quarta-feira, 24 de setembro de 2008

O Problema da Realidade

«Por estranho que pareça, (as Ideias da Razão Pura de Kant) têm um significado definido para a nossa prática (quotidiana). Podemos agir como se existisse Deus; sentir como se fossemos livres; considerar a Natureza como se ela andasse cheia de propósitos especiais; fazer planos como se devêssemos ser imortais; e verificamos então que essas palavras determinam uma genuína diferença na nossa vida moral./ O sentimento de realidade pode, de facto, ligar-se de maneira tão robusta ao nosso objecto de crença que toda a nossa vida é polarizada de fio a pavio, por assim dizer, pelo sentido que damos à existência da coisa em que acreditamos, embora dificilmente possamos dizer que essa mesma coisa, para a finalidade de uma descrição definida, esteja presente na nossa mente./ A determinabilidade absoluta da nossa mente por abstracções é um dos factos cardeais da nossa constituição humana./ Todo o conjunto dos nossos exemplos leva a uma conclusão parecida a esta: É como se houvesse na consciência humana um sentido de realidade, um sentimento de presença objectiva, uma percepção do que podemos chamar "alguma coisa ali", mais profunda e mais geral do que qualquer um dos "sentidos" especiais e particulares pelos quais a psicologia actual supõe que as realidades existentes sejam originalmente reveladas». (William James)
Em 1890, William James (1842-1910) publica o seu livro "Princípios de Psicologia", onde logo no início afirma que "a psicologia é a ciência da vida mental, tanto dos seus fenómenos como das suas condições". O termo "fenómenos" é usado para indicar que o objecto de estudo da psicologia (funcional) está presente ou se manifesta na experiência imediata, e o termo "condições" refere-se ao papel primordial desempenhado pelo corpo, em especial pelo cérebro, na vida mental. O ponto focal dos seus interesses reside fundamentalmente na consciência, cuja experiência James recusa reduzir artificialmente a supostos elementos, como faz a abordagem estrutural de Wundt: a experiência consciente não é um grupo ou uma mistura de elementos, a chamada falácia do psicólogo, mas uma unidade, um processo, isto é, uma experiência total em constante mudança. Segundo James, a consciência flui como um rio ou uma corrente e, sendo um fluxo de consciência, não pode ser subdividida em elementos temporariamente distintos ou discretos. Além do fluxo de consciência (1), James destaca outras características da consciência: a consciência é pessoal ou individual, isto é, pertence a uma única pessoa (2); é sensivelmente contínua, isto é, não há rupturas claras no fluxo de consciência, e, quando irrompem hiatos temporais tais como o sono, a identidade individual é sempre mantida, porque, ao acordar, a pessoa estabelece facilmente uma ligação com o fluxo de consciência que estava em andamento antes da interrupção (3); é selectiva, isto é, a mente filtra os muitos estímulos a que está exposta e selecciona aqueles que são relevantes para a sua experiência, prestando-lhes atenção, de modo a operar de maneira lógica e percorrer racionalmente até ao fim uma série de ideias (4); e, finalmente, ocorre tanto de uma forma transitiva (estados limítrofes de consciência) como substantiva (conteúdos claros e estáveis), isto é, as ideias «entram» na consciência como transitivas, marginais quanto à atenção e frequentemente fugidias, podendo passar à forma substantiva, adquirindo maior estabilidade (5). James destaca outros dois aspectos fundamentais da vida mental: a consciência não é distinta do corpo (6), o que lhe permitiu rejeitar todas as teorias da mente/corpo e elaborar a sua própria perspectiva (1909), e tem uma finalidade ou utilidade biológica, a de tornar o homem um animal melhor adaptado ao meio e mais apto para escolher (7). A escolha consciente é distinta do hábito, involuntário e inconsciente: a consciência envolve-se sempre que surge um novo problema ou sempre que é necessário operar um novo ajustamento.
Num dos capítulos mais importantes da obra, James coloca a questão que nos interessa: "Sob que circunstâncias consideramos as coisas como sendo reais?" A partir desta questão James desenvolve a sua teoria das diversas ordens de realidade ou subuniversos. Segundo James, toda a distinção entre o real e o irreal baseia-se em dois «factos» mentais: todos somos propensos a pensar de modo diferente sobre o mesmo objecto e, quando o fazemos, podemos escolher o modo de pensar a que queremos aderir e ignorar outros modos de pensar. Isto significa que a origem e a fonte de toda a realidade residem sempre em nós: qualquer objecto que não for refutado é, ipso facto, uma realidade que acreditamos e pressupomos «absoluta». Um objecto pensado a partir de outro não pode ser «desmentido», a menos que se inicie uma controvérsia afirmando algo inaceitável sobre o primeiro, e, neste caso, o proponente deve escolher o objecto a que vai dar o seu assentimento. Segundo James, todas as proposições, sejam atributivas ou existenciais, são objecto de crença pelo próprio facto de serem concebidas, afirmando-se que os seus termos são os mesmos dessas outras proposições. A disputa só emerge quando essas proposições entram em conflito com outras proposições nas quais também acreditamos. De modo simples, podemos afirmar que, para James, o real é aquilo em que acreditamos. Charles S. Peirce já tinha desenvolvido uma teoria idêntica: "A realidade, como qualquer outra qualidade, consiste nos efeitos sensíveis peculiares que as coisas que nela tomam parte produzem. O único efeito que as coisas reais têm é causar crença, pois todas as sensações que elas excitam emergem na consciência sob a forma de crenças". Porém, de modo diferente de James, Peirce é tentado pelo positivismo, isto é, pela ideia da superioridade do conhecimento científico: "A questão, portanto, é como distinguir a crença verdadeira (ou crença no real) da crença falsa (ou crença em ficção). (...) As ideias de verdade ou falsidade, no seu desenvolvimento pleno, pertencem exclusivamente ao método experimental de estabelecimento de opinião./ A opinião que está destinada a merecer o acordo de todos os que investigam é o que nós chamamos verdade. O objecto representado nesta opinião é o real. Eis como eu explicaria a realidade".
Ora, se a origem e a fonte de toda a realidade residem em nós, então existe um número considerável, provavelmente infinito, de diferentes ordens de realidade, às quais James chama subuniversos. Cada uma destas ordens tem o seu estilo peculiar de existência, encontra-se separada das outras e implica o seu próprio estilo cognitivo e formas peculiares de consciência. James refere algumas dessas ordens de realidade: o mundo dos sentidos ou das "coisas físicas", que são experienciadas pelo senso comum e que constitui a realidade vital predominante, na qual estamos mergulhados desde a concepção e nascimento até à morte; o mundo da ciência; o mundo das relações ideais; o mundo dos ídolos da tribo, em especial o das ideologias; os mundos sobrenaturais da mitologia e da religião; os numerosos mundos da opinião individual; e, finalmente, os numerosos mundos da pura fantasia e da loucura. Todo o objecto em que pensamos refere-se, pelo menos, a um destes mundos ou a outro mundo que podemos acrescentar à lista de subuniversos. Cada um destes mundos, enquanto desperta a nossa atenção, é real à sua própria maneira, porque, como já dizia Aristóteles, há muitas maneiras de dizer o ser, e, qualquer que seja a sua relação com a nossa mente, se não houver uma relação mais forte com a qual entre em conflito, será suficiente para tornar este objecto real. James captou o sentido da realidade, mas analisou-o em termos de uma psicologia da crença e da incredulidade. Na peugada de Husserl, para quem "todas as unidades reais são «unidades de significado»", Alfred Schutz prefere falar em âmbitos de sentido ou províncias de sentido, em vez de subuniversos, porque "o que constitui a realidade é o sentido das nossas experiências e não a estrutura ontológica dos objectos". Para Schutz, um âmbito de sentido é "um determinado conjunto das nossas experiências", que exibem um estilo cognitivo específico e que são, a este respeito, coerentes em si mesmas e compatíveis umas com as outras.
A teoria fenomenológica das realidades múltiplas de Schutz, que inspira directa ou indirectamente as actuais teorias de Perter Berger & Thomas Luckmann, de Jerome Bruner ou mesmo de Paul Watzlawick, pode ser resumida em seis teses fundamentais: 1ª) Todos os mundos da lista de James são âmbitos finitos de significado. Isto quer dizer que têm um estilo cognitivo peculiar, que as experiências, no seio de cada um desses mundos, são, no que respeita ao estilo cognitivo, coerentes em si mesmas e compatíveis umas com as outras e que cada um destes mundos pode receber um valor de realidade específico. 2ª) A coerência e a compatibilidade das experiências em relação ao seu estilo cognitivo peculiar subsiste unicamente dentro dos limites do âmbito particular de sentido ao qual pertencem. 3ª) Por isso, quando falamos de âmbitos finitos de sentido, a finitude implica que não podemos referir um desses âmbitos a outro, introduzindo uma fórmula de transformação. A transição de um para outro âmbito de sentido só pode ser efectuada através daquilo a que Kierkegaard chamou um "salto" e a que a antropologia cultural e social chama "choque cultural", que se manifesta na experiência subjectiva de uma comoção. 4ª) A comoção mais não é do que uma modificação radical na tensão da nossa consciência, fundada numa attention à la vie diferente. 5ª) A cada um dos estilos cognitivos peculiares corresponde uma tensão específica da consciência e, por conseguinte, uma epoché específica, uma forma predominante de espontaneidade, uma forma específica de experiência de si mesmo, uma forma específica de sociabilidade e uma perspectiva temporal específica. 6ª) O mundo do executar quotidiano constitui o arquétipo da nossa experiência da realidade e todos os outros âmbitos de sentido podem ser vistos como suas modificações. Isto significa que, diante do mundo comum dotado de uma forte valência ontológica, os outros mundos são "quase-realidades" ou, como diz Bruner, realidades virtuais. A dificuldade que revelam os outros mundos em obter um valor de realidade reside precisamente na linguagem, porque esta pertence, como comunicação, ao mundo do executar intersubjectivo e, por isso, resiste obstinadamente a servir de veículo de significados que transcendam as suas próprias pressuposições. Até mesmo a terminologia científica que procura superar esta dificuldade, dentro do seu limitado campo, não tem conseguido abdicar da linguagem ordinária.
Destes mundos aquele que todos partilhamos é o mundo do senso comum ou, simplesmente, o mundo comum: o seu valor de realidade é imenso, porque é o nosso mundo da vida quotidiana, e, por isso, diante dele, os restantes mundos são meras "províncias" ou meros "anexos" insuficientes para nos orientar na vida. Ou, como diz Alfred Schutz, "o mundo do executar quotidiano é o arquétipo da nossa experiência da realidade e todos os demais âmbitos de sentido podem ser considerados como suas modificações". Até mesmo Karl Popper definiu a ciência e a filosofia como "senso comum esclarecido", retendo o "realismo" do senso comum e rejeitando a sua teoria do conhecimento, a teoria do balde mental (indutivismo), que substitui pela teoria do holofote (dedutivismo). Qualquer dos outros mundos que entre em rota de colisão com o mundo eminente corre o risco de perder credibilidade e plausibilidade. No mundo comum, onde vivemos, donde partimos e ao qual regressamos, embora num único dia a nossa consciência possa passar pelas mais diversas tensões e adoptar as mais diversas atitudes de atenção à vida (Bergson), conduzimos e assumimos a nossa vida sem questionar o seu acervo de conhecimentos e de experiências. O mundo comum é o lar, o berço e o suporte, de toda a realidade, diante da qual até mesmo a "loucura", o mundo da cavalaria, de Dom Quixote ruiu, como mero devaneio retrógrado e saudosista. Alfred Schutz e Hannah Arendt dedicaram muita atenção ao mundo comum, o mundo da vida quotidiana que o homem adulto em estado de vigília que actua nele e sobre ele, entre os seus semelhantes, experimenta, dentro da atitude natural, como uma realidade, e vale a pena retomar as suas perspectivas. Mundo da vida quotidiana significa, segundo Schutz, "o mundo intersubjectivo que existia muito antes do nosso nascimento, experimentado e interpretado por Outros, os nossos predecessores, como um mundo organizado". Este mundo é dado à nossa experiência e está aberto à nossa interpretação, que se baseia num "acervo de experiências" anteriores, nas nossas próprias experiências e nas experiências que nos foram transmitidas pelos nossos pais e mestres, as quais funcionam como um "esquema de referência" sob a forma de "conhecimento à mão". Para a atitude natural, o mundo comum é um mundo de objectos circunscritos, com qualidades definidas, entre os quais nos movemos, que nos resistem e sobre os quais podemos agir. Não é um "mundo privado", como o do devaneio de Bachelard, mas um "mundo intersubjectivo", comum a todos nós mortais, no qual temos um interesse, não teórico, mas profundamente prático: "O mundo da vida quotidiana é, como diz Schutz, o cenário e também o objecto das nossas acções e interacções". Isto significa que o mundo é algo que devemos modificar e mudar através das nossas acções e que também modifica as nossas acções. Além disso, neste mundo do executar quotidiano, existem outros semelhantes com os quais interagimos socialmente: actuamos sobre coisas e sobre os nossos semelhantes, em especial os contemporâneos, de tal modo que eles nos induzem a agir e nós os induzimos a reagir. Estas interacções sociais supõem a comunicação, a qual se funda em actos executados de modo a comunicar com os outros.
Em suma, as características básicas que constituem o estilo cognitivo específico do mundo comum são as seguintes: 1) uma tensão específica da consciência, mais precisamente a atitude alerta que se origina numa plena atenção prestada à vida: a vida quotidiana é experimentada num estado de total vigília; 2) uma epoché específica, a epoché da atitude natural, que consiste em suspender a dúvida na existência do mundo externo e dos seus objectos: a vida quotidiana aparece já objectivada antes da nossa entrada em cena e, por isso, é considerada como normal e evidente; 3) uma forma predominante de espontaneidade, a execução, dotada de sentido, baseada num projecto e caracterizada pela intenção de produzir o estado de coisas projectado mediante movimentos corporais que se inserem no mundo externo: a realidade da vida quotidiana está organizada em torno do "aqui" do meu corpo e do "agora" do meu presente; 4) uma forma específica de experimentar o próprio si mesmo: o si mesmo executante como si mesmo total; 5) uma forma especifica de sociabilidade: a realidade da vida quotidiana constitui um mundo intersubjectivo comum da comunicação e da acção social, no qual participamos com outros homens; e 6) uma perspectiva temporal específica: o tempo padronizado que se origina numa intersecção entre a durée e o tempo cósmico como estrutura temporal universal do mundo intersubjectivo. As nossas experiências do mundo comum partilham este estilo cognitivo e, por isso, podemos encará-lo como real. Na nossa atitude natural, somos induzidos a dar valor de realidade ao mundo comum: as nossas experiências práticas provam a sua unidade e congruência, a sua validade, e a sua realidade parece ser irrefutável, embora este mundo seja histórico e, como tal, capaz de assimilar outros conhecimentos forjados noutros âmbitos de sentido, como mostraram Gramsci e Bakhtin. A realidade do mundo comum é, portanto, para nós, perfeitamente natural.
A atitude natural é a atitude da consciência do senso comum, porque se refere a um mundo que é comum a todos os homens, e o conhecimento do senso comum é o conhecimento que cada um de nós partilha com os outros nas interacções sociais e nas rotinas normais e evidentes da vida quotidiana. Estamos completamente mergulhados desde o nascimento até à morte neste mundo comum e no seu conhecimento de senso comum: os restantes mundos são uma espécie de enclaves, isto é, regiões que pertencem a outros âmbitos de sentido encerradas no âmbito maior do mundo comum. A partir de uma leitura de Kant, Hannah Arendt lembra que o senso comum é mais do que o sentido comum a todos os homens: é "o sentido que nos integra numa comunidade juntamente com os outros, nos torna membros dela e nos habilita a comunicarmos coisas que nos são dadas pelos nossos cinco sentidos privados". Isto significa que "a comunidade entre os homens produz um sentido comum", o senso comum, o qual, como "mãe do juízo", nos permite superar o capricho pessoal em direcção a uma "mentalidade alargada": a validade dos juízos é intersubjectiva. Para Hannah Arendt, "o único atributo do mundo que nos permite avaliar a sua realidade é o facto de ser comum a todos nós; e, se o senso comum tem posição tão alta na hierarquia das qualidade políticas, é por ser o único factor que ajusta à realidade global os nossos cinco sentidos estritamente individuais e os dados rigorosamente particulares que eles registam". Alguns dos outros subuniversos estão a produzir ou, pelo menos, a contribuir para a alienação ou alheamento do mundo, dificultando a promoção da cidadania mundial almejada por Kant e, promovendo em seu lugar, uma dispersão de opiniões dogmáticas que perderam o vínculo com o mundo comum. A perda do mundo comum poderá significar a morte da própria humanidade.
J Francisco Saraiva de Sousa

23 comentários:

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

A contra-ofensiva de Desidério Murcho sobre a diferença entre debate científico e debate político é profundamente obscurantista: o debate de ideias reduzido ao debate de argumentos! Aqui insinua-se uma política suja: fazer o jogo da ordem estabelecida, como se esse fosse o jogo da filosofia. É pré-crítico e destituído de erudição. Pensa ou finge pensar sacando do "deus" que critica a capacidade de "criar a partir do nada".

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Quanto ao último post de D. Murcho, "Debate e Combate", deixei estes comentários:

"Caro Desidério Murcho

A sua contra-ofensiva a partir da diferença entre debate científico e debate político é profundamente obscurantista: o debate de ideias reduzido ao debate de argumentos! Mas que argumentos? Aqui insinua-se uma política "suja", para lhe retribuir um termo que usou: fazer o jogo da ordem estabelecida, como se esse fosse o jogo da filosofia ou a procura da verdade de que fala. Os seus argumentos parecem cair de pára-quedas a partir de um local desconhecido mas que todos conhecemos bem. Ensinar isso aos alunos é deixá-los desprotegidos diante da artilharia espiritual difundida pelos mass media, publicidade, propaganda, etc.

"Não se esqueça das mediações sociais, culturais e linguísticas do conhecimento: não há conhecimento puro, como o mostrou toda a filosofia contemporânea. Verdade? Rejeitar a ideia de "deus" é verdade? Querer reduzir o mundo a um pobre jogo de linguagem é verdade? Não levar em conta tudo o que se opõe às suas ideias é verdade? Desprezar a história é verdade? Recusar ideias porque elas não cabem na sua concepção do mundo ou da filosofia é verdade? E tudo isto é democrático? A democracia não é uma pedra! No fundo, a crítica que faz aos outros que supostamente não argumentam mas "insultam" (não li insultos) é-lhe restituída!

"Afinal, parece pensar ou fingir pensar sacando do "deus" que critica a capacidade de "criar a partir do nada": sem conteúdos de conhecimento não há crítica e muito menos debate de ideias, como lhe chama."

"Caro Perspectiva

"Concordo com a sua conclusão final:

"Os evolucionistas têm uma fé naturalista, os criacionistas têm uma fé bíblica.",

"desde que não queira ensinar o criacionismo nas aulas de biologia ou de filosofia. Contudo, acho que pode fazer uma crítica mais substancial ao evolucionismo sem precisar opor-lhe o criacionismo. São registos inteiramente diferentes: um é uma hipótese de trabalho, a evolução; o outro tem uma relevância moral e religiosa: é uma empresa doadora de sentido."

"Ah, concordo consigo, caro Perspectiva, quando denuncia a falsidade do "falso dilema" colocado por D. Murcho: Que horror de falsidade! Estamos lançados no mundo, logo temos interesses. A minha sinceridade leva-me a dizer o que penso: um bom começo de "debate de ideias". Honestidade intelectual!"

"Ah, outra brincadeira com D. Murcho que deve conhecer as teorias de Karl Popper: num debate o que está em causa são as ideias e não as pessoas que as transportam. Em termos de evolução cognitiva: a morte das ideias não implica a morte dos seus adeptos. Não há verdadeiramente combate, até porque os combates políticos não são lutas de vida ou de morte. Como diria Hegel, são lutas pelo reconhecimento, de puro prestígio. É bom dominar a "história dogmática" da Filosofia, porque assim não somos tentados a imaginar que dizemos coisas a partir do nada. :)"

Porém, o Murcho não argumenta e limita-se a fazer "conversa de treta". :(

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Quanto ao post "A Origem da Relidade" de D. Murcho tinha feito estes comentários:

"Francamente, este texto é um disparate completo! E revela um certo infantilismo diante das grandes questões!"

"Com a comentário anterior, pretendia denunciar a retomada da má escolástica, agora sem Deus ou entidades do género: trata a linguagem como se esta fosse transparente ou capaz de ajudar a clarificar acriticamente, seguindo a sua própria gramática, problemas relativos à "realidade", mas afinal de que realidade trata? É que Deus também é uma "realidade"... Mesmo no sentido em que usa o termo realidade, que fica em parte no limbo, precisa, seguindo os seus próprios critérios, "desmentir" a "realidade de Deus". No fundo, faz exercícios linguísticos de senso comum... Não há filosofia nos seus textos: desertos infinitos de palavras vazias."

"O amigo diz:

"por realidade queremos dizer tudo o que há, tenha ou não localização espácio-temporal, seja ou não eterno, seja ou não sobrenatural ou antenatural ou pré-natural.";

"e depois acrescenta:

"Dizê-lo tem até a vantagem de não ter de explicar como pode um deus que está fora do tempo e do espaço ter estados mentais como intenções e planos, que são ocorrências temporais e espaciais."

"Mas o seu conceito de realidade incluia "tudo o que há, tenha ou não localização espácio-temporal".

"Em que ficamos? O raciocínio cai por terra diante desta contradição!"

"E o amigo adere à teoria do Big Bang sem lhe dar luta? Então, onde está o exame crítico? Além disso, há uma versão que não implica o "a partir do nada". Afinal, o que é o nada?"

"Fernando Dias

"É claro que existem limites; caso contrário, estavamos sentados sobre o conhecimento seguro sem saber o que fazer ao tempo ou como ocupar o nosso espírito!"

"Hummm... O comentário anterior tem pertinência, embora revele um dogmatismo cientificista preocupante: tantos princípios "científicos" e todos eles já dominados pelos escolásticos. A ciência está esgotada... e tornou-se pesquisa administrativa ao serviço de interesses comerciais: está morta!

"O que acho estranho é o tom "afirmativo" com que são enunciados supostos princípios desmentidos por outros... Enfim, tantos princípios e tão pouco conhecimento!"

"Bem, os meus comentários impugnavam um modo de fazer "filosofia" e, apesar de concisos, como gosto, apresentavam argumentos. Porém, ainda vou apresentar outro desafio: a questão da origem da realidade faz parte do conceito de realidade? Eis aqui outra reformulação da contradição presente no texto que mostrei num comentário anterior.

"Além disso, não percebo como do meu comentário se infere que sou um "crente". Aliás, este é um termo protestante lançado já no contexto da secularização em curso. Mas continuo a dizer: Deus ou os deuses ou os fantasmas são uma ordem de realidade. É que, como mostrarei num post que pretendo fazer, existem diversas ordens de realidade e uma tal teoria da multiplicidade das realidades não é necessariamente "ontologia".

"Quanto à ciência, as relações da filosofia com a ciência, seu ramo autonomizado, são complexas e não podem ser reduzidas à epistemologia. O projecto científico está esgotado... e, a não ser nalguns sectores envergonhados da filosofia, nunca se aceitou colocar a ciência no topo, como a única e exclusiva forma de conhecimento, porque, como devem saber, a ciência não pensa e, quando tenta pensar, com a divulgação científica, pensa mal."

E foi assim que surgiu a ideia "académica" de escrever este post.

Dioniso disse...

forma absolutamente ingénua, mas manipuladora, com que Desidério se apresenta como filósofo (mas quem é que ainda se denomina assim no século XXI?) discípulo, pouco inteligente ainda por cima, de uma neo-pragmatismo norte-americano vertido em Portugal no projecto editorial infantil da Gradiva.

Gosto do seu estilo, da sua coragem, da sua vontade de experimentar. Hoje fiz um boa descoberta.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Caro Dioniso

Graças aos falsos argumentos do D. Murcho, fizemos uma descoberta recíproca: estamos ligamos e precisamos estar atentos ao "debate de argumentos". Estive a ler alguns posts da "Companhia Limitada do Murcho" e não vejo argumentos credíveis. Acusam os outros de ser parciais quando na verdade parecem ser movidos por um ateísmo serôdio e doentio, simplesmente carente de sentido. Pretendem ser "científicos" mas não os vejo a debater problemas científicos genuínos ou a fazer contributos para a ciência e a filosofia.

Dizem que na caixa de comentários do blog De Rerum Natura falaram pessoas que não percebem de nada ou que têm interesses pessoais a salvaguardar. Identificam filosofia da religião com debate sobre Deus que escrevem com minúscula "deus". Curiosamente não analisam "argumentos teológicos" e não referem um único teólogo contemporâneo. Especulação sem conteúdos objectivos de conhecimento!

Concordo consigo: prestam um mau serviço à filosofia e à ciência.

Abraço

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Este é um mundo fantástico, o da fenomenologia do mundo comum, mas o tamanho do post está a exigir um novo plano. Por isso, estou a introduzir informação noutros parágrafos e a evitar novos desenvolvimentos ou clarificações. Espero concluir ainda hoje, embora esteja cheio de trabalho. :(

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Este post VISAVA desmistificar a prática filosófica de Desidério Murcho, aquela que exibe nos seus últimos posts, "A Origem da Realidade" e "Debate e Combate", editados no blogue De Rerum Natura, mostrando que a sua autodenominada "análise de argumentos" rompe cabalmente com a dimensão cognitiva da Filosofia e o seu ideal de vida justa.

Contudo, pensando melhor, não há nada nos posts de D. Murcho que mereça atenção, simplesmente porque não dizem nada: não acrescentam determinações de conhecimento e são absolutamente acríticos; meros jogos de palavras vazias. Vou esquecer o Murcho e os seus falsos-argumentos. :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Engraçado como o rigor do pensamento nos conduz a uma crítica da ciência: os seus adeptos sem criação genuína gostam de nomear os livros que mudaram o mundo, mas que mundo? A ciência age nas relações metabólicas do homem com a natureza e o que vemos é destruição da natureza, a crise ecológica e antropológica.Na verdade, os livros que mudaram o mundo são outros: o único mundo que nos interessa verdadeiramente é o mundo comum da vida quotidiana.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Se começarmos a fazer a crítica radical das ciências sociais, a filosofia emerge a partir de si mesma com novo rosto e poder total: o mundo da vida pode deslocalizar e talvez banir de vez esse monstro a que se chama Sociedade. :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Só a Filosofia é conhecimento genuíno capaz de iluminar o senso comum; a ciência é mera técnica e, como tal, não pode dizer a VERDADE. A filosofia contemporânea ensinou-nos isso, mas alguns ainda não captaram este ensinamento. Os mais vazios entregam-se à análise de argumentos...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Referi Gramsci, embora não concorde com a sua concepção do senso comum que ele tente a identificar com as crenças populares parasitadas pela ideologia religiosa. Porém, a sua filosofia da praxis mostra que a luta se trava no domínio do senso comum: ele visa desalojar a ideologia religiosa e substitui-la pela filosofia da praxis. Isto pode indicar a necessidade de encarar o senso comum como um conjunto de regiões: um núcleo duro e outros mais sujeitos às influências.

Dioniso disse...

Gosto muito do seu texto sobre a realidade, tem uma força heurística que nos dispõe a pensar melhor (mais atenta e fundamentadamente - dentro da história da Filosofia) a questão da realidade.

Parte da sua argumentação assenta numa valorização, tanto axiológica como ontológica, do seno comum. Muito neo-kantiano (o sensus comunis ilumina os sentidos do nosso termo já vernaculizado), esta percepção comum do mundo é não apenas irrecusável (ontologia), como essencial à humanidade do homem (axiologia).

Mas não deixa de ser interessante que Nietzsche, apesar de tudo um pensador incontornável da Filosofia ocidental, nunca, que eu saiba, convocou o senso comum. Mais, sem o nomear, desconstrói através do seu método geneológico toda a espessura de sentido que lenta, mas quase indelevelmente, imprime no humano, demasiado humano. O seu projecto, velado neste aspecto específico, é precisamente o de o novo homem (Übermensch significa outro homem, não o marcado semântico nazi de super-homem) estar além do senso comum, aristocrata saberá dar sentido à sua existência fora das fronteiras do sentido comunitário. Estará, por isso, além do bem e do mal, como além da verdade e do erro.

No meu blog apelidei a "Filosofia" de Desidério de pensamento do senso comum neste sentido nietzschiano, conjunto de lugares comuns que nos impedem de definirmos um projecto de entendimento e uma ética (não moral) própria ao nosso próprio pulsar e em consonância com o amor fati dos estóicos, esse amor incondicional ao que é como é.

Denise disse...

Boa noite, amigo F.
Sem tempo e forças para um comentário alongado, mas não posso deixar de referir a suma importância da articulação deste seu conjunto de trabalhos com as reflexões que o Fernando Dias tem colocado n' «A Fisga».
Aproveito para lhe desejar um bom fim-de-semana e enviar um abraço além-mar para o nosso amigo André.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Boa Noite Dioniso

Com o jogo de futebol, estive distante do computador e só agora li o seu comentário. Gostei da articulação que fez entre a ontologia e a axiologia, e da referência a Nietzsche. Sim, ele parece não convocar o senso comum. Sim, o Übermensch é capaz de fornecer alguma luz a esse propósito, mas também nunca o li a essa luz. Bom tema para pensar!

Quanto ao D. Murcho, apenas leio uma vez ou outra os posts que edita na blogosfera e não os vejo como textos filosóficos. Mas quem sabe se qualquer dia resolva alinhar uma crítica à sua prática de escrita! Afinal, já somos muitos que não nos identificamos com esse "estilo" de martelar palavras vazias!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Oi Denise

Não estou seguro da correspondência que estabelece: Existem temas "comuns" que nos interessam, mas, em termos de problemática teórica, ainda não existem afinidades profundas e essenciais. Eu situo-me numa longa tradição europeia-continental e sou herdeiro da teoria crítica. E, nessa situação, não tenho afinidade com a análise de argumentos que me faz lembrar o pior da escolástica!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Bem, lá terei de entrar novamente na análise de argumentos, mas desta vez vou atacar Stephen Toulmin. Logo vejo, porque estou cheio de trabalho e não posso usar simbologia, o que me facilitava a vida...

Fräulein Else disse...

Bem-vindo Dioniso! Eu também sou uma Bacante! :)

Sim, o Murcho é o que é: murcho e exangue. O Francisco é impetuoso e sanguíneo. O primeiro é analítico-primevo e o segundo é dialéctico-futurista. Não sigo nem uma nem outra "linha", mas o F. é grande! Volte sempre!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Oi Fraulein Else

Estive a ler um debate num blogue obscuro, pseudo-científico, sobre a cor: um diz que a cor é um comprimento de onda, outro diz que a cor é uma qualidade, outro quer banir a ciência e reduzir tudo a análise de argumentos, mas ninguém problematizou e alcançou a ideia de que a cor é uma noção do senso comum, de resto tão maltratado. A ciência fica com o seu comprimento de onda; o senso comum fica com a cor. Quando se estuda cientificamente as cores através das culturas, esse estudo é feito a partir da lingua(gem); a noção de comprimento de onda é outro conceito que não explica a experiência das cores.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Aliás, se falassemos continuamente a linguagem da ciência, ficariamos completamente autómatos e zombies: Quando um pseudo-cientista, numa conversa normal, faz questão de dizer que a cor é um comprimento de onda, devia ser banido do convívio humano, entre-homens. Já agora os tolinhos dos argumentos deviam tentar falar a suposta linguagem neuronal: o metabolicamente reduzido tornava-se imediatamente calhau, pedra. É isso que não entendem: matam a vida!

Denise disse...

Oi F.,
Talvez me tenha expressado mal. Não me referia a uma articulação consciente entre os seus textos e os do Fernando Dias. A articulação nasceu da minha leitura dos posts ambos blogues.
Saudações festivas aos amigos bacantes. Eu deambulo entre Héstia e Perséfone...

Denise disse...

" (...) se falassemos continuamente a linguagem da ciência, ficariamos completamente autómatos e zombies (..)"
Permita-me que o aplauda. Vigorosamente. De pé.
:-)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Olá Denise

Sim, compreendi a sua posição. Espero que regresse novamente à postagem activa. Tenho saudades do nosso grupo.

Abraço

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Aliás, as etnociências caminham nesse rumo que referi no comentário anterior e nos seus estudos não é necessário recorrer à noção científica de cor como comprimento de onda, porque essa é apenas um jogo de linguagem encerrado no seio do mundo comum. Só a auto-arrogância de certos cientistas coloca sobre a mesa uma tal noção irrelevante para a experiência comum. No fundo, neste post, efectuei um resgate do quotidiano.