A maior parte das pessoas fala de Marx sem nunca ter lido as suas obras. Em 1956, Maximilien Rubel publicou a sua valiosa Bibliographie des Oeuvres de Karl Marx: a obra compreende 885 títulos de Marx e 151 de Engels. O Instituto Marx-Engels de Moscovo publicou em 1927, sob a direcção de David Riazanov, o primeiro volume das projectadas obras completas de Marx e de Engels. As lutas políticas internas da URSS levaram à demissão de Riazanov e, com o seu estranho desaparecimento em 1931, o projecto de edição das obras completas de Marx e de Engels em quarenta e dois volumes - Marx-Engels Gesamtausgabe (MEGA) - foi abandonado pelo regime estalinista. O projecto de edição das obras completas de Marx e de Engels (MEGA II) foi retomado posteriormente, mas voltou a abortar depois do desmoronamento da RDA e da URSS. A edição mais utilizada dos textos originais alemães é a Marx-Engels Werke (38 + 2), publicada em Berlim por Dietz Verlag (1961-1968). Infelizmente, em Portugal e no Brasil, não temos acesso a traduções portuguesas credíveis das obras de Marx e de Engels, nem sequer das mais conhecidas. As elites do poder portuguesas - sediadas em Lisboa - são profundamente ignorantes e perversas: a sua "esperteza" revela-se unicamente na arte de bem roubar e de mentir ao povo, adiando o desenvolvimento nacional equilibrado. O conhecimento da teoria revolucionária de Marx é a única arma que o povo tem para derrubar o sistema que o mantém cativo na esfera da necessidade: o povo português precisa unir-se na luta contra o poder total estabelecido; caso contrário, está condenado a ser o criado mal-remunerado da Europa. Portugal é estrutural e historicamente um país de analfabetos: o 25 de Abril não alterou essa situação, limitando-se a criar uma escola que distribui diplomas aos analfabetos: actualmente os portugueses são analfabetos diplomados, tal como os membros das suas classes dirigentes. (Leia aqui sobre o Classroom Chaos.)A Queda do Muro de Berlim e o consequente triunfo do neoliberalismo à escala global acarretaram a perda de popularidade do marxismo: os textos e as edições de Marx e de Engels tornaram-se raros. O poder estabelecido na Europa fez tudo para afastar o marxismo do seu caminho, mas a actual crise financeira e económica revela o fracasso total do neoliberalismo, da globalização e do capitalismo financeiro. Marx regressa à nossa companhia e com ele a necessidade de repensar não só a sua filosofia, mas também a sua economia e a sua política. Precisamos voltar a ler Marx, sabendo de antemão que a sua obra ficou inacabada: Marx conservou durante toda a sua vida uma atitude crítica perante o mundo e perante a sua obra, que o levava a refazer e a retrabalhar os seus conceitos, em vez de concluir os seus livros. Os textos inéditos e inacabados são tão importantes para compreender o pensamento de Marx como os textos acabados: o marxismo é profundamente avesso ao sistema. Como já vimos noutro post, a codificação soviética da dialéctica em sistema filosófico, que tende a transformá-la numa concepção científica do mundo - tal como foi esboçada por Engels -, esbarra com a própria essência da dialéctica: a dialéctica resiste à sua própria codificação. O carácter histórico da teoria marxista não permite generalizações a-históricas, opondo-lhes uma resistência feroz que ajuda a compreender o fracasso do marxismo soviético para elaborar um manual adequado de dialéctica e de lógica. A força teórica e política do marxismo reside precisamente no seu carácter inacabado e aberto: cada geração deve repensá-lo e refazê-lo em função das novas circunstâncias do mundo e dos novos imperativos políticos.
Este post apresenta uma lista de livros clássicos, com o objectivo de orientar e ajudar a preparar os futuros leitores de Marx num mundo em crise. A União Europeia prepara-se para executar uma política regressiva que ameaça radicalmente o estilo de vida dos europeus e o seu modelo social: exige sacrifícios sem explicitar uma perspectiva de futuro. Porém, a aposta nas privatizações mostra que a Europa não aprendeu nada com a crise financeira e económica, como se estivesse à espera de reestabelecer o anterior paradigma ou de operar um recuo civilizacional. Perante esta ameaça de regressar à situação de miséria das classes oprimidas na Era da Industrialização, os cidadãos europeus devem unir-se em torno da teoria que libertou os seus antepassados da exploração e da opressão. A lista que a seguir apresento é selectiva, estando circunscrita a autores do chamado marxismo ocidental: a sua interpretação de Marx não nega o papel decisivo da consciência na tarefa de transformação do mundo. Iring Fetscher e Hermann Bollnow censuram Engels por ter construído o seu conceito de revolução a partir do modelo da revolução industrial, isto é, da transformação de toda a ordem social impulsionada pelo desenvolvimento da indústria e pela invenção da máquina. Desta concepção engelsiana da revolução resulta que ela deixa de ser concebida como uma acção histórica radical, passando a ser vista como expansão quantitativa de carácter mecânico. Privada do sujeito, a dialéctica transforma-se numa mecânica evolutiva de objectos naturais, entre os quais se situa a consciência, e a história é submetida às leis naturais. Lichtheim critica o anti-kantismo de Engels, opondo-lhe as Teses sobre Feuerbach: Marx - rompendo com o materialismo - defende que a chave da transformação desejada do mundo se encontra na capacidade criadora do homem para reorganizar o mundo e para se auto-educar no decurso do desenvolvimento progressivo do seu próprio ser. Max Adler (1925) operou essa síntese entre marxismo e kantismo na sua obra Kant und der Marxismus. Eis a lista:
Adorno, Theodor W. (1966). Negative Dialektik (Dialéctica Negativa). Frankfurt: Suhrkamp.
Adorno, Theodor W. et al. (1950). The Authoritarian Personality. New York: Harper & Row.
Althusser, Louis (1977). Pour Marx. Paris: François Maspero. (Há tradução portuguesa.)
Apel, Karl-Otto (1973). Transformation der Philosophie (2 vols.). Frankfurt: Suhrkamp. (Há tradução portuguesa.)
Aron, Raymond (1970). Marxismes Imaginaires. Paris: Gallimard.
Axelos, Kostas (1963). Marx, Penseur de la Technique. Paris: Minuit.
Balibar, Étienne (1993). La Philosophie de Marx. Paris: La Découverte.
Baran, Paul (1957). The Political Economy of Growth. New York: Monthly Review Press. (Há tradução portuguesa.)
Baran, Paul & Sweezy, Paul M. (1966). Monopoly Capital. New York: Monthly Review Press. (Há tradução portuguesa.)
Bigo, Pierre (1953). Marxisme et Humanisme. Paris: PUF.
Bloch, Ernst (1947, 1949). Subjekt-Objekt: Erläuterungen zu Hegel (Sujeito-Objecto: Comentário sobre Hegel). Frankfurt: Suhrkamp.
Bloch, Ernst (1961). Naturrecht und Menschliche Würde (Direito Natural e Dignidade Humana). Frankfurt: Suhrkamp.
Bottomore, Tom, org. (1981, 1991). A Dictionary of Marxist Thought. Oxford: Blackwell. (Há tradução portuguesa.)
Bottomore, Tom & Rubel, Maximilien (1961). Selected Writings in Sociology and Social Philosophy. London: Watts & Company. (Há tradução portuguesa.)
Buck-Morss, S. (1977). The Origin of Negative Dialetics: Theodor W. Adorno, Walter Benjamin and the Frankfurt Institute. New York: Free Press.
Burnham, James (1941). The Managerial Revolution. New York: John Day. (Burnham analisa a ascensão social das novas classes dirigentes, precisamente os nossos gestores públicos e privados - e os nossos políticos corruptos e incompetentes - que se auto-atribuem remunerações e prémios ultra-milionários. Esta classe de ladrões profissionais destruiu o tecido produtivo da sociedade portuguesa. Doravante, mais vale ser gestor do que empresário: o roubo e as engenharias financeiras estão a destruir o mundo.)
Callinicos, Alex (1989). Against Postmodernism: A Marxist Critique. London: Basil Blackwell.
Castoriadis, Cornelius (1975). L'Institution Imaginaire de la Société. Paris: Seuil.
Cornu, Auguste (1955, 1958, 1961, 1970). Karl Marx e Friedrich Engels (4 vols.). Paris: PUF.
Derrida, Jacques (1993). Spectres de Marx. Paris: Galilée.
Dobb, Maurice (1963). Studies in the Development of Capitalism. London: Routledge and Kegan Paul. (Há tradução portuguesa.)
Fromm, Erich (1961). Marx's Concept of Man. New York: Ungar. (Há tradução portuguesa.)
Fromm, Erich et al. (1965). Socialist Humanism. New York: Doubleday & Company. (Há tradução portuguesa.)
Habermas, Jürgen (1963). Theorie und Praxis. Neuwied: Hermann Luchterband Verlag.
Heller, Agnés (1978). La Théorie des Besoins chez Marx. Paris: UGE.
Henri de Lubac, S. J. (sd). O Drama do Humanismo Ateu. Porto: Porto Editora. (Perspectiva católica.)
Horkheimer, Max (1970). Kritische Theorie (2 vols.). Frankfurt: Fischer Taschenbuch Verlag. (Há tradução portuguesa parcial.)
Hyppolite, Jean (1960). Études sur Marx et Hegel. Paris: Marcel Rivière.
Kojève, Alexandre (1947). Introduction à la Lecture de Hegel. Paris: Gallimard. (Há tradução portuguesa.)
Kolakowski, Leszek (1987). Histoire du Marxisme (3 vols.). Paris: Fayard.
Kosic, Karel (1977). Dialéctica do Concreto. Lisboa: Dinalivro.
Jameson, Fredric (1990). Late Marxism: Adorno, or, The Persistence of the Dialectic. London, New York: Verso.
Lefebvre, Henri (1965). Metaphilosophie. Paris: Minuit.
Lichtheim, George (1961, 1965). Marxism: An Historical and Critical Study. New York: Frederick A. Praeger.
Löwith, Karl (1941). Von Hegel zu Nietzsche. Zurich: Europa Verlag.
Lukács, Georg (1923). Geschichte und Klassenbewusstein. Zurich: Europa Verlag. (Há tradução portuguesa.)
Lukács, Georg (1948). Der Junge Hegel. Zurich: Europa Verlag.
Mandel, Ernest (1975). Late Capitalism. London: New Left Books. (Há tradução portuguesa.)
Mandel, Ernest (1976). Tratado de Economia Marxista. Lisboa: Delfos.
Marcuse, Herbert (1941). Reason and Revolution: Hegel and the Rise of Social Theory. New York: Oxford University Press. (Há tradução portuguesa.)
Marcuse, Herbert (1958). Soviet Marxism: A Critical Analysis. New York: Columbia University Press.
Merleau-Ponty, Maurice (1955). Les Aventures de la Dialectique. Paris: Gallimard.
Mills, C. Wright (1963). The Marxists. New York: Dell. (Há tradução portuguesa.)
Popper, Karl (1945). The Open Society and Its Enemies (2 vols.). London: G. Routledge. (Há tradução portuguesa.)
Popper, Karl (1957). The Poverty of Historicism. London: G. Routlegde. (Há tradução portuguesa.)
Riazanov, David (1967). Marx et Engels. Paris: Anthropos.
Rubel, Maximilien (1974). Marx, Critique du Marxisme. Paris: Payot.
Sartre, Jean-Paul (1960). Critique de la Raison Dialectique. Paris: Gallimard. (Há tradução portuguesa.)
Schumpeter, Joseph A. (1942, 1987). Capitalism, Socialism and Democracy. London: Allen & Unwin. (Há tradução portuguesa.)
Sweezy, Paul M. (1956). The Theory of Capitalist Development. New York: Monthly Review Press. (Há tradução portuguesa.)
Wahl, Jean (1929). Le Malheur de la Conscience dans la Philosophie de Hegel. Paris: PUF.
Wellmer, Albrecht (1969). Kritische Gesellschaftstheorie und Positivismus. Frankfurt: Suhrkamp.
Wellmer, Albrecht (1985). Zur Dialektik von Moderne und Postmoderne: Vernunftkritik nach Adorno. Frankfurt: Suhrkamp.
Williams, Raymond (1989). The Politics of Modernism: Against the New Conformists. London: Verso.
Wittfogel, Karl A. (1957). Oriental Despotism: A Comparative Study of Total Power. New Haven: Yale University Press. (A leitura desta obra permite descobrir o aparecimento de traços feudais ou mesmo asiáticos - o modo de produção asiático de Marx - no seio das sociedades capitalistas tardias, e associá-los ao poder total das novas classes dirigentes: o mundo ocidental está a regredir e, a qualquer momento, ameaça mergulhar as populações na miséria e na pobreza.)
J Francisco Saraiva de Sousa

O mundo ocidental precisa de uma nova fi-losofia, mas a sua elaboração é confrontada com um pensamento terrível: o homem ocidental envelheceu e recusa ser humano. Como oferecer uma nova filosofia a este monstro? O pensamento medonho e horrendo da não existência de uma raça com vigor gera angústia e mergulha-nos - a nós homens de cultura - na depressão cognitiva. Neste mundo metabolicamente reduzido, o drama da Filosofia pode ser resumido em duas expressões que reflectem o processo de regressão mental e cognitiva em curso: escassez de filósofos de qualidade, capazes de fazer a síntese de conhecimentos à luz da experiência actual, e ausência de um público inteligente e culto. O progresso conduziu à regressão total: o desenvolvimento capitalista gerou uma consciência feliz que está imunizada contra o pensamento filosófico. A humanidade reconduzida à sua animalidade tornou-se uma mercadoria sem valor no mercado mundial. Porém, se os europeus do Norte perderam recentemente a sua humanidade, os do Sul nunca a tiveram: a Europa do Sul é habitada há muitos séculos por zombies. A grande verdade que quero revelar ao mundo é a de que os portugueses não têm vida psicológica, cognitiva e cultural. Infelizmente, os portugueses sempre-já nasceram zombies. Portugal não existe. J Francisco Saraiva de Sousa
A propósito da visita do Papa Bento XVI a Por-tugal, a irmã leiga Fátima Campos Ferreira - imaginem a jornalista da RTP1 vestida de freira - reuniu quatro figuras católicas e a sua galeria habitual de convidados: Marcelo Rebelo de Sousa, D. Carlos Azevedo (Bispo auxiliar), Margarida Neto (Psiquiatra católica) e Eugénio Fonseca (Cáritas). Fátima Campos Ferreira disse ter lido algumas obras teológicas de Joseph Alois Ratzinger, mas, se isto fosse verdade, teríamos assistido a uma condução mais inteligente do «debate» entre católicos. Em vez de uma conversa agradável e inteligente sobre os problemas - incluindo o da pedofilia interna - que desafiam a autoridade da Igreja Católica no mundo contemporâneo, e o seu papel na História de Portugal e do Mundo, escutei a velha lengalenga sobre a crise de valores. O que é a crise de valores? Os principais participantes definiram-na como uma perda de valores. Que valores são esses que perdemos? Os valores cristãos, respondem os católicos, responsabilizando o relativismo (M. Rebelo de Sousa), a moda (Carlos Azevedo) e a solidão (Margarida Neto) pela liquidação dos valores cristãos. Ora, todos estes aspectos referidos resultaram do processo de secularização que acompanha a Modernidade: a secularização é o processo mediante o qual sectores da sociedade e da cultura foram e são subtraídos à dominação das instituições e dos símbolos religiosos. As sociedades modernas que materializaram algumas aspirações ancestrais da humanidade oprimida - tais como a luta contra o obscurantismo, a exploração, a
A
«A auto-evidência é o campo do saber inquestionavelmente certo. A perda da auto-evidência abala este campo: sei cada vez menos, por isso tenho opiniões diferentes. /No "caso normal" da modernização não preciso mais decidir-me se estou disposto a sacrificar a minha vida por razões de fé ou por meras opiniões. O conhecimento inquestionavelmente seguro dissolve-se num conjunto de opiniões unidas de modo livre, sem mais o carácter de agregado muito constrangedor. Interpretações firmes da realidade tornam-se hipóteses. Convicções tornam-se questões de gosto. Preceitos tornam-se sugestões. Estas mudanças na consciência criam a impressão de certa superficialidade». (Peter L. Berger & Thomas Luckmann) Não me lembro de ter aprendido fenomenologia durante o curso: tenho uma vaga memória de ter escutado umas noções não menos vagas sobre Husserl e Merleau-Ponty, mas, como já os conhecia, ocupava o meu tempo a ler os meus mestres da Escola de Frankfurt, interrompendo as aulas para colocar questões que embaraçavam a professora e a reduziam à sua mais triste mediocridade, com o olhar perdido algures no horizonte. No entanto, redescobri novos livros de Merleau-Ponty, sobretudo os que eram omitidos nas aulas: introduzi o marxismo, mais precisamente clarifiquei a passagem da fenomenologia transcendental para a fenomenologia existencial e a síntese operada por Sartre e Merleau-Ponty entre fenomenologia e
Prós e Contras (3 de Maio) debateu novamente a questão das finanças públicas de Portugal, dando especial destaque aos investimentos lisboetas do governo. Com excepção do espanhol Guillermo de la Dehesa e de Luís Nazaré, os outros quatro participantes - António Nogueira Leite, Luís Campos e Cunha, José Silva Lopes e João Salgueiro - consideram que a iniciativa do governo de avançar com o seu programa lisboeta de investimentos públicos - TGV, novo aeroporto e a terceira via sobre o Tejo - vai hipotecar o futuro de Portugal. Medina Carreira já tinha dito na SicNotícias que os ex-ministros das finanças pediram uma audiência com o Presidente da República, com o objectivo de exigir uma "mudança de políticas em Portugal" (João Salgueiro). O governo socialista bloqueou a linha mais lucrativa do TGV entre Porto e Vigo, porque o governo espanhol adiou esta obra, a única que mais interessava a Portugal: o confronto argumentativo entre João Salgueiro - contra o TGV neste contexto de crise - e Luís Nazaré - a favor dos interesses espanhóis - não só revela a irracionalidade da "política oficial" defendida pelo último, em nome do governo, mas também e sobretudo mostra que aqui no Norte só teremos futuro quando rompermos definitivamente com Lisboa: a autodeterminação é a única solução viável para o Norte. O interesse superior do Norte deve estar acima dos interesses partidários ou dos interesses pseudo-nacionais e do sentimentalismo nacional, porque, se não cuidarmos do nosso destino, seremos escravizados pela capital asteca. A clivagem de desenvolvimento entre Norte e Sul vai acentuar-se com a construção destas obras públicas: o Norte já é uma das regiões mais pobres da Europa e, se os nortenhos ficarem parados, confiantes nos subsídios sociais que irão perder, estão condenados à miséria mais terrível e à humilhação policial de uma capital sanguinária e canibal. Os símbolos nacionais não põem comida nos pratos, como todos sabemos: em vez de fingirmos fazer parte de um país que não é o nosso, precisamos amar os nossos próprios símbolos e construir o nosso próprio caminho, a nossa verdadeira pátria, sem estarmos dependentes de um poder central que nos explora, humilha e oprime. A solução proposta por Luís Nazaré para emagrecer o Estado é libertá-lo das gorduras regionais, concentrando todos os seus serviços em Lisboa: nós portuenses não queremos ser tratados como gorduras do Estado Gordo de Lisboa, cuja gordura peçonhenta nos sufoca e nos empobrece. Num mundo que mergulha rapidamente na pobreza e na catástrofe, quem confiar o seu destino em mãos alheias - e Lisboa Gorda é-nos completamente alheia, estranha e inimiga - será o primeiro a ser liquidado. A corrupção lisboeta está a matar Portugal: o comportamento heróico exibido pelos portuenses e nortenhos - e não apenas pelos portistas - neste último domingo contra a opressão policial - foram recrutados mais de 700 polícias para "proteger" os diabos vermelhos da sua própria violência - aponta o caminho que devemos seguir para conquistar a nossa liberdade plena. O Norte pode e deve ser reconstruído na e pela luta sem tréguas contra as forças lisboetas colonizadoras: o sectarismo da comunicação desportiva - a falsificação intencional da objectividade desportiva - alimenta o nosso ódio saudável, facilitando a tomada de consciência adequada da situação de exploração e de opressão em que vivemos. A luta contra o Benfica - o clube do regime fascista que continua a sonhar o fascismo neonazi para Portugal - constitui um passo fundamental na grande luta pela libertação do Norte: recusar o Benfica é recusar o colonialismo lisboeta. Na vingança o Norte vai encontrar o sentido da sua existência (André Malraux): o seu lugar no mundo civilizado, desenvolvido e livre. Ninguém é contra a construção do TGV e muito menos contra os investimentos públicos. Medina Carreira foi peremptório: se houvesse muito dinheiro nos cofres do Estado, o governo podia dar-se ao luxo de desperdiçar algum dinheiro na construção da via não-lucrativa de TGV Lisboa-Madrid, mas, como estamos completamente endividados, à mercê dos especuladores e dos mercados financeiros, o bom-senso aconselha a não investir em "elefantes brancos". Porém, o governo perdeu completamente o bom-senso: a linha de TGV Lisboa-Porto foi adiada, embora fosse auto-financiável (Silva Lopes), e a linha de TGV Porto-Vigo - aquela que seria a mais lucrativa (João Salgueiro, Rui Moreira) - foi esquecida, num acto vergonhoso de vassalagem prestada pelo governo de Lisboa a Espanha. Campos e Cunha defendeu o investimento público de qualidade: as grandes obras públicas projectadas por este governo são mau investimento público que prolonga e agrava "o desastre - das políticas económicas - dos últimos 20 anos" (João Salgueiro). Numa situação de penúria extrema, como é a nossa, o governo autista do PS investe em obras públicas não-lucrativas, sem ter em conta o interesse nacional e o desenvolvimento equilibrado de todo o país: o empobrecimento activo do Norte - a sua perda de centralidade - iniciou-se nos governos de Cavaco Silva (PSD) e consuma-se nos governos de José Sócrates (PS). O governo pseudo-socialista está, como disse João Salgueiro, a hipotecar o futuro de Portugal. O seu PEC é, afinal, um PE, sem um programa de crescimento económico a médio e a longo prazo (Nogueira Leite). O governo autista do PS não tem uma visão de futuro para Portugal, a não ser a do endividamento total que nos levará à bancarrota depois de 2013 (Silva Lopes). A falta de bom-senso deste governo revela-se neste facto simples: a linha TGV entre Lisboa e Madrid é supostamente uma linha mista - de passageiros e de mercadorias. No entanto, como não existem terminais de mercadorias, a linha irá ser ultilizada para transportar pessoas, e, quando as mercadorias puderem circular num futuro distante, o seu movimento far-se-á no sentido Espanha/Europa->Portugal, porque o nosso tecido produtivo foi sistemática e completamente liquidado ao longo dos últimos 20 anos: Portugal não produz para exportar e chegará proximamente o dia em que os lisboetas não terão dinheiro no bolso para viajar até Madrid. Ricardo Salgado (BES), um apologista do TGV, aconselha neste momento de tempestade prudência: adiar os grandes investimentos lisboetas que condenam o resto do país à miséria, e Lisboa, ao papel de vagabunda saloia da Europa. Portugal debate-se com diversos problemas que, seguindo as indicações dos convidados deste debate, podemos esquematizar deste modo: o problema estrutural - o nosso atraso histórico - e o problema conjuntural - a actual crise financeira e económica. João Salgueiro fez um retrato fiel de Portugal, quando afirmou que o nosso país não cresce, mas tem desequilíbrios nas suas contas: os portugueses andam a consumir muito acima das suas possibilidades produtivas, donde resulta o nosso endividamento externo crescente, mais preocupante do que o da Grécia ou o de Espanha, pelo facto de não haver crescimento económico e poupanças nacionais (Silva Lopes): Portugal depende inteiramente do financiamento externo. O crescimento económico desceu vertiginosamente nas últimas décadas, enquanto o endividamento externo aumentou a um ritmo alucinado (Nogueira Leite). A solução é exportar mais ou consumir menos (João Salgueiro). Silva Lopes lembrou que exportar para Angola é pior do que não exportar, porque este país não paga o que importa de Portugal. De imediato, temos de resolver três problemas (Silva Lopes): o desequilíbrio orçamental, o endividamento externo - dívida pública e privada - e a falta de competitividade da nossa economia. E, a médio e a longo prazo, porque o tempo exige urgência, como sublinhou João Salgueiro, precisamos elaborar um programa de resolução dos problemas estruturais da economia portuguesa (Nogueira Leite) e levar a cabo as reformas da justiça e da educação (Campos e Cunha). As obras públicas projectadas por este governo não se enquadram nesta nova visão para Portugal, até porque garantem aos privados rentabilidades elevadas sem risco que acabam por pesar na despesa pública: projectos sem risco matam, como frisou Nogueira Leite, a economia, a capacidade de inovar e a competitividade, além de não resolverem de forma sustentada o problema do desemprego (João Salgueiro). A necessidade de manter Portugal na zona Euro e a redução da despesa pública em relação ao PIB foram matérias consensuais neste debate: os economistas presentes manifestaram uma enorme desconfiança em relação ao "jogo de enganos" dos políticos portugueses (João Salgueiro, Silva Lopes, Nogueira Leite), aliás acusados de desviarem a atenção dos portugueses dos problemas reais da nossa sociedade e da nossa economia. É necessário contar toda a verdade aos portugueses: o Estado-Providência - o Estado Social - pode ter os seus dias contados, pelo menos na versão que conhecemos. O futuro não será igual ao presente e ao passado próximo: os portugueses devem preparar-se para sofrer recuos dialécticos significativos nos direitos adquiridos, muitos dos quais não serão simplesmente conjunturais mas estruturais. O modelo de sociedade que tem vigorado entre nós é uma terrível mentira, engendrada por cérebros verdadeiramente lunáticos, que os mercados externos já não querem financiar. A dependência da economia portuguesa em relação aos financiamentos externos é uma ideia/realidade insuportável. Precisamos de imaginação política para projectar um futuro novo para o Ocidente num mundo global refractário à sua dominação. Precisamos inventar um novo Portugal, uma nova Europa, um novo Ocidente, mas para isso devemos estar preparados para operar uma mudança radical de estilo de vida: a verdadeira felicidade está para além do mero consumo. J Francisco Saraiva de Sousa
Ontem (1 de Maio), no programa Plano Inclinado da SicNotícias - debate moderado por Mário Crespo, Guilherme Valente defendeu uma ideia monstruosa e extremamente perigosa: responsabilizou Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) pela destruição da escola, como se a sua filosofia da educação tivesse promovido aquilo a que chama o eduquês. Uma tal afirmação não só revela desconhecimento do pensamento de Rousseau e da articulação adequada das suas obras, como também enfraquece a crítica radical do actual sistema de ensino e da pedagogia administrativa que o molda: Guilherme Valente desautoriza-se a si mesmo e à sua causa quando afirma um tal disparate. Embora não tenha elaborado esta tese monstruosa, torna-se evidente que Guilherme Valente interpreta de modo errado o Emílio de Rousseau: ele deve ter lido esta obra como um convite a imitar a espontaneidade sensitiva da criança, em vez de uma reflexão racional do preceptor que dirige a espontaneidade da criança. Rousseau não faz o louvor do sentimento irreflectido, mas expõe uma «ciência pedagógica» que reconhece a necessidade da mediação, pelo menos durante um determinado momento do crescimento humano. O que está aqui em causa não é a crítica justa do eduquês, mas sim o alinhamento político de certas figuras que lhe dão voz: Guilherme Valente diz ser "democrata" - sim, entre aspas, como se isso fosse suficiente para garantir a validade incondicional da seu projecto educativo alternativo. A herança revolucionária de Rousseau, viva ainda hoje, é a sua concepção democrática da pessoa humana: a sua humanidade democrática confere sentido à máxima liberal de Montesquieu, segundo a qual não devemos «abater ou aviltar a natureza humana». Ora, ao condenar a visão da infância de Rousseau, Guilherme Valente parece optar por um sistema repressivo de educação tout court: a educação como castração da espontaneidade da criança. À noção eduquesa de que "a criança não pode ser reprimida", Guilherme Valente opõe a noção autoritária de que "a criança pode e deve ser reprimida": a autoridade do professor que reclama é, afinal, o poder de repressão, tal como era exercido no tempo do fascismo. De facto, Guilherme Valente acerta quando escolhe Rousseau como seu próprio adversário e não como a força matricial do eduquês: o professor que rouba a liberdade do aluno é a figura encarnada da própria dominação. Guilherme Valente confunde o papel desempenhado pela escola na reprodução do actual sistema social com a própria pedagogia: o currículo oculto é um conceito crítico estranho ao pensamento pedagógico de Guilherme Valente. A crítica do actual sistema de ensino não pode ser desvinculada da crítica da sociedade estabelecida sem correr o risco de se converter naquilo que é efectivamente: a apologia da repressão, a nostalgia do fascismo. A filosofia política de Rousseau é uma filosofia da liberdade. A doutrina do contrato social de Rousseau é completamente distinta da teoria de Hobbes: a unidade autêntica e verdadeira dos homens não é alcançada mediante a coacção, mas deve fundar-se na liberdade. Para Rousseau, a liberdade não exclui a submissão, que não é a submissão de uma vontade particular ou de uma pessoa individual aos caprichos de outras vontades particulares, mas sim o cancelamento da mera vontade individual enquanto tal: a vontade já não exige por si mesma, mas persiste e quer no âmbito da vontade geral. A partir deste tipo de contrato social fundado na liberdade, Rousseau estabelece uma conexão entre os conceitos autênticos de liberdade e de lei: a liberdade autêntica exige a vinculação a uma lei rigorosa e inviolável, que cada indivíduo estabelece sobre si mesmo, de modo a contribuir para a construção de uma forma de comunidade que proteja cada um dos seus membros com toda a força reunida e unificada da associação estatal. Assim, ao unir-se com os outros indivíduos, o indivíduo descobre que nessa união obedece tão-somente a si mesmo, porque a vinculação à vontade geral constitui a personalidade autónoma. A ética e a política de Kant e de Fichte recuperam este entusiasmo de Rousseau pela força e pela dignidade da lei. Romper com a herança revolucionária de Rousseau é romper com a democracia radical: Guilherme Valente deseja - mesmo que não tenha consciência disso - um regresso à pré-modernidade. A sua vacilação entre a modernidade e a pós-modernidade revela a sua nostalgia pelo passado autoritário, sobretudo quando rejeita, num gesto primário de estupidez mecânica, toda a herança iluminista: o pensamento pedagógico de Guilherme Valente é avesso a todo o universo democrático. Medina Carreira colocou sobre a mesa a questão pertinente de saber como podemos mudar os rumos da educação em Portugal se todo o sistema de ensino está dominado pelo eduquês: conferir autoridade a professores eduqueses - isto é, "burros", na terminologia campestre de Medina Carreira -, não altera qualitativamente o sistema educativo. Guilherme Valente parece apostar nos alunos que queiram ser transformados em joguetes dos desígnios ocultos dos sequazes da reflexão pedagógica, que, na sua óptica, visa "intencionalmente" destruir a escola. O eduquês e o valentismo partilham a mesma visão da dominação: a relação entre professor e aluno é vista, nos dois casos, como uma relação de subordinação, a dominação do aluno sobre o professor (eduquês) ou a dominação do professor sobre o aluno (valentismo). A politização da escola é fatal: o modelo da governação transposto para a escola conduz à sua destruição. E foi isto que Rousseau condenou na sua linguagem paradoxal e, nas obras pedagógicas, autobiográfica: «a educação não só introduz diferença entre espíritos cultos e aqueles que não o são, mas também aumenta a que existe entre os primeiros em proporção da cultura, pois, quando um gigante e um anão caminham na mesma estrada, cada passo que um e outro derem propiciará uma vantagem ao gigante» (Rousseau). A desigualdade natural entre os homens é aumentada e agravada pela desigualdade de instituição - instituída pelo primeiro homem que, cercando um terreno, se atreveu a dizer "Isto é meu": Rousseau não defende a desigualdade social entre os homens, a começar pela desigualdade entre os espíritos promovida por um sistema de educação público que não transmite conhecimentos e instrumentos conceptuais e técnicos aos alunos mais desfavorecidos. A escola não deve enterrar os alunos ou mesmo os professores entre os vivos, erguendo entre eles muros de trevas impenetráveis aos seus olhares, e enlaçando-os de «tantas maneiras que, no meio dessa liberdade simulada, não possam dizer uma palavra, nem dar um passo, nem mover um dedo» sem que a vigilância malévola o saiba e o queira. O pensamento de Rousseau não está fechado, como o demonstra a diversidade de leituras existentes. Porém, a partir do momento em que a via da educação - preconizada por Kant e Cassirer - fracassou totalmente depois do 25 de Abril, resta-nos a via da revolução preconizada por Engels - o leitor atento de Rousseau: os homens escravizados e submetidos à violência do despotismo escolar estabelecido - os homens privados de conhecimentos efectivos e de futuro - devem recorrer à violência para se libertarem e para derrubarem os tiranos eduqueses. A via revolucionária - alargada a todas as esferas da sociedade portuguesa - é a única que pode garantir resultados positivos quase imediatos, sem comprometer e adiar o futuro por mais três ou quatro gerações. (Guilherme Valente é proprietário de uma Editora - Gradiva, cujos livros publicados não ajudam a melhorar a qualidade da cultura científica portuguesa: a divulgação científica é contrária ao verdadeiro espírito científico, fomentando nos seus consumido-res/leitores a ilusão de que sabem aquilo que não sabem.) Anexo: Carlos Fiolhais publicou hoje (3 de Maio) um post sobre os comentários que foram realizados na Internet a propósito da intervenção de Guilherme Valente no debate "Plano Inclinado": veja
Tran Duc Thao (1917-1993) é um brilhante filósofo vietnamita que realizou o percurso interior da fenomenologia husserliana ao marxismo: a sua crítica da fenomenologia é muito diferente da crítica marxista de Lukács que a estuda de fora, em vez de retomar do interior o seu pensamento, como faz Thao ao prolongar - conservando-o e superando-o - o idealismo transcendental no materialismo dialéctico. Na sua obra Phénoménologie et Matérialisme Dialectique, Thao (1951) analisa magnificamente os três grandes H's da Filosofia Alemã - Hegel,