«E o que há paraconquistar,
Por força e obediência, já antes foi descoberto
Uma vez ou duas, ou várias vezes, por homens que não
podemos ter esperança
De emular - mas não se trata de competição -
Trata-se apenas da luta para recuperar o que se perdeu
E achou e perdeu outra e outra vez: e agora, sob condições
Que parecem desfavoráveis». (T.S. Eliot) Eric Voegelin descreveu a sua obra filosófica como uma aventura anamnética, isto é, como um exercício de recuperação do que foi descoberto e que corre o perigo constante de ser esquecido. Voegelin define a ciência política como "a interpretação noética do homem, da sociedade e da história", que emerge do background de interpretações não-noéticas e com as quais entra em colisão. A ciência política elabora símbolos que ajudam o homem a adquirir uma compreensão mais diferenciada e autocrítica da realidade política. A ciência política é filosofia política entendida como filosofia da ordem, mediante a qual os homens descobrem a ordem da nossa existência na ordem da consciência. O filósofo político é politicamente tão activo quanto o candidato a um cargo electivo. A viabilidade das instituições políticas depende da auto-interpretação subjacente às sociedades. Quando estas interpretações desabam, como sucede nos períodos de crise, as instituições ameaçam ruir. A compreensão da política deve expandir-se para integrar, além do interesse pela participação dos candidatos e dos eleitores nos actos eleitorais, a preocupação com o envolvimento e a participação do homem no drama da história. Cabe ao filósofo traçar e definir os contornos do esquema amplo das coisas sobre a tela da experiência total do homem. Apesar de criticar a gnose especulativa de Schelling e de Hegel e a gnose volitiva de Marx, Voegelin conserva a noção de que a teoria política é uma teoria da história, permanecendo assim prisioneiro da tradição do pensamento político ocidental que começa com Platão e termina em Marx (Arendt) e que pretende superar com a sua crítica ultraconservadora da modernidade vista como revolução gnóstica. O Compromisso com a Verdade - o lema da campanha eleitoral de Manuela Ferreira Leite - encobre intencionalmente a sua verdade: a restauração do regime cavaquista. A interpretação voegeliana da modernidade como algo gnóstico pode ser devolvida
à Direita ultraconservadora protagonizada, nas circunstâncias presentes, por Manuela Ferreira Leite: o cavaquismo leitista opera a substituição da realidade política por construções espúrias de uma segunda realidade que reverte completamente a sequência da autêntica filosofia política, subordinando o homem, a sociedade e a história à economia. O resultado deste processo de deformação ideológica da realidade conduz inexoravelmente ao eclipse da realidade política, ao fim da história e à abolição do homem (C.S. Lewis). O cavaquismo leitista é, na sua essência, gnosticismo economicista de cunho fatalista: o homem é reduzido a um mero instrumento da economia concebida como uma realidade superior à pessoa humana. O gnosticismo economicista colonizou toda a realidade globalizante, incluindo o homem, a sociedade, a cultura e o mundo da vida, impondo-lhe uma gestão económica que a priva da sua autonomia relativa. Os gnósticos economicistas são indiferentes aos sofrimentos das pessoas que os ajudam a adquirir riquezas, arvorando-se em "fatalistas indiferentes que, do alto da sua posição, lançam um soberbo olhar de desdém sobre os homens locomotivas que fabricam as riquezas" (Marx). Com Cavaco Silva, o PSD rompeu com o estilo de Francisco Sá Carneiro de fazer política, introduzindo um novo estilo - o estilo antipolítico de fazer política retomado por Manuela Ferreira Leite nesta campanha eleitoral. Os antipolíticos cavaquistas não só descaracterizaram ideologicamente o PSD, secando-o completamente, como também contribuíram para o descrédito da política e da democracia em Portugal, agravado pelo fenómeno da corrupção generalizada que deriva desse estilo antipolítico de governar. A política subjugada pela economia transforma-se em algo estranho à vida humana qualitativa: as pessoas que não dominam a linguagem dos números afastam-se da política e os políticos economicamente orientados ajudam a descredibilizar a política quando se apresentam como não-políticos que sacrificam a sua vida profissional e pessoal ao serviço da coisa pública, assumindo essa pesada tarefa de governar. A política economicamente orientada - aquela que é ensinada nas escolas portuguesas de economia - é uma política de classe, que sacrifica sistematicamente o futuro dos portugueses e o interesse nacional para conservar e garantir os privilégios das elites dirigentes e dos grandes grupos económicos. A economia e o Estado não estão ao serviço do homem; pelo contrário, os portugueses é que estão ao serviço do luso-sistema gerador de pobreza, miséria, assimetrias regionais, desigualdades sociais e corrupção generalizada. Convertida em ciência do roubo, a economia é usada pelas elites instaladas não para promover o desenvolvimento económico nacional, mas para facilitar o enriquecimento dos membros dessa família alargada de clones ideológicos que, sob a liderança de Manuela Ferreira Leite, querem continuar a jogar o destino dos portugueses - as suas reformas, a sua saúde, a sua educação - nas roletas dos casinos. Tal como o mundo inteiro, Portugal está mergulhado numa crise profunda. A filosofia mergulha na profundeza da psique sempre que ocorrem crises como esta que vivemos. As crises acontecem quando os símbolos tradicionais perdem aceleradamente a sua credibilidade e quando os símbolos articulados mais recentes transmitem um sentido de realidade distorcido ou deformado. O cavaquismo clonado de Manuela Ferreira Leite não seduz o pensamento filosófico, porque, em vez de se abrir à novidade e ao pensamento, liquida o pensamento e bloqueia o acesso à verdade sobre a realidade. Enquanto Sócrates encara a luta política entre o PS e o PSD como um confronto entre duas cosmovisões diferentes, Manuela Ferreira Leite prefere ver na política um confronto entre duas personalidades e entre dois currículos. Além de ser arrogante, o seu discurso da seriedade e da competência é um discurso antipolítico. O silêncio dos políticos orientados economicamente não só encobre as suas deficiências cognitivas e linguísticas, como também intimida os cidadãos, levando-os a acreditar que a política é uma actividade que exige treino económico, financeiro e técnico, inacessível à compreensão do senso comum. O regime do silêncio é contrário ao regime da palavra aberta e recíproca que caracteriza a democracia: só os pretendentes a tiranos são mudos. Os políticos antipolíticos profissionais dizem sempre que não precisam da política para ganhar a vida; no entanto, toda a sua carreira profissional foi e continua a ser política: eles não dizem o que pensam e não pensam o que dizem. Aliás, Manuela Ferreira Leite só diz o que deveras pensa e pensa o que deveras diz quando comete as suas habituais gafes: a ditadura dos seis meses, o discurso contra os imigrantes, o não-reconhecimento legal dos casais do mesmo sexo, a guerra contra a Espanha na questão do TGV, enfim o elogio do regime autoritário e democraticamente sufocante de A. João Jardim. A negação da crise mundial é, no caso de Manuela Ferreira Leite, motivada pelo desejo de manter o mesmo sistema neoliberal que conduziu à crise financeira e económica. Nos períodos de crise, a filosofia política precisa descer às profundezas da psique humana e voltar à noite da profundidade que a verdade ilumina para o homem disposto à procurá-la. Manuela Ferreira Leite não está disposta a procurar a verdade, porque, ao negar a existência da crise mundial e dos seus efeitos negativos sobre a economia nacional, diz NÃO à renovação e ao desenvolvimento económico, olhando para o passado com saudade. Manuela Ferreira Leite não sabe - ela própria o disse no debate com José Sócrates - o que fazer para responder com imaginação política à crise internacional que não poupou Portugal: a sua reacção imediata é parar, RASGAR e suspender os grandes projectos, incluindo a democracia, alegando que não quer endividar as gerações vindouras. Com esta paralisia da imaginação política, Manuela Ferreira Leite abdica do futuro. A ausência de propostas positivas no programa eleitoral do PSD evidencia os apagões políticos (José Sócrates) da sua líder: o PSD está mais interessado na manutenção do status quo do que na sua mudança social qualitativa. O PSD é um partido ultraconservador da Direita amedrontada com o futuro. A geriatria decadente e pútrida apoderou-se do partido laranja, convertendo-o com a bênção de Pacheco Pereira em aparelho produtor de fantasmas e de mentiras. O PSD é um partido fantasmagórico que gera lençóis brancos para bloquear a acção daqueles que acreditam no futuro de Portugal: a palavra renovação não faz parte do seu vocabulário político. A demência política deste PSD ultraconservador atraí o voto dos fascistas e dos neo-nazis portugueses que afirmam - sem corar de vergonha - que as polícias são controladas pela maçonaria (Vasco Graça Moura) e que o PS tem uma agenda gayzista (Alberto João Jardim). Renovação da verdade. As crises exigem um novo pensamento capaz de as superar e de incorporar um avanço na auto-interpretação do homem. Ora, o cavaquismo clonado de Manuela Ferreira Leite nega a própria existência da crise, atribuindo todos os males que vivemos em Portugal e no mundo à mente perversa de José Sócrates que, sob a orientação dos espanhóis, conspira contra a independência nacional. Em vez de apresentar propostas positivas para Portugal, o discurso de Manuela Ferreira Leite gera fantasmas e conspirações contra José Sócrates, os ministros, os socialistas, os imigrantes, os homossexuais, os espanhóis, as obras públicas e o investimento público. Manuela Ferreira Leite e os seus clones ideológicos querem conquistar a confiança dos portugueses, não através do mérito do seu programa, mas sim através de mentiras e de difamações. O Compromisso com a verdade do PSD é, como disse José Sócrates no frente-a-frente com Manuela Ferreira Leite, puro oportunismo político: a caça imoral ao voto dos portugueses. O gnosticismo economicista de Manuela Ferreira Leite é inimigo da verdade sobre a realidade: o seu objectivo oculto é a abolição da realidade, de modo a conservar e a perpetuar o domínio de uma classe dirigente degradada e corrupta que reduz a política a um mero instrumento dos seus próprios interesses particulares e dos interesses corporativos de determinados grupos profissionais. Os fantasmas gerados pelas mentes ideológica e magicamente deformadas dos clones cavaquistas eclipsam a realidade, criando uma falsa realidade que induz medo do futuro. Sentindo-se ameaçada pelo ritmo da mudança e do desenvolvimento tecnológico, Manuela Ferreira Leite procura a todo o custo asfixiar o futuro, mergulhando magicamente o país num passado mitificado e, como tal, avesso à verdade. O PSD ultraconservador de Manuela Ferreira Leite está comprometido não com a verdade e a busca cooperativa de uma nova verdade, mas com a mentira de um passado deformado pelos interesses de uma geração maldita (Baudelaire) que nada fez para libertar Portugal do atraso estrutural que lhe foi imposto pelo salazarismo. O leitismo é pensamento gordo, isto é, uma "filosofia do porco" (Guerra Junqueiro) que procura legitimar "a sociedade organizada para o mal", o deus-milhão das bolsas dos bancos laranjas (Guerra Junqueiro), que elimina os refractários internos e difama os refractários externos: "Quem sobre a terra portuguesa defender a justiça, pugnar pelo direito ou batalhar pela verdade, granjeia em prémio a calúnia, o cárcere, o desterro, a miséria e a morte. Mas, uma ordem social, que eleva criminosos - os corruptos - e martiriza justos, é a negação das leis humanas e divinas, e cumpre-nos arrasá-la de alto a baixo, a ferro e a fogo, até aos alicerces!" (Guerra Junqueiro). Lutar contra o PSD reaccionário de Manuela Ferreira Leite é libertar Portugal do regime da escassez (Pacheco Pereira) dominado por "um bando de interesses guardados por polícia". Renovação do homem. Nesta campanha eleitoral, Manuela Ferreira Leite revela a face oculta da ideologia subjacente à política economicamente orientada: a ideologia inumana da política do poder - Realpolitik - que conduz os homens para um mundo de quimeras bolsistas, substituindo a realidade pela ideia neoliberal enquanto mero produto da mente economicista, sem levar em conta a sua adequação com a coisa, segundo a definição clássica da verdade. As figuras humanas que recusam encaixar-se nessa ideia que Manuela Ferreira Leite quer impor - o seu verbo preferido, como observou com ironia Paulo Portas - a Portugal, contra a vontade geral dos portugueses e o sentido universal da sua história, são estigmatizadas e excluídas. Do alto da sua posição arrogante, donde julga poder reclamar o exclusivo da verdade e da moral, Manuela Ferreira Leite lança um olhar de desdém sobre todos os homens que escapam aos moldes estreitos da sua visão do mundo. Manuela Ferreira Leite não suporta a oposição, interna e externa: ela odeia os imigrantes que procuram ganhar a vida em Portugal, José Sócrates que julga ser um homem destituído de princípios éticos, os homossexuais que desejam sair da clandestinidade, a democracia que acusa de impedir a implementação das reformas, os espanhóis por tentarem roubar a independência nacional, a alta velocidade e as novas tecnologias que sulcam a globalização, o pensamento negativo que transcende os estreitos horizontes da sua visão anémica do mundo, os intelectuais e os artistas que se indignam com as suas ideias passadistas, enfim todas as figuras humanas que lutam contra as trevas e o eixo do mal em nome da busca cooperativa da verdade. Xenofobia, racismo, nacionalismo medíocre, isolamento geopolítico e económico ou mesmo homofobia constituem indicadores de que o discurso de Manuela Ferreira Leite se dirige contra a modernização, optando claramente por um modelo de sociedade fechada. Manuela Ferreira Leite é uma inimiga pública da sociedade aberta tal como a vislumbrou Henri Bergson: a sua frase salazarenta - "Portugal não é uma província de Espanha" (Mas quem disse o contrário?) - significa o desejo de isolar os portugueses da humanidade inteira, inclusive dos restantes europeus. O isolacionismo económico defendido pela líder do PSD constitui outra reminiscência do salazarismo. A abolição do homem - reduzido a uma cifra económica e, no caso de ser uma figura inconformista e rebelde, a um estigma entregue aos crimes de ódio - e da sua participação no drama da história universal revela o carácter antidemocrático e salazarento do pensamento político de Manuela Ferreira Leite. O homem existe para servir o governo: eis o resultado da ideologização anti-humana da política orientada economicamente. A ideologia desta política de Manuela Ferreira Leite que deforma e distorce a realidade do homem é a existência em revolta contra o homem e o mundo: o gnosticismo economicista de Manuela Ferreira Leite retira da sociedade civil a tarefa de criar uma nova ordem capaz de dotar a existência histórica dos portugueses com um sentido em termos de fins humanos. J Francisco Saraiva de Sousa
à Direita ultraconservadora protagonizada, nas circunstâncias presentes, por Manuela Ferreira Leite: o cavaquismo leitista opera a substituição da realidade política por construções espúrias de uma segunda realidade que reverte completamente a sequência da autêntica filosofia política, subordinando o homem, a sociedade e a história à economia. O resultado deste processo de deformação ideológica da realidade conduz inexoravelmente ao eclipse da realidade política, ao fim da história e à abolição do homem (C.S. Lewis). O cavaquismo leitista é, na sua essência, gnosticismo economicista de cunho fatalista: o homem é reduzido a um mero instrumento da economia concebida como uma realidade superior à pessoa humana. O gnosticismo economicista colonizou toda a realidade globalizante, incluindo o homem, a sociedade, a cultura e o mundo da vida, impondo-lhe uma gestão económica que a priva da sua autonomia relativa. Os gnósticos economicistas são indiferentes aos sofrimentos das pessoas que os ajudam a adquirir riquezas, arvorando-se em "fatalistas indiferentes que, do alto da sua posição, lançam um soberbo olhar de desdém sobre os homens locomotivas que fabricam as riquezas" (Marx). Com Cavaco Silva, o PSD rompeu com o estilo de Francisco Sá Carneiro de fazer política, introduzindo um novo estilo - o estilo antipolítico de fazer política retomado por Manuela Ferreira Leite nesta campanha eleitoral. Os antipolíticos cavaquistas não só descaracterizaram ideologicamente o PSD, secando-o completamente, como também contribuíram para o descrédito da política e da democracia em Portugal, agravado pelo fenómeno da corrupção generalizada que deriva desse estilo antipolítico de governar. A política subjugada pela economia transforma-se em algo estranho à vida humana qualitativa: as pessoas que não dominam a linguagem dos números afastam-se da política e os políticos economicamente orientados ajudam a descredibilizar a política quando se apresentam como não-políticos que sacrificam a sua vida profissional e pessoal ao serviço da coisa pública, assumindo essa pesada tarefa de governar. A política economicamente orientada - aquela que é ensinada nas escolas portuguesas de economia - é uma política de classe, que sacrifica sistematicamente o futuro dos portugueses e o interesse nacional para conservar e garantir os privilégios das elites dirigentes e dos grandes grupos económicos. A economia e o Estado não estão ao serviço do homem; pelo contrário, os portugueses é que estão ao serviço do luso-sistema gerador de pobreza, miséria, assimetrias regionais, desigualdades sociais e corrupção generalizada. Convertida em ciência do roubo, a economia é usada pelas elites instaladas não para promover o desenvolvimento económico nacional, mas para facilitar o enriquecimento dos membros dessa família alargada de clones ideológicos que, sob a liderança de Manuela Ferreira Leite, querem continuar a jogar o destino dos portugueses - as suas reformas, a sua saúde, a sua educação - nas roletas dos casinos. Tal como o mundo inteiro, Portugal está mergulhado numa crise profunda. A filosofia mergulha na profundeza da psique sempre que ocorrem crises como esta que vivemos. As crises acontecem quando os símbolos tradicionais perdem aceleradamente a sua credibilidade e quando os símbolos articulados mais recentes transmitem um sentido de realidade distorcido ou deformado. O cavaquismo clonado de Manuela Ferreira Leite não seduz o pensamento filosófico, porque, em vez de se abrir à novidade e ao pensamento, liquida o pensamento e bloqueia o acesso à verdade sobre a realidade. Enquanto Sócrates encara a luta política entre o PS e o PSD como um confronto entre duas cosmovisões diferentes, Manuela Ferreira Leite prefere ver na política um confronto entre duas personalidades e entre dois currículos. Além de ser arrogante, o seu discurso da seriedade e da competência é um discurso antipolítico. O silêncio dos políticos orientados economicamente não só encobre as suas deficiências cognitivas e linguísticas, como também intimida os cidadãos, levando-os a acreditar que a política é uma actividade que exige treino económico, financeiro e técnico, inacessível à compreensão do senso comum. O regime do silêncio é contrário ao regime da palavra aberta e recíproca que caracteriza a democracia: só os pretendentes a tiranos são mudos. Os políticos antipolíticos profissionais dizem sempre que não precisam da política para ganhar a vida; no entanto, toda a sua carreira profissional foi e continua a ser política: eles não dizem o que pensam e não pensam o que dizem. Aliás, Manuela Ferreira Leite só diz o que deveras pensa e pensa o que deveras diz quando comete as suas habituais gafes: a ditadura dos seis meses, o discurso contra os imigrantes, o não-reconhecimento legal dos casais do mesmo sexo, a guerra contra a Espanha na questão do TGV, enfim o elogio do regime autoritário e democraticamente sufocante de A. João Jardim. A negação da crise mundial é, no caso de Manuela Ferreira Leite, motivada pelo desejo de manter o mesmo sistema neoliberal que conduziu à crise financeira e económica. Nos períodos de crise, a filosofia política precisa descer às profundezas da psique humana e voltar à noite da profundidade que a verdade ilumina para o homem disposto à procurá-la. Manuela Ferreira Leite não está disposta a procurar a verdade, porque, ao negar a existência da crise mundial e dos seus efeitos negativos sobre a economia nacional, diz NÃO à renovação e ao desenvolvimento económico, olhando para o passado com saudade. Manuela Ferreira Leite não sabe - ela própria o disse no debate com José Sócrates - o que fazer para responder com imaginação política à crise internacional que não poupou Portugal: a sua reacção imediata é parar, RASGAR e suspender os grandes projectos, incluindo a democracia, alegando que não quer endividar as gerações vindouras. Com esta paralisia da imaginação política, Manuela Ferreira Leite abdica do futuro. A ausência de propostas positivas no programa eleitoral do PSD evidencia os apagões políticos (José Sócrates) da sua líder: o PSD está mais interessado na manutenção do status quo do que na sua mudança social qualitativa. O PSD é um partido ultraconservador da Direita amedrontada com o futuro. A geriatria decadente e pútrida apoderou-se do partido laranja, convertendo-o com a bênção de Pacheco Pereira em aparelho produtor de fantasmas e de mentiras. O PSD é um partido fantasmagórico que gera lençóis brancos para bloquear a acção daqueles que acreditam no futuro de Portugal: a palavra renovação não faz parte do seu vocabulário político. A demência política deste PSD ultraconservador atraí o voto dos fascistas e dos neo-nazis portugueses que afirmam - sem corar de vergonha - que as polícias são controladas pela maçonaria (Vasco Graça Moura) e que o PS tem uma agenda gayzista (Alberto João Jardim). Renovação da verdade. As crises exigem um novo pensamento capaz de as superar e de incorporar um avanço na auto-interpretação do homem. Ora, o cavaquismo clonado de Manuela Ferreira Leite nega a própria existência da crise, atribuindo todos os males que vivemos em Portugal e no mundo à mente perversa de José Sócrates que, sob a orientação dos espanhóis, conspira contra a independência nacional. Em vez de apresentar propostas positivas para Portugal, o discurso de Manuela Ferreira Leite gera fantasmas e conspirações contra José Sócrates, os ministros, os socialistas, os imigrantes, os homossexuais, os espanhóis, as obras públicas e o investimento público. Manuela Ferreira Leite e os seus clones ideológicos querem conquistar a confiança dos portugueses, não através do mérito do seu programa, mas sim através de mentiras e de difamações. O Compromisso com a verdade do PSD é, como disse José Sócrates no frente-a-frente com Manuela Ferreira Leite, puro oportunismo político: a caça imoral ao voto dos portugueses. O gnosticismo economicista de Manuela Ferreira Leite é inimigo da verdade sobre a realidade: o seu objectivo oculto é a abolição da realidade, de modo a conservar e a perpetuar o domínio de uma classe dirigente degradada e corrupta que reduz a política a um mero instrumento dos seus próprios interesses particulares e dos interesses corporativos de determinados grupos profissionais. Os fantasmas gerados pelas mentes ideológica e magicamente deformadas dos clones cavaquistas eclipsam a realidade, criando uma falsa realidade que induz medo do futuro. Sentindo-se ameaçada pelo ritmo da mudança e do desenvolvimento tecnológico, Manuela Ferreira Leite procura a todo o custo asfixiar o futuro, mergulhando magicamente o país num passado mitificado e, como tal, avesso à verdade. O PSD ultraconservador de Manuela Ferreira Leite está comprometido não com a verdade e a busca cooperativa de uma nova verdade, mas com a mentira de um passado deformado pelos interesses de uma geração maldita (Baudelaire) que nada fez para libertar Portugal do atraso estrutural que lhe foi imposto pelo salazarismo. O leitismo é pensamento gordo, isto é, uma "filosofia do porco" (Guerra Junqueiro) que procura legitimar "a sociedade organizada para o mal", o deus-milhão das bolsas dos bancos laranjas (Guerra Junqueiro), que elimina os refractários internos e difama os refractários externos: "Quem sobre a terra portuguesa defender a justiça, pugnar pelo direito ou batalhar pela verdade, granjeia em prémio a calúnia, o cárcere, o desterro, a miséria e a morte. Mas, uma ordem social, que eleva criminosos - os corruptos - e martiriza justos, é a negação das leis humanas e divinas, e cumpre-nos arrasá-la de alto a baixo, a ferro e a fogo, até aos alicerces!" (Guerra Junqueiro). Lutar contra o PSD reaccionário de Manuela Ferreira Leite é libertar Portugal do regime da escassez (Pacheco Pereira) dominado por "um bando de interesses guardados por polícia". Renovação do homem. Nesta campanha eleitoral, Manuela Ferreira Leite revela a face oculta da ideologia subjacente à política economicamente orientada: a ideologia inumana da política do poder - Realpolitik - que conduz os homens para um mundo de quimeras bolsistas, substituindo a realidade pela ideia neoliberal enquanto mero produto da mente economicista, sem levar em conta a sua adequação com a coisa, segundo a definição clássica da verdade. As figuras humanas que recusam encaixar-se nessa ideia que Manuela Ferreira Leite quer impor - o seu verbo preferido, como observou com ironia Paulo Portas - a Portugal, contra a vontade geral dos portugueses e o sentido universal da sua história, são estigmatizadas e excluídas. Do alto da sua posição arrogante, donde julga poder reclamar o exclusivo da verdade e da moral, Manuela Ferreira Leite lança um olhar de desdém sobre todos os homens que escapam aos moldes estreitos da sua visão do mundo. Manuela Ferreira Leite não suporta a oposição, interna e externa: ela odeia os imigrantes que procuram ganhar a vida em Portugal, José Sócrates que julga ser um homem destituído de princípios éticos, os homossexuais que desejam sair da clandestinidade, a democracia que acusa de impedir a implementação das reformas, os espanhóis por tentarem roubar a independência nacional, a alta velocidade e as novas tecnologias que sulcam a globalização, o pensamento negativo que transcende os estreitos horizontes da sua visão anémica do mundo, os intelectuais e os artistas que se indignam com as suas ideias passadistas, enfim todas as figuras humanas que lutam contra as trevas e o eixo do mal em nome da busca cooperativa da verdade. Xenofobia, racismo, nacionalismo medíocre, isolamento geopolítico e económico ou mesmo homofobia constituem indicadores de que o discurso de Manuela Ferreira Leite se dirige contra a modernização, optando claramente por um modelo de sociedade fechada. Manuela Ferreira Leite é uma inimiga pública da sociedade aberta tal como a vislumbrou Henri Bergson: a sua frase salazarenta - "Portugal não é uma província de Espanha" (Mas quem disse o contrário?) - significa o desejo de isolar os portugueses da humanidade inteira, inclusive dos restantes europeus. O isolacionismo económico defendido pela líder do PSD constitui outra reminiscência do salazarismo. A abolição do homem - reduzido a uma cifra económica e, no caso de ser uma figura inconformista e rebelde, a um estigma entregue aos crimes de ódio - e da sua participação no drama da história universal revela o carácter antidemocrático e salazarento do pensamento político de Manuela Ferreira Leite. O homem existe para servir o governo: eis o resultado da ideologização anti-humana da política orientada economicamente. A ideologia desta política de Manuela Ferreira Leite que deforma e distorce a realidade do homem é a existência em revolta contra o homem e o mundo: o gnosticismo economicista de Manuela Ferreira Leite retira da sociedade civil a tarefa de criar uma nova ordem capaz de dotar a existência histórica dos portugueses com um sentido em termos de fins humanos. J Francisco Saraiva de Sousa
«Toda a emancipação constitui uma restituição do mundo humano e das relações humanas ao próprio homem. A emancipação política é uma redução do homem, por um lado, a membro da sociedade civil, indivíduo independente e egoísta e, por outro lado, a cidadão, a pessoa moral. A emancipação humana só será plena quando o homem real e individual tiver absorvido em si o cidadão abstracto; quando como homem individual, na vida de cada dia, no trabalho e nas suas relações, se tiver tornado um ser genérico; e quando tiver reconhecido e organizado os seus próprios poderes como poderes sociais, de maneira a nunca mais separar de si este poder social como poder político». (Karl Marx) 

«O sonho do homem actual é ser um esqueleto antecipado, com asas de alumínio, sobre um planeta roído até ao caroço. Ao homem mitológico, escravo dos deuses, sucedeu o (homem) metafísico, escravo dum Deus; e a este, o (homem) industrial, escravo duma deusa de metal, aquela mulher eléctrica, numa barraca de feira, estendendo a vara mágica aos labregos espantados». «O homem é mais moisaico que darwínico, mais antropos que antropóide, o que a ciência não admite». «O orango arrependido de ser homem, eis o drama psicológico moderno». «A finalidade da vida é a definição da existência. E digo finalidade, porque todo o esforço da Natureza se dirigiu e dirige num sentido humano ou consciente». «O destino do homem é ser a consciência do Universo em ascensão perpétua para Deus». «O homem é ele e o seu habitat. É céu e terra contidos numa definição espiritual ou consciente». «O homem, sonhando, transborda de si mesmo, amplia o mundo, porque ilumina as suas dimensões desconhecidas. O sonho é alta temperatura, um estado térmico da alma, a sua incandescência». «Que seria do mundo sem o homem? Permaneceria como abismado numa absoluta inexistência». «O absoluto é dos poetas e o relativo é da ciência. O sábio observa, analisa, decompõe; o filósofo generaliza, dá o conjunto; o poeta dá o significado anímico das coisas, a sua própria natureza». «O inimigo da poesia não é o sábio verdadeiro, mas o pseudo-cientista, muito pedante do que imagina saber oficialmente. Ser homem é já ser poeta ou possesso duma grandeza misteriosa». «A essência das coisas, essa verdade oculta na mentira, é de natureza poética e não científica. Aparece ao luar da inspiração e não à claridade fria da razão». «Em todo o poeta verdadeiro existe um filósofo adormecido, como existe um poeta adormecido em todo o verdadeiro filósofo. O poeta filosofa depois de cantar e o filósofo canta depois de filosofar». (Teixeira de Pascoaes)
«Um velho sábio lamentava-se dizendo ser mais fácil salvar o homem do que o alimentar. O socialismo futuro, quando todos os convidados estiverem sentados à mesa, quanto todos puderem sentar-se aí, deverá confrontar-se mais do que nunca, num combate particularmente difícil e paradoxal, com a inversão desta antiga sentença: é mais fácil alimentar o homem do que o salvar, isto é, reconciliá-lo consigo mesmo, com os outros, com a morte e com esse mistério absolutamente vermelho que é a existência do mundo. Com efeito, a alienação mais pertinaz não é unicamente a gerada por uma sociedade imperfeita, que desaparecerá com ela; há outra origem mais profunda da alienação. Marx dizia: "Ser radical é perceber as coisas pela raiz. Ora, para o homem, a raiz de todas as coisas é o próprio homem". A primeira epistola de João (3, 2) afirma, por sua vez, tomando esta raiz que é o homem não como a causa de qualquer coisa, mas como um destino: "Mas o que nós seremos ainda não se manifestou. Sabemos que, quando se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é. Todo aquele que nele tem esta esperança purifica-se a si mesmo, como também ele é puro (Jesus)». (Ernst Bloch). 

