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quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Projecto Porto Cidade-Estado (6)

Cidade do Porto
Hoje partilho alguns comentários sobre o jogo FCPorto-Sporting:

1. Porto Cidade-Estado deve rever a sua toponímia e eliminar selectivamente todas as designações estranhas à Cidade Invicta, tal como sucedeu com o Passeio dos Clérigos. A sua designação anterior - Praça de Lisboa - era um atentado contra o espírito portuense.

2. A história de Portugal é uma sucessão contínua de fracassos. Os "portugueses" que não se identificam com a imbecilidade nacional deviam criar uma página - ODEIO PORTUGAL.

3. Portugal afundou-se de vez e já nunca mais conseguirá recuperar. O melhor é negar a nacionalidade portuguesa e abrir novos caminhos, tais como Porto Cidade-Estado, de preferência governada por nórdicos.

4. Presidente da FIFA goza Cristiano Ronaldo em Oxford e prefere Messi. A caricatura que fez de CRonaldo merece um prémio: Perfeita! O mundo goza claramente Portugal e, de facto, devemos rir porque os portugueses merecem ser gozados.

5. Uma geografia da distribuição da loucura portuguesa pode seguir um critério clubístico: zona azul indica saúde mental, zona encarnada e zona verde indicam um espectro complexo e difuso de perturbações mentais. Basta ver o "Dia Seguinte" para sermos confrontados com cérebros patológicos.

6. Não podemos mudar aquilo que desconhecemos. Para mudar o mundo, é preciso conhecê-lo. A célebre tese de Marx sobre a transformação do mundo foi mal-interpretada: a filosofia de Marx nunca abdicou da teoria a favor da praxis. Nós conhecemos relativamente bem a dinâmica do capitalismo, mas este conhecimento não é suficiente para transformar o mundo: os agentes sociais da mudança já não são os mesmos do século XIX. O capitalismo introduziu mudanças significativas no mundo da vida quotidiana e no mundo da cultura e da personalidade. Conhecer os novos agentes sociais e os seus mundos fantásticos e saturados é uma prioridade da teoria crítica. Este conhecimento implica mudanças estruturais na agenda política da esquerda atenta ao mundo.

7. Eu sou muito objectivo e lúcido nas análises que faço: Basta assistir aos programas de TV para constatar que reina em Portugal uma conspiração contra o Porto e o FCPorto. Vejamos de perto um caso: "O Dia Seguinte" da SicNotícias. O comentador encarnado possui um cérebro saudável? O comentador verde foi objectivo na análise que fez do jogo Porto-Sporting e dos confrontos prévios ao jogo? Quem atiçou o ódio da claque terrorista do Sporting? Ora, a estratégia do FCPorto foi o silêncio.

8. Perante a evidência empírica não há argumentos e muito menos argumentos produzidos por cérebros alucinados: O FCPorto afirmou-se como vencedor depois do 25 de Abril. O ódio ao Porto vem do tempo do fascismo que tinha os seus clubes de regime: Benfica e Sporting. Estes clubes de regime nunca se adaptaram à cultura democrática do mérito: Eles não sabem vencer a não ser pressionando os árbitros, caluniando o adversário ou recorrendo às secretarias dos tribunais ou da imprensa. A chamada imprensa portuguesa é frontalmente contra o Porto e o FCPorto. Sabemos isso e devemos agir em conformidade: Exigir a autonomia radical do Porto Cidade-Estado porque não queremos ser invadidos por vândalos.

9. Como adepto do FCPorto, o que me interessa Cristiano Ronaldo, a Selecção Nacional ou o Estádio do Jamor? Absolutamente nada! Quando ouço os jornalistas da SIC a dizer que nos recebem na sua "sala de visitas" ou que a Selecção Nacional é o retrato da cópula encarnado-verde, sinto-me distante dessas realidades saturadas de provincianismo saloio. Eu sou portista e nada mais.

10. O que é o jornalismo desportivo em Portugal? Falar-conspirar durante horas seguidas sobre as frustrações desportivas do Benfica e do Sporting, lançando calúnias contra o FCPorto. O país está dividido e não adianta falar de coesão nacional porque esta mais não é do que uma falsa-unidade contra o Porto: Benfica e Sporting estão unidos na calúnia contra o FCPorto e a Cidade do Porto. Ora, como portuenses e portistas, somos excluídos dessa falsa-coesão imposta pelo regime fascista. Daí desejarmos ser um território independente e autónomo.

11. Mais outro exemplo do defeito cerebral dos comentadores encarnado-verdes: a corrupção da semântica que leva à mentira desportiva. Um jogador encarnado ou verde agride um jogador do FCPorto e eles falam de "virilidade". Um jogador encarnado ou verde lança-se à relva e eles acusam o jogador do FCPorto de ter cometido uma falta sem ter sido penalizado pelo árbitro. Pois, os cérebros defeituosos subverteram a "virilidade" fazendo dela uma mentira desportiva. O motivo secreto desta subversão é pressionar os árbitros a fazer o seu jogo de secretaria, deixando-os sozinhos no campo sem equipa adversária.

12. O FCPorto venceu o Sporting por 3-1. No último programa do "Dia Seguinte", o comentador verde diz para o comentador azul: "sorte de jogo". O comentador azul responde-lhe: "a sorte paga-se" (com esforço, disciplina e inteligência desportivas). E o comentador encarnado coloca a frase descontextualizada na sua página do Facebook para caluniar o FCPorto. O que podemos dizer sobre um cérebro que distorce as imagens dos lances dos jogos? Quando se perde o bom-senso, perde-se o mundo, como já dizia Hannah Arendt. Só nos resta o sorriso psiquiátrico!


A lição a sacar destas considerações futebolísticas é simples: as pessoas que possuem um "self" débil precisam desse sentimento de pertença que lhes empreste uma identidade colectiva. Ora, como o meu self é forte, o facto de ser adepto do FCPorto não me ofusca a mente: a minha identidade pessoal não sofre "mossa" quando o FCPorto perde ou joga menos bem. Deixa de ser fanático e liberta a tua mente para o caminho da verdade, do bem e da beleza! O fanatismo clubístico é uma perturbação mental: somar os fracassos desportivos do teu clube aos teus próprios fracassos pessoais arruína a tua vida mental, levando-te à violência desportiva.  

J Francisco Saraiva de Sousa

domingo, 20 de outubro de 2013

Projecto Porto Cidade-Estado (5)

Porto Cidade-Estado
Hoje partilho um conjunto de pequenos textos que visam esclarecer a Filosofia Portuense:

1. A mente poética de Teixeira de Pascoaes produziu, em estado prático, uma grande Filosofia da Poesia Portuguesa que urge sistematizar. Destaco uma frase da sua autoria: «D. Quixote é. D. Sebastião há-de ser». A alma lusitana distingue-se assim da alma castelhana: a primeira deseja o futuro, abre-se ao futuro desejado; a segunda fecha-se no passado, actualiza-o. O sebastianismo transfigurado dos pensadores portuenses é uma filosofia da História de Portugal. Não temos outra.

2. Conheço a biblioteca privada de alguns dos pensadores portuenses: os títulos incluem poucas obras de vulto naquele tempo. Ora, o que é inusitado é o facto deles terem redescoberto conceitos filosóficos nucleares e terem feito distinções conceptuais de primeira ordem: a distinção entre "é" e "há-de ser" é brilhante. A alma portuense descobriu uma afinidade que partilha com a alma russa. Mas há outra afinidade e, desta vez, com a alma alemã. O romantismo portuense é brilhante e digno de figurar na grande literatura mundial.

3. As pessoas não compreendem a minha indiferença em relação a Fernando Pessoa e a minha preferência pela poesia e prosa de Teixeira de Pascoaes. Direi apenas que na obra de Pascoaes sinto-me em casa, enquanto na obra de Pessoa sou um estranho: Uma poesia que não se presta ao pensamento não me atrai.

4. Como qualquer um dos grandes pensadores portuenses do passado, eu tento libertar o pensamento filosófico em língua portuguesa da prisão da intriga e da bisbilhotice. E, nessa tarefa de devolver o pensamento à sua matriz conceptual, fui mais longe do que os pensadores ancestrais: Faço Filosofia e, quando confrontado com a Mitologia Nocturna do Povo, converto-a em Filosofia Nocturna. Surgem luzes na escuridão da funda meia-noite.

5. No meu período juvenil, rejeitei o Saudosismo de Teixeira de Pascoaes: a Saudade era-me completamente estranha. Mas, com o decorrer do tempo e à medida que aprofundava a Filosofia Portuense, descobri aquele processo de mutação intelectual a que chamo transfiguração portuense do sebastianismo: a saudade portuense deixou de ser uma noção vaga para passar a ser um conceito político. Vou mais longe: os pensadores portuenses nunca alinharam filosófica e politicamente com a Geração 70: o "há-de ser" é mais do que uma categoria ontológica; é, antes de tudo, um projecto político, e a saudade portuense mais não é do que a saudade do futuro reservado à Cidade do Porto. Eu sou o filósofo portuense da Grande Ruptura: os meus sonhos diurnos antecipam em pensamento o futuro do Porto como Cidade-Estado. Ora, a minha alma portuense não me impede de pensar outras figuras portuguesas, como por exemplo Gil Vicente.

6. Ao falar da transfiguração portuense do sebastianismo, estou a introduzir uma ruptura no seio do sebastianismo português. Rejeito a mitologia sebastianista pensada por sulistas, como por exemplo António Quadros, e aceito o desafio de levar mais longe a problemática filosófica portuense, fazendo do Encoberto-Desejado uma figura da Filosofia. Os heterónimos de Fernando Pessoa tornam-se ridículos perante a figura portuense do Encoberto-Desejado, a figura que anuncia a Filosofia Nocturna e promete a Filosofia Diurna.

7. Há pessoas que se apropriam dos tesouros cognitivos disponibilizados pela Internet como se fossem seus e, quando atacam os outros, pressupõem que eles fazem o mesmo. Ora, nem todos os utentes da Internet são "ladrões cognitivos". É complicado tentar testar a inteligência do outro, sobretudo quando esse outro está a fundar uma nova problemática filosófica, para além das problemáticas da Filosofia da Consciência e da Filosofia da Linguagem: a problemática da Filosofia do Conceito que, de certo modo, reclama a herança de Espinoza. Tontos são aqueles que se limitam a dizer vulgaridades, vampirizando a obra de Vieira, por exemplo.

8. A falência da Editora Livros do Brasil está a privar-nos das obras brasileiras. Uma obra que desapareceu das livrarias portuguesas são os "Sertões" de Euclydes da Cunha. Os portugueses desconhecem o sebastianismo brasileiro, ou melhor, o tremendo impacto de António Vieira sobre o sebastianismo nordestino: o brasileiro é-nos apresentado como um "ser saudoso" (Oliveira Torres) porque descendente detrês raças tristes: o português desterrado da sua pátria, o negro banzado de África, e o índio desesperado por ter sido arrancado às selvas. Dado esta região brasileira ter sido colonizada por gente proveniente do Norte de Portugal, a saudade brasileira - que dizem ser saudade do Paraíso Perdido - é herdeira da saudade galaico-portuense ancestral. Estou cada vez mais convencido de que a Filosofia do Sebastianismo deve ser um empreendimento luso-brasileiro.

9. Abel Salazar duvidava do equilíbrio mental de António Sérgio, cuja mente destrambelhada teve repercussões nefastas sobre o pensamento português e portuense. Os maiores cérebros portugueses seus contemporâneos - Jaime Cortesão e Abel Salazar, por exemplo - não tinham boa imagem de António Sérgio e detestavam o seu "polemismo caceteiro" que mergulhou o cultura portuguesa nas trevas da merda. Convém reanalisar criticamente todas estas polémicas travadas por Sérgio contra a filosofia portuense. Os (pseudo-)intelectuais portugueses herdaram esse espírito caceteiro que se limita a demolir sem construir.

10. Quem é o Encoberto para Sampaio Bruno, o pai do chamado pensamento português, isto é, do pensamento portuense? Eis a sua resposta: «Dissipe-se a nuvem que encobre o herói. O herói não é um príncipe predestinado. Não é mesmo um povo. É o Homem». A transfiguração portuense do sebastianismo está realizada nestas palavras de Sampaio Bruno. A figura do Encoberto - isto é, do Homem Escondido - é a figura de uma antropologia filosófica portuense que ainda não foi pensada nos seus próprios termos. No entanto, o carácter universal da filosofia portuense está estabelecido.

11. Como sabem, não estou de acordo com todos os portuenses ilustres. Dalila Pereira da Costa opera uma mitologização do sebastianismo que rejeito. Porém, há elementos produtivos em "A Nau e o Graal": «Para as duas almas constituintes desta pátria, a céltica e a judaica, a história será encarnação do mito ou o mito em vias de se fazer». Aceito a primeira ideia e rejeito a segunda. Por vezes, diante de obras profundas, temos de realizar uma leitura sintomal, dando destaque aos elementos construtivos de modo a resgatar o pensamento pensado.

12. Em 1904, Sampaio Bruno publicou a sua obra "O Encoberto", cujo índice é o seguinte: I A Fé e o Império; II O Desejado; III O Encoberto; IV O Restaurado; V Mito; VI Realidade; e VII Decadência e Progresso. Reparem que pela estrutura da obra se adivinha o seu programa de desmitologição do sebastianismo. Além disso, aparecem três figuras: o Desejado, o Encoberto e o Restaurado, além da crítica subjacente à teoria da decadência de Portugal de Oliveira Martins e de Antero de Quental. O homem do Porto indicou os caminhos adequados a percorrer.

J Francisco Saraiva de Sousa

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Projecto Porto Cidade-Estado (4)

Porto Cidade-Estado
Hoje as ideias partilhadas no Facebook seguiram um novo rumo: a temática do sebastianismo e as metamorfoses da espera. Têm relevância para o Porto Cidade-Estado:

1. A Alma Portuguesa só pode ser pensada à luz da fragmentação. A Imagem do Porto-Trabalho deve ceder à imagem do Porto-Pensador. Uma das clivagens da alma portuguesa pode ser enunciada assim: o Porto pensa enquanto Lisboa desconstrói e destrói o pensamento pensado pelo e no Porto. Todas as Histórias da Literatura Portuguesa são falsificações que secam os vestígios geniais da alma portuense. O Romantismo em Portugal é uma criação portuense: os sulistas sabem isso quando dizem ser anti-românticos, isto é, anti-portuenses. As obras de Teixeira de Pascoaes tematizaram o romantismo, dando-lhe uma filosofia sistemática. Há portanto uma Filosofia do Romantismo Portuense. Porém, convém exorcizar uma concepção prévia do romantismo: o culto do passado que encontramos em Alexandre Herculano converte-se em ânsia de futuro em Teixeira de Pascoaes, o que quer dizer que o romantismo não é necessariamente retrógrado e reaccionário. A filosofia de Teixeira de Pascoaes é sombria no sentido de ser uma filosofia nocturna que aguarda por um novo amanhecer.

2. O sebastianismo foi mal pensado filosoficamente: o sebastianismo do Padre António de Vieira que, de certo modo, revive na "Mensagem" de Fernando Pessoa foi completamente transfigurado pelos filósofos e poetas portuenses. A transfiguração portuense do sebastianismo é, desde logo, uma transfiguração filosófica e política. A figura do Encoberto é, na filosofia portuense, uma figura tão importante como o Zaratustra na filosofia de Nietzsche. Com efeito, ela é uma figura da filosofia nocturna. (Ocorreu aqui uma polémica que ditou a sequência seguinte:)

3. A Universidade de Coimbra foi sempre inimiga do pensamento portuense, como o demonstra a "questão académica". A Faculdade de Letras do Porto foi fundada em Agosto de 1919 por Leonardo Coimbra e, depois da polémica com Coimbra, foi suprimida por decreto em 1928. Esta supressão fascista deslocou algumas figuras do pensamento portuense para a Universidade de Coimbra: o exílio coimbrão não conseguiu ofuscar o génio portuense. A Universidade de Coimbra foi sempre o túmulo do pensamento filosófico e científico. A Aliança Porto-Lisboa quebrou esse feitiço de Coimbra.

4. Eis como Teixeira de Pascoaes lamenta a imbecilidade dos portugueses: «O grande poder emotivo da Raça contrário ao pensamento intelectualizado, opunha-se à criação de uma verdadeira Filosofia. O sentimento inundante afoga em lágrimas e nuvens o pensamento lúcido e sereno. Também o viço excessivo de uma planta não a deixa frutificar». Considera que o Criacionismo de Leonardo Coimbra é «a primeira Filosofia com todo o ritual e espiritual, escrita em língua portuguesa».

5. O messianismo pode ser definido - em termos gerais - como "esperança histórica". E o sebastianismo como sua versão portuguesa nasce da dor e nutre-se da esperança (Lúcio de Azevedo). Apesar de terem sido publicadas muitas obras sobre o sebastianismo, ainda não temos uma História do Sebastianismo (Lusófono) e muito menos uma Filosofia do Sebastianismo. A tese que proponho é uma inversão de marcha: Pensar o Encoberto como o Desejado. A Filosofia Portuense realizou de certo modo essa inversão que rompe com a Profecia: a transfiguração portuense do sebastianismo é assim secularização da crença bíblica na vinda de um Deus ou de um Enviado de Deus, que salvará o seu povo oprimido. (Aqui o meu amigo Wanderson Lima deu a seguinte bibliografia brasileira: um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete e oito.)

6. É preciso ser filósofo profissional para compreender a "História do Futuro" do Padre António Vieira. Eis aqui uma afirmação a reter: «A ciência dos futuros - disse Platão - é a que distingue os deuses dos homens e daqui lhes veio, sem dúvida, aos homens, aquele antiquíssimo apetite de serem como deuses». O Capítulo Primeiro da História do Futuro tem muita filosofia que urge compreender.

7. Na "História do Futuro", António Vieira fala "com todo o mundo" no primeiro capítulo, e "só com Portugal" no segundo capítulo. Ora, um filósofo hermeneuta sabe que há aqui algo a decifrar, porque logo a seguir Vieira diz: «nem todos os futuros são para desejar, porque há futuros para temer». A não é suficiente para deslindar a lucidez histórica e política de Vieira.

8. Sugiro o tema de um novo livro sobre o Padre António Vieira que namora o título de uma obra de Isaac Deutscher: António Vieira, Profeta Armado, Profeta Desarmado e Profeta Vencido: Uma trilogia.

9. Em 1634, nos arrabaldes do Salvador, António Vieira pregou o seu Sermão de S. Sebastião. O seu sebastianismo evoluiu do sebastianismo estático, preso à esperança do regresso do rei morto em Alcácer Quibir, para o sebastianismo do Quinto Império. O sebastianismo conheceu diversas peripécias sem mudar de matriz. Ora, quem sonha o Quinto Império? Fernando Pessoa que se filia ao último Vieira.

10. Lamento a miopia política do governo português no caso da parceria estratégica com Angola: A Inglaterra livrou-se disso ao criar colónias ocidentais; nós portugueses sabemos que ainda há preconceitos nas relações com as ex-colónias, em especial Angola e Moçambique. Com excepção do Brasil, o património lusófono não é assumido por esses países africanos. É preciso ter paciência na construção da comunidade lusófona.

11. António Vieira realizou uma síntese messiânica que combina o joaquimismo, o messianismo nacional português - bandarrismo - e o messianismo judaico. Desta combinação resulta uma figura que não vou aqui delinear, limitando-me a dizer que o reino messiânico sobre a terra foi formalmente anunciado pelos profetas (1); que haverá três estados da Igreja, da Sinagoga à Igreja actual e desta à Igreja do futuro (2); e que o início da era messiânica será marcado pelo esmagamento dos turcos pelos exércitos cristãos comandados pelo rei de Portugal (3). Como é evidente, a profecia de Vieira falhou: os judeus foram conduzidos a Israel no decurso da Segunda Guerra Mundial sem a orientação de um Messias. Mas o sebastianismo é mais do que isto, e o que tenho defendido é a necessidade de pensar a sua filosofia: a sua concepção da História e da Política.

12. No trabalho intelectual, há divisão de trabalho: uns recolhem o material sem lhe acrescentar mais-valia; outros processam esse material adicionando-lhe erudição; e, finalmente, há os criadores que jogam entre os trabalhadores e os eruditos, criando tempestades inovadoras no seio das ciências e da filosofia. Sem cérebros criativos não haveria mudança de problemáticas e o mundo seria chato e monótono. Só de falar disso dá-me sono! Desperta e acorda para a ciência revolucionária!

13. Fiquei desiludido com esta discussão em torno do Padre António Vieira: Aspectos biográficos foram ventilados sem entrar na sua matriz de pensamento, precisamente o que me interessa enquanto filósofo. Para contornar uma má biografia de Vieira, sugeri um título: António Vieira, Profeta Armado, Desarmado e Vencido. E, para abordar o seu pensamento messiânico, outro título: António Vieira, História e Política. Mas parece que andei a pregar para os peixes.

14. Eu só reconheço a autoridade de uma pessoa em matéria de estudos vieiristas quando ela souber elucidar a concepção de tempo nas obras de Vieira. Eu não procuro uma biografia; procuro - isso sim - uma filosofia sistematicamente pensada.

15. Por que amo o Barroco Alemão? Porque o drama alemão mergulha inteiramente na desolação da condição terrena, afastando-se da escatologia e fugindo para uma natureza desprovida de graça. Ora, meus amigos, o Barroco Português não está longe do Barroco Alemão: Falta-lhe apenas estudiosos disciplinados pelo rigor da filosofia.

16. Amigo CM: Deixo-lhe aqui quatro notas críticas:

16.1. António Vieira é um escritor português muito estudado não só por portugueses mas também por estrangeiros. O facto de ter dedicado 12 anos ao estudo de Vieira não lhe dá o direito de desprezar os trabalhos pioneiros e brilhantes de Lúcio de Azevedo, Hernâni Cidade e António José Saraiva. A melhor biografia de Vieira continua a ser a "História de António Vieira" de Lúcio de Azevedo. Como é evidente, o maior conhecimento da obra e da vida de Vieira permite elaborar novas biografias, escritas à luz de novas problemáticas teóricas. A investigação nunca está concluída e ninguém pode afirmar deter a última palavra sobre um assunto.

16.2. Ontem negou a filiação de António Vieira à problemática luso-brasileira do sebastianismo. Tentei uma definição concisa do sebastianismo apresentando-o como uma versão portuguesa do messianismo. António Vieira realizou a passagem do sebastianismo estático ao sebastianismo do Quinto Império. As peripécias do sebastianismo não podem eclipsar a sua matriz teórica e política que permanece constante ao longo do tempo: as metamorfoses da espera não alteram significativamente a problemática do sebastianismo, sendo adaptações à conjuntura política.

16.3. Ontem estabeleceu um paralelo entre António Vieira e Sabetai Zevi, como se se tratasse de uma descoberta original. Ora, estudos anteriores - em especial os de António José Saraiva - já tinham identificado esse paralelo, mostrando que o ano de 1666 era messiânico para os dois autores. Aquilo que diz ser uma descoberta original sua não é, de facto, original. Os encontros de Vieira com rabinos portugueses na Holanda estão bem estudados. Há uma figura que esqueceu: Menasseh ben Israel, cujas obras têm afinidades com as obras messiânicas inacabadas de Vieira. A Política de Vieira não pode ser dissociada da questão da escravatura e dos índios brasileiros: as Dez Tribos perdidas de Israel são importantes para compreender a Igreja do Futuro mas não eclipsam a questão da escravatura e dos engenhos.


16.4. (O CM) escreveu algures o seguinte: «São três os Sermões do Rosário que falam dos escravos. O único estudo que existe destes trintário é meu, se conhece outro prove-o. Chama-se "Um sermonário mariano de Vieira, Maria Rosa Mística", foi publicado pela Universidade Católica, deveria ser uma treta como o senhor faz querer. Apresente teses, tenha universidades que lhas publiquem, e depois venha discutir sobre aquilo que ainda tem muito que aprender. Seja mais humilde e não pretenda ser enciclopédia, pois as asneiras saem-lhe em catadupa».

Deixando de lado a tontice da sua retórica muito lusitana e agressiva, devo dizer que a questão dos escravos foi abundantemente analisada por diversos estudiosos portugueses, brasileiros e estrangeiros. O segundo volume da "História de António Vieira" de Lúcio de Azevedo aborda esses Sermões no Sexto Período - O Vencido, em especial na secção VI: A tarefa dos sermões. Hernâni Cidade e António José Saraiva também não foram indiferentes à questão dos escravos, para já não falar dos estudiosos brasileiros - ainda ontem foram referidos alguns mediante links - e estrangeiros. É certo que os sermões podem ser analisados em função de chaves de leitura diferentes, mas o seu conteúdo político - esse sim foi estudado.

Tinha outras coisas para dizer sobre a adjectivação que me foi atribuída, mas prefiro omiti-las porque não são relevantes para a elucidação do pensamento de Vieira.


17. O Problema António Vieira consiste em articular a História e a Política, e esta articulação é a sua Filosofia. Ora, a articulação História-Política já deriva de uma problemática de fundo que não foi descoberta por Vieira: Os seus compromissos políticos assumem a forma de teses filosóficas sobre a história e a política do seu tempo. É nesse sentido que o sebastianismo do Quinto Império ainda não foi pensado.

18. Descobri um paradoxo na concepção da "História do Futuro" de António Vieira, nas duas edições que disponho dessa obra. Vieira é enfático quando distingue a sua História do Futuro da História do Passado escrita por autores clássicos. Porém, para a fundamentar, apresenta as suas quatro "utilidades". Ora, a terceira utilidade da História do Futuro - «as promessas e as disposições divinas, antecedentemente conhecidas na previsão do futuro, tudo facilitam e a tudo animam» - reduz a História à Política de realização das promessas. A concepção de tempo de António Vieira aproxima-se e, ao mesmo tempo, distancia-se da concepção de tempo de Santo Agostinho. Para Vieira, o tempo tem dois hemisférios - o passado e o futuro - e um horizonte de tempo presente em que termina o passado e começa o futuro. É esta concepção de tempo que está na raiz dos cinco impérios: o Quinto Império mundial será realizado à escala mundial por Portugal e pelos portugueses sob a liderança de um rei português. Ora, a quarta utilidade da História do Futuro é advertir os inimigos -holandeses e espanhóis e outros - de que não vale a pena lutar contra Portugal, cujo destino foi traçado por Deus. Dado ser um império mundial temporal no mundo, o Quinto Império - a ideia - rompe com a escatologia, outra dificuldade a pensar em Vieira.

19. A burocratização do ensino queimou os neurónios dos auto-intitulados professores que assumem o cargo burocrático dispensando a tarefa de ensinar e educar. Munidos das palermices das pedagogias administrativas, pretendem ser avaliadores por decreto celestial. Porém, como podem avaliar o que não sabem ou o que não ensinaram? O ensino em Portugal e no mundo é uma mentira. Uma maneira tipicamente portuguesa de evitar o confronto da avaliação é dizer que não aceitam ser avaliados e testados. Sim, são múmias mas múmias que querem avaliar sem ser avaliadas.

20. O que me irrita nos chamados escritores portugueses? A bisbilhotice, a atracção exclusiva por pormenores da vida privada dos autores que dizem analisar, o golpe-baixo no diálogo, enfim a incapacidade de pensar o pensamento pensado e de criar novos pensamentos. Nunca se avança; patina-se na mesma merda. Daqui a pouco estávamos a discutir a virgindade de Vieira! Odeio gente burra!

21. Como exemplificar a estupidez dos livros produzidos por portugueses medíocres? Em primeiro lugar, denunciando a falta de qualidade científica e linguística da maior parte das teses de mestrado e de doutoramento. Um avaliador externo que as lesse ficaria chocado: as universidades andam a produzir burros diplomados em série. Em segundo lugar, poderia referir muitas obras editadas pelo centro de Braga da Universidade Católica: as obras filosóficas tratam de tudo menos de Filosofia. Mas posso dar outro exemplo, desta vez portuense: a Fundação Spes tentou aprofundar os estudos da vida e da obra do Bispo D. António Ferreira Gomes e uma dessas iniciativas foi a publicação de uma série de livros volumosos e vazios de pensamento. Enfim, o Bispo do Porto morreu uma segunda vez.

22. Olho em redor e vejo coisas. É certo que a linguagem me permite classificá-las, dando-me o esqueleto de uma concepção do mundo. Porém, preciso de muito trabalho de pensamento para elaborar o conhecimento do fragmento de mundo que vejo. Mas nunca estou na estaca zero porque possuo conhecimentos prévios do mundo. A teoria - o conhecimento concreto do mundo concreto - é sempre o resultado de um trabalho teórico: uma matriz teórica e instrumental permite-me converter a matéria-prima do conhecimento - um conhecimento prévio - em conhecimento científico ou filosófico.

J Francisco Saraiva de Sousa

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Projecto Porto Cidade-Estado (3)

Cidade-Estado do PORTO
Novas ideias para pensar a Filosofia da Autonomia Radical do Porto:

1. A Cidade do Porto merece uma nova história geral e diversas histórias regionais: a História Social do Porto deve ser completada pelas Histórias da Cultura e Literatura Portuenses, da Filosofia Portuense, da Arte Portuense e do Pensamento Político Portuense. Há muito trabalho teórico a realizar e este trabalho não pode ser realizado por amadores. Há muitos livros sobre o Porto, mas a maior parte deles são escritos num estilo apaixonado e distante da disciplina do rigor teórico. Ora, sem teoria não há obra séria.

2. A sociedade portuguesa é uma sociedade de classes peculiar: a classe dominante portuguesa não sabe lidar com as classes dominantes de outros países, como o demonstra o caso de Angola. Se olharmos para a elite do poder português, ficamos chocados com a sua imbecilidade, a sua emotividade histérica, a sua subserviência em relação às instituições estrangeiras e a sua corrupção. As pessoas que protagonizam a política externa portuguesa em Lisboa são criaturas delirantes: o espírito lisboeta é doentio.

3. O complexo nacional de inferioridade revela-se nas universidades: Quando se realiza um congresso internacional, os investigadores portugueses são subservientes em relação aos convidados estrangeiros, sobretudo os europeus, desvalorizando o trabalho uns dos outros nas conversas privadas com os convidados estrangeiros. Ora, quem conheça bem a alma portuguesa, sabe que os portugueses se comportam assim para dar graxa aos estrangeiros, julgando obter algum benefício. Porém, o que obtêm é um atestado de incompetência e de falta de credibilidade pessoal e científica. São os portugueses que afundam Portugal.

4. Nas situações referidas anteriormente, eu tenho muita vergonha em assumir a nacionalidade portuguesa: Utilizo o meu fenótipo e a minha inteligência para me demarcar dos portugueses, tanto em território nacional como em território estrangeiro, porque não quero fazer parte do gueto português ou latino. Os portugueses não são boa-companhia e, se não quiseres ser um "Dr Merdinhas", demarca-te dos portugueses e nega seres português.

5. Ser português é um estigma social e este estigma foi inventado pelos próprios portugueses. A Cidade do Porto só tem um caminho a seguir para se libertar desse estigma: auto-instituir-se como Cidade-Estado.

6. "O Porto é o berço da Renascença" portuguesa: A prosa de Teixeira de Pascoaes é infinitamente superior à de Fernando Pessoa: Teixeira de Pascoaes foi um poeta-pensador que produziu uma filosofia a que chamou Saudosismo. O erro de Teixeira de Pascoaes não reside no seu "nacionalismo", mas no facto de não ter compreendido as fissuras que existem na alma portuguesa. Com efeito, a alma portuguesa não é unitária e as polémicas que o poeta travou com António Sérgio demonstraram isso. Se interpretarmos o saudosismo como uma filosofia da esperança, então podemos corrigir o erro de Teixeira de Pascoaes, traduzindo "alma portuguesa" por alma portuense. É preciso usar violência hermenêutica para recuperar os pensadores da Escola do Porto e trazê-los para as proximidades do projecto filosófico e político do Porto Cidade-Estado.

7. Teixeira de Pascoaes elaborou uma teoria da mentira, articulando-a com a antipatia da vida moderna: «A mentira reina sobre o mundo. Quase todos os homens são súbditos desta omnipotente Majestade». O texto onde o poeta-pensador desenvolve as suas ideias é demasiado breve: a sua fenomenologia da antipatia implica uma fenomenologia da simpatia que quase supera a de Scheler. A ideia central é a de que a antipatia é estranha à Natureza, onde tudo se liga e atrai. Temos aqui uma dinâmica de forças que foi tematizada de diversas maneiras pelos pensadores da Escola do Porto. A sua fidelidade a Bergson reflecte-se no abuso de metáforas que caducam rapidamente o pensamento profundo que elaboraram.

8. «Assim um indivíduo (e as nações são como os indivíduos) educado contra as tendências naturais do seu espírito, jamais será alguém»: Pensamento brilhante de Teixeira de Pascoaes que ele utiliza para justificar o fracasso do constitucionalismo. Porém, ao lado brilhante deste pensamento, devemos associar o seu lado sombrio: a nacionalidade portuguesa não se casa com o constitucionalismo porque este é estrangeiro. Compreendo o desejo de criar uma Religião Lusitana: vejo-o como a tentativa de realizar tardiamente a Reforma em Portugal. Mas não consigo pensar o isolamento da alma portuguesa. A alma portuense deve abrir-se ao mundo. Ser alguém em vez de ninguém exige abertura ao mundo.

9. O pensamento portuense - produzido por portuenses para portuenses - encontra-se na mesma situação dos Edifícios do centro histórico: precisa de ser reabilitado através de uma hermenêutica subtilmente violenta que o confronte com as grandes tendências da Filosofia Moderna.

10. O que penso da filosofia de Leonardo Coimbra? Leonardo Coimbra foi provavelmente o primeiro filósofo portuense - e português - a produzir filosofia enquanto filosofia. Os poetas-pensadores que foram seus contemporâneos viram no seu criacionismo o culminar filosófico do seu próprio pensamento. De facto, há uma unidade de pensamento na Escola do Porto, a qual foi pensada por Sampaio Bruno, Guerra Junqueiro e Teixeira de Pascoaes. Porém, o desenvolvimento filosófico de Leonardo Coimbra ainda não foi pensado: a sua filosofia experimental e a sua atracção pelo cálculo diferencial e integral ainda não foram seriamente estudadas.

11. Chegou o momento de criticar alguns portuenses, aqueles que escrevem textos que parecem ser um amontoado de lombrigas. Há na Cidade do Porto homens e mulheres que deviam ser expulsos da cidade devido à sua estupidez disfarçada de "bairrismo": os seus textos, os seus comportamentos mancham a dignidade da Cidade do Porto. Tenho muito nojo desses tristes e grosseiros portuenses!

12. Os auto-intitulados "filósofos lisboetas" - supostamente racionalistas - condenam o "nacionalismo" inerente à Filosofia Portuense, dedicando o seu tempo a discutir o carácter nacional ou universal da filosofia. Ora, estes idiotas nunca devem ter lido uma obra de filosofia e, diga-se de passagem, desconhecem a filosofia do romantismo alemão e do idealismo alemão. Ser patriota não é um crime: os portuenses são patriotas e amam a sua cidade. Crime é vender o país aos estrangeiros, como fazem os governantes em Lisboa.

13. E eis que Teixeira de Pascoaes sonha a origem atlante do Porto: «A Saudade é deusa atlântica, não mediterrânica. Os Iberos são atlânticos, esses refugiados do Cataclismo que submergiu o célebre Continente». Descobri agora mesmo esta bela intuição histórica do poeta do Norte!

14. O abismo separa o pensamento vivo de Teixeira de Pascoaes do pensamento morto de Fernando Pessoa: O poeta do Porto usa a sua experiência para se apropriar da história da filosofia. A sua apropriação da filosofia revela um profundo conhecimento da mesma: Vejam como ele na frase anterior se apropria de Platão emprestando-lhe o Desejo.

15. É fundamental elaborar a Filosofia do Romantismo Portuense - quase tão brilhante quanto a Filosofia do Romantismo Alemão - e colocar o seu poder subversivo ao serviço da causa nobre que é a instituição do Porto como Cidade-Estado. O génio portuense surpreende-me: Como é que homens que viveram nesse ermo chamado Portugal conseguiram elevar-se às alturas do pensamento filosófico criativo? Porém, quando olho para Fernando Pessoa, vejo um homem sombrio incapaz de pensar um único conceito filosófico. O abismo do pensamento afasta o Porto de Lisboa.

16. Sempre que Teixeira de Pascoaes fala do Encoberto e do Enevoado sabemos que está a falar da missão histórica do Porto. Mas, para quem conheça a sua obra, o Enevoado é a funda meia-noite que abriga e esconde uma Nova Filosofia. Tal como Sampaio Bruno, Teixeira de Pascoases atribui ao Encoberto a missão de pensar a filosofia da história da Cidade do Porto. Como eles foram profundamente hegelianos e românticos!

17. Quem nasceu na Cidade do Porto sabe que os dias e as noites de nevoeiro cerrado convidam ao recolhimento espiritual: O Porto pensa enquanto Lisboa festeja nas ruas. Este pensamento essencial foi descoberto por Sampaio Bruno; eu limito-me a dar-lhe um outro alcance filosófico dizendo: Quebrar o exílio interior é romper com Lisboa e instituir o Porto como Cidade-Estado.

18. E agora chegou a hora de dizer o que os ilustres portuenses pensavam dos portugueses: a sua experiência de exílio interior levou-os a pensar a maldade do povo português. Em Portugal, ou ficamos calados e somos cúmplices do mal existente ou ousamos pensar e somos perseguidos, empobrecidos e afastados. Como dizia o poeta: nacionalidade portuguesa e democracia (constitucionalismo) não casam, bastando pensar nas chantagens deste governo e nos ataques que dirige contra o Tribunal Constitucional. A máfia que preside aos destinos de Portugal é criminosa.

J Francisco Saraiva de Sousa

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Projecto Porto Cidade-Estado (2)

Cidade-Estado do Porto
O projecto filosófico e político de pensar a auto-instituição da sociedade portuense como Cidade-Estado está em andamento. Eis algumas novas ideias defendidas no meu perfil no Facebook:

1. As teorias do Eu Socializado afirmam que a auto-imagem de uma pessoa não precisa ter relação com factos objectivos. Supondo que esta afirmação foi corroborada empiricamente por estudos científicos, a Filosofia pode questioná-la alegando que a formação social de uma tal auto-imagem pode facilmente colidir com a realidade objectiva. Assim, por exemplo, os pais que dizem que os seus filhos são lindos quando na verdade são feios estão a contribuir para a desgraça futura dos seus filhos: a maquilhagem estereotipa a beleza e esconde a fealdade sem a liquidar. Assistimos assim à produção em série de barbies, todas iguais umas às outras. Mas há uma consequência mais perigosa, de resto bem evidente em Portugal: a conspiração dos burros, cujas auto-imagens são reforçadas em rede fechada, contra as pessoas dotadas de dons objectivos. A auto-imagem sem suporte objectivo é uma ilusão perigosa.

2. Um esclarecimento sobre o projecto Porto Cidade-Estado: Como é evidente, este projecto visa todo o Norte, de modo a refazer Portus Cale. A resistência que ele gera revela a sua força política e o medo dos centralistas que fizeram de Portugal uma ruína. É preciso ser inteligente para conquistar um futuro novo.

3. William Graham Summer forjou o termo "etnocentrismo" para designar a atitude estreitamente vinculada aos preconceitos culturais ou sociais de um indivíduo. A batalha do etnocentrismo foi introduzida pelos antropólogos no próprio núcleo da sua formação académica. Porém, falta saber se o antropólogo seria capaz de participar num ritual canibal comendo carne humana. O etnocentrismo tem duas faces: a face branca que consiste numa mera prevenção metodológica contra a imposição dos marcos de referência ocidentais às situações não-ocidentais; e a face negra que consiste num ataque moral contra os valores ocidentais enquanto tais. Esta mudança de direcção do etnocentrismo aconselha o seu abandono. Hoje é necessário sermos entusiasticamente "etnocêntricos" e defender os valores ocidentais, tais como os direitos humanos, a dignidade da vida humana e a liberdade humana. A Filosofia e a ciência são empreendimentos intelectuais ocidentais e, por isso, são etnocêntricas.

4. Debato-me com o problema da formação cultural da Cidade do Porto. Conheço as suas mitologias heróicas e uma ou outra construção fantástica. Porém, sou forçado a concluir que a cultura portuense é uma cultura urbana - cosmopolita e aberta ao mundo. Ora, uma cultura urbana é burguesa. O Porto é burguês.

5. O projecto Porto Cidade-Estado obriga-me a retomar a língua alemã que já não frequento há muito tempo. Vou almoçar e aproveitar para lançar os olhos sobre obras que ajudam a conceptualizar a cultura urbana portuense. Burgofilia pode ser um termo adequado para designar os vínculos que unem os portuenses à sua cidade.

6. Os profetas do Antigo Testamento - homens rurais - denunciaram os pecados e os vícios das cidades maléficas e Jefferson também as desprezava, acreditando que somente uma nação de lavradores podia permanecer como democrática. O espírito anti-urbano esquece que a liberdade e a diferença só se manifestam na sociedade urbana. Infelizmente, os portuenses vivem mais do que pensam a Cidade do Porto: Não temos um único estudo sobre sociologia urbana do Porto.

7. As cidades são espaços de contrastes. Para pensar a cultura urbana do Porto, escolhi como interlocutor Georg Simmel: o conceito de cultura é problemático na Filosofia. Simmel define-a como aperfeiçoamento do indivíduo; daí que faça a distinção entre cultura objectiva e cultura subjectiva. O conceito de formação cultural adequa-se melhor ao pensamento de Simmel. Mas, para compreender a formação cultural portuense ao longo do tempo, é necessário encará-la como formação simbólica que investe diversas esferas da vida psicossocial portuense. A tarefa complica-se e, como filósofo, estou mais preocupado com o investimento cognitivo do que com o investimento afectivo.

8. A história urbana da Cidade do Porto obedece aos mesmos princípios do desenvolvimento urbano das cidades europeias. As análises estéticas de Simmel das cidades de Florença e de Veneza ajudam a compreender algumas especificidades do Porto, como por exemplo o vínculo afectivo entre os portuenses e a sua cidade. Em Simmel, a grande cidade protagoniza o individualismo moderno. O Porto já era uma cidade moderna no século XII: a sua cultura urbana sempre foi uma cultura burguesa. Porém, não temos um estudo empírico sério sobre o individualismo portuense. A questão "Quem são os portuenses?" exige uma resposta.

9. Uma forma engenhosa e inteligente de contornar a ausência de estudos portuenses profundos é pensar a burgofilia dos portuenses como arrependimento: o de ter dado início à formação de Portugal. À luz deste arrependimento podemos pensar o desejo secreto portuense de voltar à restituição integral de Portus Cale.

10. Um historiador malvado de Coimbra procurou ofuscar o brilho da Cidade do Porto, fazendo de Coimbra o pólo do renascimento português. O homem é tão burro e inculto que esqueceu que houve um renascimento no século XII, do qual participou a Cidade do Porto. Se houve um estilo de vida renascentista em Portugal, ele só podia ocorrer na Cidade do Porto. Afinal, a Universidade de Coimbra nunca ajudou a superar a estupidez cognitiva dos portugueses.

11. Reconquistar a unidade perdida: eis o sentimento renascentista da alma portuense. O espírito renascentista impregna toda a alma portuense. Cidades como Florença e Veneza encarnaram esse espírito procurando restituir a unidade perdida do espírito grego. A História de Portugal pode ser lida como fragmentação da unidade: o amor que os portuenses nutrem pela sua cidade - Portus Cale - e que os distingue dos portugueses revela o seu desejo de refazer a unidade que se perdeu com a formação de Portugal.

12. O que é o Porto Romântico a não ser a busca da unidade perdida? O Porto que deu o nome a Portugal é o mesmo Porto que, em momentos fulcrais da sua história, se arrepende de ter iniciado a formação de Portugal. O Porto aprendeu que as suas iniciativas são desfiguradas quando apropriadas por Portugal, bastando referir a revolução liberal de 1820 e a tentativa portuense de implantação da República. Ora, os portuenses que se orgulham de ser liberais nem sempre sabem o que significa ser liberal. Um portuense orgulhoso do seu sangue não pode aplaudir Salazar ou a Monarquia Absoluta de D. Miguel.

J Francisco Saraiva de Sousa

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Projecto Porto Cidade-Estado (1)

Cidade do Porto
O projecto político que vou apresentar aqui acompanha-me há muito tempo. Limito-me a partilhar algumas ideias divulgadas no meu perfil do Facebook. (Na caixa de comentários do post anterior, encontra outras afirmações e aforismos que ajudam a compreender este projecto filosófico e político: pensar a autonomia radical do Porto.)

1. Quem são os portugueses? Não temos estudos sérios para responder a esta questão: os portugueses opinam muito mas são incapazes de se entregar ao pensamento. Daí que os veja como zombies.

2. Se os portugueses não sabem dizer quem são, então posso concluir que não há uma identidade nacional portuguesa. Esta conclusão é fundamental para a elaboração do projecto político Porto Cidade-Estado: a fragmentação "nacional" justifica a afirmação da autonomia radical do Porto. Mesmo sem ter ao meu dispor estudos empíricos, posso facilmente imputar aos portuenses uma personalidade de base, uma identidade própria que os define por oposição à quimera do todo nacional.

3. De certo modo, pretendo utilizar as teorias do eu socializado de Cooley e de Mead para analisar a identidade portuense: as relações entre psique e sociedade possibilitam formular uma teoria filosófica da autonomia radical do Porto. Uma teoria filosófica ilumina a praxis, imprimindo-lhe uma orientação política. Porto Cidade-Estado - a sociedade autónoma portuense - deve produzir os cidadãos de que precisa para se realizar. A imputação de uma identidade portuense por oposição à quimera da identidade nacional visa produzir cidadãos portuenses prontos a lutar pela autonomia da sua cidade e da sua região. Até posso utilizar Freud para mostrar o conflito entre a psique portuense e a sociedade nacional. Fortalecer o Eu Portuense é fundamental para a luta pela autoinstituição da sociedade portuense como Cidade-Estado.

4. Estou fascinado com o projecto Porto Cidade-Estado porque me permite pensar filosoficamente uma nova maneira da filosofia interferir com a política. Sem abdicar dos instrumentos da análise marxista, demarco-me do seu projecto político, colocando-me desde logo no campo do sentido e da identidade.

5. Afinal, quem são os portuenses? A resposta a esta questão está na base do projecto Porto Cidade-Estado tal como o vislumbro. É claro que serei obrigado a introduzir uma ruptura no próprio pensamento portuense: A noção do Porto como "profeta" de Portugal será rejeitada e severamente criticada porque doravante o Porto passará a afirmar a sua autonomia por oposição ao todo nacional. A diferença é desde logo política: o meu objectivo será dar aos portuenses uma política da subjectividade rebelde.

6. Quando referi o eventual recurso a Freud, estava a pensar num Freud transfigurado pela biologia, terreno onde procurarei as forças rebeldes portuenses que recusam fazer parte dessa quimera que é Portugal. Meus amigos: Estou preparado para fornecer uma base biológica ao projecto Porto Cidade-Estado. A fortaleza do coração dos portuenses será testada pela sua reacção ao próprio projecto de autonomia radical. Não se esqueçam que a última palavra pertence sempre à Filosofia.

7. Hoje tenho algum tempo livre para pensar a autonomia radical do Porto. Concebo essa autonomia como capacidade da sociedade portuense para se autoinstituir como Cidade-Estado numa luta permanente contra a heteronomia nacional. Ora, ao encarar a instituição portuense até aqui como heteronomia e alienação, tenho espaço de manobra para elaborar a filosofia da autonomia radical do Porto, rompendo com o seu passado-presente histórico de alienação social. O que me interessa é dar ao Porto um novo imaginário social capaz de levar os portuenses a romper com o todo nacional e a autoconstituir-se como sociedade autónoma instituindo duas instituições fundamentais: a instituição do legein e a instituição do teukhein: pensar um imaginário radical capaz de dar novas significações à cidade do Porto, e realizá-lo na realidade-efectiva.

8. O verdadeiro cidadão portuense debate-se com dois problemas: forjar a sua autonomia individual e a autonomia social da sua cidade. Em qualquer um destes casos, a sua tarefa é liquidar o discurso do Outro e a instituição portuense instituída pelo Outro. Ora, esse outro é a instituição nacional: a autonomia é autoinstituição da sociedade portuense como Cidade-Estado que recusa a tutela do opressor, isto é, de Lisboa, a eterna alienada.

9. A Filosofia da autonomia radical do Porto dirige-se a todos os portuenses e convida-os a unirem-se e a lutarem juntos pela autoinstituição da sociedade portuense como Cidade-Estado. Apesar de não precisar de recorrer à história para fundamentar este desejo portuense, a filosofia da autonomia radical do Porto não esquece a política da memória e do sentido: realizar o desejo portuense é fazer justiça ao sofrimento ancestral dos portuenses que morreram a lutar pela autonomia do Porto.

10. Quando dizem que o Porto é "uma nação", os portuenses dão voz a um desejo ancestral de recuperar a autonomia perdida a favor de instituições nacionais heterónomas e alienantes. De facto, o Porto já foi uma Cidade-Estado, uma entidade autónoma muito semelhante às Cidades Hanseáticas ou às Cidades "italianas" do Renascimento. Chegou a hora de fazer da nação portuense uma Cidade-Estado aberta ao mundo global.

11. Proponho outra categoria filosófica para pensar a autonomia radical do Porto: o êxtase entendido como dar um passo para fora das rotinas normais, heterónomas e alienadas da sociedade nacional portuguesa. A Filosofia da autonomia radical do Porto convida os portuenses de fibra a sair da caverna portuguesa, sozinhos e acompanhados, e a contemplar a noite que antecede o grande dia da libertação portuense. Com efeito, a liberdade pressupõe a libertação da consciência: as possibilidades de liberdade não podem concretizar-se se os portuenses continuarem a pressupor que o "mundo aprovado" da sociedade portuguesa seja o único que existe. A sociedade portuguesa instituída oferece cavernas consoladoras, quentes e confortáveis para alguns portuenses que se alienaram do desejo ancestral dos portuenses. Ora, os tambores batidos pela sociedade instituída encobrem os uivos das hienas portuenses na escuridão. A nossa tarefa é confrontar a condição portuense sem as mistificações consoladoras da sociedade instituída: as hienas que uivam na escuridão da funda meia-noite são os rebeldes portuenses que forjam um futuro novo para o Porto. Ousa sair da caverna portuguesa para conquistares a tua/nossa autonomia portuense.

12. Enfim, o imaginário portuense é instituinte: o seu arqui-inimigo é o imaginário instituído por Lisboa. Sair da caverna portuguesa é romper claramente com o todo nacional a que se chama Portugal. Porém, antes de realizar a auto-instituição da sociedade portuense como Cidade-Estado, é necessário libertar a consciência portuense do jugo nacional: o portuense que grita na escuridão da noite é o rebelde que já está preparado subjectivamente para lutar pela autonomia radical da sua cidade. Irmãos de luta: Viva o PORTO!

J Francisco Saraiva de Sousa

domingo, 11 de agosto de 2013

Mais uma Supertaça para o FCPorto


Dragon Force: FC Porto e Ferroviário de Maputo.
Geografia Mundial do FCPorto

PAULO FONSECA: "O Futebol Clube do PORTO reforçou o estatuto de clube com mais títulos em Portugal".

domingo, 23 de junho de 2013

Porto: Noite de São João

São João: Hoje à noite no PORTO
    Uma proposta para a reforma do São João do PORTO: Como a festa está cada vez mais mundial, acho que as entidades competentes do Porto e de Gaia deviam organizar um festival/concurso mundial de Fogo de Artifício, envolvendo equipas coreanas, japonesas, portuguesas e americanas. A paisagem é única para este tipo de concursos. Houve um ano em que a Ribeira do Porto foi bombardeada com fogo de artifício a partir do Rio Douro e do lado da Sé: o impacto desse fogo cruzado é fabuloso. Na reorganização do S. João, graças ao computador, poderíamos explorar diversos pólos, de modo a pôr a cidade sob fogo.
   Abaixo os coiros da SIC e da TVI que ontem transmitiram merda, em vez da festa do São João! Ontem, além dos turistas habituais, o Porto foi visitado por italianos, franceses, marroquinos e cabo-verdianos, entre outras nacionalidades. O empreendimento turístico e empresarial proposto visa a globalização da Festa de São João do Porto.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Luís Filipe Menezes: candidato à CMPorto


Luís Filipe Menezes anunciou ontem que é candidato à Câmara Municipal do Porto. Apoio a sua candidatura porque estou de acordo com o seu projecto para o Porto: alguns dos pontos enunciados vão ao encontro de ideias que tenho exposto neste blogue e na página PortoLovers. Os portuenses devem colocar de lado as suas simpatias partidárias e apoiar o melhor projecto para a Cidade do Porto: o de Filipe Menezes. Os candidatos da esquerda são figuras pré-históricas sem projecto de futuro. A fusão Porto-Gaia numa única cidade é fundamental para dar a dimensão necessária ao Porto para competir com os grandes centros urbanos europeus. A marca PORTO tem mais prestígio mundial do que a marca Portugal: Porto património da humanidade, FCPorto, Vinho do Porto, Douro, Universidade do Porto, Siza Vieira, Souto Moura, eis alguns símbolos de prestígio mundial. A recuperação da zona de Campanhã, o repovoamento da cidade e o desenvolvimento do turismo de congressos foram outros pontos enunciados por Menezes, com os quais concordo.