Este post retoma alguns comentários que teci na caixa de comentários do post anterior, onde se travou uma polémica amigável sobre Nietzsche, cujos intervenientes foram, além de mim, dois entusiastas adeptos do filósofo: Sr e Papillon. Eis algumas das minhas intervenções: O valor filosófico de Nietzsche reside essencialmente na crítica radical da cultura moderna e o seu contributo foi integrado pelas mais diversas e dispares problemáticas filosóficas. A crítica do poder de Nietzsche deve ser lida com cautela, mas a sua pretensa crítica da economia política não existe em estado teórico elaborado, como defendeu a Papillon: Nietzsche não tem uma teoria económica, sem a qual não se pode elaborar a sua crítica. Politicamente, Nietzsche era conservador, no sentido de perfilhar uma noção aristocrática da cultura e da história, sendo assim levado a condenar tanto o socialismo como o liberalismo: ambos limitam-se a propor modelos de gestão económica da sociedade, desvalorizando a cultura e usando o utilitarismo para governar.Vejamos: Benjamin fala da História dos Vencedores e sabemos o que ele quer dizer com tal expressão. O que Nietzsche diz sobre as classes trabalhadoras? Ele fala da vitória dos escravos e da sua manha: um conjunto de dispositivos usados para amolecer os homens superiores. Os vencidos benjaminianos aparecem aqui como vencedores, mas os escravos nunca foram vencedores, e até mesmo o cristianismo posicionou-se historicamente ao lado dos poderes estabelecidos. Podemos contornar este erro histórico e antecipar uma crítica da cultura de massas, mas o conceito de massas implica o de elites. Em Nietzsche, predomina a visão aristocrática da história e da cultura superior. Os intérpretes de esquerda de Nietzsche procuraram livrar a sua obra da interpretação nazi e fascista, sendo levados para o efeito a encarar o super-homem como hybris que se opõe, com desprezo e atitude de soberania, ao rebanho e à sua moral. O super-homem apresenta-se como um comediante e um livre criador de símbolos e, como tal, subtrai-se violentamente à disciplina do mundo da ratio e à moral cristã. Como libertador, o super-homem transforma o homem num ser activo - não reactivo - capaz de realizar a identidade da existência e do valor e de ser feliz. Na sua obra O Sujeito e a Máscara, Gianni Vattimo realizou essa leitura de Nietzsche, mas nas obras seguintes acaba por abandonar a noção do sobrehumano nietzschiano como um sujeito dialecticamente reconciliado. De facto, o sobrehumano nietzschiano não pode ser visto como um libertador dialéctico da humanidade: a substituição do proletariado revolucionário de Marx pelo super-homem de Nietzsche falhou e hoje debatemo-nos com a praga do homem metabolicamente reduzido que já não precisa da cultura e do pensamento livre para viver. A regressão cognitiva é total. A leitura do pensamento de Nietzsche confronta-se com o problema da inteligibilidade: existem muitas inflexões teóricas, fases ou períodos de desenvolvimento e predomínio dos fragmentos/aforismos. Cada um pode escolher os seus aforismos preferidos, mas não pode facilmente a partir dessa escolha unilateral tentar coagir a entrada do todo nessa perspectiva unilateral. Porque há uma linha condutora geral e esta pode ser conservadora no sentido de não ser sensível aos interesses dos verdadeiramente vencidos na história. Um outro exemplo é a crítica do cristianismo, onde Nietzsche tem cartas fortes. Mas já repararam na recepção dessa crítica? Muito sectária: a morte de Deus já tinha sido anunciada por Hegel e Feuerbach reformula o tema numa perspectiva mais antropológica. A postura de Marx é diferente: a sua posição não é ateísta, porque não faz sentido criticar Deus, sobretudo quando se diz que ele é uma quimera. A crítica deve incidir nos efeitos exercidos pelas práticas religiosas sobre as outras esferas da sociedade, da cultura e do poder. É preciso fazer uma reavaliação destes temas para fazer face aos actuais problemas que nos afligem. Porém, Nietzsche também faz parte da minha constelação teórica. Não sou dogmático!
Estive a folhear o livro Aurora - referido pela Papillon a propósito da crítica do economicismo - e a minha vista cansada descobriu alguns aforismos giros mas contraditórios. Porém, estava a pensar na possibilidade de fazer uma leitura geológica de Nietzsche: já a iniciei mas depois abandonei-a, embora esteja convencido que ela poderia trazer uma nova luz ao seu pensamento. Não vi a crítica da economia, mas sei que algo é dito nesse sentido no Humano Demasiado Humano. A crítica que faz da comunicação social é aristocrática, embora forneça elementos pertinentes. A Papillon defendeu a tese de que Nietzsche não era um ateísta, estando próximo da posição de Marx. É por isso que critico os ateístas da praça global e local: perante a questão da afirmação ou negação de Deus o melhor é ficar calado! Aliás, esse debate é uma manobra ideológica que desvia a atenção dos problemas reais que nos afligem. É como atribuir a crise financeira aos reguladores! Manobras ideológicas! Sr defendeu que "Nietzsche não ficou fixado na teoria do poder. Pelo contrario, (o que) ele salienta é a importância e a necessidade de emergência duma CULTURA forte como a força bloqueadora por excelência desse mesmo poder". Em resposta a esta perspectiva de Sr, procurei esquematizar o contributo de Nietzsche para a filosofia política nestes termos simples: Nietzsche elaborou duas políticas:
1. A política da sobrevivência que, sem legislar novos valores, ironiza os ideais da humanidade, incluindo as grandes ideologias modernas (democracia liberal e socialismo); e
2. A política da crueldade que, associada ao seu radicalismo aristocrático, visa controlar as forças da história e, produzir, através da grande política (filosofia + poder político), uma nova humanidade. Nietzsche legitima esse governo aristocrático com a tal noção de cultura superior: os novos artistas-tiranos encontram legitimidade não na moral, mas na übermoralisch. Moldar a humanidade! A vida como único princípio da crítica! As grandes guerras! Uma nova direcção para a história! A vontade de poder! E, neste momento, o círculo fecha-se: podemos regressar às obras de juventude que exaltam a tragédia! Educação filosófica! Legislação filosófica! O Passado nobre da humanidade! Eis as linhas da "filosofia política" de Nietzsche!
A leitura de Nietzsche feita por Sr destaca a luta do indivíduo e da cultura forte contra o Estado. Os aforismos que refere dão corpo a essa leitura. Porém, Nietzsche passou posteriormente a criticar a democracia liberal que via como uma secularização da moral cristã que nivela a sociedade. Ele termina com a Grande Política: legislação filosófica + poder político. Há, pois, um impulso irracional a mover o pensamento de Nietzsche: está bem explicito na sua obra! Última observação: A leitura que Sr faz implica a rejeição desse elemento aristocrático e violento. Ora, na GM, encontra um fio condutor susceptível de ser salvo via Kant: o homem como ser que faz promessas e as cumpre! Aqui podemos salvaguardar a liberdade do indivíduo contra esses poderes fortes, mantendo a crítica do igualitarismo. Em muitos aspectos, Nietzsche fez observações profundas que só podem ser salvas fora da moldura teórica que traçou. Este debate está a ser um desafio frutífero: começo a compreender o fascínio que Nietzsche exerce sobre a "malta", sobretudo sobre os jovens. O super-homem até pode ser identificado com a figura da banda-desenhada! É melhor chamar-lhe "sobre-humano": ele seria o resultado da Grande Política - a construção de uma nova humanidade. Eu faço uma leitura mais "cínica" de Nietzsche, de modo a evitar ser confrontado com a política da crueldade. Acrescento três observações adicionais: 1. O parágrafo 473 de HDH, onde critica o socialismo, ele opõe duas visões do Estado: o mais Estado possível (noção que atribui ao socialismo) e o menos Estado possível (noção que antecipa o neoliberalismo de hoje). Bem, os dois tipos de Estado são terroristas, para usar o termo que ele imputa ao socialismo. Nietzsche trata Platão como o primeiro socialista: o seu Estado Ideal é uma acumulação de poder estatal. De acordo, ninguém deseja um tal Estado Gordo, mas também não desejamos um Estado Exíguo. E por uma razão simples referida por Nietzsche noutra ocasião: ambos os tipos de Estado produzem corrupção. São versões de um mesmo Estado Burocrático que ameaça a liberdade, o indivíduo, a cultura e a democracia, tal como viram Weber e Marx com a sua noção original de modo de produção asiático. 2. Sem levar em conta a defesa que faz do "federalismo europeu", uma mesma cidadania europeia (até dá um lugar aos judeus no período intermédio!), que implica necessariamente um poder superior forte capaz de derrotar os nacionalismos, Nietzsche não se preocupa com o problema da legitimidade: o seu governo deve transformar a humanidade mediante a grande política - legislação filosófica + poder político. Ora, um tal poder precisa mesmo de muito poder e de muita força para levar a cabo essa tarefa de educar esteticamente a humanidade. Nietzsche critica Platão mas não abdica da sua "ditadura pedagógica". Em termos de filosofia política, Nietzsche não introduz nenhuma novidade radical capaz de superar o niilismo moderno: o poder implica uma assimetria entre governantes e governados. Paradoxalmente, uma tal unificação de nações foi tentada pelo "império soviético" e Mao introduziu a revolução cultural: nos dois casos a liberdade foi severamente restringida ou suspensa. 3. O parágrafo 474 de HDH fala do desencontro conflituoso entre cultura e Estado e noutro sítio Nietzsche diz mesmo que a cultura só floresce lá onde o poder estatal está enfraquecido. A observação é certeira e concordo substancialmente com ela, mas a cultura superior que defende visa moldar esteticamente a humanidade: o seu programa de educação filosófica ou de auto-superação da humanidade. Nietzsche raramente é consequente com as suas ideias brilhantes por causa da sua visão aristocrática da história que é "fisiológica". Ora, é neste fisiologismo que reside o momento irracional do pensamento de Nietzsche que fez dele o ideólogo do totalitarismo nazi e fascista, mesmo que a sua filosofia não seja gritantemente fascista. Lukács demonstrou-o e bem. Anexo: Com a participação do Tiago, fiz este esclarecimento sobre a obra mais poética de Nietzsche. O Livro AFZ apresenta as duas ideias centrais: o Übermensch ou além-do-homem ou sobrehumano e o eterno retorno do mesmo. O objectivo imediato é criar uma política de redenção numa época de niilismo. O niilismo é uma crise de autoridade: Deus está morto e, por isso, nenhuma autoridade política pode reivindicar sanção divina ou sagrada para a sua dominação. A missão dos filósofos futuros é a grande política: governar o mundo como um todo. O super-homem supera a humanidade, isto é, auto-supera o homem fraco, e, como criador e destruidor de valores, ele é redentor ou libertador. A sua vontade de poder é vontade criadora e legisladora: a grande política. Com a ideia de redenção surge a doutrina do eterno retorno que, num primeiro momento, visa libertar a vontade da sua fixação no passado, restituindo ao homem a inocência do devir. Porém, mais adiante, esta doutrina assume outra forma: como natureza do tempo e como experiência da unidade criadora de todas as coisas. O super-homem é a visão que surge do enigma do eterno retorno. Ora, as duas ideias parecem estar em conflito: a ideia de super-homem implica uma concepção linear do tempo, enquanto a ideia de eterno retorno supõe uma noção cíclica do tempo. A primeira noção de tempo está prisioneira do ideal ascético criticado por Nietzsche: o sacrifício do presente nos altares do futuro esperado e desejado. Se a história é o triunfo da moral dos escravos - a moral de rebanho, o pensamento do eterno retorno deve conduzir a uma nova moralidade superior da afirmação. A moral dos nobres deve afirmar-se por oposição à moral dos escravos. O homem enquanto ser moral é forçado a afirmar juízos morais, e, neste caso, ele não diz apenas "sim, sim"; também diz "não, não" - o pathos da distância. Nietzsche é assim obrigado a abandonar a noção inicial do super-homem como ideal de redenção histórico-universal e a adoptar a ideia de rebelião local contra o niilismo. Mas no livro PABM adopta claramente um novo maquiavelismo para responder à crise dos valores e da autoridade típica da modernidade: a grande política abandona os logros da moral platónico-cristã e coloca-se ao serviço da superação estética do homem e da criação do além-do-homem. Ora, foi sobre esta última perspectiva que alinhavei os comentários reeditados neste post. J Francisco Saraiva de Sousa



«A burguesia submeteu o campo à cidade. Ela fez surgir enormes cidades; ela aumentou prodigiosa-mente a população das cidades à custa das do campo, arrancando assim uma grande parte da população ao embrutecimento da vida rural. Da mesma maneira que submeteu o campo à cidade, ela sujeitou os países bárbaros aos países civilizados, as nações de camponeses às nações burguesas, o Oriente ao Ocidente. /A burguesia elimina, cada vez mais, a dispersão dos meios de produção, da propriedade e da população. Ela aglomerou a população, centralizou os meios de produção e concentrou a propriedade num pequeno número de mãos. A consequência fatal destas mudanças foi a centralização política. Províncias independentes ou apenas federadas entre si, tendo interesses, leis, governos, tarifas alfandegárias diferentes, foram agrupadas e fundidas numa única nação, sob um único governo, sob uma única lei, com um só interesse nacional de classe, por detrás de uma única barreira alfandegária». (Marx/Engels)










