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terça-feira, 5 de novembro de 2013

Dossier Filosofia Médica (5)

Cidade do Porto
Mais ideias sobre Filosofia Médica na sua relação com a Antipsiquiatria:

1. R. D. Laing legou-nos um conceito primordial: Segurança Ontológica. A Antipsiquiatria inspira-se no existencialismo de Sartre. A transição da segurança ontológica à insegurança ontológica permite compreender o modo de ser-no-mundo daqueles - os psicóticos - que a psiquiatria hospitaliza: o indivíduo ontologicamente inseguro pode viver três formas de angústia: ser tragado, implosão e petrificação e despersonalização. A Filosofia Dialéctica da Antipsiquiatria ainda não foi devidamente estudada.

2. A política de empobrecimento do Governo de Portas-Coelho mina completamente o sentimento de segurança ontológica dos portugueses, os quais não possuem um sentido de realidade forte em circunstâncias normais. A penúria lança-os na insegurança ontológica e perturba-os nas suas relações com os outros. Porém, no caso dos portugueses, em virtude da sua propensão para a loucura, é necessário introduzir novas manifestações de angústia, nomeadamente o vampirismo existencial e a inveja patológica. Portugal caminha na direcção de um país pobre e louco.

3. O meu encanto pela antipsiquiatria levou-me a desenterrar das estantes todas as obras dos fundadores deste movimento e a relê-las com mais atenção. Durante a minha vida só devo ter lidado com meia dúzia de esquizofrénicos e, por isso, não tenho grande experiência da experiência esquizofrénica. Hoje acompanhei o desenvolvimento intelectual de Laing e aprendi a reler "A Política da Experiência", talvez a sua obra mais antipsiquiátrica. E a apreciar o modo como Cooper politiza o movimento da antipsiquiatria à não-psiquiatria, a partir de uma mudança profunda da sociedade. Marx foi redescoberto pelos fundadores da antipsiquiatria. Ora, um tal questionamento radical da psiquiatria clássica implica uma reformulação do próprio campo da medicina.

4. A revolução antipsiquiátrica deve ser entendida como uma revolução da consciência que denunciou a violência exercida sobre os esquizofrénicos e os danos causados pelo imperialismo da norma. A revolução fundamental preconizada pela antipsiquiatria contra a dominação será o resultado de uma evolução da consciência humana: Laing libertou a subjectividade ao acentuar a continuidade entre o normal e a loucura. As consequências mais importantes da antipsiquiatria resultam deste acto de fazer ir pelos ares a barreira-ruptura entre o normal e a loucura.

5. Convém não ver uma ruptura entre The Divided Self (1960) e The Politics of Experience (1967). O conceito de experiência transcendental de Laing corresponde aos conceitos de reversão de Esterson e de anoia de Cooper: «A verdadeira saúde mental implica de uma maneira ou de outra a dissolução do ego normal, desse falso eu sabiamente adaptado à nossa realidade social alienada, a emergência dos arquétipos "interiores" mediadores da potência divina, o desembocar desta morte numa re-nascença e a re-criação de uma nova função do ego, em que o eu já não traia o divino, mas o sirva» (Laing).

6. A Antipsiquiatria fez uma crítica justa da psiquiatria clássica e sua ideologia clerical e da ciência e seus "métodos cegos", embora tenha fracassado no "tratamento" dos esquizofrénicos. Ora, a psiquiatria institucional aboliu-a dos manuais de psiquiatria e, quando a refere, é para dizer que os seus "bons loucos" são como os "bons selvagens" de Rousseau. Porém, o que interessa na antipsiquiatria é a sua teoria da experiência e a sua crítica justa da ciência objectiva. Além disso, a antipsiquiatria abre a medicina ao mundo social e, quando apresenta a norma como alienação, converte-se em crítica social e política. A adaptação social não é critério de saúde mental.

7. A psiquiatria institucional está ao serviço da manutenção da sociedade estabelecida e, nessa função, deve ser criticada: a antipsiquiatria pode ser encarada como crítica da ideologia psiquiátrica. Os antipsiquiatras foram grande profetas: o mundo presente confirma as suas profecias. Se tivessem sido escutados nos anos 60, o mundo não estaria hoje à beira do abismo. A vida saudável não pode ser dissociada da vida justa: a medicina precisa mais de filosofia do que de psicologia.

8. Aprovo o programa pré-revolucionário proposto por Cooper: a criação de Centros Revolucionários de Consciência. A psiquiatria pode integrar um tal programa de investigação científica. O atraso estrutural de Portugal tem uma dimensão humana: o país não se desenvolve porque os portugueses são seres mental e cognitivamente atrasados. A reformulação do programa pré-revolucionário de Cooper pode ajudar os portugueses a superar-se a si mesmos e a renascer como novas pessoas. 

9. Aprovo a crítica antipsiquiátrica da família e da escola. De facto, devemos gerar um movimento de Antipedagogia e defender a criação de anti-escolas e de anti-universidades. A mente arcaica dos portugueses refugiou-se na pedagogia para não aprender: o fracasso da educação em Portugal fornece-nos todos os elementos para pensar a antipedagogia. 

10. Defendo a libertação da subjectividade rebelde, mas não a situo ao nível da loucura. A psiquiatria institucional tende a colocar loucos e génios do mesmo lado da barreira entre norma e loucura, exigindo a ambos a adaptação social à média social. A noção antipsiquiátrica de viagem deve ser diferenciada: a viagem do louco é diferente da viagem do revolucionário. Neste terreno, o diálogo com a antipsiquiatria pode ser muito produtivo. 

J Francisco Saraiva de Sousa

sábado, 6 de julho de 2013

A Vertigem da Relatividade

Jardins do Palácio de Cristal, Porto
Anuncio um texto que pretendo escrever se o calor o permitir. Já critiquei diversas vezes o relativismo, mas desta vez pretendo fazê-lo numa perspectiva mais ampla que envolva uma crítica severa da filosofia anglo-saxónica, esse vazio terrível de pensamento, que ganha terreno nas universidades portuguesas, assumido por figuras cognitivamente reduzidas que, simulando o uso de argumentos lógicos, improvisam disparates de conhecimento vulgar da vida quotidiana. Aliás, a crítica do relativismo deve abranger a demolição do conhecimento à mão da vida quotidiana: a retomada do mundo da vida tem sido fatal para a Filosofia. A Gradiva é a editora portuguesa que mais tem contribuído para a difusão de livros medíocres de filosofia anglo-saxónica: as traduções são medíocres porque escritas num português feio, próprio de uma determinada escola profundamente provinciana e saloia, a herdeira de um Portugal Velho que urge superar. Vou tentar criar um vocabulário próprio para demolir o relativismo: a crítica radical do império relativista contemporâneo, repleto de ilusões, uma das quais afirma que o homem está cada vez mais inteligente, exige uma nova linguagem - e talvez uma linguagem mais técnica. Não convém escrever livros de divulgação filosófica: eles degradam a filosofia no seu momento mais sério, o de dizer a verdade. O relativismo predominante anda de mãos dadas com a globalização: o fim das grandes narrativas lançou o mundo num estado de paralisia mental e cognitiva. A cultura superior que é ocidental está em estado vegetativo: o meu desejo é fazê-la regressar à vida. Como é evidente, a crítica do relativismo implica a demolição de muitos mitos aparentemente simpáticos, um dos quais é o estado de paz mundial: um homem mais inteligente e mais pacífico - é algo que soa mal quando olhamos para a sociedade americana. A filosofia anglo-saxónica é altamente partidária: ela justifica o status quo americano, a globalização do capitalismo e a perpetuação da miséria e do sofrimento, ao mesmo tempo que abre as portas às tradições dogmáticas mundiais.

Os alunos que estudam Filosofia devem protestar contra o ensino de filosofia anglo-saxónica nas universidades: a chamada filosofia analítica - de resto, não dominada por esses professores vigaristas - tem fortes afinidades com a escolástica medieval e com a vulgata soviética; todas estas tendências de pensamento destacam a importância da lógica no seio da filosofia, uns para demonstrar a existência de Deus, outros para eliminar as questões metafísicas e gerar posições filosóficas que negam o sentido dessas questões: Qual é a finalidade da minha vida?, Por que tenho de morrer?, Donde venho e para onde vou?, enfim, Quem sou eu? Nós não devemos receber lições de homens - refiro-me a alguns filósofos analíticos estrangeiros - que colocam a sua inteligência ao serviço da lógica imanente do capitalismo. A Filosofia tem uma missão: projectar a vida justa. É fundamental salvaguardar o pensamento da colonização por parte do sistema vigente. Explicar "logicamente" a subjugação do homem concreto ao sistema vigente, como se não houvesse outras alternativas, é algo que não faz parte do ADN da Filosofia: a libertação da lógica da metafísica - lógica sem metafísica - e a sua conversão em instrumento formal fazem parte integrante do processo de formalização da razão que acompanha a lógica de desenvolvimento capitalista. A lógica usada pela filosofia analítica já não é uma disciplina filosófica: ela é uma técnica de adaptação ideológica e social que se aprende nas universidades. A expressão "filosofia anglo-saxónica" é uma contradição nos termos: não há verdadeiramente filosofia anglo-saxónica; a Filosofia é europeia. Ao editar livros de filósofos anglo-saxónicos, aliás os piores, a Editora Gradiva está a prestar um mau serviço à cultura filosófica portuguesa, ao mesmo tempo que funciona como aparelho ideológico de Estado colocado atempadamente ao serviço do projecto neoliberal do governo de Passos Coelho. Ora, os portugueses já sabem o que isso significa: empobrecimento, liquidação da democracia e destruição do Estado Social.

J Francisco Saraiva de Sousa

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Anotações sobre Humor

Os filósofos têm elaborado diversas teorias sobre o fenómeno do humor, das quais se destacam as teorias de Freud, Bergson e Plessner. Como já analisei a teoria de Plessner, vou concentrar-me nas interpretações de Freud e de Bergson. Freud e Bergson interpretam o humor como a apreensão de uma discrepância fundamental entre as exigências do superego e da libido, no caso de Freud, e entre o organismo vivo e o mundo mecânico, no caso de Bergson. Aquilo que me interessa nestas duas teorias do humor é o seu aspecto comum: ambas encaram o cómico como uma discrepância ou incongruência: «Uma situação é invariavelmente cómica quando pertence ao mesmo tempo a duas séries de acontecimentos inteiramente independentes e é capaz de ser interpretada em dois sentidos completamente diferentes ao mesmo tempo» (Bergson). Dado ser um conceito nuclear da antropologia filosófica, interpreto o humor como fenómeno especificamente humano, o que me permite enunciar diversas novas teses filosóficas que restringem a qualidade cómica às situações humanas. Eis as teses que proponho:

Tese 1: O Homem é o único ser capaz de se rir - e chorar! - de si mesmo, dos outros e de certas situações. (Daqui decorre que a qualidade cómica se refere sempre a situações humanas: os animais só são cómicos quando lhes atribuímos características humanas.)

Tese 2: A discrepância constitui o ingrediente fundamental de todas as piadas. Existem diversos tipos de discrepância - as incongruências propostas por Freud e Bergson - mas todos eles nos reconduzem à discrepância fundamental entre o homem e o cosmos. É esta discrepância antropocosmológica fundamental que faz do cómico um fenómeno especificamente humano. Daqui se segue nova tese.

Tese 3: O cómico reflecte o aprisionamento do espírito humano no mundo, sobretudo no mundo abandonado pelos deuses: «A alma é um estranho na terra» (Georg Trakl). Esta tese já é conhecida desde a Antiguidade Clássica. A concepção de ironia como a mais alta liberdade possível do homem num mundo sem Deus - exposta pelo Jovem-Lukács - relaciona-se com esta tese.

Tese 4: A distinção entre tragédia e comédia esquece que ambas são comentários sobre a finitude radical do homem: a noção existencial de homem como náufrago ou ser-sem-abrigo coaduna-se com esta tese filosófica.

Tese 5: Ao aceitarmos a última tese, somos forçados a encarar o cómico como uma dimensão objectiva da realidade humana: o humor mais não é do que o reconhecimento da cómica discrepância da condição humana.

Estas teses são suficientes para elaborar uma nova teoria filosófica do humor. Poderia acrescentar outras teses, talvez para mostrar que é muito difícil relativizar o humor, mas prefiro concluir enunciando uma tese que clarifica a teoria que tenho em mente.

Tese 6: A negação da metafísica conduziu ao triunfo da trivialidade: o humor que se faz actualmente perdeu a graça. Fechado em si mesmo e neste mundo intra-empírico, o homem tornou-se incapaz de encontrar o seu próprio caminho de fuga. O mundo trivial em que vivemos deixou de ser engraçado. A perda de graça é proporcional à invasão do mundo pelo homem: o cansaço da humanidade de Nietzsche pode ser compreendido à luz desta nova perspectiva. 

Anexo. Um colega brasileiro criticou o meu recurso a uma teoria da natureza humana, acusando-me de ser liberal em vez de marxista. Os rótulos não me incomodam: aqui direi apenas que o conceito de natureza humana me permite compreender o homem do passado mais distante ou do presente mais próximo. Afinal, o homem de todos os tempos ri e chora. Ora, este facto fundamental mostra que há uma natureza humana fundamental que nos une a todos e que nos une aos nossos antepassados. Além disso, uma tal teoria veda-me o caminho dos disparates políticos. A Filosofia é um empreendimento teórico sério.

J Francisco Saraiva de Sousa 

quinta-feira, 28 de março de 2013

Revista Desenredos: Ernst Bloch, Ontologia da Possibilidade

Porto: Passeio dos Clérigos
A Revista Desenredos - editada pelos meus amigos Wanderson Lima e Adriano Lobão Aragão - publicou o meu artigo - Ernst Bloch: Ontologia da Possibilidade. Trata-se de um pequeno artigo que posteriormente foi desenvolvido num artigo mais extenso e profundo. Admiro imenso a obra filosófica de Ernst Bloch e lamento o facto de não estar traduzida para a língua portuguesa. Porém, a minha filosofia começa a distanciar-se da Utopia Concreta de Ernst Bloch: o seu optimismo militante é-me absolutamente estranho. Por isso, em escritos anteriores procurei elaborar uma metateoria da História que, retendo o núcleo essencial do materialismo histórico, se desembaraça do comunismo como algo que é anterior ao marxismo. Deste modo, evito todos os discursos e narrativas do fim da História e da Filosofia. O meu objectivo é deixar a tradição aberta a novas actualizações a partir da finitude radical do ser humano. De momento a minha preocupação fundamental reside no futuro da Civilização Ocidental. Em vez da desconstrução da metafísica, quase sou levado a propor a Reconstrução da Filosofia, mas de uma filosofia sem ilusões. (John Dewey escreveu uma obra com o mesmo título!) Eis o meu desafio que tentarei levar a cabo definindo a filosofia nas suas relações essenciais com a ciência e a política. Daí que rejeite categoricamente o primado da democracia sobre a Filosofia. Um tempo indigente como o nosso exige coragem filosófica.  Chegou a hora de despedir a "filosofia" pós-estruturalista e pós-analítica, as quais entraram no jogo da chamada revolução conservadora advogada pelos pensadores da Alemanha Nazi!

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

É possível (re)começar a dialéctica marxista?

Porto: Ribeira
A Queda do Muro de Berlim gerou um retrocesso civilizacional. Os ideólogos neoliberais entoaram cânticos de triunfo: o marxismo podia ser finalmente enterrado. Porém, a crise de 2008 converteu o triunfo em derrota do neoliberalismo. O marxismo volta a estar na ordem do dia num mundo em que o Ocidente já não está sozinho. A globalização promovida pelo neoliberalismo virou-se contra ele e, o que é mais preocupante, contra o Ocidente. O neoliberalismo ameaça os próprios fundamentos da civilização ocidental: a sua expansão implica um retrocesso intolerável da cultura. A natureza e a cultura revoltam-se contra o capitalismo em todos os cantos do mundo, o qual gera os seus próprios coveiros à medida que se globaliza, como o demonstra o ódio que o mundo global nutre pelos Estados Unidos. Marx tinha razão quando previa que o capitalismo só entraria em colapso depois de se ter globalizado; no entanto, a globalização do capitalismo tem gerado contradições sociais não previstas pela teoria marxista. A dialéctica é obrigada a globalizar-se e, ao se globalizar, defronta-se com uma realidade-outra que lhe é estranha: o conceito filosófico de história da humanidade deve ser completamente revisto ou mesmo abandonado. A globalização do capitalismo já não é a globalização do domínio ocidental.

Surgiram diversos modelos dialécticos sem que nenhum deles tenha sido sistematizado de forma formal-abstracta. Geralmente, alega-se que a dialéctica está inscrita na própria realidade sem a qual não pode ser exposta. Sem conteúdos não há dialéctica. O marxismo ocidental produziu algumas figuras dialécticas notáveis. Georg Lukács praticou a dialéctica da auto-consciência histórica ou dialéctica sujeito-objecto; António Gramsci destacou as contradições teoria-praxis; Herbert Marcuse exerceu a dialéctica essência-existência e Colletti a dialéctica aparência-realidade. Todas estas figuras dialécticas derivam de Hegel. Walter Benjamin viu na dialéctica a descontinuidade e o aspecto catastrófico da História. Ernst Bloch concebeu a dialéctica como fantasia objectiva. Para Sartre, a dialéctica está enraizada na inteligibilidade da actividade ou praxis totalizante do próprio indivíduo. Em Henri Lefèbvre, a dialéctica aponta para o objectivo da humanidade desalienada. A dialéctica de Della Volpe consiste num pensamento não-rígido, não-hipostasiado, enquanto a dialéctica de Althusser representa a complexidade, a pré-formação ou a sobredeterminação das totalidades. As dialécticas de Della Volpe e de Althusser são claramente anti-hegelianas, sendo a de Althusser marcada pelas distinções de Mao Tsé-Tung e pelo desenvolvimento desigual de Lenine. Theodor W. Adorno destaca a crítica imanente e o pensamento de não-identidade: a sua dialéctica negativa ainda não foi bem-compreendida. Às figuras dialécticas do marxismo ocidental devemos acrescentar as figuras dialécticas elaboradas pelo marxismo soviético ou mesmo por outros dirigentes comunistas, tais como Mao Tsé-Tung e Che Guevara. A dialéctica de Lenine é extremamente complexa e, pela sua abertura a Hegel, merece um estudo mais detalhado. Cada uma destas figuras dialécticas tentou articular a dialéctica e o materialismo. Alguns autores pensam que essa articulação é impossível: o materialismo dialéctico é, para eles, impensável. É estranho como consideram ser impossível aquilo que foi realizado por todas estas figuras dialécticas. Tanto a dialéctica essência-aparência de Marcuse como a dialéctica negativa de Adorno realizaram essa articulação entre materialismo e dialéctica. Infelizmente, as obras destes filósofos deixaram de estar disponíveis em boas traduções. Hoje as livrarias estão repletas de merda: qualquer tolinho político escreve o seu livro e as manadas tendem a comprá-lo, não para o ler mas só por comprar. O ofuscamento está de tal modo generalizado que já não tenho vontade de partilhar nada com ninguém. Só o pensamento da aniquilação total da sociedade estabelecida conforta o meu espírito. A dialéctica é aniquilação: lá onde morre um homem ou centenas de milhares de homens há dialéctica. 

J Francisco Saraiva de Sousa

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Podemos ser marxistas sem ser comunistas?

Porto e Douro River
A questão é puramente retórica: Eu sou marxista e, no entanto, nunca acreditei na possibilidade de realização real de uma sociedade comunista, e o próprio Marx já era comunista antes de ser marxista. O comunismo não é uma invenção marxista: ele tem, portanto, uma arqueologia atrás de si. A Filosofia tem elaborado ao longo da sua história diversas utopias que lhe permitiram criticar a ordem estabelecida, de modo a operar transformações significativas do mundo: o comunismo foi uma dessas utopias sociais. Não nego o papel histórico desempenhado pelo comunismo: ele serviu de bandeira à luta de classes dos trabalhadores contra a exploração económica e a opressão política. No entanto, qualquer tentativa séria de realizar o comunismo esbarra contra determinadas estruturas da natureza humana. Considero que tentar moldar a própria natureza humana é uma tarefa perigosa, porque ela produz um acréscimo de dominação em vez de um acréscimo de liberdade. A actualização do marxismo que preconizo implica o abandono do projecto comunista e a sua substituição por um novo projecto político. Já cheguei a defender uma utopia mínima: uma sociedade não-regulamentada. Porém, o meu realismo político leva-me a desconfiar da possibilidade efectiva de uma sociedade de indivíduos autónomos: a dialéctica confronta-se em cada conjuntura política com os limites que a natureza humana impõe à sua imaginação. A história é um processo aberto: qualquer tentativa para o concluir produz mais dominação do que libertação. E a dialéctica está condenada a oscilar entre a dominação e a libertação se quiser ser a figura da própria abertura. A ideia de uma sociedade desalienada não é dialéctica.

Ando muito preocupado com a ausência de estudos económicos marxistas: a teoria filosófica só pode criticar a sociedade estabelecida em função de alternativas económicas propostas por economistas marxistas. Com a emergência do estruturalismo, pelo menos no espaço francófono, a Filosofia não só recusou a História como também abandonou a crítica da economia política. O estruturalismo entregou o destino do mundo nas mãos dos tecnocratas e dos seus modelos neoliberais. O estruturalismo foi provavelmente a filosofia mais nociva produzida nas últimas décadas do século XX: todas as outras filosofias que dele emergiram mais não são do que capitulações da Filosofia perante a economia neoliberal. Ora, como demonstra a crise de 2008, os economistas não são as figuras mais adequadas para gerir os destinos do mundo. A economia tal como a conhecemos mais não é do que a tentativa de moldar o mundo em função dos interesses de determinadas camadas da classe capitalista. Os manuais de texto da economia devem ser queimados na praça pública, porque não queremos ser governados por homens que odeiam a cultura superior. Ser economista é sinónimo de malvado. António Sérgio lamentava a aversão dos portugueses pelos estudos económicos, sem no entanto ter explicado essa aversão: as escolas de economia que entretanto surgiram em Portugal são escolas de ladrões: os seus membros sonham desde cedo com o seu próprio enriquecimento pessoal à custa dos empobrecimento dos portugueses. Os economistas e os gestores não geram riqueza; pelo contrário, eles geram pobreza planeada. O mundo regrediu desde que os economistas e os gestores capturaram o poder económico e o poder político. A crise em que vivemos é também a crise desta ideologia económica. 

J Francisco Saraiva de Sousa

Uma comunidade marxista virtual?

Porto: Ribeira
A actualização do marxismo exige a formação de uma comunidade marxista virtual. Apelo, portanto, a todos os marxistas que adiram a este projecto de formar um grupo de trabalho, dotado de uma agenda teórica e política, para debater a situação do marxismo num mundo cada vez mais global. Há muitos blogues marxistas, cujos autores podem unir esforços para revitalizar o marxismo. Tenho trabalhado sozinho nesse projecto, mas reconheço ser necessário aliar-me a todos aqueles que consideram que a solução para os problemas sociais se encontra esboçada na obra de Karl Marx: o cibermarxismo preconiza a luta de classes em todos os nichos da Internet. Aguardo a vossa adesão e as vossas sugestões.

Portugal é a "pátria" da indigência cognitiva e cultural. Já tentei criar um grupo real de trabalho com o objectivo de formar a Escola do Porto, dotada de um centro de pesquisa social e filosófica e de uma revista. Porém, as pessoas que aderiram ao projecto careciam de real formação científica e filosófica, encarando-o mais como uma oportunidade de emprego do que como um grupo activo de intelectuais comprometidos na luta pela construção de um mundo melhor. Além disso, os banqueiros e os empresários portugueses são muito conservadores e reaccionários para financiar um projecto que visa a transformação qualitativa do mundo. Aquilo que não consegui realizar no mundo real pode talvez ser realizado no mundo virtual que ultrapassa as barreiras físicas e psicológicas de Portugal; pelo menos, esta é a minha derradeira esperança.

J Francisco Saraiva de Sousa

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

O meu regresso à blogosfera

Porto at night
A irracionalidade das sociedades ocidentais - em especial da sociedade portuguesa - espanta-me. Os gregos diziam que o espanto estava na origem do conhecimento, mas o espanto que se apodera do meu núcleo existencial confronta-me com a escassez de palavras adequadas para nomear todos os aspectos irracionais das sociedades contemporâneas. Encontrar as palavras adequadas para nomear as irracionalidades das nossas sociedades constitui a primeira tarefa a ser cumprida por uma nova Filosofia: os vocabulários de que dispomos estão esgotados. Dizer a verdade da irracionalidade de um mundo cada vez mais global exige um novo vocabulário. Não é fácil operar uma mudança de vocabulários. Tenho ensaiado alguns novos vocabulários, mas ainda não descobri o vocabulário mais adequado para dizer a verdade. Estou demasiado familiarizado com a tradição do pensamento ocidental para introduzir uma brecha nela, a partir da qual posso renovar o próprio pensamento filosófico. Em Filosofia, nada é radicalmente novo: o novo vocabulário que procuro encontra-se já presente nas entrelinhas da obra de Karl Marx. Actualizar o pensamento de Marx é emprestar-lhe um novo vocabulário que implica a reformulação do projecto político do marxismo. A filosofia contemporânea perdeu-se em jogos de linguagem alienados do mundo. Há mundo: este facto deixou de espantar os filósofos contemporâneos que se refugiam em palavras mágicas para encontrar "soluções" para problemas que não são reais. A filosofia-masturbação mental causa-nos perplexidade: Há mundo, há seres humanos completamente alienados do mundo. Eis a causa da nossa perplexidade: elaborar uma filosofia-mundo para quem? Olhamos em nosso redor e não encontramos audiência: os humanos desapareceram da face da Terra. Hoje a Filosofia não tem audiência: o capitalismo destruiu a humanidade dos homens, reduzindo-os à sua animalidade. O capitalismo é inimigo da cultura: lá onde ele se instala a cultura morre. A teoria filosófica permanece fiel a Marx: a crítica pressupõe a crítica da economia política; as categorias filosóficas fundamentam-se em categorias económicas. Guerrilha filosófica: eis como designo este meu regresso à blogosfera.

J Francisco Saraiva de Sousa 

terça-feira, 7 de agosto de 2012

O Retorno a Marx

Um filme de terror ajudou-me a clarificar os meus conceitos positivos de História e de Natureza Humana. Quando o "psicopata" se dirigia em direcção das suas vítimas, com a faca na mão, pensava: mata essas criaturas que berram como leitões. Identificando-me com o "psicopata", via as vítimas como leitões que mereciam morrer. Inverti o sentido moral da narrativa: o princípio do mal era encarnado não pelo "psicopata", que se limitou a fazer o papel sujo da história, eliminando a escória pseudo-humana, mas sim pelas próprias vítimas. Só hoje quando fui tomar café é que compreendi que a minha identificação com o "psicopata" tinha algo a ver com a teoria marxista da história. Esta identificação reflecte um sentimento comum: nós - seres pensantes - estamos profundamente cansados da humanidade existente. Confesso: ver os leitões a serem degolados e esfaqueados deu-me prazer, não um prazer sádico mas sim um prazer estético, no sentido de libertar o mundo dos homens que se comportam como animais. Precisamos de espaço aberto para construir um mundo novo: o "psicopata" agiu de modo a libertar o espaço da presença desses homens - mais animais do que humanos - que bloqueiam o futuro. Sem violência não há verdadeiramente história: todos sabemos que os protestos organizados de rua não alteram o status quo. Marx e Engels sabiam isso: a violência é a parteira da história. Até aqui tenho estado a namorar com o princípio marxista da história como "hominização do homem" que é retomado por Marx no prefácio de 1859. Marx iniciou uma imensa revolução teórica que não chegou a concluir. (:::/:::)

Reler Marx - e trazê-lo à nossa presença - implica a tradução rigorosa da sua obra em língua portuguesa: as traduções existentes - tanto as portuguesas como as brasileiras - são péssimas. O desenvolvimento cultural de um país pode ser avaliado em função da sua actividade editorial e da qualidade das traduções. O atraso cultural de Portugal revela-se desde logo no desfasamento temporal entre a publicação das obras pioneiras e a sua tradução em língua portuguesa. Além disso, as grandes obras que marcaram o mundo ainda não foram traduzidas e as poucas que foram mal traduzidas estão desfasadas da sua conjuntura cultural. Mas o mais preocupante é que os leitores portugueses lêem essas obras como se elas fossem a última palavra sobre as matérias abordadas. O princípio de influência que predomina em Portugal entrava o seu próprio desenvolvimento cultural: quem não tenha uma figura influente na família não tem futuro em Portugal. Todas as instituições portuguesas, incluindo as instituições culturais, são regidas por este princípio de influência: elas são sempre-já capturadas pelas máfias reinantes. (:::/:::)

J Francisco Saraiva de Sousa

terça-feira, 17 de julho de 2012

Teoria Quântica e Filosofia

«A teoria quântica aboliu a noção de objectos fundamentalmente separados, introduziu o conceito de participação em substituição ao de observador, e pode vir a considerar necessário incluir a consciência humana na sua descrição do mundo». (Fritjof Capra)

«A natureza nada sabe sobre imperfeições; a imperfeição é uma percepção humana da natureza. Enquanto parte da natureza, somos também perfeitos; é a nossa humanidade que é imperfeita. E, ironicamente, é devido a essa nossa capacidade para a imperfeição e para o erro que somos livres - uma liberdade que nenhuma pedra nem nenhum animal pode saborear. Sem a possibilidade de erro e sem a real indeterminação que a teoria quântica implica, a liberdade humana não faz sentido. O Deus-que-joga-aos-dados libertou-nos». (Heinz R. Pagels)

«A essência da interpretação de Copenhaga é que o mundo deve ser realmente observado para ser objectivo. A realidade tem existência apenas quando a observamos. Vemos que, de acordo com a interpretação da mecânica quântica segundo a escola de Copenhaga, o universo indeterminado tem outra consequência - a realidade criada pelo observador. A noção de que o mundo existe num estado bem definido independentemente da intervenção humana chegou ao fim. Há qualquer coisa de muito especial no mundo quântico; podemos domesticá-lo com a nossa matemática, mas o certo é que ele é estranho - muito mais estranho do que podemos imaginar visualmente». (Heinz R. Pagels)

Os físicos e os filósofos estão centrados nos problemas de interpretação da teoria quântica, na tentativa de dar uma resposta à pergunta: O que é a realidade quântica? É falso afirmar que, no mundo contemporâneo, os filósofos deixaram de estar preocupados com as questões clássicas que preocupam os físicos. Basta referir dois nomes - Samuel Alexander e Alfred North Whitehead - para desmentir essa afirmação de John D. Barrow. O objectivo deste texto é reafirmar o meu compromisso: contribuir para a clarificação da filosofia da teoria quântica. Noutro dia, assisti a uma conversa entre um engenheiro, um estudante de engenharia e um electricista formado na antiga escola industrial: o que me chocou nessa conversa foi a estupidez arrogante dos dois primeiros intervenientes. Embora não seja especialista em mecanismos eléctricos, compreendi desde o início a armadilha que o electricista prático montou para confrontar os diplomados arrogantes com a sua estupidez: eles desconheciam algumas leis físicas básicas que o electricista utiliza quando conserta os electrodomésticos. Este episódio mostra o estado do ensino superior em Portugal: a produção em série de burros diplomados, não só no campo das letras, o que não é surpreendente, mas também nas áreas das ciências e das engenharias. Nós, os amantes do conhecimento, somos oásis vulneráveis rodeados por um imenso deserto de estupidez diplomada que está a liquidar a cultura superior: a ralé diplomada ao abrigo do processo de Bolonha funciona como uma espécie de formigueiro que invade os oásis de conhecimento para os paralisar ou mesmo destruir. Nas universidade portuguesas, não há lugar para o mérito: o mecanismo que as domina expulsa do seu seio a competência, de modo a garantir a perpetuação da mediocridade instalada. Os burros afastam os competentes para não serem confrontados com a sua burrice visceral: o ensino universitário português é uma terrível mentira. Não adianta tentar descobrir argumentos ou exemplos para atenuar essa verdade essencial: a captura das universidades portuguesas pelo bando organizado dos burros diplomados. A universidade portuguesa - privada e pública - é lixo. Produzir textos sobre mecânica quântica é perder audiência - e esta perda é sintomática: ela indica o vazio cognitivo instalado nos cérebros dos burros diplomados. A arrogância que exibem é uma espécie de mecanismo de compensação: os "génios" portugueses (sic) são génios ocultos; eles nunca se revelam porque não há nada para ser revelado. Neste imenso deserto da estupidez, só temos um caminho a seguir para escapar à malvadez pseudo-diplomada: dialogar com os verdadeiros génios que já morreram há muito tempo. Falar com os mortos é, no fundo, um monólogo que nos livra da nefasta companhia dos vivos que povoam os espaços criativos da sociedade. A indigência cognitiva predominante é avessa à produção de grandes teorias, as quais não têm público. Perdidos nesta imensa mobilização da ignorância, somos obrigados a buscar a nossa própria salvação privada, em vez do compromisso com o projecto da esperança social. Fechamo-nos à sociedade da estupidez para lhe resistir: o nosso desejo é assistir ao seu colapso.

Os meus últimos textos apresentaram o materialismo aleatório como a filosofia mais adequada da mecânica quântica. No entanto, a interpretação de Copenhaga tem sido usada para liquidar o próprio materialismo. Não foi por mero acaso que referi Whitehead. Como se sabe, Whitehead é o autor de duas obras fundamentais, para já não referir Principia Mathematica escrita em colaboração com Russell: Science and the Modern World (1926) e Process and Reality (1929), nenhuma das quais foi traduzida em língua portuguesa. A sua filosofia é muito complexa e difícil: quem não tenha treino filosófico e científico não compreende o seu conteúdo. Aqui vou apenas elucidar brevemente a sua crítica do materialismo, a partir da sua obra de 1926. Na base do materialismo encontra-se a teoria de que existe a matéria ou de que só existe a matéria, sendo a matéria concebida como algo a que lhe é próprio a localização simples (simple location), uma simples localização no espaço e no tempo. Nesta concepção da matéria, o tempo é um acidente da matéria imutável e o instante (instant) carece de duração. Para Whitehead, a matéria tal como a concebe o materialismo é uma dupla-abstracção: o ente é concebido unicamente nas suas relações com outros entes e, destas relações, tomam-se em consideração apenas as relações espaço-temporais. O esquema materialista desenvolveu-se com Galileu e tornou-se em esquema dominante na ciência da natureza. Apesar disso, Whitehead considera-o falso pelo facto de negar a existência objectiva das qualidades secundárias, entrando assim em confronto ou desacordo com a experiência, e a responsabilidade humana. Whitehead vai mais longe quando afirma que o materialismo destrói o seu próprio fundamento, a indução, porque se as partículas materiais se encontram isoladas e apenas entrelaçadas mediante relações espaço-temporais, não é possível, com base no que ocorre num ente, concluir nada sobre o que está a ocorrer noutro ente. A crítica do materialismo realizada por Whitehead é extremamente abstracta: o que foi dito é suficiente para a apreender, mas o seu carácter abstracto exige uma clarificação. A filosofia é, para Whitehead, o esforço de racionalização completa da experiência humana. Aristóteles dizia que só há ciência do geral, o que significa - na linguagem de Whitehead - que não há conhecimento sem abstracções. No entanto, apesar do pensamento ser abstracto por necessidade, Whitehead está consciente de que as abstracções são perigosas quando conduzem à intolerância intelectual, a qual exclui da realidade todos os elementos que não se acomodam no esquema-sistema abstracto. A intolerância intelectual mais não é do que a propensão a considerar os seus princípios como outros tantos dogmas e a tomar as abstracções pela própria realidade. Whitehead deu-lhe o nome de falácia da concreção fora de lugar (fallacy of misplaced concretness), a qual ameaça liquidar a cultura superior.  A filosofia tem como tarefa principal criticar as abstracções, examinando as ideias que os cientistas aceitam sem objecção e comparando os diversos esquemas abstractos. Além disso, a filosofia constrói o seu próprio sistema teórico, a partir de intuições mais concretas que as intuições da ciência, tomando-as emprestadas aos artistas e aos génios religiosos e articulando-as com as suas próprias intuições. A necessidade da filosofia num mundo cada vez mais indigente resulta do facto dela submeter os sistemas abstractos fabricados por esses homens à vigilância da razão. A filosofia é racional não só no desempenho desta tarefa de exame crítico dos sistemas abstractos, mas também no seu método: a razão não pode continuar a capitular perante a ditadura dos factos. Ao denunciar esta capitulação da razão perante os factos, Whitehead defendeu o regresso de um verdadeiro racionalismo, o qual se fundamenta na intuição imediata da racionalidade do mundo. Ora, esta ideia de que o mundo se encontra dominado por leis lógicas e pela harmonia estética não pode ser mostrada indutivamente ou demonstrada dedutivamente, porque ela resulta de uma intuição directa, cuja crença (belief) correspondente torna possível a ciência e a filosofia. O racionalismo proposto por Whitehead já não é o racionalismo clássico: o fundamento das coisas deve ser procurado na natureza dos entes reais determinados, porque lá onde não há ente não há fundamento. O regresso do concreto - o contacto com o concreto - é um tema comum às filosofias de Whitehead e de Husserl, para as quais a experiência que nos revela a verdade não se reduz ao conhecimento sensível. A crítica materialista da fenomenologia, em especial da teoria da intuição, foi realizada por Georg Lukács. O carácter empirista da metafísica de Whitehead revela-se no facto de ser descritiva: o filósofo explica o abstracto e descreve o concreto.

Whitehead tem razão quando afirma que o materialismo perdeu actualidade quando surgiram a teoria ondulatória da luz, a teoria atómica, a teoria da conservação da energia e a teoria evolucionista. Todas estas teorias descobriram factos que rompem com os marcos do materialismo. Porém, o golpe fatal que "matou" o materialismo foi-lhe dado pela teoria quântica, que, segundo Whitehead, exige uma concepção orgânica da própria matéria. A filosofia do organismo elaborada por Whitehead que culmina com uma teoria de Deus teve eco em Portugal na filosofia criacionista de Leonardo Coimbra. Ela reconhece os seguintes factos da experiência: a mudança, a duração (endurance), a interpenetração (interfusion), o valor, o organismo e os objectos eternos. E o seu principal argumento contra o materialismo continua a ser mais filosófico do que "quântico": o materialismo é definido como a doutrina que atribui realidade a uma abstracção cómoda e até mesmo fecunda no domínio da ciência, mas o corpo - tal como foi concebido por Galileu e Descartes - não existe. O conceito fundamental da filosofia da natureza de Whitehead é o de acontecer ou acontecimento (event), o qual abarca todos os outros conceitos, tais como os de mudança, persistência, interpenetração, valores, organismos e objectos eternos. (Os matemáticos e os físicos tendem a ser muito platónicos: há um mundo abstracto - o mundo das ideias - que priva Deus da sua liberdade infinita!) O mundo não é composto de coisas isoladas umas das outras, mas de acontecimentos ou daquilo que ocorre ou acontece (happens). Um corte temporal do acontecer é um caso (occasion). Todo acontecer é uma captação e um organismo. Uma captação porque apreende em si o universo inteiro. E um organismo porque as suas partes não se encontram justapostas mas formam um todo e o todo determina as partes. Daqui resulta que cada acontecer é, como a mónada de Leibniz, um espelho do universo. O acontecer é a unidade sintética do universo como captado ou apreendido e o mundo uma comunidade orgânica gigantesca em que tudo é influído por tudo e em que não existe uma única relação externa. (Usei o termo "acontecer" em vez de "acontecimento" para evitar introduzir cristalizações ou imobilidades num universo dinâmico!) As noções de espaço e de tempo usadas por Whitehead para mostrar o erro do materialismo - o espaço como abstracção das relações de interpenetração recíproca dos aconteceres e o tempo como abstracção das durações sucessivas dos aconteceres - aproximam a sua filosofia da filosofia vitalista de Bergson, embora rejeite o seu anti-intelectualismo. O contributo de Whitehead para a clarificação da filosofia da teoria quântica foi reconhecido por David Bohm: «A noção de que a realidade deve ser entendida como processo é muito antiga, remontando pelo menos a Heráclito, segundo o qual tudo flui. Em tempos mais modernos, Whitehead foi o primeiro a dar a essa noção um desenvolvimento sistemático e extensivo». O ponto de partida de Whitehead e de Bohm é o mesmo, a noção de realidade como processo, mas as implicações daí derivadas são diferentes: David Bohm elaborou uma teoria da ordem implicada, segundo a qual qualquer elemento contém, dobrado dentro de si, a totalidade do universo que inclui tanto a matéria como a consciência. Bohm é um físico que se notabilizou graças à teoria das variáveis ocultas. A sua primeira teoria foi elaborada em 1951 com base em ideias expostas em 1926 por Louis de Broglie. Segundo esta teoria, existe no espaço, além dos campos de forças, um potencial quântico, que, ao contrário desses campos de forças, não transporta energia e não pode ser detectado directamente. As partículas sofrem-lhe os efeitos e, de certo modo, servem-se dele para comunicar entre si. Assim, por exemplo, nas experiências sobre o paradoxo EPR, as duas partículas que se afastam uma da outra estão permanentemente ligadas por esse potencial quântico: a medição que efectuamos numa delas modifica instantaneamente o potencial que exerce influência na outra, e daí a correlação que observamos entre os resultados das medições. O potencial quântico é a variável oculta não local da teoria de Bohm, a qual também explica a experiência de Aspect e a experiência das fendas de Young. No entanto, a teoria de Bohm deixa de servir quando as partículas, animadas de uma velocidade próxima da luz, colidem entre si e dão origem a outras. Para explicar este último fenómeno, é necessário fazer intervir a teoria da relatividade de Einstein. A teoria de Bohm não foi conciliada com essa teoria: a explicação deste fenómeno é dada pela teoria quântica relativista de campo. (Bohm abdicou dos gravitões!) Mais tarde, em 1980, Bohm elaborou a sua teoria da ordem implicada, de resto já em gestação no tal potencial quântico: a noção básica é a de que a realidade mais profunda não é o espírito, nem a matéria, mas uma realidade de dimensão superior que lhes serve de base comum e na qual prevalece a ordem implicada, onde deixam de ter validade as noções de espaço e de tempo. Esta teoria tem o mérito de propor um novo modelo de realidade que se opõe à visão do mundo como algo fragmentado: a noção do mundo como totalidade adquire assim um novo estatuto científico. (A teoria estocástica de Edward Nelson permite conciliar a teoria da relatividade e a noção de potencial quântico.) A noção de acontecimento como espelho do universo - de Whitehead - traz consigo a noção de totalidade expressiva, a de Leibniz e a de Hegel, com a qual Marx rompeu. Não admira que a filosofia de Whitehead implique como seu coroamento uma teoria de Deus, isto é, uma teologia, que retém alguma coisa do materialismo da necessidade e da teleologia. Há, porém, uma outra noção de totalidade que rejeita as noções de Origem, Sujeito e Fim: o materialismo aleatório - esboçado por Althusser - convida-nos a pensar o mundo como processo sem sujeito. O materialismo aleatório afirma-se na sua diferença radical conquistando as posições e as linhas de defesa do adversário: o que quer dizer que, para elucidar a realidade quântica, deve confrontar-se com as teorias filosóficas rivais, desalojá-las e tomar posse dos seus territórios. A teoria quântica não pode rejeitar o conceito de potencial quântico por ser a criação arbitrária de uma nova entidade física, ao mesmo tempo que «namora» com um nada ideológico que é Deus (no sentido religioso do termo). Mas o materialismo aleatório também deve abrir-se à estranheza radical do mundo quântico: abertura mental deve ser a atitude dos filósofos e dos cientistas que trabalham nas últimas fronteiras do conhecimento, nas quais não é possível traçar uma linha de demarcação entre filosofia e ciência. Afinal, a última palavra não pertence a ninguém.

J Francisco Saraiva de Sousa

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Althusser, Materialismo Aleatório e Mecânica Quântica

Oporto: House Music
Finalmente, depois de uma busca que durava há mais de três anos, descobri duas obras já dadas como perdidas na minha biblioteca, uma das quais da autoria de Althusser. Nutro uma enorme admiração pelo pensamento filosófico de Althusser: considero que foi um dos poucos filósofos contem-porâneos que mais contribuiu para a elaboração de uma teoria da filosofia e de uma teoria da ideologia. A filosofia, sobretudo a filosofia académica em Portugal, tem estado entregue nas últimas décadas a pessoas profun-damente incompetentes e imbecis: o resultado disso é a morte da própria filosofia. Se Portugal tivesse sido dirigido por uma elite do poder esclarecida, não teria chegado à situação de bancarrota cultural - científica e filosófica - em que vive. Hoje sabemos que Portugal tem sido governado por uma classe dirigente medíocre e mafiosa, cujos membros usam a universidade para promover os seus próprios interesses: um político português que transita para o ensino superior é, por natureza, um anti-professor. A estupidez começou primeiro na política, para logo a seguir invadir o mundo dos negócios e o mundo universitário. Portugal é o reino da estupidez fraudulentamente diplomada pelas universidades particulares criadas para esse fim: diplomar a ralé portuguesa que usa os aparelhos partidários não para fomentar políticas de desenvolvimento nacional, mas para benefício próprio. O atraso estrutural de Portugal em todos os níveis sociais deve-se à mediocridade das suas elites e ao imobilismo social que geram para salvaguardar as suas posições e interesses. A indigência cognitiva dos portugueses contribui para a sua própria auto-exclusão do processo civilizacional. É por isso que não levo a sério os portugueses: conheço-os demasiado bem para saber que as suas palavras, os seus diplomas e as suas posições não têm valor. Portugal está mergulhado na mentira institucional. A teoria da ideologia de Althusser permite pensar esta mentira institucional, mas não é sobre ela que pretendo pensar: a minha atenção vai incidir sobre a "filosofia para o marxismo" proposta pelo último Althusser. Numa entrevista concedida a Fernanda Navarro, Althusser esboçou as linhas gerais do materialismo aleatório, encarando-o como a filosofia mais adequada para a teoria marxista da história. Este esboço não está isento de dificuldades teóricas, sobretudo quando tenta articular as anteriores posições teóricas tomadas por Althusser nesse campo de batalha que é a filosofia. O materialismo dos encontros aleatórios seduz-me, pela simples razão de ir ao encontro de duas "propriedades" da mecânica quântica: o indeterminismo e a não-localidade, as quais implicam uma certa globalidade. Althusser não fala uma única vez da mecânica quântica, embora o seu materialismo aleatório possa ser repensado como uma crítica da interpretação ortodoxa da mecânica quântica, a da Escola de Copenhaga. E o seu anti-humanismo teórico - o de Marx - pode ser repensado como a rejeição do Princípio Antrópico. Quem é que ainda não leu as patetices espiritualistas sobre o princípio antrópico cosmológico escritas por Errol E. Harris? É preferível alimentar a imaginação com a filosofia da natureza proposta por Rupert Sheldrake, a qual tem uma ligação metafórica com a teoria dos campos quânticos! Não é preciso falar directamente da mecânica quântica para contribuir para a elaboração da filosofia mais adequada para justificar os seus fundamentos. Steven Weinberg relata-nos um episódio muito instrutivo sobre a relações entre filosofia e ciência: «Há cerca de um ano, enquanto Philip Candelas (do departamento de física da Universidade do Texas) e eu esperávamos pelo elevador, a nossa conversa centrou-se num jovem teórico que fora bastante promissor enquanto estudante de doutoramento e que depois desaparecera. Perguntei a Phil o que teria interferido com a investigação do ex-estudante. Phil abanou a cabeça com tristeza e disse: "Ele tentou compreender a mecânica quântica"». Filosofia e ciência estão embarcadas no mesmo barco: se uma delas for derrubada ou afundada, a outra cai logo a seguir. A aliança entre filosofia e ciência é orgânica: não há filosofia sem ciência e não há ciência sem filosofia. Quando falamos do divórcio entre filosofia e física, devemos ter em conta que esse divórcio foi tematizado por uma filosofia que não representa toda a filosofia: trata-se, portanto, de um divórcio ideológico que desvirtua a cooperação entre pensamento filosófico e pensamento científico, para já não falar do pensamento religioso, que operou a grande revolução científica do século XVII, como demonstrou Alexandre Koyré. Apesar de criticar a "filosofia dos filósofos", Steven Weinberg reconhece que a mecânica quântica precisa da ajuda dos filósofos: «A ajuda de filósofos profissionais para tentarmos perceber o que estamos a fazer seria bem-vinda, mas, com ou sem a sua ajuda, continuaremos a fazê-lo». Os fundadores da mecânica quântica foram, eles próprios, filósofos: a filosofia não foi estranha ao nascimento da mecânica quântica, bastando ler os seus textos fundadores para detectar a sua presença. O facto de ser uma teoria ainda-não-concluída torna provavelmente a mecânica quântica pouco atractiva para os filósofos profissionais, embora um dos filósofos referidos por Étienne Klein - Jean-Paul Sartre - tenha referido o princípio de incerteza de Heisenberg para reforçar a sua filosofia (idealista) do sujeito, segundo Althusser, aceitando para todos os efeitos a interpretação da Escola de Copenhaga. Como é evidente, dado nunca ter abordado explicitamente este assunto, desconheço a posição de Althusser em relação à filosofia da mecânica quântica. No entanto, nas entrelinhas dos seus textos, detecto uma aproximação enigmática às posições tomadas por Karl Popper que odiava os membros da Escola de Copenhaga. Na linguagem de Althusser, podemos dizer que a interpretação da Escola de Copenhaga é dominada por uma tendência idealista, contra a qual se deve definir uma posição materialista. Althusser é um filósofo materialista, não um materialista mecanicista mas um materialista pluralista: o seu pluralismo tem algumas afinidades com o pluralismo de Popper, embora divirja dele no que respeita à teoria da história. O reducionismo de Weinberg - a sua atitude face à natureza - não teria seduzido Althusser. Mas, se tivesse lido outros filósofos além de Wittgenstein, Weinberg teria sido seduzido pelo materialismo aleatório de Althusser. Como tenho defendido nos últimos textos, a mecânica quântica só estará concluída quando despoletar uma imensa revolução filosófica. Os heróis do materialismo aleatório de Althusser - Demócrito, Leucipo, Epicuro e Lucrécio - devem ser substituídos pelos físicos das partículas elementares, se quisermos fazer desse novo materialismo a filosofia da mecânica quântica. Há, no entanto, um obstáculo a ser superado: a interpretação da Escola de Copenhaga é mais favorável à unificação da ciência do que a interpretação materialista ou realista. No entanto, em vez de desistir da tarefa de pensar os fundamentos da mecânica quântica, devemos recordar a engenhosa ilustração dada por Althusser para pensar as duas tendências da filosofia: o filósofo idealista é o homem que, ao tomar o comboio, conhece desde o início da sua viagem as estações de saída e de chegada, a origem e o fim do trajecto, enquanto o filósofo materialista toma sempre o comboio "em marcha", sem conhecer nem a origem nem o destino da sua trajectória. Com esta ilustração, acabo de tomar uma posição filosófica que me possibilita converter uma tese idealista numa tese materialista, sem abdicar da tarefa de unificar a ciência e a filosofia. Faço-o movido pelo interesse de alcançar um objectivo teórico: uma filosofia para o marxismo - ciência da história - é também uma filosofia para a mecânica quântica. A unificação foi sempre o grande sonho da razão.

Althusser é um filósofo surpreendente e, ao mesmo tempo, irritante: ele nunca levou até ao fim todas as suas brilhantes "intuições". A sua proposta de uma filosofia para o marxismo implica necessariamente uma revisão substancial da teoria da história e da sociedade de Marx, mais conhecida pela designação de materialismo histórico. Depois da aproximação que realizei entre a teoria da evolução de Darwin e a teoria da história de Marx, chegou a hora de a reformular em função dos conhecimentos fornecidos pela mecânica quântica. Embora não a mencione uma única vez, a mecânica quântica está presente na reflexão de Althusser, em especial nos conceitos de singularidade e de acção à distância. Se Carl Sagan conhecesse a teoria da história de Marx, não teria escrito alguns disparates perigosos sobre as viagens no espaço e no tempo, sobretudo as viagens ao passado que, na sua perspectiva alucinada, permitiriam transformar a história numa "ciência experimental", com o resultado fatal de abolir o nosso próprio mundo histórico, em nome das viagens interestelares. Não é a teoria da relatividade restrita de Einstein que aqui está em causa, como é evidente, a qual afasta do nosso alcance uma das maneiras de alcançar as estrelas, a possibilidade de construção de uma nave mais rápida que a luz - o limite de velocidade cósmico, mas a própria noção de história de Sagan. Estou consciente de que piso terrenos tanto mais perigosos quanto mais persigo o objectivo de unificação da ciência e da filosofia. Não devemos seguir o exemplo do jovem candidato a físico que, ao procurar entender a mecânica quântica, desistiu da própria ciência. O caminho da ciência, como já dizia Marx, é extremamente difícil e, para muitos de nós, penoso, no sentido de não ser valorizado pelos nossos contemporâneos envolvidos em práticas consumistas destrutivas. O nascimento da mecânica quântica - sistema de teorias no qual as partículas não têm posições e velocidades exactamente definidas mas que, em muitos aspectos, se comportam como ondas, e, de forma semelhante, as ondas de luz se comportam, em muitos aspectos, como partículas - e a sua ruptura epistemológica com a física newtoniana já foram descritos diversas vezes por centenas de cientistas e filósofos da ciência. Aqui convém apenas recordar que a mecânica quântica substituiu o determinismo da física clássica pelo indeterminismo da nova física: «A física do século XX desenvolveu-se a partir da anterior física "clássica", inspirada na obra de Isaac Newton nos finais do século XVII. Newton descobriu as leis fundamentais do movimento e da gravitação e aplicou-as com enorme sucesso à descrição detalhada do movimento dos planetas e da Lua. No século que se seguiu às descobertas de Newton, uma nova interpretação do universo surgiu: o determinismo. De acordo com o determinismo, o universo pode ser encarado como um grande relógio mecânico posto em movimento no início dos tempos pela mão divina e depois abandonado. Dos maiores aos mais pequenos movimentos, toda a criação material evolui de uma forma que pode ser prevista com precisão absoluta pelas leis de Newton. Nada é deixado ao acaso. O futuro é tão precisamente determinado pelo passado como o movimento de um relógio. Apesar de as nossas mentes humanas não poderem, na prática, seguir o movimento de todas as partes deste grande mecanismo e, assim, conhecer o futuro, podemos imaginar que a mente omnipotente de Deus pode fazê-lo e, portanto, ver todo o passado e todo o futuro à sua frente como uma sucessão de montanhas» (Heinz R. Pagels). Quando os físicos entraram em contacto com a estrutura atómica da matéria em finais do século XIX, a imagem determinista do mundo começou a ruir, porque as unidades atómicas da matéria se comportavam de uma forma aleatória que a física determinista não podia descrever. Um conjunto de novas descobertas experimentais permitiu a elaboração de uma nova física, a teoria quântica, entre 1900 e 1926, evidenciando-se a ruptura com a física newtoniana depois de 1926: «Em que consiste esta peculiaridade quântica? A física da nova física quântica contrasta fortemente com a antiga física newtoniana, que veio substituir. As leis de Newton trouxeram a ordem ao mundo visível dos objectos e acontecimentos a que estamos habituados, como a queda de pedras, o movimento dos planetas, o fluir dos rios e as marés. As características básicas da imagem newtoniana do mundo eram o seu determinismo - o relógio do universo está totalmente determinado do princípio ao fim dos tempos - e a suposição tácita de que as pedras e os planetas existem objectivamente mesmo quando nós não os observamos directamente; se lhes voltarmos as costas, eles permanecem no mesmo sítio. Na teoria quântica, estas interpretações aparentemente sensatas do mundo (como o determinismo e a objectividade) não podem ser conservadas. Apesar de o mundo quântico ser racionalmente compreensível, não pode ser visualizado como o mundo newtoniano. (...) A teoria quântica não só nega a ideia tradicional de objectividade, como também destruiu a imagem determinista do mundo. De acordo com a teoria quântica, alguns acontecimentos, como as transições electrónicas nos átomos, ocorrem ao acaso. Não existe nenhuma lei física que nos diga exactamente quando é que uma transição vai ocorrer; o máximo que podemos fazer é determinar a probabilidade de uma dada transição. As mais pequenas rodas do grande relógio, os átomos, não obedecem a leis deterministas. Aos inventores da teoria quântica - Niels Bohr, Louis de Broglie, Erwin Schrödinger, Wolfgang Pauli, Werner Heisenberg e Paul Dirac, para já não falar de Albert Einstein - deparara-se mais uma diferença radical em relação à imagem newtoniana do mundo - a realidade criada pelo observador. Eles descobriram que a teoria quântica implica que aquilo que um observador decide medir influencia o resultado final dessa medida. O que acontece no mundo quântico depende da forma como o observamos. O mundo não existe independentemente da nossa observação; aquilo que existe depende em parte do que decidimos observar - a realidade é parcialmente criada pelo observador. São estas propriedades do mundo quântico - a sua falta de objectividade, a sua indeterminação, a realidade criada pelo observador - que o distinguem do mundo habitual percebido pelos nossos sentidos. É a elas que me refiro como "peculiaridade quântica"» (Pagels). A revolução quântica - e relativista - colheu de surpresa o marxismo, cujo materialismo, sobretudo o de Engels e Lenine, ainda se movia no quadro da tradição racionalista do materialismo da necessidade e da teleologia. Althusser compreendeu isso quando tentou pensar uma filosofia para o marxismo. A minha reflexão move-se na proximidade das teorias de tudo: vejo o materialismo aleatório como a janela através da qual podemos vislumbrar uma teoria unificada, capaz de fornecer explicações para uma grande variedade de factos, com uma contribuição mínima de premissas para as conclusões.

A teoria do materialismo aleatório esboçada por Althusser é ainda uma teoria provisória que deve ser reformulada à luz dos novos conhecimentos fornecidos pela mecânica quântica, tendo como leituras de fundo as obras The Principles of Quantum Mechanics de P. A. M. Dirac (1947), Mathematical Foundations of Quantum Mechanics de J. von Newmann (1955) e The Many-Worlds Interpretation of Quantum Mechanics de B. S. De Witt & R. D. Graham, org. (1973), entre algumas outras obras clássicas. Ela foi esboçada como uma filosofia para o marxismo. Daí que o seu conceito central seja uma nova concepção da história dos homens. Althusser retoma Demócrito e os mundos de Epicuro para recordar a sua tese central: antes da formação do mundo, uma infinidade de átomos caia no vazio, em forma paralela. Esta tese central tem duas implicações fundamentais: 1) não havia absolutamente nada formado antes de haver mundo, e 2) todos os elementos do mundo existiam já isolados, desde toda a eternidade, antes mesmo de haver mundo. Esta tese central e as suas implicações devem ser reformuladas em função dos novos conhecimentos físicos adquiridos. Mas a sua implicação filosófica fundamental pode ser formulada deste modo: antes da formação do mundo não existia nenhuma Origem, Sentido, Causa, Razão ou Fim. O materialismo aleatório rejeita toda a teleologia porque não é um materialismo do sujeito, mas o materialismo de um processo sem sujeito que domina a ordem do seu desenvolvimento, sem um fim atribuível. Foi Epicuro quem defendeu a não-anterioridade do Sentido, opondo-se assim a Platão e a Aristóteles.  A seguir adveio o clinamen, isto é, um desvio que ocorre sem se saber como, nem quando nem onde. O clinamen desencadeia o desvio de um átomo na sua queda no vazio e provoca um encontro com outro átomo. O mundo nasceu de uma sequência durável de encontros, mais precisamente de um desvio aleatório e não da Razão ou da Causa Primeira. Mas o encontro não cria nada por si mesmo: o encontro dá realidade aos próprios átomos que, sem ele e o desvio, não seriam mais do que elementos abstractos e isolados, sem consistência nem existência. Só depois de formado o mundo é que se instaura o reino da razão, da necessidade e do sentido. O que interessa no materialismo aleatório não é tanto a descrição que Epicuro deu dele, a qual deve ser revista, mas o facto dele possibilitar pensar um materialismo de um processo sem sujeito. Ora, esta noção encontra-se, de algum modo, incorporada na proposta sem fronteira de Hartle-Hawking, segundo a qual o espaço e o tempo imaginário formam, em conjunto, uma superfície finita em extensão mas sem fronteiras ou limites. Assim, o espaço-tempo seria como a superfície da Terra, mas com mais duas dimensões. Ora, ao defender que o universo não tinha fronteiras no começo, sendo um todo auto-contido, Hawking descarta-se de Deus porque, num tal universo, Ele não é necessário para dar início ao universo, o qual existe por si mesmo, sem que Deus o tivesse criado. Em vez de se entregar à tarefa de pensar a filosofia da mecânica quântica, Althusser prefere pensar a recusa heideggeriana da questão da Origem, Causa e Fim do mundo como um movimento contemporâneo análogo ao atomismo e ao epicurismo: Heidegger não só recusou a questão da origem, como também - sob inspiração de Epicuro - elaborou uma filosofia que implica uma visão do mundo que lhe restitui uma espécie de contingência transcendental do mundo, para o qual somos lançados, bem como do sentido do mundo que nos orienta para a abertura ao Ser, mais além do qual não há nada para procurar nem nada para pensar. A sua expressão "es gibt" - há mundo - significa que o mundo é um "dom" - uma dádiva - para nós mortais. Porém, Althusser vai mais longe quando afirma que, em vez de pensar a contingência como modalidade ou excepção da necessidade, devemos pensar a necessidade como o devir-necessário do encontro dos contingentes. Deste modo, Althusser reanima a tradição materialista esquecida pela história da filosofia, cujas figuras mais importantes foram Demócrito, Epicuro, Maquiavel, Hobbes, Rousseau (2º. Discurso), Marx e Heidegger. Para reactivar este materialismo aleatório que elaborou categoriais tais como, por exemplo, vazio, limite, margem, ausência de centro, deslocamento do centro para a margem (e vice-versa) e liberdade, é preciso rejeitar os materialismos registados pela história da filosofia, incluindo aquele que tem sido atribuído a Marx, Engels e Lenine, na medida em que eles pertencem à tradição racionalista do materialismo: o materialismo aleatório opõe-se, portanto, ao materialismo da necessidade e da teleologia, uma forma disfarçada de idealismo. A proposta de Althusser é, do ponto de vista filosófico, extremamente sedutora, na medida em que nos permite pensar a história da filosofia como esquecimento do materialismo aleatório, canalizando o seu impulso na direcção de um idealismo da liberdade. Sem percorrer este longo e espinhoso caminho não podemos avaliar a sua produtividade, mas de uma coisa podemos estar certos: o desvio idealista operado pela tradição filosófica dificulta a tarefa de elucidar os fundamentos da mecânica quântica. No entanto, ao recusar toda a origem, Althusser é levado a pensar uma filosofia do vazio. Esta filosofia afirma que o vazio preexiste aos átomos que caem sobre ele, ao mesmo tempo que postula um vazio filosófico: em vez de partir dos famosos "problemas filosóficos", a filosofia do vazio começa por os eliminar para partir do nada. Ou mais precisamente: a filosofia do vazio afirma o primado do nada sobre a forma, o primado da ausência sobre a presença. O nada funciona aqui como o nada de objecto, que permite a Althusser retomar a sua anterior tese de que a filosofia não tem objecto, no sentido em que a ciência tem um objecto. Deste modo, Althusser radicaliza a crítica de toda a filosofia (idealista) na sua pretensão de dizer a Verdade sobre as coisas. O carácter fragmentário das declarações de Althusser não nos permite ir mais longe. O que posso dizer é que esta noção de vazio primordial requer uma reformulação à luz da mecânica quântica, na medida em que parece parasitar uma noção ultrapassada de espaço. A teoria dos mundos de Epicuro já não pode constituir o ponto de referência para a elaboração de um materialismo aleatório. É certo que Althusser vai mais além de Epicuro quando radicaliza e actualiza o seu pensamento, de modo a convertê-lo em crítica radical de toda a tradição idealista, mas, sem disso se aperceber, permanece prisioneiro de noções ultrapassadas. O que Althusser diz a seguir deixa-me perplexo: o materialismo aleatório afirma o primado da materialidade sobre tudo, incluindo o aleatório. A formulação abstracta deste primado não nos permite avaliar a sua produtividade, sem termos realizado análises prévias e pormenorizadas sobre o seu alcance real. Penso que Althusser está a pensar em Aristóteles, quando este diz que a matéria se diz de muitas maneiras. O primado da materialidade não se reduz ao primado da matéria nua; ele é generalizado, de modo a incluir o primado do dispositivo experimental, a materialidade de um gesto ou mesmo a materialidade de um traço - da escritura - que, segundo Derrida, se encontra no fonema emitido por uma voz que fala. Althusser é peremptório quando afirma que o primado da materialidade é universal. Ora, o carácter universal do primado da materialidade permite-lhe reformular a tese marxista do primado da infra-estrutura económica, cuja universalidade depende das forças produtivas: «Ça dépend, palavra aleatória e não dialéctica», usada por Marx na Contribuição à Crítica da Economia Política. Sendo assim, tudo pode ser determinante em última instância, tudo pode dominar, e, na superestrutura, o que é determinante é também a sua materialidade: a teoria da ideologia de Althusser mostrou a materialidade da superestrutura e da ideologia, permitindo pensar o deslocamento da materialidade - sempre determinante em última instância - em cada conjuntura concreta. Haverá ainda lugar para a dialéctica num tal materialismo aleatório? Ou será ele o substituto real do materialismo dialéctico? A dialéctica - hegeliana ou marxista, idealista ou materialista - é mais "congruente" com a interpretação da Escola de Copenhaga do que com uma interpretação materialista da mecânica quântica. A noção de objecto é ainda uma categoria dialéctica: o materialismo aleatório - rigorosamente pensado - é levado a abandonar essa noção de objecto e o par a que pertence (sujeito-objecto). Estaremos nós preparados para romper completamente com o idealismo, para pensar a tradição subterrânea da filosofia? Quem sabe se ao pensarmos esta tradição esquecida pela história da filosofia, não estaremos a dar os primeiros passos para revelar a energia e a matéria escuras do universo?

O processo de Bolonha, esta terrível invenção de eurocratas destituídos de inteligência, está a bloquear o crescimento do conhecimento científico: as orgias que promove vão no sentido de liquidar a persistência e a continuidade de uma linha forte de formação e de investigação. Em Portugal, o processo de Bolonha tem sido usado para diplomar analfabetos que pertencem à rede do poder corrompido. De certo modo, Bolonha é isso mesmo: a possibilidade de diplomar os "burros". Com a sua política de empobrecimento generalizado, o governo português vai levar Bolonha ao seu limite extremo: a liquidação da formação e da investigação. Hoje compreendemos a razão de ser da insensibilidade dos políticos portugueses em relação ao conhecimento: a falsidade das suas qualificações leva-os a abolir a cultura do mérito em todas as esferas da sociedade portuguesa. As classes dirigentes portuguesas são os carrascos de Portugal. Mas, afinal, o que é que o recente caso polémico da pseudo-licenciatura de Miguel Relvas - ministro do actual governo português - tem a ver com a mecânica quântica? Pergunta desconcertante que me permite introduzir a história nesta reflexão. Althusser não pensou a filosofia da mecânica quântica: em vez disso, esboçou uma filosofia para o marxismo, ao mesmo tempo que reformulou os princípios da ciência da história fundada por Marx. Graças à teoria do Big Bang, a história deixou de ser uma noção estranha ao universo dos físicos que se dedicam à cosmologia, a ciência do cosmos considerado no seu conjunto e na sua evolução. Estou convencido de que é possível aproximar as duas noções de história. E, além disso, penso que Althusser abriu esse caminho. A teoria althusseriana da história é demasiado complexa para ser aqui exposta. Dela retenho apenas a sua derradeira versão que introduzo aqui formulando uma tese: Há uma coexistência de histórias que se sobredeterminam. A formulação deste tese permite desde logo fazer a aproximação entre a história do cosmos e a história dos homens, e, no entanto, ela parece rejeitar a unificação teórica desses dois conceitos. Althusser começa por afirmar que há dois tipos de histórias: a História dos historiadores e dos outros cientistas sociais, e a História no presente, que a língua alemã designa com a palavra Geschichte. Esta distinção introduz o escândalo no seio da teoria althusseriana da história, ao ponto de nos levar a duvidar da própria fundação da ciência da história por Marx. Mas o escândalo torna-se aparente quando compreendemos o sentido da manobra que opera esta distinção entre duas histórias: abrir o caminho a um novo projecto político. Tudo se passa como se, para realizar a unificação da história do cosmos e da história dos homens, fossemos obrigados a desenvolver uma teoria diferencial da história humana, de modo a possibilitar um novo pensamento político. Ou dito em termos provocantes: a unificação é, em última instância, política. A introdução da política na mecânica quântica é uma proposta sedutora: afinal, o que é a filosofia a não ser a política na ciência? Nutro uma admiração reservada pela interpretação da mecânica quântica dada por Fritjof Capra: "reservada" porque não é necessário recorrer ao misticismo oriental - hinduísmo, budismo, pensamento chinês, taoísmo e zen - para compreender a novidade radical da mecânica quântica e da sua visão do mundo. Tal como a Filosofia, a mecânica quântica é uma invenção ocidental que só pode ser compreendida nos termos da sua cultura filosófica. Culturas que não chegaram a descobrir a filosofia e a ciência não podem ser convocadas para as interpretar. Até mesmo uma interpretação em termos de misticismo ocidental seria confrontada com o facto deste só ter sido possível a partir de grandes avanços científicos e filosóficos: misticismo ocidental e misticismo oriental não pertencem à mesma família. Porém, a chave que nos permite clarificar os fundamentos da mecânica quântica não se encontra no misticismo, mas na tradição subterrânea do materialismo ocidental, aquela que não foi registada pela história da filosofia. Althusser afirma que os historiadores podem falar de "leis" da História porque consideram apenas o facto consumado, o da história passada. Assim, nesta perspectiva, a história apresenta-se como um objecto fixo e estável, cujas determinações podem ser estudadas como as de um objecto físico, um objecto acontecido, morto. A fonte da ideologia espontânea dos historiadores encontra-se nesta concepção da história consumada, da qual sacam estatísticas determinantes e deterministas, sem levar em conta a história viva. A língua alemã dispõe de uma palavra para designar a história viva: Geschichte. A história no presente é determinada em grande parte pelo passado já acontecido, mas só em parte, porque a história presente está aberta também a um futuro incerto, imprevisto, ainda não-consumado e, portanto, aleatório. A história presente só obedece a uma "constante" que não é uma lei: a constante da luta de classes. Marx nunca utilizou o termo "constante": ele utilizou a expressão "lei tendencial". Uma tendência não possui a forma ou a figura de uma lei linear, na medida em que pode bifurcar-se sob o efeito de um encontro com outra tendência e assim até ao infinito. Em cada cruzamento de caminhos, a tendência pode tomar uma via imprevisível, o que indica que a história presente é sempre a história de uma conjuntura singular e aleatória. Barry Hindess & Paul Q. Hirst levaram esta concepção até ao ponto de libertar o marxismo da história dos historiadores, lembrando que a história é um texto potencialmente infinito, voltado sobre si mesmo e constantemente a ser reescrito. O conceito que se destaca desta nova concepção da história é o de conjuntura singular e aleatória. Uma conjuntura é uma combinação ou encontro aleatório de elementos, em parte existentes mas também imprevisíveis. Assim, toda a conjuntura é um caso singular como todas as individualidades históricas e como tudo o que existe. Esta concepção da história presente permite a Althusser criticar a interpretação do marxismo apresentada por Karl Popper: os objectos do marxismo não são do tipo da história consumada, mas da história viva que se faz e surge das tendências aleatórias, cujas formas são estranhas ao determinismo das leis físicas clássicas. O marxismo precisa do materialismo aleatório para pensar a abertura do mundo ao acontecimento, à imaginação inaudita e à prática viva. Como já tinha mostrado num outro estudo preparatório, há uma forte afinidade entre a filosofia de Althusser e a filosofia do primeiro Wittgenstein. Para confirmar a abertura ao acontecimento, Althusser cita a célebre frase que abre o Tratado Lógico-Filosófico de Wittgenstein: «O mundo é tudo aquilo que acontece» ou, segundo a tradução de Russell, «O mundo é tudo o que é o caso». Ora, a tese de que o mundo não é mais do que casos, situações e indivíduos singulares totalmente distintos entre si, é a tese fundamental do nominalismo. No esboço da história do materialismo apresentado por Marx n'A Sagrada Família, o nominalismo é visto como «a primeira expressão do materialismo». Mas Althusser vai mais longe do que Marx quando afirma que o nominalismo é já o materialismo, que, segundo certos estudos etnográficos, reina nas sociedades primitivas, tanto ao nível do pensamento como ao nível da realidade e da prática social. Para os membros destas sociedades primitivas, só existem seres singulares, cada um dos quais é designado por uma palavra singular: o "aqui e agora" não pode ser nomeado por uma palavra mas simplesmente indicado ou assinalado com o dedo. O acto de indicar com o dedo, em vez de recorrer à palavra, significa o primado do gesto sobre a palavra, do traço material sobre o signo. Embora tenha sido desenvolvido de forma sistemática no decorrer da Idade Média por Duns Escoto e Guilherme Ockham, com o primeiro a interrogar-se «se a matéria não poderia pensar», o nominalismo ocidental recua até Homero, Hesíodo, os sofistas e os atomistas (Demócrito e Epicuro). Infelizmente, Marx não chegou a elaborar uma teoria da história, no sentido do acontecimento histórico imprevisto, único e aleatório: o único filósofo que se aproximou da história política no presente foi Maquiavel. O materialismo aleatório força o materialismo histórico a abrir-se ao mundo do acontecimento, ao mesmo tempo que o convida a pensar uma nova prática política. A mecânica quântica obriga o materialismo histórico a operar uma viragem quântica. E, ao levar a bom-porto esta viragem, desenvolvendo uma nova teoria da história, o marxismo estará a contribuir para a elaboração activa de uma teoria unificada e global. Os físicos têm dialogado com filósofos menores, cujas obras geraram pequenas tempestades à superfície da água sem quebrar o próprio copo. Marx revolucionou tanto a filosofia como a ciência da história. Não consigo imaginar uma teoria unificada que não integre a sua teoria da história reformulada à luz do materialismo aleatório. Vejamos esta breve descrição do mundo quântico dada por Fritjof Capra: «A teoria quântica derrubou os conceitos clássicos de objectos sólidos e de leis da natureza estritamente deterministas. No nível subatómico, os objectos materiais sólidos da Física clássica dissolvem-se em padrões de probabilidade semelhantes a ondas; estes padrões não representam, em última instância, probabilidades de coisas mas sim probabilidades de interconexões. Uma análise cuidadosa do processo de observação na Física atómica tem demonstrado que as partículas subatómicas não possuem significado enquanto entidades isoladas, só podendo ser compreendidas como interconexões entre a preparação de uma experiência e a sua posterior medição. A teoria quântica revela, assim, uma unidade básica no universo. Mostra-nos que não podemos decompor o mundo em unidades menores dotadas de existência independente. À medida que penetramos na matéria, a natureza não nos mostra quaisquer "blocos básicos de construção" isolados. Ao contrário, surge perante nós como uma complicada teia de relações entre as diversas partes do todo. Estas relações incluem sempre o observador, de maneira essencial. O observador humano constitui o elo final na cadeia de processos de observação e as propriedades de qualquer objecto atómico só podem ser compreendidas em termos de interacção do objecto com o observador. Por outras palavras, o ideal clássico de uma descrição objectiva da natureza perde a sua validade. A partição cartesiana entre o eu e o mundo, entre o observador e o observado, não pode ser efectuada quando lidamos com a matéria atómica. Na Física atómica, jamais podemos falar sobre a natureza sem falar, ao mesmo tempo, sobre nós próprios». Não há nada nesta descrição que não possa ser traduzido numa linguagem marxista clássica. A tese de doutoramento de Marx foi sobre os sistemas de filosofia da natureza de Demócrito e de Epicuro. Althusser foi, no entanto, mais longe quando adoptou a linguagem quântica - ou atomista: a de Epicuro - para pensar a novidade radical da descoberta científica de Marx. Se Fritjof Capra conhecesse a teoria de Marx ou mesmo a dialéctica de Hegel, não teria sido tão acrítico na recepção das ideias orientais: a interacção do objecto com o observador implica a ideia de um universo dinâmico num sentido não "intuído" pelo misticismo oriental. A leitura do livro de Capra é instrutiva pelo facto de mostrar que, lá onde predomina o misticismo oriental, a mecânica quântica está ausente.

J Francisco Saraiva de Sousa