quinta-feira, 12 de março de 2009

Modelo PsicoHidráulico de Konrad Lorenz

Konrad Lorenz (1950) elaborou uma bateria de conceitos etológicos extremamente rica para a análise objectiva dos comportamentos dos animais, a qual ainda não perdeu a sua fertilidade teórica, apesar do seu modelo psicohidráulico da unidade do comportamento ser bastante avesso à linguagem neurobiológica. Neste modelo, mais conhecido por modelo da latrina, um impulso endógeno causa a disposição para actuar, enchendo um tanque ou reservatório com energia específica de acção. À medida que o tanque se enche de líquido, o animal torna-se cada vez mais inquieto e começa a mostrar um comportamento apetitivo. Quando surge o estímulo-sinal, representado pelo peso, a válvula (mecanismo desencadeador inato) abre-se, permitindo que a energia seja canalizada para canais específicos (os padrões motores fixos). Este modelo de Lorenz, substancialmente aperfeiçoado em 1981, é um modelo mecânico que procura explicar os comportamentos dos animais a partir dos seus elementos: o reservatório de líquido corresponde à energia específica de acção; o peso da balança, ao estímulo-sinal; a válvula, ao mecanismo desencadeador inato; a água que sai pela abertura, ao padrão fixo de acção; e a tina, à intensidade do comportamento. Assim, por exemplo, quando se priva um animal de alimento, produz-se uma acumulação de energia específica que está reservada unicamente para a comida e que não afecta outros tipos de comportamento.
No modelo psicohidráulico, esta energia é representada pela acumulação gradual de água no reservatório fornecida por uma torneira. O esvaziamento do depósito representa a actividade motora do comportamento e é controlado por uma válvula que se mantém fechada em virtude de uma mola. A válvula pode ser aberta de duas maneiras. Os pesos colocados no prato de uma balança representam diversas intensidades de estímulo e permitem abrir a válvula. A pressão cada vez maior da água armazenada no reservatório e os pesos do prato da balança actuam na mesma direcção, abrindo a válvula. Quanto mais elevado for o nível da água no reservatório, menor será o peso exigido, podendo a forte pressão da água por si só empurrar a válvula até conseguir abri-la (actividade no vácuo). Os diferentes tipos de output da actividade motora são representados por uma tina graduada. Se a válvula se abrir ligeiramente, a pouca quantidade de água que passa só chega até ao primeiro orifício mais baixo da tina. Este orifício representa a actividade motora de limiar mais baixo, geralmente alguma forma de comportamento apetitivo. Quando a válvula se abre cada vez mais, a tina descarrega através de mais orifícios, que representam actividades com limiares superiores e com posição mais elevada na escala da intensidade. Depois do reservatório ter sido esvaziado, o comportamento não pode continuar a ser desencadeado, por muito intenso que seja o estímulo: trata-se daquilo a que Lorenz chama a fadiga ou o "esgotamento de um padrão de comportamento". Este modelo mecânico da motivação explica satisfatoriamente as mudanças cíclicas observadas nos comportamentos dos animais: a quietude que se segue aos actos consumatórios depende da sua execução, dado esta ser a única maneira de esvaziar o reservatório.
A etologia clássica fundada por Lorenz e Tinbergen define o instinto como um padrão específico, estereotipado e herdado de comportamento, que incorpora frequentemente sistemas de reflexos em cadeia governados e coordenados por uma combinação da actividade do sistema nervoso central e dos estímulos propioceptivos. Ao gerar uma tensão interna de energia específica de acção no sistema nervoso central, o instinto produz o impulso que, em associação com uma necessidade fisiológica ou estado mental determinado, leva a um comportamento apetitivo com as suas taxias. Este comportamento leva, por sua vez, o animal à situação meta, onde o movimento instintivo encontra o seu desencadeador natural. Lorenz defende que existe, em cada comportamento instintivo, um núcleo de automatismo (E. von Holst, 1932, 1933; K. Roeder, 1963; T. H. Bullock & G. A. Horridge, 1965) completamente fixo e mais ou menos complexo: o movimento instintivo, coordenação hereditária ou padrões fixos de comportamento. Estes automatismos endógenos são elementos centrais e essenciais do sistema de comportamentos instintivos de todos os animais e, devido à sua constância, podem ser usados nos estudos filogenéticos e comparativos (Oskar Heinroth, Charles O. Whitman). Cada comportamento instintivo depende de um certo impulso interno, ou melhor, tende a produzir uma espécie de tensão específica no sistema nervoso central. Se o animal não se encontrar numa situação favorável para a sua descarga, esta energia específica de acção acumula-se, de modo que o limiar dos estímulos que são efectivos para desencadear esta actividade instintiva particular desce até que, a partir de determinado momento, o instinto se desencadeia sem nenhum estímulo exterior, dando origem à actividade no vazio. O comportamento apetitivo (Wallace Craig, 1918) permite ao animal atingir a meta para a qual está adaptada a sequência completa de padrões fixos de acção. Quando o comportamento apetitivo segue o seu curso apropriado e o animal alcança a sua meta, o comportamento instintivo apropriado é libertado pelo estímulo-sinal ou desencadeador, cuja eficácia é devida à existência de um receptor relacionado, isto é, de uma organização sensorial que permite ao animal reconhecer o estímulo adequado e agir de modo apropriado. Este mecanismo desencadeador pode ser inteiramente inato e, portanto, não modificável pela experiência individual. No caso de o animal estar sob a influência de um poderoso impulso e, ao mesmo tempo, impossibilitado para o expressar de forma adequada, pode ocorrer uma actividade deslocada. As experiências de Kasper Hauser ou experiências de privação demonstraram a existência de comportamentos adaptados, portanto, resultantes de uma evolução filogenética, em diversas espécies animais, incluindo a humana: os comportamentos adaptados são hereditariamente adaptativos e distintos das modificações adaptativas do comportamento adquiridas pelo animal. Estas adaptações filogenéticas do comportamento revelam-se ao nível motor como padrões fixos de comportamento e ao nível receptor como filtro selectivo dos estímulos, por meio do qual o animal, antes de toda a experiência, responde a determinadas configurações de estímulos com determinados comportamentos, bem como nas disposições inatas para a aprendizagem e nos mecanismos motivacionais que permitem ao animal agir movido por impulsos internos (I. Eibl-Eibesfeldt, 1979).
O modelo psicohidráulico de Lorenz é claramente a-fisiológico, no sentido de não implicar a existência de reservatórios de líquido no sistema nervoso central. No entanto, fornece um modo adequado de descrever as propriedades gerais subjacentes a um verdadeiro mecanismo neural. W. H. Thorpe (1956) reinterpretou o modelo em termos neurofisiológicos mais apropriados, convertendo a energia específica de acção em potencial de acção específica, mas, como não conseguiu descrever os verdadeiros mecanismos, o modelo hierárquico de N. Tinbergen (1950) acabou por se impor. O modelo hierárquico é mais neuronal do que o de Lorenz e explica os comportamentos a partir da noção de hierarquia de instinto: os padrões de comportamento agrupam-se e cada grupo depende de uma organização coordenadora superior. Cada nível dessa hierarquia é composto por centros que recebem energia natural de fontes internas (hormonas) e externas (estímulos ambientais, tais como luz e temperatura) e cada centro envia a energia para os seus centros subordinados quando é removido um bloqueio neural subjacente ao mecanismo desencadeador inato. Os bloqueios indicam influências inibitórias que evitam uma descarga contínua dos impulsos motores: o seu desbloqueamento é feito pelos mecanismos desencadeadores inatos que, na presença de determinados estímulos-sinais, permitem a ocorrência de comportamentos apetitivos. E estes últimos conduzem os impulsos para outras acções desencadeadas nos níveis sucessivamente inferiores. Para Tinbergen, o instinto é um sistema de coordenação herdado e adaptado do sistema nervoso, que, quando activado, responde sob a forma de padrões fixos de comportamento, e que é hierarquicamente organizado, dotado de espontaneidade e possuidor da tendência para responder a determinados estímulos-sinais. Ou, nas suas palavras, o instinto é "um mecanismo nervoso hierarquicamente organizado, sensível a determinados impulsos anunciadores, desencadeadores e directores, tanto internos como externos, que responde a estes estímulos com movimentos coordenados que contribuem para a conservação do indivíduo e da espécie". P. Weiss (1941) e G. P. Baerends (1956) desenvolveram outros modelos hierárquicos, nos quais os centros subordinados são controlados frequentemente por diversos centros superiores, tal como demonstraram as experiências de estimulação eléctrica de E. von Holst & U. von Saint Paul (1960): a ordenação do comportamento do animal intacto corresponde a uma ordenação hierárquica do sistema nervoso central, a qual se manifesta não só nas relações lineares simples, mas também numa rede de relações (R. A. Hinde, 1953).
Tinbergen exemplificou o seu modelo hierárquico com o comportamento reprodutivo do macho esgana-gata. Na primavera, o macho esgana-gata entra na sua época de reprodução, mudando gradualmente de coloração. Emigra com o cardume das zonas de águas profundas para regiões de águas mais superficiais e quentes, onde cada macho procura um território rico em vegetação. Depois de ter escolhido o seu território, aparece a sua coloração pré-nupcial e o macho mostra-se sensível a uma série de novos estímulos: ameaça e luta quando surge no seu território um macho estranho, constrói o ninho quando descobre materiais adequados, corteja a fêmea, levando-a para o ninho, onde esta deposita os ovos que são fecundados pelo macho e, finalmente, cuida dos ovos. Os comportamentos exibidos pelo animal dependem da situação de estímulos desencadeadores, embora mostre uma disposição interna para todos estes padrões de comportamento. A luta é desencadeada pelo aparecimento de um macho com o ventre vermelho e outros estímulos mais específicos determinam o tipo exacto de comportamentos de luta que deve efectuar. Esta ordenação de comportamentos corresponde a um tipo funcional de organização do sistema nervoso central. As hormonas, provavelmente os níveis elevados de testosterona, agem sobre o centro superior da reprodução, o centro da emigração, e desencadeiam a emigração como comportamento apetitivo. A emigração parece não ser provocada por estímulos-sinais especiais e termina quando o animal descobre estímulos-sinais de um biótipo apropriado, os quais agem sobre um mecanismo desencadeador inato que liberta o centro territorial até aqui bloqueado. Os impulsos começam então a fluir para os centros subordinados da corte, da construção do ninho, do cuidado com as crias e da luta contra intrusos, mas cada um destes centros está bloqueado até que apareça o estímulo-sinal apropriado capaz de o desbloquear.
J Francisco Saraiva de Sousa

20 comentários:

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Acabo amanhâ este post, porque agora vou comer para ver o FCPorto. :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

O jovem alemão de 17 anos que entra na escola para matar 16 pessoas, entre as quais colegas e professores, é a face visível da violência já instalada nas escolas.

As escolas portuguesas já são espaços de violência incrementada pela frustração: um corpo docente perturbado e alunos violentos combinam-se de modo a produzir a violência escolar. Um factor comum é a regressão cognitiva e este factor desinibe a exteriorização das agressões. O modelo de sociedade facilita estas manifestações de violência, bem como a mistura étnica ou racial.

André LF disse...

OLá, Francisco! Muito interessante o tema do post atual.

Sim, há várias formas de violência nas escolas. Nas escolas públicas do Brasil tem se tornado comum a violência dos alunos- muitas vezes drogados- contra os professores.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Olá André

De facto, tenho alertado para a violência instalada nas escolas, mas ninguém quer escutar, nem mesmos os professores. Depois surgem estes episódios de homicídios, como o caso alemão e tantos outros. Os professores sobrevivem de modo a ter os vencimentos em dia, mas já não têm cabeça nem conhecimentos para transmitir.

Ah, vencemos o Atlético de Madrid e com a ajuda de Hulk, um brasileiro. :)

André LF disse...

Sim, também tenho visto muitos professores que não têm conhecimento para transmitir...

Nunca ouvi falar deste Hulk, :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Bem, está concluido, dado não pretender desenvolver aprofundamente os conceitos etológicos, os referidos e tantos outros, levando em conta estudos de campo ou experimentais.

André

O Hulk jogava no Japão e este não é o seu verdadeiro nome, mas o seleccionador do Brasil já a conhece depois de ser integrado no FCPorto.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Estou a pensar que a qualquer momento grupos de jovens começam a matar os grisalhos, dada a sua existência longa e gulosa. Começam a pensar que não têm outra alternativa de vida a não ser eliminar os velhos que gozam a vida longa e protegida à custa das gerações futuras e da miséria generalizada. França, Grécia, etc. revelam essa agressão dirigida contra o poder estabelecido dos grisalhos. :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

De resto, moral, biologica e politicamente, não deixam de ter razão! Era um costume esquimó abandonar os velhos à morte. E, neste momento negro, é uma nova oportunidade de renovação para o Ocidente: eliminar os velhos é libertar o futuro dos encargos das reformas, é abrir espaço para o emprego, é crescer e aprender a ser adulto sem estar dependente dos pais, etc.

Denise disse...

Olá Francisco,
Com o aproximar do final 2ºperíodo não tenho tido grandes incursões activas na blogosfera.... Tenho-o lido e fiquei muitíssimo agradada com a série dedicada à homofobia e preconceito sexual.
Este post nãocomento, que ainda nãoli devidamente,mas comento os comentários: nem tudo é culpados profs. A família tem vindo a se desresponsabilizar da tarefa da educação entregando-a à escola. Ora, na escola adquiriem-se e mobilizam-se saberes e competências, mas não se fazem milagres. Concordo que nem todos os profs apresentem um desempenho digno e dignificante, mas olhe que as directrizes em catadupa em função das estatísticas e oportunismo político têm vindo a prejudicar, e muito, a educação dos e para os valores e formação para a cidadania... :-(

Um abraço para si e outro para o André :-)

Denise disse...

* peço desculpa pela falta de espaços entre as palavras... o teclado anda parvo...

Denise disse...

Ena Francisco! Que azedume esse o seu contra os grisalhos!!!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Oi Denise

Estava a tentar compreender a violência juvenil... só isso! Mas é preciso fazer alguma coisa para evitar estes homicídios!

Denise disse...

O homicídio sempre acompanhou a história da humanidade. O que o torna ainda mais macabro é o facto de agora(e este é um agora relativo) ser também praticado por jovens e adolescentes. É no que dá a banalização do crime, que passa pelo media, mas também, pelos pequenos delitos que cada um de nós, os adultos, comete no seu dia-a-dia :-(

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Ya, agora dizem que o jovem alemão sofria de perturbações psiquiátricas e isso pode não estar fora de questão, mas uma frase dele diz que a sua vida não tinha sentido. E de facto a nossa vida é nos nossos tempos muito carente de sentido e, numa mente grágil, pode levar ao desespero total. Os jovens criados em meios permissivos tendem a ser agressivos, porque foram condicionados para ter o que desejam sem esforço, sem privações e sem punições. qualquer coisa que não encaixe nesse esquema desperta uma reacção agressiva. É um problema grave a situação dos jovens sem horizontes de futuro...

Vou estudar estudos sobre esses problemas... e logo vejo se o posso compreender melhor.

Denise disse...

Bom dia!
Ambientes permissivos, ambientes agressivos, falta de experiências de frustração, exagero de experiências de frustração, limitações sincrónicas, ausência de horizontes de futuro, noção alguma de colectivo... O egoísmo, creio, é o mal de todos os males.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Boa Tarde Denise

Estou a pensar que alguns professores podem ajudar a fazer o levantamento dos problemas, dado terem acesso a eles, incluindo problemas de aprendizagem cristalizados nas provas e noutros documentos. Uma espécie de etnografia de sala de aula e de escola. Esses dados seriam depois processados e analisados. Este modelo de sociedade é obsceno!

Denise disse...

Sm, seria um trabalho de campo muito interessante e um estudo promissor... Pergunto é se esses estudos já não existirão.
Do levantamento dos problemas que tenho vindo a identificar durante a minha experiência profissionoal, julgo que a maioria se deve à falta de motivação intrínseca. No entanto, a legislação mais recente (da antiga não tenho grande conhecimento empírico)tem vindo a dificultar a formação de indivíduos no que diz respeito à aprendizagem e à aquisição de conhecimentos e, até mesmo, à consolidação dos vaores. É o caso das novas decisões sobre as faltas dos alunos...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Sim, a legislação tem agravado as situações, em vez de as resolver. Quanto à motivação, as reformas introduzidas contribuiram para a sua abolição. É estranho como se fazem reformas sem levar em conta aquilo que conhecemos sobre motivação: aboliram o esforço e a punição e, com a política das estatísticas, estão a abolir o ensino.

Sim, existem etnografias escolares, sobretudo inglesas, mas estão viciadas em certos modelos pedagógicos que destruiram o ensino e a educação. A intervenção do Estado tem sido catastrófica e agora até o ensino superior é objecto de más políticas europeias, subjugadas ao economicismo irracional.

Denise disse...

Ah, Francisco!, apetece-me abraçá-lo! :-)))
Ao que disse, acrescento que lamento a falta de motivação independentemente de qualquer política exterior: gostaria que as pessoas quisessem saber sempre mais. mas não, para os nossos alunos, aprender é uma seca, ler é uma seca, saber é uma seca :-(

gabriela quiroga disse...

hola la informacion no es buena no tiene coherencia