Fátima Campos Ferreira moderou hoje - 8 de Junho de 2009 - uma conversa muito serena entre cinco representantes dos partidos políticos "vencedores" que concorreram às Eleições Europeias (7 de Junho de 2009): Pedro Santana Lopes (PSD), Augusto Santos Silva (PS), Rui Tavares (BE), Sérgio Ribeiro (CDU) e Bagão Félix (CDS). O facto de ter sido um debate sereno e relativamente consensual mostra que os participantes abandonaram os discursos precipitadamente eufóricos dos cabeça-de-listas vitoriosos e dos respectivos lideres dos seus partidos: o PS foi o único partido humilhantemente derrotado nestas eleições, não tanto por mérito dos adversários, mas por desmérito na escolha de Vital Moreira para encabeçar a sua lista, um erro atroz que provavelmente vai produzir o mesmo resultado nas eleições autárquicas, nomeadamente na CM de Lisboa ou mesmo na CM do Porto. Tal como José Sócrates, Augusto Santos Silva reconheceu a "derrota humilhante" do PS, acrescentando que o partido deve tirar daí todas as ilações e preparar-se para vencer as eleições legislativas, de preferência com maioria absoluta. Para facilitar a análise deste debate, vou concentrar-me em três questões básicas: a legitimidade do governo socialista, o voto conservador no contexto de uma crise financeira e económica profunda, e a governabilidade. Legitimidade. A questão da legitimidade foi colocada por Paulo Rangel após saber que o PSD tinha vencido as eleições europeias, e depois retomada por Manuela Ferreira Leite. O discurso eufórico de Rangel, quase eleitoralista e muito ressentido, deve ter chocado muitos eleitores que canalizaram para ele o seu voto de protesto, porque na verdade a sua campanha esteve longe de ser brilhante, até porque andou sozinho pelo país. Negar a legitimidade do governo socialista implica uma confusão entre eleições europeias e eleições nacionais: Rangel limitou-se a cativar o voto do protesto e da insatisfação, sem ter apresentado ideias sobre a Europa. Isto significa que os candidatos ao Parlamento Europeu nada fizeram para sensibilizar os eleitores para os assuntos europeus, desvalorizando eles próprios as eleições europeias. Mas nenhum dos participantes presentes neste debate retomou o seu discurso: Santana Lopes demarcou-se claramente desse discurso eufórico, reafirmando a legitimidade do governo para continuar a governar, embora devesse evitar as "grandes decisões", dado estar condicionado politicamente (Bagão Félix), e Rui Tavares acusou-o de criar uma "polémica estéril" que visa "empatar tempo", bloqueando a discussão do que deveras interessa. Rangel foi assim abandonado ao esquecimento: o seu discurso carece de credibilidade. Manuela Ferreira Leite, pelo facto de não ter participado assiduamente na campanha, não devia ter retomado esse discurso delirante, como se já tivesse vencido as eleições legislativas, porque o seu "discurso da verdade" ainda não foi confirmado pela sua tomada de posição em relação ao envolvimento de elementos do PSD, muitos dos quais participaram nos governos de Cavaco Silva, na gestão danosa do BPN, na degradação acelerada da qualidade de ensino, com a proliferação de universidades privadas, e no sequestro da cultura superior. Portugal secou completamente durante esse período: a ideia de projecto de futuro foi abolida do vocabulário oficial laranja. O termo "roubalheira" usado pelo candidato socialista não devia ter chocado os lideres do PSD, pela simples razão de ser um facto mediaticamente reconhecido e discutido. Se pretende fazer um discurso da verdade, o PSD deve assumir algum tipo de responsabilidade por este caso escuro de corrupção e pelo atraso estrutural de Portugal, até porque os seus governos foram alvo de muitas suspeitas, incluindo práticas ilícitas. Se o PSD fosse o partido da competência e da verdade, como diz ser, a sua acção governativa devia ter libertado Portugal do seu atraso estrutural e da corrupção, mas, como isso não se verificou, o melhor será permanecer calado. O PSD não é vítima, mas parte activa do problema nacional: eis o discurso da verdade que deve ser assumido por todos os partidos políticos. Neste momento da discussão, Sérgio Ribeiro acusou o PSD de "adiar a discussão da crise", como se ainda alimentasse a ilusão de vir a retomar a sua desastrosa política neoliberal de privatizações, muitas das quais criaram as condições objectivas para o fomento e o alastramento da degradação política nacional e da corrupção. Santos Silva vai mais longe quando acusa o PSD de confundir a legitimidade com os seus "próprios preconceitos" contrários às obras públicas: "o país não pode parar" e o governo socialista vai manter o seu rumo, cumprindo o programa que lhe deu a vitória nas últimas eleições legislativas. O combate à crise exige os investimentos públicos que o governo socialista está a realizar: o objectivo mais imediato dos investimentos públicos é evitar o desemprego e manter a economia em funcionamento. Todos os participantes concordaram neste tópico do investimento público, embora Santana Lopes tenha mostrado uma discordância em relação à construção do novo aeroporto de Lisboa, aliás um projecto "reversível", como frisou Santos Silva. Voto conservador. Fátima Campos colocou o dedo na ferida: os partidos conservadores (França, Alemanha, Itália) da Europa venceram as eleições, enquanto os partidos socialistas (Portugal, Espanha, Inglaterra) perderam as eleições, apesar da crise financeira e económica ter sido produzida pelas práticas neoliberais promovidas pelos conservadores. Neste cenário de crise, o voto conservador é, de certo modo, paradoxal. Qual é o seu significado? Bagão Félix improvisou uma teoria: os partidos socialistas perderam a sua ideologia, acabando por abraçar a "mitologia do mercado" (Rui Tavares). Ora, esta clonagem ideológica penalizou-os nestas eleições, porque "o clone é sempre inferior ao original": os eleitores optaram pelo original. A noção ideológica de que a Direita é mais competente do que a Esquerda é retida na noção de clonagem ideológica. O momento de verdade desta teoria de Bagão Félix não reside no suposto facto do "PSD fazer melhor do que o PS", de resto uma falácia facilmente refutada pelas actuais circunstâncias de miséria nacional e de corrupção transversal, mas sim no facto de muitos dirigentes socialistas proferirem discursos apologéticos do fundamentalismo de mercado, como se verifica nas participações de António Costa na "Quadratura do Círculo" (SIC) e da figura pseudo-socialista no "Corredor do Poder" (RTP1). O governo socialista cometeu muitos erros na realização e na execução das suas reformas e não soube adoptar medidas claras de combate à corrupção generalizada. A nacionalização do BPN foi justificada como uma medida para evitar o colapso do sistema financeiro português, isto é, como correcção de um "erro sistémico" (Santos Silva). Porém, nacionalizar o BPN significa nacionalizar os prejuízos privados: os contribuintes portugueses vão pagar os erros cometidos pelos privados. Reconhecer este facto não invalida a decisão de nacionalizar o BPN. O PS agiu de modo a defender o interesse nacional, mas essa medida deve ser acompanhada pela penalização daqueles que cometeram actos ilícitos e pela responsabilização da iniciativa privada. O PS não pode nem deve fazer a apologia do fundamentalismo de mercado, mesmo quando proteja a economia de mercado regulada: os clientes do BPP exigem que o Estado intervenha numa matéria que não é da sua responsabilidade e isto à luz da própria ideologia do neoliberalismo. Aqueles que investem em bancos bolsistas perseguem livremente lucros privados e, quando não os obtêm, não podem exigir que os outros assumam os seus prejuízos, até porque também não partilham os seus lucros. O risco privado não pode nem deve ser garantido pelo Estado: eis uma exigência tanto do liberalismo puro como do socialismo democrático. O Estado deve regular o mercado, em especial os mercados financeiros, mas não deve assumir os prejuízos da iniciativa privada. Os partidos de Direita aceitam (venenosamente) que o PS deve resolver o problema do BPN e do BPP, mas o que eles deveras desejam é que o PS os livre deste problema, isto é, que o PS seja mais fundamentalista do que eles, usando o Estado e os dinheiros públicos para cobrir os prejuízos dos privados. Os clientes desses bancos não votam PS e, geralmente, são contra o papel regulador do Estado na economia. Se fossem pessoas cognitivamente coerentes, deveriam optar pelo suicídio: a crise financeira e económica desmentiu completamente o fundamentalismo de mercado. As dissonâncias cognitivas mencionadas revelam a face escondida da clonagem ideológica: a falência do modelo europeu de economia social. A aliança entre a "economia de mercado" e a "justiça social" é profundamente perversa e nefasta, não só porque promove a formação de um Bloco-Central propenso à prática da corrupção activa e avesso à mudança social qualitativa e à luta política genuína, mas também porque é intrinsecamente paradoxal: o capitalismo não pode resolver a pobreza generalizada que cria. A massa cinzenta europeia está absolutamente paralisada: o consenso central sacrifica a liberdade criativa, cria uma Europa dos burocratas corruptos alheia aos cidadãos e ameaça a própria continuidade da aventura ocidental. Embora tenha procurado (deslocadamente) conforto na eleição de Obama, Santos Silva acabou por reconhecer a clonagem ideológica do PS: sempre que falou dos partidos à esquerda do PS - BE e CDU, ou os acusou de não serem "democráticos", afirmou inadvertidamente - ou não - que o PS ocupa o centro, como se a sua ideologia fosse um fundamentalismo de mercado travestido com roupas europeias, dando origem a um debate à parte entre as esquerdas divididas. O PS esquece a sua herança histórica e, como partido aburguesado, condena-se ao fracasso eleitoral. Na campanha do PS foi dito que "o PS combate a crise, enquanto os outros combatem o PS". É verdade que as esquerdas fazem mais oposição ao PS do que à Direita, recusando-se a viabilizar um governo minoritário do PS ou mesmo a participar no poder, mas, se a Direita sabe que a melhor forma de silenciar a oposição de esquerda é o "populismo" - o falso combate à pobreza, o PS esgota-se numa luta irracional contra as esquerdas, como se temesse a mudança de paradigmas ou o salto qualitativo. O PS não sabe conservar o poder ou até mesmo alojar-se firmemente no centro: perdeu votos tanto à esquerda como à direita-centro. No entanto, como revela o fenómeno do populismo de direita, a clonagem ideológica não é exclusivamente um problema do socialismo democrático: a descaracterização ideológica ou, mais precisamente, a anemia ideológica dos partidos políticos é um fenómeno universal que decorre da própria aceitação da ausência de alternativas ao modelo económico predominante. O BE e a CDU teimam em não pensar a fragilidade da sua existência parasitária. Como partidos do protesto e de reivindicações alheias ao pensamento de esquerda genuíno, prestam-se ao jogo eleitoral do voto de protesto nas europeias, mas nas eleições nacionais o jogo é outro: apesar da sua regressão cognitiva, que partilha com as suas elites, o povo sabe que nas próximas eleições é o seu futuro que está em jogo. As eleições europeias são favoráveis à irrupção do Carnaval Europeu. O Parlamento Europeu é uma palhaçada berlusconiana e pirata e, de certo modo, não tem credibilidade, funcionando como saco do lixo europeu. Governabilidade. Em Portugal, a noção de que só uma maioria absoluta pode garantir a governabilidade constitui uma noção-comum nos meios políticos. Os partidos pequenos, tais como o BE, o PCP e o CDS, são avessos às maiorias absolutas reclamadas pelo PSD e pelo PS, os dois partidos de poder que lutam claramente pela bipolarização e pela alternância de poder. Mas, quando colocou a questão da governabilidade, Fátima Campos quis mostrar que até mesmo o actual governo dotado de maioria absoluta confortável teve dificuldade em implementar as reformas estruturais da administração pública, da educação e da justiça. Santos Silva lembrou que a aliança entre o PSD e o CDS é a única formação que, nestas eleições europeias, se aproxima de uma maioria absoluta, mas Santana Lopes preferiu acentuar a bipolarização, afirmando que o PSD já constitui a alternativa ao PS nas próximas eleições legislativas. Isto significa que os dois maiores partidos políticos portugueses acreditam que um deles vai conquistar uma maioria absoluta nas eleições legislativas. Mais uma vez a discussão do problema da governabilidade de Portugal foi adiada: os lideres portugueses fazem tudo para não encarar de frente a verdadeira realidade nacional, de resto reflectida nestas eleições. O optimismo autista é a ideologia daqueles que não desejam mudar nada e o número de autistas não pára de aumentar. J Francisco Saraiva de Sousa
terça-feira, 9 de junho de 2009
Especial Eleições Europeias 2009
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segunda-feira, 8 de junho de 2009
Filosofia da Fotografia
A fotografia foi inventada em 1826 por Nicéphore Niépce, mas coube a Daguerre aperfeiçoar o processo e torná-lo acessível a todos.
Ideia Directriz da Teoria da Fotografia. A filosofia da fotografia é, simultaneamente, uma filosofia da técnica e uma filosofia da história. Vivemos num mundo mágico, ou seja, num mundo magicizado pela fotografia e pelo cinema: o mundo das imagens técnicas. Este mundo pós-histórico é dominado pela hegemonia das imagens, o que implica necessariamente o colapso dos textos - ou a crise da palavra (Steiner) -, que foram possibilitados pela invenção da escrita, com a qual emerge a História. Se esta leitura for verdadeira, precisamos repensar o estatuto teórico da crítica: crítica como desmagicização? A velha noção de crítica como exorcismo do exorcismo, da qual não sou alheio, ainda é pertinente? A questão é pertinente para a elaboração da cyberfilosofia: vivemos num mundo programado e somos funcionários dos aparelhos técnicos, os quais são caixas-pretas. O mundo das imagens técnicas é absurdo (Flusser): a filosofia da fotografia deverá ser uma filosofia da liberdade num mundo programado pelos aparelhos técnicos. Comentários posteriores. Adiciono a este post os comentários que fiz posteriormente sobre a fotografia.
1. Tenho estado a pensar a fotografia, mas - talvez devido ao tempo chuvoso - chego à conclusão que a era da imagem nos mantém reféns e prisioneiros na caverna platónica. Somos reféns das imagens, sejam elas publicitárias, fotográficas, empresariais ou institucionais. E, nessa condição, somos alvos da regressão cognitiva. 2. A filosofia rejeitou a imagem durante muito tempo e agora somos forçados a pensá-la. Curiosamente, Heidegger fracassou na captação da essência da imagem fotográfica que pensa como reprodução do ente, condenando-a por não ser arte: a revelação do Ser.
3. Barthes analisa a fotografia na perspectiva da nossa mortalidade: o que a foto "representa" esteve ali - "ça-a-éte". Mas hoje em dia temos diversas filosofias da fotografia (Flichy, Joly, Van Lier, Sontag, Benjamin, Dubois, Freund, Gauthier, Schaeffer), para além da semiologia e da retórica da imagem, embora a última obra de Barthes - A Câmara Clara - seja fenomenológica. Hoje sabemos que a fotografia e o cinema dão duas coisas absolutamente modernas, fruto da industrialização, sem precedentes ou sem herança. Geralmente, a filosofia da fotografia foi vista como uma oportunidade para reler as categorias tradicionais da filosofia, mas a imagem exige talvez uma nova prática da filosofia, dado ter produzido uma mutação radical no espírito humano. Portanto, procuramos uma outra estética para além do conflito naturalismo versus romantismo.
4. A fotografia como dispositivo técnico é apenas uma caixa-preta que permite aceder e pensar a era das imagens. Estas tendem a substituir os textos e, por isso, a filosofia da fotografia é filosofia da técnica. É aqui que a filosofia quer chegar: a essência da técnica. De certo modo, esta era da técnica ameaça o conhecimento tal como sempre o concebemos: isso deve ser pensado e talvez com novas categorias. Uma nova filosofia? Talvez...
5. Em termos de filosofia da história, podemos vislumbrar três grandes períodos: 5.1. Pré-História.
5.2. História. Inaugurada pela descoberta da escrita (sistema linear B), a história explicita-se como a Era dos textos/narrativas: Tempo, o Homem Tipográfico. Com a escrita inaugura-se um modo histórico de ser: o homem tipográfico é dotado de consciência histórica e sabe estar em devir.
5.3. Pós-História. A descoberta da fotografia inicia a Era das Imagens: Imagem Técnica, Homem Gráfico, Eternidade, Idolatria, Alienação. O homem gráfico perdeu a consciência histórica, como se vivesse na eternidade do instante. Que modo de ser inaugura esta nossa era? Eis a questão cuja resposta depende da cyberfilosofia. Este é o meu programa. A imagem está entre o homem e o mundo: não como mapa do mundo, mas como afastamento do mundo. A realidade é reflectida pela imagem e vamos caminhando e viajando de imagem em imagem: o mundo é novamente magicizado e a imaginação é alucinação. O que me preocupa de momento é a conexão entre predomínio da imagem e regressão cognitiva, a qual já exibe efeitos no conhecimento. O que é o conhecimento imagético? Nós vivemos na era das imagens, mas ainda não a decifrámos. Precisamos de novos conceitos (McLuhan, Debray, Inglis, Kerckhove). 6. Eu tinha deixado de lado a imagem, porque estava convencido que o computador trazia novamente o texto, a escrita, e traz, mas traz também a imagem sem referente, completamente simulada. Ora, isso tem efeitos sobre o desenvolvimento cognitivo: as noções sofreram mutações profundas. Estamos a viver dentro da caverna de Platão: a pós-história (Gehlen) "recapitula" a pré-história; a magia é-lhes comum. A cyberfilosofia deve aceitar o desafio da rede digital e seduzir, isto é, imunizar as pessoas contra a idolatria e a alienação técnica: uma actividade enzimática ou psico-enzimática. 7. Em linguagem médica, detectamos a degenerescência e a domesticação. O homem ocidental de hoje é um "primitivo", e é por ser tosco que coexiste facilmente com outros que nunca deixaram de ser primitivos: a cultura regrediu e a humanidade foi hipo-atrofiada na mera animalidade angustiada e nostálgica. São estas mudanças estruturais que quero pensar, de modo a produzir uma filosofia da técnica. Ora, a dificuldade do meu empreendimento é que ainda sou refém de uma ontologia da imagem e, tal como Baudelaire e a estética romântica, não quero romper com a imaginação criativa. E, tendo Bloch como referência, anseio pela hora de demolir o pragmatismo corrupto da economia. A cartilha económica deve ser demolida, porque é ela uma das responsáveis pela actual crise financeira e económica e pela descaracterização ideológica. 8. O programa que esbocei recorre muito à cibernética de Wiener e de Ashby, o que me força a colocar a imagem entre o homem e o mundo. Porém, numa perspectiva fenomenológica, se a imagem é a imagem de alguma coisa - a sua estrutura intencional -, então surgem problemas que talvez não tenham resposta nessa matriz teórica. Ora, a teoria de Sartre permite superar a ontologia ingénua da imagem e a sua abordagem positiva e coisista: o acto de imaginação é um acto de magia. Resta como recurso a patologia da imaginação sobredeterminada pela gula do capitalismo. 9. Finalmente, descobri a dificuldade: a teoria do fetichismo da mercadoria de Marx é uma teoria do imaginário, que supera a ontologia ingénua da imagem, coisa que Sartre não levou completamente a cabo, acabando por ser vítima da crítica que dirige à psicologia positiva. Ora, Lukács interpretou correctamente a teoria de Marx, e foi pela sua mediação que Heidegger desbravou caminho: o grande interlocutor de Heidegger foi sempre Marx visto pelos olhos do Jovem-Lukács. Bloch também está na proximidade: o fetichismo é desfiguração e, como tal, deve ser usado pela filosofia para demolir a cartilha economicista que nos rouba a vida na sua possibilidade escatológica. Se Marx foi o grande filósofo do século XIX, Lukács é o grande filósofo do século XX: todos os outros parasitam o seu pensamento seminal, incluindo Heidegger. Em suma, ainda não se compreendeu a novidade da filosofia do século XX. A Idolatria da imagem ofusca tudo e, na desfiguração fetichista, alienamo-nos a nós e ao mundo. Porém, a transfiguração é o animismo, que Marx pensou como teoria do proletariado, o agente da mudança ético-política. 10. Os economistas têm estado a enganar-nos: eles converteram a economia - embrulhada em papel pseudo-científico - numa fórmula de acesso ao poder e de manipulação, de modo a beneficiarem em termos de rendimentos chorudos. O efeito dessa artimanha é tratar a sociedade humana como uma mera sociedade de gado doméstico: a economia burguesa empobrece tudo aquilo que trata, incluindo os próprios economistas que mais não são do que animais ladrões. 11. O problema da "imagem" complicou-se no meu pensamento no bom sentido do termo: uma filosofia da fotografia (imagem técnica) põe em questão quase todo o nosso legado filosófico. Ler a fotografia em função desse legado é não compreender a sua essência verdadeira; ler o legado em função das categorias da imagem técnica é violá-lo ou, no melhor dos casos, reformulá-lo. Estamos prisioneiros da imaginação mimética de Platão - a cópia da cópia, embora Platão tenha avançado com a imaginação extática - as imagens entusiásticas e visionárias das Ideias. Ora, Kant é sensível a essa "ambiguidade" e avança com a imaginação transcendental que possibilita a síntese, mas recua na segunda edição. Heidegger também vai recuar, Sartre recua, Merleau-Ponty recua, todos recuamos, excepto Marx e Bloch. Castoriadis descobre em Aristóteles uma concepção inovadora da imaginação e, articulando-a com Marx, elabora a sua filosofia da imaginação instituinte. Porém, nestas ambiguidades, vacilações ou clivagens, revela-se uma teoria da imaginação criadora: a constituição do ser, que pode ser desfigurada pelo domínio técnico. 12. A fantasia é o suporte do pensamento, sem o qual nada pode ser pensado: o pensamento é contemplação da fantasia. A filosofia de Marx debate-se constantemente com "fantasmas", simulacros, ídolos, fetiches, espectros, sonhos diurnos, enfim, com o imaginário figurador, desfigurador, transfigurador, refigurador e configurador. A fotografia mostra um fantasma... 13. Nesta chave hermenêutica abrangente, podemos retomar toda a filosofia contemporânea, incluindo Nietzsche e Ricoeur, Adorno e Horkheimer, Benjamin e Lévinas, configurada à luz da categoria de possibilidade: a filosofia unificada a essa luz destrói completamente o projecto instrumental e destrutivo da ciência, abrindo o mundo ao Novo e à Alteridade Radical. A estupidez da economia burguesa diante da crise foi mostrada por Lukács: a filosofia pode evitar o seu "fim", desde que tenha coragem e se deixe entusiasmar - ser-um-com-o-divino. 14. A ciência desfigura o mundo, reduzindo-o à sua imagem. Por exemplo, a economia burguesa e ladra manipula a imagem do mundo, adaptando-a aos interesses egoístas dos gestores. Ela não leva em conta o mundo - o qualitativo -, mas uma imagem quantitativa do mundo, a que serve os interesses dos corruptos ou daqueles que desejam corromper-se e enriquecer com o abuso de certas engenharias financeiras: o curso de economia é um curso de corrupção; ela inicia os alunos na prática da manipulação desfiguradora e da corrupção. É por isso que, quando Cavaco Silva - o Presidente da República - fala da economia, fico com a pulga atrás da orelha: a visão quantitativa perde-se na imediaticidade da consciência reificada; carece de perspectiva de futuro. Não se sai da actual crise financeira e económica pela via da mera gestão económica. J Francisco Saraiva de Sousa
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sexta-feira, 5 de junho de 2009
A Imaginação da Catástrofe
«O cinema de ficção científica trata da estética da destruição com a beleza peculiar que pode ser encontrada ao desencadear a destruição e ao provocar a desordem. E é nas imagens de destruição que se encontra a essência de um bom filme de ficção científica». (Susan Sontag) O cinema surgiu no seio de uma civilização que diferencia claramente dois mundos, o mundo real e o mundo irreal, relegando o fantástico para o domínio da superstição e da infância. A emergência do cinema universal e do seu produto típico - o filme de ficção - contraria internamente, negando-o, o processo de racionalização e de desencantamento do mundo: o cinema não só abrange o campo do mundo real, como também abarca e integra o campo do mundo imaginário, o que significa que participa simultaneamente da percepção do estado de vigília e da visão do sonho. Como grande matriz arquetípica que compreende, em termos embriológicos, todas as visões do mundo, incluindo a visão primitiva do mundo, o cinema apela e inscreve o fantástico no real e, enquanto abertura ao mágico do qual deriva em última instância toda a arte, define-se como a unidade dialéctica do real e do imaginário. Esta dialéctica é especialmente evidente nos filmes de ficção científica, cuja estética da destruição vamos explicitar como se estivéssemos a realizar o Filme dos filmes de ficção científica. O roteiro típico de um filme de ficção científica compreende basicamente cinco partes, embora possa revelar diversas variações resultantes da supressão de uma ou outra parte ou da sua fusão: 1. A chegada da Coisa. Os monstros, os invasores, máquinas assassinas e exterminadoras, predadores extraterrestres em busca de refeição ou de um hospedeiro que facilite a sua reprodução, algo radioactivo, uma mutação súbita produzida num laboratório, uma doença misteriosa ou uma nave espacial alienígena irrompem e surgem no mundo dos humanos. Alguém - um jovem cientista numa pesquisa de campo - presencia essa chegada ou suspeita de alguma coisa estranha, mas ninguém - incluindo a sua namorada incrédula e/ou as autoridades locais - acredita inicialmente no seu relato. O mundo parece girar na sua própria normalidade, como se nada de estranho estivesse a acontecer. Noutras versões, o herói e a sua namorada ou mulher e filhos repousam nalgum lugar de férias da classe média ou na sua casa situada numa pequena cidade, quando são repentinamente surpreendidos por alguém que se comporta de modo estranho ou por alguma forma de vegetação que começa subitamente a crescer e a mover-se. No caso de estar a dirigir um carro, o herói pode ser surpreendido por alguma coisa hedionda que surge no meio da estrada ou por luzes estranhas que sulcam o céu nocturno. Uma versão muito frequente é a do herói-cientista, que, no seu laboratório, faz experiências: nuns casos, provoca inadvertidamente uma metamorfose nalguma espécie vegetal ou animal que se torna carnívora e frenética; outras vezes, fere-se e é "invadido" e "contaminado", ou então realiza experiências com radiação ou constrói uma máquina para comunicar com seres de outros planetas ou para viajar no tempo. Outra variante mostra uma viagem ao espaço: os astronautas da nave terrestre descobrem que o planeta visitado ou já colonizado por colonos humanos ou por prisioneiros (colónia penal) se encontra ameaçado por invasores alienígenas e, depois de terem lutado contra eles, procuram desesperadamente regressar à Terra, mesmo correndo o risco de trazer na nave ou mesmo no próprio corpo o invasor extraterrestre - incubado ou não - para o berço da humanidade. 2. Cena de destruição visível. Inicialmente, o herói é o único humano que sabe da existência de alguma coisa estranha que pode levar à extinção da vida humana em pouco tempo e, mesmo quando tenta avisar os outros e as autoridades, ninguém acredita que algo anormal está a acontecer. A sua luta contra a Coisa consiste em barricar a casa, caso a Coisa seja material, ou em chamar um amigo, caso a coisa seja um parasita invisível, mas a luta é inglória: todos acabam por ser mortos ou "tomados" pela Coisa. A ameaça só se torna visível quando um número elevado de testemunhas presencia uma grande cena de destruição que confirma o relato do herói. As forças policiais ou militares são chamadas para resolver a situação, mas são massacradas e destruídas pela Coisa. Todos os esforços realizados para repelir a Coisa revelam-se inúteis: a Coisa continua a fazer novas vítimas e a ameaça começa a ultrapassar os limites da cidade, até que se torna potencialmente planetária e global: a vida humana está em perigo. 3. O estado de emergência. Na capital da nação invadida pela Coisa, os cientistas e as forças armadas realizam conferências secretas, durante as quais o herói faz a sua exposição, com recurso a mapas e outros meios tecnológicos sofisticados. O governo decreta o estado de emergência nacional. Os mass media noticiam novos casos de destruição. As notícias percorrem todo o mundo e as autoridades de outros países começam a ficar preocupadas. As tensões internacionais são suspensas e é decretada a emergência planetária: o planeta e a vida humana correm perigo e, por isso, todas as nações aliam-se para elaborar planos que visam destruir o inimigo comum. 4. Novas atrocidades. Mas todas essas tentativas de destruição da Coisa fracassam, enquanto novas atrocidades são difundidas pelos mass media: cidades inteiras são destruídas pelos invasores e/ou evacuadas, as forças policiais ou armadas são dizimadas, geralmente pelo fogo, e todos os ataques dos homens contra a Coisa, usando os armamentos e as tecnologias mais avançados, fracassam. As multidões fogem, atropelam-se, são perseguidas e, nas pontes, empurradas pelas forças de segurança. A Coisa vence, fazendo inúmeras vítimas, e anexa cada vez mais território: o desespero total instala-se entre os humanos confrontados com a sua extrema fragilidade diante dos poderes da Coisa. 5. A vitória final. Os humanos realizam novas conferências: a Coisa tem de ser vulnerável a algo. Geralmente, a estratégia final da qual dependem todas as esperanças da humanidade é traçada pelo herói que trabalhou sozinho, no seu laboratório, nesse sentido: constrói-se uma arma todo-poderosa e o cronómetro inicia a contagem regressiva. Os monstros ou os invasores são finalmente repelidos ou vencidos. Os humanos congratulam-se pela vitória, mas nada garante que algures no espaço cósmico frio e escuro, nas profundezas da Terra ou nas suas regiões geladas ou desconhecidas hajam outros monstros capazes de retomar a invasão e a destruição. Os filmes de ficção científica não tratam de ciência, mas falam unicamente de catástrofe. Na representação imediata do extraordinário, como o desabamento de arranha-céus ou a guerra nuclear, os filmes de ficção científica proporcionam não um exercício cognitivo, mas sim a elaboração sensorial, permitindo ao público participar da fantasia de sobreviver à nossa própria morte, à destruição das cidades e de planetas e à aniquilação da própria humanidade. A catástrofe é a visão da catástrofe e a catástrofe é vista mais de modo extensivo do que de modo intensivo: a beleza revela-se precisamente na estética da destruição, isto é, nas imagens de destruição. A catástrofe constitui um dos maiores temas da arte, talvez porque na catástrofe está em jogo a própria sobrevivência da humanidade e da sua aventura cósmica e a sua capacidade de saber - ou não - fazer frente à possibilidade da sua própria aniquilação. Os lançamentos das bombas atómicas sobre Hiroshima e Nagasaki, bem como a guerra fria, marcaram fortemente a imaginação da catástrofe: as vítimas da radiação ocuparam um lugar de relevo nos filmes de ficção científica, que ajudaram a difundir a ideia de que todo o mundo pode ser destruído por testes e guerras nucleares, e a canalizar a belicosidade humana para o desejo de paz. Quando a Terra é invadida por forças alienígenas, as potências beligerantes da Terra suspendem os seus conflitos e unem-se para combater o inimigo alienígena. A fantasia da união na guerra foi, durante esse período de guerra fria, a fantasia das Nações Unidas, a qual aparece associada à fantasia utópica: o sonho de um mundo melhor ou, simplesmente, a utopia de uma comunidade mundial totalmente pacificada e regida pelo consenso científico. O elemento utópico que opera velada ou desveladamente no cinema de ficção científica liga-se intimamente às narrativas milenares do apocalipse. A imaginação da catástrofe é essencialmente a expectativa do apocalipse. Antes de 1500 a.C., diversos povos antigos acreditavam que o mundo tinha sido, no começo dos tempos, organizado e colocado em ordem por um ou mais deuses. A segurança observada no mundo era sinal não só da sua imutabilidade, como também da existência de uma ordem estabelecida nos céus. Apesar dessa imutabilidade atribuída ao mundo, a ordem nunca foi completamente tranquila: forças malignas e destrutivas ameaçavam constantemente o mundo. O mito do combate relata precisamente esse conflito entre a ordem universal e as forças que a ameaçam invadir e destruir. Neste mito do conflito entre o cosmos e o caos, um jovem herói ou guerreiro divino recebeu dos deuses a missão de manter e conservar sob controle as forças do caos. O cumprimento dessa missão era recompensado com a soberania sobre o mundo. Porém, entre 1500 e 1200 a.C., Zoroastro rompeu com a visão estática do mundo, mediante a reinterpretação da versão iraniana do mito do combate: O mundo caminha e aproxima-se gradualmente, através de incessantes conflitos, de um estado final sem conflitos e antagonismos. Este estado será alcançado quando o deus supremo e os seus aliados derrotarem, numa fantástica batalha final, as forças do caos e os seus aliados humanos, aniquilando-os para sempre. Só depois desta batalha final a ordem divinamente estabelecida será absolutamente real e presente. Dado os sofrimentos, as necessidades, as misérias físicas e os inimigos serem definitivamente abolidos, reinará a unanimidade absoluta na comunidade dos redimidos e a ordem do mundo não voltará a ser perturbada ou ameaçada. A doutrina de Zoroastro influenciou não só o judaísmo e o cristianismo, como também muitas ideologias políticas seculares e o próprio cinema de ficção científica. Mas, como vivemos num mundo abandonado pelos deuses, a imaginação da catástrofe transfigurou-se numa tragédia, na textura da qual se joga o destino da humanidade abandonada a si mesma e o fim do mundo tal como o conhecemos. As forças do caos são produzidas pela própria acção humana: o caos que ameaça destruir o homem e a natureza é, em grande medida, antropogénico. Abandonado pelos deuses, o homem torna-se problemático e sente-se completamente só num universo aparentemente despovoado. Esta angústia da solidão leva-o a sondar o universo em busca de seres extraterrestres e de vida fora da Terra, e é precisamente esta busca ansiosa que o cinema de ficção científica retoma para reformular o tema da batalha final como colisão de mundos ou como conflito entre a humanidade e as forças alienígenas que a ameaçam invadir e destruir. Porém, como veremos mais adiante, este confronto final reflecte a problematicidade das relações entre o homem e o mundo tecnoburocrático que criou: as forças alienígenas mais não são do que as projecções imaginárias dos artefactos antropogénicos, tais como a burocracia impessoal, a bomba atómica e as armas nucleares e biológicas, que ameaçam destruir e aniquilar a própria humanidade e a Terra. Os produtos produzidos pelo homem viram-se contra o produtor: o homem perdeu o controle sobre o mundo que criou. Além de estar só, o homem moderno produziu um mundo que lhe aparece como absolutamente estranho e no qual se sente frágil, estranho, alienado e ameaçado. A concepção da ambivalência da ciência atravessa quase todos os filmes de ficção científica: a ideia predominante é a de que um cientista pode libertar forças que, se não forem controladas ou mesmo destruídas, ameaçam destruir o próprio homem e o seu mundo. O cientista tende a ser visto simultaneamente como um demónio e um salvador e a ciência como uma actividade social dotada de duas faces, tal como o deus Janus: a ciência é sempre uma aventura arriscada, porque tanto pode fornecer uma resposta tecnológica eficaz ao perigo que ameaça a natureza e o próprio homem, como também pode ser usada para os destruir. Um filme de ficção científica não é necessariamente uma apologia cega da ciência e da tecnologia, porque nele se revela quase sempre a possibilidade deste duplo-uso da ciência: o uso humano e a obsessão científica, geralmente atribuída à vontade perversa de um cientista isolado ou aos interesses mesquinhos de grandes corporações económicas e militares. O uso perverso da ciência evidencia-se no caso em que o cientista deserta da sua equipa para se juntar aos invasores extraterrestres, pelo facto da sua ciência ser mais avançada do que a nossa, ou no caso em que o cientista realiza descobertas e experiências arriscadas ou cria monstros sem levar em conta a sua perigosidade para o futuro da humanidade. A ciência feita por cientistas obcecados cultiva forças extremamente perigosas que os cientistas não conseguem controlar, pondo em perigo a vida humana. Porém, a obsessão científica e os monstros que produz podem e devem ser destruídos pela ciência não ambivalente, isto é, pela ciência colocada ao serviço da humanidade e da vida tal como a conhecemos. A figura do cientista louco tende a ser morta não só pelas suas próprias criações monstruosas, como também por si mesma ou pelos heróis que lutam pela preservação da humanidade. O bom cinema de ficção científica critica os abusos da ciência sem no entanto a abandonar ou trocar por qualquer outra forma de conhecimento. O cinema de ficção científica oculta uma profunda ansiedade no que concerne à vida contemporânea e esta ansiedade não se refere somente à catástrofe física, à perspectiva da mutilação e da aniquilação universal - o trauma da bomba, mas fundamentalmente ao psiquismo individual. A imaginação negativa do impessoal impregna os filmes de ficção científica: os seres do outro mundo que nos tentam dominar são "a Coisa" e não "eles" e, como coisas, são criaturas semelhantes a mortos-vivos, dotadas de movimentos frios, mecânicos e viscosos. Quando não têm forma humana, movem-se com um impulso absolutamente regular e inalterável. Quando têm forma humana, obedecem a uma rígida disciplina militar e não exibem qualquer característica pessoal. A sua presença ameaça a própria humanidade do homem, porque, se eles nos vencessem, seríamos destituídos da nossa humanidade, triunfando o regime da ausência de emoções, da impessoalidade e da arregimentação. Nas cenas de destruição, as criaturas não matam simplesmente os indivíduos humanos; elas aniquilam as pessoas e, mesmo quando preservam os corpos, transformam completamente as pessoas livres em autómatos escravos ou agentes de potências alienígenas e estranhas. Antes de ser colonizada, invadida ou "tomada" pelas forças alienígenas, a pessoa luta para preservar a sua humanidade, mas, quando o facto é consumado, morre como pessoa sem o saber e mostra-se satisfeita com a sua nova condição. A fantasia da "tomada" ou da possessão quase demoníaca retoma alguns elementos da fantasia do vampiro dos filmes de terror, mas a transformação operada pelo contacto é diferente: em vez de se transformar numa criatura "animalesca" sedenta de sangue, onde se manifesta o desejo sexual, o indivíduo "tomado" ou possuído entra num novo estágio de desenvolvimento, tornando-se mais eficiente, isto é, um ser expurgado de emoções, sem volição, tranquilo e obediente a todas as ordens. A angústia em relação à desumanização e à despersonalização reflecte o medo real que o homem tem de ser transformado pela sociedade estabelecida e pela sua tecnologia numa máquina entre outras máquinas, isto é, numa mera peça de uma imensa engrenagem maquínica - a sociedade tecnoburocrática, cujo controle lhe escapa. O cinema de ficção científica retoma este elemento kafkiano: a metamorfose do humano em insecto como a alegoria derradeira da angústia do ser humano entregue a um mundo sem piedade e a uma civilização técnica que lhe escapa ao controle. O homem que obedece à autoridade impessoal, a da Máquina, sem resistir, acaba por tornar-se um insecto - ou um "cão pavloviano", e, sendo sempre tratado como tal, acaba por pensar, sentir e agir como se fosse efectivamente um insecto, refém da sua "rainha", numa sociedade de insectos. J Francisco Saraiva de Sousa
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terça-feira, 2 de junho de 2009
Prós e Contras: O que divide os advogados?
"O que divide os advogados?": "Prós e Contras" (RTP1) debateu hoje (1 de Junho de 2009) esta questão e, depois de ter escutado os intervenientes, só há uma conclusão a tirar: com excepção do Bastonário da Ordem dos Advogados - Marinho Pinto - e dos seus apoiantes corajosos, os outros fizeram uma figura muito triste e deveras vergonhosa, além de mostrarem falta de educação, de vergonha, de saúde mental e de competências genuínas. Tal como outras classes profissionais, a Ordem dos Advogados é uma VERGONHA NACIONAL, não devido ao "estilo" do actual Bastonário, mas sim devido aos interesses corruptos instalados, provavelmente do Sul ao Norte de Portugal. O discurso público do Bastonário - António Marinho Pinto - foi completamente confirmado: a "elite aristocrática de Lisboa" conspira contra si desde que foi eleito democraticamente pelos seus pares para dirigir a Ordem dos Advogados. Como verificamos diariamente nos meios de comunicação social desde 30 de Novembro de 2007, essa "elite gorda" instalada em Lisboa alimenta uma campanha mediática de difamação para impedir que o Bastonário execute o seu "programa": aquele que lhe valeu a confiança e a aprovação democrática dos seus pares. O Bastonário foi eleito por todos os advogados portugueses, conforme lembrou Fernando Campos (Conselho Distrital da Madeira), tendo legitimidade para os representar, mas, apesar dessa legitimidade democrática, um "grupo de instalados", talvez as "maçãs podres" (sic) da Ordem, não aceita jogar as regras do jogo democrático, exigindo neste momento de degradação acelerada da vida pública nacional a demissão de Marinho Pinto. Sob o impulso de Carlos Pinto de Abreu (Conselho Distrital de Lisboa), que não desmentiu o facto de apoiar e incentivar a demissão do Bastonário, e de outras figuras mediáticas, pretendem fazer uma espécie de "golpe de Estado" na Ordem dos Advogados, isto é, "demitir pela força" Marinho Pinto, porque não aceitam as "reformas profundas da Ordem" propostas pelo seu Bastonário e sufragadas nas eleições de 2007. Segundo Fernando Campos e Eduardo Vieira (Conselho Distrital dos Açores), dois dos apoiantes de Marinho Pinto, esta "onda de contestação não faz sentido", porque os "tiros do Bastonário não são de pólvora seca": acertam nos alvos pretendidos e os "incomodados" acabam por mostrar a cara de uma maneira ou de outra, directa ou indirectamente, o que revela que a luta heróica pela transparência de Marinho Pinto "mexe com os interesses instalados", nomeadamente com os interesses de formação e de gestão dos dinheiros públicos da Ordem. Marinho Pinto é "objecto de guerrilha desde o primeiro dia": os incomodados não o respeitam, como se viu no decorrer do debate. Os instalados opõem-se à mudança qualitativa da Ordem e isso ficou cabalmente demonstrado neste debate: os oposicionistas rebeldes, Carlos Pinto de Abreu e António Cabrita (Conselho Distrital de Faro), deram visibilidade a essa guerrilha instalada na Ordem dos Advogados. O próprio ex-bastonário, Rogério Alves, reconheceu que os seus "queridos amigos" estavam a produzir "um discurso paupérrimo", à medida dos seus cérebros, centrado em torno de "questões menores", isto é, de questões de luta ilícita pelo poder, que convém manter escondidas nos bastidores, longe dos olhares perplexos e desconfiados dos portugueses que não acreditam no "sistema de justiça". De facto, a verborreia destes seus "colegas de bancada" trouxe ao debate uma incrível "pobreza de ideias", aliás colapsadas pela visibilidade omnipresente dos seus interesses particulares mesquinhos. O Direito, mais o seu suplemento de ideologia moral, sempre foi a ideologia das classes dominantes: uma forma ideológica de subjugação das consciências, que zela para que todos os indivíduos aceitem (voluntariamente e livremente) o lugar que as elites do poder lhes atribuem, ameaçando com punições os que não cumpram as "leis" que garantem a reprodução pacífica da sociedade estabelecida. A justiça não constitui o fim do ofício do Direito, embora seja vulgarmente pensada nesses termos, pelo menos desde o Direito Romano ou, mais remotamente, a Filosofia do Direito de Aristóteles. Como sonho de igualdade absoluta e sonho de liberdade, aliás dois sonhos incompatíveis, a justiça é uma criação do idealismo alemão. A justiça ansiada pelos cidadãos não se conquista nos tribunais, mas na luta social e política constante e contínua pela realização de um mundo melhor. Numa sociedade democrática, a "justiça" devia defender todos os cidadãos das arbitrariedades dos diversos poderes existentes, mas, neste país profundamente corrupto, ela é feita pela classe dirigente de molde a garantir os seus próprios privilégios, quase sempre conquistados por meios ilícitos e imorais. Em Portugal, a criminalidade-de-colarinho-branco compensa, como estamos a ver com os casos de corrupção política e bancária (Eduardo Vieira) que invadiram todas as esferas dos poderes portugueses: as leis são feitas de modo a garantir a impunidade de indivíduos que fingem ser simpáticos e estar preocupados com os outros e o destino nacional. Eduardo Vieira já não acredita na integridade moral dos lideres nacionais e, por isso, não aconselha os seus filhos a segui-los como modelos exemplares. Os membros das classes dirigentes constituem maus exemplos de conduta: são os coveiros corruptos do futuro de Portugal. De facto, alguns exemplares que se exibem quase diariamente nos ecrãs da TV comportam-se como os alunos mais indisciplinados e malandros que povoam as escolas portuguesas: constituem amostras da actual miséria humana. A Ordem dos Advogados vive neste momento uma "guerrilha interna" ou talvez uma "guerra civil" (Rogério Alves). Inicialmente, Rogério Alves tentou moderar o debate, ameaçando colocar Fátima Campos Ferreira no desemprego, e arrefecer os ânimos exaltados dos seus "queridos amigos", pelos quais diz "pôr as mãos no lume", puxando-lhes as orelhas pela sua "retórica" inconveniente da conquista ilegal do poder. Embora tenha defendido que os mandatos devem ser cumpridos até ao fim, demarcou-se de Marinho Pinto, dizendo que discordava "com o que diz e como o diz": não aprova o seu "estilo". Pelo contrário, o seu estilo - o de Rogério Alves - é "simpático". E o dos seus "queridos amigos" pelos quais põe as mãos no fogo? A verdade é que Carlos Pinto de Abreu e António Cabrita comportaram-se como se estivessem num jardim zoológico, cuja sobrevivência dependesse da execução de um número de circo, capaz de conquistar as "gargalhadas" ridículas de um público não menos comprometido na conspiração contra a legitimidade democrática de Marinho Pinto. A este respeito, o comportamento de António Cabrita foi "contra-exemplar": Sempre que o Bastonário desmentia as suas "moscas", - e ele "comeu muitas moscas" -, mandava-o calar. "Cale-se, cale-se, cale-se": eis as únicas palavras que António Cabrita conseguiu soletrar sem dificuldade, tal era a sua "riqueza lexical" e o seu sentido de respeito pelo "seu" Bastonário. A sua "linguagem dos factos" - talvez inspirada num positivismo jurídico pouco crítico - esquece que os "factos", sobretudo os factos jurídicos, podem ser inventados, fabricados e difundidos pela imprensa "travestida" de Lisboa, mesmo quando são meras mentiras ou ciladas. Carlos Pinto de Abreu já tinha mostrado o que entende por democracia, exibindo muita raiva quando era interpelado por Marinho Pinto. Não quis aceitar as regras do jogo dos debates "Prós e Contras" e, se não fosse a intervenção moderadora e disciplinar de Fátima Campos Ferreira, teria feito uma figura mais triste do que a que fez, até mesmo através das suas expressões faciais que revelaram as intenções escuras da sua alma sombria e restringida. No entanto, acusou o Bastonário de "não respeitar a Ordem" e de ser "contra tudo e todos", mas a verdade é que os incomodados não respeitam Marinho Pinto e os advogados que o elegeram. Em face destes comportamentos malcriados, agressivos e indisciplinados, pôr as mãos no fogo pelos seus agentes é queimá-las: Rogério Alves só pode ter as mãos completamente queimadas. Se por discurso simpático entende a conversa interminável que deixa tudo na mesma, sem afrontar os interesses instalados, então permite-nos desconfiar da veracidade da obra que diz ter realizado à frente da Ordem, porque a vida nos ensina ser impossível servir ao mesmo tempo dois deuses, o deus da transparência, do serviço ao cidadão e da justiça, e o deus dos milhões instalados que circulam do Estado para certos "escritórios de advogados", tal como o de Magalhães e Silva que não conseguiu clarificar a "dúvida legítima" de Marinho Pinto. Porém, o verniz da suposta simpatia de Rogério Alves caiu quando começou a exaltar o que tinha feito à frente da Ordem: a campanha eleitoral já começou neste debate televisivo e Rogério Alves pretende provavelmente recandidatar-se novamente. Este comportamento exibido de "eterno candidato a todos os cargos" revela outra faceta dos membros das elites nacionais: açambarcar e concentrar nas suas mãos todos os cargos de decisão nacional, de modo a conservar as suas redes de conhecimento pessoal, pelas quais circulam as "trocas de favores" e o dinheiro. Enfim, o debate só foi interessante pelo facto de ter possibilitado aos portugueses tomar conhecimento da corrupção e da degradação moral que parecem estar solidamente instaladas nos poderes que nos governam. A sociedade que se instalou após o 25 de Abril está a trair os seus ideais e o próprio espírito da democracia: o nível de vida crescente e a possibilidade de consumo aumentada foram utilizados pelas elites instaladas para estreitar a personalidade e a individualidade dos portugueses, de modo a operar uma adaptação psíquica quase perfeita à sociedade existente que garante a continuidade vergonhosa dos seus privilégios ilícitos e imorais. O resultado deste golpe de Estado silencioso foi a triste e inquietante transformação das pessoas em simples executantes, os chamados técnicos especializados, muitos dos quais bem remunerados, com um nível de vida elevado, reformas chorudas vitalícias e férias mais ou menos longas e pagas, mas com a consciência restringida. A actual crise financeira e económica põe em causa este estilo de vida, ao mesmo tempo que revela o verdadeiro rosto das elites do poder: elites criadas na e pela corrupção que, neste momento de crise, fazem tudo para garantir os seus privilégios e bloquear as mudanças sociais qualitativas. Apesar da cabala que lhe foi montada pelos incomodados pertencentes a esta elite do poder, absolutamente contrária ao discurso da verdade e da transparência, Marinho Pinto afirmou estar habituado à verdade desde a infância e, como "a verdade é granito como o do Marão", não pretende demitir-se; pelo contrário, prometeu continuar a lutar pelas suas ideias e princípios. Penso que todos os portugueses devem apoiar a sua luta pela transparência da justiça e contra a corrupção. Os advogados que elegeram os incomodados das distritais deviam ficar muito envergonhados com a sua participação no debate e assinar petições para exigir a sua demissão imediata. Não é com homens deste calibre cognitivo, moral e psicológico que não respeitam nada, nem ninguém, que podemos mudar qualitativamente Portugal e garantir um novo futuro mais justo, livre e fraterno. J Francisco Saraiva de Sousa
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quinta-feira, 28 de maio de 2009
Fernando Pessoa e a Psiquiatria
«Eu queria ser um bicho representativo de todos os vossos gestos
Um bicho que cravasse dentes nas amuradas, nas quilhas
Que comesse mastros, bebesse sangue e alcatrão nos conveses,
Trincasse velas, remos, cordame e poleame
Serpente do mar feminina e monstruosa cevando-se nos crimes! (...) Ser o meu corpo passivo a mulher-todas-as-mulheres
Que foram violadas, mortas, feridas, rasgadas pelos piratas!
Ser no meu ser subjugado a fêmea que tem de ser deles
E sentir tudo isso - todas estas coisas duma só vez - pela espinha!
Ó meus peludos e rudes heróis da aventura e do crime!
Minhas marítimas feras, maridos da minha imaginação!
Amantes casuais da obliquidade das minhas sensações!
Queria ser aquela que vos esperasse nos portos,
A vós, odiados amados do seu sangue de pirata nos sonhos!»
(Álvaro de Campos, Ode Marítima)
«A mulher que sou quando me conheço». (Bernardo Soares, Livro do Desassossego)
É muito difícil encontrar actualmente uma definição consensual da psiquiatria, porque são diversas as áreas disciplinares que contribuem para a constituição da psiquiatria como ramo da medicina, fazendo com que se desdobre em diversas problemáticas, e para o diagnóstico e a terapêutica das perturbações mentais. Uma definição vulgar define a psiquiatria como um ramo da medicina que estuda a patologia da "vida de relação" ao nível da integração que assegura a autonomia e a adaptação do homem nas condições da sua existência, mas a tendência é cada vez mais a de a encarar como uma ciência do comportamento e das perturbações de comportamento. A imagem popular da psiquiatria ainda associa-a às "doenças mentais", de resto uma designação que caiu em desuso, e é essa noção que descobrimos em Fernando Pessoa. Num dos seus escritos de crítica literária, Fernando Pessoa afirmou que "o único crítico de arte ou de letras deve ser o psiquiatra". A noção do psiquiatra como o único crítico literário é deveras estranha. Como fingidor nato, Fernando Pessoa simula conhecer a obra de Freud e dos Freudianos e chega mesmo a dizer que não precisava ler Freud para "conhecer, pelo simples estilo literário, o pederasta e o onanista, e, adentro do onanismo, o onanista praticante e o onanista psíquico". E, mais adiante, procura explicar a introversão (autista) de Mário de Sá-Carneiro - a sua falta de calor humano e de ternura humana - pelo facto de ter perdido a mãe quando tinha dois anos. Como nunca conheceu o carinho materno, devido à morte prematura da mãe, Sá-Carneiro vira sobre si-mesmo a ternura própria e, como verificou Joel Serrão, torna-se um onanista compulsivo. Numa carta a Adolfo Casais Monteiro, Fernando Pessoa utiliza a psiquiatria para explicar a génese dos heterónimos: "A origem dos meus heterónimos é o fundo traço de histeria que existe em mim". Porém, entre ser simplesmente histérico ou ser um histero-neurasténico, Pessoa opta pela segunda hipótese, "porque há em mim fenómenos de abulia que a histeria, propriamente dita, não enquadra no registo dos seus sintomas. Seja como for, a origem mental dos meus heterónimos está na minha tendência orgânica e constante para a despersonalização e para a simulação. Estes fenómenos - felizmente para mim e para os outros - mentalizaram-se em mim; quero dizer, não se manifestam na minha vida prática, exterior e de contacto com outros; fazem explosão para dentro e vivo-os eu a sós comigo. Se eu fosse mulher - na mulher os fenómenos histéricos rompem em ataques e coisas parecidas - cada poema de Álvaro de Campos (o mais histericamente histérico em mim) seria um alarme para a vizinhança. Mas sou homem - e nos homens a histeria assume principalmente aspectos mentais; assim tudo acaba em silêncio e poesia..."
Fernando Pessoa auto-rotula-se em termos médicos como um "histero-neurasténico" desde a infância, mas, nesta auto-interpretação, não é a sua personalidade, a sua sexualidade real ou a sua enfermidade de alma que interessam: o que deveras interessa é compreender a unidade da sua obra poética, onde o seu eu se despersonaliza. A noção de despersonalização de que fala Pessoa parece aproximá-lo da teoria impessoal da poesia de T.S. Eliot: a concepção de poesia como um "todo vivo de toda a poesia já escrita". Nesta perspectiva, o poeta procura conhecer o passado, a Tradição ou o Espírito Ocidental, do qual o presente é a compreensão, e aperfeiçoar constantemente esse conhecimento, rendendo-se e auto-sacrificando-se a si próprio, numa extinção contínua da sua personalidade. Porém, em Fernando Pessoa, a despersonalização não significa o sacrifício das personalidades e das opiniões dos poetas, dos homens e das mulheres a uma ordem impessoal, a Tradição, mas sim a fragmentação do próprio eu e a sua dispersão - orquestrada pelo "dramaturgo" - em múltiplas identidades poéticas, os seus heterónimos, fragmentação essa que Pessoa, na carta a Armando Cortes-Rodrigues, pensa, talvez de modo precipitado, em termos de "crise psíquica", portanto, em termos psiquiátricos, possibilitando uma leitura psicopatológica da sua obra e da sua "alma enferma" (William James). Mas, como onde há dramaturgo, há uma linha condutora consciente unificadora e controladora da dispersão interior, a despersonalização não significa, em Fernando Pessoa, dissociação e/ou desrealização: Fernando Pessoa não sente que perdeu o controle sobre os seus pensamentos, imaginação ou lembranças, como se o seu corpo - movimentos corporais e comportamentos - e a sua mente - pensamentos e identidades - lhe fossem completamente estranhos, observados por si à distância como algo morto (despersonalização), ou carentes de integração e, portanto, fora do controle consciente e selectivo (dissociação). A auto-interpretação de Pessoa em termos psiquiátricos mais não é do que um recurso retórico para dar conta da sua "tendência para criar em meu torno um mundo fictício, de me cercar de amigos e conhecidos que nunca existiram": Fernando Pessoa é desde a infância um "dramaturgo".
Usando a obra de Freud e de Nietzsche, Harold Bloom reescreveu a história literária em termos de complexo de Édipo: os poetas vivem angustiados à sombra de um "poeta forte" anterior que, como "pai primordial", o "Pai Poético", os oprime. Todos os poemas podem ser lidos como tentativas de escapar dessa "angústia de influência" mediante a remodelação e a revisão sistemáticas de um poema anterior: "A Influência Poética - quando diz respeito a dois poetas fortes, autênticos -, processa-se sempre através de uma leitura má do poeta anterior, um acto de correcção criativa que é realmente e necessariamente uma interpretação errónea. A história da influência poética frutífera, que o mesmo é dizer a tradição principal da poesia ocidental a partir do Renascimento, é uma história de angústia e de caricatura defensivas, de distorções, de revisionismos perversos e deliberados sem os quais a poesia moderna enquanto tal não poderia existir". Presos nas teias da rivalidade edipiana, filhos e pais travam constantemente batalhas entre si e, quando essas lutas são entre iguais fortes, o poeta forte procura a todo o custo desarmar a força castradora do seu "perseguidor" - o pai -, penetrando-o a partir de dentro e reescrevendo o poema precursor de modo a revê-lo, deslocá-lo, encobri-lo e modificá-lo. É por isso que todos os poemas podem ser lidos como uma reescritura de outros poemas, mais precisamente como a sua "interpretação errónea". Só assim - lendo-se mal uns aos outros - os poetas fortes conseguem abrir espaço à sua própria originalidade imaginativa, isto é, desobstruir um "espaço de imaginação para si próprios". O poeta forte mais não é do que um "atrasado" que, reconhecendo corajosamente esse "atraso", procura enfraquecer a força do precursor. O poema é essa tentativa de enfraquecimento e de encobrimento que visa, através de diversos recursos retóricos, tais como as seis proporções de revisão - clinamen, tessera, kenosis, demonização, askesis e apófrades -, desfazer e superar outro poema-pai, donde resulta que o significado de um poema é outro poema gerado intra- e inter-poeticamente: "O poeta forte não consegue gerar-se a si próprio - deve esperar pelo seu Filho, que o definirá como ele definiu o seu Pai Poético. Gerar quer aqui dizer usurpar, e esse é o trabalho dialéctico do Querubim", isto é, da "angústia criativa".
A utilização da psicanálise para elaborar uma teoria da poesia não é isenta de dificuldades ou mesmo de abusos hermenêuticos. Theodor W. Adorno denunciou todas as interpretações psicanalíticas da arte que erigem abusivamente em critério um psiquismo normal, mesmo quando a qualidade estética é, como nos casos de Baudelaire e de Fernando Pessoa, condicionada pela ausência da mens sana: "As obras de arte são, para a psicanálise, sonhos diurnos; ela confunde-os com documentos, transfere-os para os que sonham enquanto que, por outro lado, os reduz, em compensação da esfera extramental salvaguardada, a elementos materiais brutos, de um modo aliás curiosamente regressivo em relação à teoria freudiana do «trabalho do sonho». (...) As obras de arte são incomparavelmente muito menos reflexo e propriedade do artista do que pensa um médico, que apenas conhece o artista no seu divã. Só os diletantes referem tudo o que se encontra na arte ao inconsciente. A pureza da sua sensibilidade repete clichés decadentes. No processo de produção artístico, as moções inconscientes são impulso e material entre muitos outros. Inserem-se na obra de arte através da mediação da lei formal; o sujeito literal, que compõe a obra, não passaria de um cavalo pintado. As obras de arte não constituem thematic apperception tests do seu autor. Em tal amusia é responsável também o culto que a psicanálise rende ao princípio de realidade: o que não lhe obedece é sempre «fuga» apenas, a adaptação à realidade surge como o summum bonum". Na carta a João Gaspar Simões, Fernando Pessoa denuncia precisamente a "franca paranóia (freudiana) de tipo interpretativo", cujo "critério psicológico original e atraente" de avaliação das obras de arte assenta numa "interpretação sexual". O freudismo conduz à produção de livros de ciência "obscenos" que interpretam os "artistas e escritores passados e presentes num sentido degradante", "ministrando masturbações psíquicas à vasta rede de onanismos de que parece formar-se a mentalidade civilizada contemporânea". Ora, para Fernando Pessoa, "o Freudismo é um sistema imperfeito, estreito e utilíssimo". É imperfeito, porque nenhum sistema teórico nos pode dar a chave única da "complexidade indefinida da alma humana". É estreito, porque reduz tudo à sexualidade, esquecendo que "nada se reduz a uma coisa só, nem sequer na vida intra-atómica". E é utilíssimo, porque destacou três elementos importantes da vida da alma e fundamentais para a sua interpretação: o inconsciente e a qualidade irracional dos humanos (1), a importância da sexualidade como força motivacional (2) e aquilo a que Pessoa chama a "translação", isto é, "a conversão de certos elementos psíquicos (não só sexuais) em outros, por estorvo ou desvio dos originais, e a possibilidade de se determinar a existência de certas qualidades ou defeitos por meio de efeitos aparentemente interrelacionados com elas ou eles" (3). Fernando Pessoa não nega o uso dos conceitos psicanalíticos como "estímulo da argúcia crítica", desde que esta saiba "afiar a faca psicológica (imagem fálica) e limpar ou substituir as lentes do microscópio crítico (imagem iónica)". Contra os abusos interpretativos de alguns críticos, Pessoa esclarece que a função do crítico é estudar o artista exclusivamente como artista (1), clarificar a explicação central do artista (2), e cercar os seus estudos de uma "leve aura poética de desentendimento" (3). E apresenta o seu exemplo para clarificar o segundo ponto metodológico: "O ponto central da minha personalidade como artista é que sou um poeta dramático; tenho continuamente, em tudo quanto escrevo, a exaltação íntima do poeta e a despersonalização do dramaturgo. Voo outro - eis tudo. Do ponto de vista humano - em que ao crítico não compete tocar, pois de nada lhe serve que toque - sou um histero-neurasténico com a predominância do elemento histérico na emoção e do elemento neurasténico na inteligência e na vontade (minuciosidade de uma, tibieza de outra). Desde que o crítico fixe, porém, que sou essencialmente poeta dramático, tem a chave da minha personalidade, no que pode interessá-lo a ele, ou a qualquer pessoa que não seja um psiquiatra, que por hipótese, o crítico não tem que ser. Munido desta chave, ele pode abrir lentamente todas as fechaduras da minha expressão. Sabe que, como poeta, sinto; que, como poeta dramático, sinto despegando-me de mim; que, como dramático (sem poeta), transmudo automaticamente o que sinto para uma expressão alheia ao que senti, construindo na emoção uma pessoa inexistente que a sentisse verdadeiramente, e por isso sentisse, em derivação, outras emoções que eu, puramente eu, me esqueci de sentir". A chave hermenêutica apresentada por Pessoa para abrir todas as fechaduras da sua expressão poética reconduz-nos ao célebre poema "Autopsicografia": "O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente. "E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm. "E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração".
Teixeira de Pascoaes, o pai eterno visado no trabalho intra-poético de Fernando Pessoa, deixou-nos estas palavras de cautela hermenêutica: "Ser sincero é ser, é possuir uma presença integral, como as árvores e os penedos. A mentira representa pontos obscuros, falhas da nossa pessoa que pretendemos ocultar. Mas a sinceridade é a própria luz das almas. Por isso, ela seduz e deslumbra os olhos que amam a claridade". Quando analisa a poesia alheia, em especial a dos pais poéticos que urge assassinar, Fernando Pessoa recorre, dito em linguagem hegeliana, à mediação psicológica e à mediação sociológica para compreender as obras de arte e, no caso referido, para interpretar mal os poemas precursores. O recurso abundante à mediação psicológica visa denegrir os chamados "poetas místicos" - Teixeira de Pascoaes, Guerra Junqueiro e Jaime Cortesão, entre outros - e, como recurso extra-poético, viola o ponto dois da metodologia da crítica literária proposta pelo próprio Fernando Pessoa: explicitar a "explicação central do artista". Os heterónimos ou as máscaras de Pessoa - Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis, além do seu semi-heterónimo Bernardo Soares -, cada um dos quais apetrechado com um profundo conceito de vida e marcado pelas suas próprias influências e preferências poéticas, nacionais e estrangeiras, embora todos eles "discípulos de Caeiro", incluindo o próprio Fernando Pessoa, constituem personagens que Pessoa utiliza para interpretar mal esses poetas nacionais, de modo a desbravar um espaço onde pudesse afirmar sem mácula a sua originalidade imaginativa. A dramatização e a criação dessas máscaras acontecem dentro da própria poesia de Pessoa ou, como prefere dizer, dentro de si próprio, o que mostra a intensidade da angústia da influência sofrida continuamente por Pessoa, que precisa usurpar os outros e vivê-los como suas criações internas e privadas dentro de si próprio. A elaboração das biografias de cada um dos heterónimos mostra que, durante a sua viagem, Pessoa acaba por assassinar cada um deles, com o objectivo de descobrir a sua unidade original. Numa atitude de desprezo pelos seus contemporâneos e antecessores, Pessoa afirma que a sua crise psíquica é a crise "de se encontrar só" por se ter adiantado de mais dos "companheiros de viagem". Ora, afirmar que se encontra adiantado em relação aos poetas-pais equivale a reconhecer o sucesso da sua tarefa de os superar ou de os melhorar. Porém, essa superação bem-sucedida não é evidente, até porque Pessoa se limita a substituir o saudosismo de Pascoaes por um futurismo absolutamente místico: a mitologia do Quinto Império, fortemente devedora dos ensinamentos herméticos de Sampaio Bruno, mas privado da sua leitura antropológica do Encoberto. Bernardo Soares acaba por reconhecer esse fracasso poético: "A minha alma é fraca de mais para ter sequer a força do seu próprio entusiasmo. Sou feito de ruínas do inacabado e é uma paisagem de desistência a que definiria o meu ser. /Divago, se me concentro; tudo em mim é decorativo e incerto, como um espectáculo na bruma. /Escrevo com uma grande intensidade de expressão; o que sinto nem sei o que é. Sou metade sonâmbulo e a outra parte nada. /A mulher que sou quando me conheço". Conhecer a mulher que é ou, como diz Prado Coelho, a sua pederastia passiva, é reconhecer que a sua ambição, mesmo a de vir a ser galardoado com o Prémio Nobel da Literatura, não foi suficiente para fazer dele um poeta forte, tal como Shakespeare, Goethe ou Whitman: o seu super-Camões que parodia o super-homem de Nietzsche foi apenas um sonho diurno que não conseguiu concretizar e completar.
Pela segunda vez, dedico mais este post ao Futebol Clube do Porto, o Tetra-Campeão, que conquistou ontem (31 de Maio de 2009) a Taça de Portugal. A Tribo do Dragão Azul e Branco seduz e conquista Portugal e o Mundo. Viva o FCPorto! Viva o Dragão Azul e Branco! Viva a Tribo do Dragão Azul e Branco! J Francisco Saraiva de Sousa
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terça-feira, 26 de maio de 2009
Prós e Contras: O País em Debate
"Prós e Contras" (25 de Maio de 2009) voltou novamente ao debate Pensar Portugal, com novos convidados: João Lobo Antunes, Henrique Granadeiro, Laborinho Lúcio e Vítor Feytor Pinto. O impacto da crise financeira e económica sobre a fragilidade estrutural da economia nacional e a sociedade portuguesa é de tal modo preocupante que se justifica esta série de debates dedicados a "pensar Portugal". As crises decidem se uma coisa - indivíduo, vida ou forma de vida - perdura ou não, e, no momento presente de dupla-crise, os portugueses enfrentam a questão hamletiana: "ser ou não ser". O destino de Portugal como nação está em causa e, apesar da crise que vivemos ter causas objectivas, muitas das quais externas, as pessoas envolvidas devem vivenciá-las: a crise não é algo exterior às pessoas, à nossa forma de vida e ao nosso país, mas algo que nos afecta pessoal e colectivamente. Enquanto os portugueses continuarem a pensar que a crise não os afecta pessoal e colectivamente, não pode haver a "mobilização" defendida por Granadeiro. Os debates da RTP1 moderados por Fátima Campos Ferreira visam precisamente chamar a atenção dos cidadãos portugueses para a questão hamletiana: Portugal está em risco, enfrenta o dilema "ser ou não ser", e, se nada for feito, pode soçobrar na miséria do esquecimento, desaparecendo dos palcos mundiais. Lobo Antunes deu o mote ao diálogo - "Sou optimista, porque amo Portugal" - e todos concordaram, pelo menos na aparência, porque as cisões depressa surgiram. Ao comparar a situação da justiça ("problema grave") e a situação da saúde ("dificuldades"), Lobo Antunes apontou a crise da justiça como o problema mais grave de Portugal, posição reforçada por Granadeiro. Mas Laborinho Lúcio preferiu localizar a arqui-crise na actividade política e no funcionamento dos partidos políticos, e Feytor Pinto defendeu que o problema mais grave do país é a "falta de educação". A palavra crise foi usada pelos participantes no seu sentido iluminista e marxista para compreender o momento presente como uma crise profunda e a crise como uma crítica ou causa suscitada pela necessidade de um novo paradigma contra o estado presente que "joga para fora da sociedade" (Feytor Pinto) os desempregados e os mais pobres. O fosso entre a teoria e a prática tematizado por Granadeiro como a separação entre problemáticas - as dos seus interlocutores - e "solucionária" - a sua perspectiva mais pragmática - é, porém, menos nítido na actividade política: a compreensão e a solução da actual crise nacional exigem um diagnóstico da crise: crise da justiça, para Lobo Antunes, crise do político, para Laborinho Lúcio, crise económica, para Granadeiro, e crise de valores e da educação, para Feytor Pinto. A crise como julgamento (sentido polémico e judicial), referindo-se a uma decisão judicial, e a crise como diagnóstico (sentido médico) sobrepõem-se na actual "situação crítica" nacional que fomenta o "ambiente de crispação e de violência verbal" (Granadeiro), patente nas campanhas partidárias para as eleições europeias e nos acontecimentos da última semana difundidos pelos mass media: Lobo Antunes referiu-se a essa combinação do julgamento e do diagnóstico quando definiu a política como "medicina a uma grande escala". A crise desencadeia críticas que visam tornar os cidadãos conscientes da sua gravidade e as posições explicativas ou os diagnósticos da crise interna apresentadas foram e são diferentes. A prioridade de uma das crises sobre as restantes implica soluções diferentes, além de diagnósticos distintos. Se a crise primordial for a crise da justiça (Lobo Antunes), a solução parece ser a exigência de uma "atitude moral" no exercício de certos cargos públicos que transcendem as pessoas que os ocupam: os magistrados e os agentes judiciais, bem como os políticos, devem servir o interesse nacional e não os seus próprios interesses privados. Se a crise económica for a crise primordial (Granadeiro), as medidas paliativas, em especial as assistenciais, não são suficientes para a resolver: a solução certa é recuperar os empregos perdidos e fomentar a criação de novas empresas e o crescimento económico, através do investimento de capitais de risco, como sucedeu aquando do regresso e da integração dos retornados do Ultramar, e conquistar maiorias absolutas, as únicas capazes de garantir a governabilidade num momento de crise profunda e de elevada crispação social. A crise da justiça portuguesa afasta os investimentos internacionais: o ritmo lento da justiça e os seus conflitos intestinos agravam a situação económica, afundando Portugal na miséria e na pobreza estrutural. Em vez de se darem às lamurias, os portugueses devem passar à acção, sem perderem tempo a problematizar a situação crítica. Laborinho Lúcio reconheceu que a crise da justiça é real, dado funcionar hoje num "paradoxo axiológico": ou acompanha o mercado e as suas exigências (eficácia, competitividade, produtividade, sucesso) ou garante o Estado de Direito. A sua solução passa por questionar hoje "o sentido" da divisão dos poderes e da independência dos tribunais: a autonomia judicial não é perdida se a gestão da justiça for confiada à esfera política. Os políticos contribuíram para a descredibilização da actividade política, porque foram acossados pelas pressões do público, dos mass media e da sociedade civil. Os cidadãos devem mobilizar-se, tal como o fizeram aquando da libertação de Timor do jugo sangrento indonésio: a crise da política resolve-se pelo "retorno do político". Portugal perdeu e deitou fora 3/4 do século passado (século XX) e, por isso, não pode dar-se ao luxo de desperdiçar mais uma vez esta oportunidade para mudar de rumo: o retorno do político é a única solução capaz de imprimir um novo rumo ao destino nacional. No entanto, o retorno do político não passa pela integração de independentes nas listas eleitorais, como se estes fossem mais "inocentes" e competentes do que os próprios políticos profissionais. A exibição de independentes atesta a descredibilização da própria política e dos seus agentes, funcionando como uma espécie de auto-atestado de incompetência. Feytor Pinto apontou a crise da educação e dos valores como a principal causa da actual situação crítica: a educação implica "a formação integral da pessoa humana" e não apenas da sua dimensão cognitiva, e, nesse sentido, passa pela formação moral dos jovens para o exercício pleno e responsável da cidadania. A crispação social revela "falta de educação": os políticos exercem a sua actividade em função do seu sucesso e não como "vocação de serviço", os magistrados violam o segredo de justiça, e os meios de comunicação social aproveitam essa violação para submeter as "vítimas" ao "tribunal popular". A solução da crise passa pela aprendizagem dos valores na escola e pela "construção da paz" assente em quatro pilares: a verdade, a justiça, a liberdade e o amor. No entanto, Feytor Pinto defendeu, com a aprovação de Lobo Antunes, a ideia de uma força supra-partidária, liderada pelo Presidente da República e por individualidades acima da suspeita mediática, como a "asa" capaz de fazer emergir a mudança de rumo e de superar a crise. Mas, como mostrou Granadeiro, esta última proposta é irrealista, porque esquece que o Presidente da República não tem poderes para assumir esse protagonismo político. As crises têm causas objectivas, mas a sua superação deve ser assumida pelos indivíduos e pelas entidades sociais envolvidas. Os portugueses devem ser mobilizados, como defenderam Laborinho Lúcio e Granadeiro, mas as mobilizações referidas do passado recente foram inconsequentes, excepto as mobilizações corporativistas, tais como as dos professores, dos agentes judiciais, de certos profissionais da saúde e dos agentes policiais. Quando disse que Portugal deitou fora 3/4 do século XX, Laborinho Lúcio tentou proteger as últimas três décadas da democracia pós-25 de Abril, mas a restituição da liberdade e da democracia não foram suficientes para superar o atraso estrutural de Portugal. É certo que o 25 de Abril libertou os portugueses da pobreza, calçando-os, vestindo-os e dando-lhes alimento, mas não soube cuidar da sua alma e educá-los para a cidadania responsável: o 25 de Abril arruinou a educação e o ensino. A crise da educação constitui a arqui-crise nacional, como testemunham a violência nas escolas e o caso recente da "professora suspensa" por ter um "mestrado" e uma "profissionalização" no novo domínio disciplinar das "cuecas húmidas" e da "perda da virgindade": o Estado distribui diplomas, mesmo que os falsos-diplomados não exibam competências cognitivas e mentais, e subsídios, tornando a vida dos portugueses demasiado fácil, promovendo a sua ignorância activa e criando dependentes que apenas sabem protestar e reivindicar. Os portugueses não querem mudar nada e, nesta situação crítica, não podemos promover o optimismo tão defendido por Lobo Antunes: o elemento subjectivo, o suposto agente da mudança social, caminha na direcção contrária à dos elementos objectivos que exigem uma mudança de paradigmas. A crise da educação é, na sua essência, crise antropológica: a animalidade dos humanos foi promovida a todos os níveis à custa da sua humanidade. Habituados à vida fácil, sem esforço e sem punição, desde o berço até à morte adiada, os portugueses são patologicamente avessos à mudança qualitativa. Ora, esta alienação total dos portugueses, tanto dos governados como dos governantes, é resultado de más políticas levadas a cabo depois do 25 de Abril: todo o século XX foi desperdiçado e o começo do presente século está a seguir o mesmo caminho, porque a atrofia mental e a regressão cognitiva dos portugueses já são fenómenos transversais a todas as gerações que coexistem no momento presente. O dilema nacional afunda-se no abismo da deficiência antropológica: Como podemos alterar o rumo de Portugal com estes portugueses alienados? A falta de educação exige uma solução radical: a ditadura pedagógica, ou seja, a preparação e a educação das pessoas para a mudança qualitativa. Mas quem pode liderar esta ditadura pedagógica? As gerações mais velhas? Não, porque aquilo que fizeram é responsável pela actual crise! As gerações mais novas? Não, porque simplesmente perderam o contacto com a realidade! Portugal enfrenta eternamente a questão hamletiana: Ser ou não ser! Portugal quer dizer crise. A palavra grega "krisis" não distingue entre crise e crítica e, como mostrou Koselleck, cobre "a diferença e o conflito", bem como a decisão no sentido de resultado definitivo, de decisão judicial ou de julgamento. Na Grécia Antiga, as actividades de julgar (krisis) e de governar (kratein) transformavam um indivíduo em cidadão. Segundo Aristóteles, a lei resulta da crise e da divisão da vida ética e, por isso, quando recebe expressão efectiva num julgamento público, promove o fim da divisão e do conflito. A ligação entre o julgamento legal e a crise resulta da diferenciação de duas esferas da vida: oikos e polis. O estatuto de cidadão conquista-se quando o indivíduo substitui a "justiça doméstica" - a actual justiça popular mediática - pela "justiça legal" (não a dos juízes corporativistas e seus sindicatos!) ou, numa linguagem rousseauniana, o interesse privado pelo interesse geral: o cidadão deve saber usar a palavra na esfera pública e assumir responsabilidade pelo destino comum do país, mas para que isso aconteça - a cidadania responsável - é necessário discutir o estado da educação na sua verdade nua e crua. Enquanto não se encarar de frente e com verdade a crise profunda da educação, Portugal quer dizer crise, conflito, divisão, predomínio da inveja e do egoísmo, enfim incapacidade de julgar e de governar. J Francisco Saraiva de Sousa
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sábado, 23 de maio de 2009
Teixeira de Pascoaes e o Sentido da Vida
«O sonho do homem actual é ser um esqueleto antecipado, com asas de alumínio, sobre um planeta roído até ao caroço. Ao homem mitológico, escravo dos deuses, sucedeu o (homem) metafísico, escravo dum Deus; e a este, o (homem) industrial, escravo duma deusa de metal, aquela mulher eléctrica, numa barraca de feira, estendendo a vara mágica aos labregos espantados». «O homem é mais moisaico que darwínico, mais antropos que antropóide, o que a ciência não admite». «O orango arrependido de ser homem, eis o drama psicológico moderno». «A finalidade da vida é a definição da existência. E digo finalidade, porque todo o esforço da Natureza se dirigiu e dirige num sentido humano ou consciente». «O destino do homem é ser a consciência do Universo em ascensão perpétua para Deus». «O homem é ele e o seu habitat. É céu e terra contidos numa definição espiritual ou consciente». «O homem, sonhando, transborda de si mesmo, amplia o mundo, porque ilumina as suas dimensões desconhecidas. O sonho é alta temperatura, um estado térmico da alma, a sua incandescência». «Que seria do mundo sem o homem? Permaneceria como abismado numa absoluta inexistência». «O absoluto é dos poetas e o relativo é da ciência. O sábio observa, analisa, decompõe; o filósofo generaliza, dá o conjunto; o poeta dá o significado anímico das coisas, a sua própria natureza». «O inimigo da poesia não é o sábio verdadeiro, mas o pseudo-cientista, muito pedante do que imagina saber oficialmente. (...) Ser homem é já ser poeta ou possesso duma grandeza misteriosa». «A essência das coisas, essa verdade oculta na mentira, é de natureza poética e não científica. Aparece ao luar da inspiração e não à claridade fria da razão». «Em todo o poeta verdadeiro existe um filósofo adormecido, como existe um poeta adormecido em todo o verdadeiro filósofo. O poeta filosofa depois de cantar e o filósofo canta depois de filosofar». (Teixeira de Pascoaes) Se Heidegger conhecesse a poesia portuguesa dita na própria língua portuguesa, o poeta que escolheria para meditar a sua poesia seria Teixeira de Pascoaes, e não Fernando Pessoa, até porque o seu pensamento essencial está na proximidade íntima do pensamento da obra poética do poeta português, tal como este o elucidou, em voz alta, consigo mesmo: "Entre a Humanidade e a Divindade existe aquela região em que habitam os Poetas. São eles que forçam as portas do Cárcere onde o demónio aprisiona as almas divinas. Enquanto os homens admiram as paredes e as férreas grades reforçadas, o poeta entra lá dentro, num gesto libertador... É o Orfeu de todas as Eurídices, o redentor de todas as sombras, o viageiro de todos os desertos que se vestem de flores e searas... (...) O poeta é o enviado. Vem ao mundo afirmar as superiores Potestades que misteriosamente presidem ao drama da vida e lhe dão um sobrenatural sentido. Vem sublimar o vulgar, revelar o grande que as pequenas coisas escondem, converter o ruído em harmonia e a harmonia em melodia. Só ele deu uma alma divina ao corpo bruto da Natura, completando a obra de Jeová... Claro que me refiro aos poetas verdadeiros, integrados no seu primitivo significado. Poeta quer dizer profeta. Não devemos confundir os artistas do verso com os criadores de Poesia. Os primeiros interessam apenas à Literatura, ao passo que os segundos têm um interesse vital e universal, como flores e estrelas. (...) A poesia espontânea surge nos períodos genésicos da Alma. A poesia culta predomina nos seus momentos desfalecidos" (Teixeira de Pascoaes). O abismo do inferno separa Fernando Pessoa de Teixeira de Pascoaes: o primeiro conspira contra a Renascença Portuguesa, a tentativa portuense de "criar um novo Portugal", usando as mentiras de todos os seus heterónimos para fazer esquecer e silenciar a verdadeira mensagem dos "poetas místicos", como lhes chama, em especial Guerra Junqueiro, Jaime Cortesão e Teixeira de Pascoaes, invejados por terem descoberto o parentesco oculto que impera entre o poetar e o pensar: a poesia e o pensamento estão ao serviço da linguagem, pela qual intervêm e se sacrificam. Em 1907, Teixeira de Pascoaes, o poeta de Portugal, que cantou a uma só voz, mas em correspondência com as falas dos grandes poetas nacionais, a alma lusitana, publicou no semanário "A Vida" um artigo dedicado ao sentido da vida. O objectivo de Pascoaes é responder à pergunta que todo o mortal faz a si próprio: "Para que existo?" No entanto, a resposta que encontramos neste texto de Pascoaes não é a resposta a esta pergunta "existencial", mas a resposta a outra pergunta: a do sentido da vida, não da vida individual de cada um dos mortais, mas da vida humana como manifestação biológica. O sentido da vida é interpretado como a finalidade da vida no âmbito da evolução cósmica. A ideia de finalidade foi varrida do domínio científico: a imagem científica do mundo rejeita a ideia de finalidade, como se o universo tivesse evoluído por acção do mero acaso, "a mais metafísica das entidades": "Atribuir ao acaso todos os fenómenos que se deram a favor do advento da Humanidade, é negar qualquer explicação desses fenómenos; é negar a nossa mais íntima tendência, o poder intelectual definidor. E é negar o próprio homem, não distinguir a ridícula macaca da bela circassiana, o guincho da palavra, a Caverna do Parténon". É certo que Pascoaes prefere "a concepção poética ao conceito científico", mas neste texto pretende reinserir uma noção científica de finalidade no seio da ciência, de modo a explicar o sentido ascendente da evolução sem negar a humanidade do homem e o seu poder intelectual definidor, isto é, a sua faculdade mitopoética. Pascoaes defende a tese de que "o destino da vida humana resulta fatalmente duma outra vida espiritual superior, que aquela gerou, fazendo que o ser humano inferior, a partir desse momento genésico, tenha como fim aproximar-se dessa vida espiritual mais perfeita". Ao longo da evolução cósmica emergiram, numa ordem de sucessão dinâmica ascencional e, portanto, de complexidade e aperfeiçoamento constantes, quatro reinos ou formas cósmicas - o mineral, o vegetal, o animal e o espiritual, obedecendo a uma única lei, a lei de excedência. A natureza evoluiu no sentido de adquirir "o máximo poder de consciência". Graças ao seu princípio activo, o éter (Haeckel), a estrutura da matéria é intrinsecamente dinâmica: "O éter, princípo activo, nas suas condensações em massa ponderável, depositou nesta grandes reservas de energia latente que, em certos períodos de evolução cósmica, se expande, dando à matéria a faculdade de se exceder e traduzir em formas originais de vida, sempre superiores às antecedentes. Se a evolução universal se fizesse apenas à custa das energias ordinárias, aquelas que estão sempre despertas, (nos períodos intergenésicos) essa evolução não se faria sempre num sentido ascensional. Vê-se que o Universo tem grandes reservas de forças latentes que, de vez em quando (nos períodos genésicos correspondentes ao aparecimento das quatro grandes formas cósmicas) se expande e acorda, fazendo passar a matéria nebulosa a estrela, da estrela a planeta; de pedra e ferro e água, etc., a árvore e flor; de árvore a peixe, a réptil, a ave, a mamífero, a homem; e deste, enfim, ao ser espiritual que, em virtude da sua idêntica estrutura à do éter inicial, fecha o círculo das grandes metamorfoses do Universo". Ou, como sintetiza Pascoaes num outro artigo: "O éter condensou-se em massa ponderável, dando origem à matéria atómica; esta, excedendo-se em virtude da lei de excedência, gerou a fase vegetal, e esta, por sua vez, a fase animal; e esta ainda, graças à mesma lei, deu origem à fase psíquica, alcançando assim a matéria a estrutura e qualidades iniciais, e fechando-se o grande círculo evolutivo do Cosmos". Isto significa que "a matéria principia em dinamismo inconsciente e termina, após os seus aspectos transitórios e dolorosos, em dinamismo consciente ou espírito". O aspecto mais interessante da teoria do sentido da vida de Pascoaes reside no facto de considerar que os "fenómenos espirituais" formam um mundo distinto e autónomo, - a noosfera na terminologia de Chardin ou de Monod ou o mundo 3 na linguagem de Popper -, do reino animal, isto é, "um novo Reino, o último em que se divide o Universo e para o qual os três Reinos anteriores caminham, realizando os seus respectivos fins". A lei de excedência mediante a qual cada ser ou coisa de um reino procura ir além de si mesmo, excedendo-se, é uma lei finalista ou teleonómica: "a vida mais perfeita atraí a menos perfeita", ou seja, "o fim dum ser resulta da sua tendência para outro ser que lhe é distinto e superior". Embora o denomine Reino Psíquico, identificando-o com o mundo 2 de Popper e atribuindo o seu estudo à Psicologia, Pascoaes acaba por corrigir esse erro quando afirma que o fim da vida humana é aproximar-se constantemente desse reino objectivo dos seres espirituais, que o próprio homem criou, "sobrenaturalizando" e "cultivando" a natureza, transformada e apropriada como a Grande Casa do Espírito, a Pátria, a Terra-Natal, resguardada na quadratura do mundo, graças à sua faculdade apurada de se exceder e de se transcender, aperfeiçoando-se moralmente e objectivando na história a sua liberdade e a sua aspiração divina. Se nesta última metamorfose da matéria que é o "reino do espírito" (Hegel) "Deus ocupa o lugar correspondente ao do homem na escala zoológica", então a divindade é a "medida do homem" (Hölderlin): o homem caminha na direcção de Deus e, nesse sentido, a antropologia liberta-se da zoologia e tende a ser atraída pela teologia no âmbito aberto de um antropoteísmo. A confusão psicologista só surge quando não se leva em conta o interaccionismo: apesar de serem autónomos, os reinos interagem entre si, o que inviabiliza uma análise estritamente reducionista da vida, da mente e dos seres espirituais que vivem no nosso cérebro, porque considerar os fenómenos espirituais como parte integrante do reino animal equivale a considerar os fenómenos orgânicos como parte integrante dos fenómenos inorgânicos: uma ideia não é uma mera função cerebral. O neuroreducionismo constitui um erro: as ideias e o cérebro formam dois reinos distintos, pertencentes a duas fases distintas da evolução cósmica, mas ligam-se de tal modo que o cérebro apenas constitui o meio onde as ideias habitam, e "o nosso eu não é mais do que a harmonia consciente que resulta do conjunto de todas as formas e seres espirituais que vivem no nosso cérebro". Pascoaes cunhou a expressão "Biologia Psíquica" para designar a disciplina que estuda as ligações entre o cérebro e as ideias, bem como a reprodução das ideias e a sua difusão através dos contactos com os cérebros e as suas redes neurais. Pascoaes previu assim o surgimento das neurociências, em especial da psicologia biológica (biopsicologia) e da biologia do espírito (neurociência espiritual). O mundo das sensações de Alberto Caeiro não resiste à solidez da explicação das sensações elaborada por Pascoaes, o que mostra a sua superioridade intelectual em relação a Fernando Pessoa: o homem como "argonauta das sensações" abdica do pensamento e, nesta abdicação, despede-se da sua humanidade, retraindo-se no "animal" desalmado incapaz de dar "um passo para alterar /Aquilo a que chamam a injustiça do mundo" (Alberto Caeiro). A teoria do sentido da vida de Pascoaes suscita problemas filosóficos intrigantes que ainda não foram pensados. A resposta de Pascoaes à pergunta "Para que existo?" desvia-se da própria pergunta para a recolocar num novo horizonte, recuperando o sentido da existência: a era da técnica, ou melhor, da tecnociência, que construiu "o seu ponto de vista, entrincheirando-se nele, egoísta e intolerante, pretendendo, como os seus inimigos, governar o mundo" através do confinamento depressivo das criaturas dentro da sua existência animal, do materialismo grosseiro e do mercantilismo. Com o reino intolerante do "clericalismo científico" emergiu a "crise moral" que "queima as almas", tal como a Inquisição tinha "queimado os corpos". Este desvio justifica-se pelo facto do homem contemporâneo, o homem da técnica, o "homem industrial", comportar-se como um "antropóide" que se arrepende de ser homem. Não comportar-se como homem humano, isto é, como criador do reino dos seres espirituais, constitui o drama psicológico da humanidade na era da técnica, essa "deusa de metal" ou "mulher eléctrica". Pascoaes atribui a responsabilidade por este arrependimento de ser homem à própria ciência, neste caso particular ao darwinismo, que não admite que o homem seja mais antropos do que antropóide: a ciência teima em reduzir o homem à sua condição animal, negando-lhe a sua dimensão espiritual e a sua capacidade de se transcender e de se realizar como ser espiritual, isto é, como ser livre e criador de cultura. Isto não implica uma desvalorização dos animais ou mesmo da própria animalidade do homem, porque, como escreve Pascoaes, "os animais são pessoas, como nós somos animais". O destino do homem não é ser um mero antropóide, prisioneiro da "actividade vegetal" - "nascer para comer e comer para morrer" - num planeta convertido em "refeitório e cemitério", mas "ser a consciência do Universo em ascensão perpétua para Deus". A tarefa do homem é compreender a sua existência e superá-la mediante a transição do material para o imaterial: o homem é, para Pascoaes, "um valor absoluto na sua actividade espiritual" e esta actividade cultural é "síntese consciente do Universo", síntese simultaneamente consciente e emotiva, científica e poética. Como valor absoluto, o homem move-se no reino dos seres espirituais que giram na "órbita de Deus" (G. Junqueiro), sonhando a própria essência do mundo, de modo a libertar-se do nada que o aflige na sua condição mortal de suspenso do abismo e a ampliar o mundo através da sua actividade de transcendência, acrescentando-lhe o mundo da cultura. Esta "concepção existencial do homem", a do homem universal, simultaneamente físico e metafísico, sem o qual o mundo permaneceria como abismado numa absoluta inexistência, inconsciente de si mesmo, não se conforma com o "conceito puramente científico da Existência" produzido pela ciência na era da técnica: a noção da existência contida "numa balança ou entre os ponteiros dum compasso", como se pudesse ser objecto de cálculos matemáticos. Ao tratar o homem como um mero antropóide, o darwinismo aliena a existência humana da sua essência e da sua finalidade, impedindo-a de atingir o seu sentido pessoal e colectivo da vida. A concepção existencial do homem, exposta no "Regresso ao Paraíso" (1912), corresponde à verdadeira filosofia, isto é, à filosofia poética, que permite assimilar o mundo a nós, sem no entanto o desnaturar. A recepção portuense de Nietzsche não é alheia a Pascoaes: Zaratustra anunciou à multidão que "o homem é uma corda amarrada entre o animal e o super-homem - uma corda por cima de um abismo. Um perigoso passar para a outra banda, um perigoso estremecer e ficar parado". A grandeza do homem reside no facto de ser uma ponte e não um fim: "aquilo de que se pode gostar no homem é que ele é uma travessia e um afundamento". Pascoaes retém a noção de ponte ou de travessia: o homem é uma ponte entre o antropóide e o Sagrado, uma ponte que se ergue no "abismo sem fundo" e que o homem deve atravessar para encontrar o sentido da sua vida. Ou, nas palavras do poeta Pascoaes: "A alma, em virtude da sua força activa de esperança, visa o Futuro, - o Incriado; e em virtude da sua força passiva de lembrança, apenas encontra o Passado ou a Natureza criada, imenso espectro evidente nas suas formas endurecidas e mortas. O Universo é o cadáver de Deus, a estátua fria e inerte da Esperança. As estrelas gelaram-lhe na face, como antigas lágrimas que já não encerram dor alguma. O sol é um riso de metal caindo sobre um globo de ferro. A alma fulge na escuridão absoluta. Canta no silêncio absoluto. Por baixo dela jaz o fantasma do Passado; por cima a noite silenciosa do Futuro. E ela própria é passado e futuro, invocação e desejo. Ausente de si mesma no que há-de ser e no que foi, ou vê espectros da Morte materializados, ou sombras por encarnar da Vida. O Presente divino, a Realidade em si, a Esperança imaterializável, Deus, excepcionalmente vislumbrados, fogem à sua clara e constante percepção. No mundo sensível só há futuro e passado. O movimento abstracto da esperança (tempo futuro) mal se concretiza, é lembrança, movimento inerte, matéria (tempo passado). A cada acção criadora da esperança (espaço e tempo futuro) corresponde a sua paralisação para trás em formas criadas (tempo e espaço passado)". Dedico este post ao Futebol Clube do Porto, o Tetra-Campeão, e à Tribo do Dragão Azul que seduz e conquista Portugal e o Mundo. Viva o FCPorto! Viva o Dragão Azul! Viva a Tribo do Dragão Azul! J Francisco Saraiva de Sousa
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