segunda-feira, 26 de abril de 2010

Marxismo e Fenomenologia

«A crise da existência da Europa só tem duas saídas: ou a Europa desaparece, ao tornar-se sempre mais estranha à sua própria significação racional, que é o seu sentido vital, e afundar-se-á no ódio ao espírito e na barbárie; ou, então, a Europa renascerá do espírito, graças a um heroísmo da razão que ultrapassará definitivamente o naturalismo. O maior perigo que ameaça a Europa é a lassidão. Combatamos este perigo dos perigos como «bons Europeus», animados por essa coragem que mesmo um combate infinito não assusta. Então, da chama destruidora da incredubilidade, do fogo onde se consome toda a esperança na missão humana do Ocidente, das cinzas da pesada lassidão, ressuscitará a Fénix de uma nova interioridade viva, de uma nova espiritualidade; será para os homens a secreta promessa de um futuro grande e duradoiro: pois só o espírito é imortal». (Edmund Husserl, A Crise das Ciências Europeias e a Fenomenologia Transcendental.)
A Fenomenologia Transcendental de Edmund Husserl (1859-1938) chamou desde cedo a atenção de ilustres filósofos marxistas, que lhe negaram a significação histórica que ela atribuiu a si mesma no devir da cultura ocidental. Em termos simples, a tarefa filosófica de Husserl pode ser vista como uma tentativa de salvar o Cogito dos ataques que lhe dirigiam os cépticos. Embora tenha conservado a visão transcendental de Descartes, Husserl dispensa a sua noção de ego como substância: a suspensão - a colocação entre parêntesis - da nossa crença natural na existência do mundo inclui também a suspensão do ego psicológico: o que fica depois de operarmos essa redução é uma colecção de significados que devem ser investigados. O Ego transcendental não é uma substância: ele permanece, juntamente com o mundo, dentro da consciência, ao mesmo tempo que é intencional. Husserl não aboliu a diferença entre o acto de cognição e o seu objecto: ambos ocorrem na consciência e, sendo assim, o objecto pode tornar-se transparente. O ego não é uma coisa imóvel: ele é dirigido para algo que constitui uma propriedade da sua própria constituição. Para Husserl, o que é consciente na consciência transcendentalmente reduzida abrange os dois pólos intimamente ligados um ao outro: o sujeito do conhecimento purificado e o universo infinito de significados. Ao abolir a substancialidade do ego cartesiano, Husserl redu-lo a um recipiente vazio de fenómenos não perceptíveis ou de movimentos de intenção, onde pensa residir a fonte segura do conhecimento original. Husserl salva o nome, fazendo desaparecer o ego e reduzindo o mundo a uma colecção de significados que se originam nesse ego purificado: o ego transcendental e o mundo são duas não-coisas que se ajudam mutuamente para alcançar o absoluto cognitivo. Porém, este absoluto - a fonte de certeza sobre si próprio, do mundo ou de Deus - é alcançado mediante o esvaziamento da realidade. Heidegger foi um dos primeiros filósofos a recusar definir a existência humana em termos psicológicos ou cognitivos supostamente primitivos: o homem não pode fugir do mundo através de esforços mentais, porque está desde logo lançado numa situação contingente que deve ser descrita - em termos ontológicos - através das suas relações consigo mesmo, com os outros e com o mundo.
A crítica marxista da fenomenologia husserliana encontra-se elaborada nas obras referidas a seguir, mas o seu núcleo duro revela-se nestas frases de Lukács: «A fenomenologia, sobretudo na sua evolução após Husserl, acreditou descobrir na Wesensschau um instrumento de conhecimento capaz de apreender a essência da realidade objectiva, sem no entanto ultrapassar a consciência humana, digamos individual. A Wesensschau é uma espécie de introspecção intuitiva, que não tem por objecto o próprio processo de reflexão como processo psicológico, mas a estrutura dos objectos desse processo e a natureza do acto abstracto pelo qual a reflexão põe o seu objecto. É assim que se constitui a noção fenomenológica do objecto intencional. (...) (O método fenomenológico) conduz a opor a consciência do indivíduo isolado ao pretenso caos das coisas e dos homens, pois que, sem o confessar, faz abstracção de todo o elemento social. É, pois, apenas o sujeito pensante que é susceptível de criar uma ordem subjectiva neste caos. Em definitivo, a famosa "terceira via" que se diz ultrapassar o idealismo e o materialismo, assim como a não menos famosa objectividade da fenomenologia, conduzem-nos exactamente ao neokantismo. (...) Em Heidelberg, onde Scheler me veio ver durante a Primeira Guerra Mundial, tivemos uma conversa muito interessante sobre este assunto. Scheler dizia que, sendo um método universal, a fenomenologia pode tomar tudo por objecto intencional. "Assim, por exemplo - disse-me ele -, pode-se perfeitamente proceder ao exame fenomenológico do Diabo, pondo previamente entre parêntesis o problema da sua existência". - Claro - respondi-lhe. - E em seguida, quando a análise fenomenológica do Diabo estiver terminada, não resta mais do que suprimir o parêntesis e eis o Diabo que surge diante de nós... Scheler riu, encolheu os ombros e não respondeu» (Lukács). A demolição adorniana do sujeito transcendental reforça a crítica lukácsiana, de modo a acentuar a clivagem entre a historicidade marxista e a historicidade fenomenológica. No entanto, coube a Kolakowski captar outra limitação da fenomenologia que foi tematizada por Merleau-Ponty: «A linguagem divide o mundo de um certo modo, e, sem dúvida, a nossa percepção seria diferente sem ela, mas uma vez que decidimos começar a analisar "a essência" de algo, tratamos sempre com a sedimentação das experiências seculares da humanidade, que, embora sejam explicáveis historicamente, não implicam nenhuma necessidade lógica. Por conseguinte, alguns elementos do sentido comum estão inevitavelmente presentes nos actos que constituem o método fenomenológico; em cada experiência há resíduos irredutíveis do sentido comum, e, ainda que realizemos a redução fenomenológica, não podemos livrar-nos da linguagem, e isto significa: de toda a história cultural da humanidade. Parece dificilmente possível, tal como Husserl parece acreditar, que possamos regressar à inocência cultural de um recém-nascido e continuar a ser fenomenólogos. Dado que existem tais resíduos no nosso espírito, não temos nenhuma garantia contra as ilusões; por outras palavras, não temos nenhuma fonte de certeza. Não posso ter uma intuição fenomenológica sem ser capaz de dar um nome ao objecto da minha intuição» (Kolakowski). Eis as obras:
Herbert Marcuse (1928), Beiträger zu einer Phänomenologie des Historischen Materialismus.
Maurice Merleau-Ponty (1947), Humanisme et Terreur.
Georg Lukács (1948), Existencialismo ou Marxismo?.
Tran-Duc-Thao (1951), Phénoménologie et Matérialisme Dialectique.
Theodor W. Adorno (1956), Zur Metakritik der Erkenntnistheorie: Studien über Husserl und die Phänomenologischen Antinomien.
Ernst Bloch (1959), Das Prinzip Hoffnung (3 vols.).
Jean-Paul Sartre (1960), Critique de la Raison Dialectique.
Jürgen Habermas (1970), Zur Logik der Socialwissenschaften.
Leszek Kolakowski (1975), Husserl and the Search for Certitude.
J Francisco Saraiva de Sousa

6 comentários:

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Ok, também tenho algunas costelas anglo-saxónicas. Por isso, podem referir o meu blogue nos sites anglo-saxónicos, sem me pedir autorização prévia. :)

Aveugle.Papillon disse...

Interessante excerto de Husserl, n conhecia. O paradoxo é que foi a própria existência (ainda que abstracta) de "Europa" que trouxe essa lassidão... Observemo-nos: não andamos, arrastamo-nos; não pensamos, expulsamos; não nos conseguimos conter ou concentrar. A vida tornou-se acumulação e desperdício. E por isso perdemos o interior ou a 'interioridade'.
Se a Europa se quiser cumprir auto-destruir-se-á. N vejo outra saída.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Sim, o último Husserl - o do mundo da vida, tem um pensamento muito interessante, que conduziu à fenomenologia existencial e à crítica marxista, na medida em que joga com a historicidade. Concordo com a análise de Kolakowski, embora o estudo de Duc-Thao seja muito interessante. Este é um tema que merece ser pesquisado a fundo.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Há muito tempo que não frequentava esta bibliografia: a Segunda Parte da obra de Thao é formidável - a dialéctica do movimento real e das sociedades humanas como devir da razão. Teoricamente, em termos filosóficos, temos saída, mas ela implica outra dialéctica - a do recuo dialéctico, dar alguns passos para trás de modo a garantir a continuidade da aventura humana.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Enfim, é usar Marx e Hegel para combater as traições da esquerda.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

O post está concluído. :)