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segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Dossier Filosofia Médica (2)

Contém uma exposição da Medicina Primitiva.
Mais ideias para o Dossier Filosofia Médica:

1. Ao repensar a Filosofia Médica, descobri que preciso pensar uma Filosofia da Medicina e uma Filosofia na Medicina. O surgimento da medicina-ciência - a biomedicina - implica uma nova epistemologia médica. Ora, a classificação das ciências médicas é uma tarefa complicada. Além disso, existem epistemologias regionais, tais como a epistemologia da genética e da imunologia.

2. O campo da Biomedicina tal como o conhecemos hoje é tão complexo que dificulta a tarefa de elaborar uma nova Filosofia Médica. Uma via interessante a seguir é a das doenças infecciosas: o seu estudo biológico ajuda a compreender a articulação de ciências-chave da biomedicina. A perspectiva médica das doenças infecciosas é antropológica, ao passo que a perspectiva biológica respeita tanto os homens como os parasitas. Porém, não sei se esta distinção deve ser mantida na nova filosofia médica.

3. Infelizmente, a antropologia filosófica não deu atenção ao homem-doente. O meu interesse pelo Hospital leva-me a propor uma Filosofia da Hospitalização capaz de reintroduzir o homem-doente no seio da antropologia filosófica. O comportamento perante a doença e perante a hospitalização revela estruturas antropológicas universais, tais como a visão reduzida do mundo ou a retirada do mundo hospitalar.

4. A passagem de uma concepção negativa para uma concepção positiva da saúde aproxima o campo da medicina do campo da filosofia: a medicina é algo mais do que o estudo, a prevenção e a cura da doença; ela interessa-se pelo fomento dos elementos que contribuem para a "boa vida" e estimulam a população a viver de modo saudável. A Filosofia da Saúde deve articular a Vida Saudável e a Vida Justa. É nesta articulação que podemos definir uma política da saúde.

5. A SIDA matou Michel Foucault que escreveu abundantemente sobre o nascimento da clínica e do hospital, embora o seu alvo predilecto tenha sido a loucura. A leitura da sua obra deixa-nos com uma visão negativa da medicina, cujos cuidados ele procurava quando entrava em depressão. Susan Sontag denuncia o predomínio da metáfora belicista no reino da imunologia, mas também ela precisou dos cuidados médicos para liquidar o seu cancro. Foucault e Sontag escreveram sobre medicina como se fossem utentes de um serviço de medicina primitiva, onde predomina a etiologia social em detrimento da etiologia científica. Eles falaram sobre as doenças sem conhecer o funcionamento do organismo.

6. Iatrofilosofia é a designação dada à Filosofia da Medicina. A Iatrofilosofia - ou simplesmente a Filosofia Médica - estuda os pressupostos filosóficos das ideias e das práticas médicas e investiga os problemas filosóficos surgidos na pesquisa e na prática médicas. A Filosofia Médica enfrenta dois grandes problemas que dificultam o seu crescimento: o primeiro problema iatrofilosófico é a caracterização da própria medicina, e o segundo problema iatrofilosófico é distinguir os seus próprios ramos e identificar as questões características e urgentes de cada um deles. Sem pretender ser exaustivo, posso destacar os seguintes ramos da Filosofia Médica: a Iatrologia, estudo dos problemas lógicos da medicina; a Iatrossemântica, estudo dos problemas semânticos da medicina; a Iatro-epistemologia, estudo dos problemas do conhecimento médico; a Iatrometodologia, estudo dos problemas metodológicos da pesquisa e da prática médicas; a Iatro-ontologia, estudo dos conceitos ou hipóteses ontológicos inerentes às teorias e práticas médicas; a Iatro-axiologia, estudo dos valores médicos, a começar desde logo pela saúde; a Iatro-ética, estudo dos problemas morais suscitados pela pesquisa e prática médicas; e a Iatropraxeologia, estudo dos problemas gerais colocados pela prática médica individual e pela gestão da saúde pública. A distinção destes ramos da Iatrofilosofia tem sido levada a cabo a partir da Epistemologia, a ciência das ciências. Uma Filosofia Médica sistematizada pode implicar outras articulações teóricas. Em vez das designações usadas, poderíamos ter usado outras, tais como Lógica Médica, Semântica Médica, Epistemologia Médica, Metodologia Médica, Ontologia Médica, Axiologia Médica, Ética Médica e Política Médica.

7. Como já vimos, as ideias de saúde, doença e terapia dependem criticamente da concepção de Homem adoptada pelos filósofos e médicos. A antropologia filosófica deverá integrar o homem-doente no seu corpo teórico. A abordagem biológica deve ser adoptada pela antropologia filosófica porque só ela permite elaborar um conceito geral de doença.

8. A Filosofia Médica articula-se com a BioFilosofia ou Filosofia Biológica. A prioridade da Filosofia Médica é pensar a problemática da BioMedicina e ajudá-la a clarificar os seus conceitos, teorias e práticas. Outra conexão a pensar é a que existe entre medicina e tecnologia: a Filosofia Médica também se articula com a Filosofia da Tecnologia

9. Ivan Illich acusou a medicina de ser mais uma religião e um comércio do que uma ciência e um apostolado: a medicalização da vida tem efeitos nocivos. Os médicos enquanto grupo profissional ignoraram as acusações de Illich, em vez de aproveitar a oportunidade para investigar o problema e realizar uma auto-crítica honesta, reconhecendo os elementos que reduzem a saúde a um negócio lucrativo e investigando a sua influência na formação universitária dos médicos e na estrutura da sociedade. Sem a ajuda da Filosofia, a Medicina não consegue clarificar os seus próprios problemas. A iatrogénese clínica, a iatrogénese social e a iatrogénese estrutural não são meras invenções de Illich; são realidades em andamento na sociedade capitalista.

10. A Filosofia Médica não é mera espectadora da actividade médica, mas exerce efectivamente um papel activo sobre a medicina. As Faculdades de Medicina devem incentivar os estudos iatrofilosóficos, de modo a propiciar a formação de médicos com competência filosófica e de filósofos com competência médica.

11. A Filosofia Médica está a ocupar cada vez mais "espaço" no meu cérebro-mente: Em Filosofia, precisamos de ideias-fundadoras capazes de iluminar a teoria que queremos elaborar. Ora, no caso da Iatrofilosofia, o homem deve ser definido de modo a incluir os estados de doença na sua essência enquanto ser condenado à morte. A finitude implica estados de doença no decurso do ciclo vital do ser humano: a abertura ao mundo é um risco; o organismo está permanentemente sujeito a ser agredido pelo ambiente.

12. Não podemos mudar aquilo que desconhecemos. Para mudar o mundo, é preciso conhecê-lo. A célebre tese de Marx sobre a transformação do mundo foi mal-interpretada: a filosofia de Marx nunca abdicou da teoria a favor da praxis. Nós conhecemos relativamente bem a dinâmica do capitalismo, mas este conhecimento não é suficiente para transformar o mundo: os agentes sociais da mudança já não são os mesmos do século XIX. O capitalismo introduziu mudanças significativas no mundo da vida quotidiana e no mundo da cultura e da personalidade. Conhecer os novos agentes sociais e os seus mundos fantásticos e saturados é uma prioridade da teoria crítica. Este conhecimento implica mudanças estruturais na agenda política da esquerda atenta ao mundo.

J Francisco Saraiva de Sousa

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Futebol: a válvula dos impulsos homo-eróticos


Ontem foi um dia divertido: uns amigos alemães de esquerda socialista partilharam comigo estas e muitas outras imagens dos rituais futebolísticos. Foi uma oportunidade para rever a teoria da tribo do futebol de Desmond Morris e de lhe dar um conteúdo mais sexual: o futebol como cópula gay ritualizada no campo e exteriorizada algures nos bastidores. Penso que a teoria da natureza homossexual das relações sociais proposta por Lévi-Strauss e retomada por Luc de Heusch, para já não falar de Lionel Tiger e Robin Fox, pode ser desenvolvida a partir do paradigma do futebol ou mesmo do exército e de outras instituições masculinas: a rigidez das sexualidades de género masculino é hoje um conceito amachucado. As sexualidades masculinas não são tão rígidas como pensávamos: a fluidez que verificamos nos nossos dias reconduz ao núcleo homo-erótico. Não bastar dar um nome: "homens que fazem sexo com outros homens"; é preciso explicar este comportamento e revelar o seu núcleo homo-erótico. Os chimpanzés e outros macacos fornecem excelentes modelos animais para compreender a natureza homossexual das relações sociais humanas. A libertação das mulheres produziu efeitos estranhos na sociedade: desvalorizou o corpo feminino e sobrevalorizou o corpo masculino, quebrando o tabu homossexual. (Um efeito perverso pode ser o desejo de auto-amputação e a erotização do membro amputado!) Os homens de hoje fazem aquilo que os homens de ontem desejavam fazer: "curtem a sua própria masculinidade". Este comportamento homo-erótico está presente em muitas sociedades arcaicas, onde a iniciação permite a prática institucional de relações homossexuais. A homossexualidade institucionalizada não é apenas uma invenção indo-europeia, bem exemplificada no caso grego (Bernard Sergent, K. J. Dover), mas uma prática presente nas mais diversas áreas culturais (G. Herdt, R. C. Kirkpatrick), bem como nas nossas instituições masculinas totais. Não sei se desejo retomar a minha investigação sobre determinação sexual e diferenciação sexual do cérebro e do comportamento: prefiro explorar outras áreas do conhecimento, embora reconheça a importância desta área da pesquisa sexual. Escusado será dizer que, ao fazer estas observações, estou a tentar mostrar que o que é surpreendente não é a homossexualidade mas a própria heterossexualidade. Ou seja, estou a problematizar a própria heterossexualidade. Quando realizei a minha investigação estava consciente disso, mas não soube dar-lhe expressão. Afinal, por que os homens são heterossexuais? Não estará o sucesso do futebol ligado à sua natureza homossexual? Não será a tribo do futebol uma tribo gay que revive nos nossos dias os rituais da caça ancestral? Ontem, quando os portugueses festejavam os golos do Cristiano Ronaldo, olhei-os de outra forma: vi que eles lá no fundo de si próprios eram e são "paneleiros". Depois dei-me ao trabalho de observar atentamente os sites nórdicos "Anti-Cristiano": o que observei? Observei que os nórdicos redescobriram o facto do "paneleiro" ser uma figura latina. As amostragens americanas já levam em conta esta classificação. Compreende-se agora a razão que leva os homens latinos a mascarar-se de prostitutas nos cortejos carnavalescos: eles são "travecas" exímios que aproveitam o Carnaval para dar expressão à mulher de má-vida que habita neles. (A nossa aliança - ego-alemães - é estritamente política: derrubar as políticas de direita da chanceler!)

J Francisco Saraiva de Sousa

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Soares dos Reis: Quadro Escultural do Porto

Soares dos Reis: O Desterrado
Soares dos Reis (1847-1899) foi «um realista na veracidade severa dos seus retratos, do "Conde de Ferreira" (1876), da "Viscondessa de Moser" (1884) ou da "Inglesa" (1887). Um realista que entendera, porém, na sua estada em Roma, o apelo da saudade nacional e com isso esculpira "O Desterrado" (1872-74) que ficou como uma imagem emblemática dum certo sentimentalismo português próprio do fim do século em que o escultor se suicidou. /"O Desterrado" é uma obra notável da escultura do seu tempo, de grande sensibilidade formal, duma discreta e tensa dramaticidade. O vago anseio, o doce sentir, a nostalgia sem esperança, a amargura sem tempo lêem-se no corpo clássico da estátua, que teve directa inspiração antiga. A carga simbólica da obra é-lhe inerente, desenvolve-se na sua forma, não tem origem literária - embora literariamente sobre ela se bordassem mil considerações simbolistas e decadentistas. "Verdadeira arte lusitana" viu Teixeira de Pascoaes no "Desterrado", apontando-lhe assim um destino fora do tempo, e o próprio artista, tão exigente no seu realismo como no seu espiritualismo, terá sido vítima dessa contradição que, numa sociedade que, embora ele fosse professor da Academia portuense, só lhe dava mesquinhos trabalhos a fazer, também o levou a matar-se, último acto da coerência romântica que igualmente, e pela mesma altura, moveu Antero e Camilo». (José-Augusto França)

José-Augusto França foi até hoje o único grande historiador da Arte em Portugal, mas a sua obra precisa ser revista e reavaliada à luz da estética e das nossas preocupações presentes. O que foi dito sobre a obra escultural de António Soares dos Reis não é algo exterior à própria obra: o triângulo produtor/obra/receptor é fundamental para compreender a escultura de Soares dos Reis, porque é na sua recepção que se joga a sua historicidade. A história da recepção - nacional e internacional - da obra de escultura de Soares dos Reis está por fazer e, sem ela, torna-se muito difícil realizar a sua análise estética. Dissolver a escultura de Soares dos Reis no realismo do seu tempo não lhe traz nenhuma mais-valia cognitiva. Os rótulos vagos atribuídos pelos historiadores às obras de arte não permitem compreender o mundo que elas revelam. Classificar uma obra de arte não é suficiente para compreender o mundo próprio que ela revela. O escultor portuense situou-se à margem do movimento coimbrão e lisboeta, embora fosse respeitado e admirado por quase todos os membros da geração realista, incluindo o Ramalho Ortigão positivista de 1876 que viu nele o primeiro renovador da arte portuguesa. A Filosofia tem dificuldade em lidar com certas formas de arte e uma delas é precisamente a escultura que Hegel colocou num nível inferior à pintura e à poesia, embora lhe reconhecesse a capacidade de realizar o espiritual na sua totalidade espacial e corpórea. No entanto, quando escreveu que «os nossos escultores são incomparavelmente superiores aos nossos pintores porque resistem melhor ao meio», Ramalho Ortigão inverteu essa posição, destacando a superioridade da escultura em relação à pintura, pelo menos no contexto da arte portuguesa. Os escultores em questão eram Soares dos Reis e Miguel Ângelo Lupi, os quais assumiram posições opostas em relação à sociedade do fontismo, da qual o segundo foi o seu grande vencedor, e o primeiro, a sua grande vítima. Olhando para a obra revolucionária de Soares dos Reis, é fácil compreender a perspectiva de Ramalho Ortigão: O Desterrado «incarna em si a própria espiritualidade, a finalidade e independência em si e por si, numa forma corporal, conforme ao conceito do espírito e adequada à sua individualidade, e oferece à nossa contemplação o corpo e o espírito incorporados num todo indivisível» (Hegel). O Desterrado não é mais uma peça de escultura: ele é a própria escultura. Não admira que Teixeira de Pascoaes tenha visto nele a figura espiritual feita estátua da saudade. Para o poeta-filósofo portuense, O Desterrado deu ao mármore «aquele sentimento saudoso das coisas e da vida que mostra o íntimo perfil do nosso espírito (lusitano)». Joel Serrão captou a afinidade existente entre a escultura de Soares dos Reis e a filosofia de Sampaio Bruno: «"Nos fuimos simul in Garlandia. Nós pisamos juntos a terra da Desesperação; e juntos conhecemos o travo desse sentimento específico do exílio, que é complexo, aliás, pois resulta um misto de orgulho e humilhação, de rancor e de piedade". Assim se exprime Bruno. Do mesmo modo se nos exprime essa obra-prima da estatutária portuguesa que é o Desterrado de Soares dos Reis, esse outro portuense, como que exilado na terra portuguesa. Atentai: a cabeça pendida na meditação não se sabe de que longes; inactivos, os dedos cruzados no desalento da espera; os lábios no jeito da amargura mais atroz e imponderável; dentro dele "chovendo a inexorável ausência do país remoto" para empregarmos palavras de Bruno a respeito do seu próprio exílio. Tal o Desterrado. Tal o Bruno nas longes terras (holandesas)».


Em Portugal, a inveja mata-nos a todos, rouba-nos a vida individual e colectiva - passada, presente e futura -, nivela-nos a todos de modo a impor-nos a mediocridade como norma, e condena os nossos homens de mérito ao exílio interior. A escultura O Desterrado de Soares dos Reis foi alvo desta forma patológica de inveja. Tudo começou no seio da Academia Portuense de Belas-Artes. Soares dos Reis fez o curso da Academia Portuense, tendo sido aluno de um professor incompetente, Fonseca Pinto, que lhe fez a vida negra. Em 1867, partiu como bolseiro para Paris. Para isso, ganhou o concurso com um belo busto do seu colega Firmino (1867). Em Paris, foi aluno de Jouffroy, mas a guerra obrigou-o a regressar ao Porto em 1870. No entanto, em 1871, partiu de novo para o estrangeiro, desta vez para Roma, onde permaneceu ano e meio sem professor. Ora, foi de Roma que Soares dos Reis trouxe para o Porto a sua estátua inacabada O Desterrado: «Imaginada e quase terminada em Roma, sob inspiração de versos de Herculano, e por força duma sentimental nostalgia da Pátria distante e da própria solidão cismadora, a estátua reflecte formalmente a tradição clássica. É provável que o "Ares" dito Ludovisi, do Museu das Termas, lhe tenha fornecido o esquema da composição: um jovem nu, sentado num rochedo, uma perna estendida, as mãos apertadas em volta do joelho da outra, a expressão melancólica e o olhar distante... A comparação detém-se porém ao nível iconográfico, e a acusação de plagiário que por isso fizeram a Soares dos Reis seria mera estupidez se não tivesse sido produto de má fé, alimentada pela inveja do professor Fonseca Pinto e pelo espírito quezilento de outro professor da Academia, o pintor Resende» (José-Augusto França). Não satisfeitos com a acusação de plágio, os invejosos conspiraram outra maldade: a suspeita de Soares dos Reis não ter sido o verdadeiro autor da estátua. Estes ataques mesquinhos feriram profundamente a sensibilidade de Soares dos Reis, mas não conseguiram impedir que O Desterrado - concluído já no Porto em 1874 - fosse exposto publicamente na Academia Portuense de Belas-Artes em 1874, e que viesse a receber a medalha de ouro na Exposição Internacional de Madrid de 1881. A história moral do Desterrado de Soares dos Reis é, de certo modo, a história de todos os portugueses que se destacam da mediocridade nacional pelo seu mérito e pela sua inteligência.


José-Augusto França parece não concordar com a interpretação saudosista da escultura O Desterrado de Soares dos Reis, como se o saudosismo de Teixeira de Pascoaes fosse uma espécie de fuga ao futuro quando, na verdade, ele é uma abertura ao futuro. A saudade como ânsia de um futuro novo - a saudade do futuro - possibilita uma leitura inovadora da obra escultural de Soares dos Reis. No entanto, José-Augusto França não se afasta muito dessa interpretação quando a encara como uma «obra existencial»: «O olhar afogado no longe, a boca num começo de choro, o virar doloroso da cabeça, as mãos entrelaçadas à beira da crispação, e este corpo longo e liso, quase escorregando para o mar de Capri que se adivinha - o "Desterrado" é uma personagem de drama, que exige uma leitura dinâmica. O sentimento vago e ideal que exprime não se define em função dum "estar" que uma forma classicamente frontal nos daria, mas dum "viver" que devém, numa movimentação formal. A estrutura da figura explica-se por dois eixos oblíquos que se cruzam e marcam sentidos opostos, fazendo rodar contraditoriamente o corpo torturado, o tronco para um lado, com o movimento dos braços, a cabeça e as pernas para outro. Os dois extremos da figura, a cabeça tombada velada por uma sombra que é preciso ler, e o pé esquerdo pendente, em relaxe, definem-se em oposição a um nó denso de pequenos volumes articulados numa contracção de formas minuciosamente agenciadas. A grande bossa sensível do dorso arqueado é logo explicada na linha ondulada do perfil em que as sombras se graduam admiravelmente. Como para o "Penseur" de Rodin, um quarto de século mais tarde, a leitura do "Desterrado" obriga a perfazer um lento circuito em torno desta forma altamente dinâmica - que no próprio dinamismo tem a sua nobilíssima razão de existir e de significar» (José-Augusto França). Teixeira de Pascoaes não realizou uma interpretação sistemática do Desterrado de Soares dos Reis: a noção de desterro ocupa uma posição crucial na sua filosofia da saudade. Limito-me a citar uma das muitas frases de Teixeira de Pascoaes dedicadas ao Desterrado de Soares dos Reis: «Soares dos Reis, no Desterrado, foi muito além de Garrett. Aquela estátua é sagrada; vive já, de alguma forma, a Saudade religiosa e metafísica. Sente-se que diante dos seus olhos, perpassa o Vulto divino da nova Deusa. Soares dos Reis é o precursor dos actuais Poetas, o precursor da verdadeira arte lusitana. É uma figura suprema. /O Desterrado é a Esfinge da Raça no recanto esquecido dum esquecido museu municipal. E os Poetas a que me referi, são os seus intérpretes: a voz dos seus fechados lábios marmóreos». Além do poeta portuense António Nobre, que cantou a saudade-desejo, Teixeira de Pascoaes também nutria uma especial admiração pela pintura de António Carneiro (1872-1930), o pintor portuense que nos legou o tríptico A Vida, merecendo por isso o extenso ensaio que lhe dedicou (1950). Diz Teixeira de Pascoaes que «a nossa existência mundial, iniciada pelos Nautas, é continuada pelos Poetas». Sim, é verdade o que diz Teixeira de Pascoaes: o Porto deseja - a faceta do desejo na saudade - realizar o sonho dos poetas, de modo a dar continuidade à nossa existência mundial conquistada no passado pelos navegadores portugueses. Meus amigos: O Desterrado de Soares dos Reis esculpe e encarna no mármore a alma portuense que vira - num gesto de desprezo e de enjoo - a cabeça a Lisboa e a Portugal capturado pelo espírito babilónico da primeira. Se O Desterrado exprime algum tipo de sentimento de saudade, este sentimento só pode ser a saudade da futura independência do Porto. O Desterrado é a própria Cidade do Porto que, a partir da sua situação de exílio nas terras lusitanas, sonha com a sua autonomia e a sua independência. Esta interpretação pressupõe uma radicalização da filosofia de Sampaio Bruno, cujo pecado fundamental reside no facto de não ter libertado o Porto da sua prisão lusitana. Apesar de ansiarem pela sua autonomia, os ilustres portuenses na hora de elaborar os seus pensamentos traíram a alma portuense, dissolvendo-a na alma lusitana que a sufoca. Faltou-lhes a coragem de ser do Desterrado que recusa olhar de frente para o país que o enjoa. O Porto é banhado não só pelo Rio Douro mas também pelo oceano Atlântico, cujas ondas acariciam o rochedo - um rochedo do Castelo do Queijo? - onde está sentada a figura bela, serena e livre do Desterrado.


O Porto de Soares dos Reis é o Porto da Academia Portuense de Belas-Artes, que fez da História da Cidade uma História da Arte. A identidade que Giulio Carlo Argan (1984) estabeleceu entre arte e cidade já era uma prática arquitectónica no Porto setecentista e oitocentista: a cidade do Porto é uma obra de arte - construída ao longo de gerações pelos seus próprios artistas nativos sem menosprezar o contributo de grandes artistas estrangeiros. A Academia Portuense foi criada em 1836 por Passos Manuel, logo após a revolução de Setembro. A Academia de Lisboa foi criada a 25 de Outubro e, logo a seguir, a do Porto a 22 de Novembro de 1836. Ainda não estou preparado para esboçar uma história da Academia do Porto, fortemente incentivada por Almeida Garrett, nas suas relações orgânicas com a Cidade Invicta. Por isso, vou limitar-me a referir alguns momentos cruciais dessa ligação orgânica dos artistas portuenses com a sua cidade. Muitos anos antes da criação da Academia Portuense, a Companhia das Vinhas do Alto Douro já tinha fundado uma Aula de Desenho em 1779, que mais tarde seria incorporada na Academia da Marinha, tendo como professores Domingos António de Sequeira (1768-1837) e Francisco Vieira, mais conhecido como Vieira Portuense (1765-1805), dos quais se destaca o último pelo facto de ter pronunciado um discurso em 1802, onde critica a retórica académica a favor da liberdade de criação, o que constituía uma proposta de modernização no seio da arte portuguesa. Quando mais tarde se funda a Academia Portuense, a sua responsabilidade foi atribuída a João Baptista Ribeiro (1790-1868), que, apesar de ser um pintor medíocre, era um homem político e dinâmico. A morte de Teixeira Barreto (1763-1810) não permitiu continuar a assegurar um ensino de qualidade na pintura. Durante este período repleto de peripécias e de falta de financiamento regular, a secção de arquitectura avançou sob a direcção de Costa Lima Júnior. As Academias do Porto e de Lisboa começaram a realizar exposições trienais, as primeiras que publicamente se realizaram em Portugal, conforme a ideia já avançada por Sequeira no Porto em 1807. O papel da Academia de Belas-Artes foi reforçado pela criação de Museus e de Bibliotecas Públicas, no Porto logo em 1833, graças a J. B. Ribeiro (1790-1868), durante o cerco da cidade. O espaço da pintura portuguesa romântica foi atribuído no Porto a Francisco Resende (?-1893), o qual tinha recebido lições de Auguste Roquemont (1804-1852), o retratista da nobreza nortenha e o primeiro a pintar os costumes rústicos dos portugueses, abrindo assim as portas ao romantismo. Entretanto, em 1835, surgiu uma fugaz Associação dos Amigos das Artes fundada no Porto, a qual foi precursora da Sociedade Promotora de Belas-Artes criada em Lisboa no princípio dos anos 60. Sendo uma cidade mais progressista do que Lisboa, toda ela virada para o luxo fontista, o Porto - depois do surto setecentista da arquitectura do Port Wine - iniciou a arquitectura do ferro. Inspirado no seu famoso homónimo londrino, o Palácio de Cristal - projectado por Thomas Dillen Jones - inaugurou, em 1865, a primeira exposição internacional de indústria, o que marcou a entrada do Porto num novo período histórico, o período do progresso. Obra de Eiffel, a Ponte de D. Maria Pia foi inaugurada em 1876 para ligar por via ferroviária o Porto a Lisboa. Em meados do século, os brasileiros que regressavam ao Porto trouxeram consigo o azulejo, cujo uso tinha sido abandonado nos finais do século XVIII. A indústria do azulejo desenvolveu-se rapidamente no Porto, com a fábrica das Devezas a ocupar um lugar de destaque na industrialização das faianças. Os exteriores dos edifícios foram revestidos de belos azulejos, tendo Lisboa seguido o exemplo do Porto. As Conferências do Casino aceleraram o processo de degradação do romantismo: Eça de Queirós defendeu, na sua conferência, o realismo na arte, citando abundantemente Courbet, através das teses de Proudhon, de modo a atribuir à arte um destino social. Pouco mais tarde, Ramalho Ortigão realizou a defesa do naturalismo no seu ensaio O Culto da Arte em Portugal (1896). Estes manifestos estéticos marcaram profundamente a arte portuguesa deste período. Na escultura, destacou-se a obra revolucionária de Soares dos Reis, que entrou para a Academia em 1862, vindo a ser seu professor. Em 1865, começaram a ser concedidas pensões oficiais para frequência da École des Beaux-Arts: Paris substituiu assim Roma e o seu Colégio Português de Belas-Artes, reformado em 1791, embora Roma ainda continuasse a ser frequentada no fim da bolsa. Os pintores e os artistas - escultores, arquitectos - formados na Academia Portuense beneficiavam de uma nova visão artística que se reflectiu nas suas obras. Silva Porto (1850-1893) e Marques de Oliveira (1853-1927) foram os dois primeiros pintores portuenses a ser contemplados com essa bolsa por concurso. Quando regressaram a Portugal, Silva Porto foi nomeado para a Academia Lisboeta e Marques de Oliveira assumiu a docência da pintura da história na Academia Portuense. Em torno do portuense Silva Porto, formou-se o Grupo do Leão que fez com que o naturalismo penetrasse na pintura portuguesa. A Academia do Porto lançou quase todos os grandes pintores paisagistas deste período: Henrique Pousão (1859-1884), A. Loureiro, João Vaz (1859-1931), Alberto de Sousa Pinto, José de Brito (1855-1946) e, para não alongar mais a lista de nomes, Aurélia de Sousa (1865-1922). E, na escultura, merecem destaque Teixeira Lopes (1866-1942) e Alves de Sousa, o primeiro dos quais foi discípulo de Soares dos Reis. Para se compreender a obra da Academia Portuense, é preciso conhecer a fundo não só o que os críticos disseram e escreveram sobre as obras dos seus membros, mas também os próprios escritos dos artistas, para já não falar das próprias obras de arte. Infelizmente, os estudiosos portugueses nunca souberam zelar pelo passado: a escassez de edições críticas testemunha o desleixo português. A cidade do Porto foi sempre uma cidade de burgueses, de homens livres, pelo menos desde o século XII. É por isso que Jaime Cortesão viu nela a primeira grande escola política da cidadania: o cidadão é, por natureza, o burguês que habita a cidade e que se afirma pelo seu trabalho. A história do Porto não pode ser compreendida sem levar em conta a sua burguesia que lutou pela libertação. A força da Academia Portuense está enraizada neste traço estrutural da cidade do Porto, a cidade dos burgueses e dos trabalhadores. O Porto - tal como o conhecemos - é fruto do trabalho dos seus próprios cidadãos e da sua luta contra os privilégios de nascimento e o poder central: o consumo conspícuo lisboeta que lança constantemente Portugal na pobreza e na miséria é algo visceralmente estranho à alma portuense. Como vimos, a construção do Palácio de Cristal, onde hoje está o Pavilhão Rosa Mota, outra ilustre portuense, abriu a Cidade Invicta ao progresso. Ao ensino da Academia Portuense de Belas-Artes juntaram-se as bolsas em Paris e o Centro Artístico Portuense, animado por Soares dos Reis, Marques de Oliveira e J. Vasconcelos. A cidade do Porto conquistou o mundo, participando em certames internacionais, como a grande exposição parisiense de 1900 e o Salon, tendo Soares dos Reis recebido a medalha de ouro na Exposição Internacional de Madrid (1881). Por isso, sou levado a escolher a figura de Soares dos Reis como a figura promotora do Porto das Galerias, do Porto das Exposições e do Porto dos Boulevards: apesar do seu exílio nas terras portuguesas, a cidade do Porto está aberta ao mundo. É este Porto - edificado nos finais do século XIX e começos do século XX - que está próximo da poesia de Baudelaire e que alimenta o meu projecto dos quadros portuenses


Soares dos Reis: O Desterrado
O Desterrado (1872-74) de Soares dos Reis: Prova final de pensionista de escultura realizada em Roma em 1872, enviada à 14.ª exposição trienal da Academia Portuense de Belas-Artes (1874) e medalha de ouro na Exposição Internacional de Madrid de 1881.


J Francisco Saraiva de Sousa

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

António Botto: Canção

António Botto (1897-1959)
«Se a generalidade dos homens acha mais belo o corpo da mulher que o do homem, é talvez porque à contemplação puramente estética desse corpo se substituiu o desejo dele. Se alguns homens anormais (por excepcionais) acham mais belo o corpo do homem, é talvez ainda porque à contemplação puramente estética desse corpo se substituiu o desejo dele. A preferência estético-sexual do homem pela beleza feminina é explicada pelo génio da espécie: pela previsão da natureza. Só do abraço da mulher e do homem nascerão filhos do homem. A preferência estético-sexual de alguns homens pela beleza masculina ainda não foi explicada; apesar das várias hipóteses. Mas é facto existir, e ser tão natural a esses homens como à generalidade deles a preferência oposta. Em uns e em outros, o desejo sexual perturba a sensualidade puramente estética. Uns e outros são homens. Nem duns nem de outros se pode esperar um juízo imparcial de esteta. (...) Na base da Arte magnífica de António Botto está toda a sua fatalidade de homem. (...) Tanto mais que falo dum Poeta que ousou ser como é (isto é, homossexual): O que sempre louvo num verdadeiro Poeta - porque o verdadeiro Poeta eleva tudo em que fala; e de resto, é sempre o que é quer o queira quer não». (José Régio)

Vieram dizer-me
Que te condóis
Da vida que vou levando
Desde o nosso rompimento.

Não tenhas pena,
- Sou feliz a cada hora,
E mais, a cada momento.

Acabei. Nada me fica
na lembrança
Para que eu no tumulto insondável do amor
me possa prender
Ao prazer de lembrar seja o que fôr.

Cuidavas que eu acordaria,
Doido, à procura de ti,
Pelos clubes onde vive
A tua inconfundível,
Latente, neurastenia?

E afinal, -
Tão diferente, tão outro,
me encontras, hoje, abraçado
Ao desconforto e à ruína
Duma ilusão
Que apenas deu luz, - doirando
O nosso primeiro dia.

Agora, -
Entretenho-me com essas
Que a trôco dum vil amplexo
Dão-nos o mundo num beijo...

De quantas misérias, quantas?,
Foi feito o nosso desejo!

Esquece-me. Quero andar
Ao sabor do meu instinto
Cultivado na desgraça.

O amor -
Deixa um travo, mas passa.

Não tenhas pena.
Do alto do meu aprumo,
Desafio a tua verve...

Para morrer, -
Qualquer logar,
Qualquer corpo,
E qualquer bôca me serve! (António Botto)


Não conheço a fundo a poesia de António Botto, mas sei que ela nos fala do lugar da homossexualidade masculina. José Régio e João Gaspar Simões dedicaram-lhe dois estudos interessantes, tendo publicado alguns dos seus poemas na revista Presença. O estudo de José Régio, do qual saquei a citação em epígrafe, é deveras surpreendente e importante, mais pelo seu contributo à psicologia das masculinidades do que pelo seu contributo propriamente estético. José Régio aborda as atracções sexuais masculinas em termos muito actuais: o seu conceito de preferência estético-sexual corresponde àquilo a que chamamos hoje orientação sexual. Em termos estritamente estéticos, José Régio parece exigir um juízo estético imparcial que esteja para além e acima da atracção sexual pela beleza feminina ou pela beleza masculina. Mas a sinceridade de António Botto cativou-o: o poeta ousou dizer o nome do seu amor, sendo na sua obra o que foi na sua vida: um homem homossexual que cantou a beleza do corpo masculino jovem. Hoje, na biociência do comportamento, é usual dizer que as sexualidades de género masculino são mais rígidas do que as sexualidades de género feminino. Os estudos confirmam esta diferença sexual, mas as anomalias que começam a ser observadas nos estudos de campo apontam noutra direcção, como se hoje compreendêssemos melhor a homossexualidade masculina do que a própria heterossexualidade masculina. A homossexualidade masculina, pelo menos o tipo mais efeminado, é mais rígida do que a heterossexualidade masculina: os homens heterossexuais são mais fluídos nas suas experiências sexuais do que os homens homossexuais. Noutros textos, tentei tematizar de forma provocante esta diferença inter-masculina dizendo que os homens portugueses tendem a ser "paneleiros" ou, como preferia chamá-los Natália Correia, "mariquitas", independentemente da sua orientação sexual. Esta hipótese pode ser generalizada com segurança a todos os homens latinos: a busca de suporte empírico para esta hipótese é fundamental para a clarificação futura dos mecanismos genéticos e neuro-hormonais responsáveis pela orientação sexual. O facto da atracção sexual do homem pela beleza feminina ser explicada pelo génio da espécie rouba-lhe logo à partida a sua potencial carga erótica, o que, no cenário da vida contemporânea, pode significar que a libertação das mulheres está a afastar os homens delas, levando-os a explorar novas fontes de prazer sexual. (A libertação das mulheres poderá ter libertado os homens da heterossexualidade normativa que castrava a sua expressão sexual omnívora!) Os fenómenos de dissociação sexual-afectiva começam a ser muito frequentes, exibindo uma grande variedade de combinações exóticas. Fiquei com a impressão - que ainda não sei explicar - de que José Régio considera que toda a exaltação masculina da beleza feminina é pura hipocrisia. De facto, a análise de conteúdo dos léxicos eróticos masculinos revela que o corpo que os homens mais admiram é o próprio corpo masculino, o seu ou o dos outros, e das estruturas desse corpo a mais admirada é o pénis: o homem (sexo masculino) é o ser que, por natureza, está apaixonado pelo seu próprio pénis (De Sousa, 2006). Há nesta apreciação um interesse claramente homossexual: o narcisismo psico-sexual converte-se em homossexualidade quando o homem deixa de manifestar interesse sexual no sexo oposto. Forjei o termo heterossexuais exóticos para designar esses homens heterossexuais - auto-intitulados "bicuriosos" - que fazem sexo com outros homens: quanto maior o número de atributos hipermasculinos - corporais e comportamentais - revelados pelos homens, maior será a sua propensão para variar e diversificar a sua "ementa sexual". (O culto de corpos musculados é já uma indicação de claro interesse homossexual. Que o digam os brasileiros que povoam os ginásios portugueses! Os homens gay têm razão quando chamam "barbies" aos homens musculosos, porque eles - tal como as mulheres - se comportam como se fossem "mercadorias-fetiches" muito desejadas no mercado sexual que valoriza os seus atributos-maquilhados-artificiais. Na hora da verdade, em vez de exibir o instrumento masculino, exibem as nádegas, para frustração total dos seus parceiros sexuais. Como estou divertido, vou contar uma pequena "história-caso": Ontem, no decorrer da minha ciberpesquisa, conheci um homem gay dos Açores. Ele exibia o seu físico e, como simpatizou comigo, pedi-lhe para mostrar a "língua marota". Puro veneno de pesquisador! Ele mostrou e acabou também por mostrar a cara: o olhar confirmou a minha suspeita. O homem-músculo era mais passivo do que activo, ou, como dizem, versátil. Mas bastou usar um perfil do tipo "homem-activo" para a sua versatilidade se converter em pura passividade, de resto já visível na exibição das nádegas. Curiosamente, este homem gay passivo tinha um corpo masculino, exibindo pilosidade corporal abundante e barba espessa bem amparada, para já não falar das mãos e das dimensões do pénis: o que sugere a existência de abundante testosterona livre durante o desenvolvimento pré-natal que masculinizou as estruturas corporais, sem ter acesso - como é evidente! - ao cérebro que permaneceu feminino. Suspeito que, se fosse vivo, Kees van Dongen pintaria hoje, preferencialmente, a artificialidade de mulher da vida das barbies masculinas! Pelo menos, já pintei dois quadros onde mostro esse mundo!) A hipótese que formulei - e para a qual já tenho evidência empírica disponível - tende a destacar o carácter masculino da sexualidade e do erotismo, o que já foi confirmado por centenas de estudos experimentais e estatísticos. Mas, tal como Abel Salazar, tendo a achar que há "algo" na mulher latina que não atrai os homens, como se elas funcionassem como um tampão que se coloca entre eles e a sua própria masculinidade. Serão as mulheres latinas castradoras da masculinidade dos "seus" próprios homens? Para todos os efeitos, a exaltação latina da beleza feminina é hipocrisia!


Anexo: Houve um tempo em que a homossexualidade masculina era associada a um nível elevado de inteligência e de cultura. Mas, neste nosso tempo indigente e decadente, os homens homossexuais desistiram do cultivo da sua mente, preferindo deambular pelos urinóis, pelas estações de serviço, pelas dunas das praias periféricas e por outros lugares escuros, onde se entregam ao sexo ocasional. Os homens homossexuais já não são agentes culturais, mas vagabundos sexuais que desconhecem a obra dos seus antepassados com a mesma orientação sexual. O capitalismo tardio embruteceu de tal modo a sociedade e os seus membros que liquidou não só a imaginação que permite sonhar novos mundos para o homem, mas também a memória que zela pela lembrança do sofrimento passado. Um sistema social vagabundo como o capitalismo - governado por essas mulheres travestidas de homens que são os economistas! - gera os seus próprios vagabundos que o deixam reproduzir-se em paz, como se fossem zombies desmemorizados e destituídos de imaginação. O capitalismo só conhece um tempo: o tempo da gratificação imediata que permite aos seus zombies viver o presente como uma sucessão contínua de momentos de gratificação. A busca do lucro a curto prazo leva o capitalismo a esquecer o passado e a não ser capaz de antecipar o futuro: o capitalismo é auto-destrutivo. E, desde que entraram na via do consumo, os portugueses ficaram mais burros do que já eram nos tempos sombrios de Salazar. As "bichas" hetero, homo e bi - empenhadas na busca frenética de novos parceiros sexuais - já não lêem, tendo por isso perdido o contacto com a poesia gay produzida em Portugal, tanto por António Botto como pelas músicas de António Variações. Os "mariquitas" portugueses tornaram-se inúteis e, caso Portugal venha a ser invadido, eles, em vez de pegar em armas para combater o inimigo, irão oferecer-lhe o buraco enorme que é Portugal. Portugal é uma imensa bunda que perdeu a sensibilidade! Oh, que bunda feia, hirsutista, insensível e insaciável, onde tudo cabe sem a saciar!

J Francisco Saraiva de Sousa

terça-feira, 26 de julho de 2011

Henri Bergson: Matéria e Memória

«Essa relação do espírito com o corpo, embora constantemente tratada ao longo da história da filosofia, foi na realidade muito pouco estudada. Se deixarmos de lado as teorias que se limitam a constatar a "união da alma e do corpo" como um facto irredutível e inexplicável, e aquelas que falam vagamente do corpo como um instrumento da alma, não restarão outras concepções da relação psicofisiológica que a hipótese "epifenomenista" ou a hipótese "paralelista", tanto uma como outra conduzindo na prática - quero dizer, na interpretação dos factos particulares - às mesmas conclusões. Quer se considere, com efeito, o pensamento como uma simples função do cérebro e o estado de consciência como um epifenómeno do estado cerebral, quer se tome os estados do pensamento e os estados do cérebro por duas traduções, em línguas diferentes, de um mesmo estado original, tanto num caso como no outro coloca-se em princípio que, se pudéssemos penetrar no interior de um cérebro que trabalha e assiste ao fogo cruzado dos átomos que formam o córtex cerebral, e se, por outro lado, possuíssemos a chave da psicofisiologia, saberíamos em detalhe tudo o que se passa na consciência correspondente.» (Henri Bergson)

Passei quase toda a noite a sonhar com um estudo extenso que se intitulava Ontologia Social e Fenomenologia da Consciência. Nos meus sonhos, os estudos que realizo estão já escritos: eu leio e volto a ler para reter os conceitos e as ideias fundamentais. Quando acordo, decido se devo registar materialmente essas ideias ou se as deixo fluir na minha consciência até que finalmente o tempo se encarrega do seu arquivamento automático. Porém, o sonho desta noite foi demasiado consciente e eu próprio alterei diversas vezes o texto para o articular com o pensamento de alguns filósofos que deixaram marca na minha matriz teórica, pura consciência-memória que não sossega nem sequer durante o sono. Henri Bergson que me tem ocupado nos dois últimos dias não esteve presente neste sonho, pelo menos não foi convocado quando reescrevi o texto onírico. Os filósofos convocados estiveram presentes no meu espírito, mas não os referi no texto: a primeira versão do texto onírico nomeava figuras nacionais medíocres que eu apaguei para as eliminar de vez. Apagar um nome no texto onírico tem efeitos reais na vida das figuras interpeladas por esse nome: o meu desejo-acto foi matá-las e aguardo o momento em que a sua morte será anunciada. Poucos são os mortais que têm acesso à memória infinita. Mas mais difícil do que o acesso é a alteração do "texto infinito": apagar um nome é condená-lo ao esquecimento, mais precisamente ao nada. O facto de ter alterado substancialmente o texto onírico, isto é, o texto da própria memória infinita, libertou-me da tarefa de voltar a registá-lo num texto escrito dirigido a mortais. Geralmente, quando, nos meus sonhos, a percepção que envolve o meu corpo como centro de acção se "mistura" teimosamente - contra a minha vontade-desejo - com as imagens da memória, como se estivesse acordado, sei que posso introduzir alterações no texto onírico. Desta vez, não me limitei a apagar nomes: o meu desejo-poder reescreveu um novo texto, onde o destino da humanidade está em jogo: apagar nomes e substituí-los por outros reconfigura o campo efectivo das forças políticas. Os nomes que convoquei representam forças que se movem contra as forças reais que operam neste momento na realidade material. Não consigo antecipar cenários reais de confronto e muito menos desfechos finais: o que sei é que a memória infinita está neste momento muito "fluída" - ou lábil, para homenagear a teoria da plasticidade neural de Ramón y Cajal! - e isto só acontece quando se operam mudanças reais na vida dos mortais. A utilização desta linguagem enigmática que parasitou a teoria da memória pura de Bergson visa ofuscar ainda mais a indigência mental e cognitiva dos mortais, meus contemporâneos: o seu apego mórbido à vida não lhes permite prestar a suficiente atenção à vida, de modo a merecer constar no texto infinito. Aquilo que os mortais mais temem será o seu destino final: um breve instante esquecido pela memória infinita.


Quando li pela primeira vez Bergson (1859-1941), Prémio Nobel da Literatura de 1927, era demasiado jovem, materialista e marxista para lhe dar o valor que ele merece: a leitura de A Evolução Criadora deixou-me completamente frustrado, não só por causa do uso exagerado de metáforas, mas sobretudo pelo facto de defender um vitalismo absolutamente contrário ao espírito da biologia molecular. A única obra de Bergson que nessa altura me seduziu foi O Riso: a teoria social do riso e do cómico de Bergson articulava-se facilmente com a filosofia de Marx. Porém, as críticas que lhe eram dirigidas pelos meus mestres - Horkheimer, Adorno, Althusser ou Lukács, por exemplo - fizeram com que eu adiasse a leitura integral de Matéria e Memória, de As Duas Fontes da Moral e da Religião, de Duração e Simultaneidade e do Ensaio sobre os Dados Imediatos da Consciência. A leitura das colectâneas de textos de Bergson - A Energia Espiritual e O Pensamento e o Movente - foi suficiente para me colocar a par das suas teorias fundamentais, sem exigir a leitura de todas as suas obras. O seu debate com Einstein fascinou-me e, de certo modo, foi ele que manteve Bergson na minha proximidade. Um filósofo que contestou a teoria da relatividade de Einstein - e Ilya Prigogine recuperou mais tarde aspectos cruciais da sua noção de duração! - merece o meu respeito e a minha simpatia, até porque não aprecio "vacas da ciência" consagradas pelos mass media. Mas o acontecimento que despertou o meu interesse renovado pela obra de Bergson foi a leitura da tese de doutoramento do meu orientador sobre a memória: Bergson era o alvo preferencial da sua crítica materialista. O meu neuro-reducionismo era e é favorável ao espírito que move essa crítica neuro-redutora. Porém, depois de ter lido e relido a obra de Bergson, aprendi a dar-lhe o valor que merece: as críticas que lhe dirigem não acertam no alvo, esquecendo o conteúdo social das suas teorias, precisamente o aspecto que cativou a minha mente teórica. O eu social de Bergson é um conceito demasiado precioso para ser descartado em nome de um materialismo a-social, profundamente individualista, como se o indivíduo fosse anterior à sociedade. Quase todas as teorias propostas para solucionar o problema mente-cérebro, com excepção das teorias marxistas ou influenciadas pelo marxismo, as de Vygotsky ou de Mead, por exemplo, negligenciam a natureza social da mente e do próprio cérebro: o próprio Bergson esqueceu-se dela quando escreveu Matéria e Memória, onde aborda a união entre o corpo e o espírito, mediante a formulação da sua teoria da consciência-memória: «a lembrança representa precisamente o ponto de intersecção entre o espírito e a matéria» (Bergson). As neurociências acusam a teoria da memória pura de Bergson de ser anti-localizacionista: a "memória das palavras" - mas não a memória motora, a memória-hábito - não pode ser localizada no cérebro. Ao fazer esta afirmação, Bergson não está a negar a existência de "solidariedade entre o estado de consciência e o cérebro": o que Bergson rejeita é a equivalência entre o estado psicológico e o estado cerebral, afirmando que o estado psicológico ultrapassa enormemente o estado cerebral. Matéria e Memória é uma obra demasiado difícil, complexa e rica para poder ser resumida em poucas palavras: toda a obra procura distinguir a verdadeira memória - a realidade concreta de um espírito que vive e que dura - dos mecanismo cérebro-espaciais de conservação e de repetição, com os quais os neurocientistas a confundem. Para Bergson, o estudo das afasias mostra que estas perdas da recordação das palavras - apesar de serem condicionadas por lesões orgânicas - não implicam o paralelismo estrito entre o orgânico e o mental: os pacientes afásicos não perdem a recordação das palavras; o que perdem é a possibilidade de exprimir ou de traduzir em palavras as imagens do seu passado. Assim, o cérebro não é o lugar onde se conservam ou se guardam as recordações, mas o instrumento da sua actualização e da sua tradução material. É certo que Bergson rejeitou a localização cerebral da memória para salvaguardar a teoria unitarista da mente, mais o seu suplemento espiritualista, mas a sua crítica ajudou a aperfeiçoar a noção de localização e a dar mais atenção à complexidade da organização cerebral: a localização cerebral constitui o instrumento privilegiado usado pelo programa materialista de investigação para anular e liquidar a teoria unitarista da mente. Karl Lashley que estudou, na primeira metade do século XX, a localização da memória em ratos, retirando diferentes regiões do córtex cerebral, não conseguiu refutar a teoria de Bergson: esse "mérito" coube a Brenda Milner que estudou o paciente amnésico H.M., cujo interior do lobo temporal de ambos os lados do cérebro, incluindo o hipocampo, foi removido - em 1953 - pelo cirurgião William Scoville, numa tentativa desesperada de tratar a sua epilepsia. H.M. livrou-se da epilepsia, mas ao preço de uma perda de memória devastadora, que o tornou incapaz de converter uma nova memória de curto prazo numa memória permanente de longo prazo. (Esta distinção entre memória de curto prazo e memória de longo prazo deve-se a William James.) Mas não é sobre isso que pretendo falar, nem sequer especular sobre a reacção de Bergson perante um doente de Alzheimer: o meu neuro-reducionismo é, tal como o de Sperry, moderado, e, enquanto homem que vive a sua existência num mundo medularmente hostil, prefiro escutar a voz humana dos filósofos-sábios, em vez da voz rouca dos cientistas que procuram anular a diferença humana - a posição especial do homem - no reino animal. Teixeira de Pascoaes, o poeta-filósofo portuense, acusou o clericalismo científico de ser tão intolerante quanto o clericalismo religioso, mas foi ainda mais longe quando acusou o darwinismo de fazer do homem um "mero macaco" (orango): Henri Bergson teve o mérito inegável de não permitir tratar o homem como um zombie, porque tratar o homem como um zombie é fazer dele efectivamente um zombie: «Assim, quer a consideremos no tempo ou no espaço, a liberdade parece sempre lançar na necessidade raízes profundas e organizar-se intimamente com ela. O espírito retira da matéria as percepções que serão o seu alimento, e devolve-as à matéria na forma de movimento, onde imprimiu a sua liberdade» (Bergson). Foi preciso que os homens começassem a agir como os cães de Pavlov para vermos o perigo real das teorias que lhes recusam a sua humanidade e a sua liberdade: a função da Filosofia é, neste mundo de zombies, salvar o "pedaço" de humanidade que ainda resta nestas criaturas anestesiadas e/ou alucinadas. 

J Francisco Saraiva de Sousa

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Um embrião mecânico?: Filosofia Embriológica


«A generatio aequivoca, em virtude da qual se entende a produção de um ser organizado através da mecânica da crua matéria, (é algo impossível).» (I. Kant)


Estudei embriologia a partir do clássico tratado de Embriologia Médica de Jan Langman. Hoje, graças aos avanços tecno-científicos da biologia molecular, a embriologia faz parte integrante da biologia do desenvolvimento, um dos ramos mais fantásticos das ciências biomédicas. Devo confessar que a teratologia - o estudo do embrião patológico ou das malformações congénitas do embrião - me fascinava quando comecei a estudar a embriologia, não tanto pelo facto das figuras embrionárias monstruosas satisfazerem a minha curiosidade natural pelo mórbido, mas sobretudo pelo facto do pathos - o anormal, o monstruoso - despertar e condicionar o meu interesse teórico pelo normal, como se a vida só se revelasse à minha consciência através das suas infracções, fracassos dolorosos e inadaptações. Porém, o meu interesse teórico pelo desenvolvimento embriológico só adquiriu forma consistente através da leitura dos artigos, bem como da obra Embryos and Ancestors (1958), de Gavin de Beer que clarificavam o alcance dos factos embriológicos sobre o problema da evolução, a partir da utilização feita por Darwin das leis de von Baer para mostrar a importância da embriologia na determinação das afinidades dos organismos. O estudo do desenvolvimento do embrião humano não é nada fácil, nem para o biólogo ou médico, nem para o filósofo. A história da teoria atómica da matéria encontra-se intimamente ligada à história do pensamento biológico. Dado o seu carácter não teleológico, o atomismo grego constituía um obstáculo para o pensamento biológico, tendo desencadeado uma reacção de desprezo em três grandes nomes da biologia: Aristóteles, Galeno e Harvey. O atomismo de Leucipo e de Demócrito não só ofendia a intuição biológica de Aristóteles, como também era totalmente adverso à metafísica teleológica que discutiu - durante quase duas décadas - na Academia de Platão. Como era possível uma teoria atómica da embriologia? Convencido de que o mundo inteiro era um embrião gigante, Aristóteles defendeu que as explicações do macrocosmos eram suficientes para compreender o desenvolvimento do microcosmos. Aristóteles não fazia nenhuma distinção real entre a física e a biologia: ambas eram aspectos de uma única ciência da natureza e os seus mundos tendem para um fim. O predomínio do paradigma embriológico no pensamento aristotélico manifesta-se desde logo na sua noção de movimento, elaborada a partir do desenvolvimento do organismo: o actual antecede o potencial significa que a galinha é antes do ovo ou que o homem é anterior à criança. Todo o desenvolvimento é desenvolvimento para um fim: a análise embriológica do conceito de causa em Aristóteles mostra claramente a prioridade dada ao adulto sobre o embrião e a idade juvenil. Aristóteles ridicularizava todos aqueles que, como os atomistas, sugeriam que as formas do corpo vivo se desenvolviam por acaso ou coincidência: as especializações corporais não eram obra do acaso, mas resultado de um processo de desenvolvimento activado pela forma (morfologia): a forma adulta desloca e faz mover a forma juvenil, a actualidade arranca a crisália do meramente potencial, originando a implementação do que existe em potência. A biologia aristotélica é uma fabulosa construção teórica que serviu de referência a todo o pensamento biológico posterior. E foi, para a defender do assalto mecanicista, que Maupertius (1756) rejeitou todas as explicações fisicalistas do desenvolvimento embrionário, alegando que a formação de um corpo organizado não pode ser explicada pelas propriedades físicas da matéria. A ideia de um embrião mecânico - o fio condutor deste estudo - chocava não só a sensibilidade de Aristóteles como também a sensibilidade dos seus inúmeros discípulos, de Galeno até Driesch, passando por Harvey e Maupertuis.

Teoria da epigénese de William Harvey. William Harvey descobriu a circulação do sangue e, juntamente com René Descartes, é considerado como um dos fundadores da moderna fisiologia. Mas a sua ligação a Aristóteles não lhe permitiu ir tão longe quanto Descartes na formulação de uma fisiologia mecanicista. No campo da embriologia, Harvey conservou uma perspectiva profundamente aristotélica: a convicção de que o raciocínio teleológico é fundamental para o conhecimento da embriologia atravessa toda a obra que dedicou ao estudo do desenvolvimento - Exercitaciones de Generatione Animalium (1651), onde descreveu o desenvolvimento embrionário não só de mamíferos e de vertebrados, mas também de todo o reino animal. A sua descrição do desenvolvimento do embrião da galinha ainda merece ser revisitada, bem como a sua visão de que todas as formas vivas derivaram inicialmente de ovos, omne vivum ex ovo. De certo modo, com esta visão geral, Harvey antecipou no século XVII a famosa declaração de Virchow no século XIX: omnis cellula e cellula. Para clarificar a sua teoria epigenética do desenvolvimento, vou traduzir livremente um texto de Harvey, onde reconhece a sua dívida em relação a Aristóteles: «Tão-pouco estão menos enganados aqueles que fazem todas as coisas de átomos, como Demócrito, ou de elementos, como Empédocles. Como se a Geração não fosse nada no mundo, mas uma mera separação ou Colecção ou Ordem de Coisas. Em definitivo, não nego que, para a Produção de uma coisa a partir de outra, sejam necessárias essas coisas que mencionei, mas a Geração em si é uma coisa bastante diferente de todas elas. (Aristóteles é desta mesma opinião) e eu próprio procuro elucidá-la a cada instante, que todas e cada uma das partes do pinto, quer se trate de Ossos, Mandíbulas, Carne ou o que quer que seja, são procriadas e alimentadas a partir da mesma Clara de Ovo. Além disso, aqueles que argumentam desta maneira - os atomistas - assinalam somente uma causa material, deduzindo as causas das Coisas Naturais de uma involuntária e causal concorrência dos elementos ou de diversas disposições ou realizações de Átomos; não alcançam o que se encontra fundamentalmente implicado nas operações da Natureza e na Geração e Nutrição dos animais, a saber o Agente Divino e Deus da Natureza, cujas operações são dirigidas pelo Supremo Artífice, Providência e Sabedoria, e todas as obras tendem para um determinado fim e todas são produzidas para algum bem certo.» A abordagem de Harvey dos fenómenos embriológicos é epigenética: os órgãos do galo ou da galinha adultos formam-se progressivamente, surgindo a partir de uma «clara de ovo» inicialmente indiferenciada. Os sucessores de Harvey abandonaram esta perspectiva epigenética e, com a ajuda do microscópio, aplicaram o esquema da fisiologia mecanicista ao estudo do desenvolvimento embrionário.

Teoria da preformação. Durante a segunda metade do século XVII, os embriologistas começaram a utilizar o microscópio para observar os fenómenos embriológicos: as suas observações microscópicas deram início a uma controvérsia científica que durou quase um século. No centro desta controvérsia científica, estava a compreensão do modo como os organismos se reproduzem: Como surge um novo indivíduo da união dos seus progenitores? Era o sémen do macho que dava forma à matéria indiferenciada da fêmea, como defendiam Aristóteles e os seus sucessores escolásticos? Ou a mãe também contribui para a formação da sua descendência, como defendiam Hipócrates, Empédocles e Demócrito? O sistema reprodutivo tinha sido estudado com grande interesse no decurso dos séculos XV e XVI que protagonizaram a ressurreição da anatomia: Leonardo da Vinci realizou brilhantes investigações anatómicas do corpo humano, e Fallopio, além de ter dado o seu nome às trompas de Falópio, forjou, em 1561, os termos "vagina" e "placenta". O mestre de Harvey, Fabricio, investigou o feto e o desenvolvimento dos ovos das aves. Os folículos ováricos foram descritos pela primeira vez por Steno e de Graaf em 1672, e, em 1676, Leeuwenhoek expôs as suas observações de «imensas quantidades de animalzitos vivos» no fluído seminal humano perante o auditório da Royal Society. Em 1862, von Baer forjou o termo "espermatozóide" para designar a estranha população de pequenos animais fecundos observada por Leeuwenhoek. Apesar da observação da fertilização (fecundação) de um ovo (óvulo) pelo espermatozóide só ter sido realizada por Hertwig em 1875, a comunidade científica e filosófica, logo após as comunicações de de Graaf e de Leeuwenhoek, já estava convencida de que um tal acontecimento estava na raiz da reprodução sexual, sendo levada a questionar a pertinência das noções aristotélicas e escolásticas da concepção. Quando e como intervinha a alma para dar forma ao embrião em desenvolvimento? Se o sémen era composto por pequenos animais fecundos, todos eles e cada um deles transportavam a alma? E, se fosse assim, donde tinham obtido tão preciosa carga? Ter-lhes-á sido oferecida no acto inicial da criação, aguardando desde então a sua oportunidade para viver no macrocosmos, ou era antes o ovo que continha o princípio vital? Swammerdam (1669, 1737), um entomologista versado no uso do microscópio, defendeu a ideia de que o insecto perfeito jaz plenamente formado dentro da pele da ninfa e da crisália. Para Swammerdam, a larva não passava primeiro a crisália e, depois, a crisália a animal com asas: o que ele observava era que o próprio animal, mudando a sua pele, se constituía primeiro em ninfa ou crisália e depois em animal adulto com asas, tal como sucedia com os girinos. Todo o processo de desenvolvimento se resumia nos conceitos de preformação, preexistência e emboîtement: o adulto formava-se em virtude da expansão das partes já formadas. Em 1694, Hartsoeker desenhou um homúnculo espermático para ilustrar o conceito de que o homem completo se encontrava em miniatura dentro de um espermatozóide. Porém, nem todos os preformacionistas eram animaliculistas: os ovulistas observavam ao microscópio indivíduos minúsculos no interior dos folículos. Bonnet (1769), Malebranche (1672) e Leibniz (1714) ajudaram a expandir e a difundir a teoria da preformação, seduzindo todos os cientistas com inclinações teológicas que a utilizavam para justificar o pecado original. Aliás, a melhor descrição da articulação entre preformação e emboîtement encontra-se na obra-prima de Malebranche: «Uma só semente de maçã contém todas as maçãs e todas as macieiras de uma infinidade ou quase infinidade de séculos». Para Malebranche, a primeira fêmea de cada espécie continha dentro de si todos os indivíduos subsequentes da sua respectiva espécie.

Quando bem pensados, os conceitos de emboîtement e de preformação continham sérias dificuldades internas, a primeira das quais era de ordem teológica: Se cada animalículo, cada ovo que se observava ao microscópio, continha de facto um homem ou uma mulher perfeitamente acabados, esperando simplesmente o seu crescimento para tomar parte nos assuntos do grande mundo, que seria feito dos incontáveis animalículos e ovos que não conseguiram entrar no mundo? Estariam condenados estes minúsculos homens e mulheres a morrer sem terem nascido? O optimismo do século XVIII recusava um tal destino cruel, preferindo elaborar teorias fantásticas para dar uma nova oportunidade aos inúmeros ovos e espermatozóides que não tinham sido bem-sucedidos. Uma dessas teorias supunha que eles escapavam para a atmosfera, onde hibernavam até voltar a ser chamados para desfrutar da sua oportunidade na competição por um lugar sobre a terra. Além desta dificuldade de fundo que atormentava a teologia, havia outras dificuldades mais mundanas, das quais destacamos três relativas à explicação dos híbridos, da regeneração e dos monstros. Como é que a teoria da preformação poderia explicar os híbridos, a regeneração e os monstros? A comunidade científica sabia que a descendência era semelhante aos dois progenitores. Então como explicar este facto óbvio a partir do conceito de preformação? Perrault invocou a imaginação materna, sugerindo que esta podia afectar de algum modo a abundância de alimentação recebida pelo homúnculo em crescimento. Apesar de ser surpreendentemente exótica, a explicação de Perrault foi aceite até aos finais do século XVII. (E penso que, no campo da medicina veterinária, foram feitas observações invulgares em cadelas que apontam para um fenómeno idêntico à imaginação maternal, que provavelmente terá uma explicação psico-neuro-hormonal.) A comunidade científica sabia que, quando se corta a cauda a um lagarto, ela volta a crescer de novo, e que, quando um caranguejo perde uma pinça, ela regenera-se. Como explicar estas observações à luz da teoria da preformação? Os preformacionistas dispunham de duas explicações: uma delas seria considerar que se formavam nestas partes germes tão pequenos que podiam ser distribuídos sem ser vistos por todo o corpo do animal. Reamur (1741) elaborou a ideia de uma alma divisível em paralelismo com o corpo divisível para explicar a regeneração, mas acabou por reconhecer que o problema não tinha solução à luz do conceito de preformação. Quanto ao nascimento de monstros, fenómeno bem conhecido pela comunidade científica, a teoria da preformação procurou explicá-lo a partir de um acidente do processo de crescimento ou como consequência de uma enfermidade. Porém, a própria ocorrência de nascimentos monstruosos constituía uma afronta à crença da omnipotência de Deus que proporcionava à teoria da preformação - tão próxima das escolas teológicas da predestinação! - grande parte da sua força psicológica. Apesar dos factos biológicos não se submeterem ao seu esquema conceptual e à sua ideia-força de que a estrutura e a organização do adulto estavam já presentes no embrião, a teoria da preformação vigorou durante quase um século, tendo dominado a mente dos embriologistas desde a descoberta dos espermatozóides (1672) até aos anos 60 do século XVIII. O facto de concordar com a teoria teológica da predestinação e com as tendências da filosofia mecanicista da época ajuda a compreender o seu sucesso entre os membros da comunidade científica: o conceito de um embrião mecânico permitia pensar a embriologia em conformidade com os princípios da fisiologia mecanicista predominante. O conceito de desenvolvimento embrionário como escalada de crescimento de uma máquina (inicialmente) em miniatura só foi abandonado quando a filosofia mecanicista começou a declinar em meados do século XVIII, tendo sido substituída pelas filosofias românticas da natureza. A Naturphilosophie que se desenvolveu no início do século XIX contra a visão mecanicista do mundo teve um impacto enorme sobre a embriologia: o conceito de matéria inerte que obedece às leis da mecânica cedeu o seu lugar à ideia de que a matéria continha um princípio elástico, vital ou mesmo divino, em contínuo funcionamento. Como não pretendo analisar os princípios fundamentais das filosofias da natureza, limito-me a chamar a atenção para o importante contributo biológico de Goethe, que, além de ter forjado o termo "morfologia" em 1786, deu início ao estudo da morfogénese - termo que só aparece em 1868, com a publicação da sua obra Sobre a Morfologia, a Formação e a Transformação dos Seres Orgânicos (1817-22).

Controvérsias científicas do século XIX. A teoria da preformação encontrou o seu ultimo paladino em Albrecht von Haller, que, no último volume da sua obra Elementa Physiologiae Corporis Humani (1766) afirma que a epigénese é absolutamente impossível - epigénesis omnino impossibilitis est. Curiosamente, antes de ser preformacionista convicto, Haller tinha sentido uma forte «inclinação pela epigénese», mas o seu trabalho sobre o desenvolvimento do coração dos galináceos (1758) levou-o a abraçar a teoria da preformação, cujos conceitos fundamentais foram destruídos por Gaspar Friedrich Wolff. A partir do estudo microscópico do embrião da galinha, Wolff distanciou-se da filosofia mecanicista do século XVIII para remontar a Aristóteles e a Harvey, de modo a demolir a teoria preformativa do seu contemporâneo Haller que desvalorizava - com a sua autoridade - a obra de Wolff, alegando que a razão pela qual ele não podia observar o galo ou a galinha em miniatura no ovo se devia ao baixo poder de resolução dos microscópios da época. Mas Wolff não se intimidou com a autoridade reconhecida de Haller e avançou com os seus argumentos contra a teoria da preformação: Se o embrião estivesse efectivamente preformado dentro do ovo, sendo invisível por causa do seu pequeníssimo tamanho, então, quando começasse a tornar-se visível, deveria aparecer já plena e perfeitamente formado. Para apoiar a sua hipótese e desmentir a hipótese adversária, Wolff estudou o desenvolvimento dos vasos sanguíneos do embrião da galinha: as suas observações mostraram que os vasos sanguíneos se desenvolveram através da fusão de certo número de «ilhas de sangue» inicialmente independentes umas das outras. Além disso, o intestino da galinha, longe de aparecer plenamente formado, desenvolve-se progressivamente mediante o enrolamento de uma lâmina de tecido sobre a superfície ventral do embrião. Estas e outras observações permitiram a Wolff generalizar as suas ideias para defender que, longe de estarem preformados, todos os órgãos do corpo adulto se desenvolveram através de uma epigénese similar. A teoria da epigénese ridicularizada por Haller lançou as bases da moderna embriologia - na sua versão clássica, claro!, ao mesmo tempo que inspirou a biologia romântica dos filósofos da natureza no início do século XIX: a noção preformista do corpo como uma espécie de máquina concluída no momento da criação, latindo através das gerações até ao juízo final, era demasiado tosca para servir como paradigma explicativo do processo vital.

Com a entrada da embriologia no século XIX, a teoria da preformação sofreu um golpe mortal graças à obra de Karl Ernst von Baer - Ueber Entwicklungsgeschichte der Thier (1828-1837). H. C. Pander, colega de von Baer, tinha realizado uma monografia (1817) sobre o desenvolvimento da galinha (frango doméstico), onde mostrava que um dos primeiros acontecimentos era a diferenciação da blastoderme em três camadas ou estratos de células: a endoderme (pele interna), a mesoderme (pele intermédia) e a ectoderme (pele externa), tal como as designamos hoje em dia (Remak, 1845). Von Baer generalizou a teoria das três camadas germinais de Pander para explicar o desenvolvimento dos vertebrados em geral, mas a sua análise do desenvolvimento embrionário deu um novo passo em frente ao frisar que ele vai do geral ao particular. O pinto começa por ser simplesmente um vertebrado, a seguir converte-se em vertebrado de respiração aérea, depois em ave, mais tarde em ave terrestre, logo a seguir em ave galinácea e, por fim, em frango doméstico. Apesar da proximidade com as ideias evolucionistas de Haeckel, em especial a sua teoria da recapitulação, convém dizer que von Baer nunca aceitou a teoria da evolução: a "lei biogenética" de von Baer - segundo a qual o embrião se diferencia a partir de um começo generalizado - foi elaborada para refutar o conceito de preformação, ou seja, a ideia de que o ovo ou o esperma contém em estado de latência um homúnculo perfeitamente diferenciado que aguarda o estímulo adequado para aumentar de tamanho. Mas, como sucede frequentemente na história das ciências, as vitórias nem sempre são definitivas. Em 1888, Wilhelm Roux, o fundador da embriologia analítica ou, como ele lhe chamou, entwicklungsmechanik, realizou uma experiência em que, após ter dividido uma célula do embrião da rã em duas células, observou que cada uma das células separadas desenvolveu um meio-embrião. Ora, tal como Aristóteles, Roux reduzia todo o conhecimento ao conhecimento das causas, mas, ao contrário do mestre grego, não levava em conta as causas finais, interessando-se unicamente pelas causas eficientes e pelas causas materiais. Por isso, interpretou os resultados da sua experiência à luz da mecânica do desenvolvimento: a anatomia do futuro organismo já estava desenhada na substância do zigoto e, talvez, na substância do ovo, o que dava novamente razão a Haller contra Wolff e von Baer. Porém, este recrudescimento serôdio da teoria da preformação foi efémero, porque, logo a seguir, se demonstrou que, se o blastómero dividido for separado do seu vizinho, este último se desenvolvia dando lugar a um embrião completo, ainda que só tivesse metade do tamanho normal: a ideia de Roux - a divisão do zigoto divide o homúnculo latente - estava completamente errada. Em 1892, Driesch, após ter realizado experiências sofisticadas sobre o embrião do ouriço-do-mar que lhe permitiram obter embriões normais de blastómeros divididos tomados das etapas de 2, 4, 8, 16 ou mesmo de 32 células da blástula deste animal, escreveu que a teoria de Roux das «áreas germinais formadoras de órgãos» deve «ser descartada, pelo menos na sua forma geral», voltando a dar a vitória à teoria da epigénese.

A enteléquia de Driesch e o paradigma psicológico. Jacques Monod criticou severamente os animismos e os vitalismos - o vitalismo metafísico de Bergson e vitalismo cientista de Driesch e de Elsässer, que pressupõem a hipótese inversa à da biologia molecular tal como a interpretou: em vez de encararem a aparição, a evolução e o aperfeiçoamento progressivo das estruturas cada vez mais intensamente teleonómicas como resultado de perturbações ocorridas numa estrutura possuindo já a propriedade de invariância, capaz de conservar o acaso e de submeter os seus efeitos ao jogo da selecção natural, os vitalismos defendem um princípio teleonómico inicial, do qual todos os fenómenos vivos seriam manifestações. Porém, Monod descarta-se do vitalismo de Hans Driesch, alegando que ele trocou a embriologia pela filosofia. Embora seja verdade que abandonou a biologia para ensinar filosofia em Leipzig, Driesch realizou experiências engenhosas sobre o embrião do ouriço-do-mar - alterando as posições relativas dos blastómeros - para elucidar os mecanismos em acção durante o desenvolvimento. No início, procurou proporcionar uma explicação mecanicista para as suas observações, tendo publicado em 1891 a sua obra Mathematico-mechanistic Investigation of the Problem of Morphology in Biology, mas, com o decorrer do tempo, deixou de acreditar que um mecanismo pudesse explicar os resultados do seu trabalho experimental. Quando apresentou as suas Gifford Lectures de 1907-08, publicadas com o título The Science and Philosophy of Organism, Driesch demonstrou que não havia nenhum mecanismo capaz de explicar os fenómenos da morfogénese. Para Driesch, a máquina era «uma configuração típica de constituintes físicos e químicos através de cuja acção se chegava a um efeito típico»: as suas experiências sobre o embrião do ouriço-do-mar destruíam claramente esta configuração maquínica, mostrando que a vida não podia ser vista como «uma disposição especializada de acontecimentos inorgânicos». A física e a química não eram aplicáveis à biologia. Para Driesch, a biologia era uma «ciência independente»: o factor - algo de imaterial que actua sobre os corpos materiais - de que eram dotados os organismos vivos e que nenhum objecto inanimado possuía era a enteléquia. Porém, o conceito de enteléquia não seduziu nenhum embriologista ou biólogo. Permanecendo fiel ao seu impulso cartesiano, a biologia continuava a aguardar a sua redução à química e à física. A embriologia experimental e analítica continuou o seu caminho em direcção a uma teoria mecanicista da epigénese, como testemunham os trabalhos de Hans Spemann e Theodor Boveri. Os embriologistas, em especial Boveri, sonhavam com o dia em que «a análise morfológica fosse levada até ao ponto em que os seus elementos últimos fossem entidades químicas específicas». Ora, esse dia sonhado por Boveri chegou, em plena metade do século XX, quando Watson & Crick (1953) descobriram a solução para a estrutura do ADN (ácido desoxirribonucleico), e Kendrew e Perutz decifraram as estruturas das primeiras proteínas globulares - a mioglobina e a hemoglobina. Em 1976, James D. Watson publicou a sua obra Molecular Biology of the Gene (3ª. Edição), uma das primeiras obras da biologia molecular.

Evolução da teoria da matéria e a embriologia molecular. A biologia molecular - tal como a definiu François Jacob (1966) - procura interpretar os fenómenos que se desenrolam no seio dos organismos vivos em função das estruturas e das interrelações funcionais que se manifestam entre os constituintes macromoleculares da célula. Não se trata tanto de uma nova ciência biológica, marcadamente molecular e celular, mas sobretudo de um novo paradigma científico (Kuhn) que orienta todas as pesquisas dos fenómenos biológicos, incluindo os fenómenos embriológicos, em todos os domínios das ciências biomédicas. Com a emergência da biologia molecular, aparece a embriologia molecular que se propõe dar conta da diferenciação embrionária em função das propriedades químicas e físicas das macromoléculas - ácidos nucleicos e proteínas - constitutivos de cada tipo celular, de modo a elucidar a morfogénese: Como é que um ovo fecundado, que recebeu os seus genes do seu pai e da sua mãe, pode dar origem a todos os órgãos que estão presentes no adulto? Nesta secção final, não pretendo elucidar - pelo menos de modo sistemático e exaustivo - o desenvolvimento embrionário em função deste novo paradigma da genética molecular: o meu objectivo é clarificar os passos fundamentais que possibilitaram o seu aparecimento, em ligação com a evolução da teoria atómica da matéria, sem perder de vista o fio condutor deste estudo - a concepção do embrião mecânico, o alvo do desdém de Aristóteles e de Galeno. A união da morfopoiesis e da química, que se tornou evidente no último terço do século XX, deve-se tanto ao desenvolvimento da química como ao desenvolvimento da biologia. O conhecimento da natureza das ligações químicas que ocorreu durante o século XX não só clarificou o modo como os átomos se unem para formar moléculas, como também destruiu o antigo antagonismo entre a física atómica e a biologia. Em 1897, J. J. Thomson descobriu os electrões e, em 1911, Rutherford demonstrou que eles davam voltas em órbita ao redor de um núcleo atómico central de carga positiva. Em 1913, Bohr publicou o seu modelo da estrutura electrónica dos átomos que só deixou de ser enigmático na década de 1920, quando de Broglie (1923) sugeriu que, tal como a luz, as partículas da matéria deviam exibir propriedades ondulatórias, além das propriedades corpusculares. Em 1926, Schroedinger desenvolveu a ideia de de Broglie numa teoria matemática: a mecânica ondulatória que introduz uma mudança radical na visão fisicalista do mundo, unificando a física das partículas e a física das ondas. Doravante, a matéria exibe tanto propriedades de ondas como propriedades corpusculares. Ao nível subatómico os fenómenos devem ser interpretados nuns casos como devidos a partículas subjacentes, e noutros casos como devidos a ondas subjacentes. Esta dualidade inscrita na própria matéria permite resolver a antiga dicotomia entre os átomos e o vazio: uma partícula pode ser considerada, para muitos propósitos, como algo que se estende no espaço como uma onda.

Ora, esta transformação das bases do pensamento físico alterou completamente a biologia: a mecânica ondulatória permite explicar as ligações entre os átomos para formar moléculas, o caso mais elementar de morfopoiesis, sem recorrer aos velhos modelos de átomos semelhantes a bolas de bilhar em miniatura. A imagem newtoniana de partículas sólidas, maciças, consistentes, impenetráveis e móveis dá lugar à imagem de uma gota de líquido: a noção de que os átomos - as ondas de electrões associadas aos electrões valência, se unem ou se fundem para abraçar o núcleo dos átomos implicados harmoniza-se com a ideia morfológica da forma orgânica. As moléculas da vida - as biomoléculas - podem ser visualizadas, não como um emaranhado de partículas discretas impenetráveis, mas como formas tridimensionais complexas cuja densidade varia de uma parte a outra. A descoberta das estruturas tridimensionais da hemoglobina e da mioglobina (M. F. Perutz, 1962) selou o destino da biologia: a imagem do mundo de Demócrito reformulada pela nova física triunfou em todos os domínios da biologia, não só no domínio da morfologia e da anatomia, onde emergiu a biofísica, e no domínio da fisiologia, capturado pela bioquímica, mas também no domínio da embriologia. O antagonismo exibido por Aristóteles, Galeno, Harvey e Maupertuis em relação ao atomismo de Demócrito foi resolvido a favor deste último: Como é possível um embrião mecânico? A resposta requer - como é evidente! - o mecanismo adicional da evolução darwiniana: as proteínas globulares enrolam-se automaticamente nas suas complexas configurações tridimensionais quando são colocadas no meio físico-químico adequado. Neste caso, a morfopoiesis resulta da interacção de múltiplas forças físicas de curto alcance. Além disso, as moléculas biológicas consistem num determinado número de subunidades que se empurram umas às outras até ligarem entre si as superfícies complementares. Também neste aspecto a morfopoiesis surge unicamente de interacções físicas. A seguir temos a formação de estruturas consistentes em duas espécies de moléculas diferentes, tal como sucede na morfogénese de componentes celulares. Nos ribossomas e nos vírus (elementos genéticos móveis), as espécies moleculares implicadas são proteínas e ácidos nucleicos. O caso do bacteriófago T4 que infecta a E. coli - estudado por Wood & Edgar (1967) - ajuda-nos a compreender esta capacidade de morfogénese espontânea. Este vírus bacteriano - abreviadamente, fago - compreende uma cabeça, uma cauda, um plano de cauda e filamentos de cauda: a cabeça possui uma espiral de ADN contida dentro de uma cápsula de proteínas globulares. Quando parasita uma bactéria, o bacteriófago injecta-lhe o seu ADN que, uma vez dentro da célula hospedeira, começa a programar a maquinaria de síntese de proteína bacteriana de modo a que possam ser sintetizados também os novos componentes do vírus bacteriófago. Dos cem genes que estão presentes na cabeça do bacteriófago, quarenta desses genes parecem estar profundamente envolvidos na morfogénese e são eles que programam a síntese dos componentes bacteriófagos. O facto destes componentes se ligarem de forma espontânea mostra que, mesmo a este nível mais complexo, a morfogénese se deve simplesmente a forças físico-químicas. A biologia molecular abriu uma brecha profunda no sistema aristotélico: investigar o desenho dos componentes morfopoiéticos é investigar os mecanismos da evolução molecular. O curso temporal do processo morfogenético é explicado em termos da rede complexa de circuitos moleculares de controle que se desenvolveram dentro da célula, onde operam a vários níveis, desde o mecanismo de retro-alimentação de Jacob e Monod que controla a expressão da informação genética até ao nível em que essa informação é «traduzida» na estrutura das moléculas de proteína, para já não falar dos controles que governam a quantidade de metabolitos sintetizados. Todo este sistema integrado de controles assegura a organização do processo de morfogénese, ao mesmo tempo que permite à célula adulta operar como um sistema integrado. Deste modo, graças à cibernética e à teoria do controle, o carácter teleológico dos processos vivos que tanto impressionou os biólogos e os filósofos da natureza começa a ser explicado em termos de sistemas integrados de controle, sem recorrer às causas finais de Aristóteles, isto é, a um princípio teleonómico inicial. Jacques Monod resumiu tudo isto nesta feliz expressão: «a invariância precede necessariamente a teleonomia». Ou, como prefere dizer S. E. Luria: «A vida é diferente de todos os outros fenómenos naturais: ela tem um programa», inscrito numa substância única - os genes.

Chegámos ao fim deste estudo da evolução das ideias e das teorias da embriologia ao longo dos últimos quatro séculos. Falta-nos dar uma resposta a esta pergunta: o que aconteceu com a controvérsia entre preformacionistas e epigeneticistas depois que surgiu a embriologia molecular? Hoje vemos que os dois campos do debate tinham, cada um deles, alguma razão. É certo que as células germinais não contêm um homúnculo plenamente formado, mas contêm, inscrita no seu ADN, uma representação do plano básico deste homúnculo. O embrião não surge de um protoplasma homogéneo e não-estruturado, mas se diferencia a partir de um material indiferenciado que está sob o controlo de instruções internalizadas nas moléculas de ADN. Os séculos XVIII e XIX careciam de uma apreciação das ciências dos computadores e da informação, que hoje já não nos permitem considerar os processos embriológicos como milagres que escapam ao esquema conceptual da física.

J Francisco Saraiva de Sousa