quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Projecto Porto Cidade-Estado (3)

Cidade-Estado do PORTO
Novas ideias para pensar a Filosofia da Autonomia Radical do Porto:

1. A Cidade do Porto merece uma nova história geral e diversas histórias regionais: a História Social do Porto deve ser completada pelas Histórias da Cultura e Literatura Portuenses, da Filosofia Portuense, da Arte Portuense e do Pensamento Político Portuense. Há muito trabalho teórico a realizar e este trabalho não pode ser realizado por amadores. Há muitos livros sobre o Porto, mas a maior parte deles são escritos num estilo apaixonado e distante da disciplina do rigor teórico. Ora, sem teoria não há obra séria.

2. A sociedade portuguesa é uma sociedade de classes peculiar: a classe dominante portuguesa não sabe lidar com as classes dominantes de outros países, como o demonstra o caso de Angola. Se olharmos para a elite do poder português, ficamos chocados com a sua imbecilidade, a sua emotividade histérica, a sua subserviência em relação às instituições estrangeiras e a sua corrupção. As pessoas que protagonizam a política externa portuguesa em Lisboa são criaturas delirantes: o espírito lisboeta é doentio.

3. O complexo nacional de inferioridade revela-se nas universidades: Quando se realiza um congresso internacional, os investigadores portugueses são subservientes em relação aos convidados estrangeiros, sobretudo os europeus, desvalorizando o trabalho uns dos outros nas conversas privadas com os convidados estrangeiros. Ora, quem conheça bem a alma portuguesa, sabe que os portugueses se comportam assim para dar graxa aos estrangeiros, julgando obter algum benefício. Porém, o que obtêm é um atestado de incompetência e de falta de credibilidade pessoal e científica. São os portugueses que afundam Portugal.

4. Nas situações referidas anteriormente, eu tenho muita vergonha em assumir a nacionalidade portuguesa: Utilizo o meu fenótipo e a minha inteligência para me demarcar dos portugueses, tanto em território nacional como em território estrangeiro, porque não quero fazer parte do gueto português ou latino. Os portugueses não são boa-companhia e, se não quiseres ser um "Dr Merdinhas", demarca-te dos portugueses e nega seres português.

5. Ser português é um estigma social e este estigma foi inventado pelos próprios portugueses. A Cidade do Porto só tem um caminho a seguir para se libertar desse estigma: auto-instituir-se como Cidade-Estado.

6. "O Porto é o berço da Renascença" portuguesa: A prosa de Teixeira de Pascoaes é infinitamente superior à de Fernando Pessoa: Teixeira de Pascoaes foi um poeta-pensador que produziu uma filosofia a que chamou Saudosismo. O erro de Teixeira de Pascoaes não reside no seu "nacionalismo", mas no facto de não ter compreendido as fissuras que existem na alma portuguesa. Com efeito, a alma portuguesa não é unitária e as polémicas que o poeta travou com António Sérgio demonstraram isso. Se interpretarmos o saudosismo como uma filosofia da esperança, então podemos corrigir o erro de Teixeira de Pascoaes, traduzindo "alma portuguesa" por alma portuense. É preciso usar violência hermenêutica para recuperar os pensadores da Escola do Porto e trazê-los para as proximidades do projecto filosófico e político do Porto Cidade-Estado.

7. Teixeira de Pascoaes elaborou uma teoria da mentira, articulando-a com a antipatia da vida moderna: «A mentira reina sobre o mundo. Quase todos os homens são súbditos desta omnipotente Majestade». O texto onde o poeta-pensador desenvolve as suas ideias é demasiado breve: a sua fenomenologia da antipatia implica uma fenomenologia da simpatia que quase supera a de Scheler. A ideia central é a de que a antipatia é estranha à Natureza, onde tudo se liga e atrai. Temos aqui uma dinâmica de forças que foi tematizada de diversas maneiras pelos pensadores da Escola do Porto. A sua fidelidade a Bergson reflecte-se no abuso de metáforas que caducam rapidamente o pensamento profundo que elaboraram.

8. «Assim um indivíduo (e as nações são como os indivíduos) educado contra as tendências naturais do seu espírito, jamais será alguém»: Pensamento brilhante de Teixeira de Pascoaes que ele utiliza para justificar o fracasso do constitucionalismo. Porém, ao lado brilhante deste pensamento, devemos associar o seu lado sombrio: a nacionalidade portuguesa não se casa com o constitucionalismo porque este é estrangeiro. Compreendo o desejo de criar uma Religião Lusitana: vejo-o como a tentativa de realizar tardiamente a Reforma em Portugal. Mas não consigo pensar o isolamento da alma portuguesa. A alma portuense deve abrir-se ao mundo. Ser alguém em vez de ninguém exige abertura ao mundo.

9. O pensamento portuense - produzido por portuenses para portuenses - encontra-se na mesma situação dos Edifícios do centro histórico: precisa de ser reabilitado através de uma hermenêutica subtilmente violenta que o confronte com as grandes tendências da Filosofia Moderna.

10. O que penso da filosofia de Leonardo Coimbra? Leonardo Coimbra foi provavelmente o primeiro filósofo portuense - e português - a produzir filosofia enquanto filosofia. Os poetas-pensadores que foram seus contemporâneos viram no seu criacionismo o culminar filosófico do seu próprio pensamento. De facto, há uma unidade de pensamento na Escola do Porto, a qual foi pensada por Sampaio Bruno, Guerra Junqueiro e Teixeira de Pascoaes. Porém, o desenvolvimento filosófico de Leonardo Coimbra ainda não foi pensado: a sua filosofia experimental e a sua atracção pelo cálculo diferencial e integral ainda não foram seriamente estudadas.

11. Chegou o momento de criticar alguns portuenses, aqueles que escrevem textos que parecem ser um amontoado de lombrigas. Há na Cidade do Porto homens e mulheres que deviam ser expulsos da cidade devido à sua estupidez disfarçada de "bairrismo": os seus textos, os seus comportamentos mancham a dignidade da Cidade do Porto. Tenho muito nojo desses tristes e grosseiros portuenses!

12. Os auto-intitulados "filósofos lisboetas" - supostamente racionalistas - condenam o "nacionalismo" inerente à Filosofia Portuense, dedicando o seu tempo a discutir o carácter nacional ou universal da filosofia. Ora, estes idiotas nunca devem ter lido uma obra de filosofia e, diga-se de passagem, desconhecem a filosofia do romantismo alemão e do idealismo alemão. Ser patriota não é um crime: os portuenses são patriotas e amam a sua cidade. Crime é vender o país aos estrangeiros, como fazem os governantes em Lisboa.

13. E eis que Teixeira de Pascoaes sonha a origem atlante do Porto: «A Saudade é deusa atlântica, não mediterrânica. Os Iberos são atlânticos, esses refugiados do Cataclismo que submergiu o célebre Continente». Descobri agora mesmo esta bela intuição histórica do poeta do Norte!

14. O abismo separa o pensamento vivo de Teixeira de Pascoaes do pensamento morto de Fernando Pessoa: O poeta do Porto usa a sua experiência para se apropriar da história da filosofia. A sua apropriação da filosofia revela um profundo conhecimento da mesma: Vejam como ele na frase anterior se apropria de Platão emprestando-lhe o Desejo.

15. É fundamental elaborar a Filosofia do Romantismo Portuense - quase tão brilhante quanto a Filosofia do Romantismo Alemão - e colocar o seu poder subversivo ao serviço da causa nobre que é a instituição do Porto como Cidade-Estado. O génio portuense surpreende-me: Como é que homens que viveram nesse ermo chamado Portugal conseguiram elevar-se às alturas do pensamento filosófico criativo? Porém, quando olho para Fernando Pessoa, vejo um homem sombrio incapaz de pensar um único conceito filosófico. O abismo do pensamento afasta o Porto de Lisboa.

16. Sempre que Teixeira de Pascoaes fala do Encoberto e do Enevoado sabemos que está a falar da missão histórica do Porto. Mas, para quem conheça a sua obra, o Enevoado é a funda meia-noite que abriga e esconde uma Nova Filosofia. Tal como Sampaio Bruno, Teixeira de Pascoases atribui ao Encoberto a missão de pensar a filosofia da história da Cidade do Porto. Como eles foram profundamente hegelianos e românticos!

17. Quem nasceu na Cidade do Porto sabe que os dias e as noites de nevoeiro cerrado convidam ao recolhimento espiritual: O Porto pensa enquanto Lisboa festeja nas ruas. Este pensamento essencial foi descoberto por Sampaio Bruno; eu limito-me a dar-lhe um outro alcance filosófico dizendo: Quebrar o exílio interior é romper com Lisboa e instituir o Porto como Cidade-Estado.

18. E agora chegou a hora de dizer o que os ilustres portuenses pensavam dos portugueses: a sua experiência de exílio interior levou-os a pensar a maldade do povo português. Em Portugal, ou ficamos calados e somos cúmplices do mal existente ou ousamos pensar e somos perseguidos, empobrecidos e afastados. Como dizia o poeta: nacionalidade portuguesa e democracia (constitucionalismo) não casam, bastando pensar nas chantagens deste governo e nos ataques que dirige contra o Tribunal Constitucional. A máfia que preside aos destinos de Portugal é criminosa.

J Francisco Saraiva de Sousa

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Projecto Porto Cidade-Estado (2)

Cidade-Estado do Porto
O projecto filosófico e político de pensar a auto-instituição da sociedade portuense como Cidade-Estado está em andamento. Eis algumas novas ideias defendidas no meu perfil no Facebook:

1. As teorias do Eu Socializado afirmam que a auto-imagem de uma pessoa não precisa ter relação com factos objectivos. Supondo que esta afirmação foi corroborada empiricamente por estudos científicos, a Filosofia pode questioná-la alegando que a formação social de uma tal auto-imagem pode facilmente colidir com a realidade objectiva. Assim, por exemplo, os pais que dizem que os seus filhos são lindos quando na verdade são feios estão a contribuir para a desgraça futura dos seus filhos: a maquilhagem estereotipa a beleza e esconde a fealdade sem a liquidar. Assistimos assim à produção em série de barbies, todas iguais umas às outras. Mas há uma consequência mais perigosa, de resto bem evidente em Portugal: a conspiração dos burros, cujas auto-imagens são reforçadas em rede fechada, contra as pessoas dotadas de dons objectivos. A auto-imagem sem suporte objectivo é uma ilusão perigosa.

2. Um esclarecimento sobre o projecto Porto Cidade-Estado: Como é evidente, este projecto visa todo o Norte, de modo a refazer Portus Cale. A resistência que ele gera revela a sua força política e o medo dos centralistas que fizeram de Portugal uma ruína. É preciso ser inteligente para conquistar um futuro novo.

3. William Graham Summer forjou o termo "etnocentrismo" para designar a atitude estreitamente vinculada aos preconceitos culturais ou sociais de um indivíduo. A batalha do etnocentrismo foi introduzida pelos antropólogos no próprio núcleo da sua formação académica. Porém, falta saber se o antropólogo seria capaz de participar num ritual canibal comendo carne humana. O etnocentrismo tem duas faces: a face branca que consiste numa mera prevenção metodológica contra a imposição dos marcos de referência ocidentais às situações não-ocidentais; e a face negra que consiste num ataque moral contra os valores ocidentais enquanto tais. Esta mudança de direcção do etnocentrismo aconselha o seu abandono. Hoje é necessário sermos entusiasticamente "etnocêntricos" e defender os valores ocidentais, tais como os direitos humanos, a dignidade da vida humana e a liberdade humana. A Filosofia e a ciência são empreendimentos intelectuais ocidentais e, por isso, são etnocêntricas.

4. Debato-me com o problema da formação cultural da Cidade do Porto. Conheço as suas mitologias heróicas e uma ou outra construção fantástica. Porém, sou forçado a concluir que a cultura portuense é uma cultura urbana - cosmopolita e aberta ao mundo. Ora, uma cultura urbana é burguesa. O Porto é burguês.

5. O projecto Porto Cidade-Estado obriga-me a retomar a língua alemã que já não frequento há muito tempo. Vou almoçar e aproveitar para lançar os olhos sobre obras que ajudam a conceptualizar a cultura urbana portuense. Burgofilia pode ser um termo adequado para designar os vínculos que unem os portuenses à sua cidade.

6. Os profetas do Antigo Testamento - homens rurais - denunciaram os pecados e os vícios das cidades maléficas e Jefferson também as desprezava, acreditando que somente uma nação de lavradores podia permanecer como democrática. O espírito anti-urbano esquece que a liberdade e a diferença só se manifestam na sociedade urbana. Infelizmente, os portuenses vivem mais do que pensam a Cidade do Porto: Não temos um único estudo sobre sociologia urbana do Porto.

7. As cidades são espaços de contrastes. Para pensar a cultura urbana do Porto, escolhi como interlocutor Georg Simmel: o conceito de cultura é problemático na Filosofia. Simmel define-a como aperfeiçoamento do indivíduo; daí que faça a distinção entre cultura objectiva e cultura subjectiva. O conceito de formação cultural adequa-se melhor ao pensamento de Simmel. Mas, para compreender a formação cultural portuense ao longo do tempo, é necessário encará-la como formação simbólica que investe diversas esferas da vida psicossocial portuense. A tarefa complica-se e, como filósofo, estou mais preocupado com o investimento cognitivo do que com o investimento afectivo.

8. A história urbana da Cidade do Porto obedece aos mesmos princípios do desenvolvimento urbano das cidades europeias. As análises estéticas de Simmel das cidades de Florença e de Veneza ajudam a compreender algumas especificidades do Porto, como por exemplo o vínculo afectivo entre os portuenses e a sua cidade. Em Simmel, a grande cidade protagoniza o individualismo moderno. O Porto já era uma cidade moderna no século XII: a sua cultura urbana sempre foi uma cultura burguesa. Porém, não temos um estudo empírico sério sobre o individualismo portuense. A questão "Quem são os portuenses?" exige uma resposta.

9. Uma forma engenhosa e inteligente de contornar a ausência de estudos portuenses profundos é pensar a burgofilia dos portuenses como arrependimento: o de ter dado início à formação de Portugal. À luz deste arrependimento podemos pensar o desejo secreto portuense de voltar à restituição integral de Portus Cale.

10. Um historiador malvado de Coimbra procurou ofuscar o brilho da Cidade do Porto, fazendo de Coimbra o pólo do renascimento português. O homem é tão burro e inculto que esqueceu que houve um renascimento no século XII, do qual participou a Cidade do Porto. Se houve um estilo de vida renascentista em Portugal, ele só podia ocorrer na Cidade do Porto. Afinal, a Universidade de Coimbra nunca ajudou a superar a estupidez cognitiva dos portugueses.

11. Reconquistar a unidade perdida: eis o sentimento renascentista da alma portuense. O espírito renascentista impregna toda a alma portuense. Cidades como Florença e Veneza encarnaram esse espírito procurando restituir a unidade perdida do espírito grego. A História de Portugal pode ser lida como fragmentação da unidade: o amor que os portuenses nutrem pela sua cidade - Portus Cale - e que os distingue dos portugueses revela o seu desejo de refazer a unidade que se perdeu com a formação de Portugal.

12. O que é o Porto Romântico a não ser a busca da unidade perdida? O Porto que deu o nome a Portugal é o mesmo Porto que, em momentos fulcrais da sua história, se arrepende de ter iniciado a formação de Portugal. O Porto aprendeu que as suas iniciativas são desfiguradas quando apropriadas por Portugal, bastando referir a revolução liberal de 1820 e a tentativa portuense de implantação da República. Ora, os portuenses que se orgulham de ser liberais nem sempre sabem o que significa ser liberal. Um portuense orgulhoso do seu sangue não pode aplaudir Salazar ou a Monarquia Absoluta de D. Miguel.

J Francisco Saraiva de Sousa

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Projecto Porto Cidade-Estado (1)

Cidade do Porto
O projecto político que vou apresentar aqui acompanha-me há muito tempo. Limito-me a partilhar algumas ideias divulgadas no meu perfil do Facebook. (Na caixa de comentários do post anterior, encontra outras afirmações e aforismos que ajudam a compreender este projecto filosófico e político: pensar a autonomia radical do Porto.)

1. Quem são os portugueses? Não temos estudos sérios para responder a esta questão: os portugueses opinam muito mas são incapazes de se entregar ao pensamento. Daí que os veja como zombies.

2. Se os portugueses não sabem dizer quem são, então posso concluir que não há uma identidade nacional portuguesa. Esta conclusão é fundamental para a elaboração do projecto político Porto Cidade-Estado: a fragmentação "nacional" justifica a afirmação da autonomia radical do Porto. Mesmo sem ter ao meu dispor estudos empíricos, posso facilmente imputar aos portuenses uma personalidade de base, uma identidade própria que os define por oposição à quimera do todo nacional.

3. De certo modo, pretendo utilizar as teorias do eu socializado de Cooley e de Mead para analisar a identidade portuense: as relações entre psique e sociedade possibilitam formular uma teoria filosófica da autonomia radical do Porto. Uma teoria filosófica ilumina a praxis, imprimindo-lhe uma orientação política. Porto Cidade-Estado - a sociedade autónoma portuense - deve produzir os cidadãos de que precisa para se realizar. A imputação de uma identidade portuense por oposição à quimera da identidade nacional visa produzir cidadãos portuenses prontos a lutar pela autonomia da sua cidade e da sua região. Até posso utilizar Freud para mostrar o conflito entre a psique portuense e a sociedade nacional. Fortalecer o Eu Portuense é fundamental para a luta pela autoinstituição da sociedade portuense como Cidade-Estado.

4. Estou fascinado com o projecto Porto Cidade-Estado porque me permite pensar filosoficamente uma nova maneira da filosofia interferir com a política. Sem abdicar dos instrumentos da análise marxista, demarco-me do seu projecto político, colocando-me desde logo no campo do sentido e da identidade.

5. Afinal, quem são os portuenses? A resposta a esta questão está na base do projecto Porto Cidade-Estado tal como o vislumbro. É claro que serei obrigado a introduzir uma ruptura no próprio pensamento portuense: A noção do Porto como "profeta" de Portugal será rejeitada e severamente criticada porque doravante o Porto passará a afirmar a sua autonomia por oposição ao todo nacional. A diferença é desde logo política: o meu objectivo será dar aos portuenses uma política da subjectividade rebelde.

6. Quando referi o eventual recurso a Freud, estava a pensar num Freud transfigurado pela biologia, terreno onde procurarei as forças rebeldes portuenses que recusam fazer parte dessa quimera que é Portugal. Meus amigos: Estou preparado para fornecer uma base biológica ao projecto Porto Cidade-Estado. A fortaleza do coração dos portuenses será testada pela sua reacção ao próprio projecto de autonomia radical. Não se esqueçam que a última palavra pertence sempre à Filosofia.

7. Hoje tenho algum tempo livre para pensar a autonomia radical do Porto. Concebo essa autonomia como capacidade da sociedade portuense para se autoinstituir como Cidade-Estado numa luta permanente contra a heteronomia nacional. Ora, ao encarar a instituição portuense até aqui como heteronomia e alienação, tenho espaço de manobra para elaborar a filosofia da autonomia radical do Porto, rompendo com o seu passado-presente histórico de alienação social. O que me interessa é dar ao Porto um novo imaginário social capaz de levar os portuenses a romper com o todo nacional e a autoconstituir-se como sociedade autónoma instituindo duas instituições fundamentais: a instituição do legein e a instituição do teukhein: pensar um imaginário radical capaz de dar novas significações à cidade do Porto, e realizá-lo na realidade-efectiva.

8. O verdadeiro cidadão portuense debate-se com dois problemas: forjar a sua autonomia individual e a autonomia social da sua cidade. Em qualquer um destes casos, a sua tarefa é liquidar o discurso do Outro e a instituição portuense instituída pelo Outro. Ora, esse outro é a instituição nacional: a autonomia é autoinstituição da sociedade portuense como Cidade-Estado que recusa a tutela do opressor, isto é, de Lisboa, a eterna alienada.

9. A Filosofia da autonomia radical do Porto dirige-se a todos os portuenses e convida-os a unirem-se e a lutarem juntos pela autoinstituição da sociedade portuense como Cidade-Estado. Apesar de não precisar de recorrer à história para fundamentar este desejo portuense, a filosofia da autonomia radical do Porto não esquece a política da memória e do sentido: realizar o desejo portuense é fazer justiça ao sofrimento ancestral dos portuenses que morreram a lutar pela autonomia do Porto.

10. Quando dizem que o Porto é "uma nação", os portuenses dão voz a um desejo ancestral de recuperar a autonomia perdida a favor de instituições nacionais heterónomas e alienantes. De facto, o Porto já foi uma Cidade-Estado, uma entidade autónoma muito semelhante às Cidades Hanseáticas ou às Cidades "italianas" do Renascimento. Chegou a hora de fazer da nação portuense uma Cidade-Estado aberta ao mundo global.

11. Proponho outra categoria filosófica para pensar a autonomia radical do Porto: o êxtase entendido como dar um passo para fora das rotinas normais, heterónomas e alienadas da sociedade nacional portuguesa. A Filosofia da autonomia radical do Porto convida os portuenses de fibra a sair da caverna portuguesa, sozinhos e acompanhados, e a contemplar a noite que antecede o grande dia da libertação portuense. Com efeito, a liberdade pressupõe a libertação da consciência: as possibilidades de liberdade não podem concretizar-se se os portuenses continuarem a pressupor que o "mundo aprovado" da sociedade portuguesa seja o único que existe. A sociedade portuguesa instituída oferece cavernas consoladoras, quentes e confortáveis para alguns portuenses que se alienaram do desejo ancestral dos portuenses. Ora, os tambores batidos pela sociedade instituída encobrem os uivos das hienas portuenses na escuridão. A nossa tarefa é confrontar a condição portuense sem as mistificações consoladoras da sociedade instituída: as hienas que uivam na escuridão da funda meia-noite são os rebeldes portuenses que forjam um futuro novo para o Porto. Ousa sair da caverna portuguesa para conquistares a tua/nossa autonomia portuense.

12. Enfim, o imaginário portuense é instituinte: o seu arqui-inimigo é o imaginário instituído por Lisboa. Sair da caverna portuguesa é romper claramente com o todo nacional a que se chama Portugal. Porém, antes de realizar a auto-instituição da sociedade portuense como Cidade-Estado, é necessário libertar a consciência portuense do jugo nacional: o portuense que grita na escuridão da noite é o rebelde que já está preparado subjectivamente para lutar pela autonomia radical da sua cidade. Irmãos de luta: Viva o PORTO!

J Francisco Saraiva de Sousa

domingo, 11 de agosto de 2013

Mais uma Supertaça para o FCPorto


Dragon Force: FC Porto e Ferroviário de Maputo.
Geografia Mundial do FCPorto

PAULO FONSECA: "O Futebol Clube do PORTO reforçou o estatuto de clube com mais títulos em Portugal".

sábado, 20 de julho de 2013

Fragmentos facebookianos

Experiência do Túnel
Hoje resolvi explorar o tema da morte e das experiências de quase morte no Facebook para afastar algumas criaturas indesejáveis. Eis alguns fragmentos de lucidez:

Nada é mais eficaz para afastar pessoas indesejáveis do que os momentos de lucidez: a maioria tende a ser zombie e foge do pensamento como o diabo da cruz. Querem rir mas rir de quê? Da sua vida vazia e idiota?

O Facebook não é saudável para pessoas que sofram determinadas perturbações mentais, como por exemplo a depressão: a identidade virtual adoptada pode assumir uma dimensão egocêntrica exagerada que não corresponde ao perfil da pessoa na vida real. O resultado desta clivagem é um perfil absolutamente tirânico e intolerante. A vida online é alienação.

Há uma hipótese metafísica que merece ser pensada para clarificar a questão da morte: Conceber Deus como memória infinita que alienou a sua majestade quando criou o mundo. Nesta perspectiva, a nossa identidade individual não morre, dado participar da memória infinita de Deus. Porém, coloca-se outro problema: conservamos a nossa individualidade ou submergimos na memória divina? Esta hipótese é sedutora porque livra Deus da responsabilidade pelo mal do mundo: Deus-memória infinita é "impotente"; ele aguarda que o homem o resgate.

Por que sou tão irónico? Herdei a ironia de Sócrates, provavelmente. Porém, tenho outra justificação: a ironia é o meu modo de ser entre os mortais. E por vezes a minha ironia tem uma tonalidade agressiva: ao partilhar a hipótese metafísica - Deus-memória-infinita - com os moçambicanos, fui lúcido confrontando-os com a inutilidade de uma memória colonial destruída. A ironia dissolve mundos e cria outros mundos mais saudáveis. Gosto de rir dos homens e da sua caducidade!

Amo almas metafísicas e, se todas as almas que conheço estivessem a salvo da morte, não desejaria coabitar com elas noutra dimensão: Que inferno de eternidade seria "viver" com essas almas fragmentadas e idiotas!

Vou usar outra imagem para retratar a nossa existência virtual: o nosso perfil é por vezes possuído por estranhas criaturas que na vida real exorcizaríamos. Este fenómeno de possessão virtual deve-se talvez à fome do nosso ego e corremos o risco de explodir de tanto inchar.

Igor Sousa

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Penrose: Mecânica Quântica e Consciência

Roger Penrose
Roger Penrose é um físico matemático que escreveu duas obras filosóficas, onde expõe a sua teoria da mente. Mas a sua teoria da mente não está completa: o seu alvo principal é a teoria da inteligência artificial que Penrose deseja destronar. Para compreender a sua teoria da mente, convém definir a posição teórica de Penrose no quadro da física: Penrose acredita que há uma teoria física fundamental capaz de unificar a mecânica quântica e a teoria da relatividade geral. Penrose e os seus alunos tentam produzir essa teoria fundamental a partir da teoria do twistor, segundo a qual os processos são fundamentais e as coisas que existem são secundárias: as entidades fundamentais do mundo não são os acontecimentos do espaço e do tempo mas os processos em virtude dos quais existem as coisas. Ora, nesta perspectiva, a mecânica quântica tem de ser modificada para se acomodar aos efeitos da gravidade, e não o inverso, como defende a maioria dos físicos que acreditam que a mecânica quântica tal como existe é essencialmente correcta, modificando a relatividade geral para algo como a gravidade supersimétrica ou a teoria das cordas. O cepticismo de Penrose em relação à mecânica quântica leva-o a navegar contra a corrente predominante na física.

A teoria da mente de Penrose - tal como é exposta no seu livro Shadows of the Mind, de resto uma continuação do livro anterior The Emperor's New Mind - compreende duas partes: a primeira tenta mostrar que o pensamento consciente é algo diferente da computação; a segunda tenta investigar o que se passa. Ou melhor, na primeira parte, Penrose utiliza uma variação da famosa prova de Gödel sobre a incompletude dos sistemas matemáticos para tentar provar que nós não somos computadores e que não podemos ser simulados em computadores. Ora, com o uso desta prova, Penrose tenta mostrar que a teoria da inteligência artificial - tanto a sua versão forte como a sua versão fraca - é falsa. Afinal, foi a visualização do programa televisivo Horizon, em especial a participação de Martin Minsky, que levou Penrose a escrever os seus livros, para mostrar que há um ponto de vista científico alternativo ao paradigma da computação. Na segunda parte, Penrose expõe extensamente o teorema da incompletude de Gödel e a mecânica quântica, destacando as variáveis ocultas, o teorema de Bell e o paradoxo de Einstein-Podolsky-Rosen, para demonstrar como uma teoria quântica do cérebro poderia explicar a consciência de uma forma que a física clássica não seria - nem é - capaz. Para Penrose, não somos capazes de explicar a consciência - nas suas relações com o cérebro e o computador - sem termos previamente compreendido as implicações do teorema de Gödel e da mecânica quântica para o estudo científico da mente. A sua noção de que a consciência está de algum modo ligada à gravidade quântica, o que equivale à incorporação da gravitação da relatividade geral de Einstein na teoria de campo quântico, escandalizou os seus colegas da física das partículas. Sem uma nova física - entenda-se: uma mecânica quântica não-computacional - não podemos compreender a consciência humana, cuja característica fundamental é a sua não-computabilidade. A tese fundamental de Penrose afirma que o cérebro consciente não é computacional: o cérebro não é exactamente um computador quântico. Para explicar esta ideia seminal, vou enunciar teses filosóficas.

Tese 1: A mecânica quântica tal como existe não é exacta. (:::)

Tese 2: O cérebro consciente não é um computador, nem sequer um computador quântico, tal como esta ideia foi definida por David Deutsch ou Richard Feynman. (:::)

Tese 3: O nível mais profundo onde devemos descobrir os efeitos quânticos é muito provavelmente o sistema de microtúbulos situado no interior dos neurónios. (A doença de Alzheimer pode ajudar a compreender esta estranha tese avançada por Stuart Hameroff.) (:::)

Em construção. J Francisco Saraiva de Sousa 

terça-feira, 9 de julho de 2013

Mia Couto é reaccionário!


Recebe o Prémio Camões, alegando que se trata de uma "coisa-negócio luso-brasileira": Que falta de respeito para com a língua portuguesa! Tanto "miou" na infância - daí o nome "Mia" - que acabou por desaprender a língua(gem) dos seres humanos. Quando se deseja modificar a natureza de um povo, neste caso do povo moçambicano, não podemos usar a sua linguagem: o conhecimento popular é, por natureza, retrógrado. Um povo que queira conquistar o futuro sem deixar a história passar ao lado deve produzir uma nova linguagem: a escrita de Mia Couto degrada a língua portuguesa, bloqueando o futuro aos seus utentes. Sendo biólogo, Mia Couto tem uma concepção retrógrada da biologia, ao reduzi-la à história-narrativa da vida. Mia Couto que é tão avesso ao colonialismo acaba por render-se à sua mais poderosa arma, o racismo: o discurso dos atractores - a perspectiva do desenvolvimento - é-lhe estranho.

sábado, 6 de julho de 2013

A Vertigem da Relatividade

Jardins do Palácio de Cristal, Porto
Anuncio um texto que pretendo escrever se o calor o permitir. Já critiquei diversas vezes o relativismo, mas desta vez pretendo fazê-lo numa perspectiva mais ampla que envolva uma crítica severa da filosofia anglo-saxónica, esse vazio terrível de pensamento, que ganha terreno nas universidades portuguesas, assumido por figuras cognitivamente reduzidas que, simulando o uso de argumentos lógicos, improvisam disparates de conhecimento vulgar da vida quotidiana. Aliás, a crítica do relativismo deve abranger a demolição do conhecimento à mão da vida quotidiana: a retomada do mundo da vida tem sido fatal para a Filosofia. A Gradiva é a editora portuguesa que mais tem contribuído para a difusão de livros medíocres de filosofia anglo-saxónica: as traduções são medíocres porque escritas num português feio, próprio de uma determinada escola profundamente provinciana e saloia, a herdeira de um Portugal Velho que urge superar. Vou tentar criar um vocabulário próprio para demolir o relativismo: a crítica radical do império relativista contemporâneo, repleto de ilusões, uma das quais afirma que o homem está cada vez mais inteligente, exige uma nova linguagem - e talvez uma linguagem mais técnica. Não convém escrever livros de divulgação filosófica: eles degradam a filosofia no seu momento mais sério, o de dizer a verdade. O relativismo predominante anda de mãos dadas com a globalização: o fim das grandes narrativas lançou o mundo num estado de paralisia mental e cognitiva. A cultura superior que é ocidental está em estado vegetativo: o meu desejo é fazê-la regressar à vida. Como é evidente, a crítica do relativismo implica a demolição de muitos mitos aparentemente simpáticos, um dos quais é o estado de paz mundial: um homem mais inteligente e mais pacífico - é algo que soa mal quando olhamos para a sociedade americana. A filosofia anglo-saxónica é altamente partidária: ela justifica o status quo americano, a globalização do capitalismo e a perpetuação da miséria e do sofrimento, ao mesmo tempo que abre as portas às tradições dogmáticas mundiais.

Os alunos que estudam Filosofia devem protestar contra o ensino de filosofia anglo-saxónica nas universidades: a chamada filosofia analítica - de resto, não dominada por esses professores vigaristas - tem fortes afinidades com a escolástica medieval e com a vulgata soviética; todas estas tendências de pensamento destacam a importância da lógica no seio da filosofia, uns para demonstrar a existência de Deus, outros para eliminar as questões metafísicas e gerar posições filosóficas que negam o sentido dessas questões: Qual é a finalidade da minha vida?, Por que tenho de morrer?, Donde venho e para onde vou?, enfim, Quem sou eu? Nós não devemos receber lições de homens - refiro-me a alguns filósofos analíticos estrangeiros - que colocam a sua inteligência ao serviço da lógica imanente do capitalismo. A Filosofia tem uma missão: projectar a vida justa. É fundamental salvaguardar o pensamento da colonização por parte do sistema vigente. Explicar "logicamente" a subjugação do homem concreto ao sistema vigente, como se não houvesse outras alternativas, é algo que não faz parte do ADN da Filosofia: a libertação da lógica da metafísica - lógica sem metafísica - e a sua conversão em instrumento formal fazem parte integrante do processo de formalização da razão que acompanha a lógica de desenvolvimento capitalista. A lógica usada pela filosofia analítica já não é uma disciplina filosófica: ela é uma técnica de adaptação ideológica e social que se aprende nas universidades. A expressão "filosofia anglo-saxónica" é uma contradição nos termos: não há verdadeiramente filosofia anglo-saxónica; a Filosofia é europeia. Ao editar livros de filósofos anglo-saxónicos, aliás os piores, a Editora Gradiva está a prestar um mau serviço à cultura filosófica portuguesa, ao mesmo tempo que funciona como aparelho ideológico de Estado colocado atempadamente ao serviço do projecto neoliberal do governo de Passos Coelho. Ora, os portugueses já sabem o que isso significa: empobrecimento, liquidação da democracia e destruição do Estado Social.

J Francisco Saraiva de Sousa

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Welcome to PORTO: Terrace Lounge



Anotações sobre Humor

Os filósofos têm elaborado diversas teorias sobre o fenómeno do humor, das quais se destacam as teorias de Freud, Bergson e Plessner. Como já analisei a teoria de Plessner, vou concentrar-me nas interpretações de Freud e de Bergson. Freud e Bergson interpretam o humor como a apreensão de uma discrepância fundamental entre as exigências do superego e da libido, no caso de Freud, e entre o organismo vivo e o mundo mecânico, no caso de Bergson. Aquilo que me interessa nestas duas teorias do humor é o seu aspecto comum: ambas encaram o cómico como uma discrepância ou incongruência: «Uma situação é invariavelmente cómica quando pertence ao mesmo tempo a duas séries de acontecimentos inteiramente independentes e é capaz de ser interpretada em dois sentidos completamente diferentes ao mesmo tempo» (Bergson). Dado ser um conceito nuclear da antropologia filosófica, interpreto o humor como fenómeno especificamente humano, o que me permite enunciar diversas novas teses filosóficas que restringem a qualidade cómica às situações humanas. Eis as teses que proponho:

Tese 1: O Homem é o único ser capaz de se rir - e chorar! - de si mesmo, dos outros e de certas situações. (Daqui decorre que a qualidade cómica se refere sempre a situações humanas: os animais só são cómicos quando lhes atribuímos características humanas.)

Tese 2: A discrepância constitui o ingrediente fundamental de todas as piadas. Existem diversos tipos de discrepância - as incongruências propostas por Freud e Bergson - mas todos eles nos reconduzem à discrepância fundamental entre o homem e o cosmos. É esta discrepância antropocosmológica fundamental que faz do cómico um fenómeno especificamente humano. Daqui se segue nova tese.

Tese 3: O cómico reflecte o aprisionamento do espírito humano no mundo, sobretudo no mundo abandonado pelos deuses: «A alma é um estranho na terra» (Georg Trakl). Esta tese já é conhecida desde a Antiguidade Clássica. A concepção de ironia como a mais alta liberdade possível do homem num mundo sem Deus - exposta pelo Jovem-Lukács - relaciona-se com esta tese.

Tese 4: A distinção entre tragédia e comédia esquece que ambas são comentários sobre a finitude radical do homem: a noção existencial de homem como náufrago ou ser-sem-abrigo coaduna-se com esta tese filosófica.

Tese 5: Ao aceitarmos a última tese, somos forçados a encarar o cómico como uma dimensão objectiva da realidade humana: o humor mais não é do que o reconhecimento da cómica discrepância da condição humana.

Estas teses são suficientes para elaborar uma nova teoria filosófica do humor. Poderia acrescentar outras teses, talvez para mostrar que é muito difícil relativizar o humor, mas prefiro concluir enunciando uma tese que clarifica a teoria que tenho em mente.

Tese 6: A negação da metafísica conduziu ao triunfo da trivialidade: o humor que se faz actualmente perdeu a graça. Fechado em si mesmo e neste mundo intra-empírico, o homem tornou-se incapaz de encontrar o seu próprio caminho de fuga. O mundo trivial em que vivemos deixou de ser engraçado. A perda de graça é proporcional à invasão do mundo pelo homem: o cansaço da humanidade de Nietzsche pode ser compreendido à luz desta nova perspectiva. 

Anexo. Um colega brasileiro criticou o meu recurso a uma teoria da natureza humana, acusando-me de ser liberal em vez de marxista. Os rótulos não me incomodam: aqui direi apenas que o conceito de natureza humana me permite compreender o homem do passado mais distante ou do presente mais próximo. Afinal, o homem de todos os tempos ri e chora. Ora, este facto fundamental mostra que há uma natureza humana fundamental que nos une a todos e que nos une aos nossos antepassados. Além disso, uma tal teoria veda-me o caminho dos disparates políticos. A Filosofia é um empreendimento teórico sério.

J Francisco Saraiva de Sousa 

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Notas sobre a História de Moçambique

Estátua do Porto
Não encaro o colonialismo como um fenómeno civilizacional nefasto: se não fosse o colonialismo português lá onde construímos cidades lindas - como Lourenço Marques e Luanda - haveria hoje palhotas. As pessoas africanas não saberiam ler e escrever, nem sequer teriam história. Sim, convém lembrar que nem os índios brasileiros nem os africanos tinham inventado a escrita: eram - e, segundo Ryszard Kapuscinski, ainda são - povos tribais e selvagens. Um exemplo de tribalismo persistente: Mandela já está morto: O que é desagradável é a luta dentro da família. Um dos netos é chefe tribal e sacou os três cadáveres dos filhos de Mandela para os enterrar no território da sua tribo. Depois chega a polícia a mando de outro familiar, invade a propriedade, desenterra os cadáveres e leva-os... Enfim, a África do Sul ainda é território civilizado?

Já escrevi muito sobre Moçambique e não tenho vontade de regressar a esse tema. Porém, dado o predomínio de ideologias anti-ocidentais nefastas, sou forçado a tecer algumas considerações sobre o assunto. Apesar da existência de abundantes arquivos, os historiadores portugueses ainda não escreveram uma História (honesta) do Colonialismo Português ou uma História de Moçambique ou de Angola. Geralmente, no caso de Moçambique referem-se estas obras, nenhuma das quais escrita por um português:

1. FRENTE DE LIBERTAÇÃO DE MOÇAMBIQUE. História de Moçambique. Porto, Afrontamento, 1971.
2. HEDGES, David (coord.). História de Moçambique: Moçambique no auge do colonialismo 1930-1961. Vol.2, 2.ª edição, Maputo, Livraria Universitária, Universidade Eduardo Mondlane, 1999.
3. NEWITT, Malyn. História de Moçambique. Mem-Martins, Publicações Europa-América, 1997.
4. PÉLISSIER, René. História de Moçambique: formação e oposição: 1854-1918. 2 vols., Lisboa, Editorial Estampa, 1987-1988
5. SERRA, Carlos (coord.). História de Moçambique: Parte I - Primeiras Sociedades sedentárias e impacto dos mercadores, 200/300- 1885; Parte II - Agressão imperialista, 1886-1930. Vol. 1, 2.ª edição, Maputo, Livraria Universitária, Universidade Eduardo Mondlane, 2000.
6. SOUTHERN, Paul. Portugal: The Scramble for Africa. Bromley, Galago Books, 2010.

A primeira e a quinta obras (Carlos Serra e Companhia) são extremamente sectárias: o marxismo usado pelos autores como grelha de análise histórica viola frontalmente a letra e o espírito dos escritos de Marx. Os autores deviam meditar os textos onde Marx trata da questão colonial: Marx nunca isolou o colonialismo da teoria do desenvolvimento capitalista para aplaudir uma teoria da luta entre raças. Há racismo nas obras referidas e, de facto, nós portugueses devemos aceitar o desafio lançado por estes pseudo-historiadores e confrontá-los com os seus próprios fantasmas raciais e, no caso dos outros autores, com as formas de colonização dos seus países. A eleição de Obama despertou nalguns desses autores o desejo de liquidar o "branco" e o Ocidente. Outros ficam desiludidos com os brasileiros pelo facto de não rejeitarem a herança ocidental. E, geralmente, são benevolentes perante as investidas do Islão. Descrevem - exagerando - os supostos crimes de ódio cometidos pelos portugueses, mas omitem a violência exercida pelos negros sobre os brancos. Estes dados são suficientes para denunciar a ideologia de rancor racial que está por detrás destas histórias, para já não falar do incitamento à violência racial. Angola e Moçambique, bem como outras ex-colónias portuguesas, caminharam para a democracia; no entanto, os partidos políticos ainda são designados como movimentos de libertação dos respectivos povos. É como se ainda vivessem sob o colonialismo português: a verdade é que eles expropriaram os portugueses julgando que a riqueza se reproduz por geração espontânea e pagaram o preço por esta infantilidade mágica: o recuo civilizacional e a destruição das cidades e do tecido produtivo. Hoje são os negros que exploram e oprimem a população negra. (Já era assim antes da chegada dos portugueses ou mesmo durante o período colonial.) Marx dizia que o capital não tinha pátria e a globalização confirma isso. Hoje podemos acrescentar que o capital não tem raça: os historiadores moçambicanos tratam os árabes com benevolência, ao mesmo tempo que tecem mentiras grosseiras sobre a "agressão imperialista", esquecendo que o capital não tem pátria e raça. (O imperialismo é um fenómeno de territorialização do capital.) Os historiadores ligados ao mundo anglo-saxónico não deviam confundir o imperialismo inglês com o colonialismo português: afinal, o apartheid é uma invenção anglo-saxónica. Meus amigos: Não há raças inocentes na história; há apenas raças, umas mais primitivas, outras mais desenvolvidas, que ocupam áreas culturais diferentes. E o cristianismo - apesar dos seus erros - ajudou a suavizar e a controlar muitos impulsos criminosos. Nós intelectuais devemos fazer todos os esforços para dizer a verdade: um intelectual mentiroso é um oxímoro e um intelectual terrorista é um cérebro patológico que deseja incendiar o mundo. O seu relativismo histórico anda de mãos dadas com o terrorismo. Os africanos já deviam saber que "intelectuais" deste calibre ajudaram a afundar e a empobrecer os seus países. Sem cérebros sadios não há desenvolvimento e paz! E sobretudo isto: os vossos inimigos - como os de todos os povos do mundo - são internos. Sejam objectivos: não culpem os outros pelos vossos pecados. (A Rússia optou pela colonização continental, tal como outros países da Europa Central, e como URSS teve a oportunidade de conquistar territórios distantes. Hoje é a China que sonha com o imperalismo colonizador. Quando referem o papel do cristianismo na colonização, os autores anglófonos aproveitam a ocasião para fazer a sua propaganda protestante, enquanto os moçambicanos falam de colonização mental sem usar o mesmo conceito para designar a acção do Islão. Mas há uma diferença entre Ocidente e Islão: o Ocidente despertou em vós um sonho social de emancipação, noção estranha ao Islão. Sim, até o marxismo é um fenómeno especificamente ocidental: ele está inscrito no genoma grego.)

Anexo: Carlos Serra diz este disparate sobre o "belo": «O belo é um fenómeno misterioso. Todavia, há sempre quem defenda a sua universalidade no sentido de que em qualquer parte do mundo sempre houve e haverá quem goste do belo, sendo o belo havido como uma substância que nasce conosco e que atinge especial profundidade em certos de nós. Porém, a concepção do belo requer condições sociais propícias ao seu nascimento, à sua reprodução e, particularmente, ao seu aprofundamento. Por outro lado, a unidade do belo está em sua diversidade social e nacional. A concepção do belo é social, não natural.» O que podemos dizer sobre isto? Merda que suja a estética e viola a biologia! Vejam como entra em acção o relativismo (sob a forma de construtivismo social delirante), o nacionalismo e a luta racial. O tema de fundo só pode ser os rostos africanos. Além disso, há aqui um paradoxo: a condenação da universalidade - atribuída ao Ocidente - e a afirmação da "unidade do belo na sua diversidade social e nacional" (étnica). E facto curioso: o autor esquece que foi o discurso universal que abriu as portas à emancipação. Mais: o que é o nascimento do belo?, a reprodução do belo?, enfim o aprofundamento do belo? Noções estranhas - cosméticas? - a qualquer estética! Afinal, o belo nunca foi tratado como uma "substância": não sei donde surgiu esta ideia peregrina. Belo e gosto... aqui há gato! Carlos Serra, comunista confesso, converteu o seu relativismo sociológico em irracionalismo.

E o que diz Carlos Serra sobre a biografia? Isto: «A biografia é um dos mais fascinantes e respeitados momentos da vida social. Dá às pessoas a crença de que o biografado contém nele a capacidade fantástica de mudar a vida e as relações de outrém. Na biografia o biografado é substancializado, magicamente tornado imune às relações sociais sem as quais, porém, não pode ser ele; é feito totalidade, unificação única, centro absoluto de um determinado mundo, o "ele era assim" do senso comum.» Até compreendo o que ele pretende dizer (a relevância das relações sociais), mas não posso estar de acordo com a condenação da biografia e do papel do indivíduo na história. Com efeito, o indivíduo não é apenas sociologia incorporada; é também biologia. Começo a crer que Carlos Serra usa e abusa da noção de substância... Será que pretende esburacar a materialidade compacta da sociedade? Ou melhor: a camada electrónica da matéria social? Mas se esburacar muito vai descobrir o vazio da matéria social. As massas populares - os colectivos - inclinam-se à passagem dos vencedores!

J Francisco Saraiva de Sousa

terça-feira, 2 de julho de 2013

Manifestação contra o Acordo Ortográfico

Splash no Rio Douro, Porto
A língua portuguesa também merece os nossos cuidados colectivos: os portugueses devem organizar manifestações em todas as cidades para abolir o Acordo Ortográfico.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Anotações sobre o Conceito de História de Horkheimer

Max Horkheimer
A obra filosófica de Jürgen Habermas ofuscou a teoria crítica: os ensaios que escreveu sobre a filosofia da história de Horkheimer não lhe fazem justiça. Convém denunciar a conservadorismo de Habermas que, sob o impulso do funcionalismo, renuncia à ideia de História para se entregar a uma teoria do agir comunicacional incapaz de definir um novo projecto político. Os textos tardios de Horkheimer são ocasionais e fragmentários. A sua leitura não é fácil, até porque Horkheimer ficou desesperado com a aporia subjacente à "dialéctica do esclarecimento". Porém, quando afirma que a dialéctica materialista é forçada a renunciar à ideia de reconciliação mas não à interrogação que a esperança incumprida das vítimas abre sobre a história, a razão e a acção humana, a aporia evapora-se no ar. Como já dediquei muitos textos ao pensamento de Horkheimer, não vou recapitular o seu pensamento tardio, o qual procura evitar a suposta aporia mediante a «recuperação» da ideia de Outro: ânsia de justiça plena. O que interessa questionar aqui é a tese fundamental da sua filosofia da História: A lógica imanente da História conduz inevitavelmente ao mundo totalmente administrado. Só as catástrofes podem interromper este curso da História: a praxis débil sugerida por Horkheimer não pode alterar o rumo da história; apenas pode tentar conservar alguns elementos culturais, tais como a teologia ou a liberdade. A sociedade administrada é semelhante à sociedade dos insectos sociais. Numa tal sociedade, o homem «desenvolve-se» como espécie animal, abdicando da sua "humanidade". A sociedade administrada de Horkheimer corresponde grosso modo ao meu conceito de sociedade metabolicamente reduzida: ambas apontam para a supressão da «vontade livre» e a liquidação do sujeito. A base desta filosofia pessimista da História reside na finitude radical do homem e do pensamento e na «relatividade» do mundo. A minha filosofia apocalíptica da História está muito próxima desta concepção de Horkheimer: ambas rejeitam a ideia messiânica; ambas apontam para a política como "tarefa infinita"; enfim, ambas são a-comunistas. Com efeito, a rejeição da ideia messiânica é uma recusa consciente de "colonizar o futuro". Porém, a relatividade do mundo não nos permite rejeitar - como faz Horkheimer - a revolução em nome de uma praxis débil. A situação histórica mudou desde o tempo de Horkheimer: Hoje a revolução está na ordem do dia, tal como esteve nos anos 30 do século passado. O que distingue a minha filosofia da História da filosofia de Horkheimer? Não é o pessimismo que, no meu caso se inspira na angústia maia e asteca perante a caducidade do existente, mas a não necessidade de recorrer a Deus para descobrir um sentido para a História, embora este recurso teológico não perturbe a minha mente. A colisão futura de um asteróide com a Terra - por exemplo - pode pôr termo à aventura histórica do homem. Ora, sabendo que uma catástrofe natural - ou não - pode liquidar o homem, não preciso do Outro para incentivar a revolta das vítimas contra os carrascos: o homem não tem nada a perder e mais vale uma vida breve mas heróica do que uma vida longa de miséria. No entanto, a minha filosofia - assim como a de Horkheimer - não abdica da ideia de pecado original: o mal radical. Com estas breves notas mostrei que nem eu nem Horkheimer rompemos com Marx: ambos lutamos para que a Filosofia não se torne pensamento pueril numa sociedade totalmente administrada e racionalizada. A Filosofia só pode ser reconstruída deixando de lado as obras dos filósofos que a dominaram nas últimas décadas: funcionalismo e estruturalismo andam de mãos dadas na rejeição da História. 

J Francisco Saraiva de Sousa 

domingo, 23 de junho de 2013

Porto: Noite de São João

São João: Hoje à noite no PORTO
    Uma proposta para a reforma do São João do PORTO: Como a festa está cada vez mais mundial, acho que as entidades competentes do Porto e de Gaia deviam organizar um festival/concurso mundial de Fogo de Artifício, envolvendo equipas coreanas, japonesas, portuguesas e americanas. A paisagem é única para este tipo de concursos. Houve um ano em que a Ribeira do Porto foi bombardeada com fogo de artifício a partir do Rio Douro e do lado da Sé: o impacto desse fogo cruzado é fabuloso. Na reorganização do S. João, graças ao computador, poderíamos explorar diversos pólos, de modo a pôr a cidade sob fogo.
   Abaixo os coiros da SIC e da TVI que ontem transmitiram merda, em vez da festa do São João! Ontem, além dos turistas habituais, o Porto foi visitado por italianos, franceses, marroquinos e cabo-verdianos, entre outras nacionalidades. O empreendimento turístico e empresarial proposto visa a globalização da Festa de São João do Porto.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Popper versus Kuhn: Sobre Epistemologia

Thomas S. Kuhn
Em Portugal, nunca houve uma tradição sólida de pensamento filosófico e científico, se exceptuarmos as tentativas heróicas da Escola do Porto. As últimas décadas não supriram esta lacuna estrutural: os cursos de Filosofia não merecem crédito. E a actividade editorial não fornece os elementos necessários para a investigação filosófica, pelo menos em língua portuguesa. Porém, o que me preocupa não é a imbecilidade dos portugueses, mas a regressão cognitiva do Ocidente. A teoria do conhecimento científico é uma peça nuclear da Filosofia que tem vindo a ser desconstruída por filósofos cujos nomes não merecem figurar na História da Filosofia. O relativismo histórico é responsável pelo declínio do epistemologia, é certo, mas a regressão cognitiva é um fenómeno mais vasto que põe em causa as reformas do ensino, as novas pedagogias e o próprio modelo de sociedade. Porém, à luz da Filosofia da História e da Filosofia das Civilizações, este fenómeno não é novo: ele ocorreu pela primeira vez na Grécia Antiga, sobretudo quando as cidades-Estado foram substituídas pelos reinos helenísticos. A «vitória» do conhecimento científico e filosófico sobre a ignorância nunca está garantida: o positivismo com a sua noção exclusiva de progresso científico é, desde logo, falso. A História mostra-nos que as civilizações colapsam subitamente sem que a sua herança esteja protegida do esquecimento. A própria herança intelectual da civilização ocidental já esteve ameaçada diversas vezes, uma das quais corresponde à ascensão do cristianismo. Hoje vivemos uma situação idêntica: a crise da Filosofia - que ameaça destruir os fundamentos das ciências e da própria civilização ocidental - é favorável ao advento de novos movimentos religiosos.

O último grande debate epistemológico ocorreu em 1965, opondo as filosofias da ciência de Karl R. Popper e de Thomas S. Kuhn, com a participação de Walkins, Toulmin, Pearce Williams, Masterman, Lakatos e Feyerabend. Não pretendo analisar aqui o confronto filosófico entre Popper e Kuhn; o meu objectivo é mais modesto: a reconstrução da epistemologia enquanto teoria do conhecimento científico deve ser levada a cabo a partir desta controvérsia filosófica.

Em construção.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Lénine: Da Política à Filosofia

V.I. Lénine
«A Física contemporânea está em trabalho de parto. Dá à luz o materialismo dialéctico. Parto doloroso. O ser vivo e viável é inevitavelmente acompanhado por alguns produtos mortos, restos destinados a ser evacuados com as impurezas. Todo o idealismo físico, toda a filosofia empiriocriticista, com o empírio-simbolismo, o empiriomonismo, etc., estão entre estes restos». (Lénine, 1909)

Lénine, o líder da grande Revolução de Outubro de 1917, é, para mim, o maior estadista do século XX. Sem o conhecimento da sua obra política e científica, nos domínios da economia política e da sociologia, não podemos compreender as suas intervenções filosóficas. Lénine dedicou duas grandes obras à Filosofia: Materialismo e Empiriocriticismo (1909) e Cadernos sobre a Dialéctica. A primeira destas duas obras não foi bem acolhida pela comunidade filosófica, bastando nomear Jean-Paul Sartre, Paul Ricoeur e Maurice Merleau-Ponty para evidenciar a recusa do materialismo. Sob o impacto desta crítica, nunca cheguei a ler Materialismo e Empiriocriticismo durante o meu período de formação científica e filosófica, embora conhecesse o conteúdo da obra através dos estudos que Althusser, Lukács e Lefebvre lhe dedicaram. Só muito recentemente comecei a ler a obra filosófica de Lénine. A obra compreende, para além dos dois prefácios e da Introdução, seis capítulos, seguidos de uma conclusão. Os três primeiros capítulos - A Teoria do Conhecimento do Empiriocriticismo e do Materialismo Dialéctico I, II e III - esboçam a célebre teoria leninista do conhecimento por oposição à epistemologia elaborada por Mach e Avenaritus. Convém lembrar que a filosofia empiriocriticista de Mach influenciou fortemente o pensamento de Einstein e de Heisenberg, pelo menos no início das suas carreiras científicas. A teoria leninista do conhecimento foi rejeitada pelos filósofos do chamado mundo livre e permaneceu incompreendida pelos filósofos do marxismo soviético. Os dois capítulos seguintes - Os Filósofos Idealistas, Irmãos de Armas e Sucessores do Empiriocriticismo (IV) e A Revolução Moderna nas Ciências da Natureza e o Idealismo Filosófico (V) - ocupam um lugar de destaque na economia da obra, sobretudo o capítulo V que trata da revolução científica que levou à emergência da mecânica quântica. Lénine rejeita a tese de Poincaré segundo a qual a crise da física clássica era a Crise da Ciência. Para Lénine, a física não estava em crise, mas em pleno processo de crescimento. Quando intervém no domínio da ciência, Lenine toma desde logo partido por uma das tendências fundamentais da filosofia: o materialismo que ele liga organicamente à prática científica. Deste modo, muito antes de estalar a polémica em torno da interpretação da mecânica quântica, Lénine já tinha tomado partido: optou pela interpretação materialista, afirmando a existência do seu objecto de estudo (tese de existência) e a objectividade do seu conhecimento (tese de objectividade). (A Filosofia Materialista intervém no domínio das ciências, traçando linhas de demarcação entre o científico que instaura e o ideológico que as ameaça. Embora critique o materialismo metafísico, Lénine desloca o foco da intervenção filosófica: em vez da clássica distinção entre metafísica e ciência, temos agora a distinção entre ideologia e ciência, a única que é adequada à teoria do materialismo histórico.) O último capítulo - O Empiriocriticismo e o Materialismo Histórico (VI) - é fundamental para compreender o que faltava a Engels e que Lénine acrescentou para esboçar uma filosofia marxista: a ligação da Filosofia à Política que Lénine define neste conceito brutal: a tomada de partido em filosofia. Porém, para compreender este conceito, convém lembrar que nos três primeiros capítulos Lénine distinguiu a Filosofia da Ciência, sobretudo quando analisa a categoria de matéria: a categoria filosófica de matéria é distinta do conceito científico de matéria, cujo conteúdo muda consoante o desenvolvimento do conhecimento científico. O carácter inalterável da categoria filosófica de matéria permite a Lénine «reduzir» a Filosofia a um campo de batalha, onde se confrontam «eternamente» duas tendências: o idealismo e o materialismo. Destas tendências o materialismo é a única que está profundamente ligada à prática científica. Ora, se a filosofia se vincula à ciência pela tese materialista da objectividade, a sua vinculação à política exige a intervenção de um conceito fundamental elaborado por Marx: o conceito de ideologia que Engels negligenciou. É certo que Lénine não clarifica este conceito, mas sempre que critica a negação filosófica do domínio da filosofia pela política usa-o para definir a nova prática filosófica do marxismo, em defesa do crescimento científico constantemente ameaçado pela ideologia. Curiosamente, a teoria crítica da Escola de Frankfurt nunca destacou o contributo de Lénine para a elaboração de uma filosofia marxista, embora a crítica ideológica que protagoniza já esteja em acção na obra teórica de Lénine. (Há aqui uma diferença fundamental: o optimismo científico e tecnológico de Lénine contrasta fortemente com o pessimismo dos críticos da racionalidade instrumental, Horkheimer e Adorno, um dos quais - Marcuse - procurou pensar uma nova ciência liberta da dominação. O carácter instrumental da ciência merece ser pensado, até porque a filosofia não pode ser pensada fora da sua vinculação com as ciências. Ao colocar o Ocidente no centro da reflexão filosófica, procuro evitar a aporia, com a ajuda de um conceito de história dialecticamente aberto sem garantia transcendental.) O conceito de dominação ocupa um lugar central no materialismo histórico, a ciência da História fundada por Marx. Estou convencido de que é possível resgatar Lénine de modo a fazer uma leitura leninista do marxismo soviético. Colocar Lénine contra os desvios grosseiros do marxismo soviético permite reformular um novo projecto político para o marxismo, um projecto ligado à noção grega de Cidade-Estado, cuja orientação democrática não era alheia ao socialismo. (A globalização helenística foi no passado fatal para a Cidade-Estado, tal como hoje a globalização é fatal para o Ocidente: os políticos ocidentais esqueceram a Guerra do Ópio.) Porém, um tal projecto político é profundamente ocidental: o marxismo é a única filosofia capaz de iluminar um Novo Ocidente, aquele que esteve sempre presente desde a sua origem grega. Os jovens que protestam nas ruas de diversas cidades mundiais devem ler Lénine, cuja crítica do espontaneísmo encontrou eco nas suas teses teóricas anti-empirista, anti-positivista e anti-pragmatista: «sem teoria revolucionária, não há movimento revolucionário» (Lénine).

J Francisco Saraiva de Sousa

terça-feira, 18 de junho de 2013

Brasil em protesto

Manifestação em São Paulo, Brasil
Enfim, desde a chamada Primavera Árabe até à revolta na Turquia, o mundo revolta-se contra os governantes. Porém, sem agenda política radical, não há verdadeiramente protesto político. Reivindicar direitos sem pôr em causa o status quo não é solução: Estará o mundo preparado para a mudança qualitativa? Sem conhecimento profundo não há alternativa política. O protesto torna-se impotente!

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Detesto Portugal

PORTO City
Estou decepcionado com a recente "História do Porto": a sua idade heróica foi omitida. O espírito portuense só pode ser compreendido à luz do conceito de Cidade-Estado. A feudalização é algo estranho ao espírito portuense: o Porto é uma escola de autonomia.