quinta-feira, 29 de abril de 2010

Tran Duc Thao: O Mistério da Transcendência

Tran Duc Thao (1917-1993) é um brilhante filósofo vietnamita que realizou o percurso interior da fenomenologia husserliana ao marxismo: a sua crítica da fenomenologia é muito diferente da crítica marxista de Lukács que a estuda de fora, em vez de retomar do interior o seu pensamento, como faz Thao ao prolongar - conservando-o e superando-o - o idealismo transcendental no materialismo dialéctico. Na sua obra Phénoménologie et Matérialisme Dialectique, Thao (1951) analisa magnificamente os três grandes H's da Filosofia Alemã - Hegel, Husserl e Heidegger, com a preciosa ajuda do grande M: Karl Marx. Thao reconhece à fenomenologia o mérito de ter liquidado o formalismo no próprio horizonte do idealismo e de ter colocado todos os problemas do valor no terreno do concreto: os caminhos percorridos por Husserl - da eternidade das essências à subjectividade vivida, do Ego singular à génese universal - testemunham a aspiração constante do idealismo pelo conteúdo real, cujo conceito autêntico só pode ser definido pela dialéctica marxista. A partir do momento em que Husserl descobre o mundo da vida (Lebenswelt) como a origem e o fundamento de todas as significações inteligíveis, o seu idealismo transcendental é superado pela prática da análise do vivido: o mundo da vida revela-se como o meio da história humana, onde o universal se constitui no movimento real do tempo. Assim, a filosofia burguesa encontra no marxismo a sua forma de superação: a dialéctica marxista realiza a filosofia burguesa suprimindo-a.
Convém estabelecer um paralelo entre o percurso de Thao e o de Marcuse. Antes de 1929, enquanto esteve em Friburg, o pensamento do jovem Marcuse estava imbuído de categorias fenomenológicas, apesar do seu compromisso firme com o marxismo. A sua tentativa de combinar o marxismo e a fenomenologia antecipou os empreendimentos levados a cabo por Merleau-Ponty e Sartre depois da guerra. No seu artigo «Beiträger zu einer Phänomenologie des Historischen Materialismus», Marcuse (1928) usa muitos termos do vocabulário do seu mestre Heidegger, tais como Sorge, Geschichtlichkeit, Entschlossenheit e Dasein. Para Marcuse, a filosofia burguesa dissolve-se desde o interior na obra de Heidegger - Sein und Zeit -, abrindo o caminho para uma «nova ciência do concreto». Marcuse justifica a sua tese alegando três razões fundamentais: Heidegger mostrou a importância ontológica da história e do mundo histórico como um Mitwelt - o mundo da interacção humana (1); demonstrou que o homem está preocupado com a sua verdadeira posição no mundo, colocando em termos correctos a questão do «ser autêntico» (2); e, por fim, ao defender que o homem pode alcançar o ser autêntico mediante a acção resoluta, conduziu a filosofia à necessidade de uma praxis (3). Ora, a fragilidade da filosofia de Heidegger reside basicamente no seu conceito abstracto e geral de historicidade, que não lhe permite explicar as condições históricas reais que constituem a acção humana libertadora: a possibilidade de ser autêntico aponta para a proeza radical que, no momento histórico presente, só é possível como proeza do proletariado, o único ser-no-mundo capaz de se comprometer numa acção radical e de se converter em sujeito histórico real. Marx reconheceu aquilo que Heidegger ignorou: a divisão da sociedade em classes sociais antagónicas. Os actuais capatazes da classe capitalista - os gestores e gerentes públicos e privados que auto-atribuem a si mesmos remunerações chorudas e prémios imorais - negam a existência das classes sociais e das suas lutas. Embora tenha sido abolida semanticamente, a realidade das classes sociais e das desigualdades sociais agravou-se efectivamente desde que o mundo começou a ser governado por esta nova classe dirigente. O actual mundo histórico só pode ser transformado por uma revolução social total, a Grande Ruptura: a nossa possibilidade de realizar o ser autêntico e de o universalizar exige a realização de actos radicais: o povo humilhado e ofendido, explorado e oprimido, deve revoltar-se contra o sistema social estabelecido e derrubá-lo com violência. Marcuse não só complementa Heidegger com Marx, como também complementa o marxismo com a fenomenologia: o seu marxismo fenomenológico - a fenomenologia dialéctica - rompe com a noção tradicional da superestrutura ideológica como reflexo da infra-estrutura económica. A fenomenologia dialéctica não pode resolver a questão da prioridade do ser sobre a consciência (materialismo) ou da consciência sobre o ser (idealismo): a própria questão carece de sentido a partir do momento em que é colocada. Além disso, a fenomenologia dialéctica não investiga a natureza: o ser natural é distinto do ser histórico. Embora possa ter uma história, a natureza não é história. Só o Dasein - a realidade humana - é história. A naturalização das ciências da cultura mais não é do que uma técnica ideológica de adaptação: a realidade histórica, que pode ser transformada e melhorada pela acção consciente radical, é apresentada como uma ordem natural imutável. Marcuse e Lukács distanciam-se claramente do marxismo científico de Engels e do marxismo ortodoxo da Segunda Internacional: o ser da natureza não é dialéctico e, como tal, deve ser estudado pela física matemática. Marcuse adere à fusão operada por Dilthey entre história e ontologia, elogiando-o por ter libertado as ciências do espírito (Geisteswissenschaften) da metodologia das ciências naturais (Naturwissenschaften) e por ter restaurado o seu fundamento filosófico: o seu conceito de vida (Leben) como suporte da realidade histórica acentua o significado, em vez da causalidade. O ser e o sentido estão intimamente ligados, tanto no pensamento do jovem Marcuse, como no pensamento de Tran Duc Thao: os homens reais fazem a história e, por isso, injectam-lhe os valores que a unificam. Como não pretendo discutir a notável obra de Thao, que tal como Marcuse parte da fenomenologia para o marxismo, limito-me a citar dois parágrafos fabulosos que guardam uma mensagem radical para o momento presente de crise financeira e económica:
«Le grand problème de notre temps, où s'exprime le sentiment devenu unanime que le sujet idéal de la pensée traditionnelle, religieuse ou philosophique, s'identifie rigoureusement avec l´homme réel en ce monde, a trouvé depuis longtemps sa vraie solution dans la dialectique marxiste qui définit le seul processus valable d'une constitution des significations vécues sur le fondement des réalités matérielles. La notion de production rend pleinement compte de l´énigme de la conscience, en tant que l´objet travaillé prend un sens pour l´homme, comme produit humain. La compréhension du sens n'est précisément que la transposition symbolique des opérations matérielles de production en un système d'opérations intentionnelles où le sujet s'approprie idéalement l'objet en le reproduisant dans sa conscience. Telle est la véritable raison pour laquelle moi que suis dans le monde, je «constitue» le monde dans l'intériorité de mes actes vécus. Et la vérité d'une telle constitution se mesure évidemment à la puissance effective du mode de production où elle prend son modèle. Mais le philosophe reste ignorant de ces origines. En tant que membre d'une classe exploiteuse, il n'a pas l'expérience du travail réel des classes exploitées, qui donne aux choses leur sens humain. Plus précisément, il ne perçoit ce travail que sous sa forme idéale, dans l'acte du commandement, et se demande avec étonnement comment ses «significations intentionnelles» ont pu s'imposer au monde réel. La réflexion dans la conscience de soi ne peut évidemment que confirmer ces intentions elles-mêmes dans leur pureté vécue, et les poser «hors du monde» comme pures synthèses constituantes dans la «liberté de l'esprit».
«Ainsi les rapports sociaux de production et la division de la société en classes empèche les classes dirigeantes de se rendre compte du fondement réel des valeurs idéales par lesquelles elles prétendent démontrer leur qualité humaine et justifier leur domination. Exploitant le travail des classes opprimées, elles perçoivent l'objet produit dans son sens humain, mais ce sens ne leur apparaît que dans sa pure idéalité négatrice de toute réalité matérielle, puisqu'elles entendent précisément ne prendre aucune part matérielle à sa production. Comme membre d'une classe dominante, je n'accède à la vérité de l'être qu'en niant l'être effectivement réel, à savoir le travail réel des classes opprimées, que je «dépasse» dans les intentions de ma conscience, du fait même que je m'en approprie le produit. La forme de l'oppression est la clé du mystère de la transcendance, et la haine du naturalisme ne fait que traduire la répugnance naturelle des classes dirigeantes à reconnaître dans le travail qu'elles exploitent, la source véritable des significations auxquelles elles prétendent» (Tran Duc Thao).
Tran Duc Thao apreende neste texto uma ideia profundamente marxista: as classes dirigentes odeiam o marxismo porque não querem reconhecer no trabalho explorado a fonte de todas as significações ideais que dizem abraçar. As classes dirigentes mistificam as categorias filosóficas, isto é, as significações ideais, de modo a dificultar a compreensão da sua génese real: o trabalho real das classes oprimidas que ultrapassam e superam mediante a apropriação dos seus produtos. Basta pensarmos nas remunerações e nos prémios imorais que os gestores públicos se auto-atribuem para dar a nossa adesão à ideia revelada por Thao: o povo português - e não só - anda a ser ludibriado e enganado pelas actuais classes dirigentes que se apropriam da riqueza nacional, condenando-o à pobreza mais abjecta. Os gestores e os dirigentes nacionais são bem pagos para gerir mal o destino nacional: recebem salários milionários e condenam o país à miséria, porque, se tivessem gerido com competência a coisa pública, não estaríamos neste momento de catástrofe nacional a falar das suas remunerações milionárias: o nosso país em risco é demasiado pobre para os ladrões que tem. Em Portugal - o oásis da corrupção, da mentira e do abuso de poder, a fenomenologia de Husserl foi estudada e divulgada por Júlio Fragata e, em menor grau, por Eduardo Abranches de Soveral. A obra "A Fenomenologia de Husserl como fundamento da Filosofia" de Júlio Fragata (1958) merece ser lida e estudada. Porém, a recepção portuguesa de Husserl peca pelo conservadorismo dos seus protagonistas: Fragata e Soveral não foram mais longe na sua compreensão do desenvolvimento da fenomenologia husserliana e do seu impacto sobre o pensamento contemporâneo por causa do seu conservadorismo doentio e reaccionário. O ensino universitário da Filosofia em Portugal ainda está sob o controle castrador da Igreja Católica e das suas seitas internas: Opus Dei, por exemplo, funciona como um circuito fechado de cunhismo fecal que bloqueia e entrava gravemente a qualidade do ensino universitário da Filosofia. Filosofia e conservadorismo são incompatíveis: onde um destes elementos predomina, o outro escasseia. Em Portugal, predomina o conservadorismo - a ideologia daqueles ladrões que se apropriam ilicitamente da riqueza nacional, dizendo que o país é escasso em recursos - que bloqueia a Filosofia na sua missão universal de orientar a modernização e a humanização do país.
J Francisco Saraiva de Sousa

10 comentários:

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Bem, o post está concluído. Preciso reservar novas ideias para outros posts. :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

É surpreendente como um vietnamita conhece melhor a nossa filosofia do que certas figuras murchas e pardacentas nacionais: Thao foi simplesmente brilhante. Ele amou a nossa filosofia ocidental e levou-a até à sua consumação na revolução socialista: o cumprimento da promessa de realização da nossa humanidade, aliás um cumprimento global. A globalização da humanidade do homem é a verdadeira globalização.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Enfim, os gestores e os dirigentes nacionais são bem pagos para gerir mal o destino nacional: eles são incompetentes, como já deviam todos saber. Recebem salários milionários e condenam o país à miséria: eis a verdade. Se gerissem bem, não estaríamos a falar das suas remunerações milionárias! :(

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Infelizmente, não domino a língua em que Thao escreve para estudar todo o seu pensamento: só conheço as obras traduzidas em francês. E pelo que conheço posso dizer que a sua dialéctica fenomenológica do movimento real é uma reavaliação da fenomenologia hegeliana que só encontra paralelo no nosso mundo branco em Bloch: Thao vai até aos primórdios da humanidade e escreve páginas belas sobre as civilizações do Próximo Oriente - Mesopotâmia e Egipto - e da Grécia, donde parte para Roma, o feudalismo e o capitalismo.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Thao captou bem a noção marxista de historicidade: a dialéctica histórica não é mera historiografia, como foi dito e praticado erradamente, embora possa orientar os estudos históricos.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Viva a Proletariado! Vamos regressar à luta contra o sistema explorador mediado pelos corruptos!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Chegou o hora dos partidos unirem-se contra o TGV... É melhor derrubar o governo que aumentar o nosso endividamento. :)

Sr disse...

Axo q nunca ouvi falar deste vietnamita :)

Dialectica é isto, onde todos os sectores do espectro politico-economico são verdadeiramente passados por um crivo analitico superior e n apenas com base nas repetitivas ladainhas mediaticas da finança e da politica partidaria o.O

http://o-beco.planetaclix.pt/rkurz349.htm


Have a nice day and... start a riot :P

http://www.youtube.com/watch?v=0Ggkl4z1JD4

\0/

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Ele tem uma obra extensa, mas só conheço duas obras centrais e uns artigos: a análise que ele faz da fenomenologia é profunda e a articulação com a dialéctica é original. Um grande filósofo o Thao! :)

Cristiano Bodart disse...

visite meu blog
cafecomsociologia.blogspot.com