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terça-feira, 16 de outubro de 2012

Democracia porca - a portuguesa!

Membros das elites portuguesas do poder

O problema estrutural português está identificado: A Porca com as tetas é o Estado; os Leitões são os membros das classes dirigentes. Portugal é uma pocilga. Oralidade: eis a palavra que ajuda a compreender a história de Portugal! Ontem, no debate Prós e Contras, um luso-brasileiro disse que ia contactar a polícia federal brasileira para pressionar os leitões portugueses. Eu prefiro o exército americano... para desempenhar essa missão: liquidar os leitões portugueses e vender os seus corpos mortos na China! 

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Prós e Contras: Manifestações e Forças da Ordem

Panóptico do PORTO
Eis o texto reaccionário de apresentação do debate Prós e Contras de ontem (1 de Outubro):

"Grécia, Espanha, Itália e Portugal: A crise agudiza-se e explodem os protestos na rua. O que distingue as manifestações no sul da Europa. A efervescência das sociedades angustiadas e a necessidade de defender o Estado de Direito e a ordem pública. A importância das manifestações e o delicado desempenho das forças da ordem. Como é que as forças de segurança estão a lidar com a tensão crescente?"

Cada um dos quatro convidados de Fátima Campos Ferreira desenvolveu o seu discurso reaccionário em nome do Estado de Direito e da ordem pública. O elogio da fotografia da rapariga e do polícia que circulou pelo Facebook é um elogio reaccionário: os revoltosos dotados de consciência política radical não podem tratar as forças policiais de repressão como forças amigas. A violência das forças policiais é usada para garantir a perpetuação da ordem social estabelecida, precisamente aquela que gera o empobrecimento dos povos do sul da Europa. Em Portugal, não há verdadeiramente Estado de Direito ou mesmo democracia: o Estado foi capturado pela máfia lusitana que usa os aparelhos repressivos de Estado para garantir os seus privilégios. A fotografia só mereceria um elogio se o polícia tivesse despido a farda e passado para o lado dos manifestantes: o caso amoroso desejado pelo General - outro representante do poder repressivo do Estado - implica a capitulação dos manifestantes perante o poder estabelecido. Os polícias não podem ser vistos como aliados porque a sua missão é usar a violência para restabelecer a ordem social que priva os manifestantes da sua humanidade. Como tenho defendido em diversos lugares, os manifestantes devem adquirir consciência política radical: a política praticada pelos governantes portugueses deve ser combatida com novas políticas radicais. Alguém afirmou que o discurso do século XIX - entenda-se o pensamento de Marx - está ultrapassado: os privilegiados temem a luta de classes e dizem condenar a violência, não a sua própria violência retrógrada mas a violência revolucionária que visa a realização plena do humanismo integral. Ora, como demonstrou Merleau-Ponty, não há escolha entre a violência e a não-violência, entre o humanismo e o terror, mas apenas entre dois modos de violência - a capitalista e a socialista. A renúncia à violência revolucionária fortalece o reino da exploração capitalista, mas o seu uso tem a oportunidade de romper o círculo infernal do terror e contra-terror na medida em que é veiculada pela solidariedade do povo em sofrimento que, enquanto força política, é capaz de traduzir o humanismo de ideologia em realidade. Numa sociedade profundamente corrupta e desigual como a sociedade portuguesa, não há diálogo possível entre os carrascos e as vítimas, até porque o diálogo não muda nada. A crítica marxista da democracia liberal não perdeu actualidade e a teoria leninista do Estado continua a ser pertinente, embora deva ser reavaliada. O marxismo é verdadeiro ontem e hoje. Aconselho a leitura de Humanismo e Terror de Merleau-Ponty. (Fátima Campos Ferreira tem uma ideia errada da ordem pública: os verdadeiros representantes da ordem pública são os manifestantes, não os seus convidados privilegiados e opressores! O sociólogo convidado fez uma triste figura!)

J Francisco Saraiva de Sousa

sábado, 15 de setembro de 2012

Portugal: Revolta Popular contra o Governo de Passos Coelho

















Portugueses: As manifestações pacíficas não mudam o sistema. À violência das políticas governamentais da austeridade é preciso opor a violência revolucionária: a violência é a parteira das grandes mudanças sociais. Houve muita ingenuidade nas manifestações de hoje: a emotividade deve ceder o seu lugar à Razão Calculadora, à Racionalidade Revolucionária, enfim ao momento de Surpresa! O governo perdeu legitimidade popular para governar, mas, como em Portugal os governantes não têm vergonha na cara, tudo vai permanecer na mesma: o povo unido deve constituir-se em FORÇA POLÍTICA e derrubar o governo. É preciso passar da palavra ou da intenção à acção! O que deve ser feito é simplesmente feito. O Governo de Passos Coelho usa o Estado para enriquecer as empresas à custa dos trabalhadores. Um povo revoltado sem ideologia é inofensivo. Há um nome que assusta o poder neoliberal: Karl Marx. Se tivesse havido cartazes a mostrar o rosto de Marx, eles estavam agora com mais medo! Não queiras ser um povo passivo e pacífico; não vais longe. Algumas figuras públicas, entre as quais jornalistas lacaios do poder estabelecido, dizem que todo o protesto do povo português resultou de uma dificuldade de comunicação do governo: eles estão a tentar desvalorizar as manifestações de hoje contra o governo de Direita. Não deixes reduzir a razão de ser das manifestações a uma dificuldade de comunicação: foca o conteúdo mas de um modo ideologicamente elaborado. Mostra que o povo não quer passar mais fome para alimentar os ricos.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

O Afundamento da Europa


Estamos a assistir ao afundamento da Europa e do mundo ocidental: o ciclo civilizacional do ocidente completou-se e o fim é o seu colapso.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Política do Governo: Velhos e Pobres atiram-se para a valeta

Caricatura que circula no Facebook
... E os restantes portugueses atiram-se para o desemprego e para o empobrecimento. Ana Lourenço (SICNotícias) chama "senadores" - talvez com alguma ironia! - aos seus convidados, entre os quais os dois que figuram nesta caricatura: António Barreto, mais conhecido como o "empregado do merceeiro do Pingo Doce", e Manuela Ferreira Leite, ex-líder do PSD. Não reproduzo o texto que a acompanha por não estar inteiramente de acordo com o seu teor. Prefiro usá-la para ironizar a anti-política do governo liderado por Passos Coelho, mais precisamente pelo Ministro das Finanças.

domingo, 6 de maio de 2012

União Europeia: a Nova União Soviética

União Europeia
As pessoas que ontem criticavam a União Soviética são as que hoje reconstroem a União Soviética no espaço europeu. A União Europeia está cada vez mais semelhante à União Soviética, excepto no plano da qualidade do ensino: Bolonha desgraçou o ensino universitário. Os eurocratas são criaturas demasiado burras: eles vivem as suas vidas como se fossem os últimos homens. O Projecto Europeu tornou-se indefensável: ele é o suicídio do Ocidente Europeu. Os eurocratas e os gestores e políticos nacionais deviam ser condenados a viver com o salário mínimo. O governo português - a encarnação da maldade radical - só conseguirá legitimar a sua terrível política de empobrecimento quando os seus membros voltarem à escola para estudar como deve ser e souberem viver com o salário mínimo. É fácil decretar a pobreza dos outros, mas é mais difícil viver como esses outros empobrecidos à força da pseudo-fatalidade. Os membros do governo não são melhores do que os restantes portugueses; pelo contrário, são completamente inumanos e brutais: sejam coerentes uma vez na vida e vivam como os pobres que fabricam diariamente. Passos Coelho devia deixar os portugueses sorrirem como ele faz quando anuncia o crescimento galopante do desemprego. Pensando bem, os membros do governo devem ir todos para o desemprego. Quem deseja criar um país de pobres deve dar o exemplo: sejam coerentes uma vez na vida e vivam a pobreza resultante das vossas antipolíticas do desemprego e da vida precária. Afinal, um governo que planeia a pobreza é um gasto desnecessário, uma tremenda palermice, uma brutal perda de tempo. Política do empobrecimento é um oxímoro. Todos os economistas neoliberais portugueses que converteram a economia em "ciência da pobreza planeada" devem ser despedidos e condenados a viver com o subsídio social mais miserável e sem cuidados de saúde. A sua morte precoce seria uma bênção para Portugal: menos "gordura" de Estado, menos parasitas que falam a linguagem do grupo Jerónimo Martins, na expectativa de virem a receber ordenados pornográficos nesse e noutros grupos económicos e financeiros. 

terça-feira, 1 de maio de 2012

Capitalism is misery



Na Europa surge um novo movimento anticapitalista: nós europeus já não suportamos o capitalismo. Viva Karl Marx! «A dream you dream alone is only a dream. A dream you dream together is reality.» (John Lennon)

J Francisco Saraiva de Sousa

sexta-feira, 6 de abril de 2012

José Seguro, Inseguro e Sem Projecto

José Seguro, o actual "líder" do PS
Não vou comentar a actual deriva do PS, até porque não há nada para comentar: a Esquerda entrou em crise profunda, não só em Portugal mas também em toda a Europa. António José Seguro, em vez de apresentar uma alternativa política ao actual governo que está a "matar" com prazer os portugueses, propõe mudanças de estatutos do PS e persegue os deputados socialistas que desejam sonhar: vive para dentro sem se preocupar com o destino de Portugal. Enfim, Portugal é um navio a afundar-se. A Esquerda já não consegue contrabalançar o afundamento planeado pelo governo de Passos Coelho ou de Vítor Gaspar. Afinal, quem é o Primeiro-Ministro deste governo sadicamente orientado? Passos Coelho ou o Ministro das Finanças? Pensando bem, nem vale a pena saber! Em Portugal, nada muda: os pobres serão eternamente pobres e os ricos, eternamente ricos. 

terça-feira, 13 de março de 2012

Prós e Contras: O que falta cumprir?

Cidade do Porto
Em Portugal, alguns sabem aquilo que deve ser feito para conquistar o futuro, mas os decisores políticos adiam por tempo indeterminado a efectivação dos planos adequados de desenvolvi-mento e, quando os realizam, já é tarde demais: a corrupção política instalada nos aparelhos de Estado - no sentido de Althusser - bloqueia a sociedade portuguesa, condenando-a a um atraso estrutural jamais superado em qualquer período histórico.

«A lógica, por si só, permanece exangue e estéril; não nos traz qualquer fruto do pensamento, se o pensamento (informado) o não conceber por outro lado». (John de Salisbury)

Ando muito ocupado à procura de um livro que deve estar algures perdido nalguma secção da minha biblioteca: quero escrever sobre a Sé-Catedral do Porto, para a colocar entre as grandes catedrais da Europa Medieval, mas o livro teima em esconder-se, obrigando-me talvez a comprar outro se ainda estiver à venda nas livrarias. Com esta desculpa pretendo mostrar o meu desencanto com o teor do debate Prós e Contras de ontem (12 de Março). Sempre que um debate desperta a minha curiosidade intelectual arranjo tempo para o meditar. Mas o debate sobre o que falta cumprir do acordo da troika deixou-me perplexo e preocupado: Carlos Moedas (Secretário de Estado), Eurico Dias (PS) e Pedro Reis (AICEP), três figuras mais novas do universo político português, desiludiram-me com a sua falta de experiência de vida, com a sua perda do bom-senso, com o seu conhecimento lacunar e com a sua insensibilidade social. Foi Basílio Horta (PS) que salvou o debate da "guerrinha medíocre" entre Eurico Dias e Carlos Moedas, com o último a acusar os "socialistas" de lhe darem "tiros". (Mas como é que Eurico Dias pode dar tiros se ele não sabe manejar a arma da crítica? Ai, onde está o PS de outros tempos, o PS de Mário Soares?) Ficámos a saber que existe uma guerra - mais precisamente uma troca de tiros - no seio do actual governo chefiado pelo Ministro das Finanças, já que Passos Coelho se auto-demitiu das suas funções de Primeiro-Ministro: a demissão do Secretário da Energia foi o primeiro sinal da desagregação do governo, aguardando-se já a queda do Ministro da Economia. (A todo-poderosa EDP, de olhos chineses, manda no governo!) Se não fosse a astúcia dialéctica de Basílio Horta, a voz do PS teria sido silenciada por Eurico Dias, cujo cérebro carece de vocação política e de cultura de Esquerda. Em síntese, o discurso de Carlos Moedas foi o seguinte: Como Portugal viveu acima das suas possibilidades, agora os portugueses "têm de sofrer", o governo deve ser duro a implementar o programa de ajustamento imposto pela troika, comportar-se como "bom aluno", prestar vassalagem a Angela Merkel e levar a cabo o empobrecimento do país, porque "não há dinheiro", "não há alternativa". Enfim, a recessão e a pobreza são inevitáveis: Carlos Moedas apelou ao consenso nacional em torno da pobreza e da miséria. O caminho da pobreza foi apresentado como o único caminho para abolir o problema que é a existência de Portugal. Pedro Reis que é mais papista do que o Papa, aconselhou os portugueses a silenciar as suas vozes e a aceitar resignadamente o empobrecimento. (Afinal, quem quer investir num país empobrecido, entregue materialmente a homens insensíveis, mais preocupados com o seu destino pessoal do que com o destino nacional, e espiritualmente ao segredo dos deuses?) Eurico Dias esteve quase sempre ausente do debate, porque, quando intervinha, introduzia novos elementos extraterrestres, sem saber do que se falava. Basílio Horta revoltou-se contra o discurso do consenso e defendeu a crítica, mostrando que há dois caminhos: o caminho do crescimento e do emprego, o caminho do PS, e o caminho da consolidação orçamental sem perspectiva de futuro, o caminho seguido pelo governo de Direita açoitado com vara curta pelo Ministro das Finanças. Pouco mais há a dizer sobre este debate, aliás um debate sem história!, a não ser o seu desenlace. Basílio Horta aproveitou a última intervenção de Carlos Moedas, onde o Secretário Adjunto remeteu o futuro para o segredo dos deuses, para confirmar a sua suspeita fundamentada: Afinal, o governo não tem "horizonte de esperança". Carlos Moedas ficou sem palavras! Lá no fundo ele também não deve apreciar a anti-política orquestrada pelo Ministro das Finanças!

J Francisco Saraiva de Sousa

terça-feira, 6 de março de 2012

Prós e Contras: Lutar ou resignar?

Helmut Newton
Não tenho comentado os últimos debates de Prós e Contras, moderados por Fátima Campos Ferreira. Em parte, isso deve-se ao facto de não acreditar no futuro de Portugal. Tal como a modelo desta fotografia de Helmut Newton, que morre de tédio de tanto esperar que aconteça alguma coisa de novo que a desperte da rotina, aborreço-me sempre que vejo portugueses ou ouço as suas intermináveis conversas patéticas. Ontem (5 de Março) o debate Prós e Contras voltou a ser dominado pelo discurso lunático dos gestores, essas tristes figuras destituídas de cultura e de experiência. Fazendo coro com o governo suicida de Passos Coelho, os gestores lunáticos promoveram a emigração como saída para a crise nacional e para o desemprego. O mais sofista deles todos até vai dar uma palestra - a pagar, claro! - para ensinar os jovens portugueses a obter vistos! Outro referiu o avião como o meio de transporte em tempos de crise! Ele não o disse, mas parece que a TAP vai ser financiada pelo governo para dar viagens grátis a todos os emigrantes portugueses! Enfim, em Portugal, ficam apenas os velhinhos a receber magras pensões e os pobrezinhos a comerem-se uns aos outros e a morrerem sozinhos em casa! E, claro, os velhos tubarões e as suas crias burras a engordar à custa do emagrecimento do Estado! (A despolitização dos jovens recém-licenciados é simplesmente chocante! Afinal, onde estão as suas supostas competências e a sua formação excelente? Que escolas são essas que formam indivíduos a-políticos? De uma coisa estou certo: escolas de excelência não são, porque deixar os seus alunos pensar que caíram de pará-quedas na terra é pura incompetência.) Não sei se devemos rir ou chorar: o que sei é que este discurso dos gestores merece figurar nos manuais de psiquiatria. O debate reforçou a minha ideia de Portugal como a terra dos loucos, onde nada de novo acontece, e, quando a racionalidade dos agentes falha, não é possível dialogar com eles: o comentário deverá assumir a forma de uma análise psiquiátrica. Ora, como não acredito no futuro desta terra de loucos, não quero desperdiçar o meu tempo a analisar comportamentos lunáticos. Bem sei que nem todos os participantes eram deslumbrados, mas a sua voz sábia foi silenciada pelo ruído neoliberal dos loucos. Apesar disso, deixo aqui um novo conceito: o neoliberalismo é uma doença psiquiátrica, que, no caso português, pretende fazer marketing de pretensas figuras portuguesas bem-formadas (sic) que arruinaram Portugal. E um desafio: os canais portugueses de televisão deviam poupar os seus públicos da presença de economistas e de gestores. O discurso dos economistas e a prática dos gestores não geram riqueza; pelo contrário, planeiam pobreza. A economia neoliberal deve aglutinar todos os seres pensantes em torno da tarefa da sua desconstrução: as escolas de economia e de gestão são escolas da mentira e do roubo. (Se este governo não for derrubado, Portugal corre o sério risco de perder de novo mais de metade do século XXI: a história repete-se nesta terra capturada por corruptos! Fechar as escolas, fechar os hospitais, suspender a justiça, abolir as forças armadas, diminuir os salários e as reformas, aumentar o tempo de trabalho não-remunerado, privatizar as empresas públicas, pagar os prejuízos privados, gerar o desemprego, fechar as fábricas, antecipar a morte dos portugueses, regressar à assistência social, obrigar a emigrar, enfim, planear a pobreza: eis as anti-políticas deste governo.)

J Francisco Saraiva de Sousa 

domingo, 4 de março de 2012

Culturas de Vergonha, Culturas de Culpa

Shame, Vergonha
«Nos estudos antropológicos de culturas diferentes, é importante a distinção entre as que profundamente enfatizam a vergonha (shame) ou a culpa (guilt). Uma sociedade que incute padrões absolutos de moralidade e se orienta no sentido do desenvolvimento de uma consciência por parte do homem é uma cultura de culpa por definição, no entanto, alguém pode numa sociedade dessas, como a dos Estados Unidos, padecer ainda mais na vergonha quando se auto-acusa de grosserias que nada têm de pecados. Poderá mostrar-se extremamente mortificado por não estar vestido de acordo com a ocasião ou devido a algum lapso de língua. Numa cultura em que a vergonha constitua uma sanção importante, as pessoas mortificam-se por actos que esperamos nelas despertem culpa. Tal mortificação poderá ser muito intensa, não podendo ser aliviada, como a culpa, através da confissão e expiação. Quem peca pode conseguir alívio desabafando. O expediente da confissão é usado na nossa terapia secular e por muitos grupos religiosos, que outrossim pouco têm em comum. Sabemos que traz alívio. Onde a vergonha constitui sanção importante, não se experimenta alívio quando se divulga uma transgressão, ainda que seja a um confessor. Contanto que a sua má conduta não "transpire para o mundo", não precisará inquietar-se, afigurando-se-lhe a confissão tão somente como um modo de criar problemas. As culturas de vergonha (shame-cultures), portanto, não prescrevem confissões ainda que aos deuses. Dispõem mais de cerimónias para boa sorte do que para expiação. /As verdadeiras culturas de vergonha enfatizam as sanções externas para a boa conduta, opondo-se às verdadeiras culturas de culpa, que interiorizam a convicção do pecado. A vergonha é uma reacção à crítica dos demais. Alguém pode envergonhar-se ou quando é ridicularizado abertamente ou quando cria para si mesmo a fantasia de que o tenha sido. Em qualquer dos casos trata-se de uma sanção poderosa. Requer, entretanto, uma plateia, ou pelo menos que se fantasie uma. A culpa, não. Num país onde a honra significa viver de acordo com a imagem que se tem de si próprio, pode-se padecer de culpa, ainda que todos ignorem a transgressão, sendo aliviados os seus sentimentos a tal respeito através da confissão do seu pecado. /Os antigos puritanos que se estabeleceram nos Estados Unidos procuraram basear toda a sua moralidade na culpa e bem sabem os psiquiatras os problemas que os americanos modernos têm com as suas consciências. A vergonha, no entanto, é uma carga cada vez maior nos Estados Unidos, sendo a culpa não tão extremamente sentida quanto em gerações anteriores. É isto aqui interpretado como um relaxamento dos costumes. Há muita verdade nisso, sem dúvida porque não esperamos que a vergonha perfaça o trabalho pesado da moralidade. Não atrelamos a intensa mortificação pessoal que acompanha a vergonha ao nosso sistema fundamental de moralidade. /Os japoneses fazem-no. Um fracasso em seguir os seus visíveis marcos de boa conduta, um fracasso em avaliar obrigações ou prever contingências constitui vergonha (haji). A vergonha, dizem eles, é a raiz da virtude. Quem é sensível a ela cumprirá todas as regras de boa conduta. "Um homem que conhece a vergonha" é por vezes traduzido por "virtuoso" ou "honrado". A vergonha ocupa o mesmo lugar de autoridade na ética japonesa que uma "consciência limpa", "estar bem com Deus" e a abstenção de pecado têm na ética ocidental. Muito lógico, portanto, que não se vá ser punido depois da morte. Os japoneses - à excepção dos sacerdotes conhecedores dos sutras indianos - estão muito pouco familiarizados com a ideia de reencarnação dependente do mérito de cada um na vida presente, e - à excepção de alguns convertidos cristãos bem instruídos - não aceitam recompensa ou punição após a morte e a ideia de céu ou inferno. /A primazia da vergonha na vida japonesa significa, como em qualquer tribo ou país onde a vergonha seja profundamente sentida, que cada um aguarda o julgamento dos seus actos por parte do público.» (Ruth Benedict)

A cultura portuguesa - no sentido antropológico do termo - é desconcertante: as elites portuguesas perderam definitivamente a vergonha e, deste modo, tornaram-se imunes às pressões externas do público, mesmo quando alguns dos seus membros são apanhados com as "mãos na massa". A cultura portuguesa não é, portanto, uma cultura de vergonha, mas também já não é uma cultura de culpa: os portugueses não só perderam a vergonha como também deixaram de interiorizar a convicção do pecado, agindo como se fossem zombies malévolos, completamente destituídos de consciência moral e absolutamente avessos à ajuda psiquiátrica. Um poderoso elemento inumano - a inveja e todo o seu campo de configuração - atravessa toda a cultura portuguesa, fazendo dela uma cultura patológica: a inveja converte-a numa cultura da maldade. Nada melhor do que recorrer a Primo Levi para apreender o núcleo de maldade que domina a cultura portuguesa: «É homem quem mata, é homem quem faz ou sofre injustiças; não é homem quem, perdida qualquer vergonha, divide a cama com um cadáver. Quem esperou que o seu vizinho acabasse de morrer para lhe retirar um quarto de pão está, embora sem qualquer culpa própria, mais afastado do modelo do homem pensante do que o pigmeu mais selvagem e o sádico mais atroz». Quando foi elaborada a distinção entre culturas de vergonha e culturas de culpa, para distinguir entre os padrões de cultura japoneses e americanos, a sociedade americana começava a abandonar a configuração cultural de culpa: sob o olhar desatento dos antropólogos e filósofos, surgia uma outra configuração cultural no ocidente, onde a vergonha e a culpa são meras relíquias do passado distante e "desconhecido". Ruth Benedict elaborou diversos esquemas dicotómicos de classificação das culturas: além desta distinção entre culturas de vergonha (shame-cultures) e culturas de culpa (guilt-cultures), ela já tinha proposto a distinção entre cultura apolínea e cultura fáustica, para contrastar duas configurações culturais diferentes na civilização ocidental, a partir das ideias do destino de Oswald Spengler, e a distinção entre culturas dionisíacas e culturas apolíneas, desta vez com base no Nascimento da Tragédia de Nietzsche. Porém, estes esquemas de classificação das culturas nunca foram articulados entre si, de modo a obter uma tipologia mais complexa e dinâmica das configurações culturais. Desgraçadamente, a Filosofia ainda não conseguiu elaborar uma teoria geral da cultura, capaz de integrar a teoria da formação cultural e das configurações culturais, numa perspectiva histórica e estrutural. Há muitas teorias filosóficas da cultura, mas nenhuma delas é suficientemente poderosa para explicar a própria evolução da cultura. Benedict utiliza a distinção entre culturas dionisíacas e culturas apolíneas para captar a diferença fundamental entre os Pueblos (apolíneos) e as outras culturas da América do Norte, isto é, dois modos diametralmente opostos de alcançar os valores da existência: «O Dionisíaco busca realizá-los por meio do "aniquilamento das restrições e dos limites usuais da existência"; procura conseguir, nos seus momentos mais elevados, fugir às barreiras que os cinco sentidos lhe impõem, irromper por esse meio numa outra ordem da experiência. O desejo do Dionisíaco, em experiência pessoal ou em ritual, é forçar o caminho para um certo estado psicológico, realizar o que está para além. Aquilo que mais se aproxima das emoções que busca é a embriaguez; e os clarões do frenesi, eis o que para ele vale. Com Blake, crê que "o caminho do excesso conduz ao palácio da sabedoria". O Apolíneo não confia em nada disso, e muitas vezes pouca ideia forma da natureza de tais experiências. Descobre meios de as proscrever da sua vida consciente. Conhece apenas uma lei, medida, na acepção helénica. Segue pelo meio da estrada, conserva-se dentro do mapa conhecido, não o preocupam estados psicológicos disruptivos. Na bela frase de Nietzsche, mesmo na exaltação da dança "conserva-se o que é, e mantém a sua personalidade de cidadão"». Nietzsche contribuiu muito para minar a admiração pelo Apolíneo a favor do Dionisíaco; no entanto, hoje, graças aos contributos importantes das neurociências, podemos ver a nova luz o Dionisíaco: uma cultura completamente impregnada pelo Dionisíaco não tem futuro. Ao colocar-se do lado de Dionísio, o deus Baco dos romanos, a Filosofia tornou-se um empreendimento paradoxal que rompe com a sua própria origem. A maior parte das pessoas que elogiam Dionísio em detrimento de Apolo não compreendeu verdadeiramente a malha histórica do Nascimento da Tragédia de Nietzsche, até porque carecem de erudição histórica e filosófica. De certo modo, quando distingue duas configurações culturais na civilização ocidental, a clássica (apolínea) e a moderna (fáustica), Benedict parece engrossar a fileira daqueles que nada compreenderam da obra de Nietzsche. É certo que esta última distinção se baseia nas duas ideias do destino de Spengler, mas este filósofo da História estava demasiado próximo de Nietzsche: «O homem Apolíneo concebia a sua alma como "um cosmos ordenado num grupo de partes excelsas". No seu universo não havia lugar para o querer, e o conflito era um mal a que filosoficamente não ligava grande importância. A ideia de um aperfeiçoamento da personalidade de fora para dentro era-lhe estranha, e considerava a vida sempre sujeita à sombra da catástrofe que do exterior a ameaçava brutalmente. Os seus trágicos desenlaces eram destruições irresponsáveis do agradável panorama da existência normal. O mesmo acontecimento podia caber em sorte a um ou outro indivíduo, sob a mesma forma e com os mesmos resultados. /Ao contrário, a sua representação Fáustica é como de uma força que infindavelmente combate obstáculos. A sua versão do curso da vida individual é a de um desenvolvimento interno, e as catástrofes da existência são a culminação inevitável das suas volições selectivas e das suas experiências. O conflito é a essência da existência. Sem ele a vida individual não tem significado e só os valores mais superficiais da existência se podem atingir. O homem Fáustico anseia pelo infinito, e a sua arte tenta aproximar-se dele. As interpretações Fáustica e Apolínea são interpretações opostas da existência, e os valores que surgem numa são alheios e insignificantes para a outra». Ruth Benedict faz parte da Escola Cultura e Personalidade, na sua fase pré-freudiana: ela vê a cultura como psicologia individual projectada em grande tela. A crítica da sua concepção da cultura implica uma longa viagem pelos domínios da socialização em cada uma das culturas que estudou. Como é evidente, essa crítica não pode ser realizada neste texto, cujo objectivo é chamar a atenção para a distinção entre culturas de vergonha e culturas de culpa. A "personalidade" forma-se de fora para dentro ou de dentro para fora? Ruth Benedict tem uma teoria da formação da personalidade que aplica às diversas culturas - diferentes umas das outras - que analisa, mas, quando tenta classificá-las, em função dos seus esquemas dicotómicos da cultura, não se apercebe de que põe em cheque a própria teoria geral que utilizou. Nesta incongruência cognitiva, o que está em jogo é o seu relativismo cultural, não tanto na sua função prática de discurso da tolerância, mas sobretudo na sua função teórica de princípio do "pensar social". Com efeito, para comparar as culturas umas com as outras, captar a peculiaridade de cada uma delas e elaborar uma classificação das suas configurações gerais, é preciso estar na posse de uma teoria geral da cultura, a qual não pode cair sob o domínio do princípio da relatividade cultural. Ora, quando se relativiza a teoria geral da cultura, as culturas em análise tornam-se incomensuráveis. Deste modo sucintamente abstracto, coloquei o relativismo cultural contra si mesmo, dilacerei-o por dentro, fazendo o seu próprio jogo. Falta agora colocar a questão crucial: a cultura fáustica do ocidente é - foi! - uma cultura de culpa? O que está aqui em jogo não é a cultura de culpa, mas sim a equação "cultura fáustica = cultura de culpa". Resolver esta questão equivale a elaborar uma nova teoria da cultura, assente numa nova ontologia, diferente da de Ruth Benedict, sem no entanto abdicar do seu contributo precioso. Termino com uma citação de Primo Levi, onde reconheço implicitamente o conceito fundamental da minha ontologia do ser-sem-abrigo: «Imagine-se agora um homem ao qual, juntamente com as pessoas amadas, tiram a casa, os hábitos, a roupa, enfim, tudo, literalmente tudo quanto possui: será um homem vazio, reduzido ao sofrimento e à carência, esquecido da dignidade e bom senso, pois acontece facilmente, a quem tudo perdeu, perder-se a si próprio; reduzido a tal ponto que outros poderão sem problemas de consciência decidir da sua vida ou da sua morte para além de qualquer sentido de afinidade humana; no caso mais optimista, na base de uma mera avaliação de utilidade. Compreender-se-á então o duplo significado da expressão "Campo de extermínio", e será claro que o tentemos exprimir com esta frase: jazer no fundo». 

J Francisco Saraiva de Sousa 

domingo, 1 de janeiro de 2012

2012: Ano da Miséria em Portugal


Bem, agora que já estamos em 2012, convém esclarecer que será o Ano da Miséria em Portugal: o governo diabólico de Passos Coelho tudo faz para roubar o sustento digno aos portugueses. 2012 vai ser um Mau Ano: miséria, fome, doença, desemprego galopante, roubo, assaltos, criminalidade, corrupção, privação, violência, infidelidade, mentiras privadas, separações, divórcios, demência precoce, desistência escolar, oportunismo, nudez forçada, prostituição, enfim desalojamento, eis alguns dos seus aspectos essenciais. Com os aumentos decretados pelo governo sádico de Passos Coelho, os portugueses não vão ter dinheiro para comer ou mesmo para ter casa. Passos Coelho é sinónimo de POBREZA! Se não derrubarem este governo nas ruas, os portugueses serão privados da sua humanidade pelo governo que elegeram. Eis a burrice do povo português: elegeu o seu carrasco e o seu coveiro! O PSD é a desgraça de Portugal! Depois de ter gerado a corrupção, o PSD assumiu agora a missão de mergulhar Portugal na pobreza sadicamente planeada

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Portugal Zombie: DarkPower

Zombies Portugueses no poder
Sem comentários: pelo olhar - sem expressão afectiva e mortalmente inumano - podemos reconhecer as pessoas que dirigem o fatídico destino nacional. Há um aspecto da História de Portugal que nunca foi contado: a epidemia de zombies que alterou o genoma português, fazendo do país um enorme cemitério, onde à noite despertam os mortos-vivos para saciar a sua fome infinita. Tal como os bovinos, os portugueses são pasto para os zombies que recusam encarar a sua verdade: o facto de estarem mortos desde que D. Afonso Henriques ousou ser rei de Portugal. A falta de sensibilidade denuncia o zombie: as emoções fugiram do seu rosto. Emocionalmente desabitado, o zombie é o anti-rosto. O poder do anti-rosto é poder diabólico. A epidemia portuguesa é uma terrível maldição. 

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

A Europa está morta

Cemitério militar norte-americano, em Colleville-sur-Mer, Normandia, França
A Europa está morta e já não podemos fazer nada para ressuscitá-la. Morreu decadente, corrupta e velha. Enterremo-la.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Prós e Contras: O Desafio da Saúde

Escadas do Barredo,
Centro Histórico do Porto
«A medicina, como a economia, é uma criação humana saída dum programa primata. Como a economia, ela está ligada à ideia base da reciprocidade, do acto de dar e de receber. /O antigo modelo primata de cuidar dos outros, passou dum sistema de medicina preventiva para um de medicina curativa: o grupo não abandonou nem a alma nem o corpo, uma vez que estivesse avariado, mas voltou toda a sua atenção de catar, segundo o princípio primata, em direcção a um membro do grupo que estivesse doente». (Lionel Tiger & Robin Fox)


Descer e subir as escadas e a rua do Barredo é um desafio que, quando é cumprido, testemunha a favor do bom estado de saúde de todos aqueles que amam o Porto. O Ministro da Saúde, Paulo Macedo, aceitou o desafio de racionalizar o Serviço Nacional de Saúde, de modo a garantir a sua sustentabilidade. Devo confessar que fui tentado a classificá-lo como mais um ministro destituído de sensibilidade social e humana. Mas, depois de o ter escutado neste debate Prós e Contras (5 de Dezembro), reparei que ele não é um mero reflexo de Passos Coelho e de outros ministros partidários deste governo de Direita: o sadismo do Ministro das Finanças e a insensibilidade afectiva do Primeiro-Ministro são traços que lhe são estranhos. Apesar de não concordar com muitas das medidas da sua política da saúde, não posso acusá-lo de ser inumano ou de ser privado de preocupações sociais com o destino de todos os utentes do Serviço Nacional de Saúde. Neste debate, Paulo Macedo fez questão de afirmar a sua independência em relação ao partido de Passos Coelho (PSD), de resto um partido responsável pela corrupção nacional e pela situação de miséria em que vivemos: a sua missão é, como disse, assegurar os fundamentais do Serviço Nacional de Saúde, atendendo ao essencial desde os cuidados primários até à saúde mental. Para Paulo Macedo, o SNS é sustentável: o corte dos 600 milhões de euros será realizado através da reforma da política do medicamento, da reorganização hospitalar e da redução das horas extraordinárias, entre outras medidas que, segundo o ministro, não ferem o sistema público de saúde. Uma parte significativa do debate foi dedicada ao aumento das taxas moderadoras. Paulo Macedo e Correia de Campos são - como é evidente - a favor do aumento das taxas moderadoras e da sua actualização anual: o único convidado que afirmou ser contra os aumentos das taxas moderadoras foi Daniel Serrão, alegando que as pessoas querem ser atendidas quando estão doentes. Correia de Campos disse que a função das taxas moderadoras era "moderar" a procura trivial e banal. Porém, facto paradoxal!, considera que o valor anunciado das taxas moderadoras é demasiado alto, aproximando o acesso ao SNS do acesso a uma consulta privada. Paulo Macedo rematou esta discussão dizendo que metade da população portuguesa está isenta. E, numa situação de empobrecimento planeado, este número tende a aumentar, o que levou Daniel Serrão a dizer que, afinal, as taxas não moderam nada. Uma incongruência da política de racionalização de Paulo Macedo? Infelizmente, os médicos, os enfermeiros e os doentes não possuem background cognitivo para discutir - igual para igual - as políticas da saúde. A paralisia cognitiva apoderou-se de todo o sistema de ensino universitário: o que hoje temos são analfabetos diplomados, isto é, pessoas incapazes de pensar em termos conceptuais para além do seu pobre e triste umbigo. A universidade é a barbárie cultural que fez de Portugal um país-refém de gente alucinada e de atrasados mentais. A crise antropológica em Portugal atingiu uma tal proporção que já não há elites para resgatar o futuro da pobreza. Portugal está ferido de morte: a sua doença fatal são os próprios portugueses.


Um dia será necessário escrever uma verdadeira História da Medicina em Portugal, mas, para realizar essa tarefa, será necessário elaborar primeiro uma Filosofia da Medicina e da Saúde, o que infelizmente ainda não temos no ensino médico. Ivan Illich teve o mérito de criticar radicalmente a medicalização da vida, colocando no centro da sua filosofia da medicina o próprio doente e os cuidados que deve prestar a si próprio. Paulo Macedo está consciente de que existe um jogo de interesses sem paralelo na saúde e esses interesses responsáveis pelo desperdício foram denunciados por Ivan Illich. No entanto, apesar da pertinência da crítica de Illich, não podemos aceitar as alternativas que esboçou: o doente só pode cuidar de si se for ensinado para tal. Ora, o sistema de educação é um fiasco total: as escolas portuguesas deixaram de ensinar e os cursos relacionados com a saúde não integram nos seus currículos disciplinas filosóficas. Na ausência de uma teoria crítica da medicina e da saúde, torna-se muito difícil debater as políticas de saúde. Daniel Serrão chamou a atenção para o facto da saúde não poder ser reduzida a números, mas a bioética que protagoniza não é suficiente para alinhavar uma política da saúde: o fetichismo dos números só pode ser denunciado a partir de uma Filosofia da Medicina e da Saúde que ouse colocar em debate a natureza - pública ou privada - dos serviços de saúde. Isabel Vaz (Grupo Espírito Santo Saúde) falou em nome dos serviços privados de saúde, mais precisamente da rede paralela, como se estes estivessem imunes à corrupção. A partir dos anos 90, além da rede convencionada que gira em torno do SNS, surgiu a rede paralela, uma aposta dos grandes grupos económicos e bancários portugueses, cujo objectivo é privatizar a saúde parasitando o Estado: a promiscuidade entre o público e o privado gera corrupção, precisamente o esbanjamento que caracteriza a zona de Lisboa. De certo modo, Correia de Campos (ex-Ministro da Saúde) denunciou isso quando recorreu ao relatório da OCDE para mostrar que não houve descalabro nas despesas com a saúde, ao mesmo tempo que acusou o governo de estar a sangrar a saúde. No entanto, e apesar de reconhecer que os custos do mercado privado são muito elevados, Correia de Campos não se opõe à política de saúde de Paulo Macedo, sendo favorável ao aumento das taxas moderadoras (20 euros no caso das urgências polivalentes!). Há, portanto, uma ambiguidade na concepção da saúde de Correia de Campos que se evidencia na utilização do termo mercado para designar os serviços de saúde: mercado privado e mercado público são noções tributárias da mesma noção de mercado de saúde que sacrifica os interesses dos doentes em nome da eficiência numérica e do lucro privado. O fetichismo da saúde numérica reina tanto no seio deste governo neoliberal como no seio da própria oposição. A medicalização da vida converteu a saúde em mercadoria, isto é, algo que se consome e não algo que se faz: aqui reside o núcleo duro de quase todos os problemas da saúde. Daniel Serrão defendeu a ideia de um serviço nacional de saúde de acesso universal, geral e gratuito. Tanto quanto percebi, talvez por ter uma visão interna do sistema de saúde, tanto público como privado, Daniel Serrão sabe que as urgências salvam mais vidas do que os cuidados primários: o facto de ser contra as taxas moderadoras e de considerar que o SNS foi e será sempre um sistema falido evidencia essa perspectiva. O que não entendo é como ele pode confiar na mediação dos cuidados primários, atribuindo aos médicos de família a missão de encaminhar os doentes para a urgência, porque, como todos os doentes sabem, os cuidados primários quase não funcionam, excepto para prescrever medicamentos. Sem uma Filosofia da Saúde, não podemos pensar novas alternativas à tentativa irracional de vedar o acesso dos doentes às urgências. É preciso reformar e repensar o SNS, mas os governantes não sabem quais são as reformas mais adequadas a adoptar, no caso de terem uma perspectiva humanista da saúde, como parece ser o caso de Paulo Macedo. Educar para a saúde pode ser uma das vias a seguir. Meus amigos, apesar do caos aparente, o que tem funcionado bem no SNS são as urgências! Não haverá outra forma de revitalizar o sistema de saúde sem ser a de hierarquizar serviços intermediários? As mediações não serão prejudiciais à qualidade dos serviços prestados? A burocracia foi inventada não para resolver problemas mas para gerar novos problemas, reduzindo as pessoas a números susceptíveis de serem descartados.

J Francisco Saraiva de Sousa

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Prós e Contras: Revolução nos Transportes

Via de cintura interna, Porto
Ontem estive mais interessado em acompanhar as notícias sobre os últimos acontecimentos incendiários do futebol do que em escutar o debate Prós e Contras (28 de Novembro), cujo título não faz sentido. Chamar revolução ao plano estratégico do governo que visa racionalizar o sector público dos transportes, suprimindo algumas linhas e carreiras, é esvaziar o conceito de revolução do seu sentido teórico. O governo utiliza o termo racionalização para justificar o sentido retrógrado das medidas que toma: racionalização como sinónimo de cortes precipitados nas despesas públicas e, portanto, de empobrecimento planeado, é uma noção absolutamente estranha ao próprio conceito. Na história da Filosofia, a racionalização nunca foi usada para designar empobrecimento planeado. Quando começa a filosofar, o governo improvisa uma "filosofia" que não encontra precedente na Filosofia Ocidental: o que quer dizer que este governo se situa fora dos horizontes ocidentais. Mas nós que somos ocidentais sabemos que o governo de Passos Coelho utiliza a racionalidade instrumental que lhe foi imposta do exterior para implementar políticas recessivas, cujo efeito final será a liquidação da economia portuguesa, um processo que já tinha sido iniciado por anteriores governos quando adoptaram o programa de desindustrialização. O governo só tem um objectivo: cumprir o memorando da troika. As políticas que adopta visam - todas elas - garantir esse cumprimento: o fim aceite sem discussão justifica os meios, o fim tornado fetiche implica o suicídio nacional. A "filosofia" do governo é mais oriental do que ocidental, o que quer dizer que este governo, vindo não se sabe de onde, não tem filosofia, isto é, não tem uma perspectiva de crescimento económico e cultural. É certo que Portugal precisa de pagar as dívidas que contraiu ao longo destas duas décadas de deslumbramento, mas o cumprimento do memorando da troika não liberta o seu futuro. Se tivesse uma concepção mais enfática da racionalização, o governo já teria compreendido que as políticas sectoriais só fazem sentido quando inseridas nos quadros de um plano de desenvolvimento estratégico, na ausência do qual são políticas irracionais no sentido de deixarem o país pior do que já está. Um governo que assume o empobrecimento como fim último das suas políticas não é - verdadeiramente - um governo: é um anti-governo que encarna a figura do anti-humano.


Sérgio Monteiro (Secretário de Estado das Obras Públicas) disse que Portugal não tem dinheiro para alimentar as "gorduras" das empresas de transportes públicos. Mas, depois de ter escutado as linhas gerais do seu plano estratégico para os transportes públicos, fiquei sem saber o que são as "gorduras". Paulo Campos (ex-Secretário de Estado) que, pelo que escutei, não merece grande credibilidade, pregou-lhe no final uma finta quando o confrontou com as incongruências do PSD, que antes de ser governo prometia uma coisa, e agora que é governo executa o contrário daquilo que tinha prometido para ganhar as eleições: o novo aeroporto e o TGV não foram abandonados pelo governo. Paradoxalmente, o governo de Passos Coelho comporta-se como o governo de José Sócrates, ou melhor, parece ser a sua versão em miniatura. A ambiguidade de Sérgio Monteiro em relação à construção da linha de Metro do Mondego deixou-me desconcertado. Em momentos cruciais, o governo esquece a austeridade vestida com as roupas da racionalização da pobreza e segue o interesse eleitoral, lembrando a sua filiação social-democrata. Mas a minha perplexidade não foi gerada apenas pelo diálogo entre Sérgio Monteiro e Paulo Campos: os convidados da plateia, entre os quais muitos autarcas, usaram arbitrariamente noções gerais - tais como coesão territorial, coesão social e mobilidade - para garantir a continuidade da própria irracionalidade que nos conduziu à bancarrota. Sérgio Monteiro perdeu a oportunidade para denunciar a irracionalidade vigente: cada "autarca" quer um aeroporto, uma linha de comboio, uma auto-estrada, enfim qualquer coisa móvel, na sua cidade ou vila. A mentalidade do investimento improdutivo - o investimento que endivida sem criar riqueza - continua a estar presente no imaginário político nacional. Muitos dos "exemplos" apresentados pelos autarcas são "gorduras" que devem ser liquidadas de raiz, mas Sérgio Monteiro silenciou a sua voz, deixando Paulo Campos sorrir de satisfação deslumbrada. Ora, este silêncio de Sérgio Monteiro é sintomático: o governo não tem uma visão de conjunto de Portugal e, na ausência dessa visão tão necessária para elaborar um plano de desenvolvimento estratégico, é incapaz de justificar as suas políticas sectoriais. Desgraçadamente, o governo está a perder a oportunidade de operar o salto qualitativo de Portugal, fintando o memorando da troika ao inserir as medidas de racionalização num projecto de crescimento económico e cultural. A execução do memorando da troika sem um projecto de desenvolvimento económico e cultural é um suicídio colectivo. O governo alega que não tem espaço de manobra e tempo para elaborar esse projecto, mas nenhum destes argumentos me convence. Eu penso que é possível cumprir inteligente e criticamente o memorando da troika sem sacrificar a economia e a cultura: o sector dos transportes públicos abre outras vias para além da execução cega, desde que o governo saiba dissolver o abuso ideológico das noções de coesão territorial e social e de mobilidade, eliminando o que não é rentável, rentabilizando aquilo que já é ou pode ser rentável e deixando as regiões desenvolvidas seguir os seus rumos sem as sacrificar nos altares lunáticos das regiões pobres. Se o governo tiver uma filosofia, o futuro não será necessariamente recessivo: os cortes podem ser realizados de modo a promover o desenvolvimento diferenciado do país. Portugal não precisa de mais áreas metropolitanas: as duas - Lisboa e Porto - que tem são suficientes para garantir o desenvolvimento nacional, desde que não sejam sacrificadas para alimentar os sonhos igualitários de regiões que precisam de implementar outros modelos diferenciais de desenvolvimento. A regionalização é necessária para barrar o lunatismo dos autarcas. Mais não digo para não gerar mais "inimigos", embora saiba o que é necessário fazer para arrancar Portugal desta situação de apuro: há, efectivamente, uma concepção de racionalidade amiga do crescimento económico e do desenvolvimento cultural. 


J Francisco Saraiva de Sousa

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

A Tragédia da República de Weimar

Franz Marc: Blue Horse, 1911
«A exibição brilhante desses exilados - Albert Einstein, Thomas Mann, Erwin Panofsky, Bertold Brecht, Walter Gropius, George Grosz, Wassily Kandinsky, Maz Reihardt, Bruno Walter, Max Beckmann, Werner Jaeger, Wolfgang Köhler, Paul Tillich, Ernst Cassirer - persuade a idealizar Weimar como única, uma cultura sem pressões e sem débitos, uma verdadeira idade do ouro. A lenda de Weimar começa com a lenda dos "anos dourados", a década de "vinte" (do século XX). Mas edificar esse ideal sem defeitos é trivializar as realizações da Renascença de Weimar e menosprezar o preço que ela teve de pagar por elas. A grandeza característica da cultura de Weimar desenvolveu-se, até certo ponto, a partir das suas criatividade e experimentação exuberantes; mas muito dela era ansiedade, medo e uma crescente sensação de condenação. Com alguma justiça, Karl Mannheim, um dos sobreviventes, gabava-se, pouco antes da sua renúncia, de que os anos futuros olhariam para trás para Weimar como uma nova era de Péricles. Mas foi uma glória precária, uma dança à beira do abismo. A cultura de Weimar foi criação de forasteiros, impelidos pela história para o seu interior, por um momento curto, vertiginoso e frágil.» (Peter Gay)

Tudo o que amo nesta vida é uma criação da Cultura de Weimar: as diversas tendências da filosofia contemporânea, com especial destaque da teoria crítica da Escola de Frankfurt, o expressionismo na pintura e na poesia, a grande literatura realista alemã, a teoria da relatividade de Einstein, a mecânica quântica, a psicanálise de Freud, o teatro de Weimar, a social-democracia, a Nova Objectividade, o cinema, a grande música, enfim a escola moderna de arquitectura e design, a Bauhaus. A República de Weimar (1919-1933) durou apenas quatorze anos e, nesse curto espaço de tempo, produziu uma cultura impressionante que marcou, para o bem e para o mal, o destino do Ocidente. A 24 de Março de 1933, a República de Weimar - a primeira democracia parlamentar da história da Alemanha - sofreu o seu golpe de misericórdia: a Câmara de Deputados (não-representativa) conferiu a Hitler plenos poderes. No dia seguinte, o diário nazi Völkischer Beobachter escreveu que «O sistema parlamentar capitula diante da nova Alemanha! Um grande empreendimento começa! Chegou o dia do Terceiro Reich!» No mesmo ano, a 27 de Maio, logo após os nazis terem tomado o poder, Heidegger fez um discurso inaugural como reitor da Universidade de Freiburg: «A Universidade alemã mantendo-se frente a tudo e contra tudo, não é outra coisa do que a vontade que quer em comum a sua essência em conformidade com a origem. A Universidade alemã é para nós a Escola Superior que, a partir da ciência e graças à ciência, pretende educar e disciplinar os dirigentes que velam pelo destino do povo alemão. O querer que quer a essência da Universidade alemã quer ao mesmo tempo a ciência, na medida em que quer a missão historicamente espiritual do povo alemão como povo que se reconhece no seu Estado. É preciso que ciência e destino alemão acedam juntos - na vontade de essência - ao poder. E consegui-lo-ão, e só o conseguirão, se nós - corpo de mestres e corpo de alunos - em primeiro lugar fizermos face ao destino alemão na sua extrema urgência». Se a hermenêutica subtil do discurso do reitorado pode encobrir o envolvimento nazi de Heidegger, as outras alocuções proferidas não deixam dúvidas quanto ao seu envolvimento. Com efeito, uma alocução proferida a 17 de Maio de 1933 revela a falsidade dessa hermenêutica: «O chanceler do Reich, nosso grande dirigente, acaba de falar. Às outras nações e povos cabe agora decidir. /Nós decidimo-nos. Resolvemos tomar o caminho difícil da nossa história, aquele que é exigido pela honra da nação e pela grandeza do povo. /Decidimo-nos, e sabemos o que essa resolução supõe. Implica duas coisas: a disponibilidade para ir até aos limites do possível e a camaradagem até ao último extremo. É numa tal resolução que vamos agora voltar ao trabalho. Ainda mais uma vez: que todo o trabalho deste semestre - grande ou pequeno - se faça sob este signo: disponibilidade e camaradagem. /Ao nosso grande dirigente Adolf Hitler um Sieg Heil alemão». Não vale a pena tentar colocar Lenine e Hitler no mesmo plano para branquear o nazismo e o envolvimento nazi de Heidegger. Lenine faz parte de outra tradição que não tem nada a ver com o totalitarismo. Na sua obra A Crise da Social-Democracia, Rosa Luxemburgo falou da sociedade burguesa nestes termos enfáticos: «Porca, desonrada, patinhando no sangue, coberta de lama - é assim que se apresenta a sociedade burguesa; é assim que ela é. Não quando, impecável e virtuosa, mima a Cultura, a Filosofia e a Ética, a Ordem, a Paz e o Estado de direito - mas sim enquanto monstro feroz, enquanto bacanal de anarquia, enquanto miasma mortal para a cultura e a humanidade: é assim que ela põe a nu a sua verdadeira face». E, a propósito de Luís-Napoleão Bonaparte, Engels já tinha mostrado que, em condições favoráveis, «o sufrágio universal pode ser transformado em instrumento de repressão das massas». A tomada do poder por Hitler numa república sem republicanos veio confirmar a tese sábia de Engels.


O objectivo deste texto não é fornecer uma interpretação da República de Weimar, mostrando como as suas contradições internas ditaram a sua própria derrota, tarefa que já levei a cabo em escritos de juventude quando alguns dos meus colegas nazis me acusavam de ser "judeu" (sic). Mas antes de passar às referências bibliográficas, o objecto deste texto, vou apresentar algumas teses "dogmáticas" sem as demonstrar. Reparem nesta sequência de acontecimentos: Alemanha Imperial > Primeira Guerra Mundial > Derrota Humilhante da Alemanha > República de Weimar > Ascensão do Nazismo > Segunda Guerra Mundial. Agora confrontem-na com esta sequência de acontecimentos portugueses: Monarquia > Revolução Republicana > Primeira República > Ditadura (Segunda República) > 25 de Abril > Terceira República. O confronto permite definir o atraso estrutural e histórico de Portugal. A Primeira República Portuguesa não teve o brilho da República de Weimar, mas ambas foram derrotadas por movimentos totalitários: o nazismo na Alemanha que mergulhou a Europa na Guerra, e o salazarismo em Portugal. E hoje, à medida que a Europa se desagrega, caminhamos na direcção de um novo totalitarismo: os alemães recuperam os seus sonhos imperiais e os portugueses, burros como são, anseiam pela chegada de um novo ditador. Detecta-se facilmente a existência de um ciclo entre democracia e ditadura. Na Europa, este ciclo assume a forma de um ciclo entre social-democracia e totalitarismo, sendo o totalitarismo uma experiência de Direita. Até aqui nada mais fiz do que explicitar uma ideia avançada pela Escola de Frankfurt, mas, na peugada de Walter Benjamin, quero ir mais longe, responsabilizando a própria social-democracia pelas suas derrotas periódicas. A derrota da República de Weimar e a actual desagregação da Europa obrigam-nos a criticar severamente a social-democracia. Face a estes acontecimentos, não podemos continuar a defender a social-democracia: a Esquerda deve regressar aos seus textos originais e pensar um novo projecto político que anule de vez os erros da social-democracia como projecto político. A social-democracia não tem, objectivamente, futuro: ela nada mais é do que a outra face de um mesmo mito - a ideia de progresso - que alimenta a gula do capitalismo. De certo modo, os grandes triunfos do capitalismo foram alimentados e promovidos pela social-democracia. Enterrar a social-democracia, a grande aliada do capitalismo, deve ser a primeira tarefa a ser realizada pela nova Esquerda revolucionária que não pode confiar nas massas. O Ocidente já não está sozinho no mundo e a nova Esquerda deve saber usar a ansiedade e o medo que isso gera nas massas para revitalizar o Ocidente, preparando-o para uma nova fase heróica: a reconquista do mundo. Ao recuperar a sua própria tradição teórica e histórica, a nova Esquerda está a recuperar e a resgatar toda a tradição ocidental. Este duplo-resgate, sendo um único e mesmo resgate, priva o totalitarismo da sua base de apoio de massas. A reunificação da Esquerda é fundamental para levar a cabo esta tarefa de tentar evitar o advento do novo totalitarismo. Meus amigos de Esquerda: palavras de ordem, como, por exemplo, liberdade, justiça, igualdade, solidariedade, não movem as massas em períodos de insegurança extrema. Aliás, elas nem sequer deviam constar na agenda política de Esquerda, cuja experiência social-democrata mostra o seu fracasso total. Enquanto não mudar radicalmente o seu vocabulário filosófico e político, a Esquerda está condenada a produzir periodicamente a sua própria derrota. Esta crise profunda que ameaça o destino do Ocidente deve constituir uma nova oportunidade para a Esquerda corajosa que ainda ousa sonhar com o resgate de toda a história do mundo. O que está em jogo neste mundo global não é o modelo social europeu, mas sim o próprio destino do Ocidente. Não há escolha entre o modelo social europeu e o futuro do Ocidente: a prioridade é garantir o domínio ocidental, o resto pode ser sacrificado. Grande Política é aquela que tudo faz para garantir o domínio ocidental, sem temer o recurso à guerra para o conseguir. Mas há outra via a seguir: operar de modo inteligente recuos sociais, económicos, políticos e culturais. Muitas vezes as pessoas pensam que os recuos sociais implicam retrocesso civilizacional, mas este pensamento está errado: a ideia de progresso é que conduz não só ao retrocesso civilizacional, mas sobretudo à catástrofe. Abandonar a ideia de progresso implica deixar de colonizar o futuro com projectos de paraísos terrestres. Um ser mortal não pode sonhar com nenhum tipo de imortalidade: a aventura humana está condenada à destruição. Nada, absolutamente nada, neste mundo caduco, está a salvo da destruição e da morte.


Referências bibliográficas:


1. Peter Gray, A Cultura de Weimar.
2. Lionel Richard, A República de Weimar.
3. Ludwig Dehio, A Alemanha e a Política Mundial no Século XX.
4. Erich Fromm, Fuga da Liberdade.
5. Hajo Holborn, O Colapso Político da Europa.
6. Max Horkheimer, ed., Estudos sobre Autoridade e Família.
7. Herbert Marcuse, Razão e Revolução.
8. Franz L. Neumann, Behemoth: A Estrutura e a Prática do Nacional-Socialismo.
9. Arthur Rosenberg, O Nascimento da República Alemã, 1871-1918.
10. Carl E. Schorske, A Social-Democracia Alemã, 1905-1917.
11. Gustav Stolper, A Economia Alemã, 1870-1940.
12. Georg Lukács, A Destruição da Razão.
13. Wilhelm Reich, A Psicologia de Massas do Fascismo.
14. Hannah Arendt, Origens do Totalitarismo.
15. Kurt Sontheimer, Pensamento Anti-Democrático na República de Weimar: As ideias políticas dos nacionalismos alemães entre 1918 e 1933. Excelente.
16. Ralf Dahrendorf, Sociedade e Democracia na Alemanha.
17. Robert Michels, Partidos Políticos: Um estudo sociológico das tendências oligárquicas da moderna democracia.
18. Armin Mohler, A Revolução Conservadora na Alemanha 1918-1932.
19. Leonard Shapiro, As Origens do Absolutismo Comunista.
20. Georges Goriély, Hitler Toma o Poder.
21. Allan Bullock, Hitler ou os Mecanismos da Tirania.
22. Ernst Nolte, O Fascismo na sua Época.  


J Francisco Saraiva de Sousa 

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Greve Geral



Amigos e Amigas: Amanhã (24 de Novembro) é dia de Greve Geral. Façam o favor de aderir à Greve e de protestar nas ruas e praças de Portugal!


Recordo o primeiro parágrafo do meu texto sobre Traição dos Intelectuais

Em Portugal, todos temos fome, fome de alimentos, fome de emprego e fome de justiça. Segundo Georges Lefebvre, a fome despertou os franceses para a Revolução de 1789: a fome é o mais universal de todos os instintos universais, porque é a fome que nos leva a conservar a nossa vida - o suum esse conservare de Espinosa! - e que põe os restantes instintos em movimento. Freud enganou-nos quando estabeleceu o instinto sexual como o mais primário e o mais forte de todos os instintos: nós podemos viver sem satisfazer o instinto sexual ou mesmo sem o sublimar, mas não podemos viver sem saciar a nossa fome. A fome que foi silenciada por Freud, a busca de alimentos é, conforme mostrou Ernst Bloch - o apetite comum a todas as criaturas vivas, do qual procedem os outros instintos imediatos e as tendências acompanhadas da percepção, isto é, os movimentos do sentimento e as emoções. Ora, ainda segundo Bloch, a esperança é o afecto mais importante, o modo humano do instinto de conservação. A esperança é, portanto, algo biologicamente constitutivo da existência humana e, quando é frustrada, tende a tornar-se activa como impulso de auto-expansão para diante. A fome renova-se constantemente e cresce de modo ininterrupto. Ora, quando não tem nenhuma perspectiva de pão seguro, como sucede hoje em Portugal, revolta-se e procura mudar a situação: emerge assim o interesse revolucionário que diz não ao mal-existente e que diz sim ao futuro antecipado. A privação de alimentos faz da fome uma docta fames, uma fome esclarecida e instruída que converte a auto-conservação em auto-expansão, estimulando os sonhos diurnos de uma vida melhor. A referência à teoria da docta spes de Bloch revela a actualidade da sua filosofia da esperança, ao mesmo tempo que trava o canto de triunfo neoliberal de Raymond Aron: o capitalismo não sacia a fome dos famintos. A Queda do Muro de Berlim teve diversas consequências desastrosas para o mundo e, em especial, para o Ocidente, uma das quais foi a alteração da geopolítica da fome, para usar a expressão de Josué de Castro: a fronteira da fome subiu para a Europa (Adriano Moreira) e, neste momento de crise, a fome está instalada na Europa mediterrânica. O colapso do comunismo permitiu ao capitalismo regressar triunfal e explicitamente àquilo que sempre foi: um sistema de exploração do homem pelo homem. Mas com uma agravante: a ascensão da classe dos gestores e dos economistas neoliberais fortaleceu de tal modo o capital financeiro que destruiu o tecido produtivo dos países, como se pudéssemos viver indefinidamente do cartão de crédito - da expansão do crédito - que alimentou a gula irracional dos banqueiros, dos especuladores e dos mercados financeiros. Com estas escassas indicações, subverto - invertendo-a - a tese elaborada por Aron: o ópio dos intelectuais - antes e, sobretudo, depois da Queda do Muro de Berlim - não é o marxismo mas o próprio neoliberalismo que os privou de uma perspectiva de futuro, como se acreditassem que o capitalismo fosse capaz de satisfazer uma agenda de meras reivindicações, incluindo a reivindicação dos direitos dos animais, no quadro da própria sociedade capitalista. Os intelectuais de esquerda viveram alienados até ao estalar da crise de 2008: eles limitaram-se a reivindicar direitos sem questionar o próprio capitalismo. A crise de 2008 apanhou-os completamente nus e desprevenidos: o capitalismo mundial ameaça privá-los de todos os direitos adquiridos e eles não têm alternativas, porque, abismados na sua alucinação mágica, deixaram de exercer a crítica da ideologia. Os intelectuais alucinados traíram a humanidade e o mundo: eles são co-responsáveis pela miséria presente. Entregue a si mesmo e à sua própria ideologia da auto-regulação do mercado, o capitalismo gera ininterruptamente pobreza e miséria. Não é possível pensar um mundo novo fora do marxismo adulto: estamos, portanto, condenados a ser de algum modo marxistas, no sentido de estarmos empenhados na tarefa de pensar alternativas ao capitalismo, o grande mal-existente que conduz a aventura humana à catástrofe. A Grande Esperança (Jean Fourastié) depositada na capacidade do capitalismo para abolir a pobreza, através do desenvolvimento tecnológico e do aumento da produtividade, converteu-se, no nosso tempo mental e cognitivamente indigente, em pesadelo: o capitalismo não pode abolir aquilo que ele próprio gera, a desigualdade social, a pobreza, a miséria e a guerra. As expressões capitalismo da esperança ou o seu equivalente mais recente - capitalismo da felicidade, este monstro ideológico pensado pela economia comportamental, são oxímoros: onde há capitalismo não há esperança ou felicidade possível; o capitalismo é o mal-existente, contra o qual devemos lutar incondicionalmente. A abundância dos economistas burgueses é hoje pobreza, não só material mas também espiritual, porque a condição operária - o trabalho - foi combatida em nome de uma falsa ociosidade que privou os homens do seu próprio espírito: a intervenção dos economistas na esfera política foi e é fatal para o espírito humano. Doravante, o poder político esclarecido deve livrar-nos das manipulações e das engenharias financeiras dos economistas e dos gestores: a grande política deve afastar a economia do poder, de modo a romper com a política-gestão.


J Francisco Saraiva de Sousa