas, em contraste com os resultados do estudo de Williams et al. (2000), este efeito era independente da ordem de nascimento. Estes resultados sugerem que a exposição a níveis elevados de testosterona pré-natal contribui para o desenvolvimento das orientações bissexual e homossexual. E, quando devidamente interpretados, revelam uma explicação alternativa do valor adaptativo da homossexualidade. No feto masculino, poderá haver "competição selectiva" por níveis elevados de testosterona, os quais são necessários para a diferenciação sexual dos sistemas associados com a sobrevivência e a reprodução efectivas dos homens. Como resultado deste processo, alguns machos são expostos a níveis sobre-óptimos de testosterona que contribuem para o desvio da orientação heterossexual e, em muitos casos, para uma variedade de outros efeitos biologicamente deletérios. Porém, a suposição de que os machos bissexuais podem ter sofrido maior exposição à testosterona pré-natal do que os machos homossexuais parece ser inconsistente com a sua própria interpretação, dado esta implicar que, com o aumento da exposição à testosterona, há um aumento do desvio em relação à orientação heterossexual. Se isto fosse verdade, o aumento do padrão do desvio testosterona/heterossexual deveria ser o seguinte: heterossexual, bissexual e homossexual. O padrão deste desvio da testosterona em relação à orientação heterossexual consuma-se na orientação homossexual. A hipótese de Robinson & Manning (2000) de que a orientação homossexual resulta da exposição a níveis muito elevados de testosterona sugere que esta orientação é devida a um cérebro sobre-masculinizado: os homens gay são machos hiper-androgenizados. Esta tese opõe-se à tese defendida por Miller (2000), segundo a qual a orientação homossexual é devida a um cérebro feminilizado. Para superar esta oposição, Rahman & Wilson (2003) sugeriram que os traços homossexuais hipermasculinos podem ser causados pelos níveis de testosterona livre circulante durante o desenvolvimento pré-natal, os quais resultam da escassez de receptores de androgénios em sítios particulares do cérebro. Nesta perspectiva, o cérebro pode ser feminilizado morfológica e funcionalmente, enquanto outras características do desenvolvimento e do crescimento do feto, como por exemplo a ratio digital 2D:4D ou o tamanho do pénis (Bogaert & Hershberger, 1999; De Sousa, 2006), podem ser sobre-masculinizadas. (CONTINUA com o título "Paradoxo Darwiniano: a Homossexualidade 2".) J Francisco Saraiva de Sousa
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quinta-feira, 12 de março de 2009
Modelo PsicoHidráulico de Konrad Lorenz
Konrad Lorenz (1950) elaborou uma bateria de conceitos etológicos extremamente rica para a análise objectiva dos comportamentos dos animais, a qual ainda não perdeu a sua fertilidade teórica, apesar do seu modelo psicohidráulico da unidade do comportamento ser bastante avesso à linguagem neurobiológica. Neste modelo, mais conhecido por modelo da latrina, um impulso endógeno causa a disposição para actuar, enchendo um tanque ou reservatório com energia específica de acção. À medida que o tanque se enche de líquido, o animal torna-se cada vez mais inquieto e começa a mostrar um comportamento apetitivo. Quando surge o estímulo-sinal, representado pelo peso, a válvula (mecanismo desencadeador inato) abre-se, permitindo que a energia seja canalizada para canais específicos (os padrões motores fixos). Este modelo de Lorenz, substancialmente aperfeiçoado em 1981, é um modelo mecânico que procura explicar os comportamentos dos animais a partir dos seus elementos: o reservatório de líquido corresponde à energia específica de acção; o peso da balança, ao estímulo-sinal; a válvula, ao mecanismo desencadeador inato; a água que sai pela abertura, ao padrão fixo de acção; e a tina, à intensidade do comportamento. Assim, por exemplo, quando se priva um animal de alimento, produz-se uma acumulação de energia específica que está reservada unicamente para a comida e que não afecta outros tipos de comportamento. No modelo psicohidráulico, esta energia é representada pela acumulação gradual de água no reservatório fornecida por uma torneira. O esvaziamento do depósito representa a actividade motora do comportamento e é controlado por uma válvula que se mantém fechada em virtude de uma mola. A válvula pode ser aberta de duas maneiras. Os pesos colocados no prato de uma balança representam diversas intensidades de estímulo e permitem abrir a válvula. A pressão cada vez maior da água armazenada no reservatório e os pesos do prato da balança actuam na mesma direcção, abrindo a válvula. Quanto mais elevado for o nível da água no reservatório, menor será o peso exigido, podendo a forte pressão da água por si só empurrar a válvula até conseguir abri-la (actividade no vácuo). Os diferentes tipos de output da actividade motora são representados por uma tina graduada. Se a válvula se abrir ligeiramente, a pouca quantidade de água que passa só chega até ao primeiro orifício mais baixo da tina. Este orifício representa a actividade motora de limiar mais baixo, geralmente alguma forma de comportamento apetitivo. Quando a válvula se abre cada vez mais, a tina descarrega através de mais orifícios, que representam actividades com limiares superiores e com posição mais elevada na escala da intensidade. Depois do reservatório ter sido esvaziado, o comportamento não pode continuar a ser desencadeado, por muito intenso que seja o estímulo: trata-se daquilo a que Lorenz chama a fadiga ou o "esgotamento de um padrão de comportamento". Este modelo mecânico da motivação explica satisfatoriamente as mudanças cíclicas observadas nos comportamentos dos animais: a quietude que se segue aos actos consumatórios depende da sua execução, dado esta ser a única maneira de esvaziar o reservatório. A etologia clássica fundada por Lorenz e Tinbergen define o instinto como um padrão específico, estereotipado e herdado de comportamento, que incorpora frequentemente sistemas de reflexos em cadeia governados e coordenados por uma combinação da actividade do sistema nervoso central e dos estímulos propioceptivos. Ao gerar uma tensão interna de energia específica de acção no sistema nervoso central, o instinto produz o impulso que, em associação com uma necessidade fisiológica ou estado mental determinado, leva a um comportamento apetitivo com as suas taxias. Este comportamento leva, por sua vez, o animal à situação meta, onde o movimento instintivo encontra o seu desencadeador natural. Lorenz defende que existe, em cada comportamento instintivo, um núcleo de automatismo (E. von Holst, 1932, 1933; K. Roeder, 1963; T. H. Bullock & G. A. Horridge, 1965) completamente fixo e mais ou menos complexo: o movimento instintivo, coordenação hereditária ou padrões fixos de comportamento. Estes automatismos endógenos são elementos centrais e essenciais do sistema de comportamentos instintivos de todos os animais e, devido à sua constância, podem ser usados nos estudos filogenéticos e comparativos (Oskar Heinroth, Charles O. Whitman). Cada comportamento instintivo depende de um certo impulso interno, ou melhor, tende a produzir uma espécie de tensão específica no sistema nervoso central. Se o animal não se encontrar numa situação favorável para a sua descarga, esta energia específica de acção acumula-se, de modo que o limiar dos estímulos que são efectivos para desencadear esta actividade instintiva particular desce até que, a partir de determinado momento, o instinto se desencadeia sem nenhum estímulo exterior, dando origem à actividade no vazio. O comportamento apetitivo (Wallace Craig, 1918) permite ao animal atingir a meta para a qual está adaptada a sequência completa de padrões fixos de acção. Quando o comportamento apetitivo segue o seu curso apropriado e o animal alcança a sua meta, o comportamento instintivo apropriado é libertado pelo estímulo-sinal ou desencadeador, cuja eficácia é devida à existência de um receptor relacionado, isto é, de uma organização sensorial que permite ao animal reconhecer o estímulo adequado e agir de modo apropriado. Este mecanismo desencadeador pode ser inteiramente inato e, portanto, não modificável pela experiência individual. No caso de o animal estar sob a influência de um poderoso impulso e, ao mesmo tempo, impossibilitado para o expressar de forma adequada, pode ocorrer uma actividade deslocada. As experiências de Kasper Hauser ou experiências de privação demonstraram a existência de comportamentos adaptados, portanto, resultantes de uma evolução filogenética, em diversas espécies animais, incluindo a humana: os comportamentos adaptados são hereditariamente adaptativos e distintos das modificações adaptativas do comportamento adquiridas pelo animal. Estas adaptações filogenéticas do comportamento revelam-se ao nível motor como padrões fixos de comportamento e ao nível receptor como filtro selectivo dos estímulos, por meio do qual o animal, antes de toda a experiência, responde a determinadas configurações de estímulos com determinados comportamentos, bem como nas disposições inatas para a aprendizagem e nos mecanismos motivacionais que permitem ao animal agir movido por impulsos internos (I. Eibl-Eibesfeldt, 1979).
O modelo psicohidráulico de Lorenz é claramente a-fisiológico, no sentido de não implicar a existência de reservatórios de líquido no sistema nervoso central. No entanto, fornece um modo adequado de descrever as propriedades gerais subjacentes a um verdadeiro mecanismo neural. W. H. Thorpe (1956) reinterpretou o modelo em termos neurofisiológicos mais apropriados, convertendo a energia específica de acção em potencial de acção específica, mas, como não conseguiu descrever os verdadeiros mecanismos, o modelo hierárquico de N. Tinbergen (1950) acabou por se impor. O modelo hierárquico é mais neuronal do que o de Lorenz e explica os comportamentos a partir da noção de hierarquia de instinto: os padrões de comportamento agrupam-se e cada grupo depende de uma organização coordenadora superior. Cada nível dessa hierarquia é composto por centros que recebem energia natural de fontes internas (hormonas) e externas (estímulos ambientais, tais como luz e temperatura) e cada centro envia a energia para os seus centros subordinados quando é removido um bloqueio neural subjacente ao mecanismo desencadeador inato. Os bloqueios indicam influências inibitórias que evitam uma descarga contínua dos impulsos motores: o seu desbloqueamento é feito pelos mecanismos desencadeadores inatos que, na presença de determinados estímulos-sinais, permitem a ocorrência de comportamentos apetitivos. E estes últimos conduzem os impulsos para outras acções desencadeadas nos níveis sucessivamente inferiores. Para Tinbergen, o instinto é um sistema de coordenação herdado e adaptado do sistema nervoso, que, quando activado, responde sob a forma de padrões fixos de comportamento, e que é hierarquicamente organizado, dotado de espontaneidade e possuidor da tendência para responder a determinados estímulos-sinais. Ou, nas suas palavras, o instinto é "um mecanismo nervoso hierarquicamente organizado, sensível a determinados impulsos anunciadores, desencadeadores e directores, tanto internos como externos, que responde a estes estímulos com movimentos coordenados que contribuem para a conservação do indivíduo e da espécie". P. Weiss (1941) e G. P. Baerends (1956) desenvolveram outros modelos hierárquicos, nos quais os centros subordinados são controlados frequentemente por diversos centros superiores, tal como demonstraram as experiências de estimulação eléctrica de E. von Holst & U. von Saint Paul (1960): a ordenação do comportamento do animal intacto corresponde a uma ordenação hierárquica do sistema nervoso central, a qual se manifesta não só nas relações lineares simples, mas também numa rede de relações (R. A. Hinde, 1953). Tinbergen exemplificou o seu modelo hierárquico com o comportamento reprodutivo do macho esgana-gata. Na primavera, o macho esgana-gata entra na sua época de reprodução, mudando gradualmente de coloração. Emigra com o cardume das zonas de águas profundas para regiões de águas mais superficiais e quentes, onde cada macho procura um território rico em vegetação. Depois de ter escolhido o seu território, aparece a sua coloração pré-nupcial e o macho mostra-se sensível a uma série de novos estímulos: ameaça e luta quando surge no seu território um macho estranho, constrói o ninho quando descobre materiais adequados, corteja a fêmea, levando-a para o ninho, onde esta deposita os ovos que são fecundados pelo macho e, finalmente, cuida dos ovos. Os comportamentos exibidos pelo animal dependem da situação de estímulos desencadeadores, embora mostre uma disposição interna para todos estes padrões de comportamento. A luta é desencadeada pelo aparecimento de um macho com o ventre vermelho e outros estímulos mais específicos determinam o tipo exacto de comportamentos de luta que deve efectuar. Esta ordenação de comportamentos corresponde a um tipo funcional de organização do sistema nervoso central. As hormonas, provavelmente os níveis elevados de testosterona, agem sobre o centro superior da reprodução, o centro da emigração, e desencadeiam a emigração como comportamento apetitivo. A emigração parece não ser provocada por estímulos-sinais especiais e termina quando o animal descobre estímulos-sinais de um biótipo apropriado, os quais agem sobre um mecanismo desencadeador inato que liberta o centro territorial até aqui bloqueado. Os impulsos começam então a fluir para os centros subordinados da corte, da construção do ninho, do cuidado com as crias e da luta contra intrusos, mas cada um destes centros está bloqueado até que apareça o estímulo-sinal apropriado capaz de o desbloquear. J Francisco Saraiva de Sousa
O modelo psicohidráulico de Lorenz é claramente a-fisiológico, no sentido de não implicar a existência de reservatórios de líquido no sistema nervoso central. No entanto, fornece um modo adequado de descrever as propriedades gerais subjacentes a um verdadeiro mecanismo neural. W. H. Thorpe (1956) reinterpretou o modelo em termos neurofisiológicos mais apropriados, convertendo a energia específica de acção em potencial de acção específica, mas, como não conseguiu descrever os verdadeiros mecanismos, o modelo hierárquico de N. Tinbergen (1950) acabou por se impor. O modelo hierárquico é mais neuronal do que o de Lorenz e explica os comportamentos a partir da noção de hierarquia de instinto: os padrões de comportamento agrupam-se e cada grupo depende de uma organização coordenadora superior. Cada nível dessa hierarquia é composto por centros que recebem energia natural de fontes internas (hormonas) e externas (estímulos ambientais, tais como luz e temperatura) e cada centro envia a energia para os seus centros subordinados quando é removido um bloqueio neural subjacente ao mecanismo desencadeador inato. Os bloqueios indicam influências inibitórias que evitam uma descarga contínua dos impulsos motores: o seu desbloqueamento é feito pelos mecanismos desencadeadores inatos que, na presença de determinados estímulos-sinais, permitem a ocorrência de comportamentos apetitivos. E estes últimos conduzem os impulsos para outras acções desencadeadas nos níveis sucessivamente inferiores. Para Tinbergen, o instinto é um sistema de coordenação herdado e adaptado do sistema nervoso, que, quando activado, responde sob a forma de padrões fixos de comportamento, e que é hierarquicamente organizado, dotado de espontaneidade e possuidor da tendência para responder a determinados estímulos-sinais. Ou, nas suas palavras, o instinto é "um mecanismo nervoso hierarquicamente organizado, sensível a determinados impulsos anunciadores, desencadeadores e directores, tanto internos como externos, que responde a estes estímulos com movimentos coordenados que contribuem para a conservação do indivíduo e da espécie". P. Weiss (1941) e G. P. Baerends (1956) desenvolveram outros modelos hierárquicos, nos quais os centros subordinados são controlados frequentemente por diversos centros superiores, tal como demonstraram as experiências de estimulação eléctrica de E. von Holst & U. von Saint Paul (1960): a ordenação do comportamento do animal intacto corresponde a uma ordenação hierárquica do sistema nervoso central, a qual se manifesta não só nas relações lineares simples, mas também numa rede de relações (R. A. Hinde, 1953). Tinbergen exemplificou o seu modelo hierárquico com o comportamento reprodutivo do macho esgana-gata. Na primavera, o macho esgana-gata entra na sua época de reprodução, mudando gradualmente de coloração. Emigra com o cardume das zonas de águas profundas para regiões de águas mais superficiais e quentes, onde cada macho procura um território rico em vegetação. Depois de ter escolhido o seu território, aparece a sua coloração pré-nupcial e o macho mostra-se sensível a uma série de novos estímulos: ameaça e luta quando surge no seu território um macho estranho, constrói o ninho quando descobre materiais adequados, corteja a fêmea, levando-a para o ninho, onde esta deposita os ovos que são fecundados pelo macho e, finalmente, cuida dos ovos. Os comportamentos exibidos pelo animal dependem da situação de estímulos desencadeadores, embora mostre uma disposição interna para todos estes padrões de comportamento. A luta é desencadeada pelo aparecimento de um macho com o ventre vermelho e outros estímulos mais específicos determinam o tipo exacto de comportamentos de luta que deve efectuar. Esta ordenação de comportamentos corresponde a um tipo funcional de organização do sistema nervoso central. As hormonas, provavelmente os níveis elevados de testosterona, agem sobre o centro superior da reprodução, o centro da emigração, e desencadeiam a emigração como comportamento apetitivo. A emigração parece não ser provocada por estímulos-sinais especiais e termina quando o animal descobre estímulos-sinais de um biótipo apropriado, os quais agem sobre um mecanismo desencadeador inato que liberta o centro territorial até aqui bloqueado. Os impulsos começam então a fluir para os centros subordinados da corte, da construção do ninho, do cuidado com as crias e da luta contra intrusos, mas cada um destes centros está bloqueado até que apareça o estímulo-sinal apropriado capaz de o desbloquear. J Francisco Saraiva de Sousa
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terça-feira, 10 de março de 2009
Prós e Contras: Como responder à crise?
O debate "Prós e Contras" de hoje (9 de Março de 2009) foi dedicado novamente à crise e à busca de uma "solução". E, como sucede num debate tipicamente português, as lógicas discursivas foram muito pouco claras, sendo necessário esperar até ao final da segunda parte para detectar um confronto: Miguel Lopes (psicologia social) lançou um novo conceito, o de "felicidade interna bruta", que não conseguiu explicitar, afundando-se depois na noção desgraçada de "economia de bem-estar". Ao exigir a clarificação do sentido desse conceito peregrino, Fátima Campos Ferreira confrontou Miguel Lopes com o seu perfil ridículo: "Sem exportação não há felicidade". A felicidade interna bruta foi enterrada. António Cunha Vaz aproveitou a onda e mostra o carácter especulativo das opiniões dos seus parceiros de diálogo, em especial as de Jorge Vala (psicólogo social) sobre a "insatisfação com a vida" revelada por certos indicadores de atitudes entre 2002 e 2008: "Todos teorizaram mas não resolveram o problema". Mas foi Pedro Lomba quem deu a machadada final: a discussão a que estava a assistir era uma discussão que poderia ser levada a cabo antes ou depois da crise. Ou, por outras palavras, alguns participantes teorizavam "como se não houvesse uma crise real", a maior crise depois da Segunda Guerra Mundial. Manuel Villaverde Cabral e Álvaro Santos Pereira acordam do sono psicológico e colocam-se ao lado de Pedro Lomba. Porém, com excepção dos dois psicólogos sociais, todos estavam aparentemente de acordo quanto a uma abordagem mais económica ou, pelo menos, mais pragmática e realista, da crise e da sua solução, mas esse consenso era mais aparente do que real. Luís Mergulhão, Alfredo Revuselta, Paulo Malo e Daniel Deusado defenderam a iniciativa privada e o espírito empreendedor, como se o Estado devesse "largar", isto é, desmamar os seus "filhos" e entregá-los à sua própria iniciativa individual. Paulo Malo levou esta ideia ao seu extremo: "Isto não é (uma) crise", visto que todos estão dependentes de um ou de outro modo do Estado. "Atravessar uma verdadeira crise" seria abanar a "mentalidade do Estado Pai" e partir para a luta. Mais sociedade civil (A. Santos Pereira), mais economia (Luís Mergulhão), mais iniciativa privada (Daniel Deusado), mais empresas (A. Cunha Vaz) e "mais oportunidades com minimização dos riscos" (Alfredo Revuselta): eis os slogans coroados pela "felicidade interna bruta" que irritaram Pedro Lomba que lembrou que nenhum cidadão pode criar a sua empresa sem o apoio de políticas adequadas promovidas pelo governo. Aqui residia a clivagem ideológica do debate: os que negavam a crise não tinham compreendido que esta crise real resultou da falência do fundamentalismo de mercado e da ideologia neoliberal subjacente à globalização, sendo agora a vez do Estado intervir, como lembrou Fátima Campos Ferreira. A clivagem ideológica reflecte um confronto entre a esquerda e a direita e, à partida, seria levado a identificar-me com as posições de esquerda, mas vou, em vez disso, tentar emprestar uma possível reconciliação de alguns pontos de vista defendidos pelos adeptos das duas linhas político-ideológicas, repudiando a noção desta crise ser meramente uma "crise de confiança" nas mais diversas instituições da sociedade, embora reconheça que as pessoas não confiam nas actuais classes dirigentes devido ao seu envolvimento na corrupção, a grande ausente deste debate. A crise financeira que deu origem à crise económica é uma crise antropogénica: ela foi produzida por certos grupos de homens e pelos dispositivos financeiros que criaram para satisfazer a sua gula desmesurada, agindo como se não houvesse futuro depois da sua morte. Este modo de encarar a génese da crise implica responsabilizá-los pelos seus actos criminosos. Dificilmente os mesmos homens que nos conduziram nos últimos 30 anos até esta situação de crise profunda podem tirar-nos deste abismo que ameaça todo o mundo, como frisou enfaticamente Villaverde Cabral. Crise de confiança? Sim, os portugueses e os europeus deixaram de acreditar na competência e na integridade moral dos seus dirigentes, embora sejam resistentes à mudança social qualitativa. Os três conceitos de Jorge Vala podem ser aqui recuperados: falta de confiança e ameaça do sentimento de bem-estar podem reforçar-se reciprocamente e levar ao sentimento de privação. O futuro parece ser sombrio: a fartura e a facilidade criaram animais extremamente agressivos. A sua incapacidade para pensar facilita a exteriorização dessa agressividade maligna. A desconfiança dos portugueses nas suas classes dirigentes pode ser justificada por diversos factores: (1) os políticos "têm medo de dizer a verdade" e de assumir a alteração do "modo de vida baseado no endividamento" e no crédito ao consumo, deixando escapar a "crise da oportunidade" (Pedro Lomba); (2) os políticos portugueses não definem "objectivos nacionais" para além das politiquices partidárias (Santos Pereira); (3) as actuais gerações estão "perdidas" e a sociedade civil foi eclipsada (Santos Pereira) devido ao fracasso absoluto da educação (Daniel Deusado) e à mentalidade do Estado Paterno (Paulo Malo); (4) em vez de uma cultura da cidadania responsável e autónoma, criou-se uma "cultura da queixa" (Santos Pereira) e da "pobreza envergonhada" (Santos Pereira); (5) a iniciativa privada foi substituída pela dependência do Estado (Paulo Malo) que desarma as pessoas e as levar a desistir de lutar; e (6) o erro de políticas públicas, tais como dar crédito para a compra da habitação, em vez de apostar no arrendamento (Daniel Deusado). Todos estes factores desacreditaram as classes dirigentes aos olhos dos portugueses. É certo que a entrada de Portugal na zona euro teve os seus aspectos positivos, conforme mostraram Santos Pereira e Daniel Deusado, permitindo passar do país de pés descalços ao país de pés calçados, portanto, a um país mais moderno e abrigado pelo "guarda-chuva" do euro (Santos Pereira), mas isso não impediu que os políticos acabassem por desaproveitar essa oportunidade para garantir o futuro. O que nos adianta viver num país de pés calçados quando esses bípedes calçados perderam a cabeça estruturada e capaz de pensar? A sociedade de consumo é uma sociedade metabolicamente reduzida: os seus membros comportam-se como frangos de aviário, consomem e engordam sem parar para pensar. Um tal estilo de vida anuncia o ocaso do Ocidente! Esta perspectiva da situação do país face à crise económica dificulta a tarefa de pensar soluções para a debelar. A "esperança no futuro e a perseverança no trabalho" (Luís Mergulhão), a aposta no território e no turismo, de modo a criar um país de bem-estar ou gerador de bem-estar (Daniel Deusado), o enfraquecimento da máquina pública (Daniel Deusado), a aposta na educação e no mito do lazer (Luís Mergulhão) ou a aposta na economia e na iniciativa privada (Cunha Vaz e Santos Pereira), embora possam ser levadas em consideração, não constituem verdadeiras soluções capazes de transcender a crise económica. Aliás, mesmo que tenham em mente alguma solução, os portugueses resistem a partilhá-la com os outros, porque sabem que, em Portugal, as ideias originais são facilmente pilhadas pelos outros que delas se apropriam indevidamente como se tivessem surgido milagrosamente nas suas cabeças usurpadoras do alheio. Algumas das soluções são simplesmente inviáveis. Se o lucro não é um pecado, como disse Cunha Vaz, como é possível geri-lo com ética? Como é possível acreditar na capacidade das empresas para criar riqueza e gerar empregos quando, na verdade, essas empresas estão dependentes do Estado? Como podemos aumentar o consumo quando as pessoas estão endividadas? Como é possível criar emprego quando muitas empresas se deslocalizam ou simplesmente fecham? Como é possível acreditar na educação quando o sistema de ensino deixou de funcionar? Como é que a economia de mercado pode ajudar a superar a crise quando foi o seu fundamentalismo que produziu a própria crise? Se os nossos nove séculos de nacionalidade foram um êxito, então como é que explicamos o atraso estrutural de Portugal? Portugal pode ter criado novos mundos mas, se os criou, fê-lo à custa da perda de si próprio! Esta crise pode ser uma crise da oportunidade, desde que os portugueses e os seus dirigentes tenham coragem para mudar radicalmente de paradigma. Ora, é a esta mudança social qualitativa que todos opõem resistência, alimentando a vã esperança de que, quando esta crise terminar, tudo regressará à normalidade anterior à crise. O português abraça a sua condição animal e abdica facilmente da sua humanidade: é o representante dessa nova espécie zoológica que é o animal metabolicamente reduzido. Mas a sua esperança é gratuita, porque, depois desta crise, nada voltará a ser como era. Enquanto se alimentar esta esperança vã, a crise são os próprios portugueses e a sua inércia mental! A superação desta crise exige coragem e imaginação política: o único clique feito na cabeça é tomar consciência de que o paradigma reinante deve ser completamente abandonado e substituído por uma nova organização da sociedade. Antes de ver este debate, estive a ver dois outros programas: "O Dia Seguinte" (SICNotícias) e "Há corrupção no futebol?" (TVI24). Os canais de televisão uniram-se numa campanha difamatória dirigida contra o FCPorto, alimentada nestes últimos anos pelos pseudo-apitos dourado e final. Os meios de comunicação social foram capturados por pessoas destituídas de qualidades cognitivas e de competências: em vez de analisar os acontecimentos e de informar o público, inventam mentiras nas quais parecem acreditar. A demência está instalada e a crise portuguesa ganha contornos neurológicos e psiquiátricos: a normalidade portuguesa é patologia. Como não conseguem vencer os jogos nos campos, os advogados do diabo, mais os representantes do Benfica do que os do Sporting, orquestram campanhas difamatórias contra o FCPorto, tentado lançar suspeitas infundadas sobre a vitória do FCPorto sobre o Leixões: eles negam a própria evidência e, o que é surpreendente, com recurso às novas tecnologias que desejam ver utilizadas no futebol. A insanidade é de tal modo preocupante que já bloqueia a própria percepção. A corrupção que existe no futebol é encarnada: financiamento das mentiras de Carolina Salgado, jogo violento, prática de anti-jogo, manipulação da informação, pressão exercida sobre os árbitros, incompetência desportiva, derrotas vergonhosas nas taças europeias, enfim a conspiração maléfica e criminosa contra o FCPorto e o seu dirigente que pode ser visualizada e analisada de modo imparcial por pessoas que ainda não perderam o juízo. Criado ao abrigo do guarda-chuva fascista, o Benfica não consegue viver e vencer por mérito próprio, sendo completamente cego em relação à sua própria mediocridade visceral. Mais não é do que uma mentira sobrevivente dos tempos do fascismo que urge desmistificar para conquistar a luz azul. Os canais de televisão exibem insanidade mental diária. Esta perversidade maligna revela até que ponto muitos portugueses, além de serem invejosos patológicos e vigaristas natos, são refractários à cultura do mérito e da verdade. A maior crise de Portugal são os próprios portugueses e a sua escassez de aptidões cognitivas. Portugal não é um país moderno e civilizado, mas um Estado Africano localizado na Europa. E, com estes portugueses invejosos e malignos, Portugal não tem futuro: os nove séculos de nacionalidade referidos por Santos Pereira devem levar-nos a questionar o tipo de inteligência dos portugueses que, nos seus nove séculos de História, foram incapazes de construir um país digno, moderno e civilizado. J Francisco Saraiva de Sousa
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sábado, 7 de março de 2009
Cérebro, Serotonina e Agressão
Quase todas as espécies animais exibem comportamento agressivo, o qual compreende gestos ameaçadores ou verdadeiros ataques dirigidos a outros animais. Os comportamentos agressivos são característicos das espécies: os padrões de movimentos são organizados por circuitos neurais cujo desenvolvimento é, em grande medida, programado pelos genes do animal. Muitos comportamentos agressivos relacionam-se com a reprodução, tais como o acesso às fêmeas e a defesa do território, e estão sob controle hormonal, enquanto outros visam a autodefesa, como no caso do animal ser ameaçado por um predador. O comportamento agressivo compreende ataques reais ou comportamentos de ameaça: um conjunto de posturas ou gestos que advertem o adversário de que será alvo de um ataque se não se afastar. O animal ameaçado pode exibir comportamentos defensivos, isto é, comportamentos de ameaça ou de ataque real dirigido contra o intruso que o ameaça, ou comportamentos de submissão, que indicam que aceita a derrota e que não vai continuar a desafiar o outro animal. A depredação é o ataque dirigido por um membro de uma espécie contra um membro de outra espécie, com o propósito de obter alimento. Estes dois tipos de agressividade, a agressividade intra-específica e a agressividade interespécies, diferenciam-se na própria sequência dos movimentos e podem ser activadas por meio de estímulos eléctricos e químicos aplicados sobre diferentes regiões do cérebro. Assim, por exemplo, quando exibem comportamentos de defesa, os gatos agigantam-se, arqueiam o dorso, têm o pêlo eriçado, retraem as orelhas, mostram as garras, brigam e emitem sons, mas, quando atacam um rato, não exibem ira: aproximam-se cautelosamente do animal e lançam-se repentinamente sobre ele, infligindo-lhe potentes mordeduras na zona da cabeça e do pescoço. O ataque predatório não revela raiva ou ira e não é sinónimo de ingestão de alimentos (Roberts & Kiess, 1964). Os efeitos comportamentais da estimulação eléctrica do diencéfalo foram estudados, na década de 1920, por W.R. Hess e retomados, na década de 1960, por John Plynn. José Delgado ficou conhecido pela forma electrofisiológica de tourear: fixou à cabeça de um touro um rádio-receptor de reduzidas dimensões, ao qual ligou os eléctrodos implantados no cérebro do animal, nomeadamente no centro amigdaliano inibitório da agressão. Quando na arena o touro investiu contra o toureiro neurofisiológico munido de um rádio-transmissor, José Delgado pressionou um botão do seu aparelho e o touro parou, balançou a cabeça, voltou-se e afastou-se calmamente. O comportamento agressivo é controlado de modo hierárquico pelo sistema nervoso: os movimentos musculares de ataque ou de defesa realizados pelo animal são programados por circuitos neurais do tronco encefálico, cuja actividade está, por sua vez, sob controle do hipotálamo e da amígdala. A actividade do sistema límbico é, por sua vez, controlada pelos sistemas perceptivos que detectam o estado do meio, incluindo a presença de outros animais. Os dois tipos básicos de agressão, a agressividade intra-específica e a depredação, podem ser desencadeados mediante a estimulação da substância cinzenta periaqueductal (SGP) do mesencéfalo. Nos gatos, o comportamento de defesa e a depredação podem ser desencadeadas mediante a estimulação de diferentes regiões da SGP, a região dorsal e a região ventral respectivamente, e o hipotálamo e a amígdala influenciam estes comportamentos através de conexões excitatórias e inibitórias com a SGP. A estimulação da SGP dorsal provoca ira defensiva nos gatos e a estimulação simultânea do hipotálamo medial aumenta este comportamento (Schubert et al., 1996). A estimulação da SGP ventral provoca depradação nos gatos e a estimulação simultânea do hipotálamo lateral aumenta este comportamento. De modo simplificado, podemos traçar as duas vias da agressão predatória e da agressão intra-específica: a via que controla a predação estende-se dos núcleos corticomediais da amígdala até ao hipotálamo lateral, através da estria terminal e da via amigdalofugal ventral, e deste segue para a área tegmental ventral através do feixe prosencefálico medial, enquanto a agressão intra-específica é mediada pela via que vai dos núcleos basolaterais da amígdala até ao hipotálamo medial e deste segue até à substância cinzenta periaqueductal, através do fascículo longitudinal dorsal. O núcleo central da amígdala inibe a actividade da SGP dorsal através de uma encefalina e, por conseguinte, a ira defensiva nos gatos, ao passo que o hipotálamo medial, quando é estimulado através da substância P via núcleo medial da amígdala, inibe a actividade do hipotálamo lateral através do neurotransmissor GABA e estimula a SGP dorsal, desencadeando a ira defensiva. Os neurónios que contêm serotonina estão agrupados no interior dos nove núcleos da rafe. O aumento da actividade das sinapses serotonérgicas inibe a agressão e, por isso, fármacos serotonérgicos têm sido utilizados pelos médicos para tratar o comportamento violento humano. A destruição dos axónios serotonérgicos do prosencéfalo facilita o ataque agressivo, talvez porque elimina um efeito inibitório. A actividade serotonérgica pode ser estudada mediante a extração de uma amostra de líquido encefalorraquidiano (LCR) e a análise da presença de 5-HIAA nesse fluído. A maior parte da serotonina (5-HT) libertada é recaptada pelos botões terminais, mas uma parte é metabolizada em 5-HIAA e eliminada para o líquido encefalorraquidiano: os níveis elevados de 5-HIAA neste fluído indicam, portanto, níveis elevados de actividade serotonérgica. Os machos jovens dos macacos rhesus que têm níveis mais baixos de 5-HIAA exibem um padrão de comportamentos de risco, nomeadamente níveis elevados de agressões dirigidas contra animais da colónia mais velhos e com tamanho superior ao seu ou mesmo saltos perigosos entre árvores, e, devido a estes comportamentos, muitos deles morrem ou são assassinados (Mehlman et al., 1995; Higley et al., 1996). A serotonina exerce um controle sobre estes comportamentos de risco, incluindo os comportamentos agressivos. Raleigh et al. (1991) retiraram o macho dominante de vários grupos de macacos vervet e trataram os dois machos seguintes na hierarquia social de cada grupo com drogas serotonérgicas: um recebeu um agonista e o outro um antagonista da serotonina. O comportamento destes macacos era congruente com a hipótese de que a agressividade elevada está associada com menor actividade serotoninérgica. Os macacos que receberam o agonista tornaram-se dominantes, enquanto os que receberam o antagonista desceram de status na hierarquia. A eliminação de um controle inibitório sobre a agressividade parece incrementar a dominância dos macacos, mas, segundo Mehlman et al. (1995), a dominância exige habilidades sociais que não são exibidas pelos macacos com níveis mais baixos de actividade serotonérgica. A agressão não estava ligada à dominância no grupo. Isto significa que dominação e agressão não são sinónimas. Os macacos com actividade serotoninérgica artificialmente aumentada conquistaram uma posição superior na hierarquia, enquanto a injecção de drogas que reduziam a actividade serotoninérgica tornava os animais subordinados e mais propensos a iniciar actos de agressão. Embora possa recorrer à agressão quando é desafiado, o macho dominante utiliza fundamentalmente as suas competências sociais para conservar o seu status, recorrendo ao recrutamento de fêmeas para o apoiarem. Os machos dominantes tinham níveis mais elevados de 5-HT do que os machos subordinados e, por isso, eram menos agressivos do que os últimos. Com base na existência de um número elevado de receptores de serotonina na região frontal ventromediana, na amígdala e nos córtices temporais medianos, António Damásio (1994) defende que a conexão sistémica entre os córtices pré-frontais ventromedianos e a amígdala é responsável pelo comportamento social ou cooperativo que, no caso dos macacos com baixos níveis de serotonina, está completamente danificado. Os estudos realizados com ratos confirmaram que a serotonina exerce um papel inibitório sobre a agressão. Os receptores 5-HT1B e 5-HT1A encontram-se em elevadas concentrações nos núcleos da rafe: os seus agonistas diminuem a ansiedade e a agressividade, enquanto os seus antagonistas aumentam a agressividade. Os ratos que carecem de receptores 5-HT1B do cérebro atacam com maior rapidez e intensidade os intrusos do que os ratos normais (Saudou et al., 1994), embora não fossem invulgarmente agressivos quando viviam em grupo. Os receptores 5-HT1B estão localizados não só nos núcleos da rafe, mas também noutras áreas envolvidas no comportamento agressivo, tais como a amígdala, a substância cinzenta periaqueductal e os gânglios de base. Além de serem mais agressivos e ansiosos, os ratos desprovidos do receptor 5-HT1A apresentavam pouca actividade exploratória, evitavam espaços abertos e permaneciam em áreas protegidas e cobertas. Nos ratos com a mutação da enzima alfa-CaMKII, observou-se uma redução na libertação de serotonina nos neurónios do núcleo da rafe dorsal, donde resultavam a dimimuição do medo e o aumento da agressão defensiva. Os neurónios serotonérgicos desempenham um papel inibitório na agressão humana (Coccaro, 1996). Brown et al. (1979, 1982) estudaram um grupo de recrutas navais e descobriram que os antecedentes de agressividade e a tendência anti-social estavam correlacionados com níveis baixos de 5-HIAA no líquido encefalorraquidiano obtido por punção lombar. Coccaro et al. (1994) estudaram um grupo de homens com perturbações de personalidade e descobriram que a probabilidade de ter parentes próximos com problemas similares era mais elevada nos homens com actividade serotonérgica mais baixa. Coccaro & Kavoussi (1997) descobriram que o Prozac (fluoxetina), um agonista da serotonina, diminuía a irritabilidade e a agressividade. Brunner et al. (1993) estudaram uma família holandesa, na qual muitos homens exibiam comportamentos anti-sociais, tais como agressão impulsiva, tentativas de violação, piromania e exibicionismo, e descobriram uma relação genética entre a serotonina e o comportamento violento e anti-social: a síndrome anti-social era causada, nesta família, por uma mutação do gene da monoamina oxidase A (MAO-A), uma das enzimas que decompõem a serotonina, a dopamina e a norepinefrina (Shih et al., 1999), localizado no cromossoma X. Os homens violentos desta família possuíam a mesma mutação no gene da monoamina oxidase A. As experiências de mutação com ratos mostraram que a eliminação deste gene tornava os animais assassinos enlouquecidos: os ratos deficientes de monoamina oxidase A eram hiperagressivos, mordiam e atacavam os outros ratos sem terem sido provocados e o seu cérebro continha um nível muito elevado de serotonina (Cases et al., 1995). Num estudo de fMRI, Eisenberger et al. (2007) descobriram que os indivíduos humanos MAOA-L (homens e mulheres) exibiam maior número de traços agressivos do que os indivíduos MAOA-H. Além da elevada hipersensibilidade interpessoal exibida pelos indivíduos MAOA-L, foi observada grande actividade do córtex cingulado anterior dorsal associada à exclusão social e à angústia de rejeição. A relação MAOA/agressão era mediada por elevada reactividade deste córtex em relação à exclusão social e a experiências sociais negativas, o que sugere que o gene da monoamina oxidase A pode estar ligado à agressão através da hipersensibilidade sócio-emocional (Blair et al. 2006; Crick & Dodge, 1996). Num estudo anterior, Eisenberger et al. (2006) tinham mostrado que a sensibilidade à dor e a sensibilidade às condições de rejeição social estavam associadas, o que sugere que partilham o mesmo substrato neurocognitivo. O córtex cingulado anterior dorsal está ligado ao desprazer da dor física (Rainville et al., 1997) e também é activado durante a experiência de angústia provocada por condições de exclusão social: a sensibilidade a um tipo de experiência de angústia está directamente associada ao outro tipo de sensibilidade. Estes estudos revelam não só o papel desempenhado pela química do cérebro (o sistema da monoamina) na parte biológica da agressão, mas também e sobretudo a existência de factores sociais biologicamente activos e, portanto, a necessidade de criar uma ciência biosocial. Embora a genética do comportamento seja fundamental para a psicologia e para as ciências do comportamento, fazendo com que tenham um lugar entre as ciências biológicas, os genes não explicam todo o comportamento de um animal. As diferenças individuais nos caracteres psicológicos complexos devem-se de igual modo às influências ambientais e às influências genéticas. A ingestão de álcool está associada frequentemente à agressão e, nos USA, está implicada em mais de metade dos homicídios, lutas e violações cometidos (Murdoch, Pihl & Ross, 1990). Embora hajam diferenças fisiológicas e pessoais na reacção ao álcool, é provável que a sua ingestão facilite a agressão mediante o impedimento da função plena do córtex pré-frontal, que tem um efeito inibitório no comportamento (Hoaken, Giancola & Pihl, 1998). Os efeitos do álcool e da serotonina interactuam no comportamento agressivo: os macacos que acederam livremente a uma solução de álcool de 8,4% exibiram maior agressividade (Higley et al., 1998). A sertralina, um agonista da serotonina que actua inibindo a recaptação da 5-HT, diminui tanto o consumo de álcool como a agressividade. Heinz et al. (1998) observaram que os macacos que apresentavam níveis baixos de 5-HIAA no seu líquido encefalorraquidiano exibiam menor sensibilidade aos efeitos intoxicadores do álcool, bem como um nível elevado de agressividade. Entre os jovens humanos, uma sensibilidade baixa aos efeitos intoxicantes do álcool prediz abuso e dependência do álcool no futuro. Um estudo realizado por Davis et al. (2006) mostrou que o consumo de álcool e a exposição à pornografia, especialmente à pornografia violenta, contribuem de modo independente para um aumento de actos de agressão sexual cometidos contra as mulheres. O mecanismo subjacente a esta relação parece ser a excitação sexual masculina: a erotização da violência e a presença de álcool, através dos seus efeitos sobre a excitação sexual, influenciam a frequência de agressões sexuais cometidas por homens, conforme demonstraram K.C. Davis et al. (2006). Este estudo concluiu que a excitação sexual era uma componente importante na predição da frequência de agressão sexual cometida e relatada pelos homens após terem sido expostos à pornografia violenta. Lalumiere et al. (2003) e Malamuth et al. (1980) já tinham demonstrado que a excitação sexual desencadeada por estímulos sexuais violentos leva os homens a cometer violação. Não é tanto a intoxicação alcoólica mas sobretudo a crença da vulnerabilidade das mulheres alcoolizadas à agressão sexual e a suposta resposta da vítima durante a violação que influencia a excitação sexual masculina, tornando os homens propensos a cometer agressões sexuais sobre as mulheres. Malamuth (1996) cunhou a expressão síndrome de masculinidade hostil para designar o forte desejo manifestado por determinados homens para controlar as mulheres e a sua atitude insegura mas hostil em relação a elas. Esta síndrome combina-se com a preferência por sexo anónimo ou impessoal e a agressão sexual. J Francisco Saraiva de Sousa
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quarta-feira, 4 de março de 2009
Homofobia ou Preconceito Sexual? (4)
G. M. Herek (1999, 1995, 2000, 1991, 2004) articula três conceitos muito semelhantes, a saber, estigma, atitude e preconceito, de modo a elaborar a sua teoria do preconceito sexual que visa, em última análise, explicar a discriminação das pessoas em função da sua orientação sexual e a violência antigay. Allport e Goffman fornecem os conceitos que Herek depois adapta. Allport (1935) definiu a atitude como "um estado mental e neural de disposição, organizado através da experiência, que exerce uma influência directa ou dinâmica sobre a reacção do indivíduo em face de todos os objectos e de todas as situações com as quais se encontra relacionado". A atitude é, portanto, um estado neuropsicológico de disposição para empreender uma actividade mental e física, isto é, um estado que prepara o indivíduo para determinada reacção. Dobb (1947) definiu a atitude como "uma resposta implícita e geradora de impulsos, considerada socialmente significativa pela sociedade em que vive o indivíduo". Deste modo, um estado mental preconceituoso implica, segundo Allport, dois ingredientes: "um sentimento a favor ou contra (a), baseado num julgamento sem apoio (b)". E, seguindo Espinosa, Allport classifica os preconceitos em duas categorias: os preconceitos de amor e os preconceitos de ódio. Esta definição de preconceito retoma a noção de S. Tomás de Aquino, para o qual o preconceito de ódio consiste "em pensar mal de outros sem razão suficiente". O preconceito implica sempre um conhecimento inadequado ou um juízo falso: "os preconceitos são generalizações inflexíveis, rígidas e equivocadas sobre determinados grupos de pessoas" (Allport). Embora a discriminação esteja baseada no preconceito, os dois processos não são idênticos. A discriminação nega às pessoas os seus direitos naturais ou legais pelo simples facto de serem membros de um grupo desfavorecido e estigmatizado. A discriminação reforça os preconceitos e os preconceitos fornecem as racionalizações que justificam a discriminação. Apoiado nos seus estudos do preconceito racial, Allport defendeu que, em relação às soluções, as correcções que podem pôr termo à discriminação devem ser legais e a cura contra o preconceito reside na educação e na mudança de atitudes. A psicologia social de Allport funda-se numa psicologia dinâmica da personalidade: a noção de que o nosso equipamento neuropsicológico é formado por hábitos e sobretudo por sistemas integrados de tendências de acção que compreendem as unidades molares da estrutura total da personalidade. Estas unidades são dinâmicas na sua força de motivação e são funcionalmente autónomas das suas formas históricas. Ora, embora retenha a noção da comunidade gay como uma minoria sexual, tal como Allport a tematizou em relação às minorias raciais e étnicas, Herek exorciza o impacto da psicologia da personalidade, recorrendo à teoria social do estigma de Goffman: a atitude não é vista como uma unidade funcional autónoma, mas sim como o resultado da interiorização da ideologia heterosexista, dos seus estigmas sexuais e das suas classificações sociais. Os indivíduos de Herek e de Goffman tendem a ser sobresocializados: são meros portadores de estruturas sociais. Em vez de ser encarado como um atributo, um sinal ou uma marca que revela uma desordem física ou moral, o estigma é visto como uma relação estabelecida entre um atributo e um estereótipo social, donde resulta a ideia de que o normal e o estigmatizado não são pessoas, mas pontos de vista: o olhar da sociedade incorporado por todos os seus membros no decurso do processo de socialização e o olhar do estigmatizado. A identidade social atribuída pela sociedade a cada um dos seus membros cria dificuldades acrescidas nos indivíduos que tenham atributos considerados degradantes de possuir: a fractura entre si e o que se exige de si, isto é, o desvio entre a identidade virtual e a identidade (subjectivamente) real constitutivo da personalidade do indivíduo estigmatizado compromete o seu processo de construção de identidade, isolando-o da sociedade. Herek usa o termo estigma sexual para designar o conhecimento partilhado por todos os indivíduos, mediante o qual a sociedade heterosexista condena as minorias sexuais. Com a ajuda das categorias aversivas o grupo dos normais evita a dolorosa tarefa de lidar com os indivíduos estigmatizados enquanto indivíduos humanos. A aceitação da categorização social deve a sua amplitude ao facto do preconceito ser uma forma económica de pensamento, ao mesmo tempo que acalma a ansiedade e satisfaz a necessidade de segurança, fortalecendo os laços sociais entre os membros do grupo normal por oposição aos grupos estigmatizados. Adorno, Frenkel-Brunswick, Levinson & Sanfort (1960) cunharam o termo personalidade autoritária para designar as necessidades emocionais subjacentes à psicodinâmica do preconceito. Os normais que exibem esta síndrome foram chamados intolerantes funcionais (Allport). É provável que a sua hostilidade antigay facilite o luto pela homossexualidade. A síndrome da intolerância funcional avançada por Allport é compatível com a noção de patologia da normalidade, um conceito antecipado por Espinosa: "Mas, quando o avarento não pensa noutra coisa senão no lucro ou no dinheiro, e o ambicioso na glória, etc., não se crê que esses delirem, porque costumam ser molestos e são julgados dignos de ódio. Mas a avareza, a ambição e a lascívia são, de facto, espécies de delírio, embora se não contem entre as doenças". 2.4. Comportamentos Antigay. A hostilidade antigay é comportamento observável e mensurável (Hershberger & D'Augelli, 1995; Rind, Tromovitch & Bauserman, 1998): mais de um terço de homens gay e de lésbicas foram vítimas de violência interpessoal e cerca de 94% relataram algum tipo de vitimização relacionada com a sua orientação sexual (Fassinger, 1991; National Gay and Lesbian Task Force, 1990). Um inquérito recente realizado nas cidades dos USA revelou, em relação aos dados obtidos de 2001 a 2002, um aumento significativo de homicídios (+ 20%), assaltos violentos com armas (+ 3%) e tentativas de assaltos com armas (+ 22%) (National Coalition of Anti-Violence Programs, 2003). A atitude é uma construção psicológica e, como atitude de ódio, o preconceito sexual é interno, isto é, está dentro da cabeça da pessoa preconceituosa, e, por conseguinte, não pode ser directamente observado: o preconceito sexual só pode ser inferido a partir do comportamento observado, quer do comportamento verbal que expressa opiniões ou crenças, quer de comportamentos não-verbais (distância física, expressões faciais, etc.) desencadeados pela presença de pessoas homossexuais e de acções tais como aversão manifestada em relação a um gay ou lésbica num espaço social ou perpetração de um acto de discriminação e de violência antigay. A relação entre atitudes e comportamentos tem sido estudada empiricamente (Franklin, 1998, 2000) e estes estudos revelaram que as atitudes podem estar intimamente associadas aos comportamentos exibidos. As atitudes influenciam os comportamentos de dois modos: directamente, quando os indivíduos revelam as suas intenções para agir e usam conscientemente as suas atitudes para informar o seu comportamento, e indirectamente, quando as atitudes configuram o modo como os indivíduos inconscientemente percebem e definem uma situação. Apesar desta relação, as atitudes nem sempre podem predizer comportamentos específicos e o mesmo pode ser dito em relação ao preconceito sexual. Assim, por exemplo, um jovem do sexo masculino pode agredir ou participar num ataque antigay, não porque odeie as pessoas homossexuais, mas porque precisa ser aceite pelos seus amigos. Num estudo realizado para testar a hipótese do preconceito sexual, Parrott & Zeichner (2006) descobriram que a psicopatia prediz a agressão dirigida contra homens gay, mas não contra homens heterossexuais: a psicopatia primária (isto é, insensibilidade, inclinação para manipular os outros e ausência de remorso) estava associada com o uso significativamente acrescido de níveis extremos de comportamento agressivo exibido contra indivíduos gay, e a psicopatia secundária (isto é, impulsividade, fraca tolerância à frustração, mudança rápida de humor e fraco controle comportamental) não conduzia à violência extrema, apesar de estar associada com a agressão antigay. Isto significa que os indivíduos heterossexuais que exibem ausência de remorso, baixa empatia e indiferença em relação aos outros são propensos a agredir os homens gay, com recurso a actos de violência extrema. A psicopatia é, portanto, um indicador de violência antigay e, neste caso, mediou a relação entre o preconceito sexual e os comportamentos agressivos dirigidos contra os homens gay, mas não contra os homens heterossexuais, como se a interiorização do estigma sexual canalizasse a agressividade para a perpetração de comportamentos agressivos contra as minorias sexuais. A teoria do preconceito sexual pressupõe que a hostilidade dirigida contra as pessoas homossexuais é causada pelas atitudes antigay veiculadas pela ideologia heterosexista e interiorizadas durante o processo de socialização. Os comportamentos antigay são comportamentos agressivos. As atitudes podem ser estudadas sem fazer nenhuma referência directa às suas origens biológicas, mas, quando usadas para explicar os comportamentos de hostilidade intra-específica, são insuficientes, porque não explicam a própria agressão ou, pelo menos, a teoria evita tomar uma posição no debate sobre a agressividade humana. A agressão é um impulso inato, como defendem Konrad Lorenz, Raymond Dart, Anthony Storr, Niko Tinbergen, S.L. Washburn, Desmond Morris e Robert Ardrey, e não é aprendida, como supõem Ashley Montagu, Scott e Kuo. Dada a sua herança genética, os homens são genética e instintivamente agressivos e, sem a ajuda de um vasto sistema de inibições sociais e culturais, tendem a manifestar essa agressividade inata, assassinando os seus congéneres, sobretudo os outsiders. Conforme observou Lorenz, a pseudo-especiação (Erik H. Erikson) "faz-nos considerar os membros das pseudo-espécies diferentes da nossa como não-humanas; muitas tribos primitivas têm esta tendência. A prova é que, na sua língua, a palavra que designa a sua própria tribo é sinónima da palavra «homem». Sob este aspecto, não é canibalismo, no verdadeiro sentido da palavra, comer os guerreiros mortos de uma tribo inimiga" (Lorenz). Esta nossa inclinação natural para julgar inferiores as normas sociais e os ritos das outras culturas cria a desconfiança e o medo e pode muito facilmente levar a uma agressão clara. A agressão intra-específica pode ajudar a esclarecer a hostilidade heterossexual dirigida contra os indivíduos homossexuais e bissexuais: o seu desvio em relação às normas sociais instituídas pode criar medo e levar à agressão contra os indivíduos que as violam, de modo a restabelecer a ordem, garantir a coesão do grupo e o conformismo no seu seio, inibir a agressão intragrupal e criar laços, mediante determinadas ritualizações culturais, tais como a supressão das lutas no interior do grupo dominante, a consolidação da sua unidade e o antagonismo dirigido a grupos estranhos. O narcisismo de grupo e a conformidade canalizam a agressividade, direccionando-a contra todos aqueles que exibem traços e comportamentos que violam a coesão do grupo dominante. Esta perspectiva da canalização social da agressividade e do seu direccionamento contra alvos estigmatizados e desfavorecidos é confirmada pelo estudo de Sandfort, Melendez & Rafael (2007): os homens gay e bissexuais latinos (USA) que exibem não-conformidade de género relataram mais abuso sexual infantil, mais abuso verbal e violência física perpetrados por familiares e/ou amantes e mais experiências de homofobia do que os seus pares pertencentes a etnias dominantes. A pertença a dois grupos minoritários, um étnico e outro sexual, está fortemente associada a dupla-discriminação e a violência acrescida. Nas sociedades complexas, as minorias funcionam como bodes expiatórios, contra as quais os grupos dominantes canalizam a sua agressividade. A homofobia interiorizada revela-se no seio de casais do mesmo sexo: um deles considera-se menos homossexual do que o outro, visto como sendo mais homossexual, dado ser predominantemente passivo, e desta categorização resultam frequentemente conflitos e violência doméstica. 2.5. Homofobia Interiorizada. O conceito de homofobia compreende a auto-aversão que os indivíduos homossexuais, eles próprios, manifestam algumas vezes, e este desconforto sentido em relação à sua própria orientação sexual foi chamado homofobia interiorizada (Weinberg, 1972). A homofobia interiorizada implica sentimentos negativos relativos à sua própria homossexualidade, isto é, um conflito intrapsíquico entre o que as pessoas pensam que devem ser (heterossexuais) e o modo como experienciam aquilo que são ou a sua própria sexualidade (homossexuais ou bissexuais). Daqui decorre a ideia fértil de que o processo de assunção da homossexualidade é, ao mesmo tempo, um processo recorrente de luto pela heterossexualidade, pelo menos pelos seus privilégios sociais e legais, e algo análogo sucede com o luto pela homossexualidade realizado pelos heterossexuais que, ao conformarem os seus comportamentos sexuais pelas normas de género dominantes, sacrificam as mais-valias eróticas do mesmo sexo. Malyon (1982) cunhou o termo homofobia exógena para distinguir a hostilidade que os heterossexuais dirigem contra os homossexuais da homofobia interiorizada. A teoria do preconceito sexual deveria operar a substituição da homofobia interiorizada por um destes conceitos: estigma sexual interiorizado, heterosexismo interiorizado ou preconceito sexual interiorizado. Porém, nenhum deles é capaz de evocar as emoções negativas experienciadas por um indivíduo em relação à sua própria homossexualidade. O estigma sexual interiorizado e o heterosexismo interiorizado não envolvem atitudes negativas em relação ao self, e, apesar de as evocar, o preconceito sexual interiorizado não é suficiente para traçar a distinção entre o sentimento de vergonha por ser homossexual e a hostilidade dirigida contra outros homens gay e lésbicas. Isto significa que a teoria do preconceito sexual é obrigada a conservar a noção de homofobia interiorizada (Herek et al., 1997). Ora, um dos estudos empíricos que suporta a hipótese da homofobia mostrou que os homens homofóbicos reagiram com erecção do pénis aos estímulos homossexuais masculinos, embora não fossem mais agressivos do que os homens não-homofóbicos (Adams, Wright & Lohr, 1996). Isto significa que a homofobia entendida como uma manifestação de ansiedade não está necessariamente ligada à perpetração de agressões contra membros das minorias eróticas. (FIM da série dedicada à homofobia e ao preconceito sexual iniciada 1º aqui, 2º aqui e depois 3º aqui. Ah, veja esta crítica "gayzista" feita ao primeiro post desta série aqui. ) J Francisco Saraiva de Sousa
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terça-feira, 3 de março de 2009
Prós e Contras: Dúvidas Bancárias
Prós e Contras debateu hoje (2 de Março de 2009) um tema deveras interessante, a crise financeira perspectivada a partir das "operações duvidosas" da Caixa Geral de Depósitos denunciadas por Fernando Ulrich e da cultura da ganância que levou muitos portugueses a "especular" através do Banco Privado Português. De certo modo, o debate foi um mosaico: o debate das operações da CGD que opôs Fernando Ulrich e Silva Lopes a Jorge Tomé, na primeira parte, o debate da crise financeira e económica na segunda parte e, finalmente, a suposta falta de cultura financeira dos clientes do BPP na terceira parte. Porém, a intervenção de Jorge Tomé (CGD) na primeira parte deve ter assustado os portugueses e incomodou Fátima Campos Ferreira que contava os minutos apagados pela voz alienada deste participante: uma linguagem prolongadamente obscura, autoritária, soluçada, pastosa e mastigada que, num primeiro momento, tentou questionar o estatuto público da Caixa Geral de Depósitos, como se o seu corpo administrativo fosse autónomo em relação ao Estado, de modo a justificar os seus "pecados actuais", nomeadamente a "compra de acções", o empréstimo de avultadas quantias a privados que as usaram de modo pouco transparente, o redopio de capitais e de pessoas entre a CGD e o BCP, o facto de se imiscuir na banca privada e nos seus conflitos, a "perda de dinheiro", enfim uma série de operações levadas a cabo para "enriquecer alguns" e não para garantir o interesse nacional. Usei algumas expressões marcadamente críticas de José Silva Lopes, porque foi o único que soube desmistificar a linguagem obscura de Jorge Tomé, lembrando-lhe que a CGD é um banco público. Ora, Silva Lopes é "intervencionista" e não "neoliberal": defende o papel regulador do Estado e a noção da Caixa Geral de Depósitos como banco público, o "banco de todos os portugueses". A sua missão é zelar pelo interesse nacional e não, como parece estar a suceder, pelo interesse de privados ou até mesmo pelo interesse ubíquo de alguns dos seus administradores que gostam de circular livremente do sector privado para o sector público e vice-versa, num passo de dança cujo vector económico doméstico todos devíamos conhecer. António Mendonça lembrou que, no passado muito recente, o PSD tentou compulsivamente privatizar a CGD. Bem, em Portugal, privatizar significa, pelo menos uns poucos anos depois do 25 de Abril de 1974, uma oportunidade de enriquecimento fácil para alguns bailarinos administrativos cujo passo de dança consiste em passar magicamente de uma situação precária para a condição de empresários ou de homens ricos. A dança da corrupção é a grande dança nacional e Lisboa é o seu centro difusor e o seu palco privilegiado. Numa "situação de excepção" ou de crise profunda e prolongada (António Júlio de Almeida), em vez de proteger os capitalistas e os seus "amiguinhos" gestores do seu próprio umbigo, a CGD devia mostrar "responsabilidade acrescida" (António Mendonça), até porque foi alvo de grandes "injecções de capital" (Fernando Ulrich). Portanto, o que estava em causa não era o estatuto público da CGD, a intervenção do governo ou o facto de "ser o banco mais rentável do sistema bancário português", mas os seus "pecados actuais" e o seu "pecado original": "pagar mais do que devia", intrometer-se na "luta entre os bancos privados", realizar "operações" que lesam o interesse nacional, "perder dinheiro", não estimular a economia, enfim defender a ideia peregrina de "centros de decisão nacional para enriquecer alguns" (Silva Lopes). Jorge Tomé ficou completamente isolado nas suas conspirações retóricas: os seus argumentos a favor da "rentabilidade" elevada da CGD foram esclarecidos e justificados por Silva Lopes pelo "nome e confiança" e pelo facto de "pagar menos pelos depósitos" e de obrigar os contribuintes a "pagar os fundos de pensões", e as suas operações não foram vistas como sendo adequadas ao combate eficaz da crise financeira e económica, os "dois vulcões" (Fernando Ulrich) que não serão extintos de um momento para o outro, como José Sócrates parece ou finge acreditar. A CGD constitui, neste momento de colapso da economia, a "maior preocupação de todos os portugueses" (António Mendonça) e não apenas dos seus executivos e funcionários, como disse Jorge Tomé. António Mendonça caracterizou a crise financeira e económica a partir de uma invenção portuguesa como a "Dona Branca Global", enquanto Fernando Ulrich preferiu defini-la como uma "crise da perda de confiança", que foi travada pelas medidas dos governos que evitaram assim o colapso de todo o sistema financeiro. Embora a parte financeira da crise seja mais ou menos "conhecida" desde 2007, a sua "parte económica" (Vítor Bento) é ainda desconhecida e é talvez a "mais difícil de explicar". Os dois vulcões são comunicantes e contagiam-se reciprocamente. António Ramalho vê pela frente "quatro armadilhas": a armadilha da busca do culpado (1), quando, na sua perspectiva, todos somos responsáveis, incluindo provavelmente os clientes do BPP que, na sua ganância, investiram em produtos tóxicos; a armadilha de que o Estado pode resolver tudo, nomeadamente através das nacionalizações (2); a armadilha do emprego, quando o ponto fulcral é o desemprego (3) e a armadilha do proteccionismo (4). Na sua perspectiva, é necessário dar respostas adequadas a estes três "desafios" e ver a crise como uma "crise para a mudança", embora não tenha esboçado um projecto de mudança. De certo modo, uma linguagem da esperança, talvez no seu mau sentido, porque o modelo de sociedade que deve ser implantado não foi esclarecido. A crise financeira e económica revela os limites destrutivos da sociedade de consumo e do crédito irracional e, sobretudo, a regressão cognitiva e a atrofia dos órgãos mentais dos seus membros. A sociedade contemporânea é uma sociedade doente e a deriva do neoliberalismo deu corpo a uma "patologia da normalidade": um estilo de ser, sentir, pensar e agir necrófilo. Os partidos do poder (PS, PSD e CDS) não souberam dirigir os destinos nacionais: a sua acção política, ou melhor, antipolítica, tem sido regressiva e destrutiva. As elites do poder portuguesas nasceram na e pela trapaça: a sua "carreira moral" (Goffman) é uma série contínua de vícios, abusos de poder e trocas de favores, desde a sua entrada no ensino superior até à conquista do poder. Isto significa que a teoria da corrupção pode e deve ser vista como um sector da sociologia do desvio, e, como o desvio praticado pelos corruptos estigmatizados pela falta de vergonha é, à luz das leis da cidade dos homens, um crime, a teoria da corrupção faz parte integrante da criminologia. Em Portugal, o poder é usado e abusado para beneficiar interesses particulares. O abuso de poder pode estar associado a traços esquizóides exibidos por alguns dirigentes políticos que identificam o seu próprio desejo pelo poder com a "causa" que dizem esposar e que interpretam a crítica como insulto e como ameaça da sua suposta "posição de superioridade". A acção destes dirigentes esquizóides é absolutamente destrutiva: os abusadores do poder são necrófilos movidos pela paixão mórbida de despedaçar e destruir as estruturas vivas, transformando-as em estruturas sem vida. A terceira parte contou com a participação dramática de alguns clientes do BPP que afirmaram ter sido "burlados" pelos comerciais desse banco quando fizeram supostos depósitos a prazo, como se ignorassem a natureza deste "banco de casino" e fossem meros clientes ingénuos que acreditassem na máquina de propaganda dos bancos: a estupidez das pessoas é proporcional à sua ganância. O seu desejo explícito é convencer o Estado a garantir o retorno integral das suas supostas poupanças. Claro, Silva Lopes mostrou-lhes que o Estado não pode garantir os riscos especulativos de todos os privados, sejam ricos ou não. O capitalismo genuíno, sem mácula, é visceralmente, um sistema de riscos: aqueles que fazem o seu jogo, em busca de mais-valias arriscadas, devem assumir os riscos das suas decisões, umas vezes ganhando, outras vezes perdendo. Isto é capitalismo puro: ganhar e perder faz parte da sua essência. Já chegam alguns erros cometidos pelo governo em benefício dos "mesmos privados": a socialização dos prejuízos não é do interesse nacional. Só a corrupção instalada nas esferas de poder sediado em Lisboa pode exigir aos contribuintes que paguem pelos prejuízos de privados avaros: os lucros pertencem-lhes, mas os prejuízos devem, na sua perspectiva egoísta, pouco justa e socialmente pouco responsável, ser cobertos pelos dinheiros públicos. A nossa democracia já é uma cleptocracia: o governo dos ladrões, ladrões que beneficiam ladrões, tal como acontece em qualquer Estado Africano. As dúvidas bancárias são dúvidas políticas e as dúvidas política são dúvidas antropológicas: o que recorrentemente está em questão é a falta de inteligência e de cultura dos portugueses. Apesar do capitalismo ser um sistema sujeito a crises periódicas, devido às suas contradições internas e ao seu nascimento sangrento, a actual crise financeira que ameaça destruir a economia real é antropogénica: os animais corruptos que inventaram engenharias financeiras para enriquecer, fingindo que governavam os seus países e o chamado mundo global, são responsáveis pela gravidade da crise e devem ser punidos severamente, perdendo tudo aquilo que roubaram. A economia capitalista é movida pela ganância do lucro e, para alcançar esse objectivo, é capaz de sacrificar tudo e todos, incluindo a destruição total da Terra e da vida. O capitalismo neoliberal encarna o espírito necrófilo, isto é, a agressão maléfica. J Francisco Saraiva de Sousa
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