segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Manuela Ferreira Leite: o Discurso contra a Renovatio

«E o que há para
conquistar,
Por força e obediência, já antes foi descoberto
Uma vez ou duas, ou várias vezes, por homens que não
podemos ter esperança
De emular - mas não se trata de competição -
Trata-se apenas da luta para recuperar o que se perdeu
E achou e perdeu outra e outra vez: e agora, sob condições
Que parecem desfavoráveis». (T.S. Eliot)
Eric Voegelin descreveu a sua obra filosófica como uma aventura anamnética, isto é, como um exercício de recuperação do que foi descoberto e que corre o perigo constante de ser esquecido. Voegelin define a ciência política como "a interpretação noética do homem, da sociedade e da história", que emerge do background de interpretações não-noéticas e com as quais entra em colisão. A ciência política elabora símbolos que ajudam o homem a adquirir uma compreensão mais diferenciada e autocrítica da realidade política. A ciência política é filosofia política entendida como filosofia da ordem, mediante a qual os homens descobrem a ordem da nossa existência na ordem da consciência. O filósofo político é politicamente tão activo quanto o candidato a um cargo electivo. A viabilidade das instituições políticas depende da auto-interpretação subjacente às sociedades. Quando estas interpretações desabam, como sucede nos períodos de crise, as instituições ameaçam ruir. A compreensão da política deve expandir-se para integrar, além do interesse pela participação dos candidatos e dos eleitores nos actos eleitorais, a preocupação com o envolvimento e a participação do homem no drama da história. Cabe ao filósofo traçar e definir os contornos do esquema amplo das coisas sobre a tela da experiência total do homem. Apesar de criticar a gnose especulativa de Schelling e de Hegel e a gnose volitiva de Marx, Voegelin conserva a noção de que a teoria política é uma teoria da história, permanecendo assim prisioneiro da tradição do pensamento político ocidental que começa com Platão e termina em Marx (Arendt) e que pretende superar com a sua crítica ultraconservadora da modernidade vista como revolução gnóstica.
O Compromisso com a Verdade - o lema da campanha eleitoral de Manuela Ferreira Leite - encobre intencionalmente a sua verdade: a restauração do regime cavaquista. A interpretação voegeliana da modernidade como algo gnóstico pode ser devolvida à Direita ultraconservadora protagonizada, nas circunstâncias presentes, por Manuela Ferreira Leite: o cavaquismo leitista opera a substituição da realidade política por construções espúrias de uma segunda realidade que reverte completamente a sequência da autêntica filosofia política, subordinando o homem, a sociedade e a história à economia. O resultado deste processo de deformação ideológica da realidade conduz inexoravelmente ao eclipse da realidade política, ao fim da história e à abolição do homem (C.S. Lewis). O cavaquismo leitista é, na sua essência, gnosticismo economicista de cunho fatalista: o homem é reduzido a um mero instrumento da economia concebida como uma realidade superior à pessoa humana. O gnosticismo economicista colonizou toda a realidade globalizante, incluindo o homem, a sociedade, a cultura e o mundo da vida, impondo-lhe uma gestão económica que a priva da sua autonomia relativa. Os gnósticos economicistas são indiferentes aos sofrimentos das pessoas que os ajudam a adquirir riquezas, arvorando-se em "fatalistas indiferentes que, do alto da sua posição, lançam um soberbo olhar de desdém sobre os homens locomotivas que fabricam as riquezas" (Marx).
Com Cavaco Silva, o PSD rompeu com o estilo de Francisco Sá Carneiro de fazer política, introduzindo um novo estilo - o estilo antipolítico de fazer política retomado por Manuela Ferreira Leite nesta campanha eleitoral. Os antipolíticos cavaquistas não só descaracterizaram ideologicamente o PSD, secando-o completamente, como também contribuíram para o descrédito da política e da democracia em Portugal, agravado pelo fenómeno da corrupção generalizada que deriva desse estilo antipolítico de governar. A política subjugada pela economia transforma-se em algo estranho à vida humana qualitativa: as pessoas que não dominam a linguagem dos números afastam-se da política e os políticos economicamente orientados ajudam a descredibilizar a política quando se apresentam como não-políticos que sacrificam a sua vida profissional e pessoal ao serviço da coisa pública, assumindo essa pesada tarefa de governar. A política economicamente orientada - aquela que é ensinada nas escolas portuguesas de economia - é uma política de classe, que sacrifica sistematicamente o futuro dos portugueses e o interesse nacional para conservar e garantir os privilégios das elites dirigentes e dos grandes grupos económicos. A economia e o Estado não estão ao serviço do homem; pelo contrário, os portugueses é que estão ao serviço do luso-sistema gerador de pobreza, miséria, assimetrias regionais, desigualdades sociais e corrupção generalizada. Convertida em ciência do roubo, a economia é usada pelas elites instaladas não para promover o desenvolvimento económico nacional, mas para facilitar o enriquecimento dos membros dessa família alargada de clones ideológicos que, sob a liderança de Manuela Ferreira Leite, querem continuar a jogar o destino dos portugueses - as suas reformas, a sua saúde, a sua educação - nas roletas dos casinos.
Tal como o mundo inteiro, Portugal está mergulhado numa crise profunda. A filosofia mergulha na profundeza da psique sempre que ocorrem crises como esta que vivemos. As crises acontecem quando os símbolos tradicionais perdem aceleradamente a sua credibilidade e quando os símbolos articulados mais recentes transmitem um sentido de realidade distorcido ou deformado. O cavaquismo clonado de Manuela Ferreira Leite não seduz o pensamento filosófico, porque, em vez de se abrir à novidade e ao pensamento, liquida o pensamento e bloqueia o acesso à verdade sobre a realidade. Enquanto Sócrates encara a luta política entre o PS e o PSD como um confronto entre duas cosmovisões diferentes, Manuela Ferreira Leite prefere ver na política um confronto entre duas personalidades e entre dois currículos. Além de ser arrogante, o seu discurso da seriedade e da competência é um discurso antipolítico. O silêncio dos políticos orientados economicamente não só encobre as suas deficiências cognitivas e linguísticas, como também intimida os cidadãos, levando-os a acreditar que a política é uma actividade que exige treino económico, financeiro e técnico, inacessível à compreensão do senso comum. O regime do silêncio é contrário ao regime da palavra aberta e recíproca que caracteriza a democracia: só os pretendentes a tiranos são mudos. Os políticos antipolíticos profissionais dizem sempre que não precisam da política para ganhar a vida; no entanto, toda a sua carreira profissional foi e continua a ser política: eles não dizem o que pensam e não pensam o que dizem. Aliás, Manuela Ferreira Leite só diz o que deveras pensa e pensa o que deveras diz quando comete as suas habituais gafes: a ditadura dos seis meses, o discurso contra os imigrantes, o não-reconhecimento legal dos casais do mesmo sexo, a guerra contra a Espanha na questão do TGV, enfim o elogio do regime autoritário e democraticamente sufocante de A. João Jardim.
A negação da crise mundial é, no caso de Manuela Ferreira Leite, motivada pelo desejo de manter o mesmo sistema neoliberal que conduziu à crise financeira e económica. Nos períodos de crise, a filosofia política precisa descer às profundezas da psique humana e voltar à noite da profundidade que a verdade ilumina para o homem disposto à procurá-la. Manuela Ferreira Leite não está disposta a procurar a verdade, porque, ao negar a existência da crise mundial e dos seus efeitos negativos sobre a economia nacional, diz NÃO à renovação e ao desenvolvimento económico, olhando para o passado com saudade. Manuela Ferreira Leite não sabe - ela própria o disse no debate com José Sócrates - o que fazer para responder com imaginação política à crise internacional que não poupou Portugal: a sua reacção imediata é parar, RASGAR e suspender os grandes projectos, incluindo a democracia, alegando que não quer endividar as gerações vindouras. Com esta paralisia da imaginação política, Manuela Ferreira Leite abdica do futuro. A ausência de propostas positivas no programa eleitoral do PSD evidencia os apagões políticos (José Sócrates) da sua líder: o PSD está mais interessado na manutenção do status quo do que na sua mudança social qualitativa. O PSD é um partido ultraconservador da Direita amedrontada com o futuro. A geriatria decadente e pútrida apoderou-se do partido laranja, convertendo-o com a bênção de Pacheco Pereira em aparelho produtor de fantasmas e de mentiras. O PSD é um partido fantasmagórico que gera lençóis brancos para bloquear a acção daqueles que acreditam no futuro de Portugal: a palavra renovação não faz parte do seu vocabulário político. A demência política deste PSD ultraconservador atraí o voto dos fascistas e dos neo-nazis portugueses que afirmam - sem corar de vergonha - que as polícias são controladas pela maçonaria (Vasco Graça Moura) e que o PS tem uma agenda gayzista (Alberto João Jardim).
Renovação da verdade. As crises exigem um novo pensamento capaz de as superar e de incorporar um avanço na auto-interpretação do homem. Ora, o cavaquismo clonado de Manuela Ferreira Leite nega a própria existência da crise, atribuindo todos os males que vivemos em Portugal e no mundo à mente perversa de José Sócrates que, sob a orientação dos espanhóis, conspira contra a independência nacional. Em vez de apresentar propostas positivas para Portugal, o discurso de Manuela Ferreira Leite gera fantasmas e conspirações contra José Sócrates, os ministros, os socialistas, os imigrantes, os homossexuais, os espanhóis, as obras públicas e o investimento público. Manuela Ferreira Leite e os seus clones ideológicos querem conquistar a confiança dos portugueses, não através do mérito do seu programa, mas sim através de mentiras e de difamações. O Compromisso com a verdade do PSD é, como disse José Sócrates no frente-a-frente com Manuela Ferreira Leite, puro oportunismo político: a caça imoral ao voto dos portugueses. O gnosticismo economicista de Manuela Ferreira Leite é inimigo da verdade sobre a realidade: o seu objectivo oculto é a abolição da realidade, de modo a conservar e a perpetuar o domínio de uma classe dirigente degradada e corrupta que reduz a política a um mero instrumento dos seus próprios interesses particulares e dos interesses corporativos de determinados grupos profissionais. Os fantasmas gerados pelas mentes ideológica e magicamente deformadas dos clones cavaquistas eclipsam a realidade, criando uma falsa realidade que induz medo do futuro. Sentindo-se ameaçada pelo ritmo da mudança e do desenvolvimento tecnológico, Manuela Ferreira Leite procura a todo o custo asfixiar o futuro, mergulhando magicamente o país num passado mitificado e, como tal, avesso à verdade. O PSD ultraconservador de Manuela Ferreira Leite está comprometido não com a verdade e a busca cooperativa de uma nova verdade, mas com a mentira de um passado deformado pelos interesses de uma geração maldita (Baudelaire) que nada fez para libertar Portugal do atraso estrutural que lhe foi imposto pelo salazarismo. O leitismo é pensamento gordo, isto é, uma "filosofia do porco" (Guerra Junqueiro) que procura legitimar "a sociedade organizada para o mal", o deus-milhão das bolsas dos bancos laranjas (Guerra Junqueiro), que elimina os refractários internos e difama os refractários externos: "Quem sobre a terra portuguesa defender a justiça, pugnar pelo direito ou batalhar pela verdade, granjeia em prémio a calúnia, o cárcere, o desterro, a miséria e a morte. Mas, uma ordem social, que eleva criminosos - os corruptos - e martiriza justos, é a negação das leis humanas e divinas, e cumpre-nos arrasá-la de alto a baixo, a ferro e a fogo, até aos alicerces!" (Guerra Junqueiro). Lutar contra o PSD reaccionário de Manuela Ferreira Leite é libertar Portugal do regime da escassez (Pacheco Pereira) dominado por "um bando de interesses guardados por polícia".
Renovação do homem. Nesta campanha eleitoral, Manuela Ferreira Leite revela a face oculta da ideologia subjacente à política economicamente orientada: a ideologia inumana da política do poder - Realpolitik - que conduz os homens para um mundo de quimeras bolsistas, substituindo a realidade pela ideia neoliberal enquanto mero produto da mente economicista, sem levar em conta a sua adequação com a coisa, segundo a definição clássica da verdade. As figuras humanas que recusam encaixar-se nessa ideia que Manuela Ferreira Leite quer impor - o seu verbo preferido, como observou com ironia Paulo Portas - a Portugal, contra a vontade geral dos portugueses e o sentido universal da sua história, são estigmatizadas e excluídas. Do alto da sua posição arrogante, donde julga poder reclamar o exclusivo da verdade e da moral, Manuela Ferreira Leite lança um olhar de desdém sobre todos os homens que escapam aos moldes estreitos da sua visão do mundo. Manuela Ferreira Leite não suporta a oposição, interna e externa: ela odeia os imigrantes que procuram ganhar a vida em Portugal, José Sócrates que julga ser um homem destituído de princípios éticos, os homossexuais que desejam sair da clandestinidade, a democracia que acusa de impedir a implementação das reformas, os espanhóis por tentarem roubar a independência nacional, a alta velocidade e as novas tecnologias que sulcam a globalização, o pensamento negativo que transcende os estreitos horizontes da sua visão anémica do mundo, os intelectuais e os artistas que se indignam com as suas ideias passadistas, enfim todas as figuras humanas que lutam contra as trevas e o eixo do mal em nome da busca cooperativa da verdade. Xenofobia, racismo, nacionalismo medíocre, isolamento geopolítico e económico ou mesmo homofobia constituem indicadores de que o discurso de Manuela Ferreira Leite se dirige contra a modernização, optando claramente por um modelo de sociedade fechada. Manuela Ferreira Leite é uma inimiga pública da sociedade aberta tal como a vislumbrou Henri Bergson: a sua frase salazarenta - "Portugal não é uma província de Espanha" (Mas quem disse o contrário?) - significa o desejo de isolar os portugueses da humanidade inteira, inclusive dos restantes europeus. O isolacionismo económico defendido pela líder do PSD constitui outra reminiscência do salazarismo. A abolição do homem - reduzido a uma cifra económica e, no caso de ser uma figura inconformista e rebelde, a um estigma entregue aos crimes de ódio - e da sua participação no drama da história universal revela o carácter antidemocrático e salazarento do pensamento político de Manuela Ferreira Leite. O homem existe para servir o governo: eis o resultado da ideologização anti-humana da política orientada economicamente. A ideologia desta política de Manuela Ferreira Leite que deforma e distorce a realidade do homem é a existência em revolta contra o homem e o mundo: o gnosticismo economicista de Manuela Ferreira Leite retira da sociedade civil a tarefa de criar uma nova ordem capaz de dotar a existência histórica dos portugueses com um sentido em termos de fins humanos.
J Francisco Saraiva de Sousa

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Manuela Ferreira Leite e a Asfixia Democrática

«Toda a emancipação constitui uma restituição do mundo humano e das relações humanas ao próprio homem. A emancipação política é uma redução do homem, por um lado, a membro da sociedade civil, indivíduo independente e egoísta e, por outro lado, a cidadão, a pessoa moral. A emancipação humana só será plena quando o homem real e individual tiver absorvido em si o cidadão abstracto; quando como homem individual, na vida de cada dia, no trabalho e nas suas relações, se tiver tornado um ser genérico; e quando tiver reconhecido e organizado os seus próprios poderes como poderes sociais, de maneira a nunca mais separar de si este poder social como poder político». (Karl Marx)
Nesta campanha eleitoral, dado não possuir um projecto político claro, transparente e autónomo, o PSD ultraconservador e geriátrico de Manuela Ferreira Leite lançou o slogan propagandístico de que o governo de José Sócrates é responsável pela asfixia democrática, sendo acompanhado pelos restantes partidos da oposição cuja praxis política é contrária à liberdade de expressão. A suspensão do Jornal Nacional da Manuela Moura Guedes por parte da empresa detentora da TVI constitui o caso paradigmático usado pelas oposições para convencer os portugueses de que o governo socialista asfixiou a democracia. Ora, se o PS tivesse efectivamente asfixiado a democracia, a voz mentirosa dos dirigentes dos partidos da oposição e dos seus braços sindicais não poderia ser escutada, mas nós ouvimos diariamente nos canais de televisão a voz maliciosa e mentirosa do PSD, do CDS, do BE e do PCP. Logo, não há asfixia democrática; pelo contrário, reina a anarquia e o histerismo opinativo, agressivo, medíocre, egoísta, caluniador, irresponsável e mentiroso. Os partidos da oposição tratam os portugueses como idiotas culturais.
O que significa asfixia democrática? O que Manuela Ferreira Leite entende por asfixia democrática? Asfixia democrática constitui uma expressão acusatória estranha ao vocabulário político e à matriz ideológica de Manuela Ferreira Leite.
Quem defende uma ditadura de seis meses com o objectivo de "meter tudo em ordem" não é uma pessoa democrática. Quem identifica o regime democrático com o sistema vigente na Madeira de Alberto João Jardim não é uma pessoa democrática. Quem defende o centralismo autoritário que sufoca o desenvolvimento económico e cultural das regiões não é uma pessoa democrática. Quem diz querer combater a corrupção, aceitando pessoas acusadas de serem corruptas nas suas listas, sem dizer nada sobre o caso de corrupção real do BPN ou do BPP, não está a ser coerente e verdadeira. Manuela Ferreira Leite não é uma democrata e muito menos uma social-democrata. Manuela Ferreira Leite não faz o que diz fazer: restituir a verdade à vida pública portuguesa. Manuela Ferreira Leite personifica a incoerência total - uma figura dissonante no regime democrático. Em conformidade com a doutrina do centralismo democrático protagonizada pelos líderes soviéticos, Manuela Ferreira Leite defende uma concepção da democracia adiada, porque, como disse naquela improvisação política célebre, "não acredito em reformas quando se está em democracia". O seu desafio político é abolir a democracia durante seis meses para realizar as reformas sem contestação popular e só depois disso é que a democracia pode ser restabelecida. Manuela Ferreira Leite acusa Sócrates e o seu governo daquilo que pretende fazer se vencer as eleições: asfixiar e suspender temporariamente a democracia para impor ao país as reformas que pensa ser necessário levar a cabo sem escutar as oposições ou os protestos populares.
Para Manuela Ferreira Leite, a democracia constitui um obstáculo à implementação das reformas, as quais só podem ser realizadas num e por um regime autoritário e ditatorial. O povo não sabe o que quer e, por causa desta suposta idiotice popular, é necessário privá-lo do direito à palavra, impedir a contestação popular e dizer ao país o que deve ser feito e como deve sem feito. Manuela Ferreira Leite julga ser detentora da verdade que lhe foi revelada pelo seu ídolo - sua majestade divina, Aquele que nunca se engana, em conformidade com a qual quer moldar autoritariamente Portugal contra a vontade popular. O défice cognitivo subjacente a esta pretensão fantasiosa e imoral de possuir a verdade desemboca numa situação paradoxal que desmente a política da verdade da líder do PSD. Mesmo que se aceitasse a ideia de que este governo procurou controlar diversas instituições, nomeadamente a comunicação social, ele não abdicou da democracia, porque foi corajoso quando tomou a decisão de fazer reformas sem suspender a democracia. Há, portanto, uma diferença qualitativa entre o PS de José Sócrates e o PSD reaccionário e conservador de Manuela Ferreira Leite: o primeiro (PS) faz reformas sem abolir a democracia, enquanto o segundo (PSD) deseja abolir a democracia para fazer as reformas. O suposto lapso de Manuela Ferreira Leite é a voz verdadeira da Direita retrógrada que falou espontânea e genuinamente lá do fundo da sua mente pequena, antidemocrática e homofóbica, absolutamente avessa à cultura democrática. O projecto político de Manuela Ferreira Leite reside todo ele no desejo oculto de suspender a democracia, privando os portugueses da sua cidadania plena. O seu sucesso depende da manipulação dos portugueses insatisfeitos com algumas reformas implementadas pelo governo socialista, tais como professores e juízes, usando-os para depois das eleições os privar do exercício da cidadania.
Que tipo de regime autoritário defende Manuela Ferreira Leite? Quais as razões que a levam a desejar a suspensão da democracia e o regresso à ditadura? Manuela Ferreira Leite não aprendeu nada com a crise financeira e económica. O facto de ter recusado pronunciar-se sobre os casos mediáticos de corrupção envolvendo personalidades do PSD que desempenharam funções executivas nos governos de Cavaco Silva, tais como Dias Loureiro e Oliveira e Costa, agravado pela táctica de minimizar a crise económica mundial nesta campanha eleitoral, permite-nos conjecturar com segurança que Manuela Ferreira Leite pretende abolir a democracia para continuar a implementar políticas neoliberais responsáveis pela crise, tais como as privatizações globais da saúde, da segurança social, da Caixa Geral de Depósitos, da televisão pública e da educação, ao mesmo tempo que, seduzindo os juízes e os jornalistas, retira da agenda mediática os casos mais gritantes de corrupção laranja. José Sócrates descobriu este mesmo motivo quando, referindo-se a Paulo Portas, disse que ele era o passado. Paulo Portas e Manuela Ferreira Leite não querem falar do passado, porque eles próprios são o passado originário da corrupção generalizada e da decadência de Portugal. O saudosismo da Direita portuguesa que insiste de modo desagradável em perpetuar-se no poder, mesmo depois de ter sido desmistificada, não tem qualquer ligação com o saudosismo de Pascoaes: este último dirige-se para um futuro inteiramente novo, enquanto o saudosismo de Manuela Ferreira Leite implica dar continuidade a um passado que conduziu à crise económica, projectando-o no futuro. Os clones geriátricos cavaquistas desejam colonizar o futuro de Portugal, opondo-se às reformas substanciais da sociedade portuguesa e à mudança social qualitativa.
A Direita ultraconservadora de Manuela Ferreira Leite não deseja mudar o status quo que criou com os governos de Cavaco Silva: garantir a sua continuidade constitui o seu objectivo político primordial. A preocupação social com o rendimento mínimo de Manuela Ferreira Leite é uma mera estratégia de propaganda de conquista de votos, mas, uma vez garantida a vitória eleitoral, essa preocupação evapora-se no esquecimento. A Direita reaccionária é indiferente à pobreza e à miséria que as suas políticas neoliberais geraram e agravaram. A ideologia da Direita ultraconservadora só tem uma única preocupação: garantir o direito de propriedade, ao qual subordina a liberdade, a igualdade e a segurança. O direito de propriedade é o direito de fruir da própria fortuna adquirida pelos clones cavaquistas por métodos fraudulentos, dispondo dela como se quiser, sem ter em atenção os outros homens, em especial os despojados, e independentemente da sociedade. A igualdade não é entendida na sua significação política, mas sim como o igual direito à liberdade do homem egoísta encarado como mónada auto-suficiente e separado dos outros homens e da sociedade. A segurança é o conceito supremo da Direita reaccionária, que defende invariavelmente o aumento do número de agentes policiais para proteger as suas fortunas. A segurança é, como viu Marx, a garantia do egoísmo da sociedade civil. A ditadura desejada por Manuela Ferreira Leite - já plasmada na Madeira de Alberto João Jardim que controla todos os sectores da sociedade e do poder local - visa garantir a liberdade da propriedade pessoal dos clones da família cavaquista alargada, bem como a sua liberdade para se empenharem nos negócios bolsistas e escuros. As reformas almejadas visam consolidar a perpetuação dessa classe dirigente geriátrica nas cúpulas de todas as esferas do poder nacional: a classe grisalha que engordou privadamente à custa do emagrecimento de Portugal e dos portugueses, condenando-os à condição de não-cidadãos plenos. O discurso leitista da preocupação pelo triste destino dos mais desfavorecidos soa mal aos ouvidos daqueles que sofreram e sofrem na pele os efeitos nefastos das políticas neoliberais implementadas pelos governos do PSD. Manuela Ferreira Leite diz que as empresas criam riqueza e emprego, mas este slogan da direita não se aplica a Portugal: aqui - neste país tristemente pobre - o trabalho produz a riqueza que os empresários apropriam sem contribuir para o desenvolvimento económico nacional. O cavaquismo neoliberal abriu-lhes outra fonte de enriquecimento: as privatizações dos bens públicos que possibilitaram a muitos políticos adquirir facilmente acções nos bancos e nas grandes empresas. O economicismo significa um conjunto de controles fraudulentos que permitem transformar do dia para a noite políticos e economistas medíocres em grandes empresários que controlam o sistema financeiro em benefício próprio. Aqueles que geraram a pobreza e a miséria não nos podem salvar e restituir a humanidade e a DIGNIDADE aos portugueses. Manuela Ferreira Leite e o seu PSD ultraconservador e homofóbico não constituem a solução: eles fazem parte do problema nacional que bloqueia o futuro liberto e progressista de Portugal.
J Francisco Saraiva de Sousa

terça-feira, 8 de setembro de 2009

DarkAlliance: PSD e Bloco de Esquerda

«O Bloco de Esquerda não será go-verno sozinho. Mas o líder bloquista recusa nomear com quem fará alianças. Para já, exclui o PS da maioria de esquerda».
Eis uma afirmação de Francisco Louçã, no Público de hoje, cujo significado oculto revela a natureza do Bloco de Esquerda - uma força política liderada por pessoas de Direita envergonhada ou de Esquerda totalitária e irresponsável, próximas do PSD, que visam dividir a esquerda genuína, de modo a entregar o poder à Direita e ao PSD da Manuela Ferreira Leite e de Alberto João Jardim, cujo objectivo é implementar no continente a asfixia da democracia que reina na Madeira. No entendimento delirante de Francisco Louçã, o Bloco de Esquerda pretende conquistar nestas eleições legislativas aquilo que nunca foi alcançado por outras forças políticas semelhantes no passado: dividir o PS e isolar a sua suposta ala centrista que ele identifica com José Sócrates. Ora, como esta pretensão política é fantasista, o descuido de Francisco Louçã - excluir o PS da maioria de esquerda - só pode ser o sinal de uma intenção oculta do BE: formar com o PSD uma maioria de direita, da qual o PS está naturalmente excluído. O discurso da asfixia da democracia - uma invenção do PSD retomada pelos partidos da oposição organizados contra o PS - deve ser lido literalmente, não como uma acusação contra o PS e a governação de José Sócrates, mas como uma pretensão política oculta de toda a oposição portuguesa: o desejo secreto do regresso à ditadura. A gritaria, a mentira, a manipulação da informação, a hipocrisia, a difamação, a calúnia, a propaganda, o insulto, a agressividade, enfim a histeria, que preenchem as campanhas políticas das oposições unidas contra o PS, abonam a favor desta leitura literal, ao mesmo tempo que levam a conjecturar sobre a natureza e a origem sexuais da asfixia. Dado não possuírem ideias próprias e programas racionais de governo, os líderes das oposições precisam de recorrer às suas experiências íntimas de sexual bondage ou mesmo de sadomasoquismo para animar as suas campanhas políticas e os seus debates ideológicos: o tema da asfixia da democracia projecta de modo enviesado um desejo secreto e pessoal para o âmbito da esfera pública. Os líderes da oposição não se excitam com ideias políticas, mas sim com fantasias sexuais: a asfixia erótica prolonga-se como projecto político de cunho sádico na asfixia da democracia. Os projectos políticos do PSD, do CDS, do BE e do PCP são projectos sádicos de conquista do poder - indiferentes ao sofrimento alheio que usam e manipulam em benefício próprio.
Na iminência do regresso do cavaquismo centralizador e despótico, ansiado pela "eterna noiva" (Dostoiévski) apaixonada de Cavaco Silva e pelos seus clones ideológicos, votar no Bloco de Esquerda é contribuir decisivamente para esse terrível regresso do cavaquismo geriátrico e cleptocrático e para a vitória da ditadura dos seis meses defendida por Manuela Ferreira Leite. Numa célebre palestra (Ver a 1º Barra de Vídeo), Manuela Ferreira Leite denunciou a chamada "arrogância do governo de José Sócrates", lançando-lhe o desafio de "suspender a democracia" durante seis meses, porque, na sua perspectiva antidemocrática, não é possível implementar reformas em democracia. Este desabafo não foi um mero lapso. Ontem na Madeira, a líder ultraconservadora do PSD voltou a repeti-lo e a consolidá-lo, apoiando publicamente o alargamento do sistema ditatorial e salazarento de Alberto João Jardim ao continente. Ao escolher o PS como o alvo exclusivo da sua luta política, o BE é um mero instrumento deste PSD reaccionário e ultraconservador: ambos os partidos desejam a asfixia da democracia. O PSD afastou das suas listas os militantes que pensam de maneira diferente da linha leitista. O BE já tinha feito o mesmo com o seu autarca de Lisboa, seguindo de perto o triste exemplo histórico do PCP e do CDS de Paulo Portas. Leitismo e louçismo são regimes totalitários de pensamento e de acção política. Quando defendem a liberdade de expressão da outra Manuela da TVI, fazem-no para liquidar a democracia, a sociedade aberta e o pluralismo defendidos pelo PS. Na história da democracia portuguesa, o PS foi o único partido político que, num período dominado pela hegemonia do PCP, lutou na rua pela liberdade de expressão: as oposições de direita e de extrema-esquerda não têm autoridade política e moral para acusar o PS de tentar condicionar a liberdade de expressão. Os projectos políticos do PSD e do BE e do CDS e do PCP são claramente inimigos da democracia e da sociedade aberta e, como tais, devem ser abatidos nestas eleições, com a concentração do voto do centro e da esquerda genuína no PS.
Manuela Ferreira Leite e Francisco Louçã partilham uma mesma visão do mundo - a visão de uma sociedade fechada - e uma mesma atitude - a personalidade autoritária. O facto da primeira querer privatizar tudo, incluindo o Sistema Nacional de Saúde, a Segurança Social e a Educação, e do segundo desejar nacionalizar as grandes empresas, os bancos e os seguros, as afinidades estruturais que os aproximam são mais fortes do que esta mera diferença de vocabulário político preferido, levando-os a firmar entre si uma darkalliance, tal como a que une Jerónimo de Sousa (PCP) e Paulo Portas (CDS). O sinal desta aliança negra que une estas quatro forças políticas maléficas e retrógradas evidenciou-se em torno do caso do BPN: tanto a Direita como a Esquerda reaccionária uniram-se para tentar punir o regulador, deixando os verdadeiros corruptos fora do alcance do domínio da lei. O discurso do combate contra a corrupção protagonizado por estas forças políticas é hipócrita. A falsidade deste discurso contra a corrupção indica um entendimento profundo entre as oposições: abater José Sócrates e o PS, com o objectivo negro de eliminar a única força política democrática que se opõe veementemente às tentativas de regressar a um modelo de sociedade fechada, quer pela via das privatizações globais e integrais conduzidas de modo cleptocrático (PSD e CDS), quer pela via das nacionalizações generalizadas (BE e PCP). Manuela Ferreira Leite e Francisco Louçã, Paulo Portas e Jerónimo de Sousa, partilham uma concepção musculada de Estado, muito próxima da concepção soviética, da qual o PS deve demarcar-se se quiser combater eficazmente a corrupção e a degradação do poder político. Quer seja usado para privatizar ou para nacionalizar, o Estado é dominado por uma burocracia - a nova classe dirigente - que se perpetua no poder através da dominação e do controle das instituições económicas, políticas, culturais e sociais. Um tal Estado burocrático e centralizador gera continuamente corrupção: as elites são sempre tentadas a adquirir riqueza, como o mostra a corrupção portuguesa.
Abaixo as forças totalitárias protagonizadas pelo leitismo (PSD) e pelo louçismo (BE). Abaixo os populismos geriátricos e miserabilistas protagonizados nas praças e nos mercados públicos por Jerónimo de Sousa (PCP) e por Paulo Portas (CDS). Todas estas forças políticas partilham a noção do poder político como instrumento para conquistar e garantir benefícios pessoais em detrimento do interesse nacional. Ora, uma tal noção é deveras sádica: o sadismo político das classes dirigentes nacionais deve ser levado a sério, porque só os masoquistas se conformam com estes líderes sádicos e indiferentes ao sofrimento alheio. A saúde mental de um povo reflecte-se no seu voto. Dispersar os votos em diversas forças políticas autoritárias é desejar ser voluntariamente escravizado e subjugado por elas: uma decisão perfeitamente masoquista que compromete o futuro de Portugal. O voto de protesto é profundamente irracional, porque funciona como um aliado da Direita mais imbecilizada e retrógrada, aquela que recusa a felicidade ou, pelo menos, uma vida sem angústia, aos portugueses. Só há uma maneira de escapar a este triste fado e essa maneira é votar no PS, renovando a sua maioria absoluta para lhe exigir maior inteligência política de esquerda. Vota PS.
J Francisco Saraiva de Sousa

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Materialismo e Clericalismo Científico

«O sonho do homem actual é ser um esqueleto antecipado, com asas de alumínio, sobre um planeta roído até ao caroço. Ao homem mitológico, escravo dos deuses, sucedeu o (homem) metafísico, escravo dum Deus; e a este, o (homem) industrial, escravo duma deusa de metal, aquela mulher eléctrica, numa barraca de feira, estendendo a vara mágica aos labregos espantados». «O homem é mais moisaico que darwínico, mais antropos que antropóide, o que a ciência não admite». «O orango arrependido de ser homem, eis o drama psicológico moderno». «A finalidade da vida é a definição da existência. E digo finalidade, porque todo o esforço da Natureza se dirigiu e dirige num sentido humano ou consciente». «O destino do homem é ser a consciência do Universo em ascensão perpétua para Deus». «O homem é ele e o seu habitat. É céu e terra contidos numa definição espiritual ou consciente». «O homem, sonhando, transborda de si mesmo, amplia o mundo, porque ilumina as suas dimensões desconhecidas. O sonho é alta temperatura, um estado térmico da alma, a sua incandescência». «Que seria do mundo sem o homem? Permaneceria como abismado numa absoluta inexistência». «O absoluto é dos poetas e o relativo é da ciência. O sábio observa, analisa, decompõe; o filósofo generaliza, dá o conjunto; o poeta dá o significado anímico das coisas, a sua própria natureza». «O inimigo da poesia não é o sábio verdadeiro, mas o pseudo-cientista, muito pedante do que imagina saber oficialmente. Ser homem é já ser poeta ou possesso duma grandeza misteriosa». «A essência das coisas, essa verdade oculta na mentira, é de natureza poética e não científica. Aparece ao luar da inspiração e não à claridade fria da razão». «Em todo o poeta verdadeiro existe um filósofo adormecido, como existe um poeta adormecido em todo o verdadeiro filósofo. O poeta filosofa depois de cantar e o filósofo canta depois de filosofar». (Teixeira de Pascoaes)
As citações em epígrafe pertencem a um dos maiores filósofos da cidade do Porto e de Portugal: Teixeira de Pascoaes. Elas definem claramente as linhas gerais da filosofia de Teixeira de Pascoaes, possibilitando explicitar o seu contributo para a elaboração de uma filosofia da mente. A filosofia da mente é, como mostrou John R. Searle, dominada pelo materialismo que, apesar da diversidade das suas versões, nega a existência de quaisquer fenómenos mentais irredutíveis, tais como a consciência ou qualia, num mundo constituído exclusivamente de partículas materiais. Dos diversos programas materialistas propostos para resolver o problema cérebro-mente, a teoria mais radical é a do materialismo eliminativo: P.M. Churchland e S. Stich negam pura e simplesmente a existência de estados mentais. Segundo Searle, "a motivação mais profunda para o materialismo é simplesmente o horror à consciência". A subjectividade dos estados mentais ameaça a objectividade científica, tal como a concebe Monod: "A pedra angular do método científico é o postulado da objectividade da natureza, isto é, a recusa sistemática em considerar como podendo conduzir a um «verdadeiro» conhecimento toda a interpretação dos fenómenos, dada em termos de causas finais, quer dizer, de «projecto»" (Monod). Porém, Monod sabe que este é um "puro postulado, para sempre indemonstrável, porque, evidentemente, é impossível imaginar uma experiência que possa provar a não existência de um projecto, de um fim a atingir, ou existente na natureza". O receio de Eccles confirma-se: o horror à consciência reflecte basicamente o horror a Deus que o materialismo não pode refutar. A invenção da física matemática por Galileu excluiu da natureza o espírito (A.N. Whitehead), mas a natureza só pode ser descoberta pelo pensamento consciente. Pascoaes coloca a questão - "Que seria do mundo sem o homem?", dando-lhe esta resposta: O mundo sem o homem "permaneceria como abismado numa absoluta inexistência". O verdadeiro mistério da consciência reside na sua ligação íntima a Deus (W. Pannenberger), ligação que a filosofia materialista da mente e a ciência positivista não conseguem clarificar, preferindo negar a existência de estados mentais e a própria humanidade do homem, com efeitos práticos, morais e políticos simplesmente desastrosos. A ciência, bem como a filosofia positivista que a acompanha, está a tornar-se uma figura ridícula da consciência humana. O materialismo é muito mais do que o horror à consciência; o materialismo consumado é o horror consciente à consciência: eis o seu absurdo impensável.
Pascoaes cunhou a expressão clericalismo científico para designar este horror à consciência que leva o materialismo a negá-la. Materialistas tais como Armstrong e Dennett redefinem a consciência de modo a negar a sua qualidade subjectiva: o seu medo da consciência é motivado pelo facto da consciência ser subjectiva. Ora, aceitar a consciência subjectiva é, para os materialistas, violar a concepção científica do mundo e o modo como o mundo deve ser. No entanto, Pascoaes vai mais longe quando interpreta o medo da consciência como o horror a Deus e ao próprio homem. A perspectiva filosófica de Pascoaes pode ser explicitada em chave antropológica se colocarmos esta questão: Quem pensamos que somos? Ao negar veementemente a ontologia irredutivelmente subjectiva dos estados mentais que é uma ontologia de primeira pessoa, os materialistas consumados reduzem o homem a um autómato ou, como se diz hoje em dia, a um zombie, sendo levados a abordar a consciência a partir de um ponto de vista de terceira pessoa. Os zombies de Daniel Dennett e de David Chalmers correspondem - inscritos num outro registo - aos antropóides de Pascoaes: o antropóide humano mais não é do que o homem arrependido de ser homem. O antropóide humano abdica da sua liberdade na e pela subjugação voluntária à tirania da normalidade - a escravatura voluntária denunciada por Espinosa. O esforço da Natureza dirigiu-se e dirige-se num sentido humano ou consciente e, uma vez atingido esse sentido humano na evolução cósmica, cabe ao homem assumir a tarefa de "ser a consciência do Universo em ascensão perpétua para Deus". Contudo, fazendo eco dos três estádios do progresso do espírito humano de A. Comte, as três figuras humanas de Pascoaes são escravas não só das circunstâncias, mas fundamentalmente de uma inércia interior que as impede de assumir o destino de serem seres conscientes do universo em ascensão para Deus: o homem mitológico é escravo dos deuses, o homem metafísico é escravo dum Deus e o homem industrial é escravo duma deusa de metal. A sequência histórica das três figuras humanas de Pascoaes não representa uma evolução; pelo contrário, reflecte uma regressão, na medida em que cada uma delas se afasta cada vez mais do sonho incandescente - o sonho que permite ao homem transbordar de si mesmo e, nesse movimento de exteriorização, ampliar o mundo. A regressão é o movimento que se dirige no sentido contrário ao da evolução. Em vez de ampliar o mundo, iluminando as suas dimensões desconhecidas e inconscientes, a regressão contrai o mundo, entregando-o à sua quase inexistência. O mundo governado pela ciência é um mundo contraído, no qual o homem se comporta como um ser arrependido de ser homem, isto é, como um ser que não assume a tarefa de realizar a sua essência e as possibilidades objectivas da natureza. Pascoaes acusa a ciência de afastar o homem do seu próprio destino: a ciência darwinista não admite que o homem seja mais antropos do que antropóide, reduzindo-o à sua animalidade destituída de consciência e de poder causal sobre o mundo, como se este fosse inteiramente físico. A ciência que governa o mundo moderno converteu-se numa Nova Inquisição, a Inquisição Positivista, que queima as almas, tal como a Inquisição Católica queimava os corpos nas fogueiras. O credo do clericalismo científico é o materialismo, cujos mentores - os pseudo-cientistas - são criaturas "muito pedantes do que imaginam saber oficialmente". O saber positivista oficial reclama o monopólio exclusivo do conhecimento e da racionalidade, desvalorizando todas as outras formas de conhecimento e agrupando-as sob uma mesma categoria maldita - a metafísica entendida como pseudo-saber. Pascoaes não rejeita pura e simplesmente a ciência; rejeita o monopólio do conhecimento humano por parte de pseudo-cientistas arrogantes e pedantes, cujo anti-mentalismo visceral nega a existência de estados mentais e a sua eficácia causal no mundo físico, tendo em vista a integração social e cultural dos indivíduos e dos agentes sociais numa sociedade opressora e exploradora. A inquisição positivista queima literalmente as almas, porque, ao rejeitar a existência de estados mentais subjectivos, converte o ser humano num antropóide, isto é, num zombie que se comporta como um escravo do sistema social vigente. O darwinismo ateísta generalizado é uma ideologia perigosa: bloqueia todo o esforço consciente e crítico de mudança social qualitativa, dando solidez naturalista a uma sociedade dominada por uma casta de especuladores financeiros. O clericalismo científico - protagonizado na blogosfera portuguesa por De Rerum Natura e Que Treta!, entre outros blogues clericais positivistas avessos à Filosofia e ao pensamento crítico, à arte e à cultura superior - é um sistema de dispositivos de censura e de controle difamatório que procura eliminar dogmaticamente os seus adversários cognitivos, como se a ciência fosse dotada do poder exclusivo de dizer a verdade.
A teoria do sentido da vida de Pascoaes suscita problemas filosóficos intrigantes que ainda não foram pensados. A resposta de Pascoaes à pergunta "Para que existo?" desvia-se da própria pergunta para a recolocar num novo horizonte, recuperando o sentido da existência: o horizonte crítico da era da técnica ou da tecnociência, que elaborou "o seu ponto de vista, entrincheirando-se nele, egoísta e intolerante, pretendendo, como os seus inimigos, governar o mundo" através do confinamento depressivo das criaturas dentro da sua existência animal e do quadro social do materialismo grosseiro e do mercantilismo. Com a irrupção deste reino intolerante do "clericalismo científico", emergiu a "crise moral" que "queima as almas", tal como a Inquisição tinha "queimado os corpos". A passagem do clericalismo religioso para o clericalismo científico justifica-se pelo facto do homem contemporâneo - o homem da técnica, o "homem industrial", comportar-se como um "antropóide" que se arrepende de ser homem. Não comportar-se como homem humano, isto é, como criador do reino dos seres espirituais ou culturais, constitui o drama psicológico da humanidade na era da técnica que idolatra a "deusa de metal" ou a "mulher eléctrica". Pascoaes atribui a responsabilidade por este arrependimento de ser homem à própria ciência, neste caso particular ao darwinismo, que não admite que o homem seja mais antropos do que antropóide: a ciência teima em reduzir o homem à sua condição animal, negando-lhe a sua dimensão espiritual ou humana e a sua capacidade de se transcender e de se realizar como ser espiritual, isto é, como ser livre e criador de cultura. Isto não implica uma desvalorização dos animais ou mesmo da própria animalidade do homem, porque, como escreve Pascoaes, "os animais são pessoas, como nós somos animais". De notar que esta solidariedade com todos os seres vivos constitui um traço específico da filosofia partilhada por todos os filósofos da Escola do Porto, desde Guerra Junqueiro até Leonardo Coimbra. Sampaio Bruno atribuiu a sua autoria a Novalis: o fim do homem é ajudar a evolução da natureza. No plano da moral cósmica, elaborada contra a moral religiosa, a moral filosófica e a moral ascética, o dever supremo que incumbe ao homem é o dever para com a natureza inteira. O trabalho, a luta contra o mal existente e o saber são os meios mediante os quais o homem pode ajudar a evolução da natureza: O homem liberta-se, libertando os seus irmãos de espécie, e, ao libertar os outros seres vivos, "contribui já para a libertação universal" (Bruno).
Ora, segundo Pascoaes, o destino do homem não é ser um mero antropóide, prisioneiro da "actividade vegetal" - "nascer para comer e comer para morrer" - num planeta convertido em "refeitório e cemitério", mas sim "ser a consciência do Universo em ascensão perpétua para Deus". A tarefa do homem é compreender a sua existência e superá-la mediante a transição do material para o imaterial: o homem é, para Pascoaes, "um valor absoluto na sua actividade espiritual" e esta actividade cultural é "síntese consciente do Universo", síntese simultaneamente consciente e emotiva, científica e poética. Como valor absoluto, o homem move-se no reino dos seres espirituais que giram na "órbita de Deus" (G. Junqueiro), sonhando a própria essência do mundo, de modo a libertar-se do nada que o aflige na sua condição mortal de suspenso no abismo e a ampliar o mundo através da sua actividade de transcendência, acrescentando-lhe o mundo da cultura. Esta "concepção existencial do homem" - a concepção do homem universal, simultaneamente físico e metafísico, sem o qual o mundo permaneceria como abismado numa absoluta inexistência, inconsciente de si mesmo -, não se conforma com o "conceito puramente científico da Existência" produzido pela tecnociência: a noção da existência contida "numa balança ou entre os ponteiros dum compasso", como se pudesse ser objecto de cálculos matemáticos. Ao tratar o homem como um mero antropóide, o darwinismo aliena a existência humana da sua essência e da sua finalidade, impedindo-a de atingir o seu sentido pessoal e colectivo da vida. A concepção existencial do homem, exposta no "Regresso ao Paraíso" (1912), corresponde à verdadeira filosofia, isto é, à filosofia poética, que permite assimilar o mundo a nós, sem no entanto o desnaturar.
A recepção portuense de Nietzsche não é alheia a Pascoaes: Zaratustra anunciou à multidão que "o homem é uma corda amarrada entre o animal e o super-homem - uma corda por cima de um abismo. Um perigoso passar para a outra banda, um perigoso estremecer e ficar parado". A grandeza do homem reside no facto de ser uma ponte e não um fim: "aquilo de que se pode gostar no homem é que ele é uma travessia e um afundamento". Pascoaes retém a noção de ponte ou de travessia: o homem é uma ponte entre o antropóide e o Sagrado, uma ponte que se ergue no "abismo sem fundo" e que o homem deve atravessar para encontrar o sentido da sua vida. Ou, nas palavras do poeta Pascoaes: "A alma, em virtude da sua força activa de esperança, visa o Futuro, - o Incriado; e em virtude da sua força passiva de lembrança, apenas encontra o Passado ou a Natureza criada, imenso espectro evidente nas suas formas endurecidas e mortas. O Universo é o cadáver de Deus, a estátua fria e inerte da Esperança. As estrelas gelaram-lhe na face, como antigas lágrimas que já não encerram dor alguma. O sol é um riso de metal caindo sobre um globo de ferro. A alma fulge na escuridão absoluta. Canta no silêncio absoluto. Por baixo dela jaz o fantasma do Passado; por cima a noite silenciosa do Futuro. E ela própria é passado e futuro, invocação e desejo. Ausente de si mesma no que há-de ser e no que foi, ou vê espectros da Morte materializados, ou sombras por encarnar da Vida. O Presente divino, a Realidade em si, a Esperança imaterializável, Deus, excepcionalmente vislumbrados, fogem à sua clara e constante percepção. No mundo sensível só há futuro e passado. O movimento abstracto da esperança (tempo futuro) mal se concretiza, é lembrança, movimento inerte, matéria (tempo passado). A cada acção criadora da esperança (espaço e tempo futuro) corresponde a sua paralisação para trás em formas criadas (tempo e espaço passado)".
J Francisco Saraiva de Sousa

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Ernst Bloch: a Bíblia dos Pobres

«Um velho sábio lamentava-se dizendo ser mais fácil salvar o homem do que o alimentar. O socialismo futuro, quando todos os convidados estiverem sentados à mesa, quanto todos puderem sentar-se aí, deverá confrontar-se mais do que nunca, num combate particularmente difícil e paradoxal, com a inversão desta antiga sentença: é mais fácil alimentar o homem do que o salvar, isto é, reconciliá-lo consigo mesmo, com os outros, com a morte e com esse mistério absolutamente vermelho que é a existência do mundo. Com efeito, a alienação mais pertinaz não é unicamente a gerada por uma sociedade imperfeita, que desaparecerá com ela; há outra origem mais profunda da alienação. Marx dizia: "Ser radical é perceber as coisas pela raiz. Ora, para o homem, a raiz de todas as coisas é o próprio homem". A primeira epistola de João (3, 2) afirma, por sua vez, tomando esta raiz que é o homem não como a causa de qualquer coisa, mas como um destino: "Mas o que nós seremos ainda não se manifestou. Sabemos que, quando se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é. Todo aquele que nele tem esta esperança purifica-se a si mesmo, como também ele é puro (Jesus)». (Ernst Bloch).
O mundo em que vivemos é um mundo pouco acolhedor, inóspito e dominado pela alienação. Por isso, sonhamos com um futuro que seja a "pátria da identidade" (E. Bloch). Entre o presente sofrido e corrupto e o futuro sonhado e liberto, intercala-se o hiato, a fenda do tempo, o abismo da morte. No tempo da vida quotidiana, o passado, o presente e o futuro sucedem-se com regularidade uns aos outros, permitindo a sua fixação pelo calendário: o presente é hoje, o passado começa ontem, e o futuro inicia-se amanhã. Rodeado pelo passado e pelo futuro, o presente funciona como o ponto fixo, a partir do qual nos orientamos, olhando para trás ou para diante. A atribuição de um continuum numérico ao fluxo da mudança perene deve-se à continuidade das nossas ocupações e das nossas actividades no mundo, isto é, à continuidade da nossa vida quotidiana. A espacialidade da nossa vida diária leva-nos a espacializar os tempos verbais: o passado está "atrás" e o futuro, "adiante". Porém, a inserção do homem com o seu tempo de vida limitado pelo nascimento (origem) e pela morte (fim) transforma o fluxo contínuo da corrente da mudança, repartindo-o nos três tempos verbais: a passado e o presente estão presentes na sensação interior do tempo e colidem um com o outro como o já-não e o ainda-não.
Na parábola de Kafka, o "Ele", isto é, o homem, está situado entre o passado e o futuro em qualquer momento dado; o tempo intermediário é o presente, mais precisamente o Agora presente, onde as forças antagónicas colidem uma com a outra: a colisão do passado, que já não é, e do futuro, que está a aproximar-se e ainda não é. O homem vive sempre no intervalo entre o passado e o futuro: um Agora alargado no qual passa a sua vida, lutando contra o peso morto do passado que o empurra para a frente com a esperança, e o medo de um futuro (a morte inevitável) que o puxa para trás na direcção da "tranquilidade do passado" (Arendt) com a nostalgia e a recordação da única realidade de que pode estar certo. Tanto a situação cristã como a situação revolucionária podem ser compreendidas como o "autêntico entre" (R. Bultmann): o homem vive entre dois nadas, o do passado que já não é e o do futuro que ainda-não-é. O entre não é uma determinação puramente cronológica, mas o tempo de uma nova oportunidade para que o homem se comprometa e se esforce, em comunidade solidária, pela sua salvação futura.
A intenção de E. Bloch é elaborar uma filosofia em chave salvífica, de modo a fazer do marxismo uma "meta-religião", isto é, uma teoria e uma praxis da plenitude de ser e de sentido, na qual o homem é visto como um Deus em potência. A sua antropologia toma a forma de uma cristologia e o seu humanismo radical supera todos os outros humanismos na direcção de um antropoteísmo. Convencido de que "o melhor lado da religião é o futuro", Bloch realiza uma hermenêutica crítica da Bíblia, de modo a mostrar a existência de uma "Bíblia subterrânea": a verdadeira Bíblia pauperorum, a Bíblia dos pobres, cujo órgão principal reside no seu "eixo não-teocrático". A mensagem subterrânea da Bíblia dos pobres reside no homo absconditus e implica a abolição de todas as relações sociais onde o homem é um ser explorado, oprimido, deserdado, ofendido, humilhado, estranho a si próprio, desesperado e abandonado. A Bíblia é a religião da utopia humana e, para apreender esta visão herética, o ateísmo no cristianismo, é preciso desteocratizá-la: Deus mais não é do que a idealização hipostasiada do ser humano ainda-não-realizado na sua realidade essencial (Marx) ou, como diz Bloch, a "enteléquia utópica". O resultado da operação de desteocratização da Bíblia é o "transcender sem transcendência": a rebelião radical dos homens solidários contra a opressão e a corrupção conduzida pela esperança de um verdadeiro "ser-outro". Porém, a desteocratização da Bíblia aparece articulada com uma desdogmatização do marxismo. As distinções entre a "corrente fria" e a "corrente quente" do marxismo, entre utopia abstracta e utopia concreta, entre sistema acabado e sistema aberto, permitem a Bloch ultrapassar as fronteiras do pensamento racionalista tradicional que deprecia as formas de pensamento utópico e as rejeita como produtos imaginários de um irracionalismo avesso à triste visão científica do mundo, e, ao mesmo tempo, integrar a tradição positiva das utopias numa visão renovada da filosofia marxista. O conceito de "ortopedia do andar erecto" resume a tarefa de renovar o marxismo: a análise económica e política (corrente fria) deve estar ligada a uma filosofia escatológica da história (corrente quente), a única capaz de realizar uma síntese produtiva entre a teoria e a praxis de emancipação e de exprimir as aspirações profundas da humanidade oprimida. O marxismo enquanto "ciência dialéctica das tendências" deve permanecer aberto às suas heranças culturais e à percepção das potencialidades objectivas da realidade que apontam para o futuro.
A soteriologia de Bloch assenta numa ontologia da possibilidade objectiva, que pode ser esquematicamente reduzida a três enunciados básicos: a realidade é matéria (1), a matéria é possibilidade (2), e a possibilidade está em devir, isto é, em processo (3). A história do homem não é compreendida em termos de evolução, de aperfeiçoamento progressivo e homogéneo da actual situação social, através de mudanças graduais e quantitativas, mas é lida em termos de revolução, de ruptura da ordem estabelecida, que deve ceder o seu lugar a uma ordem inteiramente nova. A realidade é possibilidade processual capaz de se autotranscender para a novidade. A noção de possibilidade de autotranscendência permite a Bloch criticar a perspectiva positivista, segundo a qual a realidade é um facto bruto dado uma vez por todas: a realidade é processo em devir aberto a um futuro novo pela acção de uma potencialidade latente na sua própria urdidura e, portanto, imanente ao próprio processo. A totalidade do real orienta-se na direcção de uma consumação plenificadora: o Novum Ultimum. O processo termina quando alcança esse Novum e começa a existir o Ser numa forma inédita de duração abrigada e protegida de toda a caducidade e de qualquer acidente letal. A história do mundo mais não é do que o laboratorium possibilis salutis. O princípio de identidade (A = A) é substituído por um novo princípio que leva em conta o papel do factor tempo na realidade: "A = ainda não é A", "S = ainda não é P". Isto significa que o sujeito ainda não realizou todas as determinações do predicado: os oprimidos ainda não foram libertos, "os bárbaros calculadores de tudo" (Hölderlin) ainda não foram assassinados, o homem ainda é um estranho para si próprio, a ciência como ideologia ainda continua a "devastar tudo" (Hölderlin), as desigualdades sociais ainda não foram suprimidas, a corrupção ainda não foi eliminada, a democracia ainda não foi realizada, a natureza ainda não se converteu em pátria - a Casa do Homem, enfim, o verdadeiro ainda não é predicado da realidade efectiva. A génese autêntica do real não está no começo, mas sim no fim, quando formos "nós mesmos o sétimo dia da criação" - dies septimus nos ipsi erimus.
Com base nestes pressupostos, Bloch ergue a esperança como princípio do real: a esperança não é aqui um "afecto de expectação", mas sim a determinação fundamental da totalidade da realidade objectiva: a esperança como docta spes é o conhecimento criticamente antecipador que se encontra mediado e combinado com o processo objectivo, no seu movimento dialéctico em direcção à realização plena do seu conteúdo-meta. A esperança não está garantida e, por isso, o desenlace do processo histórico permanece em suspenso até ao final, podendo ser ameaçado por factores anti-utópicos capazes de o conduzir ao Pessimum do Nihil, à negação do ser e do sentido. A esperança garantida é característica da hipótese de um providencialismo religioso que apela ao aval mítico da divindade ou do materialismo mecanicista e determinista, incompatível com a liberdade do homem, o único ser responsável pelo futuro do processo-em-devir. Bloch aposta no Optimum do Totum e não no Pessimum do Nihil: o processo histórico acederá ao Summum Bonum, à pátria da identidade, na qual, após a derrogação de todas as caducidades que segrega para se auto-alimentar e abolidas todas as contradições próprias da actual situação de alienação, o homem será Deus e a realidade produzirá fielmente o arquétipo bíblico da Nova Jerusalém.
A ontologia do ainda-não-ser é acompanhada por uma antropologia do homo absconditus que assume a forma de uma cristologia. Dado não ser um processo determinista ou mecanicista, o processo de génese da realidade precisa de um agente e esse agente é o próprio homem que, graças à sua criatividade livre, conduz a realidade para a meta. A dialéctica sujeito/objecto opera no mundo feito pelo homem: a matéria em processo precisa de um agente do processo, "uma subjectividade que trabalha" e que "se esforça por romper a objectivação e a objectividade", de modo a animar as contradições que surgem na história e a colocar a negatividade ao serviço do possível triunfo do fim último, e este agente está, ele próprio, em processo, porque é um ser que nasce de um parto prematuro: o homem não nasce como ser definitivamente terminado e concluído, tanto ontogeneticamente como filogeneticamente, e, por isso, precisa desenvolver-se e fazer-se a si próprio durante quase toda a sua vida. O destino do homo absconditus revela-se em Jesus do Novo Testamento. Quando se auto-intitula "Filho do Homem", Jesus remete ao Adam Kadman da cabala judaica, isto é, ao Filho do Homem Celestial em contraposição ao Adão-argila do relato javista da Criação. Na expressão "Filho do Homem", está depositado o sonho humano de alcançar no futuro a homoousia, a consubstancialidade homem-Deus. Deus fez-se Homem significa que o Homem se fará Deus: os tesouros que foram atribuídos ao Pai Celeste hipostasiado serão devolvidos ao humanum. Ao recusar a Jesus a homoiousia (a semelhança) com Deus, atribuindo-lhe a homoousia (a consubstancialidade), o cristianismo reclamou para o homem uma prerrogativa revolucionária ainda não sonhada, o cumprimento da promessa da serpente do Paraíso: "Sereis como deuses". O Deus absconditus só é válido enquanto indicação do homo absconditus. L. Feuerbach enganou-se quando disse que o homem é Deus, porque, nas actuais circunstâncias de alienação, o homem ainda não é Deus: o homem será no futuro Deus. A ressurreição, a ascensão e o retorno parúsico de Jesus indicam essa revelação do humano que terá lugar no final do processo histórico, quando o Filho do Homem, vencida definitivamente a anti-utopia por excelência que é a morte, se entronizar num mundo tornado finalmente "o céu na Terra" e manifestar assim a sua condição de único e genuíno Ser Supremo.
E. Bloch dedicou uma longa e profunda reflexão às imagens utópicas da esperança contra a morte, em especial as da imortalidade da alma, da metempsicose, da ressurreição dos corpos, da vida além-túmulo, enfim, da morte como viagem. Assim, por exemplo, o herói vermelho que lutou contra a injustiça e o fascismo sacrificou a sua vida sem a esperança de renascer. Em casos como este, a certeza da comunidade concreta de consciência de classe absorve a questão da sobrevivência individual e constitui um Novum contra a morte: a unidade do individual e do colectivo, isto é, a solidariedade, torna o homem corajoso face à morte. O sacrifício da vida do herói não foi "em vão": lutar contra a opressão e a corrupção é contribuir para a libertação do futuro. A luta por um mundo melhor constitui o início da tarefa de fazer conscientemente a história, rompendo com a pré-história marcada pelo pecado do egoísmo e pela corrupção dos opressores e dos ladrões de colarinho-branco. O vitalismo de Bergson sempre foi criticado pela teoria crítica, mas o seu tema da sobrevivência da alma paira no ar: "Se a experiência (das afasias) estabelece, como o julgamos, que apenas uma pequena parte da vida consciente é condicionada pelo cérebro, concluir-se-á que a supressão do cérebro deixa verosimilmente subsistir a vida consciente". Segundo Bergson, os estudos das afasias permitem distinguir a verdadeira memória dos mecanismos cerebrais de conservação e de repetição, com os quais é confundida. É certo que as experiências psicológicas são condicionadas por lesões cerebrais, mas isso não abona a favor da tese do paralelismo estrito entre o cerebral e o mental: o afásico não perdeu a recordação das palavras, mas a possibilidade de exprimir e de traduzir em palavras as imagens do seu passado. O cérebro não é o lugar onde se conservam as recordações, mas o instrumento da sua actualização, isto é, da sua tradução material.
A filosofia da esperança de E. Bloch confronta-se com o problema da morte, cujas "mandíbulas pulverizam tudo". Bloch defende a perspectiva da "extraterritorialidade" do núcleo existencial frente à morte e à caducidade, expressando a utopia do non omnis confundar: a esperança firme de que o núcleo autêntico do humano ultrapasse a bruta facticidade da realidade na sua figura obscura presente e não se volatilize para sempre com a morte do seu sujeito, mantendo a confiança de que, no futuro, o Ser prevaleça sobre o Nada. Ou, nas palavras de Bloch: "Eu não soçobrarei inteiramente na confusão, isto é, a melhor parte do homem não desaparecerá. A melhor parte do homem, a sua essência definitivamente descoberta, é também o último e o melhor fruto da história". Na obscuridade do instante vivido, cada ser humano acede ao seu núcleo, que, além de ser algo muito próximo do nosso ser, constitui o fundamento fundador: o ser-existência é imediato e é o fundamento do devir, tanto da caducidade do mundo como do futuro. É este núcleo obscuro da existência que impulsiona o processo do devir para a frente e para diante e que supera todas as suas formas de existir. Sendo fundamento da caducidade, ele não pode estar sujeito à caducidade e à morte. Cronos devora os seus filhos, mas não pode devorar o seu filho autêntico, o definitivamente cumprido ou realizado, porque este ainda não iniciou o seu processo, ainda não é, e, por isso, não pode ser afectado pela morte. Possui em torno de si o "círculo protector do ainda-não-vivo": o núcleo existencial é "imortal", porque, como ainda não começou o seu processo de vir a ser, impulsiona o processo de devir. É extraterritorial em relação à caducidade e à morte, no sentido de ser remetido para um eschaton de realização plena. A morte encontra-se apenas no momento da cisão, no qual o ser ainda não se realizou a si mesmo. A meditação blochiana da morte baseia-se nos conceitos de imortalidade da alma e de transmigração das almas, não na sua forma platónica, mas na forma que assumiu nas filosofias de Lessing, Kant e Fichte: a distinção blochiana entre vida e morte como núcleo da existência e casca fenoménica (invólucro) retoma a distinção entre o Eu transcendental, que caminha infinitamente para si mesmo na reflexão, tornando-se imortal, e os fenómenos condenados à mortalidade, através da transformação do sujeito transcendental e da sua conversão num sujeito que se supera infinitamente a si mesmo na esperança. É neste sujeito da esperança que reside o "imortal da consciência revolucionária-solidária": "o imortal na pessoa enquanto é o imortal das suas melhores intenções e conteúdos". A "alma da futura humanidade" aparece antecipadamente na consciência revolucionária. O núcleo existencial conquista-se a si mesmo, negando a história e o seu abismo mortal e, ao mesmo tempo, projectando-se no ainda-não-existente.
J Francisco Saraiva de Sousa

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Max Horkheimer: Teoria Crítica e Teologia

«O único modo que ainda resta à filosofia de se responsabilizar perante o desespero seria tentar ver as coisas como aparecem do ponto de vista da redenção. O conhecimento não tem outra luz, excepto a que brilha sobre o mundo a partir da redenção: tudo o mais se esgota na reconstrução e não passa de elemento técnico. Há que estabelecer perspectivas em que o mundo surja transposto, alienado, em que se mostrem as suas gretas e desgarramentos, como se oferece necessitado e disforme à luz messiânica. Situar-se em tais perspectivas sem arbitrariedade e violência, a partir do contacto com os objectos, só é dado ao pensamento». (Theodor W. Adorno)
Walter
Benjamin exerceu uma profunda influência sobre o pensamento de Adorno e, por intermédio deste último, sobre o pensamento tardio de Max Horkheimer. Todos os indivíduos humanos que morreram injustamente reclamam justiça plena. Os elogios póstumos e as ofertas de flores ou mesmo a mera recordação dos defuntos não são práticas suficientes para fazer justiça aos mortos: a justiça plena exige a reabilitação dos mortos e a sua recuperação para a vida. A vitória sobre a morte é a vitória sobre a injustiça total: o carrasco não pode prevalecer sobre a vítima. Horkheimer rejeita o marxismo soviético (Marcuse) que degenerou em ideologia e o iluminismo que se converteu numa nova mitologia: "O mito já é esclarecimento e o esclarecimento acaba por reverter à mitologia" (Adorno & Horkheimer). Esta dupla-recusa constitui um regresso ao individualismo, no sentido de que somente os indivíduos livres podem construir uma sociedade livre.
A filosofia tardia de Horkheimer encerra uma ideia teológica, podendo ser definida como uma teodiceia (M. Weber): um esforço teórico para explicar o sofrimento neste mundo relativo e contingente. A teologia não é, para Horkheimer, a "ciência de Deus" ou o "conhecimento de Deus", mas simplesmente a expressão da nostalgia - própria do homem - de justiça plena: "A teologia significa aqui a consciência de que o mundo é um fenómeno, de que não é a verdade absoluta nem a última. A teologia é a esperança de que a injustiça que caracteriza o mundo não pode permanecer assim, que o injusto não pode ser visto como a última palavra". Ou, de forma mais enfática, a teologia é a "expressão de uma ânsia, de uma nostalgia de que o assassino não pode triunfar sobre a vítima inocente". Esta concepção de teologia como expressão de uma nostalgia de justiça plena e a sua articulação com a teoria crítica - o marxismo - exigem alguns esclarecimentos teóricos.
1. Dialéctica da Finitude e da Infinitude. A existência de Deus não pode ser comprovada ou desmentida. O conhecimento do desamparo e da finitude humana não constitui prova da existência de Deus: a função do sentimento interior de Deus é produzir a esperança de que exista um absoluto positivo capaz de dar sentido à existência humana. Embora só seja possível mediante o pensamento de Deus, o conhecimento do desamparo não pode ser alcançado mediante o conhecimento do absoluto de Deus. O facto de não podermos afirmar ou negar a existência de Deus implica que a dialéctica do ateísmo/teísmo deve ser avaliada criticamente em função dos compromissos mundanos dos poderes religiosos com as estruturas sociais e as conjunturas políticas de cada época histórica: o marxismo não é, teoricamente falando, um ateísmo (Althusser). Além disso, não faz sentido falar de uma epistemologia da teologia, porque, como observou Althusser, a teologia é uma "ciência sem objecto", isto é, não é uma positividade: Deus não é objecto positivo de um discurso científico, mas a expressão sublime e o "objecto" da nostalgia humana de justiça plena, que não pode ser realizada na "história secular", em virtude da miséria passada e das deficiências da natureza não poderem ser evitadas.
2. Teologia Negativa. Seguindo S. Tomás de Aquino ou mesmo as teologias dialécticas de Karl Barth e de Rudolf Bultmann, Horkheimer advoga uma teologia negativa: não podemos afirmar nada sobre Deus. O absoluto, o inteiramente Outro, não pode ser representado e, quando falamos dele, limitamo-nos a dizer que vivemos num mundo que é algo relativo e contingente. Deus é, para os judeus, o inominável, e, para os cristãos, o segredo incompreensível, isto é, não pode ser representado por imagens ou por palavras. Para o judaísmo, não se trata de compreender como Deus é, mas sim de compreender como é o homem. A questão de Deus é fundamentalmente a questão do Homem (J. Alfaro, Bruno Forte, W. Pannenberg, J. Moltmann, G. Gutiérrez, D.A. Pallin): a teologia ajuda os homens a tomar consciência de que são seres limitados e finitos, condenados a sofrer e a morrer, mostrando-lhes que, para além do sofrimento e da morte, existe a ânsia de que a existência terrena não seja absoluta ou a única realidade. Esta é a função social da religião, o arquivo histórico onde estão depositados os desejos, os sonhos de um mundo melhor, os suspiros das criaturas oprimidas (Marx) e as queixas das gerações passadas: o reconhecimento de um ser transcendente atiça o descontentamento com o destino terreno. O teísmo de Horkheimer é um teísmo do protesto contra a ordem existente, cuja lógica imanente conduz ao mundo burocratizado, administrado e organizado que, eliminando a individualidade e a vontade livre, o amor ao próximo e a solidariedade, o amor e a família, a religião e a filosofia, caminha na direcção de uma catástrofe. Sob a influência da teoria crítica, Johannes B. Metz (teólogo) advogou a eliminação da sociedade injusta vigente por meio da revolução, isto é, do salto qualitativo.
3. Moral e Teologia. A teologia está por detrás de todo o actuar ou agir realmente humano: tudo o que diga respeito à moral funda-se, em definitivo, na teologia. A moral fundamenta-se na teologia, não no sentido de agirmos determinados pelo conhecimento de Deus, mas sim no sentido de agirmos baseados no "sentimento interior de que Deus existe". Esta é uma das fontes da moral; a outra é agirmos em relação aos outros de modo a fazê-los felizes e alegres, tornando assim a nossa própria vida mais bela. Num mundo burocratizado como o nosso, dominado por uma grande comercialização hipercapitalista e mergulhado numa crise profunda, mas carente de sentido e extremamente aborrecido, "é impossível salvar um sentido absoluto sem Deus". Esta frase de Horkheimer que foi alvo das críticas de J. Habermas aponta os limites do existencialismo ateu de Sartre: a vida em si mesma carece de sentido e, por isso, compete ao homem dar-lhe sentido. A rejeição de Deus significa que cabe ao homem a tarefa de "inventar valores". Cabe a cada um de nós escolher o seu ideal e a sua moral: a liberdade é o único fundamento dos valores e absolutamente nada justifica a adopção deste ou daquele valor, desta ou daquela escala de valores. A liberdade é o fundamento sem fundamento dos valores. Condenado a agir livremente, o homem é responsável pelas suas escolhas sinceras. As opções de cada homem não são puramente individuais, porque escolher para nós é escolher para todos os outros. Ao fazer uma escolha, o homem proclama o valor universal do alvo que visa. G. Lukács criticou severamente o existencialismo de Sartre, sublinhando o paradoxo que o domina: rejeita a existência de valores e de normas absolutas, ao mesmo tempo que reivindica o alcance universal da escolha individual. Não admira que Sartre tenha visto o homem como uma paixão inútil e que, em reacção a este ateísmo radical, V. Gardavsky tenha colocado a questão: O que pode oferecer um homem sem Deus?.
4. Teologia da Proximidade. A teologia negativa de Horkheimer é uma teologia da proximidade, elaborada a partir da concepção desenvolvida por Paul Tillich (teólogo) de que na ideia de sociedade justa está recolhida e superada a ideia cristã de amor ao próximo, o respeito pelos direitos de cada ser humano. Dado a situação do proletariado ter melhorado sem a revolução e o seu interesse comum já não se encontrar na mudança radical da sociedade hipercapitalista, mas apenas numa melhor configuração material do nível de vida, a noção de solidariedade deve ser usada para designar não a solidariedade de uma determinada classe social, mas sim a solidariedade humana resultante do facto dos homens sofrerem e serem seres finitos. Como membros da humanidade em que nos perpetuamos, estamos interessados pelo destino dos demais seres humanos e, quando pensamos em nós, fazemo-lo como membros dessa humanidade. Vivemos e lutamos para que os outros possam existir.
Acompanhando Schopenhauer, Horkheimer considera que a doutrina do pecado original constitui a doutrina mais grandiosa elaborada pelo judaísmo e pelo cristianismo: a afirmação de si mesmo, a negação dos demais indivíduos, constitui o pecado original propriamente dito. O indivíduo que age mal, negando com a sua vontade de viver a vontade dos outros e procurando a sua felicidade à custa da felicidade dos outros, volta a encarnar, segundo Schopenhauer, nalguma forma da sua vida anterior, suportando todos os sofrimentos até que, como mártir autêntico e real, se encontre próximo do sofrimento dos outros e sinta com eles compaixão e alegria. Ora, esta doutrina só é possível sob a condição de Deus ter criado o homem à sua imagem e semelhança, isto é, como um ser livre e como o único responsável pelo seu destino histórico, para o bem e para o mal. A solidariedade no sofrimento e na morte é alimentada pela ânsia de que a injustiça não terá a última palavra. A ideia da morte define não só a certeza da dissolução do eu, mas também a preocupação pela sobrevivência num tempo imprevisível, como ser vivo, sobre a Terra. A referência à identidade do ser vivo enquanto tal possibilita, segundo Horkheimer, fundamentar a solidariedade com todas as criaturas vivas, sem recorrer ao conceito bizarro e infantil de libertação animal avançado por Peter Singer.
5. Filosofia e Teologia. Ora, o nosso mundo burocratizado e administrado é uma das configurações sociais do pecado original: a actual crise financeira e económica indica uma das raízes do mal radical - a corrupção dos executivos de colarinho-branco que, nas últimas décadas, usaram o poder político para proveito pessoal, em detrimento dos bens e dos interesses universais da humanidade. A relação entre a teoria crítica e a teologia pode ser clarificada na sua conexão conjunta pela recusa enfática do mundo administrado que ameaça destruir a humanidade e a natureza. A função social da Filosofia consiste "na crítica da ordem existente". A crítica filosófica não significa "uma mania superficial de criticar determinadas ideias" ou determinadas situações sociais, na suposição de que a filosofia detém um ponto de vista privilegiado sobre o mundo, ou uma mera lamentação de uma circunstância isolada, para a qual o filósofo recomenda uma solução. Como crítica radical do mal existente, a Filosofia visa "impedir que os homens se percam naquelas ideias e formas de comportamento que a sociedade lhes inspira na sua organização racional actual", as quais os convertem em meros autómatos obedientes e submissos aos regulamentos racionais da organização burocrática: os homens precisam aprender a descobrir que o progresso e o seu aliado positivista põem em perigo não só a fé e o conhecimento crítico, incluindo a filosofia, mas também o desejo de um mundo melhor.
A teoria crítica não abdica do seu esforço político para "transformar o mundo" (Marx), isto é, para ajudar na tarefa prática da construção de um mundo cada vez melhor e cada vez mais razoável, livre e justo, mas, permanecendo fiel ao espírito da filosofia moderna que, desde Descartes até Kant e Hegel, procurou reconciliar a filosofia, a ciência e a teologia, encerra "um pensamento que tende para o teológico", isto é, para o inteiramente Outro: a abolição ancestralmente desejada da crueldade sem sentido. A supressão da teologia e da religião levada a cabo pela organização burocrática do mundo implica o desaparecimento do mundo daquilo a que chamamos sentido. Diante desta ameaça de despojar o mundo do sentido, entregando-o à actividade sem sentido, a teoria crítica é obrigada a assumir uma dupla-tarefa: "designar o que deve ser mudado e conservar determinados momentos culturais", incentivando a renovação da teologia e da sua integração no ensino universitário, a defesa do amor, da família e do indivíduo, e a reforma radical do ensino. Ao descrever o processo de mudança social e tecnológica a que está submetido o mundo moderno, a teoria crítica exprime o Mal existente e, ao mesmo tempo, procura transformá-lo através de uma praxis iluminada. Marx evitou expor em termos positivos o reino da liberdade: a sua crítica da sociedade capitalista identificou-a com o Mal existente, mas não descreveu positivamente o Bem desejado pela humanidade solidária. Embora não possa descrever o Absoluto e representá-lo, a teoria crítica pode caracterizar aquilo que nos faz sofrer e que precisa ser transformado através de um esforço comunitário de solidariedade. Os homens que partilham a precariedade do mundo no sofrimento e na morte devem unir-se na luta política por um mundo melhor. A teologia recorda que na vontade de verdade habita o desejo ou a ânsia do inteiramente Outro e, com este testemunho da justiça plena, ajuda a transformar o mundo na direcção do socialismo democrático: "O individualismo kantiano contém em si a verdade do socialismo. A unidade da liberdade e da justiça pertence ao miolo da filosofia kantiana" (Horkheimer).
J Francisco Saraiva de Sousa

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Foto de Família de Manuela Ferreira Leite


A fotomontagem vale mais do que um discurso político: o seu objectivo não é retratar as três gerações de uma família real - no centro os pais, atrás os filhos e os netos no colo dos avós -, mas sim retratar com humor uma família política - a família cavaquista - que pretende perpetuar-se no poder ao longo de três gerações de clones degenerados. A família cavaquista teme o riso, porque sabe que a gargalhada sonora denuncia o seu estilo de vida. Segundo Henri Bergson, a âmbito do cómico é determinado pela esfera humana: "não há comicidade fora do que é proprimente humano". As figuras vegetais e animais ou as formações naturais e os objectos só são formas cómicas quando nos lembram algum aspecto mecânico do corpo humano. O riso é desencadeado não por essas formas em si, independentemente do universo humano, mas pela rebeldia do corpo humano que se subtrai à lei da vida. A comicidade extra-humana é idêntica à comicidade humana em geral e às comicidades de situações, de palavras e de carácter em particular: "as atitudes, os gestos e os movimentos do corpo humano são cómicos na medida em que esse corpo nos leva a pensar num mero mecanismo". O cómico existe sempre que uma pessoa nos parece uma coisa ou que a nossa atenção se dirija à natureza física de um homem envolvido em situações em que o seu espírito está em primeiro plano, porque, nestas situações de desvio e de abuso da liberdade, os humanos defendem o instinto social. O nosso riso é sempre o riso de um grupo: "O riso é, antes de tudo, um castigo. Feito para humilhar, deve causar à sua vítima uma impressão penosa. A sociedade vinga-se através do riso das liberdades que se tomaram com ela. Ele não atingiria o seu objectivo se carregasse a marca da solidariedade e da bondade". A função social do riso é reprimir as tendências separatistas, corrigindo a rigidez e convertendo-a em maleabilidade. Qualquer aspecto da nossa pessoa que se furta à nossa consciência torna-nos risíveis. O riso cala a sensibilidade e exerce a inteligência, de modo a reajustar cada um dos membros do grupo a todos e a abrandar as angulosidades e as assimetrias. Rir da família cavaquista, em especial de Manuela Ferreita Leite, é castigá-la.
Uma família de clones. A família cavaquista não é dotada de grandes recursos biológicos: a unidade conjugal formada por Cavaco Silva - o marido - e Manuela Ferreira Leite - a esposa - é velha demais para se reproduzir com sucesso e eficácia através da reprodução sexual, sendo obrigada a confiar nas biotecnologias (financeiras) da clonagem. Do ponto de vista bio-ideológico, os filhos e o neto são clones do pai e as filhas e a neta são clones da mãe. Cada cônjuge protege os seus filhos clonados precocemente envelhecidos e feios. A idiotice dos netos torna visível uma síndrome familiar: a Síndrome de Down - ou trissomia do cromossoma 21 - causada pela presença de um cromossoma 21 extra. Da geração dos pais até à geração dos netos, passando pela geração dos filhos, há uma aceleração do retardamento mental: a vida política portuguesa é retratada como um processo acelerado de atrofia dos órgãos mentais e de indigência cognitiva das figuras públicas nacionais que gravitam em torno do casal cavaquista.
Uma família ideológica. A família cavaquista é uma velha família que se formou numa Escola de Economia de Lisboa, onde aprendeu a arte de apropriação ilícita e de gestão da propriedade alheia em benefício próprio, e, anos mais tarde, conquistou o poder político português, especializando-se na gestão dos fundos europeus e nas privatizações. A Escola de Economia não dotou o casal bio-ideológico de recursos culturais e linguístico-cognitivos: Cavaco Silva e Manuela Ferreira Leite só aprenderam a conjugar um único verbo - privatizar. O marido autoritário diz: "Eu privatizado para mim e para os meus clones descendentes. Tu privatizas para ti e para os teus clones descendentes. Nós privatizamos para a família alargada laranja. Eles - os do povo - que se lixem!" O tique autoritário do marido revela-se na mulher: Manuela Ferreira Leite defende a suspensão da democracia durante seis meses para pôr o país em ordem. Além disso, os membros do casal cavaquista unem-se compactamente em torno da ideia homofóbica de que a finalidade exclusiva da família é a procriação, mais precisamente a multiplicação de clones que secaram o sector financeiro do Porto e do Norte. Para os clones cavaquistas, privatizar significa antes de tudo centralizar e concentrar toda a riqueza nacional e todos os serviços e centros de decisão em Lisboa. A liberalização cavaquista é contrária ao liberalismo económico: a riqueza privada foi sistematicamente desviada para Lisboa e entregue à gestão dos clones ideológicos da família alargada cavaquista. A liberalização cavaquista é contrária à social-democracia: a centralização cavaquista criou assimetrias regionais e empobreceu o país. O cavaquismo converteu Lisboa numa Tenochtitlán portuguesa, onde todos os poderes se concentram e se confundem sob o domínio de uma classe dirigente político-empresarial e financeira inculta, imoral, irresponsável e corrupta.
Na história recente de Portugal, o cavaquismo significa corrupção generalizada e sistemática, conservadorismo moral, centralismo doentio que engordou à custa do saque do sector económico e financeiro do Norte, morte da alta cultura, degradação acelerada do sistema de ensino e de educação, instrumentalização da política, triunfo do pensamento único, congelamento ideológico do PSD, enfim, modo de produção asiático. O cavaquismo é a versão actual do salazarismo: o controle centralizado, burocrático e administrativo da riqueza das regiões de Portugal. Karl Wittfogel analisou a sociedade asiática, retomando, articulando-as, a noção liberal de despotismo oriental - no nosso caso, o centralismo cavaquista - e a noção marxista de modo de produção asiático. A tese fundamental de Wittfogel afirma a existência de formas pré-industriais de sistemas de Estado totalitário. As formas de Estado despótico - o despotismo oriental de Locke e de Montesquieu - surgiram, no passado remoto, como resultado da tentativa de controlar os recursos hidráulicos e as necessidades da agricultura de irrigação. O despotismo oriental é uma forma de dominação total, cuja essência reside no controle burocrático e administrativo de todas as instituições e actividades sociais, económicas, jurídico-políticas e culturais. A forma de governo predominante é altamente centralizada, burocrática e arbitrária: a burocracia não só calcula e coordena, como também comanda, bloqueando o surgimento de associações civis e de grupos sociais independentes que possam limitar e contrair o poder político. Nas sociedades asiáticas, as classes dirigentes - e os seus partidos políticos - são completamente fechadas e a burocracia instalada monopoliza o acesso aos meios de administração e aos centros de decisão. Este controle monopolista dos aparelhos de Estado, tanto dos aparelhos repressivos como dos aparelhos ideológicos - públicos ou privados, significa o monopólio do poder social real - político, jurídico, económico e ideológico, que não decorre da propriedade privada, mas do acesso aos meios burocráticos de controle centralizado e de apropriação corrupta. A sociedade asiática constitui um sistema sob controle total de um staff administrativo - as classes dirigentes cavaquistas -, que existe por causa do sistema de Estado. A teoria de Wittfogel relaciona o totalitarismo soviético com o seu fundamento agro-despótico pré-capitalista herdado da Rússia czarista, e, nesta perspectiva, permite-nos apreender as semelhanças desse totalitarismo com o totalitarismo neoliberal, tematizado como o fim da História por Francis Fukuyama ou como o choque de civilizações por Samuel Huntington. A chamada era da aldeia global (MacLuhan) caracteriza-se por uma tripla-revolução - tecnológica, económica e sociológica, cuja articulação impulsiona e dinamiza a mundialização da economia - a economia global e as suas empresas em rede (Manuel Castells), justificada e legitimada pela ideologia do pensamento único. A queda de Muro de Berlim e o colapso do comunismo fortaleceram o pensamento único, levando-o a reclamar a exclusividade ideológica. Doravante, conforme rezam a teologia de mercado (Marx), o fundamentalismo de mercado (Soros) ou a ideologia cavaquista economicista de cunho fatalista desmentida pela actual crise financeira e económica, só é possível uma única política económica codificada nos manuais neoliberais de economia assimilados nas universidades pelos novos usurpadores subnutridos culturalmente do poder político: as sociedades que queiram sobreviver num planeta entregue à selva da concorrência devem submeter-se aos critérios do mercado e do neoliberalismo, nomeadamente os da competitividade, da produtividade, do livre comércio ou da rentabilidade.
Uma família portuguesa. Portugal é um país pequeno, atrasado, badalhoco, feio, ignorante, covarde, histérico, e profundamente corrupto, dominado e governado por famílias bio-ideológicas sediadas em Lisboa que funcionam em rede de malha apertada, estreita e fechada. O conhecimento económico e financeiro é usado como uma espécie de privilégio das classes dirigentes que lhes permite gerir tudo em nome do interesse geral. Aparentemente, o seu lema afirma que o poder é conhecimento e que a riqueza é conhecimento. Mas, quando observadas de perto, as novas classes dirigentes não têm ideologia e não sentem necessidade de a ter, porque o seu domínio é conseguido sem ideias e a sua manipulação não precisa de qualquer tipo de justificação: a imoralidade absoluta reside precisamente nesta indiferença ideológica dos homens poderosos associada à irresponsabilidade organizada. A política é fatalmente substituída pela administração e pela gestão económica. A ascensão maligna do perito cavaquista implica necessariamente a abdicação do debate racional e o colapso da oposições: a argumentação racional é sistematicamente substituída pelas relações públicas e pela propaganda. Os novos dirigentes políticos substituiram o pensamento pelo lugar-comum, e os dogmas economicistas que legitimam as suas acções são de tal modo aceites que invalidam qualquer oposição: não existem alternativas fora da cartilha economicista dominante. A democracia é substituída pela cleptocracia: os líderes políticos já não são homens de pensamento e o público já não está informado. Seduzidos pelo fetiche do êxito, os clones cavaquistas são homens intelectualmente medíocres, cuja posições não resultam de virtudes morais e cujo êxito não depende de qualquer habilidade cognitiva meritória. Embora façam constantemente apelos ao conhecimento e às qualificações, os clones cavaquistas açambarcam o poder, mas carecem de conhecimento e de experiência: a sua sensibilidade é restringida às ideias resumidas e vulgarizadas, pré-digeridas e tendenciosas. Actualmente, os homens políticos - os clones ideológicos de Cavaco Silva - são uma espécie de lugares-tenentes técnicos que governam através de telefonemas, e-mails, memorandos, enfim, resumos estatísticos manipulados. São criaturas de tal modo irracionais e vulgares que despertam a desconfiança do público.
Portugal entrou plenamente na era do capitalismo organizado depois do 25 de Abril de 1974, em especial após a entrada na União Europeia e as reformas implementadas pelos governos de maioria absoluta do PSD. A liberalização promovida pelo PSD contribuiu decisivamente para o fortalecimento da nova classe média portuguesa, mais precisamente para a ascensão das novas classes dirigentes e a generalização da imoralidade que favorece a corrupção: a imoralidade instalada e institucionalizada permitiu usar os cargos políticos para proveito pessoal, o que quer dizer que a corrupção política constitui apenas um aspecto da imoralidade absoluta. A corrupção faz parte do esforço para enriquecer e ficar mais rico, porque, na ausência de uma ordem moral, o dinheiro é o único valor soberano que não foi eclipsado: o dinheiro funciona como o único critério de êxito. Ter dinheiro permite comprar coisas e pessoas. Geralmente, os homens corruptos são afáveis, bons ouvintes e muito sorridentes, fingem preocupar-se com os outros e procuram transmitir a imagem de que subiram na vida por mérito próprio, como se tivessem feito por conta própria e à custa de trabalho árduo. Porém, esta auto-imagem é absolutamente falsa: eles são carreiristas escolhidos entre pessoas que frequentam o mesmo círculo social. Aliás, eles filiam-se nos partidos políticos ou ligam-se a determinados círculos sociais e pseudoculturais com o objectivo premeditado de obter êxito, porque, numa sociedade de sucesso movida pela imoralidade do triunfo, o que é realmente relevante não é "o que se sabe", mas "quem se conhece". O cinismo cavaquista é a única atitude que se coaduna com este estado de consciência moral reduzida: os elos entre o mérito e a mobilidade social, entre a virtude e o êxito, foram quebrados, predominando o embrutecimento generalizado. Cavaco Silva e Manuela Ferreira Leite, bem como os seus clones ideológicos, sofrem activamente de ratiofobia (Veja aqui a pseudo-cultura homofóbica e salazarenta de Manuela Ferreira Leite).
Quando utilizada pelos clones cavaquistas, a noção de economia do conhecimento é um oxímoro: os homens embrutecidos não têm projectos de vida e são incapazes de protagonizar qualquer tipo de transcendência privada e pública. No entanto, eles pensam que possuem a receita tecnológica para resolver todos os problemas sociais: a mentalidade de engenheiro manipula toda a realidade de modo a adaptá-la e a submetê-la aos imperativos de uma economia do lucro colocada ao serviço dos interesses pessoais dos membros das classes dirigentes nacionais e das suas famílias biológicas e ideológicas. Esta mentalidade foi aplicada à educação e à comunicação social, com resultados absolutamente regressivos. Ambas as instituições funcionam como ideologias de adaptação a um estilo de vida consumista e medíocre que, em vez de estimular o pleno desenvolvimento das capacidades cognitivas e do espírito crítico, fomenta a apologia da ordem social estabelecida. A profissionalização e a burocratização da escola estimularam a mediocridade intelectual e a abertura de novos canais privados de televisão fez emergir as chamadas celebridades como figuras bombásticas que monopolizam o cenário da visibilidade pública. A frivolidade destes ídolos ocos seduz o público desinformado, dependente, apático e impotente: o seu poder é o da distracção e a distracção funciona, neste universo de ignorância activa, como uma forma de desviar a atenção, obscurecendo-a, das acções ilícitas dos homens do poder. A massificação e a liberalização cavaquista não são processos contrários, mas sim momentos de uma mesma estratégia económica: a colonização económica da sociedade, da cultura e do mundo da vida. A esfera pública portuguesa tornou-se frívola e sombria, totalmente superficial, substancialmente oca e absolutamente estupidificante e avessa à cultura superior. A fórmula que lhe dá unidade não está destinada ao pleno desenvolvimento do ser humano: a esfera pública portuguesa é um pseudomundo, inventado e mantido por celebridades medíocres cujas expressões fazem lembrar os automatismos exibidos pelos animais, bobos e palhaços dos circos.
À luz dos acontecimentos despoletados pela crise financeira no sector bancário privado português, podemos definir a essência da liberalização cavaquista como uma espécie de processo de acumulação corrupta de capital, no decorrer do qual os negócios penetraram em todos os sectores da vida social, degradando a política, o partido no poder, neste caso, o próprio PSD, a educação e o ensino, a saúde, a cultura e a comunicação social. Usando uma figura retórica: no Terreiro do Paço, os políticos concederam favores financeiros aos homens da economia dispostos a aceitá-los e os homens da economia encontraram nos políticos a disposição de oferecer favores políticos em troca de favores financeiros. O vai-vem entre a política, as grandes empresas e o sector financeiro solidificou-se ao abrigo da ideologia do crescimento económico e os cargos públicos começaram a ser descaradamente usados para proveito pessoal. Em Portugal, o poder está nas mãos de um triunvirato que liga entre si três áreas do conhecimento técnico: a Economia, a Engenharia e o Direito. Este triunvirato gere a "coisa pública" de modo a facilitar o seu próprio enriquecimento privado, não só mediante a remuneração elevada e os benefícios sociais auto-atribuídos, mas também e sobretudo através da aquisição burlesca de propriedade. Os economistas estabelecem o modelo geral da governação e de desenvolvimento, que os engenheiros aplicam tecnologicamente a todos os sectores da vida social e que os juristas normalizam mediante manipulações das leis e o seu uso pessoal. Os conhecimentos destes peritos tornados políticos acomodam-se inconsciente ou premeditadamente aos imperativos da organização tecnoburocrática do mundo moderno, de modo que a criminalidade de colarinho-branco, se for bem organizada, em bases comerciais e jurídicas, compensa: o sentimento de "quanto maior o ladrão, menor a probabilidade de ser preso", invade toda a sociedade. Neste clima de desconfiança pública e de descrédito da política, muito sensível ao agravamento das desigualdades sociais, das assimetrias de poder e dos conflitos sociais, o medo dos portugueses justifica-se. Tal como o resto da Europa, Portugal está realmente sem líderes políticos. O futuro dos portugueses está de tal modo comprometido que nem sequer o seu passado está a salvo da destruição do esquecimento e da alienação bolsista.
J Francisco Saraiva de Sousa