Na segunda metade do II milénio antes da nossa era, surgiram na Mesoamérica os primeiros centros cerimoniais, principalmente em La Venta e San Lorenzo, nos actuais Estados de Tabasco e Veracruz, adornados com pirâmides e palácios construídos em redor de praças cobertas com mosaicos: o povo misterioso que transformou a estrutura social do México vivia na região costeira do Golfo do México. Nesta terra quente e húmida abundava a borracha, razão pela qual os seus habitantes foram chamados "olmecas", que significa "povo da borracha" - "povo del bule" - em náhuatl, a língua dos astecas. Antes do seu desaparecimento em 400 a.C., os olmecas já tinham difundido a sua cultura por uma extensa área da Mesoamérica, desde o vale do Balsas até El Salvador e a Costa Rica, do litoral do golfo até às montanhas de Oaxaca e ao litoral do Pacífico. Pirâmides e altares, estelas esculpidas, baixo-relevos, jades e jadeístas cinzelados e, sobretudo, a escrita hieroglífica e a contagem do tempo: eis os traços essenciais que os olmecas legaram a todas as grandes civilizações do período clássico do México. A descoberta desta primeira civilização não foi um triunfo repentino da arqueologia: o significado dos primeiros vestígios da civilização olmeca permaneceu durante muito tempo sem ser compreendido. Em 1840, John Lloyd Stephens - um explorador norte-americano - descobriu e descreveu os maias da selva do Petén guatemalteco e da Península de Yucatán no México. Os especialistas e o público inteligente convenceram-se - durante um século - que os maias tinham sido os fundadores da civilização mexicana. Vinte anos depois de Stephens ter publicado a sua magnum opus sobre os maias, José María Melgar descobriu em 1862 a primeira cabeça colossal de pedra olmeca que pesava aproximadamente vinte toneladas: as feições negróides dessa cabeça não tinham nenhuma relação com qualquer objecto maia conhecido, mas, em vez de identificar uma nova cultura, Melgar procurou dar apoio às teorias sobre os navegadores negros que tinham supostamente visitado a América. A revelação da cultura olmeca foi adiada - ou melhor, esquecida - até que, em 1905, Eduard Seler - um estudioso alemão - sugeriu que essa cabeça era produto de uma cultura mais universal cuja área de influência não se limitava ao litoral da costa do Golfo. Os novos objectos olmecas descobertos durante esse período não geraram muitos comentários entre os especialistas. Franz Blom - antropólogo dinamarquês - e o jovem norte-americano Oliver La Farge descobriram em 1925 La Venta, o sítio arqueológico olmeca mais importante, juntamente com Tres Zapotes e San Lorenzo, donde desenterraram uma segunda cabeça e onde descobriram o grande altar de pedra - o Altar 4 -, mas a obsessão maia que lhes impregnava a mente impediu-os de identificar uma nova cultura anterior à civilização maia. Marshall H. Saville - director do Museum of the American Indian de New York - foi o único que abordou, num estudo publicado em 1929, estas novas descobertas como parte de uma nova cultura a que deu o nome de "olmeca". A cultura olmeca adquiriu uma nova dimensão universal - não confinada à quente e húmida costa do sul de Veracruz - quando George Vaillant - conservador do American Museum of Natural History de New York - descobriu em 1928 uma pequena orelheira de jade com a figura de uma besta agachada, metade homem e metade jaguar, que recordava exactamente o que Blom tinha achado em La Venta: as formas artísticas olmecas estavam imbuídas pelo culto ao jaguar. A descoberta de relevos de tipo olmeca em Chalcatzingo, no Estado de Morelos, confirmou logo a seguir a natureza panmexicana da misteriosa nova cultura que os especialistas procuravam ignorar. Matthew W. Stirling - arqueólogo - desempenhou nos estudos olmecas o mesmo papel que Stephens tinha desempenhado em relação aos maias um século antes. Em 1939, Stirling descobriu na base do montículo maior de Tres Zapotes uma estela - a estela C - com uma fileira vertical de números de barras e pontos, que aparentemente registava uma data mediante o método utilizado pelos maias. No lado oposto da pedra havia uma máscara de jaguar muito estilizada, tipicamente olmeca: Stirling descobriu que os números da pedra registavam uma data 260 anos anterior à mais antiga data esculpida em qualquer monumento de um sítio maia. Escolas de pensamento opostas discutiram o problema colocado pelas descobertas de Stirling: a causa olmeca foi defendida por dois mexicanos, Alfonso Caso e Miguel Covarrubias. Em 1942, a Sociedad Mexicana de Antropología realizou uma mesa redonda para discutir a prioridade histórica da cultura olmeca em relação à cultura maia. Embora os especialistas estivessem dispostos a aceitar que os olmecas eram, na realidade, a primeira civilização do México, Eric S. Thompson defendeu energicamente o seu povo preferido - os maias, tendo conseguido com a sua argumentação hábil e erudita fazer recuar Stirling. Porém, em 1957, o laboratório da Universidade de Michigan confirmou a maior antiguidade dos olmecas: o carbono 14 mostrou que as datas para La Venta iam de 800 a 400 a.C. A cultura olmeca acabou por triunfar e impor-se a toda a comunidade científica graças à utilização da técnica de radiocarbono. Sobre a civilização olmeca - a primeira grande civilização da Mesoamérica - aconselho os seguintes livros: Bernal, Ignacio (1968). El Mundo Olmeca. México: Ed. Porrúa.domingo, 13 de junho de 2010
Civilização Olmeca
Na segunda metade do II milénio antes da nossa era, surgiram na Mesoamérica os primeiros centros cerimoniais, principalmente em La Venta e San Lorenzo, nos actuais Estados de Tabasco e Veracruz, adornados com pirâmides e palácios construídos em redor de praças cobertas com mosaicos: o povo misterioso que transformou a estrutura social do México vivia na região costeira do Golfo do México. Nesta terra quente e húmida abundava a borracha, razão pela qual os seus habitantes foram chamados "olmecas", que significa "povo da borracha" - "povo del bule" - em náhuatl, a língua dos astecas. Antes do seu desaparecimento em 400 a.C., os olmecas já tinham difundido a sua cultura por uma extensa área da Mesoamérica, desde o vale do Balsas até El Salvador e a Costa Rica, do litoral do golfo até às montanhas de Oaxaca e ao litoral do Pacífico. Pirâmides e altares, estelas esculpidas, baixo-relevos, jades e jadeístas cinzelados e, sobretudo, a escrita hieroglífica e a contagem do tempo: eis os traços essenciais que os olmecas legaram a todas as grandes civilizações do período clássico do México. A descoberta desta primeira civilização não foi um triunfo repentino da arqueologia: o significado dos primeiros vestígios da civilização olmeca permaneceu durante muito tempo sem ser compreendido. Em 1840, John Lloyd Stephens - um explorador norte-americano - descobriu e descreveu os maias da selva do Petén guatemalteco e da Península de Yucatán no México. Os especialistas e o público inteligente convenceram-se - durante um século - que os maias tinham sido os fundadores da civilização mexicana. Vinte anos depois de Stephens ter publicado a sua magnum opus sobre os maias, José María Melgar descobriu em 1862 a primeira cabeça colossal de pedra olmeca que pesava aproximadamente vinte toneladas: as feições negróides dessa cabeça não tinham nenhuma relação com qualquer objecto maia conhecido, mas, em vez de identificar uma nova cultura, Melgar procurou dar apoio às teorias sobre os navegadores negros que tinham supostamente visitado a América. A revelação da cultura olmeca foi adiada - ou melhor, esquecida - até que, em 1905, Eduard Seler - um estudioso alemão - sugeriu que essa cabeça era produto de uma cultura mais universal cuja área de influência não se limitava ao litoral da costa do Golfo. Os novos objectos olmecas descobertos durante esse período não geraram muitos comentários entre os especialistas. Franz Blom - antropólogo dinamarquês - e o jovem norte-americano Oliver La Farge descobriram em 1925 La Venta, o sítio arqueológico olmeca mais importante, juntamente com Tres Zapotes e San Lorenzo, donde desenterraram uma segunda cabeça e onde descobriram o grande altar de pedra - o Altar 4 -, mas a obsessão maia que lhes impregnava a mente impediu-os de identificar uma nova cultura anterior à civilização maia. Marshall H. Saville - director do Museum of the American Indian de New York - foi o único que abordou, num estudo publicado em 1929, estas novas descobertas como parte de uma nova cultura a que deu o nome de "olmeca". A cultura olmeca adquiriu uma nova dimensão universal - não confinada à quente e húmida costa do sul de Veracruz - quando George Vaillant - conservador do American Museum of Natural History de New York - descobriu em 1928 uma pequena orelheira de jade com a figura de uma besta agachada, metade homem e metade jaguar, que recordava exactamente o que Blom tinha achado em La Venta: as formas artísticas olmecas estavam imbuídas pelo culto ao jaguar. A descoberta de relevos de tipo olmeca em Chalcatzingo, no Estado de Morelos, confirmou logo a seguir a natureza panmexicana da misteriosa nova cultura que os especialistas procuravam ignorar. Matthew W. Stirling - arqueólogo - desempenhou nos estudos olmecas o mesmo papel que Stephens tinha desempenhado em relação aos maias um século antes. Em 1939, Stirling descobriu na base do montículo maior de Tres Zapotes uma estela - a estela C - com uma fileira vertical de números de barras e pontos, que aparentemente registava uma data mediante o método utilizado pelos maias. No lado oposto da pedra havia uma máscara de jaguar muito estilizada, tipicamente olmeca: Stirling descobriu que os números da pedra registavam uma data 260 anos anterior à mais antiga data esculpida em qualquer monumento de um sítio maia. Escolas de pensamento opostas discutiram o problema colocado pelas descobertas de Stirling: a causa olmeca foi defendida por dois mexicanos, Alfonso Caso e Miguel Covarrubias. Em 1942, a Sociedad Mexicana de Antropología realizou uma mesa redonda para discutir a prioridade histórica da cultura olmeca em relação à cultura maia. Embora os especialistas estivessem dispostos a aceitar que os olmecas eram, na realidade, a primeira civilização do México, Eric S. Thompson defendeu energicamente o seu povo preferido - os maias, tendo conseguido com a sua argumentação hábil e erudita fazer recuar Stirling. Porém, em 1957, o laboratório da Universidade de Michigan confirmou a maior antiguidade dos olmecas: o carbono 14 mostrou que as datas para La Venta iam de 800 a 400 a.C. A cultura olmeca acabou por triunfar e impor-se a toda a comunidade científica graças à utilização da técnica de radiocarbono. Sobre a civilização olmeca - a primeira grande civilização da Mesoamérica - aconselho os seguintes livros: Bernal, Ignacio (1968). El Mundo Olmeca. México: Ed. Porrúa.sexta-feira, 11 de junho de 2010
Civilização Asteca: Uma Cronologia
quarta-feira, 9 de junho de 2010
Humanismo Quetzalcoatliano
A Serpente Emplumada - tradução literal de quetzal (pássaro) e cóatl (serpente) - é, pela sua singularidade e profusão, o símbolo das antigas culturas mesoamericanas. Em 1345, os astecas fundaram Tenochtitlán: o seu guia espiritual era a mensagem humanista de Quetzalcóatl, o grande profeta americano, ou melhor, o primeiro homem que se converteu em deus - não é um deus encarnado - para ajudar os seus semelhantes a orientar a sua existência na direcção do aperfeiçoamento espiritual e moral num mundo instável e entrópico. O pensamento náhuatl observa a ordem objectiva a partir da sua materialidade, sem se deixar aprisionar pela inércia aparente dessa ordem material: o homem pode libertar-se das ligações naturais que o aprisionam aos seus limites mortais, mediante o desenvolvimento da faculdade da reflexão. A Filosofia de Quetzalcóatl foi reconstruída e analisada de modo brilhante por Laurette Séjourné: os astecas adoptaram os ensinamentos de Quetzalcóatl como base moral da sua sociedade, mas usaram as suas leis de aperfeiçoamento interior para legitimar uma sangrenta razão de Estado: a união mística com a divindade, que o indivíduo só pode alcançar gradualmente mediante uma vida de contemplação e de penitência, passou a ser determinada pela maneira como se morre: o sacrifício humano, a transmissão da energia humana - o sangue - ao Sol. A revelação exaltante da Unidade eterna do espírito converteu-se em princípio de antropofagia cósmica: a libertação do eu diferenciado realiza-se assim por meio do assassinato ritual que fomenta as guerras.
Sobre a civilização asteca - a minha civilização pré-colombiana preferida - recomendo a leitura das seguintes obras:
Anawalt, Patricia (1981). Indian Clothing before Cortes: Mesoamerican Costumes from the Codices. Norman, Okl: University of Oklahoma Press.
Bray, Warwick (1968). Everyday Life of the Aztecs. New York: Putnam.
Brundage, Burr Cartwright (1972). A Rain of Darts. Austin, Texas: University of Texas Press.
Caso, Alfonso (1971). El Pueblo del Sol. México: Fondo de Cultura Económica.
Davies, Nigel (1974). The Aztecs. New York: Putnam.
Davies, Nigel (1980). The Toltec Heritage. Norman, Okl: University of Oklahoma Press.
Davies, Nigel (1982). The Ancient Kingdoms of Mexico. London: Penguin Books.
Duverger, Christian (1978). L'Esprit du Jeu chez les Aztèques. Paris: Mouton-EHESS.
Duverger, Christian (1979). La Fleur Létale: Économie du Sacrifice Aztèque. Paris: Éditions du Seuil.
Gibson, Charles (1964). The Aztecs under Spanish Rule. Stanford, California: Stanford University Press.
Hunt, Eva (1977). The Transformation of the Humming Bird. Ithaca, London: Cornell University Press.
Katz, Friedrich (1966). Situación Social y Económica de los Aztecas durante los Siglos XV y XVI. México: Universidad Nacional Autónoma de México.
León-Portilla, Miguel (1983). Toltecáyotl: Aspectos de la Cultura Náhuatl. México: Fondo de Cultura Económica.
Porter Weaver, Muriel (1972). The Aztecs, Maya and their Predecessors. New York: Seminar Press.
Ricard, R. (1933). La Conquête Spirituelle du Mexique. Paris: Institut d'Ethnologie.
Sanders, William T., Jeffrey R. Parsons & Robert S. Santley (1979). The Basin of Mexico: Ecological Processes in the Evolution of a Civilization. New York: Academic Press.
Séjouné, Laurette (1957, 1993). Pensamiento y Religión en el México Antiguo. México: Fondo de Cultura Económica.
Séjouné, Laurette (1959). Un Palacio en la Ciudad de los Dioses. México: Fondo de Cultura Económica.
Séjourné, Laurette (1962, 1993). El Universo de Quetzalcoatl. México: Fondo de Cultura Económica.
Simoni-Abbat, Mireille (1976,1988). Os Astecas. Porto: Vertente.
Soustelle, Jacques (1940). La Pensée Cosmologique des Anciens Mexicains. Paris: Hermann.
Soustelle, Jacques (1955, 1956). La Vida Cotidiana de los Aztecas en Vésperas de la Conquista. México: Fondo de Cultura Económica.
Soustelle, Jacques (1966). L'Art du Mexique Ancien. Paris: Arthaud.
Soustelle, Jacques (1967). Les Quatre Soleils. Paris: Plon.
Soustelle, Jacques (1970, 1983). Les Aztèques. Paris: PUF.
Sullivan, Thelma D. (1976). Compendio de la Gramática Náhuatl. México: Universidad Nacional Autónoma de México.
Vaillant, Georges (1951). Les Aztèques du Mexique. Paris: Payot.
J Francisco Saraiva de Sousa
terça-feira, 8 de junho de 2010
Jaime Cortesão e os Descobrimentos Portugueses
«A interpretação do passado, muito mais quando abrange um largo teatro e época de acção, supõe uma filosofia subjacente. A nosso ver, a história não obedece apenas a um determinismo geográfico e económico. Não ignoramos que a trama comum do passado é tecida pelo esforço dos homens, na luta quotidiana com a natureza e sob o acicate das necessidades primárias. Negar, porém, a parte das aspirações espirituais e da criação individual na história é reduzi-la a um arremedo inumano de ciência. /Sobre a talagarça da infra-estrutura económica, moldada por sua vez pelo meio geográfico, cujo estudo de conjunto historiador algum, digno do seu tempo, pode dispensar, as grandes correntes espirituais e as fortes personalidades que as encarnam, bordaram o íris das crenças religiosas, dos novos conceitos da ciência e da filosofia, das múltiplas expressões das artes, ou a marca das vontades poderosas, ao serviço dos interesses próprios ou gerais, tanto maiores e mais fecundos quanto mais o individual se fundiu com o colectivo. /Uma escola moderna, eivada de sentido geométrico, tem procurado resolver os problemas da história como se fossem teoremas, filtrando as suas averiguações através dum fino e complicado crivo de análises críticas, números, gráficos e estatísticas, abolindo as individualidades do seu relato e ignorando por sistema que todos os ideais participam da fé e toda a progressão humana representa um processo do espírito e uma conquista da liberdade. Por via de regra, os historiadores desse tipo afadigam-se no trabalho meritório de apuramento e discussão das fontes, mas esquecem-se de subordiná-las, como dizia Benedetto Croce, à fonte suprema, à autoridade da consciência humana, historicamente viva e activa. /Nessa escola de historiografia não enfileiramos. Acreditamos, sim, que os descobrimentos portugueses, se obedecem a factores geográficos e económicos - verdade indiscutível -, participam dum longo processo espiritual, que visa, tanto como o conhecimento científico do planeta e o seu enquadramento no Universo, a sagração religiosa da natureza e da vida, a humanização e a libertação das consciências - gesta dolorosa e épica cujas fontes e referências supremas são a História Trágico-Marítima e Os Lusíadas». (Jaime Cortesão) Prós e Contras: Crescer e Vencer a Crise
Prós e Contras debateu hoje (7 de Junho) a inovação e o empreen-dedorismo, tendo como convidados Rui Moreira, Mira Amaral, António Souza-Cardoso e António Gomes Mota, para além de um conjunto de empresários da alta tecnologia. O princípio organizativo subjacente a este debate articulou universidades, tecnologia e ideias diferentes e originais. Eu não simpatizo com o termo empreendedorismo e, se o empreendedor for um empresário que corre riscos, no sentido clássico do termo, então confio mais nos empresários natos do que nos empreendedores formados nas escolas ou nas universidades. É certo que o empreendedorismo - a iniciativa privada - é um dos caminhos a seguir para superar a crise e colocar Portugal na via do crescimento económico e do desenvolvimento cultural, mas nem todas as iniciativas dos empreendedores merecem a mesma atenção: algumas das ideias apresentadas pelos tecno-empresários neste debate-exposição lançam-nos no abismo, porque empobrecem e liquidam a humanidade dos homens. A articulação da inovação e da gestão é quase sempre uma aliança terrível: o modelo económico que a suporta deve ser combatido se quisermos dar continuidade à aventura humana neste planeta azul. Mas, antes de avançar neste terreno da sociedade dos empreendedores, pretendo introduzir novo material conceptual. Há dois paradoxos - dois pensamentos de ladrão de colarinho-branco - que quero denunciar: o primeiro é negar a realidade da sociedade de classes, ao mesmo tempo que se fala da emergência das classes médias e das suas camadas sociais avaliadas em função dos rendimentos (1), e o segundo é ver na China o modelo de desenvolvimento a seguir por Portugal e pela Europa (2). Aqueles que preconizam estes pensamentos são os ladrões de colarinho-branco que, sendo formados nas escolas de economia e de gestão, desejam garantir a sua rápida ascensão social, apoderando-se para o efeito dos órgãos de decisão política, económica e financeira e auto-atribuindo-se salários e prémios ultramilionários: são homens sem qualidades e sem sensibilidade que reduzem a sociedade e a cultura à gestão, entregando-as à especulação do capitalismo financeiro. Na sua perspectiva, os empresários de risco e os trabalhadores não são necessários: eles precisam unicamente de consumidores de serviços e de bens que são importados da China. Os ladrões europeus de colarinho-branco identificam-se com o modelo chinês, não na sua capacidade de produção, mas no seu carácter autoritário. O capitalismo financeiro e o fascismo implicam-se reciprocamente, e, na actual conjuntura política, é a camada auto-elevada das classes médias que promove o fascismo: a sua noção de Estado é «asiática» e, como é evidente, o seu modelo de desenvolvimento é regressivo, porque implica um recuo social e civilizacional. O PS e o PSD movem-se neste terreno da apologia das classes médias: eles governaram Portugal nos últimos 30 anos e o resultado da sua acção governativa é a situação de corrupção e de miséria em que estamos mortalmente mergulhados. A denúncia destes dois pensamentos de ladrão de colarinho-branco coaduna-se com a perspectiva de Rui Moreira. Com excepção das empresas de sucesso, os tecno-empreendedores, pelo menos um ou outro deles, procuram vender ao Estado as suas "descobertas": a ideologia da carreira garantida (Gomes Mota) casa-se aqui com a ideologia do empreendedorismo garantido pelo Estado. As duas ideologias comportamentais são as faces de uma só e mesma moeda: o medo de correr riscos, a aversão ao risco. Em Portugal, o risco não é premiado e, como disse Rui Moreira, sem risco não pode haver empreendedorismo. Rui Moreira articulou duas fobias nacionais para explicar a miséria nacional: o medo do risco e a fobia das elites ou fobia do mérito. O sistema estabelecido persegue a diferença: os portugueses colonizados pelo sistema nacional promovido pela burocracia estatal odeiam todos aqueles que se destacam pela diferença e pela originalidade, acusando-os de ser exibicionistas. O incremento da inveja que daí resulta penaliza o mérito e as elites criadoras: todos querem chegar à meta ao mesmo tempo e o Estado que promove esta falsa igualdade - a ignorância universal activa - interfere demasiado na rota dos navegadores, predefinindo alvos errados e monoculturas condenadas ao fracasso. Rui Moreira deu como exemplo o fracasso da fabricação da marca "Made in Portugal": a nossa economia especializou-se mais no fabrico de componentes do que de produtos acabados, mas no sector dos produtos acabados nunca conseguiu criar uma marca internacionalmente reconhecida. Os mercados externos ou até mesmo o mercado interno não acreditam nos portugueses e nos produtos que fabricam: a criação da marca "made in Portugal" estava desde logo condenada ao fracasso. As pessoas que já estiveram no estrangeiro sabem muito bem o que significa aí a palavra "Portugal": a desconfiança total e a falta de credibilidade. Dizer que se é português é uma vergonha: os portugueses têm vergonha de ser portugueses e são os primeiros a não confiar em Portugal. Quem não confia em si próprio não merece a confiança dos outros: a marca "made in Portugal" é desacreditada pelos próprios portugueses. Porém, os portugueses do Norte, em especial os portuenses, têm boas razões para desconfiar da marca nacional: Lisboa, a região mais endividada externamente, apropria-se daquilo que não lhe pertence - as empresas, os bancos e as pessoas do Norte que são responsáveis por 40% das exportações nacionais, em nome de uma falsa identidade nacional. Aliás, Fátima Campos Ferreira começou e terminou o debate a brincar com a tecno-mesa de uma empresa de Braga que lhe permitiu destacar os jogadores de futebol da selecção nacional pertencentes a clubes de Lisboa. (Precisamos de uma TV regional para promover os nossos e as nossas coisas.) Conforme acentuou António Souza-Cardoso, apesar do centralismo exacerbado da capital asteca, o Norte continua a estar na linha da frente. Centralismo lisboeta sem desenvolvimento regional harmonioso: eis a raiz da nossa agonia nacional que Rui Moreira tematizou em termos de burocracia estatal. Como quebrar este feitiço do Estado centralizado? A resposta só pode ser a regionalização ousada que, no que se refere ao Norte e ao Porto, deve evitar o êxodo das empresas, dos bancos e das pessoas para Lisboa, fazendo regressar para a nossa terra aquilo que nos pertence. Porém, deslumbrado com um modelo tosco de globalização, Souza-Cardoso preconizou a ideia peregrina de vender a nova geração lá fora: a terceira vaga de emigração portuguesa constituída por utensílios humanos multi-usos. A utopia marxista do Homem Total converte-se aqui no seu contrário: o anti-homem lançado num mercado de multi-empregos. Souza-Cardoso especula como se a natureza humana tivesse sofrido uma terrível mutação, porque, no seu modelo de globalização, a totalidade do homem já não é reduzida ao conjunto dos bens e dos serviços que consome, mas sim aos multi-usos a que se presta. A visão economicista do mundo é absolutamente néscia e lança-nos na boca da morte: a actual crise financeira e económica é a crise da própria "ciência económica" e da sua pretensão universal de controlar a totalidade da sociedade, da cultura, do homem e da natureza. De certo modo, a crítica da economia do hamburger e do empreendedorismo da necessidade exposta por Mira Amaral pode ser utilizada para destruir esta redução económica de Souza-Cardoso. Como podemos exportar criaturas metabolicamente reduzidas? Como podemos exportar aquilo que não temos e que precisamos? O fracasso da marca "made in Portugal" compromete o sonho de Souza-Cardoso: ninguém com juízo quer comprar portugueses habituados a demasiado conforto e a vida fácil. Investigação e inovação são coisas diferentes, como mostrou Mira Amaral: Portugal investiu alguma coisa na investigação, mas falta-lhe a inovação que Souza-Cardoso já quer exportar ou vender lá fora. A elevada taxa de mortalidade das empresas que apostam na inovação não surpreende Mira Amaral e Rui Moreira: a selecção faz o seu trabalho quando elimina os projectos não-competitivos. O desfile de empresários inovadores e a exibição dos seus produtos quebraram a unidade do debate: os portugueses contornam e suspendem as clivagens e as divergências, sem as quais não pode haver desenvolvimento. O que fica deste debate é a ideia de que, em Portugal, não há dinheiro para implementar as ideias originais (Rui Moreira), nem no campo da investigação, nem no campo da inovação: a mentira, as fogueiras das vaidades (a diplomacia económica promovida pelas viagens do PR e do PM) e as ilusões fazem de Portugal uma sociedade bloqueada. O imaginário radical de que precisamos para reinventar a nossa sociedade não pode ser preconizado e promovido pelas mesmas "moscas" que geraram a nossa desgraça nacional. J Francisco Saraiva de Sousadomingo, 6 de junho de 2010
Civilização Inca
Os Incas foram grandes construtores de cidades: a sua arte monumental inscreve-se na tradição arquitectónica das terras altas andinas que se iniciou em Kotos, em meados do II milénio, para se desenvolver na época Chavin e chegar ao apogeu na época Tiahuanaco. A tradição das terras altas caracteriza-se pelo uso da pedra como material de construção, uso este que a distingue da tradição do litoral que utilizava exclusivamente o adobe como material de construção. Cuzco foi construída como uma verdadeira metrópole, que cada imperador, pelo menos desde Pachacuti, procurou embelezar cada vez mais, aproveitando os recursos de mão de obra e de matérias primas que as suas conquistas lhes proporcionavam. Nas províncias submetidas ao domínio imperial, agrupavam uma parte da população em centros urbanos criados por eles. Os soberanos incas estavam de tal modo interessados no urbanismo que obrigavam os arquitectos a traçar em argila o plano das cidades ou dos edifícios que se propunham construir. A disposição regular das ruas que se cortavam em ângulo recto e desembocavam em praças testemunha essa preocupação urbanística: os incas possuíam um conceito racional da cidade modelo que era aplicado exclusivamente na construção dos centros religiosos, administrativos e militares. Os levantamentos topográficos das cidades incas, cujas ruínas subsistem até aos nossos dias, permitem vislumbrar o seu plano geral: grandes praças, ruas estreitas entrelaçadas como em tabuleiros de xadrez e blocos rectangulares encerrados, pelo menos na costa, dentro de muralhas. Muitas povoações mais não eram do que um conjunto de kancha, isto é, de grupos de três ou quatro casas dispostas no interior de um recinto rectangular. Nas imediações das cidades que obedeciam a um plano determinado, havia outras que cresciam um pouco ao acaso ao longo dos caminhos ou das estradas que conduziam ao centro ocupado pelos templos e palácios senhoriais. Muitas cidades indígenas eram um conjunto de edifícios públicos habitados por membros do clero e por funcionários públicos. O pessoal subalterno atribuído a estes dignatários ficava alojado em cabanas, das quais não resta nenhum vestígio arqueológico. Por isso, as ruínas de certos edifícios erguem-se no meio de lugares que parecem nunca ter sido habitados. Os recursos necessários para garantir o estilo de vida dos dignatários que viviam nestes centros religiosos ou administrativos provinham de povoações próximas. A capital Cuzco, com uma população de cerca de trezentos mil habitantes, era um mero conglomerado de vilas e burgos dispersos em redor dos templos e das residências reais e senhoriais. Depois da conquista espanhola, as vilas foram convertidas em paróquias independentes que, com o decorrer do tempo, se transformaram em bairros da cidade moderna, conservando as suas antigas denominações. A imponência das ruínas das cidades incas, bem como a sua beleza intacta observada por Pizarro e Pedro Sánchez de Hoz antes da sua destruição, dissimula a simplicidade das concepções arquitectónicas dos incas: os palácios, os templos e as residências senhoriais reproduzem numa escala mais grandiosa a humilde cabana do camponês quechua que subsiste nos vales andinos até aos nossos dias. Quatro muros de pedra ou de adobe (tijolo de terra seca ao sol), um tecto em ponta coberto de palha, uma porta e alguns nichos interiores: eis as características que os edifícios mais complexos partilham com as cabanas dos camponeses. A monotonia do plano e a severidade das fachadas eram compensadas pelos seus acabamentos quase perfeitos. Os melhores exemplos da obra dos incas encontram-se em Cuzco: os vestígios existentes são alicerces ou fundações sobre os quais foram construídos os edifícios coloniais. Os templos e os palácios eram construídos sobre um único nível, a partir de uma base rectangular. As pedreiras vizinhas forneciam a rocha, em especial a andesita, que era talhada por meio de instrumentos de cobre ou de bronze e depois cuidadosamente polida com areia húmida. Umas vezes a construção destes muros era feita de blocos poligonais irregulares que se ajustavam tão perfeitamente uns aos outros como as células de um tecido orgânico, de modo que não se podia introduzir uma agulha na sua junção. Outras vezes eram formados de blocos rectangulares dispostos em assentamentos ou fileiras regulares, cuja face externa, ligeiramente abaulada, apresentava o aspecto de uma almofada. Estes dois tipos de construções são contemporâneos e encontram-se combinados em numerosas estruturas arquitectónicas, particularmente nos templos e palácios. Um terceiro tipo de acabamento consiste em talhar pedras de maneira regular e encaixá-las tão cuidadosamente que oferecem à vista uma superfície lisa. A diversidade dos acabamentos explica-se pela finalidade dos muros: os grandes blocos irregulares eram utilizados para os muros dos terraços e dos recintos dos currais, enquanto o acabamento rectangular em andesita era utilizado para o corpo dos edifícios, servindo para enquadrar uma porta numa parede com desenho celular. O principal traço da arquitectura inca é a forma trapezóide dada às aberturas - portas, janelas e nichos, cuja viga, mais estreita que a base, repousa sobre braços oblíquos e convergentes. A maior parte dos edifícios incas era de uma única planta, mas em Machu-Picchu eram frequentes as casas de dois pisos. De modo excepcional, o templo de Viracocha tinha três pisos. Cuzco, que foi invadida em 1533 pelos espanhóis comandados por Pizarro, era rematada pela gigantesca fortaleza de Sacsahuaman. As fortalezas de Sacsahuaman e de Ollantaytambo (alto vale do Urubamba) são exemplos da arquitectura militar dos incas. O pukara - a praça forte - de Ollantaytambo era cercado por duas muralhas sucessivas que, como a tríplice rampa de Sacsahuaman, são formadas de blocos megalíticos em construção ciclópica. Os edifícios prendem-se ao flanco de uma colina natural dominada por uma torre enorme e, junto desta colina, estendia-se uma grande aglomeração da qual restam os alicerces. As casas dessa aglomeração e sobretudo as casas de Machu-Picchu demonstram o estilo inca de construção civil: a planta quadrangular, em função da qual se ordenavam, distinguia-as das habitações familiares de base circular que prevaleciam nos Andes, sobretudo no centro e no norte das terras altas. As suas paredes eram construídas com tijolos secos ou pedras brutas unidas com terra e sustentavam um telhado cujas águas formavam um ângulo acentuadamente agudo. A porta em trapézio, que frequentemente constituía a única entrada da casa, era vedada por uma cortina de pele, palha ou bambu. A arquitectura monumental dos incas difundiu-se nas províncias do Império, mas o mesmo não sucedeu com a sua arquitectura civil. As principais aglomerações urbanas que os incas edificaram no centro dos territórios conquistados foram, entre outras, Tumipampa, Cajamarca, Huánuco, Jauja, Huaytará e Vilcashuaman, muitas das quais funcionavam como centros administrativos, militares e cerimoniais, raramente ocupados por populações numerosas e estáveis. Estes centros, com excepção de Tambo Colorado no baixo vale de Pisco, não sobreviveram às guerras que acompanharam a invasão espanhola: os espanhóis saquearam e destruíram quase toda a obra dos incas. (De todos os colonizadores europeus os espanhóis foram os mais brutais, violentos, saqueadores e destruidores, talvez porque tenham sido confrontados com civilizações mais sofisticadas que a sua própria cultura. Os ingleses foram inteligentes e os portugueses - coitados dos portugueses! - nem sequer foram bons etnógrafos.) Sobre a civilização inca recomendo a leitura destas obras: Métraux, Alfred (1961). Les Incas. Paris: Éditions de Seuil.Civilização Maia
Os Maias elaboraram uma filosofia do tempo que merece ser estudada numa perspectiva filosófica: a preocupação obsessiva dos maias com os fenómenos temporais era profundamente mágico-religiosa. No seu calendário, cada dia era um deus e as divisões do tempo eram representadas como cargas transportadas às costas por uma hierarquia de carregadores divinos. Para os maias, o tempo era uma espécie de ronda em que várias séries de deuses - os dias, os meses e demais períodos temporais, os números e os astros - giravam eternamente, combinando em cada instante as suas respectivas influências para determinar o destino humano. A posse sacerdotal da chave do tempo era o instrumento mais poderoso de dominação no seio desta sociedade dirigida por uma teocracia: a vida quotidiana dos maias dependia da interpretação que os sacerdotes davam à passagem do tempo. Os presságios infaustos deviam ser transformados em realidades benéficas, mediante ofertas e sacrifícios, e, quando este controle mágico do rumo dos acontecimentos falhava, os maias atribuíam esse fracasso à decisão dos deuses. Tal como os astecas, os maias acreditavam que o mundo podia ser novamente destruído: a sorte da humanidade maia encontrava-se nas mãos dos sacerdotes, cuja missão era decifrar nos mistérios do céu os signos anunciadores da tragédia cósmica, de modo a tentar impedi-la. Neste imaginário de angústia permanente e de colapso geral iminente - em que a religião aprisiona a cultura e as suas forças criativas num círculo fechado - está incorporada uma ontologia hermenêutica que rivaliza com a que Heidegger tematizou em Sein und Zeit: a filosofia maia do tempo - a eternidade do tempo em contraste com o infinitesimal do homem - tem um carácter fatalista, porque, na sua ronda, os ciclos cronológicos voltam incessantemente a criar as mesmas circunstâncias astrológicas que causam, por sua vez, os mesmos acontecimentos humanos.
El Castillo de Chichén-Itzá (imagem), chamado Templo de Kukulcán, compreende uma majestosa pirâmide que serve de base a um templo a que se tem acesso por uma escadaria de cada lado. Motivos cronológicos determinaram a distribuição de certos elementos arquitectónicos: cada escadaria consta de 91 degraus, o que soma 364 para as quatro escadarias, e mais a plataforma superior para completar o número 365, equivalente aos dias do ano. Cada fachada da pirâmide compreende 9 corpos escalonados que a escadaria divide em dois, formando-se assim 18 secções, o número dos meses maias e mexicanos. Os muros da pirâmide apresentam painéis em relevo, cujo número é de 52 em cada fachada, correspondente ao número de anos no calendário tolteca. Debaixo deste templo foi descoberto outro mais antigo, mas também da época tolteca: na sua antecâmara descobriram-se esculturas denominadas "chacmool" e no santuário, um trono em forma de jaguar.
Sobre a civilização maia aconselho a leitura destes livros clássicos:
Thompson, J. Eric S. (1954, 1966). The Rise and Fall of Maya Civili-zation. Norman, Okla: University of Oklahoma Press. (Há tradução espanhola do Fondo de Cultura Económica.)
Morley, Sylvanus (1947). La Civilización Maya. México: Fondo de Cultura Económica.
Lhuillier, Alberto Ruz (1967, 1993). La Civilización de los Antiguos Mayas. México: Fondo de Cultura Económica.
Knorozov, Yuri (1956). La Escritura de los Antiguos Mayas. México: Instituto Cultural Mexicano-Ruso.
Kelley, David (1962). Fonetismo en la Escritura Maya. Estudios de Cultura Maya, vol. II.
Barrera Vásquez, Alfredo (1946). El Libro de los Libros de Chilam Balam. México: Fondo de Cultura Económica.
Stephens, John (1949). Incidents of Travel in Central America: Chiapas and Yucatan. New Brunswick: Rutger University Press.
J Francisco Saraiva de Sousa
sábado, 5 de junho de 2010
A Cidade do Porto, Eu e a Denise
«Efectivamente, a missão da arquitectura consiste em justapor ao espírito já existente, quer dizer ao homem ou às imagens de deuses por ele formadas e dele tendo recebido uma existência objectiva, a natureza exterior como um envolvimento através do qual a arte tem colhido no espírito os elementos que lhe permitem imprimir a este envolvimento um carácter de beleza; envolvimento que portanto não possui em si o seu próprio fim, mas o encontra no homem, com as suas necessidades e os seus fins, dimanando da vida da família, da vida do Estado, das necessidades do culto, etc., o que tira às construções toda a independência.» (G.W. Friedrich Hegel) A Denise publicou outro post, intitulado Francisco: Eu, a Cidade e o Mundo, onde explicita melhor a sua teoria da imagem da cidade, recorrendo à poética do espaço de Gaston Bachelard para a funda-mentar: «Gaston Bachelard sublinha o poder da repercussão e da ressonância sentimentais na criação de novas realidades que medeiam o sujeito e aquilo que lhe é exterior. Estas novas realidades resultam da transformação a que as coisas se sujeitam pela percepção de cada um de nós. Assim, as coisas passam a ser imagens» (Denise). A fenomenologia da imaginação de Bachelard partilha alguns traços comuns com a fenomenologia da consciência antecipadora de Ernst Bloch: o recurso a Bachelard abre-nos a via para outra perspectiva da imagem da cidade - a cidade do sonho e do espaço imaginário. O Porto Fantasia é a cidade dos sonhos diurnos de um mundo melhor dos seus habitantes, gravados e esculpidos em pedra e na rocha, não só dos seus habitantes ilustres como Júlio Dinis, Sampaio Bruno e Agustina Bessa-Luís, mas também dos seus habitantes anónimos: a história cultural portuense pode e deve ser contemplada sub specie spei. Os sonhos diurnos dos portuenses gravados no granito são de tal modo contagiantes que não degeneraram em ilusões ocas. O optimismo militante dos portuenses funda-se num imenso e grandioso sonho comunitário, que os liberta do quietismo e que lhes outorga o seu lugar próprio à frente e na frente do processo do mundo, onde se produz o novo. O Porto como Pátria da Identidade seria o ultimum: o cumprimento pleno e consumado de todos os sonhos de um mundo melhor.quarta-feira, 2 de junho de 2010
Reinventar a Sociedade Portuguesa
«Toda a sociedade (como todo o ser ou espécie viventes) instaura, cria o seu próprio mundo, no qual evi-dentemente "se" inclui. Do mesmo modo que para o ser vivo, é a "organização" própria (significações e instituição) da sociedade que postula e define, por exemplo, o que é para a sociedade considerada, "informação", o que é "ruído" e o que não é absolutamente nada; ou a "relevância", o "peso", o "valor" e o "sentido" da "informação"; ou o "programa" de elaboração de - e a resposta a - uma "informação" dada, etc. Em suma, é a instituição da sociedade que determina o que é e o que não é "real", o que "tem um sentido" e o que é desprovido dele. A feitiçaria era real em Salem há três séculos atrás, e hoje já não o é mais. "O Apolo de Delfos era, na Grécia, uma força tão real quanto qualquer outra" (Marx). Seria até mesmo superficial e insuficiente dizer que toda a sociedade "contém" um sistema de interpretação do mundo; e, ainda aqui, o termo "interpretação" é medíocre e impróprio. Toda a sociedade é uma construção, uma constituição, uma criação de um mundo, do seu próprio mundo. A sua própria identidade nada mais é que esse "sistema de interpretação", esse mundo que ela cria. É por isso que (da mesma forma que qualquer indivíduo) ela percebe como um perigo mortal qualquer ataque a esse sistema de interpretação; ela percebe-o como um ataque contra a sua identidade, contra si mesma». (Cornelius Castoriadis) Não pretendo expor a teoria da constituição imaginária da sociedade de Cornelius Castoriadis, mas, em vez disso, convocar o poder da imaginação para a tarefa política de criar uma nova instituição da sociedade portuguesa. Sei que é muito difícil ser conceptual designer num tempo indigente, mas é necessário fazer alguma coisa para que ele não se perca na sua própria indigência. A indigência do nosso tempo tem uma história filosófica que ainda não foi compreendida: eu associo-a ao abandono dos esforços da filosofia marxista da praxis para reformular o projecto da modernidade. Castoriadis teve o mérito de renovar o conceito aristotélico de praxis com o recurso à moderna consciência do tempo, de modo a captar o sentido original de uma política da emancipação: a praxis é essencialmente criativa. Orientada para o futuro, a praxis emancipatória produz algo novo, transformando a sociedade presente numa outra sociedade nova que, pela sua organização ou instituição, está orientada para a autonomia de todos, porque, segundo Castoriadis, ninguém pode querer seriamente a autonomia sem a querer para todos. Castoriadis elabora uma filosofia política e uma teoria da sociedade a partir desta noção renovada de praxis revolucionária, dirigindo o olhar para os momentos históricos em que a massa - o magma - da qual se formam instituições ainda está fluída: os momentos em que a sociedade instituinte assalta a sociedade instituída e cria outra sociedade instituinte. O que preocupa Castoriadis é fundamentalmente a fundação de novas instituições: o núcleo activo, vulcânico e produtivo na reprodução da sociedade encontra-se nesse momento em que se rompe e se quebra o tempo contínuo e se cria algo de radicalmente novo. O processo social mais não é que a criação contínua de novas formas sociais e a auto-instituição de mundos novos. O sujeito que se auto-institui não é o eu individual, como em Fichte, mas a sociedade instituinte que cria ex-nihilo um novo universo de significações: «A história é criação: criação de formas totais de vida humana. As formas sócio-históricas não são "determinadas" por "leis" naturais ou históricas. A sociedade é auto-criação. "Quem" cria a sociedade e a história é a sociedade instituinte, em oposição à sociedade instituída: a sociedade instituinte, isto é, o imaginário social no sentido radical. A auto-instituição da sociedade é criação de um mundo humano: de "coisas", de "realidade", de linguagem, de normas, valores, modos de viver e de morrer, objectivos pelos quais vivemos e outros pelos quais morremos - e, obviamente, em primeiro lugar e acima de tudo, ela é criação do indivíduo humano no qual a instituição da sociedade está solidamente incorporada». Castoriadis articula esta noção de sociedade enquanto instituição de um mundo com a praxis política que visa construir um modo de viver consciente de si, isto é, um modo de viver autónomo, capaz de possibilitar a verdadeira realização de si e da liberdade em solidariedade com os outros. Habermas apontou as dificuldades teóricas não resolvidas pelo modelo ontológico de sociedade de Castoriadis na sua articulação com uma praxis radical que visa criar uma sociedade autónoma, mas a conservação do paradigma da produção não é seguramente uma delas: o abandono do modelo da produção pela filosofia pós-moderna foi um erro terrível - teórico e político. Ao abandonar a produção, a filosofia legitimou a destruição do tecido produtivo operada no Ocidente pelo capitalismo financeiro e a sua deslocalização para as economias emergentes, alienando-se e pulverizando-se em modelos comunicacionais esquizofrénicos que perderam o bom-senso e o contacto com a "realidade" instituída pela sociedade de consumo. Aquilo que parece ser uma fraqueza de Castoriadis - a ausência de uma figura capaz de operar a mediação entre o indivíduo e a sociedade - constitui precisamente o núcleo de esperança de uma praxis radical: a subjectividade rebelde que, não se deixando socializar, rompe com a instituição social e a sua harmonia pré-estabelecida. A intersubjectividade de indivíduos socializados no e para o consumo daquilo que não produzem bloqueia a própria possibilidade de uma praxis radical: os mundos privados são colonizados e dominados pelo mundo público do consumo e da conversa improdutiva. Sem oposição entre psique e sociedade não pode haver praxis de transformação radical do mundo: as mónadas infantis que resistem à sua transformação em membros obedientes da sociedade instituída constituem naturalmente a reserva criativa de energia humana dotada de força suficiente para romper os consensos estabelecidos e procurar novos rumos de desenvolvimento social. A sociedade instituída e o seu mundo opõem uma poderosa resistência à mudança de paradigmas e esta inércia social do imaginário instituído só pode ser vencida por outra corrente do imaginário: o inconsciente individual, anterior à própria língua como meio construtor de mundos do imaginário social, cuja fantasia cria imagens de um mundo melhor e é dirigida por impulsos não-satisfeitos. Ernst Bloch distinguiu entre sonhos nocturnos e sonhos diurnos para salvaguardar o carácter inovador e criativo da esperança política: sonhar acordado é sonhar para a frente na direcção de um futuro novo que a praxis radical deve realizar. O alargamento da fronteira da pobreza (Adriano Moreira) do sul para o norte e a sua instalação em Portugal justifica a referência a Ernst Bloch: o impulso básico que move todos os outros instintos ou tendências e a docta spes não é o sexo mas a fome. Segundo Bloch, a utopia inscreve-se no núcleo quente da existência humana, cabendo à praxis subjectiva interpretar e realizar as possibilidades utópicas ainda-não-realizadas e resgatar as necessidades reprimidas da humanidade ao longo da sua história cultural. O sonho diurno que resgata as promessas não-cumpridas no passado é o sonho de uma vida melhor. O sonho diurno não se nutre da regressão a fantasias infantis, porque encara o modo como as coisas são e olha para a frente (der Traum nach Vorwärts), antecipando e projectando o futuro. Freud analisou a estrutura do sonho nocturno, cuja verdade emerge nas lembranças do passado primordial ontogenético e filogenético. Bloch procura captar a estrutura do sonho diurno na sua dupla face ou função: a face epimeteica que olha para trás e a face prometeica que olha para a frente. O sonho diurno tem um carácter intencional e projecta-se para o ainda-não-consciente como representação do ainda-não-existente. Quando a razão entra em jogo na escala da dinâmica teleológica, a esperança esclarecida - a docta spes - começa a florescer, deixando de ser um mero estado de ânimo para actuar de forma consciente como função utópica. O sonhar acordado supera as censuras do superego e conserva o seu conteúdo utópico, apoiando-se nas possibilidades do ser melhor. A ênfase blochiana na consciência antecipadora mostra que a possibilidade do ser melhor não resulta apenas da análise de determinadas condições objectivas da existência sócio-económica, mas constitui uma propriedade da consciência pura. Ao encarar o mundo como laboratorium possibilis salutis, Bloch distancia-se de Heidegger, para o qual a categoria central da experiência autêntica era a angústia. Porém, segundo Bloch, quando o homem descobre a categoria da possibilidade, a esperança torna-se um modo de experiência tão legítimo quanto a angústia. Perante uma possibilidade concreta, o homem responde com a esperança de que seja realizada e com a angústia de que não seja realizada. E, como a morte é inevitável, a possibilidade real não reside numa ontologia acabada do ser existente, mas sim na ontologia do ainda-não-existente: a esperança constitui o vértice em que convergem o elemento subjectivo e o elemento objectivo do processo do mundo. Entre o ser e o ter abre-se o mundo: a carência obriga o ser faminto a sair para fora de si, a definir uma meta e a antecipar o ainda-não-existente, traçando assim um arco do presente para o futuro. A necessidade ensina a pensar. A filosofia nasce da necessidade e, por isso, floresce com maior vigor intelectual nos momentos de crise profunda da sociedade, quando a conservação da própria vida está ameaçada: o ser faminto desperta para o pensamento crítico e deixa-se facilmente cativar pela tarefa de transformar o mundo, porque o seu desejo de algo como algo melhor se converte num querer fazer que a vanguarda consciente deve dirigir e canalizar para a luta contra os saciados que desistiram de pensar. A luta contra a fome é a luta contra a injustiça social: o que distingue a Esquerda da Direita é, desde logo ao nível da dinâmica teleológica das tendências, o seu esforço para saciar a fome de justiça dos famintos e dos carenciados. Entre a Esquerda e a Direita não pode haver compromisso: a Direita é a aliada da fome que a Esquerda visa abolir. O PS e o PSD acordaram recentemente um programa de austeridade que o governo socialista está a implementar para enfrentar as nossas dificuldades orçamentais, a nossa monstruosa dívida externa total e a nossa crise económica e social: o plano de austeridade exige enormes sacrifícios aos portugueses sem lhes garantir um futuro melhor. A história dos governos portugueses das últimas décadas é uma história da angústia e do medo deliberadamente infligidos ao povo português por classes dirigentes que não evitam políticas que possam ocasionar sofrimento, justificando-o em termos de necessidade técnica. Elas não ignoram o sofrimento que infligem ao povo português, mas procuram legitimá-lo usando esta fórmula: O acontecimento ou medida X irá provocar um terrível sofrimento a um vasto sector da sociedade portuguesa, geralmente às camadas sociais mais desfavorecidas, mas no final ele será benéfico porque possibilitará o acontecimento ou resultado Y. Os lideres europeus e portugueses comportam-se como abutres, não só porque vivem das agonias do passado, mas sobretudo porque as suas acções políticas produzem sofrimento e cadáveres em série. Quando dizem que as suas acções obedecem a imperativos meramente técnicos, eles procuram desvinculá-las do sistema de valores, esquecendo que a grande política deve evitar todas as medidas que possam produzir sofrimento. Além de não levar em conta o cálculo do sofrimento, exigindo sacrifícios e sofrimentos gratuitos em nome de nada, o plano de austeridade acordado entre o PS e o PSD viola outro imperativo moral da grande política: recusa o direito aos portugueses de viver num mundo que tenha sentido para eles, mergulhando-os no abismo da anomia. Neste momento de crise e de perda da soberania nacional, os portugueses sentem-se exilados na sua própria pátria, e alguns começam a emigrar. Portugal deixou de ser um refúgio contra a anomia, um porto seguro onde se possa viver uma vida digna (cálculo do sentido): os abutres políticos e financeiros roubaram a pátria aos portugueses, fazendo-os pagar pelos seus próprios crimes de gestão política, económica e financeira. Sem um modelo de mudança social deliberado que vise reinventar radicalmente a sociedade, os sacrifícios exigidos aos portugueses serão em vão, como já foram no passado: as correcções consecutivas do défice orçamental não resolveram o nosso problema estrutural, adiando eternamente o futuro de Portugal. Ninguém contesta seriamente a necessidade de um plano de austeridade: o que é contestado é a injustiça de certas medidas e, acima de tudo, a ausência de um projecto de desenvolvimento nacional. Para reconquistar a confiança dos portugueses, o PS e o PSD renovados devem colocar o interesse nacional acima dos interesses partidários e implementar um novo modelo de desenvolvimento capaz de garantir um futuro melhor e liberto da dependência externa. A reinvenção da sociedade portuguesa vai exigir sacrifícios, mas, se a sua distribuição for justa, sem recair sobre os mais desfavorecidos e bloquear a actividade económica, o poder político pode justificá-los em termos morais, alegando que eles visam construir efectivamente um futuro novo e restituir sentido ao mundo comum dos portugueses. A anomia que se instalou na sociedade portuguesa só pode ser suavizada com o discurso da verdade, porque, se os portugueses tomarem consciência da situação terrível de Portugal, a sua falta de confiança no futuro pode ser galvanizada para a construção do futuro novo: a sociedade instituída não tem futuro e as pessoas começam a compreender isso. A grande política deve libertar-nos a todos da clausura cognitiva da instituição social estabelecida e abrir as portas a um novo imaginário social radical: a grande política é aquela que institui uma nova sociedade e cria um mundo novo para os homens no seio da Grande Casa do Homem que é a natureza reconciliada. Anexo: A minha amiga Denise publicou outro post, onde explicita melhor a sua teoria da imagem da cidade. Logo que tenha tempo, regresso a essa temática da cidade. De momento fui raptado pelo imaginário radical dos meus mestres e luto pela minha autonomia - ou pela conservação da minha vida? - num mundo povoado por criaturas sinistras: uma memória infantil que me persegue. Vacilo entre a regressão e a progressão: a regressão é a morte, a progressão é o sonho de uma vida melhor que o capitalismo financeiro nos tenta roubar. Os meus grandes momentos de verdade revelam-se quando ouso ser radical. Enfim, sou uma unidade contraditória: a dialéctica está inscrita nos meus genes. J Francisco Saraiva de Sousaterça-feira, 1 de junho de 2010
Prós e Contras: Enfrentar a Crise
O debate Prós e Contras de hoje (30 de Maio) foi, como disse a sua moderadora Fátima Campos Ferreira, um debate ideológico entre a Direita - encabeçada por Adriano Moreira que depressa compreendeu que devia demarcar-se ideologicamente da miopia neoliberal de Pedro Lomba e de Miguel Morgado, e a Esquerda dispersa entre Clara Ferreira Alves, Rui Tavares e José Paulo Esperança. A Europa vive uma crise profunda que ameaça desagregar a União Europeia, a Zona Euro e o modelo social europeu. Como disse Adriano Moreira, a fronteira da pobreza alarga-se do sul para o norte e já está a entrar pela Europa dentro: os europeus correm o risco sério e real de regressar à pobreza e de perder o guarda-chuva europeu. Fátima Campos Ferreira confrontou os seus convidados com estas questões básicas: Para onde caminha a Europa?, Quem nos meteu neste buraco?, enfim Como enfrentar esta crise sem perder o modelo social europeu?Portugal debate-se com outro problema mais grave: o do endividamento externo. As despesas sociais avolumaram-se numa Europa com um crescimento económico demasiado anémico para garantir e sustentar o seu modelo social. Habituados a contar com a ajuda do Estado Social, os europeus estão mais preocupados com a sua vidinha metabolicamente reduzida - uma vida mais animal que humana - que com a política e o exercício de uma cidadania responsável: eles foram embalados pelo terrível pesadelo de uma sociedade de consumo promovida pelo capitalismo de casino e pelos seus agentes políticos e financeiros. Clara Ferreira Alves responsabilizou o capitalismo de casino e a bolha imobiliária pela actual situação de crise económica e social profunda: os agentes financeiros de Wall Street criaram uma economia de consumo apoiada no crédito, na dívida e no dinheiro virtual. Os europeus compraram alegremente essa receita neoliberal para viverem melhor e sem esforço. Porém, num acto de cegueira cognitiva, acusa a tópica marxista da sociedade de ter fomentado a emergência dos economistas - os homens que mexem com o dinheiro e que o desviam para os seus próprios bolsos - que subordinaram a superestrutura à infra-estrutura económica: o esquerdismo infantil de Clara Alves consiste na defesa de um Estado forte contra as forças desreguladas do mercado. Ela ainda não compreendeu que o Estado - mesmo o Estado Democrático - possui um carácter de classe: o Estado Neoliberal foi o Estado dos grupos financeiros que promoveram a globalização e a cultura do endividamento. Por isso, Pedro Lomba não pode responsabilizar o Estado - entenda-se o governo socialista português - e os cidadãos conformados e conformistas pela crise em que vivemos: capturado pelos agentes financeiros, o Estado foi utilizado para implementar a agenda neoliberal que permitiu às pessoas comprarem casa sem ter dinheiro para a pagar. Adriano Moreira redefiniu a sua noção de Estado Exíguo como Estado deficitário: o actual Estado não possui recursos para financiar os objectivos ambiciosos que planeou. Objectivos ambiciosos e recursos escassos: eis o Estado exíguo censurado por Adriano Moreira. A noção de Estado exíguo é ambígua, porque pode ser utilizada tanto para censurar as "gorduras" do actual Estado social, como também para identificar o sentido da reforma do Estado. Embora seja contra certas privatizações neoliberais promovidas pela política furtiva da União Europeia e dos governos portugueses, Adriano Moreira usa-a nestes dois sentidos, porque está convencido de que não podemos manter o actual desenho do Estado social. É preciso emagrecer e corrigir o Estado: todos concordamos com esta necessidade de reformular o Estado social, mas o acordo termina quando passamos a discutir as próprias correcções de emagrecimento. A Esquerda não quer emagrecer o Estado à custa dos mais desfavorecidos e, como testemunham as palavras de Rui Tavares e de José Paulo Esperança, continua a defender as políticas do investimento público para combater o desemprego. A Direita quer entregar os nossos destinos - pessoais e nacionais - aos jogos de casino dos mercados financeiros, privatizando tudo e todos sem levar em conta as desigualdades e as assimetrias sociais e regionais geradas pelas políticas neoliberais à escala nacional e à escala global. A captura do Estado pelas forças neoliberais não gerou a tal "riqueza" de que falou Pedro Lomba; pelo contrário, fez com que a fronteira da pobreza entrasse pela Europa dentro, como sublinhou Adriano Moreira. Miguel Morgado não quer ouvir falar de mudança de paradigmas: o único responsável pela crise é o governo de José Sócrates. E, deste modo mágico e tonto, acusa o suposto "socialismo" ou social-democracia pela crise gerada pelo neoliberalismo: o Estado que deseja para Portugal é o Estado da riqueza de poucos e da pobreza generalizada de muitos. Miguel Morgado não acredita verdadeiramente nas virtudes da economia de mercado: deseja entregar os sectores públicos à iniciativa privada que, para ser lucrativa num país pobre, precisa que o Estado lhe pague os serviços que presta à população empobrecida. O neoliberalismo desta direita reaccionária é capitalismo selvagem de Estado. Sem participar activamente nesta polémica, Clara Alves reconheceu alguns erros cometidos pelo Estado e limitou-se a reforçar o seu papel regulador: o Estado social deve ser conservado e protegido dos assaltos da agenda neoliberal e do desvario do capitalismo financeiro. Como enfrentar a crise? Miguel Morgado respondeu que não sabe nem quer saber: a crise demográfica - a sua obsessão exclusiva - é suficiente para revelar a insustentabilidade do modelo social europeu. Rui Tavares defendeu o governo económico da Europa, alegando que a União Europeia tem escala para se afirmar no mundo global e trabalhar a sua diferença por oposição à China autoritária: a Europa é um conjunto de democracias que deve caminhar para a Democracia Unificada, sem ser governada por uma elite tecnocrática. Ora, a solução do federalismo europeu foi contestada pelos seus opositores de direita: Miguel Morgado rejeitou-o em nome do mercado e Pedro Lomba acusou-o de querer abolir as "pátrias" - da desigualdade gerada pela agenda neoliberal. Ambos continuam a defender a agenda neoliberal: pretendem combater a crise com os meios neoliberais que geraram a própria crise. Adriano Moreira distanciou-se dos seus "camaradas de direita": a unidade europeia é, como disse, o valor fundamental. Os europeus precisam combater os demónios interiores da Europa que desejam desagregá-la e evitar a crise da unidade. Adriano Moreira lembrou - com recurso à história e sem rejeitar a hipótese federalista - que Portugal precisou sempre de um apoio externo: a unidade europeia é fundamental para o futuro de Portugal no mundo global. A sua visão da crise e do modo como a enfrentar merece mais atenção: Adriano Moreira denunciou as lideranças frágeis da Europa e de Portugal que não souberam previr e reagir atempadamente à crise, o que gerou uma crise de confiança e de credibilidade política. Os líderes políticos nacionais e europeus devem assumir as suas responsabilidades e corrigir os Estados nacionais, adaptando-os ao contexto da globalização. Vozes confiáveis e autorizadas são necessárias em momentos de crise, mas infelizmente não as temos. Então, se não temos vozes autorizadas, o que podemos fazer para enfrentar a crise? Adriano Moreira respondeu: usar o poder da palavra contra a palavra do poder. Um convite à rebelião? Talvez... Mas penso que Adriano Moreira estava a referir-se à marcação de eleições legislativas antecipadas: derrubar o poder socialista estabelecido nas urnas, como se o PSD neoliberal fosse uma alternativa credível e digna de confiança. Curiosamente, José Paulo Esperança retomou a noção de crise de confiança de Adriano Moreira para defender um discurso da esperança dirigido contra o discurso da crise demográfica de Miguel Morgado. Porém, fiquei verdadeiramente arrepiado quando defendeu a velhice e elogiou o aumento da idade de reforma, porque esta é uma medida que, em vez de resolver o problema da sustentabilidade da segurança social, nega literalmente o futuro - não o futuro escatológico de Miguel Morgado mas o futuro real e intramundano - às gerações mais jovens, condenando o Ocidente ao envelhecimento e à morte. José Paulo Esperança sacrifica o futuro dos jovens para manter os privilégios da geração geriátrica que nos mergulhou - pela sua burrice extrema - nesta crise. Neste aspecto, retomo a defesa do princípio da prudência nomeado por Pedro Lomba: repolitizar a vida pública e confrontar a geriatria estabelecida com a sua própria inutilidade - o choque da realidade. Não podemos abdicar do futuro por causa dessa monstruosidade que é o prolongamento da vida. Este sonho ancestral da utopia médica deve ser abandonado: envelhecimento é sinónimo de ocaso. J Francisco Saraiva de Sousa

