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segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Dossier Filosofia Médica (4)

Mais ideias sobre Filosofia Médica nas suas relações com a Psiquiatria:

1. Hoje tenho passado o dia chuvoso a estudar psiquiatria portuguesa e americana. tendo relido uma conferência dada por Goffman a uma audiência de psiquiatras. A psiquiatria tem um passado macabro que revejo no excesso de autoridade dos psiquiatras portugueses, desde o século XIX até ao 25 de Abril. Conheço de perto a síntese antropológica da medicina proposta pela psiquiatria portuguesa, embora não a entenda teoricamente. Devemos combater o imperialismo psiquiátrico no seio da medicina: não acredito na eficácia das psicoterapias e os novos ramos da psiquiatria - psiquiatria comunitária, psiquiatria geriátrica e psiquiatria forense, entre outros ramos - estão claramente ao serviço da manutenção do status quo.

2. Os profissionais da saúde mental temem a desmedicalização da psiquiatria. Em Portugal, a recepção do movimento da antipsiquiatria foi muito má: todos temiam ficar sem emprego. "A violência em psiquiatria é preeminentemente a violência da psiquiatria" (David Cooper), isto é, a subtil e tortuosa violência perpetrada pelos outros, pelos "sadios", contra os rotulados de loucos. A neurocirurgia praticada por EGAS MONIZ foi um acto de violência da psiquiatria. Qualquer história arqueológica da psiquiatria devia ter um capítulo final consagrado à "Violência e Psiquiatria". 

3. Infelizmente, não temos um bom estudo sobre a vida e obra de EGAS MONIZ: os portugueses não sabem fazer análises finas do pensamento daqueles que pensaram neste ermo que é Portugal. Já escrevi 3 ou 4 textos sobre a homofobia de Egas Moniz: a sua prática psiquiátrica é pura violência da psiquiatria. A destruição de partes do encéfalo é mais devastadora do que o encarceramento dos loucos. Egas Moniz comportou-se como um psiquiatra fascista.

4. Ontem, num piso inferior do Shopping do Bom Sucesso, foi brutalmente assassinado um homem gay que tinha marcado um encontro clandestino: a busca compulsiva de parceiro sexual levou a um encontro com a morte brutal. Ora, o crime do Bom Sucesso traz à baila o estilo de vida promíscuo dos homens homossexuais. A busca compulsiva de novos parceiros sexuais coloca em perigo a vida dos homens homossexuais, não só em termos de doenças sexualmente transmissíveis, mas também em termos de saúde mental e de criminalidade: sexo casual é sinónimo de encontro com a morte. A comunidade homossexual exibe um vasto espectro de perturbações mentais: o modelo de intervenção psiquiátrica junto da comunidade homossexual é relevante para a Filosofia Médica. A psiquiatria comunitária pode ser avaliada a partir deste modelo de intervenção psiquiátrica.

5. E. Goffman caracterizou o Hospital Psiquiátrico como uma instituição total, dando destaque ao seu "ciclo metabólico": a entrada ou recrutamento, a mastigação e o regurgitamento dos seres humanos. A analogia biológica chocou os psiquiatras, bem como M. Mead, a qual alegou que o ser humano não é um excremento ou um vómito. Porém, a mesma analogia foi usada por David Cooper: «No hospital psiquiátrico tradicional, actualmente, a despeito da proclamação de progresso, a sociedade consegue o melhor de ambos os mundos - a pessoa, que é "vomitada" para fora da família, para fora da sociedade, é "engolida" pelo hospital e, então, digerida e metabolizada, fora da existência como pessoa identificável. Creio que isto deve ser encarado como violência». 

J Francisco Saraiva de Sousa

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Pensamentos Políticos Dispersos (1)

Eis alguns pensamentos políticos partilhados no Facebook a propósito da situação de Guerra em Moçambique:

1. Em Portugal, a lógica do aparelho partidário dos partidos políticos está a afundar a democracia: os deputados e os políticos são incompetentes que fazem da "política" uma fonte de rendimento. Eles não pensam em termos de ideologias em confronto mas sim em termos de emprego e de regalias. Daí que façam alianças com o poder financeiro e empresarial e com os grandes escritórios de advocacia. O regime político português está completamente podre e o povo não tem sabedoria para lutar pela sua refundação saudável. Um povo idiota tem os líderes que merece: políticos corruptos.

2. A única coisa que melhorou substancialmente em Portugal depois do 25 de Abril foi a saúde. A educação e a justiça afundaram-se completamente. Governar em função de indicadores estatísticos forjados cria um país de mentira que não resiste a uma tempestade. Portugal não resistiu à crise porque é uma mentira oficial.

3. A função primordial da Constituição é limitar o exercício do poder político. Em democracia, os partidos políticos - tanto os que estão no poder como os que estão na oposição - não podem subverter a Constituição, usando os aparelhos repressivos de Estado (Exército e Forças Policiais). Em Moçambique, os movimentos armados não podem ser vistos como partidos políticos. Por definição, um partido político não tem exército, nem nacional nem privado. Converter o exército nacional em braço armado do partido no poder é abolir a democracia.

4. O que falhou em Angola e em Moçambique? Falhou a experiência democrática: os movimentos de libertação não souberam converter-se em partidos políticos, cada um dos quais com a sua própria ideologia política. A democracia implica alternância política: uns ganham, outros perdem. Recorrer à força para conservar o poder não é política democrática.

5. A "despolitização" da sociedade e do ensino é perigosa. Sempre condenei a abolição da disciplina de Introdução à Política no ensino secundário e a indiferença dos cursos de Filosofia em relação à Filosofia Social e Política. Foi com prazer que, consultando as obras de Maurice Duverger, me deparei com uma distinção rigorosa entre Fascismo e Comunismo. Estou farto da propaganda americana que falsifica a verdade histórica para vender uma mentira: o comunismo é igualitário, o fascismo é aristocrático. O colapso do comunismo foi terrível para todo o mundo. Sociedades sem oposição interna e externa lançam o mundo no abismo, como estamos a verificar.

6. Comparemos qualquer Presidente americano com Lenine: o que verificamos? Verificamos que o primeiro é ignorante e que o segundo foi um grande pensador. O mal da esquerda contemporânea é ter rompido com a sua grande tradição: Não há grande política sem um grande pensador por detrás.

7. Por que não simpatizo com o pensamento de Michel Foucault? Porque a substituição da macropolítica - a visão marxista da política e do poder - pela micropolítica deixa-nos sem projecto político e sem visão de futuro. Ao ser seduzida por questões de micropolítica, a esquerda entregou o campo da macropolítica ao neoliberalismo que aproveitou o colapso do comunismo para impor a agenda terrível da globalização financeira. Ora, convém ler D. Guérin, porque há uma associação perigosa entre Fascismo e Grande Capital. Os comunistas da Alemanha lembram-me sempre da ligação entre BMW e Nazismo.

8. O Guião da Reforma do Estado de Paulo Portas é ridículo. O que é o Estado? Quais as funções do Estado que se pretendem reformar? A reforma do Estado tem sempre uma forte componente ideológica: o governo quer enfraquecer o Estado e transferir algumas das suas funções para o sector privado. Nunca vi governo tão pouco patriótico como este: Alemanha, França, Inglaterra, USA ou mesmo a China são Estados fortes.

9. Concordo com a experiência pedagógica da Escola de Matosinhos: a separação dos bons alunos e dos maus alunos em turmas diferentes permite melhorar a qualidade do ensino, dando especial atenção aos alunos inteligentes; os outros podem assim estudar ao seu ritmo lento e ser canalizadas para outras áreas profissionais sem prejudicar os alunos inteligentes.

10. A situação de Moçambique agrava-se. Primeiro: a descolonização foi mal feita. Segundo: não há partidos políticos em Moçambique, mas dois movimentos armados que visam a conquista definitiva do poder. Terceiro: não havendo partidos políticos, não há democracia. Quarto: predomina a ideologia da eliminação do adversário porque não há ideologias políticas em confronto mas ambições pessoais de dirigentes totalitários.

11. Já leram o guião da reforma do Estado apresentado por Paulo Portas? Privatização das escolas públicas! É tudo tão ridículo que não vale a pena comentar! No entanto, vale a pena referir a experiência interessante de uma escola de Matosinhos: separar os bons dos maus alunos ajuda a melhorar a qualidade do ensino.

12. Os sonhos de infância ditam os destinos de Portugal: Passos Coelho e Paulo Portas sonharam que, quando fossem grandes, queriam ser Primeiro-Ministros. Ser Primeiro-Ministro tornou-se o objectivo das suas vidas. E basta a ambição para ser Primeiro-Ministro em Portugal. Daí que nunca tenha havido projecto político de futuro neste pobre e feio país.

13. Façam este exercício: Pensar a composição etária e regional deste governo. Uma conclusão se impõe: os ministros e secretários-de-Estado mais jovens são incompetentes e vingativos. E alguns deles são provenientes do interior profundo de Portugal.

14. Em vez da captação de migração de "valor qualificado", devíamos seguir uma política de expulsão de cérebros de diminuto valor, como o de Pedro Lomba.

15. Por que não simpatizo com a Frelimo? Sou a favor dos movimentos de libertação dos povos oprimidos. Porém, no caso de Moçambique, o movimento de libertação devia converter-se em partido político depois da Independência mudando de nome. A Frelimo aliou-se ao comunismo, seguindo o modelo de partido-único detentor do poder político. Mais tarde, depois da Guerra Civil, tanto a Frelimo como a Renamo deviam dar origem a dois partidos parlamentares que disputam democraticamente em eleições livres a conquista do poder. Porém, como estamos a ver, nenhum destes movimentos abdicou do seu braço armado: a Frelimo usa o exército nacional para se perpetuar no poder e a Renamo tem o seu exército privado. O Estado de Direito não pode existir nestas circunstâncias. Eliminar fisicamente adversários políticos não está no ADN do combate democrático pela conquista do poder. (Angola não é bom exemplo de democracia!)

16. Quando os portugueses diziam que "somos ricos", eu reagia a tal afirmação ultra-igualitária com espanto, pensando que eles eram e são idiotas. Apesar do colapso do comunismo, a teoria marxista do poder continua a ser válida: os partidos políticos são, de certo modo, classes sociais organizadas em termos de conquista do poder. Ora, o próprio Estado não é completamente neutro em matéria de luta de classes: as suas instituições nucleares - os aparelhos repressivos e ideológicos de Estado - impõem através da violência física e/ou simbólica o domínio da classe dominante sobre as classes desfavorecidas. Até mesmo o Estado Democrático é um "Estado de Classe". Uma prova: os portugueses estão a pagar os prejuízos privados dos bancos. O Estado socorre o grande capital nacional e internacional através do empobrecimento do povo. O Guião da Reforma do Estado proposto por Paulo Portas visa reforçar o carácter de classe do Estado português.

17. Paulo Portas diz ter lido Raymond Aron, mas parece ter retido pouca coisa dessa leitura: Raymond Aron foi sempre um defensor da democracia liberal, da economia de duplo-sector e da elevação do nível de vida das classes trabalhadoras, de modo a conter o avanço do comunismo. Paulo Portas propõe a privatização das escolas públicas, entre outras medidas conjunturais ridículas.

18. Quem é que já leu "Que Fazer?" de Lenine? Uma grande obra de pensamento político que pensa a conjuntura - o momento presente - sem esquecer a estrutura a longo prazo. Lenine foi uma mente brilhante. Ora, os políticos portugueses não escrevem obras que mereçam ser lidas. O pensamento político português é lixo.

19. Sempre que ouço os socialistas a defender uma solução federalista para a Europa fico aterrorizado. Será que eles ainda não compreenderam que a alienação da soberania nacional fortalece a soberania alemã? E sempre que escuto Passos Coelho a atacar o Tribunal Constitucional a palavra "Fascismo" vem-me à cabeça. 

20. Dizem no Facebook que em Belém habita a doença de Alzheimer. Confesso que esta concepção de doença como entidade exterior aos doentes - os seus portadores - me é completamente estranha. Neste aspecto, afasto-me do platonismo médico. 

J Francisco Saraiva de Sousa

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

A Palavra do Anjo Nocturno: Portugal está morto

Arte de Rua, Cidade-Estado do Porto
«Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonha, feixes de miséria, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalépsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, - reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta.» (Balanço Patriótico, Guerra Junqueiro) 

Durante algum tempo alimentei o projecto de pensar uma filosofia em língua portuguesa, de modo a avaliar os contributos do pensamento português para a Filosofia Universal. Porém, depressa compreendi que, com excepção da Escola do Porto, os portugueses odeiam visceralmente o pensamento filosófico e científico. A imbecilidade natural dos portugueses foi pensada por Guerra Junqueiro e Teixeira de Pascoaes, entre outros ilustres portuenses. A minha experiência de exílio interior levou-me a restringir o âmbito desse projecto filosófico destacando apenas o pensamento portuense. Ultimamente o projecto filosófico portuense converteu-se num projecto político: a auto-instituição da Cidade do Porto como Cidade-Estado. Operei assim uma ruptura com Portugal, cuja morte anuncio hoje.

1. Acordei a pensar que é necessário rever todas as nossas teorias filosóficas sobre o homem nas suas relações com o mundo. O homem não é nenhuma maravilha da natureza; é talvez o ser propenso à loucura e à violência desmesurada. As antropologias propostas com base na etologia apreenderam o diabo que habita cada um dos homens. A saturação social torna-nos inimigos mortais uns dos outros. E num tal ambiente de hostilidade cada sociedade define o Outro como alvo a abater. O clima é favorável à vinda triunfal do Anti-Cristo.

2. O sebastianismo pode ser criticado de modo a revelar a "essência" portuguesa: Um povo sem história digna de ser rememorada em termos mundiais sonha com o Quinto Império realizado sob a liderança de uma figura portuguesa. Ora, nós sabemos que os portugueses são desprezados por todos os europeus e por todos os povos da terra: Um povo medíocre e inferior - um povo sem metafísica - não pode ter sonhos mundiais. Portugal é um país medíocre habitado por gente atrasada e arcaica.

3. A figura messiânica de D. Sebastião deve converter-se - mediante mutação radical - na figura do Anjo Nocturno que anuncia o Fim de Portugal. Eis o anúncio terrível do Anjo Nocturno: "Portugal está morto". Convém aceitar este anúncio e assumir todas as consequências que resultam dele. A morte de Portugal é a única maneira de fazer justiça plena aos "portugueses" - em especial aos portuenses - que ousaram pensar neste asilo de alienados mentais que foi e é Portugal. Só à luz da morte de Portugal podemos alcançar alguma redenção e serenidade. É com alegria que anuncio a morte de Portugal.

4. Não há pensamentos portugueses. Todo o pensamento genuíno afirma-se contra Portugal. Ou melhor: Todo o pensamento é, na sua essência, anti-português. Pensar contra a existência de Portugal é pensar por antecipação um mundo liberto da imbecilidade e da corrupção, esse mal dos povos latinos e atrasados.

5. A História de Portugal é uma tremenda mentira para consumo interno, porque, na verdade, um povo sem metafísica não tem história. Os pensadores que pensaram a imbecilidade do povo português sabiam que ele era incapaz de fazer história. Aliás, os portugueses não merecem a designação de "povo": "rebanho" é o termo adequado para designar uma população animal que deve ser estudada pela Zoologia - e não pela Antropologia.

6. A Globalização em marcha reserva um destino para o rebanho português: a escravatura. As pessoas são tão burras que ainda não perceberam que o retrocesso civilizacional de que se fala é o regresso da escravatura.

7. A nossa missão filosófica e política é salvar a Cidade do Porto do naufrágio de Portugal. Quando falei da metamorfose portuense do sebastianismo nacional, procurei pensar aquilo que permaneceu impensado no pensamento portuense: a metamorfose implica - em última análise - uma ruptura política da Cidade do Porto com Portugal. A Filosofia Nocturna que se insinua nas entrelinhas do pensamento portuense anuncia claramente a morte de Portugal. Porém, a noite eterna de Portugal significa um novo amanhecer para a Cidade do Porto: a morte de Portugal é o grande dia da libertação do Porto Cidade-Estado.

8. Os pensadores portuenses reagiram mal ao Ultimatum inglês e Guerra Junqueiro escreveu uma pequena obra de poesia intitulada Finis Patriae. Hoje a reacção ao eterno resgate (financeiro) de Portugal deve ser mais profunda e radical: a ruptura política da Cidade do Porto com Portugal. Mas, para consumar a grande ruptura. é necessário um novo homem, isto é, um novo portuense suficientemente corajoso para enterrar Portugal. 

9. Como é evidente, um povo apático e fatalista que se ajusta pela maleabilidade da indolência a qualquer estado ou condição - o povo português segundo Guerra Junqueiro, não pode protagonizar a ruptura com Portugal. Essa missão cabe a todos aqueles que já não conseguem olhar para os símbolos nacionais sem vomitar e sentir náusea. 

10. O fracasso da revolução republicana portuense levou Sampaio Bruno ao exílio. Quando regressou do seu exílio em França e na Holanda, Sampaio Bruno refugiou-se na sua terra natal - a Cidade do Porto, onde pensou o seu exílio interior. Lá no fundo da sua alma danificada ele sabia que, para salvar a Cidade do Porto do naufrágio de Portugal, era preciso romper com essa matriz nacional, cuja história é uma "série de biografias, num desfilar de personalidades, dominando épocas" (Guerra Junqueiro). Não basta sonhar a "quimera"; é preciso realizá-la. Ora, a "quimera" foi sempre para os ilustres portuenses a auto-instituição da sociedade portuense como Cidade-Estado.

Apocalipse de Portugal, o Cumprimento da Profecia:

1. A pobreza começa a instalar-se na chamada classe média e as pessoas são tão burras que não sabem o que fazer. Por este caminho, Portugal vai recuar até aos tempos do fascismo. As pessoas já vivem no modo de sobrevivência: não há futuro.

2. A classe dos idosos portugueses passa fome e não tem dinheiro para os comprimidos. Aliás, acho que os portugueses passam fome para pagar as contas e os empréstimos: Asseguram o abrigo e passam fome. Os funcionários públicos - apesar dos cortes - ainda resistem à crise.

3. Portugal já está pobre mas no próximo ano passará a ser um país do Terceiro Mundo, portanto um país miserável. A sociedade portuguesa já entrou em colapso e nunca mais sairá da miséria. Portugal é a lixeira da Europa. A mão-de-obra escrava será recrutada entre portugueses.

4. A maldição abateu-se sobre Portugal: o povo que sonhou o Quinto Império será escravizado no futuro próximo. A verdade é que não há lugar para os portugueses na sociedade do futuro. A existência de portugueses é uma crueldade. De facto, o extermínio desta raça maldita é a salvação do mundo.

5. Portugal não está na agenda nem do Anti-Cristo nem de Cristo: os portugueses nasceram sem salvação possível. O seu lugar natural é o inferno.

J Francisco Saraiva de Sousa

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Projecto Porto Cidade-Estado (6)

Cidade do Porto
Hoje partilho alguns comentários sobre o jogo FCPorto-Sporting:

1. Porto Cidade-Estado deve rever a sua toponímia e eliminar selectivamente todas as designações estranhas à Cidade Invicta, tal como sucedeu com o Passeio dos Clérigos. A sua designação anterior - Praça de Lisboa - era um atentado contra o espírito portuense.

2. A história de Portugal é uma sucessão contínua de fracassos. Os "portugueses" que não se identificam com a imbecilidade nacional deviam criar uma página - ODEIO PORTUGAL.

3. Portugal afundou-se de vez e já nunca mais conseguirá recuperar. O melhor é negar a nacionalidade portuguesa e abrir novos caminhos, tais como Porto Cidade-Estado, de preferência governada por nórdicos.

4. Presidente da FIFA goza Cristiano Ronaldo em Oxford e prefere Messi. A caricatura que fez de CRonaldo merece um prémio: Perfeita! O mundo goza claramente Portugal e, de facto, devemos rir porque os portugueses merecem ser gozados.

5. Uma geografia da distribuição da loucura portuguesa pode seguir um critério clubístico: zona azul indica saúde mental, zona encarnada e zona verde indicam um espectro complexo e difuso de perturbações mentais. Basta ver o "Dia Seguinte" para sermos confrontados com cérebros patológicos.

6. Não podemos mudar aquilo que desconhecemos. Para mudar o mundo, é preciso conhecê-lo. A célebre tese de Marx sobre a transformação do mundo foi mal-interpretada: a filosofia de Marx nunca abdicou da teoria a favor da praxis. Nós conhecemos relativamente bem a dinâmica do capitalismo, mas este conhecimento não é suficiente para transformar o mundo: os agentes sociais da mudança já não são os mesmos do século XIX. O capitalismo introduziu mudanças significativas no mundo da vida quotidiana e no mundo da cultura e da personalidade. Conhecer os novos agentes sociais e os seus mundos fantásticos e saturados é uma prioridade da teoria crítica. Este conhecimento implica mudanças estruturais na agenda política da esquerda atenta ao mundo.

7. Eu sou muito objectivo e lúcido nas análises que faço: Basta assistir aos programas de TV para constatar que reina em Portugal uma conspiração contra o Porto e o FCPorto. Vejamos de perto um caso: "O Dia Seguinte" da SicNotícias. O comentador encarnado possui um cérebro saudável? O comentador verde foi objectivo na análise que fez do jogo Porto-Sporting e dos confrontos prévios ao jogo? Quem atiçou o ódio da claque terrorista do Sporting? Ora, a estratégia do FCPorto foi o silêncio.

8. Perante a evidência empírica não há argumentos e muito menos argumentos produzidos por cérebros alucinados: O FCPorto afirmou-se como vencedor depois do 25 de Abril. O ódio ao Porto vem do tempo do fascismo que tinha os seus clubes de regime: Benfica e Sporting. Estes clubes de regime nunca se adaptaram à cultura democrática do mérito: Eles não sabem vencer a não ser pressionando os árbitros, caluniando o adversário ou recorrendo às secretarias dos tribunais ou da imprensa. A chamada imprensa portuguesa é frontalmente contra o Porto e o FCPorto. Sabemos isso e devemos agir em conformidade: Exigir a autonomia radical do Porto Cidade-Estado porque não queremos ser invadidos por vândalos.

9. Como adepto do FCPorto, o que me interessa Cristiano Ronaldo, a Selecção Nacional ou o Estádio do Jamor? Absolutamente nada! Quando ouço os jornalistas da SIC a dizer que nos recebem na sua "sala de visitas" ou que a Selecção Nacional é o retrato da cópula encarnado-verde, sinto-me distante dessas realidades saturadas de provincianismo saloio. Eu sou portista e nada mais.

10. O que é o jornalismo desportivo em Portugal? Falar-conspirar durante horas seguidas sobre as frustrações desportivas do Benfica e do Sporting, lançando calúnias contra o FCPorto. O país está dividido e não adianta falar de coesão nacional porque esta mais não é do que uma falsa-unidade contra o Porto: Benfica e Sporting estão unidos na calúnia contra o FCPorto e a Cidade do Porto. Ora, como portuenses e portistas, somos excluídos dessa falsa-coesão imposta pelo regime fascista. Daí desejarmos ser um território independente e autónomo.

11. Mais outro exemplo do defeito cerebral dos comentadores encarnado-verdes: a corrupção da semântica que leva à mentira desportiva. Um jogador encarnado ou verde agride um jogador do FCPorto e eles falam de "virilidade". Um jogador encarnado ou verde lança-se à relva e eles acusam o jogador do FCPorto de ter cometido uma falta sem ter sido penalizado pelo árbitro. Pois, os cérebros defeituosos subverteram a "virilidade" fazendo dela uma mentira desportiva. O motivo secreto desta subversão é pressionar os árbitros a fazer o seu jogo de secretaria, deixando-os sozinhos no campo sem equipa adversária.

12. O FCPorto venceu o Sporting por 3-1. No último programa do "Dia Seguinte", o comentador verde diz para o comentador azul: "sorte de jogo". O comentador azul responde-lhe: "a sorte paga-se" (com esforço, disciplina e inteligência desportivas). E o comentador encarnado coloca a frase descontextualizada na sua página do Facebook para caluniar o FCPorto. O que podemos dizer sobre um cérebro que distorce as imagens dos lances dos jogos? Quando se perde o bom-senso, perde-se o mundo, como já dizia Hannah Arendt. Só nos resta o sorriso psiquiátrico!


A lição a sacar destas considerações futebolísticas é simples: as pessoas que possuem um "self" débil precisam desse sentimento de pertença que lhes empreste uma identidade colectiva. Ora, como o meu self é forte, o facto de ser adepto do FCPorto não me ofusca a mente: a minha identidade pessoal não sofre "mossa" quando o FCPorto perde ou joga menos bem. Deixa de ser fanático e liberta a tua mente para o caminho da verdade, do bem e da beleza! O fanatismo clubístico é uma perturbação mental: somar os fracassos desportivos do teu clube aos teus próprios fracassos pessoais arruína a tua vida mental, levando-te à violência desportiva.  

J Francisco Saraiva de Sousa

domingo, 20 de outubro de 2013

Projecto Porto Cidade-Estado (5)

Porto Cidade-Estado
Hoje partilho um conjunto de pequenos textos que visam esclarecer a Filosofia Portuense:

1. A mente poética de Teixeira de Pascoaes produziu, em estado prático, uma grande Filosofia da Poesia Portuguesa que urge sistematizar. Destaco uma frase da sua autoria: «D. Quixote é. D. Sebastião há-de ser». A alma lusitana distingue-se assim da alma castelhana: a primeira deseja o futuro, abre-se ao futuro desejado; a segunda fecha-se no passado, actualiza-o. O sebastianismo transfigurado dos pensadores portuenses é uma filosofia da História de Portugal. Não temos outra.

2. Conheço a biblioteca privada de alguns dos pensadores portuenses: os títulos incluem poucas obras de vulto naquele tempo. Ora, o que é inusitado é o facto deles terem redescoberto conceitos filosóficos nucleares e terem feito distinções conceptuais de primeira ordem: a distinção entre "é" e "há-de ser" é brilhante. A alma portuense descobriu uma afinidade que partilha com a alma russa. Mas há outra afinidade e, desta vez, com a alma alemã. O romantismo portuense é brilhante e digno de figurar na grande literatura mundial.

3. As pessoas não compreendem a minha indiferença em relação a Fernando Pessoa e a minha preferência pela poesia e prosa de Teixeira de Pascoaes. Direi apenas que na obra de Pascoaes sinto-me em casa, enquanto na obra de Pessoa sou um estranho: Uma poesia que não se presta ao pensamento não me atrai.

4. Como qualquer um dos grandes pensadores portuenses do passado, eu tento libertar o pensamento filosófico em língua portuguesa da prisão da intriga e da bisbilhotice. E, nessa tarefa de devolver o pensamento à sua matriz conceptual, fui mais longe do que os pensadores ancestrais: Faço Filosofia e, quando confrontado com a Mitologia Nocturna do Povo, converto-a em Filosofia Nocturna. Surgem luzes na escuridão da funda meia-noite.

5. No meu período juvenil, rejeitei o Saudosismo de Teixeira de Pascoaes: a Saudade era-me completamente estranha. Mas, com o decorrer do tempo e à medida que aprofundava a Filosofia Portuense, descobri aquele processo de mutação intelectual a que chamo transfiguração portuense do sebastianismo: a saudade portuense deixou de ser uma noção vaga para passar a ser um conceito político. Vou mais longe: os pensadores portuenses nunca alinharam filosófica e politicamente com a Geração 70: o "há-de ser" é mais do que uma categoria ontológica; é, antes de tudo, um projecto político, e a saudade portuense mais não é do que a saudade do futuro reservado à Cidade do Porto. Eu sou o filósofo portuense da Grande Ruptura: os meus sonhos diurnos antecipam em pensamento o futuro do Porto como Cidade-Estado. Ora, a minha alma portuense não me impede de pensar outras figuras portuguesas, como por exemplo Gil Vicente.

6. Ao falar da transfiguração portuense do sebastianismo, estou a introduzir uma ruptura no seio do sebastianismo português. Rejeito a mitologia sebastianista pensada por sulistas, como por exemplo António Quadros, e aceito o desafio de levar mais longe a problemática filosófica portuense, fazendo do Encoberto-Desejado uma figura da Filosofia. Os heterónimos de Fernando Pessoa tornam-se ridículos perante a figura portuense do Encoberto-Desejado, a figura que anuncia a Filosofia Nocturna e promete a Filosofia Diurna.

7. Há pessoas que se apropriam dos tesouros cognitivos disponibilizados pela Internet como se fossem seus e, quando atacam os outros, pressupõem que eles fazem o mesmo. Ora, nem todos os utentes da Internet são "ladrões cognitivos". É complicado tentar testar a inteligência do outro, sobretudo quando esse outro está a fundar uma nova problemática filosófica, para além das problemáticas da Filosofia da Consciência e da Filosofia da Linguagem: a problemática da Filosofia do Conceito que, de certo modo, reclama a herança de Espinoza. Tontos são aqueles que se limitam a dizer vulgaridades, vampirizando a obra de Vieira, por exemplo.

8. A falência da Editora Livros do Brasil está a privar-nos das obras brasileiras. Uma obra que desapareceu das livrarias portuguesas são os "Sertões" de Euclydes da Cunha. Os portugueses desconhecem o sebastianismo brasileiro, ou melhor, o tremendo impacto de António Vieira sobre o sebastianismo nordestino: o brasileiro é-nos apresentado como um "ser saudoso" (Oliveira Torres) porque descendente detrês raças tristes: o português desterrado da sua pátria, o negro banzado de África, e o índio desesperado por ter sido arrancado às selvas. Dado esta região brasileira ter sido colonizada por gente proveniente do Norte de Portugal, a saudade brasileira - que dizem ser saudade do Paraíso Perdido - é herdeira da saudade galaico-portuense ancestral. Estou cada vez mais convencido de que a Filosofia do Sebastianismo deve ser um empreendimento luso-brasileiro.

9. Abel Salazar duvidava do equilíbrio mental de António Sérgio, cuja mente destrambelhada teve repercussões nefastas sobre o pensamento português e portuense. Os maiores cérebros portugueses seus contemporâneos - Jaime Cortesão e Abel Salazar, por exemplo - não tinham boa imagem de António Sérgio e detestavam o seu "polemismo caceteiro" que mergulhou o cultura portuguesa nas trevas da merda. Convém reanalisar criticamente todas estas polémicas travadas por Sérgio contra a filosofia portuense. Os (pseudo-)intelectuais portugueses herdaram esse espírito caceteiro que se limita a demolir sem construir.

10. Quem é o Encoberto para Sampaio Bruno, o pai do chamado pensamento português, isto é, do pensamento portuense? Eis a sua resposta: «Dissipe-se a nuvem que encobre o herói. O herói não é um príncipe predestinado. Não é mesmo um povo. É o Homem». A transfiguração portuense do sebastianismo está realizada nestas palavras de Sampaio Bruno. A figura do Encoberto - isto é, do Homem Escondido - é a figura de uma antropologia filosófica portuense que ainda não foi pensada nos seus próprios termos. No entanto, o carácter universal da filosofia portuense está estabelecido.

11. Como sabem, não estou de acordo com todos os portuenses ilustres. Dalila Pereira da Costa opera uma mitologização do sebastianismo que rejeito. Porém, há elementos produtivos em "A Nau e o Graal": «Para as duas almas constituintes desta pátria, a céltica e a judaica, a história será encarnação do mito ou o mito em vias de se fazer». Aceito a primeira ideia e rejeito a segunda. Por vezes, diante de obras profundas, temos de realizar uma leitura sintomal, dando destaque aos elementos construtivos de modo a resgatar o pensamento pensado.

12. Em 1904, Sampaio Bruno publicou a sua obra "O Encoberto", cujo índice é o seguinte: I A Fé e o Império; II O Desejado; III O Encoberto; IV O Restaurado; V Mito; VI Realidade; e VII Decadência e Progresso. Reparem que pela estrutura da obra se adivinha o seu programa de desmitologição do sebastianismo. Além disso, aparecem três figuras: o Desejado, o Encoberto e o Restaurado, além da crítica subjacente à teoria da decadência de Portugal de Oliveira Martins e de Antero de Quental. O homem do Porto indicou os caminhos adequados a percorrer.

J Francisco Saraiva de Sousa

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Projecto Porto Cidade-Estado (4)

Porto Cidade-Estado
Hoje as ideias partilhadas no Facebook seguiram um novo rumo: a temática do sebastianismo e as metamorfoses da espera. Têm relevância para o Porto Cidade-Estado:

1. A Alma Portuguesa só pode ser pensada à luz da fragmentação. A Imagem do Porto-Trabalho deve ceder à imagem do Porto-Pensador. Uma das clivagens da alma portuguesa pode ser enunciada assim: o Porto pensa enquanto Lisboa desconstrói e destrói o pensamento pensado pelo e no Porto. Todas as Histórias da Literatura Portuguesa são falsificações que secam os vestígios geniais da alma portuense. O Romantismo em Portugal é uma criação portuense: os sulistas sabem isso quando dizem ser anti-românticos, isto é, anti-portuenses. As obras de Teixeira de Pascoaes tematizaram o romantismo, dando-lhe uma filosofia sistemática. Há portanto uma Filosofia do Romantismo Portuense. Porém, convém exorcizar uma concepção prévia do romantismo: o culto do passado que encontramos em Alexandre Herculano converte-se em ânsia de futuro em Teixeira de Pascoaes, o que quer dizer que o romantismo não é necessariamente retrógrado e reaccionário. A filosofia de Teixeira de Pascoaes é sombria no sentido de ser uma filosofia nocturna que aguarda por um novo amanhecer.

2. O sebastianismo foi mal pensado filosoficamente: o sebastianismo do Padre António de Vieira que, de certo modo, revive na "Mensagem" de Fernando Pessoa foi completamente transfigurado pelos filósofos e poetas portuenses. A transfiguração portuense do sebastianismo é, desde logo, uma transfiguração filosófica e política. A figura do Encoberto é, na filosofia portuense, uma figura tão importante como o Zaratustra na filosofia de Nietzsche. Com efeito, ela é uma figura da filosofia nocturna. (Ocorreu aqui uma polémica que ditou a sequência seguinte:)

3. A Universidade de Coimbra foi sempre inimiga do pensamento portuense, como o demonstra a "questão académica". A Faculdade de Letras do Porto foi fundada em Agosto de 1919 por Leonardo Coimbra e, depois da polémica com Coimbra, foi suprimida por decreto em 1928. Esta supressão fascista deslocou algumas figuras do pensamento portuense para a Universidade de Coimbra: o exílio coimbrão não conseguiu ofuscar o génio portuense. A Universidade de Coimbra foi sempre o túmulo do pensamento filosófico e científico. A Aliança Porto-Lisboa quebrou esse feitiço de Coimbra.

4. Eis como Teixeira de Pascoaes lamenta a imbecilidade dos portugueses: «O grande poder emotivo da Raça contrário ao pensamento intelectualizado, opunha-se à criação de uma verdadeira Filosofia. O sentimento inundante afoga em lágrimas e nuvens o pensamento lúcido e sereno. Também o viço excessivo de uma planta não a deixa frutificar». Considera que o Criacionismo de Leonardo Coimbra é «a primeira Filosofia com todo o ritual e espiritual, escrita em língua portuguesa».

5. O messianismo pode ser definido - em termos gerais - como "esperança histórica". E o sebastianismo como sua versão portuguesa nasce da dor e nutre-se da esperança (Lúcio de Azevedo). Apesar de terem sido publicadas muitas obras sobre o sebastianismo, ainda não temos uma História do Sebastianismo (Lusófono) e muito menos uma Filosofia do Sebastianismo. A tese que proponho é uma inversão de marcha: Pensar o Encoberto como o Desejado. A Filosofia Portuense realizou de certo modo essa inversão que rompe com a Profecia: a transfiguração portuense do sebastianismo é assim secularização da crença bíblica na vinda de um Deus ou de um Enviado de Deus, que salvará o seu povo oprimido. (Aqui o meu amigo Wanderson Lima deu a seguinte bibliografia brasileira: um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete e oito.)

6. É preciso ser filósofo profissional para compreender a "História do Futuro" do Padre António Vieira. Eis aqui uma afirmação a reter: «A ciência dos futuros - disse Platão - é a que distingue os deuses dos homens e daqui lhes veio, sem dúvida, aos homens, aquele antiquíssimo apetite de serem como deuses». O Capítulo Primeiro da História do Futuro tem muita filosofia que urge compreender.

7. Na "História do Futuro", António Vieira fala "com todo o mundo" no primeiro capítulo, e "só com Portugal" no segundo capítulo. Ora, um filósofo hermeneuta sabe que há aqui algo a decifrar, porque logo a seguir Vieira diz: «nem todos os futuros são para desejar, porque há futuros para temer». A Fé não é suficiente para deslindar a lucidez histórica e política de Vieira.

8. Sugiro o tema de um novo livro sobre o Padre António Vieira que namora o título de uma obra de Isaac Deutscher: António Vieira, Profeta Armado, Profeta Desarmado e Profeta Vencido: Uma trilogia.

9. Em 1634, nos arrabaldes do Salvador, António Vieira pregou o seu Sermão de S. Sebastião. O seu sebastianismo evoluiu do sebastianismo estático, preso à esperança do regresso do rei morto em Alcácer Quibir, para o sebastianismo do Quinto Império. O sebastianismo conheceu diversas peripécias sem mudar de matriz. Ora, quem sonha o Quinto Império? Fernando Pessoa que se filia ao último Vieira.

10. Lamento a miopia política do governo português no caso da parceria estratégica com Angola: A Inglaterra livrou-se disso ao criar colónias ocidentais; nós portugueses sabemos que ainda há preconceitos nas relações com as ex-colónias, em especial Angola e Moçambique. Com excepção do Brasil, o património lusófono não é assumido por esses países africanos. É preciso ter paciência na construção da comunidade lusófona.

11. António Vieira realizou uma síntese messiânica que combina o joaquimismo, o messianismo nacional português - bandarrismo - e o messianismo judaico. Desta combinação resulta uma figura que não vou aqui delinear, limitando-me a dizer que o reino messiânico sobre a terra foi formalmente anunciado pelos profetas (1); que haverá três estados da Igreja, da Sinagoga à Igreja actual e desta à Igreja do futuro (2); e que o início da era messiânica será marcado pelo esmagamento dos turcos pelos exércitos cristãos comandados pelo rei de Portugal (3). Como é evidente, a profecia de Vieira falhou: os judeus foram conduzidos a Israel no decurso da Segunda Guerra Mundial sem a orientação de um Messias. Mas o sebastianismo é mais do que isto, e o que tenho defendido é a necessidade de pensar a sua filosofia: a sua concepção da História e da Política.

12. No trabalho intelectual, há divisão de trabalho: uns recolhem o material sem lhe acrescentar mais-valia; outros processam esse material adicionando-lhe erudição; e, finalmente, há os criadores que jogam entre os trabalhadores e os eruditos, criando tempestades inovadoras no seio das ciências e da filosofia. Sem cérebros criativos não haveria mudança de problemáticas e o mundo seria chato e monótono. Só de falar disso dá-me sono! Desperta e acorda para a ciência revolucionária!

13. Fiquei desiludido com esta discussão em torno do Padre António Vieira: Aspectos biográficos foram ventilados sem entrar na sua matriz de pensamento, precisamente o que me interessa enquanto filósofo. Para contornar uma má biografia de Vieira, sugeri um título: António Vieira, Profeta Armado, Desarmado e Vencido. E, para abordar o seu pensamento messiânico, outro título: António Vieira, História e Política. Mas parece que andei a pregar para os peixes.

14. Eu só reconheço a autoridade de uma pessoa em matéria de estudos vieiristas quando ela souber elucidar a concepção de tempo nas obras de Vieira. Eu não procuro uma biografia; procuro - isso sim - uma filosofia sistematicamente pensada.

15. Por que amo o Barroco Alemão? Porque o drama alemão mergulha inteiramente na desolação da condição terrena, afastando-se da escatologia e fugindo para uma natureza desprovida de graça. Ora, meus amigos, o Barroco Português não está longe do Barroco Alemão: Falta-lhe apenas estudiosos disciplinados pelo rigor da filosofia.

16. Amigo CM: Deixo-lhe aqui quatro notas críticas:

16.1. António Vieira é um escritor português muito estudado não só por portugueses mas também por estrangeiros. O facto de ter dedicado 12 anos ao estudo de Vieira não lhe dá o direito de desprezar os trabalhos pioneiros e brilhantes de Lúcio de Azevedo, Hernâni Cidade e António José Saraiva. A melhor biografia de Vieira continua a ser a "História de António Vieira" de Lúcio de Azevedo. Como é evidente, o maior conhecimento da obra e da vida de Vieira permite elaborar novas biografias, escritas à luz de novas problemáticas teóricas. A investigação nunca está concluída e ninguém pode afirmar deter a última palavra sobre um assunto.

16.2. Ontem negou a filiação de António Vieira à problemática luso-brasileira do sebastianismo. Tentei uma definição concisa do sebastianismo apresentando-o como uma versão portuguesa do messianismo. António Vieira realizou a passagem do sebastianismo estático ao sebastianismo do Quinto Império. As peripécias do sebastianismo não podem eclipsar a sua matriz teórica e política que permanece constante ao longo do tempo: as metamorfoses da espera não alteram significativamente a problemática do sebastianismo, sendo adaptações à conjuntura política.

16.3. Ontem estabeleceu um paralelo entre António Vieira e Sabetai Zevi, como se se tratasse de uma descoberta original. Ora, estudos anteriores - em especial os de António José Saraiva - já tinham identificado esse paralelo, mostrando que o ano de 1666 era messiânico para os dois autores. Aquilo que diz ser uma descoberta original sua não é, de facto, original. Os encontros de Vieira com rabinos portugueses na Holanda estão bem estudados. Há uma figura que esqueceu: Menasseh ben Israel, cujas obras têm afinidades com as obras messiânicas inacabadas de Vieira. A Política de Vieira não pode ser dissociada da questão da escravatura e dos índios brasileiros: as Dez Tribos perdidas de Israel são importantes para compreender a Igreja do Futuro mas não eclipsam a questão da escravatura e dos engenhos.


16.4. (O CM) escreveu algures o seguinte: «São três os Sermões do Rosário que falam dos escravos. O único estudo que existe destes trintário é meu, se conhece outro prove-o. Chama-se "Um sermonário mariano de Vieira, Maria Rosa Mística", foi publicado pela Universidade Católica, deveria ser uma treta como o senhor faz querer. Apresente teses, tenha universidades que lhas publiquem, e depois venha discutir sobre aquilo que ainda tem muito que aprender. Seja mais humilde e não pretenda ser enciclopédia, pois as asneiras saem-lhe em catadupa».

Deixando de lado a tontice da sua retórica muito lusitana e agressiva, devo dizer que a questão dos escravos foi abundantemente analisada por diversos estudiosos portugueses, brasileiros e estrangeiros. O segundo volume da "História de António Vieira" de Lúcio de Azevedo aborda esses Sermões no Sexto Período - O Vencido, em especial na secção VI: A tarefa dos sermões. Hernâni Cidade e António José Saraiva também não foram indiferentes à questão dos escravos, para já não falar dos estudiosos brasileiros - ainda ontem foram referidos alguns mediante links - e estrangeiros. É certo que os sermões podem ser analisados em função de chaves de leitura diferentes, mas o seu conteúdo político - esse sim foi estudado.

Tinha outras coisas para dizer sobre a adjectivação que me foi atribuída, mas prefiro omiti-las porque não são relevantes para a elucidação do pensamento de Vieira.


17. O Problema António Vieira consiste em articular a História e a Política, e esta articulação é a sua Filosofia. Ora, a articulação História-Política já deriva de uma problemática de fundo que não foi descoberta por Vieira: Os seus compromissos políticos assumem a forma de teses filosóficas sobre a história e a política do seu tempo. É nesse sentido que o sebastianismo do Quinto Império ainda não foi pensado.

18. Descobri um paradoxo na concepção da "História do Futuro" de António Vieira, nas duas edições que disponho dessa obra. Vieira é enfático quando distingue a sua História do Futuro da História do Passado escrita por autores clássicos. Porém, para a fundamentar, apresenta as suas quatro "utilidades". Ora, a terceira utilidade da História do Futuro - «as promessas e as disposições divinas, antecedentemente conhecidas na previsão do futuro, tudo facilitam e a tudo animam» - reduz a História à Política de realização das promessas. A concepção de tempo de António Vieira aproxima-se e, ao mesmo tempo, distancia-se da concepção de tempo de Santo Agostinho. Para Vieira, o tempo tem dois hemisférios - o passado e o futuro - e um horizonte de tempo presente em que termina o passado e começa o futuro. É esta concepção de tempo que está na raiz dos cinco impérios: o Quinto Império mundial será realizado à escala mundial por Portugal e pelos portugueses sob a liderança de um rei português. Ora, a quarta utilidade da História do Futuro é advertir os inimigos -holandeses e espanhóis e outros - de que não vale a pena lutar contra Portugal, cujo destino foi traçado por Deus. Dado ser um império mundial temporal no mundo, o Quinto Império - a ideia - rompe com a escatologia, outra dificuldade a pensar em Vieira.

19. A burocratização do ensino queimou os neurónios dos auto-intitulados professores que assumem o cargo burocrático dispensando a tarefa de ensinar e educar. Munidos das palermices das pedagogias administrativas, pretendem ser avaliadores por decreto celestial. Porém, como podem avaliar o que não sabem ou o que não ensinaram? O ensino em Portugal e no mundo é uma mentira. Uma maneira tipicamente portuguesa de evitar o confronto da avaliação é dizer que não aceitam ser avaliados e testados. Sim, são múmias mas múmias que querem avaliar sem ser avaliadas.

20. O que me irrita nos chamados escritores portugueses? A bisbilhotice, a atracção exclusiva por pormenores da vida privada dos autores que dizem analisar, o golpe-baixo no diálogo, enfim a incapacidade de pensar o pensamento pensado e de criar novos pensamentos. Nunca se avança; patina-se na mesma merda. Daqui a pouco estávamos a discutir a virgindade de Vieira! Odeio gente burra!

21. Como exemplificar a estupidez dos livros produzidos por portugueses medíocres? Em primeiro lugar, denunciando a falta de qualidade científica e linguística da maior parte das teses de mestrado e de doutoramento. Um avaliador externo que as lesse ficaria chocado: as universidades andam a produzir burros diplomados em série. Em segundo lugar, poderia referir muitas obras editadas pelo centro de Braga da Universidade Católica: as obras filosóficas tratam de tudo menos de Filosofia. Mas posso dar outro exemplo, desta vez portuense: a Fundação Spes tentou aprofundar os estudos da vida e da obra do Bispo D. António Ferreira Gomes e uma dessas iniciativas foi a publicação de uma série de livros volumosos e vazios de pensamento. Enfim, o Bispo do Porto morreu uma segunda vez.

22. Olho em redor e vejo coisas. É certo que a linguagem me permite classificá-las, dando-me o esqueleto de uma concepção do mundo. Porém, preciso de muito trabalho de pensamento para elaborar o conhecimento do fragmento de mundo que vejo. Mas nunca estou na estaca zero porque possuo conhecimentos prévios do mundo. A teoria - o conhecimento concreto do mundo concreto - é sempre o resultado de um trabalho teórico: uma matriz teórica e instrumental permite-me converter a matéria-prima do conhecimento - um conhecimento prévio - em conhecimento científico ou filosófico.

J Francisco Saraiva de Sousa

terça-feira, 9 de julho de 2013

Mia Couto é reaccionário!


Recebe o Prémio Camões, alegando que se trata de uma "coisa-negócio luso-brasileira": Que falta de respeito para com a língua portuguesa! Tanto "miou" na infância - daí o nome "Mia" - que acabou por desaprender a língua(gem) dos seres humanos. Quando se deseja modificar a natureza de um povo, neste caso do povo moçambicano, não podemos usar a sua linguagem: o conhecimento popular é, por natureza, retrógrado. Um povo que queira conquistar o futuro sem deixar a história passar ao lado deve produzir uma nova linguagem: a escrita de Mia Couto degrada a língua portuguesa, bloqueando o futuro aos seus utentes. Sendo biólogo, Mia Couto tem uma concepção retrógrada da biologia, ao reduzi-la à história-narrativa da vida. Mia Couto que é tão avesso ao colonialismo acaba por render-se à sua mais poderosa arma, o racismo: o discurso dos atractores - a perspectiva do desenvolvimento - é-lhe estranho.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Notas sobre a História de Moçambique

Estátua do Porto
Não encaro o colonialismo como um fenómeno civilizacional nefasto: se não fosse o colonialismo português lá onde construímos cidades lindas - como Lourenço Marques e Luanda - haveria hoje palhotas. As pessoas africanas não saberiam ler e escrever, nem sequer teriam história. Sim, convém lembrar que nem os índios brasileiros nem os africanos tinham inventado a escrita: eram - e, segundo Ryszard Kapuscinski, ainda são - povos tribais e selvagens. Um exemplo de tribalismo persistente: Mandela já está morto: O que é desagradável é a luta dentro da família. Um dos netos é chefe tribal e sacou os três cadáveres dos filhos de Mandela para os enterrar no território da sua tribo. Depois chega a polícia a mando de outro familiar, invade a propriedade, desenterra os cadáveres e leva-os... Enfim, a África do Sul ainda é território civilizado?

Já escrevi muito sobre Moçambique e não tenho vontade de regressar a esse tema. Porém, dado o predomínio de ideologias anti-ocidentais nefastas, sou forçado a tecer algumas considerações sobre o assunto. Apesar da existência de abundantes arquivos, os historiadores portugueses ainda não escreveram uma História (honesta) do Colonialismo Português ou uma História de Moçambique ou de Angola. Geralmente, no caso de Moçambique referem-se estas obras, nenhuma das quais escrita por um português:

1. FRENTE DE LIBERTAÇÃO DE MOÇAMBIQUE. História de Moçambique. Porto, Afrontamento, 1971.
2. HEDGES, David (coord.). História de Moçambique: Moçambique no auge do colonialismo 1930-1961. Vol.2, 2.ª edição, Maputo, Livraria Universitária, Universidade Eduardo Mondlane, 1999.
3. NEWITT, Malyn. História de Moçambique. Mem-Martins, Publicações Europa-América, 1997.
4. PÉLISSIER, René. História de Moçambique: formação e oposição: 1854-1918. 2 vols., Lisboa, Editorial Estampa, 1987-1988
5. SERRA, Carlos (coord.). História de Moçambique: Parte I - Primeiras Sociedades sedentárias e impacto dos mercadores, 200/300- 1885; Parte II - Agressão imperialista, 1886-1930. Vol. 1, 2.ª edição, Maputo, Livraria Universitária, Universidade Eduardo Mondlane, 2000.
6. SOUTHERN, Paul. Portugal: The Scramble for Africa. Bromley, Galago Books, 2010.

A primeira e a quinta obras (Carlos Serra e Companhia) são extremamente sectárias: o marxismo usado pelos autores como grelha de análise histórica viola frontalmente a letra e o espírito dos escritos de Marx. Os autores deviam meditar os textos onde Marx trata da questão colonial: Marx nunca isolou o colonialismo da teoria do desenvolvimento capitalista para aplaudir uma teoria da luta entre raças. Há racismo nas obras referidas e, de facto, nós portugueses devemos aceitar o desafio lançado por estes pseudo-historiadores e confrontá-los com os seus próprios fantasmas raciais e, no caso dos outros autores, com as formas de colonização dos seus países. A eleição de Obama despertou nalguns desses autores o desejo de liquidar o "branco" e o Ocidente. Outros ficam desiludidos com os brasileiros pelo facto de não rejeitarem a herança ocidental. E, geralmente, são benevolentes perante as investidas do Islão. Descrevem - exagerando - os supostos crimes de ódio cometidos pelos portugueses, mas omitem a violência exercida pelos negros sobre os brancos. Estes dados são suficientes para denunciar a ideologia de rancor racial que está por detrás destas histórias, para já não falar do incitamento à violência racial. Angola e Moçambique, bem como outras ex-colónias portuguesas, caminharam para a democracia; no entanto, os partidos políticos ainda são designados como movimentos de libertação dos respectivos povos. É como se ainda vivessem sob o colonialismo português: a verdade é que eles expropriaram os portugueses julgando que a riqueza se reproduz por geração espontânea e pagaram o preço por esta infantilidade mágica: o recuo civilizacional e a destruição das cidades e do tecido produtivo. Hoje são os negros que exploram e oprimem a população negra. (Já era assim antes da chegada dos portugueses ou mesmo durante o período colonial.) Marx dizia que o capital não tinha pátria e a globalização confirma isso. Hoje podemos acrescentar que o capital não tem raça: os historiadores moçambicanos tratam os árabes com benevolência, ao mesmo tempo que tecem mentiras grosseiras sobre a "agressão imperialista", esquecendo que o capital não tem pátria e raça. (O imperialismo é um fenómeno de territorialização do capital.) Os historiadores ligados ao mundo anglo-saxónico não deviam confundir o imperialismo inglês com o colonialismo português: afinal, o apartheid é uma invenção anglo-saxónica. Meus amigos: Não há raças inocentes na história; há apenas raças, umas mais primitivas, outras mais desenvolvidas, que ocupam áreas culturais diferentes. E o cristianismo - apesar dos seus erros - ajudou a suavizar e a controlar muitos impulsos criminosos. Nós intelectuais devemos fazer todos os esforços para dizer a verdade: um intelectual mentiroso é um oxímoro e um intelectual terrorista é um cérebro patológico que deseja incendiar o mundo. O seu relativismo histórico anda de mãos dadas com o terrorismo. Os africanos já deviam saber que "intelectuais" deste calibre ajudaram a afundar e a empobrecer os seus países. Sem cérebros sadios não há desenvolvimento e paz! E sobretudo isto: os vossos inimigos - como os de todos os povos do mundo - são internos. Sejam objectivos: não culpem os outros pelos vossos pecados. (A Rússia optou pela colonização continental, tal como outros países da Europa Central, e como URSS teve a oportunidade de conquistar territórios distantes. Hoje é a China que sonha com o imperalismo colonizador. Quando referem o papel do cristianismo na colonização, os autores anglófonos aproveitam a ocasião para fazer a sua propaganda protestante, enquanto os moçambicanos falam de colonização mental sem usar o mesmo conceito para designar a acção do Islão. Mas há uma diferença entre Ocidente e Islão: o Ocidente despertou em vós um sonho social de emancipação, noção estranha ao Islão. Sim, até o marxismo é um fenómeno especificamente ocidental: ele está inscrito no genoma grego.)

Anexo: Carlos Serra diz este disparate sobre o "belo": «O belo é um fenómeno misterioso. Todavia, há sempre quem defenda a sua universalidade no sentido de que em qualquer parte do mundo sempre houve e haverá quem goste do belo, sendo o belo havido como uma substância que nasce conosco e que atinge especial profundidade em certos de nós. Porém, a concepção do belo requer condições sociais propícias ao seu nascimento, à sua reprodução e, particularmente, ao seu aprofundamento. Por outro lado, a unidade do belo está em sua diversidade social e nacional. A concepção do belo é social, não natural.» O que podemos dizer sobre isto? Merda que suja a estética e viola a biologia! Vejam como entra em acção o relativismo (sob a forma de construtivismo social delirante), o nacionalismo e a luta racial. O tema de fundo só pode ser os rostos africanos. Além disso, há aqui um paradoxo: a condenação da universalidade - atribuída ao Ocidente - e a afirmação da "unidade do belo na sua diversidade social e nacional" (étnica). E facto curioso: o autor esquece que foi o discurso universal que abriu as portas à emancipação. Mais: o que é o nascimento do belo?, a reprodução do belo?, enfim o aprofundamento do belo? Noções estranhas - cosméticas? - a qualquer estética! Afinal, o belo nunca foi tratado como uma "substância": não sei donde surgiu esta ideia peregrina. Belo e gosto... aqui há gato! Carlos Serra, comunista confesso, converteu o seu relativismo sociológico em irracionalismo.

E o que diz Carlos Serra sobre a biografia? Isto: «A biografia é um dos mais fascinantes e respeitados momentos da vida social. Dá às pessoas a crença de que o biografado contém nele a capacidade fantástica de mudar a vida e as relações de outrém. Na biografia o biografado é substancializado, magicamente tornado imune às relações sociais sem as quais, porém, não pode ser ele; é feito totalidade, unificação única, centro absoluto de um determinado mundo, o "ele era assim" do senso comum.» Até compreendo o que ele pretende dizer (a relevância das relações sociais), mas não posso estar de acordo com a condenação da biografia e do papel do indivíduo na história. Com efeito, o indivíduo não é apenas sociologia incorporada; é também biologia. Começo a crer que Carlos Serra usa e abusa da noção de substância... Será que pretende esburacar a materialidade compacta da sociedade? Ou melhor: a camada electrónica da matéria social? Mas se esburacar muito vai descobrir o vazio da matéria social. As massas populares - os colectivos - inclinam-se à passagem dos vencedores!

J Francisco Saraiva de Sousa

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Democracia porca - a portuguesa!

Membros das elites portuguesas do poder

O problema estrutural português está identificado: A Porca com as tetas é o Estado; os Leitões são os membros das classes dirigentes. Portugal é uma pocilga. Oralidade: eis a palavra que ajuda a compreender a história de Portugal! Ontem, no debate Prós e Contras, um luso-brasileiro disse que ia contactar a polícia federal brasileira para pressionar os leitões portugueses. Eu prefiro o exército americano... para desempenhar essa missão: liquidar os leitões portugueses e vender os seus corpos mortos na China! 

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Prós e Contras: Manifestações e Forças da Ordem

Panóptico do PORTO
Eis o texto reaccionário de apresentação do debate Prós e Contras de ontem (1 de Outubro):

"Grécia, Espanha, Itália e Portugal: A crise agudiza-se e explodem os protestos na rua. O que distingue as manifestações no sul da Europa. A efervescência das sociedades angustiadas e a necessidade de defender o Estado de Direito e a ordem pública. A importância das manifestações e o delicado desempenho das forças da ordem. Como é que as forças de segurança estão a lidar com a tensão crescente?"

Cada um dos quatro convidados de Fátima Campos Ferreira desenvolveu o seu discurso reaccionário em nome do Estado de Direito e da ordem pública. O elogio da fotografia da rapariga e do polícia que circulou pelo Facebook é um elogio reaccionário: os revoltosos dotados de consciência política radical não podem tratar as forças policiais de repressão como forças amigas. A violência das forças policiais é usada para garantir a perpetuação da ordem social estabelecida, precisamente aquela que gera o empobrecimento dos povos do sul da Europa. Em Portugal, não há verdadeiramente Estado de Direito ou mesmo democracia: o Estado foi capturado pela máfia lusitana que usa os aparelhos repressivos de Estado para garantir os seus privilégios. A fotografia só mereceria um elogio se o polícia tivesse despido a farda e passado para o lado dos manifestantes: o caso amoroso desejado pelo General - outro representante do poder repressivo do Estado - implica a capitulação dos manifestantes perante o poder estabelecido. Os polícias não podem ser vistos como aliados porque a sua missão é usar a violência para restabelecer a ordem social que priva os manifestantes da sua humanidade. Como tenho defendido em diversos lugares, os manifestantes devem adquirir consciência política radical: a política praticada pelos governantes portugueses deve ser combatida com novas políticas radicais. Alguém afirmou que o discurso do século XIX - entenda-se o pensamento de Marx - está ultrapassado: os privilegiados temem a luta de classes e dizem condenar a violência, não a sua própria violência retrógrada mas a violência revolucionária que visa a realização plena do humanismo integral. Ora, como demonstrou Merleau-Ponty, não há escolha entre a violência e a não-violência, entre o humanismo e o terror, mas apenas entre dois modos de violência - a capitalista e a socialista. A renúncia à violência revolucionária fortalece o reino da exploração capitalista, mas o seu uso tem a oportunidade de romper o círculo infernal do terror e contra-terror na medida em que é veiculada pela solidariedade do povo em sofrimento que, enquanto força política, é capaz de traduzir o humanismo de ideologia em realidade. Numa sociedade profundamente corrupta e desigual como a sociedade portuguesa, não há diálogo possível entre os carrascos e as vítimas, até porque o diálogo não muda nada. A crítica marxista da democracia liberal não perdeu actualidade e a teoria leninista do Estado continua a ser pertinente, embora deva ser reavaliada. O marxismo é verdadeiro ontem e hoje. Aconselho a leitura de Humanismo e Terror de Merleau-Ponty. (Fátima Campos Ferreira tem uma ideia errada da ordem pública: os verdadeiros representantes da ordem pública são os manifestantes, não os seus convidados privilegiados e opressores! O sociólogo convidado fez uma triste figura!)

J Francisco Saraiva de Sousa

sábado, 15 de setembro de 2012

Portugal: Revolta Popular contra o Governo de Passos Coelho

















Portugueses: As manifestações pacíficas não mudam o sistema. À violência das políticas governamentais da austeridade é preciso opor a violência revolucionária: a violência é a parteira das grandes mudanças sociais. Houve muita ingenuidade nas manifestações de hoje: a emotividade deve ceder o seu lugar à Razão Calculadora, à Racionalidade Revolucionária, enfim ao momento de Surpresa! O governo perdeu legitimidade popular para governar, mas, como em Portugal os governantes não têm vergonha na cara, tudo vai permanecer na mesma: o povo unido deve constituir-se em FORÇA POLÍTICA e derrubar o governo. É preciso passar da palavra ou da intenção à acção! O que deve ser feito é simplesmente feito. O Governo de Passos Coelho usa o Estado para enriquecer as empresas à custa dos trabalhadores. Um povo revoltado sem ideologia é inofensivo. Há um nome que assusta o poder neoliberal: Karl Marx. Se tivesse havido cartazes a mostrar o rosto de Marx, eles estavam agora com mais medo! Não queiras ser um povo passivo e pacífico; não vais longe. Algumas figuras públicas, entre as quais jornalistas lacaios do poder estabelecido, dizem que todo o protesto do povo português resultou de uma dificuldade de comunicação do governo: eles estão a tentar desvalorizar as manifestações de hoje contra o governo de Direita. Não deixes reduzir a razão de ser das manifestações a uma dificuldade de comunicação: foca o conteúdo mas de um modo ideologicamente elaborado. Mostra que o povo não quer passar mais fome para alimentar os ricos.