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terça-feira, 10 de julho de 2012

Prós e Contras: Quem somos nós?

Porto: Funicular dos Guindais
Não sabia que Prós e Contras ia debater hoje (9 de Julho) a descoberta da partícula de Higgs: vi muito rapidamente o debate, no qual participaram três "filósofos" e três físicos. A surpresa surgiu quando vi que dois dos três supostos filósofos eram homens da Igreja Católica, um (Alfredo Dinis) mais inquisitorial do que o outro (Bruno Nobre). Restou apenas uma professora de "filosofia da ciência" que dá por nome Olga Pombo, a qual não soube estar à altura da filosofia, até porque muitas das questões que colocou já têm uma explicação consensual. Com estes falsos representantes, a filosofia ficou sem direito à palavra neste debate moderado por Fátima Campos Ferreira, embora Alfredo Dinis tenha exibido a arrogância de falar em nome da filosofia que identifica com a metafísica. Por momentos, voltámos à Idade Média, como se os homens religiosos tivessem o direito de ditar as regras do jogo científico. Alfredo Dinis exibiu um livro de um físico americano que dispensa Deus para explicar a ordem do mundo. Pelo que disse sobre o livro, vi logo que ele não o tinha lido ou, se o leu, não o compreendeu: Alfredo Dinis é daquele tipo de homens anti-democráticos e maldosos que resolvem tudo dizendo que foi Deus que criou o mundo a partir do nada. E o que é pior: sem corar de vergonha. (Defendeu uma noção de nada que atribuiu à filosofia, como se todas as filosofias partilhassem essa mesma identidade nada = vazio. O falso filósofo desconhece as noções de nada em Heidegger, Sartre e Althusser. O nada em física tem um sentido muito peculiar: o nada de Deus criador, por exemplo. Vazio é uma outra noção. Pascal, filósofo cristão, sabia distinguir entre estas duas noções.) A questão de Deus já não constitui nenhum enigma, sobretudo depois da descoberta científica da electricidade que, ao iluminar a noite, dissipou o medo: o Deus dos monoteísmos não corresponde a nada, ou melhor, é um nada ideológico usado para garantir a dominação do homem pelo homem. A ciência tem uma vantagem em relação à religião: ela pode explicar os comportamentos e as crenças religiosas, sem ser por sua vez explicada pela religião. A religião não explica nada: a teologia é aquela forma bizarra de conhecimento que tem por objecto o nada, ou seja, não tem objecto. Se no imenso universo, incluindo a matéria e a energia escuras, há alguma coisa que mereça o nome de Deus, essa coisa não tem nada a ver com a concepção que estes homens obscuros têm de Deus. Explicar algum acontecimento através de Deus equivale a não explicar absolutamente nada: o Deus dos monoteísmos não explica nada. É por isso que as Igrejas Cristãs foram obrigadas - após longos períodos de lutas e de guerras sangrentas - a capitular perante a filosofia e a ciência, refugiando-se na esfera do simbólico, a esfera do nada de conhecimento. Se Olga Pombo conhecesse a obra de Max Weber, pelo menos, teria evitado improvisar - de forma extremamente leviana e voluntarista-opinativa - sobre a relação entre a religião e a ciência. É deveras estranho que uma "filósofa" (sic) desconheça o nascimento da filosofia na cidade-Estado grega e a luta que travou contra a tradição dogmática. Respeitar as crenças religiosas de pessoas que precisam de ter fé para viver é uma coisa, aceitá-las como parceiros de diálogo em matéria de ciência e de filosofia é outra: a sua fé não traz mais-valia ontológica ao nosso mundo; pelo contrário, privam-no da diferença e da liberdade. Não há à face da Terra nenhum país religioso que tenha avançado para formas mais democráticas de convívio humano ou mesmo de bem-estar material: o monoteísmo é, por essência, totalitário. Ele só permite a diferença lá onde o Estado se afastou da Igreja ou da religião, fazendo delas assuntos privados: o catolicismo entregue a si mesmo é tão talibã quanto o islão. Não há diferença qualitativa entre os três monoteísmos que, ao longo da história, têm levado os homens a derramar sangue, em nome de um nada ideológico que, afinal, é o bezerro de ouro das classes dominantes.

Compreendo a cautela exibida pelos três físicos - João Varela (CERN), Gaspar Barreiro e Carlos Fiolhais - quando falaram sobre o possível impacto da descoberta da partícula de Higgs sobre a física, mas o respeito pelas práticas e crenças religiosas tem limites: a hegemonia das trevas é uma ameaça presente no mundo contemporâneo. A comunidade científica deve estar sempre atenta e pronta a lutar contra os nadas ideológicos das religiões. (Gaspar Barreiro e Carlos Fiolhais lembraram a terrível hegemonia da religião durante a Idade Média!) Não há diálogo possível com a religião. No passado, temendo pela sua vida, os filósofos foram obrigados a "dialogar" com os "queimadores de corpos", mas esse diálogo visava minar por dentro a própria estrutura do pensamento cristão. Ao abraçar a filosofia grega, o cristianismo preparou a sua própria morte: a filosofia nunca foi escrava da teologia. As controvérsias teológicas referidas por Alfredo Dinis tinham um sentido: liquidar subtilmente os nadas teológicos. Ernst Bloch escreveu uma história do materialismo que lança luz sobre o processo de metamorfose subversiva das noções teológicas operado pelos grandes filósofos no seio da própria teologia: o Deus dos filósofos não é susceptível de ser adorado; ele é um conceito-limite que permite pensar a finitude radical do homem. No ocidente, o vector que orientou o pensamento filosófico foi o da expulsão de Deus, desse nada ideológico que não explica absolutamente nada. É com essa grande tradição materialista que a ciência se identifica: a função "política" do materialismo aleatório é impedir a exploração ideológica da ciência, em termos que não são os seus. O fosso entre ciência e religião é intransponível: um cientista que professe uma crença religiosa é uma consciência dilacerada e, profundamente, infeliz, porque lá no fundo da sua consciência ele sabe que o Deus dos monoteísmos é um nada ideológico. A luta contra a religião foi filosófica muito antes de ser também científica. Se a filosofia herdou alguma coisa do cristianismo, essa coisa é a exclusividade: a aliança filosofia-ciência não tolera a presença de um possível rival. Em Portugal, sabemos que esse rival adiou o desenvolvimento do país: o catolicismo predomina lá onde não houve verdadeiro desenvolvimento cultural e económico. Os três físicos presentes no debate mostraram saber isso e muito mais, embora pudessem ter ido mais longe e defender aquilo a que chamo a indiferença teológica como procedimento da ciência. Depois da filosofia e de outras ciências - incluindo a sociobiologia - terem elaborado uma teoria da religião, perspectivada no contexto da estrutura global da sociedade e da sua história, não há mais nada a dizer sobre Deus. Deus evaporou-se no seu próprio nada: a filosofia e a ciência não precisam dele para explicar a ordem do mundo. A presença religiosa distorceu sistematicamente o debate e a "filósofa" nem sequer foi capaz de colocar as perguntas correctas: a descoberta do bosão de Higgs, o qual dá massa às partículas, valida os modelos teóricos existentes das partículas, em especial o modelo-padrão que previu em 1964 a sua existência. A questão que este debate deixou em suspenso é a de saber se esta descoberta poderá vir a desencadear uma mudança de paradigmas. Desconhecemos 96% da matéria que constitui o universo: a matéria escura e a energia escura. O bosão-campo de Higgs poderá abrir uma janela para desvendar esse universo escuro

Anexo: Alguns amigos têm criticado a escassez de informação sobre a partícula de Higgs. É verdade que não tem sido dada a informação suficiente sobre essa partícula, mas não me cabe a mim realizar o seu historial, pelo menos neste comentário. Apesar do seu formalismo matemático, a mecânica quântica é, com algum esforço, acessível. Há obras de divulgação científica que clarificam, em termos simples, a sua estrutura teórica. Steven Weinberg dedicou algumas páginas da sua obra a "descrever" a partícula de Higgs. A minha preocupação - aqui e nos textos anteriores - é outra... e confesso que não tenho paciência para as ordinarices portuguesas. Estou cada vez mais convencido de que os portugueses são efectivamente burros malvados: a nova ideologia nacional dos diplomados e dos génios que não se revelam é uma praga que conduz o país ao colapso total. A teoria do nada ideológico que esbocei aqui não foi compreendida por alguns destes "génios" com cérebro do tamanho de uma pevide. Mas ela não foi elaborada para ser compreendida por cérebros deprimidos: o meu público-alvo é outro. O reconhecimento ocorre entre pares e não entre pessoas afastadas umas das outras pelo abismo intransponível. Há apenas uma ideia que, embora implícita, requer um esclarecimento: os nadas ideológicos produzem efeitos reais - isto é, materiais - nas práticas sociais e nas instituições em que se inscrevem. Afinal, o que adianta dialogar com um burreco que, mesmo na presença da filosofia, não a reconhece? Um burreco deste calibre devia ter vergonha na cara e lançar-se ao rio Tejo! Imagine-se este cenário catastrófico: um estranho vírus elimina toda a humanidade, poupando apenas a vida de um desses génios ocultos portugueses. Um génio cósmico isola-o da civilização material, algures numa nave espacial, e atribui-lhe a missão de refazer a cultura científica e filosófica da humanidade, a partir daquilo que assimilou enquanto teve acesso aos seus arquivos. Conseguem imaginar as patetices que esse génio ultra-diplomado na escola portuguesa da mentira iria dizer e escrever? Furioso com a estupidez brutal do português, o génio cósmico condenou-o ao suplício eterno.

J Francisco Saraiva de Sousa

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Projecto Filosofia Ecológica

Porto: Jardins do Palácio de Cristal
«O mesmo conhecimento que levou o dilema ao seu clímax, contém a solução.» (Edward O. Wilson)

Em Portugal, as pessoas que me conhecem dizem que «o Saraiva tem um temperamento difícil», o que quer dizer que eu sou muito exigente, sobretudo em matérias científicas e filosóficas. É provável que este dito seja uma espécie de censura, mas eu tomo-o como um elogio: ser exigente neste país parado no tempo é ser contra o sistema que bloqueia o seu futuro. Não há grandes dissonâncias entre o que penso e o que faço: critico o carácter nacional tanto na teoria como na prática: não suporto o jogo de fingir ser aquilo que não se é. A minha actividade teórica e prática confronta as pessoas com a sua própria mediocridade. E elas detestam ser testadas porque sabem que são fraudes diplomadas: os diplomas pouco valem quando os seus portadores não estão à sua altura. Um cientista ou um filósofo não precisam de diplomas fraudulentos para vencer na luta pelo reconhecimento: o que conta é o seu desempenho na resolução de problemas. Tinha prometido escrever um texto sobre a imagem do homem na ecologia. Porém, quando me preparava mentalmente para cumprir essa promessa, descobri que tinha ao meu dispor diversas vias de abordagem do tema. A ecologia é uma ciência extremamente complexa e os seus dispositivos teóricos não são conhecidos pelas pessoas banais que a identificam com o ecologismo e as campanhas verdes. Convém distinguir entre ecologia e ecologismo. A palavra "ecologia" foi, pela primeira vez, utilizada por E. Haeckel em 1866 para designar «a ciência que estuda as relações entre o ser vivo e o meio em que ele se encontra». De certo modo, esta definição continua a ter valor, embora os ecólogos possam diferir quanto à delimitação do campo da ecologia: Paul R. Ehrlich apresenta uma definição de ecologia muito mais ampla fazendo dela a combinação das disciplinas da chamada biologia populacional. A ecologia aparece assim como uma ciência de síntese que pode ser definida nestes termos: o estudo das condições de existência dos seres vivos e das interacções, de qualquer natureza, existentes entre esses seres vivos e o seu meio. Ou, numa única expressão: o estudo da economia da natureza (Ricklefs, 1993). O facto da maior parte dos ecólogos serem ecologistas contribui para a confusão entre a ciência da ecologia e o ecologismo. As crises do mundo contemporâneo têm causas ecológicas e, por isso, ajudam a fomentar uma consciência ecológica que está, de algum modo, na base do aparecimento da biologia da conservação. Os movimentos ecologistas que surgem por todo o mundo representam a "ecologia-forma de pensamento" e não a "ecologia = ciência do meio": o seu objectivo primordial é agir de modo a assegurar a conservação do meio e a sobrevivência da civilização. O ecologismo é, portanto, uma nova política. Nestas matérias ecológicas aconselho o estudo das obras dos ecólogos anglo-saxónicos, tais como H. G. Andrewartha & L. C. Birch (1954, 1984), J. H. Brown & A. C. Gibson (1983), C. Elton (1927), J. L. Harper (1977), G. E. Hutchinson (1978), C. J. Krebs (1978), J. R. Krebs & N. D. Davies (1978), R. H. MacArthur (1972), E. P. Odum (1971), R. E. Rickfels (1979), J. Roughgarden (1979), M. E. Soulé & B. A. Wilcox (1980), R. H. Whittaker (1975), e Paul R. Ehrlich (1986). Os autores franceses (Roger Dajoz, por exemplo) tendem a acompanhar Schröter (1896, 1902) quando dividem a ecologia em Auto-Ecologia e Sinecologia: a primeira estuda a influência dos factores externos sobre o animal ou o vegetal, enquanto a segunda estuda as comunidades naturais, de que fazem parte animais e vegetais. A Sinecologia subdivide-se, por sua vez, em dois ramos: a Demecologia que estuda o crescimento, as variações de densidade e o declínio das populações animais ou vegetais; e a Biocenótica que estuda as biocenoses, isto é, as comunidades de seres vivos que habitam uma porção da paisagem, estando adaptados às condições médias deste meio natural. Esta divisão da ecologia é artificial: a utilização dos modelos dos níveis hierárquicos de organização ecológica dispensa esta divisão. A pátria da ciência é a língua inglesa: é uma estupidez publicar traduções de obras francesas em detrimento das obras "inglesas", porque todo o conhecimento verdadeiramente produtivo está nas segundas e não nas primeiras. Ecologia e evolução formam uma aliança que possibilita o estudo aprofundado da ecologia fisiológica, da ecologia populacional, da ecologia do comportamento, da ecologia das interacções (predação, mutualismo e competição), da biogeografia, da ecologia das comunidades e da ecologia dos ecossistemas

No mundo anglo-saxónico, as universidades oferecem cursos de Filosofia Ambiental (Environmental Philosophy). Dale Jamieson (2001, 2003) coordenou o seu manual de texto mais conhecido: A Campanion to Environmental Philosophy. Como é evidente, não concordo com muitos dos contributos particulares desta obra colectiva, mas o que me levou a escrever este texto foi a necessidade de impugnar a designação dada à nova disciplina filosófica. Prefiro claramente a expressão Filosofia Ecológica ou Eco-filosofia para designar este novo campo da investigação filosófica. A ecologia substituiu o termo "natureza" por um novo conceito: a biosfera. A biosfera é a parte do globo terrestre em que vivem os animais e os vegetais. Compreende a atmosfera até uma altitude de cerca de 15 000 m, o solo (litosfera) até algumas dezenas de metros de profundidade, as águas doces e as camadas superficiais (menos de 1000 m) das águas marinhas (hidrosfera). A substituição da natureza pela biosfera implica, pelo menos no plano filosófico, uma distinção entre filosofia da natureza e filosofia ecológica. Na Enciclopédia das Ciências Filosóficas de Hegel, a filosofia da natureza compreende a mecânica, a física e a física orgânica (geologia, botânica e zoologia). Poderíamos recorrer também à filosofia da natureza dos românticos para mostrar que o âmbito objectual da filosofia da natureza é mais vasto do que o da filosofia ecológica. A filosofia da natureza integra a filosofia ambiental ou ecológica, cujo objecto de estudo é apenas a biosfera. Infelizmente, a filosofia contemporânea tende a estar mais próxima das "letras" do que das "ciências", correndo o risco de se converter num género literário. Chegou a hora de expulsar esses literatos do campo da filosofia e de reactivar a Grande Tradição: o vínculo primordial entre filosofia e ciência. Não consigo conceber um filósofo destituído de conhecimentos científicos. Em Portugal, aqueles que dizem ser "filósofos profissionais" (sic) são idiotas culturais que nem sequer conhecem a história da filosofia nas suas ligações orgânicas com a ciência e a política. Quando pretendem passar da ecologia-ciência para a ecologia-política, os ecólogos precisam da mediação filosófica que não se esgota na mediação ética: Sem filosofia não há verdadeiramente política ecológica, porque é a filosofia que representa a política na esfera da ciência. Ora, uma tal mediação filosófica é extremamente elaborada: ela implica desde logo uma ruptura entre o saber ecológico e a ciência da ecologia. O saber ecológico de um pescador ou de um índio da Amazónia, por exemplo, constitui o objecto de estudo da etno-ecologia. A ecologia humana ocupa-se do saber ecológico das comunidades humanas, mas este conhecimento em primeira-mão não é suficiente para elaborar uma teoria da ecologia. Este aspecto não tem sido compreendido pelos ecologistas que defendem o regresso às origens, isto é, às comunidades primitivas. O primitivismo de certas políticas ecológicas deve ser desmistificado pela filosofia: a luta contra o progresso não implica necessariamente um retrocesso civilizacional. É perfeitamente ridículo opor outras tradições culturais - indígenas, chinesa, indiana, budista, islâmica, etc. - à civilização ocidental, como se as primeiras tivessem o monopólio das "boas" práticas ecológicas. A civilização ocidental é a única civilização capaz de salvar a natureza. Assim, por exemplo, os eco-feminismos - estas aberrações do espírito humano! - esquecem que nunca poderiam ter germinado fora da tradição ocidental: a imagem da mulher ocidental no mundo extra-ocidental não é nada favorável às feministas. O feminismo é uma ideologia nefasta que deve ser desconstruída, até porque está a degradar os pilares fundamentais da civilização ocidental. A ética ambiental proposta pelo eco-feminismo é uma espécie de ética de cabaret. Têm sido propostas diversas éticas ambientais - meta-ética, ética normativa, sencientismo, ética da terra, ecologia profunda e eco-feminismo, das quais a mais infrutífera é, sem dúvida, a perspectiva eco-feminista, que, além de prostituir a filosofia, mistifica o ambiente, desviando a atenção dos verdadeiros problemas ecológicos. Não sou completamente avesso à tentativa de elaborar uma ética ambiental, embora saiba que ela não resolve os problemas ecológicos. O Projecto Filosofia ecológica propõe-se abrir caminho para o nascimento de uma visão teórica integrada da ecologia, capaz de orientar as práticas políticas adequadas, em defesa do controle da população, da biodiversidade e da conservação biológica.

J Francisco Saraiva de Sousa

sábado, 5 de maio de 2012

Questões Mortais

Porto: Casa da Música
Lendo e relendo algumas obras de Bertrand Russell, fui reconduzido aos velhos problemas da Filosofia. Algumas soluções são tomadas como evidentes quando, na verdade, elas não chegam a ser verdadeiras soluções. Para já constato que a análise lógica dos problemas filosóficos cria mais dificuldades à sua resolução do que favorece a sua clarificação: a obra de Russell vacila constantemente e muda frequentemente de posição, como o demonstra a sua posição vacilante em relação aos universais. Russell não conseguiu produzir uma filosofia coerente tal como a que foi produzida por Whitehead. Não vejo nisso um fracasso: as suas vacilações são sintomáticas e, nalguns dos seus conceitos, descobre-se um outro horizonte que não chega a tematizar. É precisamente naquilo que Russell mostra sem tematizar que reside o início da solução para os problemas que coloca. E isto que não foi tematizado pela filosofia analítica revela-se no falhanço total da obra de Thomas Nagel. Porém, mesmo com o conhecimento desse horizonte eclipsado pela filosofia analítica, devo reconhecer que a Filosofia realizou uma abordagem errada da mente. (As neurociências herdaram esses erros!) O confronto das diversas filosofias mostra os erros cometidos pela Filosofia ao longo da sua história. Em vez de capitular diante do império ideológico da ciência empírica, a Filosofia deve retomar a crítica da ciência. Esta crítica não deve tomar a forma de crítica do positivismo, porque, como crítica do positivismo, não deixa de ser crítica filosófica de uma filosofia: os alvos da crítica devem ser os empreendimentos teóricos - as teorias, os paradigmas, os métodos, etc. - das próprias ciências. A filosofia matemática de Russell fornece instrumentos preciosos à crítica da ciência, conforme demonstrei em dois seminários, um dedicado às relações entre matemática e estatística e outro ao teorema de Bayes. Nunca ninguém escreveu uma obra sobre a filosofia contemporânea à luz da sua crítica da ciência, talvez com excepção da Dialéctica do Esclarecimento de Horkheimer e Adorno: John Dewey retomou o pragmatismo de William James, invertendo a sua doutrina que surgiu inicialmente como um protesto contra a sobrevalorização da técnica e das ciências da natureza. De protesto a doutrina de James passou a ser usada como apologia da concepção científico-materialista do mundo. O meu conceito de filosofia é demasiado "imperial" para fazer dela uma auxiliar da ciência: a crítica da ciência deve ser levada a cabo não tanto para ajudar a ciência a superar as suas dificuldades, mas sobretudo para nos ajudar a revelar o mundo. Estou convencido que, depois disso, já não poderemos ser materialistas ou realistas ingénuos: a memória está aí para mostrar o fracasso do programa reducionista e materialista.  Mas, para alcançar uma nova visão do mundo, pelo menos uma visão mais lúcida do mundo, é necessário levar a cabo a crítica radical da ciência, até porque o idealismo não é uma filosofia absurda. O caminho será solitário porque, como tenho demostrado diversas vezes, vivemos num mundo despovoado de seres inteligentes e cultos: a mediocridade generalizada tomou conta de todas as esferas da sociedade e da cultura. A Filosofia confronta-se com a escassez não só de filósofos dignos deste nome como também de leitores inteligentes. A barbárie ameaça a cultura, confinando-a ao espaço das bibliotecas e fazendo dela cultura morta: o mundo pode terminar a qualquer momento sem que se tenha invertido a direcção da barbárie em marcha. O animal-homem - o animal humano metabolicamente reduzido - tornou-se um problema histórico e político. 

J Francisco Saraiva de Sousa

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

George Steiner e o Colapso Civilizacional

George Steiner
«Sabemos hoje, enquanto Adam Smith e Macaulay o não sabiam, que o progresso material participa numa dialéctica de destruição concomitante e que devasta irreparavelmente os equilíbrios entre a sociedade e a natureza. Os progressos técnicos, soberbos em si próprios, têm contribuído activamente para a ruína dos sistemas vivos elementares e das condições ecológicas do mundo. O nosso sentido do movimento da história já não é linear, mas o de uma espiral. Somos hoje capazes de conceber uma utopia tecnocrática e higiénica funcionando num vazio de possibilidades futuras.» (George Steiner)

Já dediquei três seminários a Steiner, um centrado sobre as presenças reais, outro sobre a crise da palavra e ainda outro sobre filosofia da linguagem e comunicação. O seu interesse cabalístico pela linguagem fascina-me, mas o que me preocupa neste momento é a sua filosofia da cultura lida como filosofia da história. A primeira obra de Steiner que li atentamente foi No Castelo do Barba Azul: Algumas notas para a redefinição da cultura. Embora me tenha cativado, a obra não me trouxe mais-valia cognitiva: reencontrei nela os temas abordados pelos meus mestres da Escola de Frankfurt, sobrecarregados pelas cores cinzentas da experiência do holocausto. A encenação da história da civilização ocidental como uma criação de judeus cansou-me e continua a cansar-me. Steiner justifica-se citando Kafka: «Man schlägt den Juden und erschlägt den Menschen», ou, em tradução portuguesa livre, «aquele que fere um judeu mata o homem». Não admira que Steiner, orgulhoso de fazer parte do "povo eleito", o único povo de homens (sic), veja o Holocausto como uma Segunda Queda: o genocídio «não foi um mero fenómeno económico-social e secular. Actualizou um impulso tendendo para o suicídio da civilização ocidental. Foi uma tentativa de nivelar o futuro - ou, mais precisamente, de tornar a história comensurável com a crueldade natural, o torpor intelectual e os apetites materiais de uma humanidade que não se transcende a si própria. Se nos servirmos de uma metáfora teológica, e não temos por que nos desculpar por isso num ensaio sobre a cultura, poderemos dizer que o holocausto assinala uma Segunda Queda. Podemos interpretá-lo como um abandono voluntário do jardim e uma tentativa pragmática de queimar o jardim atrás de nós. Sem o que a sua memória continuaria a infectar a saúde da barbárie com os seus sonhos debilitantes ou os seus remorsos /Com a tentativa falhada de matar Deus e a tentativa quase conseguida de matar aqueles que O tinham "inventado", a civilização entrou, justamente conforme a previsão de Nietzsche, "na noite cada vez mais noite"». Steiner resume aqui o núcleo duro da sua filosofia da história: toda a história do Ocidente anterior ao holocausto é, praticamente, encarada como a sua preparação proto-fascista. A sua consumação no holocausto implica o colapso ou o suicídio da civilização ocidental, como se os alemães e os judeus fossem os únicos "ocidentais". Ora, esta filosofia da história de Steiner é, na sua essência, uma teologia (judaica) da história, que ousa usar o holocausto como o acontecimento que marca o advento da pós-cultura, como se depois de Auschwitz já não fosse possível escrever poesia (Adorno): Steiner apropria-se da civilização ocidental, reduzindo-a a uma antiquíssima conspiração contra os judeus e o "seu" Deus, e fazendo dela - no seu melhor momento - uma construção ou produção de e para judeus. Adorno escreveu que, na psicanálise de Freud, só os exageros são verdadeiros, mas, nesta concepção teológica da história que concentra toda a humanidade possível nos judeus, os exageros de Steiner são falsos. Todo o pensamento de Steiner é envenenado por um judaísmo racista que, para se apropriar da herança ocidental, responsabiliza os filósofos não-judeus e os cristãos pelo holocausto. (Apesar da sua erudição, Steiner esquece que o Inferno não é uma ideia cristã!) O judaísmo doentio de Steiner - bem como a sua insensibilidade pelo sofrimento das vítimas não-judias do nazismo! - faz o meu sistema imunitário produzir anti-corpos a um ritmo acelerado, para eliminar todas as "vacas sagradas" deste mundo. A minha primeira impressão continua a ser a minha impressão de hoje: o pensamento de Steiner é pensamento envenenado, no sentido que Nietzsche deu a este termo. Enquanto não depurarmos o seu pensamento, libertando-o das molduras judaicas que anseiam pela quimera de uma unidade perdida, com a ajuda de outros judeus esclarecidos, o melhor será esquecê-lo, até porque tudo aquilo que de importante disse já tinha sido formulado pelos grandes filósofos dos séculos XIX e XX, uns judeus, outros não-judeus. O que nos une, a nós que somos ocidentais de gema, não é o judaísmo, mas a filosofia e a política que emergiram nas Cidades-Estados da Grécia Antiga. Depois de nos termos libertado do jugo da religião, já adquirimos uma imunidade suficientemente poderosa para liquidar qualquer tentativa regressiva de colonização judaica. Estamos cansados do muro das lamentações dos judeus, do seu bezerro de ouro e da sua usura (Marx)! Há mundo para além dos judeus e, para haver mundo, os judeus não são necessários: a Steiner falta-lhe humildade e, por consequência, humanidade. Ninguém é mais humano do que outro homem. Ninguém conquista mais humanidade negando-a ao outro homem. Não é com a sua concepção do judeu sobre-humanizado - ou divinizado? - que Steiner cativa um público não-judeu de homens inteligentes e humanos, libertos das teias de aranha religiosas.

J Francisco Saraiva de Sousa

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Walter Benjamin: Do crítico literário ao filósofo

Walter Benjamin
«Pobreza de experiência: a expressão não significa que as pessoas sintam a nostalgia de uma nova experiência. Não, o que elas anseiam é libertar-se das experiências, anseiam por um mundo em que possam afirmar de forma tão pura e clara a sua pobreza, a exterior e também a interior, que daí nasça alguma coisa que se veja. E também não são sempre ignorantes ou inexperientes. Muitas vezes é o contrário que se verifica: tiveram de "engolir" tudo isso, a "cultura" e "o Homem", e ficaram saturadas e cansadas. Ninguém se sentirá mais atingido pelas palavras de Scheerbart: "Vocês estão todos cansados - e afinal porquê? Porque não foram capazes de concentrar todas as vossas ideias num plano muito simples e muito grandioso". Ao cansaço segue-se o sono, e por isso não é raro vermos como o sonho compensa da tristeza e do desânimo dos dias, para demonstrar essa existência muito simples e muito grandiosa para a qual no estado de vigília nos faltaram as forças. Uma existência de Rato Mickey é um desses sonhos do homem de hoje. Uma existência cheia de milagres, que não se limitam a superar os prodígios da técnica, mas ainda se riem deles. Porque o que de mais estranho há nisso é o eles se produzirem todos sem maquinaria, improvisados, saindo do corpo do Rato Mickey, dos seus companheiros e dos seus perseguidores, das mais banais peças do mobiliário como das árvores, das nuvens ou dos lagos. A natureza e a técnica, o primitivismo e o conforto, fundiram-se aqui completamente. E diante dos olhos das pessoas cansadas das infinitas complicações da vida quotidiana, e para as quais a finalidade da vida se descortina apenas como ponto de fuga longínquo numa infindável perspectiva de meios, apresenta-se como redentora uma existência a cada momento auto-suficiente da forma mais simples e mais confortável, um modo de vida em que um automóvel não pesa mais que um chapéu de palha e o fruto na árvore arredonda tão depressa como um balão insuflável. E agora é altura de recuar um passo e fazer o balanço.

«Ficámos pobres. Fomos desbaratando o património da humanidade, muitas vezes tivemos de o empenhar por um centésimo do seu valor, para receber em troca a insignificante moeda do "actual". À porta temos a crise económica, atrás dela uma sombra, a próxima guerra. "Preservar" é um verbo que se aplica hoje a um pequeno grupo de poderosos que, Deus sabe, não são mais humanos do que a maioria; geralmente, são mais bárbaros, mas não da espécie boa. Os outros, porém, têm de se arranjar, de maneira diferente e com muito pouco. Estão do lado daqueles que desde sempre fizeram do radicalmente novo a sua causa, com lucidez e capacidade de renúncia. Nas suas construções, nos seus quadros, nas suas narrativas, a humanidade prepara-se para, se necessário for, sobreviver à cultura. E o que é mais importante: faz isso a rir. Talvez esse riso soe aqui e ali a bárbaro. Seja. Desde que cada indivíduo de vez em quando ceda um pouco de humanidade àquelas massas que um dia lha devolverão com juros acrescidos.» (Walter Benjamin)

Theodor W. Adorno iludiu-nos a todos quando defendeu a tese de que Benjamin «escolheu permanecer completamente fora da tradição manifesta da filosofia». Uma distância quase infinita separa o pensamento filosófico de Benjamin da forma institucionalizada ou académica de fazer filosofia, é certo!, mas isto não significa que ele tenha abdicado da Filosofia: a expressão filosofia antifilosófica que constitui a corrente central da filosofia pós-hegeliana - tal como tem sido compreendida desde Martin Heidegger e Ludwig Wittgenstein! - não só é um oxímoro, como também não faz justiça aos grandes pensamentos filosóficos pós-hegelianos, a começar pelo pensamento de Karl Marx. A filosofia de Benjamin procura escapar aos parâmetros da filosofia institucionalizada, instalando-se não nas suas margens, como se pensa muitas vezes, mas num novo espaço em que a reflexão histórica e filosófica se associa à crítica do momento presente. A crítica de Benjamin é filosófica de lés a lés: o seu objectivo é fazer com que a filosofia abranja a totalidade da experiência, de modo a exprimir a experiência filosófica, a experiência da verdade. Ao tentar abarcar a totalidade da experiência à luz da experiência da verdade, Benjamin afasta-se da filosofia académica, e desde logo do neokantismo que dominava o meio académico alemão. O neokantismo tinha deixado de reivindicar a totalidade da tradição filosófica, refugiando-se numa teoria do conhecimento. Descontente com esta falta de ambição do neokantismo, se exceptuarmos a filosofia das formas simbólicas de Ernst Cassirer, Benjamin reivindica a totalidade da tradição filosófica, começando a fazer filosofia a partir dos objectos da experiência cultural. A Origem do Drama Trágico Alemão é o berço da filosofia de Benjamin: «O objecto da crítica filosófica é o de demonstrar que a função da forma artística é a de transformar em conteúdos de verdade filosóficos os conceitos materiais históricos presentes em toda a obra (de arte) significativa. Esta transformação do conteúdo material em conteúdo de verdade faz do declínio da força de atracção original da obra, que enfraquece década após década, a base do renascimento no qual toda a beleza desaparece e a obra se afirma como ruína». E, logo no Prólogo Epistemológico-Crítico, Benjamin formula a sua teoria da rememoração: «Como a filosofia não pode pretender falar em tom de revelação, isso só pode acontecer por meio de uma rememoração que recupere antes de mais a percepção primordial. A anamnese platónica não andará longe desta forma de rememoração. A diferença é que aqui não se trata de uma presentificação de imagens por via intuitiva; pelo contrário, na contemplação filosófica a ideia enquanto palavra solta-se do recesso mais íntimo da realidade, e essa palavra reclama de novo os seus direitos de nomeação. Mas na origem desta atitude não está, em última análise, Platão, mas Adão, o pai dos homens no papel de pai da filosofia. O acto adâmico da nomeação está tão longe de ser jogo e arbitrariedade que nele se confirma o estado paradisíaco por excelência, aquele que ainda não tinha de lutar com o significado comunicativo das palavras». O interesse de Benjamin pela literatura constitui desde o início um meio para elucidar as suas inquietações filosóficas, jurando fidelidade à tradição da filosofia. A filosofia de Benjamin faz parte integrante da tradição filosófica do Ocidente, para a qual deu o seu contributo, transformando-a e levando-a a expandir-se e a aprofundar a sua concepção de si mesma. (A Transformação da Filosofia de Karl-Otto Apel constitui um empreendimento pálido quando confrontado com o de Benjamin!) A leitura da filosofia de Benjamin exige uma reinterpretação de toda a história da filosofia, distinta daquela que foi realizada por Heidegger. O tema das semelhanças e das diferenças entre Heidegger e Benjamin tão do agrado dos filósofos americanos radicais não pode eclipsar a superioridade da filosofia de Benjamin em relação à filosofia de Heidegger: Benjamin é o filósofo seminal do momento presente. Adeus Jürgen Habermas! Adeus Karl-Otto Apel! Adeus Albrecht Wellmer! Hi, Susan Buck-Morss!

A tese que estou a defender é muito simples: Não há um Benjamin crítico literário, um Benjamin modernista, um Benjamin marxista, um Benjamin judeu, um Benjamin cabalista, por detrás dos quais se esconde um Benjamin filósofo; há apenas um único Benjamin, o Benjamin Filósofo que foi judeu e marxista. Graças à difusão de um ensaio de Hannah Arendt sobre a figura-retrato-pensamento de Benjamin, os filósofos americanos radicais foram provavelmente os primeiros a descobrir o carácter radicalmente filosófico do seu pensamento, embora nem sempre o tenham compreendido da melhor forma. Benjamin procurou a forma consumada da totalidade da experiência primeiro nas obras de arte e depois na história como um todo redentor, tomado como a totalidade em relação à qual o vivido (das Erlebnis) pudesse ser experienciado como verdade. Mas convém não distanciar demasiado estes dois períodos: ambos os períodos estão ligados entre si pela ideia fulcral de destruição (Destruktion) como condição de possibilidade da experiência (Erfahrung) no sentido filosófico de uma experiência da verdade. No pensamento de Benjamin, destruição significa a destruição de uma forma falsa de experiência como condição produtiva para a construção de uma nova relação do homem com o objecto. Assim, por exemplo, na Origem do Drama Trágico Alemão, a primeira grande obra de Benjamin, a alegoria destrói a totalidade ilusória do símbolo, arrancando-o do contexto e inserindo-o em novas constelações de significado construídas de modo transparente, e, na própria obra de Benjamin, a montagem destrói a continuidade da narrativa como condição para uma nova construção da história, na qual o tempo de agora (Jetztzeit) destrói a experiência da história como progresso, a continuidade da marcha triunfal dos vencedores, substituindo-a pelo par apocalíptico da catástrofe e da redenção. No ensaio Eduard Fuchs, coleccionador e historiador, Benjamin aborda o problema da história da cultura nestes termos: «Para o materialista histórico, a distância a partir da qual a história da cultura apresenta os seus conteúdos é ilusória e fundada numa falsa consciência. Por isso (Fuchs) a olha com reservas. Essas reservas seriam legitimadas por um simples olhar para o passado: o que ele aí descobre de arte e ciência tem uma proveniência que não pode deixar de o horrorizar. Tudo isso deve a sua existência não apenas ao esforço dos génios seus criadores, mas também, em maior ou menor grau, à escravidão anónima dos seus contemporâneos. Não há documento de cultura que não seja também documento de barbárie. Nenhuma história da cultura fez ainda justiça ao que de essencial há neste facto, e dificilmente pode esperar fazê-lo». E, mais adiante, clarifica: «Em resumo: a história da cultura apenas aparentemente representa um avanço do ponto de vista, e nem aparentemente um avanço da dialéctica. Porque lhe falta o momento destrutivo que assegura o pensamento dialéctico e a autenticidade da experiência do historiador dialéctico. Aumenta com certeza o peso dos tesouros que se acumulam sobre os ombros da humanidade. Mas não lhe dá forças para os sacudir, e assim ficar com eles na mão». Esta ideia de que o momento destrutivo assegura o pensamento dialéctico é claramente explicitada no fragmento O Carácter Destrutivo das Imagens de Pensamento: «O carácter destrutivo só conhece um lema: criar espaço; apenas uma actividade: esvaziar. A sua necessidade de ar puro e espaço livre é maior do que qualquer ódio. (...) O carácter destrutivo tem a consciência do homem histórico, cuja afecção fundamental é a de uma desconfiança insuperável na marcha das coisas, e a disposição para, a cada momento, tomar consciência de que as coisas podem correr mal. Por isso, o carácter destrutivo é a imagem viva da fiabilidade». Benjamin faz da temporalidade do presente o momento da destruição: o seu interesse pelo presente como palco da experiência histórica leva-o a articular a sua teoria da experiência com a sua filosofia da história. Desta articulação resulta a originalidade filosófica de Benjamin: uma filosofia do tempo histórico que enfrenta o carácter do presente, num movimento de ruptura com qualquer tipo de historicismo que faça do presente um desdobramento do progresso. Ora, nesta nova filosofia da história, o passado depende da acção do presente, como demonstra a Tese V sobre a Filosofia da História: «A verdadeira imagem do passado  passa por nós de forma fugidia. O passado só pode ser apreendido como imagem irrecuperável e subitamente iluminada no momento do seu reconhecimento. "A verdade não nos foge": esta fórmula de Gottfried Keller assinala, na concepção própria do historicismo, precisamente o ponto em que essa concepção é destruída pelo materialismo histórico. Porque é irrecuperável toda a imagem do passado que ameaça desaparecer com todo o presente que não se reconheceu como presente intencionado nela». Dissociado da cronologia, o presente não pode ser definido como um mero ponto no tempo, porque, não sendo o nunc stans, ele resulta de um acto complexo de temporalização, sempre susceptível de ser contestada, como evidencia a Tese VI: «Articular historicamente o passado não significa reconhecê-lo "tal como foi". Significa apoderarmo-nos de uma recordação (Erinnerung) quando ela surge como um clarão num momento de perigo. Ao materialismo histórico interessa-lhe fixar uma imagem do passado tal como ela surge, inesperadamente, ao sujeito histórico no momento de perigo. O perigo ameaça tanto o corpo da tradição como aqueles que a recebem. Para ambos, esse perigo é um e apenas um: o de nos transformarmos em instrumentos das classes dominantes. Cada época deve tentar sempre arrancar a tradição da esfera do conformismo que se prepara para a dominar. Pois o Messias não vem apenas como redentor, mas como aquele que superará o Anticristo. Só terá o dom de atiçar no passado a centelha da esperança aquele historiador que tiver apreendido isto: nem os mortos estarão seguros se o inimigo vencer. E este inimigo nunca deixou de vencer». A tradição e o presente só podem ser constituídos quando se tenta arrancar a tradição da esfera do conformismo, de modo a construir o presente na destruição e reconstituição da tradição. Deste modo, através da execução da tarefa de repensar a temporalidade histórica à luz desta concepção do presente, definimos e captamos filosoficamente o presente, estabelecendo um vínculo estreito entre ele e a acção (praxis política): Quebrar o contínuo da história dos vencedores, derrotar os vencedores.

J Francisco Saraiva de Sousa

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

USS Enterprise & Navio Escola Sagres

USS Enterprise (CVN-65), Marinha dos USA

NRP Tridente, Submarino da Marinha Portuguesa

NRP Sagres, Navio Escola da Marinha Portuguesa
Adoro navios de guerra e, sobretudo, porta-aviões. Infelizmente, não temos um porta-aviões!

sábado, 17 de setembro de 2011

Armada Portuguesa de 1507

Armada Portuguesa, 1507

Caravela Vera Cruz (ANL)
«Durante todo o século XVI, as esquadras portuguesas detêm incontestável hegemonia no oceano Índico, e até 1570 nos mares malaios; o Atlântico entre a África e o Brasil está sob a sua dominação. Durante um século, o comércio português usufrui o monopólio da rota do Cabo e dos tratos cristãos de Moçambique e Malaca; só a partir de 1565, com o estabelecimento da rota de Acapulco a Manila, terá de enfrentar uma concorrência cristã nos portos da China e do Japão, de que até aí açambarcava os riquíssimos resgates. O tráfico negreiro e o comércio marítimo do ouro, da malagueta, do marfim sudaneses pertenceram, quase sem contestação, às caravelas portuguesas de 1440 a 1510-1515, e a primeira metade do século XVI não abre brechas demasiado graves neste monopólio; durante o terceiro quartel de Quinhentos, os Portugueses conservarão ainda o melhor quinhão. /Algumas dezenas de mercadores portugueses estão estabelecidos em Antuérpia, há um bairro português em Sevilha, um terço de Buenos Ayres é portuguesa, a Inquisição persegue-os em Lima e no México. Feitorias portuguesas funcionaram regularmente na Flandres e em Londres, na Andaluzia, em Florença, Nápoles, Veneza, até em Chios, bem como em Oram, em Fez e várias cidades marroquinas, em Arguim e no próprio Sáara - Uadam -, nos rios de Guiné e na Serra Leoa, nas costas da Malagueta e da Mina e em Benim, no Congo, em Angola, no Brasil e no rio da Prata, salpicaram a costa oriental de África, a costa da Arábia, o golfo Pérsico, as duas fachadas da Índia, as ilhas Malvinas, Samatra - para quê continuar? /Assim se edificou um império à escala do globo, oceânico, o mesmo é dizer, comercial, sem dúvida, mas também fundiário e agrícola. Assim surgiram as cristandades exóticas. Assim se desenrolou a espantosa diáspora dos Portugueses trasvasando por todos os mares, ilhas e terras firmes. Rumo de Portugal e dos Portugueses, rumos do mundo: inextricavelmente interferentes, confundidos.» (Vitorino Magalhães Godinho, Os Descobrimentos e a Economia Mundial, 1º. vol.)

J Francisco Saraiva de Sousa

sexta-feira, 24 de junho de 2011

A Fenomenologia revisitada

«Eu não sou o resultado ou a encruzilhada de múltiplas causalidades que determinam o meu corpo ou o meu "psiquismo", eu não posso pensar-me como uma parte do mundo, como o simples objecto da biologia, da psicologia e da sociologia, nem fechar sobre mim o universo da ciência. Tudo aquilo que sei do mundo, mesmo por ciência, eu sei-o a partir de uma visão minha ou de uma experiência do mundo sem a qual os símbolos da ciência não poderiam dizer nada. Todo o universo da ciência é construído sobre o mundo vivido, e, se quisermos pensar a própria ciência com rigor, apreciar exactamente o seu sentido e o seu alcance, precisamos primeiramente despertar essa experiência do mundo da qual ela é a expressão segunda. /O mundo não é aquilo que eu penso, mas aquilo que eu vivo; eu estou aberto ao mundo, comunico-me indubitavelmente com ele, mas não o possuo, ele é inesgotável. "Há um mundo", ou antes, "há o mundo". /Porque estamos no mundo, estamos condenados ao sentido, e não podemos fazer nada nem dizer nada que não adquira um nome na história.» (Maurice Merleau-Ponty)

Com esta fotografia do Jardim do Palácio de Cristal do Porto (OPorto), proponho a revisitação de alguns textos dedicados à fenomenologia, com o objectivo de preparar o terreno para novos voos teóricos e políticos. Nesta Introdução, vou definir a Fenomenologia de Husserl como o projecto filosófico de pensar a crise europeia - um tema actual - ou de descobrir as suas raízes profundas e de formular as condições que deve cumprir qualquer uma das soluções propostas desta crise para que possa ser verdadeira solução. A problemática da crise europeia aparece claramente formulada na última obra de Husserl, mas ela não é estranha às suas obras fundamentais, até porque a fenomenologia se iniciou com a tentativa de pensar e de superar a crise das ciências formais. A raiz da crise das ciências europeias reside na redução de tudo a factos. Ora, uma ciência de factos produz uma humanidade de factos, ou seja, como esclarece Husserl, uma humanidade que depende de tal modo de outros factos que deixou de ser dona do seu destino. A originalidade da abordagem de Husserl consiste em ter ligado a crise de fundamentação das ciências formais com a crise das ciências europeias em geral e esta última com a crise mais profunda da humanidade. Tomarei como fio condutor desta breve análise da intenção fenomenológica a crise da física. Segundo Husserl, a crise da física e das ciências europeias em geral não é uma crise de cientificidade ou de metodologia, mas sim uma crise de significado. Quando olhou para a natureza a partir da geometria, Galileu eliminou da ciência física todo o significado humano para reter unicamente um mundo material submetido a uma metodologia matemática. A física matemática constituiu-se quando se conseguiu abstrair ou eliminar o mundo humano, imbuído de significados e de valores, da estrutura do mundo que tematiza em linguagem matemática: o mundo da física é, portanto, um mundo desumanizado, submetido a um tratamento de violência matemática, que lhe permite inferir consequências prevendo acontecimentos futuros. Ora, o êxito teórico e técnico da física converteu-a em ciência-modelo para todas as outras ciências que estudam o mundo. A atenção de Husserl dirige-se para as consequências de aplicar o método da física nas restantes áreas do conhecimento humano. A redução do verdadeiro mundo humano a um mundo sem significados e sem valores, a um mundo puramente fáctico, conduz ao dualismo entre uma natureza física causalmente fechada e um espírito alheio à natureza. Porém, como o dualismo não satisfaz o espírito científico, a psicologia apressa-se a naturalizar e a coisificar a consciência e o mundo humano, dissolvendo-se assim na fisiologia do sistema nervoso ou na neurologia. Ao proceder à maneira da física, eliminando o anímico do seu próprio campo de estudo, como se a alma fosse uma tábua-rasa (Locke), a psicologia completa a redução do mundo a factos destituídos de significação humana: o mundo humano é literalmente reduzido pelo psicologismo a factos neurofisiológicos. Para Husserl, a crise de significado da física, a crise de verdade das ciências formais e a crise de objecto que destrói a psicologia são - todas elas - expressão da crise do homem como ser racional. A articulação da crise das ciências europeias com a crise antropológica não é realizada pela mediação da sociologia: a psicologia, a ciência do especificamente humano, reduziu o homem a um feixe de factos naturais, partindo de uma interpretação falsa da prática científica. A redução psicológica converteu fatalmente o mundo desumanizado pela metodologia científica em realidade única. Deste modo, a psicologia que pretende ser a base da verdade das ciências formais reduziu o homem e os produtos da sua praxis vital a meros factos do mundo, destituídos de significados e de valores. Privada do seu destino pela ciência natural e pela técnica, a humanidade olha com temor e angústia para esse mundo desumano que a mergulha cada vez mais na pura facticidade. Afinal, para que serve a ciência? Para dominar-devastar a natureza e lançar-nos - a nós mortais que procuramos um abrigo-seguro, dotado de sentido, para compensar as nossas deficiências morfológicas e funcionais - num mundo que nos é profundamente estranho e hostil? Não admira que Marcuse tenha sido levado a questionar a suposta neutralidade da ciência-tecnologia, propondo a necessidade de inventar uma nova ciência, cuja imaginação possa ser o a priori da reconstrução e do redireccionamento do aparelho de produção para uma existência pacificada e uma vida sem angústia, libertas das imagens da dominação e da morte! A solução fenomenológica de Husserl não é tão radical como a de Marcuse: a solução husserliana leva em conta o sentido da actividade teórica que constitui o núcleo da ciência, ou seja, o sentido de fundar a independência da humanidade que nasceu na Grécia Antiga. Ao contrário da humanidade arcaica que fundava a sua teoria e a sua praxis no saber-fazer dos seus antepassados ou dos seus deuses, a humanidade civilizada funda-as na razão humana, cujo objectivo teórico e prático é a autonomia. A solução da crise das ciências europeias encontra-se na própria humanidade que faz ciência e filosofia para viver a sua autonomia como comunidade transcendental. Lukács tem razão quando critica o idealismo subjacente à fenomenologia de Husserl, mas, quando lhe opõe a teoria do conhecimento-reflexo de Lenine, priva-se do seu núcleo crítico - o núcleo que a sua filosofia de juventude ajudou a elaborar sem a hipoteca do pensamento transcendental.

Apesar da crítica contundente de Theodor W. Adorno e de Georg Lukács, o programa fenomenológico de Husserl exerceu uma poderosa influência teórica sobre a teoria crítica, tal como foi formulada pela Escola de Frankfurt, em especial por Herbert Marcuse que foi inicialmente discípulo de Heidegger. Mas, em vez de voltar a analisar esse jogo complexo de influências recíprocas, prefiro seguir outro caminho que me leva ao encontro de Walter Benjamin. A teoria crítica elaborou-se contra o positivismo, isto é, contra o culto fetichista dos factos que ameaça menosprezar ou mesmo abolir o poder da utopia. A crítica do positivismo aproxima a teoria crítica não só da fenomenologia - tal como a defini anteriormente, mas também das filosofias vitalistas que condenavam a civilização técnica. Benjamin retoma a crítica do positivismo dando-lhe a forma dialéctica de um confronto entre o crescente poder dos factos e o poder das convicções. Na sociedade capitalista, as condições de vida estão de tal modo sob a alçada do crescente poder dos factos que as pessoas abdicam das suas próprias convicções, em nome do fetiche da objectividade. Porém, em vez de instaurar uma verdadeira objectividade, a supressão da subjectividade permite a algumas subjectividades que actuam clandestinamente - os economistas neoliberais e os gestores - adaptar violentamente a realidade a um modelo económico prévio que apresentam numa linguagem matemática para reforçar a sua falsa objectividade. Ora, para evitar a reificação de um modelo económico que condena as pessoas à miséria, é preciso que as forças sociais empenhadas na promoção de mudanças históricas assumam os juízos subjectivos e manifestem as suas opiniões, de modo a discernir a hora e o lugar para desencadear na sociedade as transformações sociais desejadas. A política enquanto espaço de pluralidade não pode sujeitar-se ao poder da economia de mercado e dos discursos pseudo-técnicos dos seus porta-vozes neoliberais. Deste modo, tal como estou a actualizar a perspectiva de Benjamin, a crítica do psicologismo de Husserl converte-se neste nosso tempo indigente - entregue aos caprichos dos mercados financeiros - em crítica do economicismo. O problema fundamental das ciências formais - a matemática e a lógica - diz respeito ao valor de verdade dos juízos que formulam: a "realidade" dos objectos matemáticos e das verdades lógicas deriva da acção humana. Ora, na perspectiva psicologista, se os objectos matemáticos e as verdades lógicas não existem fora das formulações que os expressam, então eles podem ser reduzidos às operações psíquicas ou mentais que os produzem. Com esta redução psicológica, o psicologismo procura fundar a verdade das ciências formais na constituição morfológica e funcional do cérebro humano, como se todos os problemas colocados por estas ciências pudessem ser resolvidos pelo conhecimento neuro-fisiológico do cérebro. Porém, ao ignorar o problema do valor de verdade dos juízos formulados pelas ciências formais, o psicologismo reenvia-nos para o relativismo que já tinha sido o alvo da crítica racional de Platão: «O homem é a medida de todas as coisas», no sentido em que os nossos juízos e as nossas asserções se limitam a ser o reflexo do homem que somos, com as nossas paixões e as nossas motivações psicológicas. Para legitimar a verdade das suas asserções, o psicologismo, que recusa a ideia de verdade e a autonomia da esfera lógico-racional, é obrigado a subtraí-las à redução psicológica que impõe aos juízos feitos pelos outros. Os juízos do psicólogo só podem ter pretensões à verdade quando proclamam a sua autonomia em relação à tentativa de os explicar em termos psicológicos: a verdade da psicologia exclui - paradoxalmente - a existência de uma psicologia da verdade. No nosso mundo global, a redução psicológica assume - como já vimos - a forma de redução económica: o discurso económico neoliberal predominante capturou e colonizou todas as esferas da sociedade e do mundo da vida, negando a sua autonomia em relação aos valores da economia de mercado, ao mesmo tempo que bloqueia todas as tentativas académicas de pensar novas alternativas económicas. A teologia do mercado está a corromper tudo à sua volta, embrutecendo os homens e a sua arte de conversar: o dinheiro-fetiche está no centro das conversas entre cidadãos, obrigando-os a falar dos preços das mercadorias, do desemprego e dos diversos modos de ganhar dinheiro para sobreviver neste mundo inumano. O economicismo empobrece brutalmente a arte de conversar, subjuga a política, devasta a natureza, atrofia a inteligência, enfraquece os instintos vitais e mutila a sensibilidade. Tal como o psicologismo, o economicismo subtrai as suas asserções económicas à redução económica que impõe a todas as esferas da sociedade e do mundo da vida e aos seus discursos, justificando e fundando a autonomia absoluta da economia na objectividade fáctica que se expressa na linguagem dos números-fetiches-manipulados. Mas, como vimos na peugada de Benjamin, o poder objectivo dos factos económicos encobre a subjectividade dos agentes que actuam clandestinamente nos mercados financeiros: o mundo económico que eles apresentam como uma fatalidade incontornável é o produto histórico de uma subjectividade clandestina que usa os cálculos económicos e financeiros para moldar a realidade à imagem de um modelo económico prévio que garante a sua perpetuação e a sua dominação. (Afinal, a redução económica é, na sua essência, redução psicológica!) Para combater a facticidade económica conspirada nos mercados financeiros por agentes clandestinos, as forças sociais e políticas que protagonizam a mudança social qualitativa devem assumir o poder das suas convicções e injectar as suas opiniões no tempo e no lugar adequados. No entanto, não basta injectar opiniões; é preciso que essas opiniões mobilizem energias. Cativo do pensamento transcendental, Husserl elaborou o conceito de comunidade transcendental como sujeito da ciência para «salvar» a humanidade empírica da encruzilhada dos poderes fácticos. Mas a humanidade empírica opõe resistência à tarefa de viver a ideia de uma humanidade livre e emancipada, o sentido da ciência e da filosofia. Num mundo carente de valores comunitários e afastado-alienado do cosmos, a mobilização de energias para a tarefa de libertar o destino dos poderes fácticos torna-se demasiado problemática: afastados uns dos outros e afastados do cosmos, os homens encontram-se enfraquecidos e, apesar de sentirem falta da dimensão comunitária da vida e de ansiarem pela integração no cosmos, não sabem como libertar o seu futuro e como recuperar o que perderam. Benjamin viu na embriaguez a realização da relação desejada com o cosmos, mas foi a experiência do haxixe que o levou a captar o núcleo essencial daquilo a que chamou iluminação profana, em articulação com a visão límpida da aura das coisas: a razão instrumental - tal como o haxixe - habitua-nos a conviver com um amplo universo de fantasmagorias-ilusões-fetiches-alucinações-adições que a ideologia dominante apresenta como representação-imagem-corpo fiel da realidade. Os homens precisam aprender a romper este véu ideológico que encobre a verdadeira natureza das coisas. Neste momento, os jovens árabes e europeus - unidos em contactos corporais - protestam nas ruas e nas praças do velho mundo civilizado. Será que desta vez conseguiremos quebrar o feitiço da história dos vencedores? Será que podemos continuar a confiar no homem e na sua capacidade para assumir o seu próprio destino? Será que a humanidade é digna das tarefas nobres que a Filosofia lhe atribui? Ou será que andamos todos enganados?

Infelizmente, após o declínio do programa positivista, a Filosofia não escapou ao campo gravitacional do poder dos factos. O império hermenêutico (Hans-Georg Gadamer) - bem como a sua contrapartida retórica (Chaïm Perelman) - fecha a filosofia em si mesma e na sua própria história, como se a filosofia nada mais fosse do que um mero género literário (Richard Rorty, Derrida, Paul de Man). Vou socorrer-me de uma afirmação de Stephen W. Hawking para elucidar as linhas gerais desta minha tese filosófica: «Até agora, a maior parte dos cientistas tem estado demasiado ocupada com o desenvolvimento de novas teorias que descrevam o que é o Universo para fazer a pergunta porquê? Por outro lado, as pessoas que deviam perguntar porquê?, os filósofos, não foram capazes de acompanhar o avanço das teorias científicas. No século XVIII, os filósofos consideravam todo o conhecimento humano, incluindo a ciência, como campo seu e discutiam questões como: terá o Universo tido um começo? No entanto, nos séculos XIX e XX, a ciência tornou-se demasiado técnica e matemática para os filósofos ou para qualquer outra pessoa, à excepção de alguns especialistas. Os filósofos reduziram o objectivo das suas pesquisas de tal modo que Wittgenstein, o filósofo mais famoso deste século (sic), afirmou: «A única tarefa que resta à filosofia é a análise da linguagem». Que queda para a grande tradição da filosofia desde Aristóteles a Kant!» Bem, seria demasiado fácil desmentir certas afirmações pontuais de Hawking que revelam a verdadeira dimensão da sua miséria cognitiva, mas, em vez disso, prefiro reter o conceito de queda da grande tradição da Filosofia, operada não só pelo recuo da terapia da linguagem de Wittgenstein, mas também e sobretudo pela universalização da Hermenêutica. Hawking explica esta queda da Filosofia pelo facto dos filósofos se sentirem intimidados com o carácter técnico e matemático da ciência, mas a verdade é que os filósofos tomaram consciência do carácter instrumental da ciência que ajudaram a criar e a crescer: eles afastaram-se da ciência para a poder criticar à distância no âmbito mais geral da crítica do poder e da dominação. A crítica da racionalidade científica e tecnológica é uma das poucas tarefas que todos os filósofos continentais partilham entre si: a epistemologia enquanto teoria do conhecimento científico converteu-se em crítica do poder-fetiche-domínio. A queda da grande tradição da Filosofia não reside numa suposta redução do seu objectivo, como supõe Hawking, porque a crítica radical do poder que caracteriza a filosofia contemporânea permanece fiel ao ideal que move a Filosofia desde Aristóteles a Kant: viver a ideia de uma humanidade livre e emancipada. A queda da Filosofia ocorre quando a crítica do poder abdica da sua dimensão cognitiva e política, e, sem disso se aperceber, aceita a imposição da organização social e técnica da ciência que se descarta da Filosofia "arrumando-a" como "ciência humana": a crítica do poder converte-se assim - pelo menos na filosofia académica - em desconstrução da história da filosofia. O discurso pós-moderno do fim das grandes narrativas, tal como o elaboraram Daniel Bell e Jean-François Lyotard, que se entrega embriagadamente à destruição da grande tradição da Filosofia, capitula perante o triunfo da grande narrativa vencedora, traindo o ideal filosófico da vida justa: o neoliberalismo. A dupla-redução da Filosofia à História da Filosofia e da História da Filosofia a uma mera ciência humana permite definir a queda da grande tradição filosófica e a sua cedência ao feitiço do poder dos factos: o vector desta dupla-redução implica tomar a Filosofia e a sua história como um facto que pode ser explicado em chave filológica (história filológica da filosofia) ou em chave sociológica ou psicológica (história sociológica ou psicológica da filosofia). De um modo geral, como demonstram as análises sociológicas dos sistemas filosóficos de Lucien Goldmann, a história filológica da filosofia tende a prolongar-se numa história sociológica da filosofia. No entanto, cada uma destas chaves de leitura desempenha uma determinada função em relação à história da filosofia: a história filológica procura apropriar-se de um sentido para reconstruir um sentido disperso através dos numerosos textos filosóficos, enquanto a história sociológica tenta ir mais além do sentido para descobrir a realidade social que se expressa em tal sentido de modo disfarçado. A diferença entre as duas «metodologias» reside no facto da sociologia dissolver o sentido que o método filológico procura decifrar e reter como meio interpretativo da filosofia: a sociologia do conhecimento dissolve a filosofia e a sua história, transformando a história da filosofia em história da sociedade. A história sociológica da filosofia trata claramente a filosofia como um facto que deve ser explicado por outros factos, esquecendo a dimensão cognitiva da Filosofia - os seus paradigmas e os seus modelos explicativos. Para evitar os malefícios da redução sociológica, a história filosófica da Filosofia (Martial Guéroult, por exemplo) procura reconstruir o crescimento dos conhecimentos filosóficos. Deste modo, sem negar os condicionalismos sócio-ideológicos dos sistemas filosóficos e de todo o conhecimento humano, a história da filosofia é restituída ao seu verdadeiro sujeito - a própria Filosofia. Fazer da história da filosofia uma "ciência humana" implica o abandono do cultivo directo da Filosofia que sempre-foi um discurso universal. A radicalização da suspeita (Paul Ricoeur) - a atitude subjacente à redução sociológica - privou a Filosofia da sua dimensão cognitiva e, com o movimento da desconstrução, levou à liquidação e à destruição da grande tradição filosófica. Como lembrava constantemente Althusser, a Filosofia tem um exterior - há mundo fora dos textos! - que procura conhecer antes de propor e orientar a sua transformação social. Para evitar a queda e participar no diálogo produtivo com as ciências especializadas em fragmentos da realidade, conforme o desejo de Hawking, a Filosofia deve a cada momento actualizar - o método-procedimento que tenho utilizado para me apropriar da história da filosofia - a sua tradição e os seus conteúdos conceptuais, de modo a estar à altura dos desafios do mundo presente. Mas a grande preocupação da Filosofia não é cosmológica, como supõe erradamente Hawking: a Filosofia enquanto campo de batalha ou, segundo a feliz expressão de Althusser, enquanto luta de classes na teoria, tem uma relação privilegiada com a Política. A sua conexão estrutural com a ciência não pode eclipsar a sua vocação política, porque é esta relação privilegiada com a Política que faz da Filosofia a forma superior do conhecimento humano.

Eis os textos:


J Francisco Saraiva de Sousa

domingo, 5 de junho de 2011

José Marques da Silva: Edifício A Nacional, Porto

Quem não conhece este belo edifício - A Nacional - localizado na Avenida dos Aliados? O arquitecto que o projectou chama-se José Marques da Silva (1869-1947), mais outro arquitecto portuense que marcou fortemente os belos espaços da cidade do Porto. A história da arquitectura do Porto está intimamente ligada aos "estilos" dos seus arquitectos nativos: a auto-suficiência arquitectónica do Porto prende-se à paixão que é ser portuense num país estranho e hostil. A bela cidade do Porto é uma construção dos seus próprios arquitectos nativos que, nas sucessivas mudanças de época, souberam preservar o passado sem fechar a cidade à modernização e à obra dos arquitectos estrangeiros. É isso que não é compreendido pelos alienígenas invasores que governam neste momento o destino da cidade: o Porto-Fantasia arquitectónica e escultural não pode fechar-se à modernização. O crescimento em altura já está inscrito no código genético da Torre dos Clérigos. Cidadãos do Porto, não temam as alturas vertiginosas do céu! A Cidade Fálica - o Porto orgulhosamente erguido em altura - sempre quis conquistar o céu e a sua azulidade!

Anexo. Tenho estado a pensar e, neste dia cinzento das eleições, cheguei à conclusão que o Porto deve fechar-se à influência saloia do resto do país, sobretudo do sul. A arquitectura histórica da cidade do Porto não se coaduna com o actual perfil psicológico e cognitivo dos seus habitantes e atribuo este desfasamento à influência nefasta dos meios de comunicação social. Para renascer, o Porto precisa assumir a sua condição única no todo nacional e, ao mesmo tempo, distanciar-se dele. Carregar este país de alucinados saloios às costas não faz sentido, porque corremos o risco de perder tudo, até mesmo o nosso passado. Os portugueses não formam um todo homogéneo, pelo menos do ponto de vista biológico. Há diferenças significativas entre os portugueses, de uma região para outra, e é, neste terreno da biologia humana, que devemos trabalhar a diferença que permita descolar e escapar à maldita noite em que todos os gatos são saloios. Não sei até que ponto as más políticas nacionais agravaram a velha deficiência mental e cognitiva dos portugueses, mas sei que o seu estado de saúde mental é preocupante. Infelizmente, conversar com um português "normal" ou com um tolinho internado num asilo de doenças mentais é, neste momento, a mesma coisa. E isto é deveras preocupante: Portugal regrediu...

J Francisco Saraiva de Sousa

sábado, 4 de junho de 2011

Ponte D. Maria Pia, OPorto, Portugal

Infelizmente, depois da construção da nova Ponte ferroviária de S. João (1991), a velha Ponte D. Maria Pia foi abandonada e entregue ao esquecimento pela autarquia do Porto liderada por Rui Rio. Os portugueses ignoram o seu património histórico e, no domínio da arquitectura, com excepção da obra de José-Augusto França, não temos um verdadeiro historiador e esteta da arquitectura, sobretudo da bela arquitectura da Cidade Invicta. Felizmente, os historiadores estrangeiros mais célebres ajudam a resgatar o património arquitectónico português. Nikolaus Pevsner imortalizou a Ponte D. Maria Pia e o seu famoso arco de ferro, colocando-a ao lado das maiores obras mundiais da arquitectura em ferro - a arte dos engenheiros - que suplantou a Art Nouveau: a Torre Eiffel (1889), o Viaduto Garabit (Eiffel, 1880-84), a Estátua da Liberdade (1884-86), a Ponte de Brooklyn ou a Ponte Firth of Forth. Aliás, nas suas obras de história da arquitectura, a Ponte D. Maria Pia é a única ponte portuguesa mencionada e com direito a imagem. Até mesmo a Ponte D. Luís I, outra bela obra da arquitectura em ferro do Porto, foi esquecida por este historiador da arquitectura. Pevsner atribui o projecto da Ponte D. Maria Pia a Gustave Eiffel, mas ela foi projectada pelo engenheiro Théophile Seyrig, e construída em tempo recorde entre 5 de Janeiro de 1876 e 4 de Novembro de 1887 pela empresa Eiffel Constructions Métalliques. Porém, Eiffel acompanhou de perto os trabalhos de construção da Ponte D. Maria Pia, tendo vivido em Portugal entre 1875 e 1877. O Viaduto de Garabit de Eiffel é uma projecção - uma cópia - da Ponte D. Maria Pia. A velha ponte ferroviária portuense é, como se verifica facilmente pelas datas, a estrutura-mãe de toda a arquitectura mundial em ferro.

J Francisco Saraiva de Sousa

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Prós e Contras: Consolidação e Crescimento - Exportações

«Dentro do quadro estritamente nacional não cabem nem se explicam o movimento de expansão geográfica dos Portugueses e o seu dirigente principal, o infante D. Henrique. O Infante Navegador é uma das maiores figuras da Humanidade e a empresa dos descobrimentos lusitanos, uma das mais fecundas em resultados de todos os tempos. Basta divisar em conjunto a marcha geral da expansão do homem no planeta para se tornar patente que o momento decisivo, nessa série de tentativas por tantos séculos dispersas, é aquele em que os Portugueses, sob a direcção ou a inspiração do Infante (Azul e Branco, Blue Dragon), conseguem não só dar corpo e unidade aos esforços do passado, mas assegurar-lhes, pela eficiência do novo impulso, a continuidade no futuro. Com o advento das navegações portuguesas, o homem vai pela primeira vez conhecer os lineamentos gerais e a grandeza do planeta que habita, e concebe das suas possibilidades sobre a terra uma ideia exaltadora em alto grau das suas energias». (Jaime Cortesão)

As Descobertas dominaram o imaginário empresarial e patrimonial do debate Prós e Contras de hoje (14 de Fevereiro) e, por isso, escolhi esta imagem do Infante Dom Henrique de Avis, o ilustre portuense (Porto, 1394-1460) que abriu Portugal ao mundo, para fixar o conteúdo deste comentário: o estratega e dirigente da primeira globalização foi um homem do Porto. O Infante do Porto dirigiu a maior empresa nacional da História de Portugal e o seu mérito foi reconhecido mundialmente: Beazley - um historiador inglês - enalteceu-o, erguendo-o à categoria de primeiro entre os homens que provocaram os maiores progressos da Humanidade, chamando-lhe «o verdadeiro leader dum Renascimento e duma Reforma» (Jaime Cortesão). Portugal atravessa a maior crise da sua longa história e navega em águas mortas sem rumo e sem projecto de futuro: o Infante do Porto abriu-lhe o mundo mas Portugal não soube explorar de modo construtivo essa abertura ao mundo, fechando-se na sua própria mediocridade visceral - o deserto da cultura - por causa da corrupção endémica que o domina desde o 25 de Abril. Usei intencionalmente a expressão deserto da cultura para desconstruir o preconceito dominante - uma terrível mentira nacional! - que Fátima Campos Ferreira introduziu - talvez inadvertidamente - neste debate ao convidar um agente cultural - António Pimentel (Museu de Arte Antiga) - para discutir a necessidade de elaborar uma nova empresa nacional com empresários ou gestores de empresas privadas - Basílio Horta (AICEP), Luís Filipe Pereira (EFACEC), José Manuel Fernandes (Frezite) e Rogério Carapuça (NovaBase), entre outros empresários ligados ao sector das indústrias tradicionais. A presença de Basílio Horta reforçou o mote do debate: mais empresas a produzir e a exportar para mais mercados e mais imagem de Portugal no mundo. Para sair da crise, Portugal precisa de produzir mais e de exportar mais. Apesar de não detalhar um programa ou plano completo de crescimento económico, a perspectiva da internacionalização e da exportação rompe, pelo menos teoricamente, com a nefasta prática nacional de endividar o país para melhorar artificialmente o bem-estar dos portugueses (Luís Filipe Pereira): as únicas medidas defendidas por Basílio Horta para atrair o investimento estrangeiro foram o pacto laboral para a competitividade entre empresários e trabalhadores (1), crescer em conjunto e em cluster (2), crédito e políticas de apoio (3) e reforma do sistema de justiça (4). José Manuel Fernandes preferiu chamar a atenção para o desequilíbrio existente entre o sector dos serviços - a aposta portuguesa das últimas décadas - e o sector dos bens transaccionáveis para defender a regresso ao chão da fábrica e à economia real das empresas, distinta da macro-economia dos economistas do grande ecrã da TV. José Manuel Fernandes tem toda a razão quando diz que os empresários são parceiros activos na implementação de estratégias adequadas de desenvolvimento económico de Portugal, mas onde estão esses empresários schumpeterianos de risco? Os maiores empresários portugueses trocaram o chão da fábrica - o sector da produção industrial e agrícola - pelo facilitismo do lucro garantido do sector dos serviços não-exportáveis: as grandes fortunas portuguesas e as empresas do regime vivem predominantemente da exploração do metabolismo nacional. A maior parte dos empresários portugueses não produz grande riqueza nacional, traduzida na criação de empregos e no aproveitamento das pessoas qualificadas, nem sequer valoriza a cultura e o património. Alguém conhece uma fundação cultural financiada por um grande grupo empresarial português? O défice da cultura portuguesa é basicamente o défice das humanidades. Alguém conhece um grande grupo empresarial português com vontade de ajudar a suprir o défice da cultura humanista e filosófica? Ao contrário do que se passa noutros países, as grandes empresas portuguesas e os bancos privados não valorizam a cultura e a paisagem urbana: as suas sedes são anti-edifícios construídos num espaço urbano não-requalificado. Tenho sérias dúvidas quanto à capacidade de empresários deste calibre - destituídos até mesmo de cultura empresarial - para realizar e concretizar o Eixo Atlântico: uma concepção de Ernâni Lopes que José Manuel Fernandes lembrou neste debate.

O tema da cultura e das descobertas como paradigma de empresa nacional entrou no debate pela voz histórica de José Manuel Fernandes: Rogério Carapuça colocou a cultura e a língua portuguesa ao mesmo nível da diplomacia económica. Cultura encarada como investimento na massa cinzenta (Luís Filipe Pereira) e diplomacia económica podem ajudar a promover as exportações nacionais. Luís Filipe Pereira e Rogério Carapuça têm um conceito tecnológico de cultura: a cultura tecnológica significa investimento na massa cinzenta dos portugueses - os zombies sem mente! - e pode ser medida pelo número de indivíduos bem-preparados pelas luso-universidades deslumbradas com o seu vazio cognitivo - o novo mito nacional largamente difundido por Rogério Carapuça! - e pelo valor acrescentado (Luís Filipe Pereira). Não sou contra esta dimensão tecnológica da cultura e muito menos contra a plataforma do carro eléctrico e a aposta nas indústrias de tecnologia avançada com valor acrescentado: o que me chocou não foi tanto este conceito quantitativo da cultura, mas sobretudo a sua aceitação acrítica por parte de António Pimentel, que, além de ter subordinado a imaterialidade da cultura à sua materialidade patrimonial, com o objectivo de despromover a língua portuguesa como pátria da identidade, matou a cultura quando a olhou como produto de consumo. A suposta boa-preparação das novas gerações - 1 em 10 portugueses ontem, 1 em 3 portugueses hoje (Rogério Carapuça) - revela-se negativamente no uso do conceito de indústria cultural: o efeito de desconhecimento total do seu perfil epistemológico. O conceito de indústria cultural foi forjado por Theodor W. Adorno para substituir o conceito de cultura de massas, cuja crítica aristocrática já tinha sido feita por Ortega y Gasset. O efeito global do sistema unitário da indústria cultural é o de uma anti-desmistificação: a dominação técnica progressiva da natureza converte-se num logro colectivo que tolhe a consciência das massas (Adorno). A utilização do conceito de indústrias culturais no plural, levada a cabo por A. Girard, entre outros teóricos da comunicação, perde de vista este efeito global, o efeito de liquidação do indivíduo autónomo, tornando-se incapaz de criticar a cultura afirmativa (Marcuse) veiculada pelos mass media. Alheio a esta controvérsia científica, António Pimentel não só identificou as indústrias do imaginário (Patrice Flichy) com a esfera do consumo, submetendo os bens culturais ao princípio de comercialização (Brecht), sem levar em conta o seu efeito global de ofuscamento ideológico, como também fez da cultura uma embalagem comercial - o medium da linguagem visual do marketing - para facilitar as exportações nacionais. Um tal conceito heterónomo de cultura reflecte já o triunfo consumado do sistema da indústria da cultura: não só os seus consumidores passivos, como também os seus produtores e agentes, foram definitivamente privados da sua autonomia e da sua independência, tornando-se incapazes de avaliar com consciência e de tomar decisões racionais. Ao fazer da cultura - tomada sob a forma de turismo cultural - uma escrava da economia, António Pimentel limitou-se a reivindicar - a título pessoal - um lugar ao sol no xadrez do poder vigente da sociedade administrada. Curiosamente, foi uma figura administrativa - Rogério Carapuça - que referiu a não-existência de um grande filme sobre os descobrimentos portugueses. Com a nomeação desta lacuna cultural, caiu por terra a sua confiança na qualidade das universidades portuguesas: o aumento do número de diplomados - sobretudo quando estes diplomados são analfabetos funcionais - não significa necessariamente maior preparação técnica e científica para resolver os desafios do futuro. A cultura portuguesa é, toda ela, uma enorme lacuna, ou melhor, um deserto cognitivo: os poucos oásis de cultura criativa que surgem no seio deste vasto deserto lusitano, como por exemplo a Escola do Porto, são sistematicamente mergulhados no esquecimento pelos zombies universitários que só colaboram entre si nestas criminosas ocasiões, para liquidar todos aqueles que assombram a sua mediocridade visceral. As universidades portuguesas são cloacas comportamentais, isto é, escolas do crime cultural. Para singrar e vencer em Portugal, é preciso ter cunhas: o mérito é uma palavra estranha ao universo português. Toda a organização social portuguesa milita contra a competitividade, interna e externa: a inveja patológica dos portugueses - a manifestação pública da sua mediocridade genética - mata tudo o que é distinto. Nesse sentido, concordo com Rogério Carapuça quando afirma que a mudança de atitude vem antes da definição de estratégias adequadas (Luís Filipe Pereira), mas não vejo como podemos alterar a atitude invejosa dos portugueses sem lhes impor de cima uma estratégia integral e multi-factorial de desenvolvimento nacional. O resgate da cultura portuguesa implica a eliminação dos burros malvados que ocuparam ao longo dos tempos os centros de decisão nacional, da política à cultura, passando pela comunicação social. O estado de inveja patológica faz de Portugal uma mentira organizada e, se nada fizermos para alterar esse estado de degeneração através de uma revolução cultural permanente, não podemos sonhar com um mundo melhor: a psicologia de base dos portugueses é avessa à cultura superior, o que ajuda a compreender a sua propensão quase-inata para a corrupção, a alienação e a adição tecnológica. A imagem de massas desalmadas de zombies ligados em rede pela via do telemóvel ou da Internet, perseguindo os homens verdadeiramente humanos, - a imagem de Portugal Contemporâneo! -, é um espectáculo sinistro. Portugal é um filme de terror.

J Francisco Saraiva de Sousa