Perguntam-me: Onde estudar? Na Universidade do Porto, claro! A propósito já viu a colecção egípcia da Universidade do Porto? A Faculdade mais fraca da Universidade do Porto é a Faculdade de Letras, sobretudo o seu curso de Filosofia, mas as outras não são melhores. Só há uma única escolha: Estuda na Universidade do Porto! Ama a cidade do Porto! Sonha no Porto e para o Porto! Não deixes o dinheiro sair da cidade do Porto!
Chessman
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sábado, 18 de agosto de 2012
terça-feira, 17 de julho de 2012
Teoria Quântica e Filosofia
«A teoria quântica aboliu a noção de objectos fundamentalmente separados, introduziu o conceito de participação em substituição ao de observador, e pode vir a considerar necessário incluir a consciência humana na sua descrição do mundo». (Fritjof Capra)
«A natureza nada sabe sobre imperfeições; a imperfeição é uma percepção humana da natureza. Enquanto parte da natureza, somos também perfeitos; é a nossa humanidade que é imperfeita. E, ironicamente, é devido a essa nossa capacidade para a imperfeição e para o erro que somos livres - uma liberdade que nenhuma pedra nem nenhum animal pode saborear. Sem a possibilidade de erro e sem a real indeterminação que a teoria quântica implica, a liberdade humana não faz sentido. O Deus-que-joga-aos-dados libertou-nos». (Heinz R. Pagels)
«A essência da interpretação de Copenhaga é que o mundo deve ser realmente observado para ser objectivo. A realidade tem existência apenas quando a observamos. Vemos que, de acordo com a interpretação da mecânica quântica segundo a escola de Copenhaga, o universo indeterminado tem outra consequência - a realidade criada pelo observador. A noção de que o mundo existe num estado bem definido independentemente da intervenção humana chegou ao fim. Há qualquer coisa de muito especial no mundo quântico; podemos domesticá-lo com a nossa matemática, mas o certo é que ele é estranho - muito mais estranho do que podemos imaginar visualmente». (Heinz R. Pagels)
Os físicos e os filósofos estão centrados nos problemas de interpretação da teoria quântica, na tentativa de dar uma resposta à pergunta: O que é a realidade quântica? É falso afirmar que, no mundo contemporâneo, os filósofos deixaram de estar preocupados com as questões clássicas que preocupam os físicos. Basta referir dois nomes - Samuel Alexander e Alfred North Whitehead - para desmentir essa afirmação de John D. Barrow. O objectivo deste texto é reafirmar o meu compromisso: contribuir para a clarificação da filosofia da teoria quântica. Noutro dia, assisti a uma conversa entre um engenheiro, um estudante de engenharia e um electricista formado na antiga escola industrial: o que me chocou nessa conversa foi a estupidez arrogante dos dois primeiros intervenientes. Embora não seja especialista em mecanismos eléctricos, compreendi desde o início a armadilha que o electricista prático montou para confrontar os diplomados arrogantes com a sua estupidez: eles desconheciam algumas leis físicas básicas que o electricista utiliza quando conserta os electrodomésticos. Este episódio mostra o estado do ensino superior em Portugal: a produção em série de burros diplomados, não só no campo das letras, o que não é surpreendente, mas também nas áreas das ciências e das engenharias. Nós, os amantes do conhecimento, somos oásis vulneráveis rodeados por um imenso deserto de estupidez diplomada que está a liquidar a cultura superior: a ralé diplomada ao abrigo do processo de Bolonha funciona como uma espécie de formigueiro que invade os oásis de conhecimento para os paralisar ou mesmo destruir. Nas universidade portuguesas, não há lugar para o mérito: o mecanismo que as domina expulsa do seu seio a competência, de modo a garantir a perpetuação da mediocridade instalada. Os burros afastam os competentes para não serem confrontados com a sua burrice visceral: o ensino universitário português é uma terrível mentira. Não adianta tentar descobrir argumentos ou exemplos para atenuar essa verdade essencial: a captura das universidades portuguesas pelo bando organizado dos burros diplomados. A universidade portuguesa - privada e pública - é lixo. Produzir textos sobre mecânica quântica é perder audiência - e esta perda é sintomática: ela indica o vazio cognitivo instalado nos cérebros dos burros diplomados. A arrogância que exibem é uma espécie de mecanismo de compensação: os "génios" portugueses (sic) são génios ocultos; eles nunca se revelam porque não há nada para ser revelado. Neste imenso deserto da estupidez, só temos um caminho a seguir para escapar à malvadez pseudo-diplomada: dialogar com os verdadeiros génios que já morreram há muito tempo. Falar com os mortos é, no fundo, um monólogo que nos livra da nefasta companhia dos vivos que povoam os espaços criativos da sociedade. A indigência cognitiva predominante é avessa à produção de grandes teorias, as quais não têm público. Perdidos nesta imensa mobilização da ignorância, somos obrigados a buscar a nossa própria salvação privada, em vez do compromisso com o projecto da esperança social. Fechamo-nos à sociedade da estupidez para lhe resistir: o nosso desejo é assistir ao seu colapso.
Os meus últimos textos apresentaram o materialismo aleatório como a filosofia mais adequada da mecânica quântica. No entanto, a interpretação de Copenhaga tem sido usada para liquidar o próprio materialismo. Não foi por mero acaso que referi Whitehead. Como se sabe, Whitehead é o autor de duas obras fundamentais, para já não referir Principia Mathematica escrita em colaboração com Russell: Science and the Modern World (1926) e Process and Reality (1929), nenhuma das quais foi traduzida em língua portuguesa. A sua filosofia é muito complexa e difícil: quem não tenha treino filosófico e científico não compreende o seu conteúdo. Aqui vou apenas elucidar brevemente a sua crítica do materialismo, a partir da sua obra de 1926. Na base do materialismo encontra-se a teoria de que existe a matéria ou de que só existe a matéria, sendo a matéria concebida como algo a que lhe é próprio a localização simples (simple location), uma simples localização no espaço e no tempo. Nesta concepção da matéria, o tempo é um acidente da matéria imutável e o instante (instant) carece de duração. Para Whitehead, a matéria tal como a concebe o materialismo é uma dupla-abstracção: o ente é concebido unicamente nas suas relações com outros entes e, destas relações, tomam-se em consideração apenas as relações espaço-temporais. O esquema materialista desenvolveu-se com Galileu e tornou-se em esquema dominante na ciência da natureza. Apesar disso, Whitehead considera-o falso pelo facto de negar a existência objectiva das qualidades secundárias, entrando assim em confronto ou desacordo com a experiência, e a responsabilidade humana. Whitehead vai mais longe quando afirma que o materialismo destrói o seu próprio fundamento, a indução, porque se as partículas materiais se encontram isoladas e apenas entrelaçadas mediante relações espaço-temporais, não é possível, com base no que ocorre num ente, concluir nada sobre o que está a ocorrer noutro ente. A crítica do materialismo realizada por Whitehead é extremamente abstracta: o que foi dito é suficiente para a apreender, mas o seu carácter abstracto exige uma clarificação. A filosofia é, para Whitehead, o esforço de racionalização completa da experiência humana. Aristóteles dizia que só há ciência do geral, o que significa - na linguagem de Whitehead - que não há conhecimento sem abstracções. No entanto, apesar do pensamento ser abstracto por necessidade, Whitehead está consciente de que as abstracções são perigosas quando conduzem à intolerância intelectual, a qual exclui da realidade todos os elementos que não se acomodam no esquema-sistema abstracto. A intolerância intelectual mais não é do que a propensão a considerar os seus princípios como outros tantos dogmas e a tomar as abstracções pela própria realidade. Whitehead deu-lhe o nome de falácia da concreção fora de lugar (fallacy of misplaced concretness), a qual ameaça liquidar a cultura superior. A filosofia tem como tarefa principal criticar as abstracções, examinando as ideias que os cientistas aceitam sem objecção e comparando os diversos esquemas abstractos. Além disso, a filosofia constrói o seu próprio sistema teórico, a partir de intuições mais concretas que as intuições da ciência, tomando-as emprestadas aos artistas e aos génios religiosos e articulando-as com as suas próprias intuições. A necessidade da filosofia num mundo cada vez mais indigente resulta do facto dela submeter os sistemas abstractos fabricados por esses homens à vigilância da razão. A filosofia é racional não só no desempenho desta tarefa de exame crítico dos sistemas abstractos, mas também no seu método: a razão não pode continuar a capitular perante a ditadura dos factos. Ao denunciar esta capitulação da razão perante os factos, Whitehead defendeu o regresso de um verdadeiro racionalismo, o qual se fundamenta na intuição imediata da racionalidade do mundo. Ora, esta ideia de que o mundo se encontra dominado por leis lógicas e pela harmonia estética não pode ser mostrada indutivamente ou demonstrada dedutivamente, porque ela resulta de uma intuição directa, cuja crença (belief) correspondente torna possível a ciência e a filosofia. O racionalismo proposto por Whitehead já não é o racionalismo clássico: o fundamento das coisas deve ser procurado na natureza dos entes reais determinados, porque lá onde não há ente não há fundamento. O regresso do concreto - o contacto com o concreto - é um tema comum às filosofias de Whitehead e de Husserl, para as quais a experiência que nos revela a verdade não se reduz ao conhecimento sensível. A crítica materialista da fenomenologia, em especial da teoria da intuição, foi realizada por Georg Lukács. O carácter empirista da metafísica de Whitehead revela-se no facto de ser descritiva: o filósofo explica o abstracto e descreve o concreto.
Whitehead tem razão quando afirma que o materialismo perdeu actualidade quando surgiram a teoria ondulatória da luz, a teoria atómica, a teoria da conservação da energia e a teoria evolucionista. Todas estas teorias descobriram factos que rompem com os marcos do materialismo. Porém, o golpe fatal que "matou" o materialismo foi-lhe dado pela teoria quântica, que, segundo Whitehead, exige uma concepção orgânica da própria matéria. A filosofia do organismo elaborada por Whitehead que culmina com uma teoria de Deus teve eco em Portugal na filosofia criacionista de Leonardo Coimbra. Ela reconhece os seguintes factos da experiência: a mudança, a duração (endurance), a interpenetração (interfusion), o valor, o organismo e os objectos eternos. E o seu principal argumento contra o materialismo continua a ser mais filosófico do que "quântico": o materialismo é definido como a doutrina que atribui realidade a uma abstracção cómoda e até mesmo fecunda no domínio da ciência, mas o corpo - tal como foi concebido por Galileu e Descartes - não existe. O conceito fundamental da filosofia da natureza de Whitehead é o de acontecer ou acontecimento (event), o qual abarca todos os outros conceitos, tais como os de mudança, persistência, interpenetração, valores, organismos e objectos eternos. (Os matemáticos e os físicos tendem a ser muito platónicos: há um mundo abstracto - o mundo das ideias - que priva Deus da sua liberdade infinita!) O mundo não é composto de coisas isoladas umas das outras, mas de acontecimentos ou daquilo que ocorre ou acontece (happens). Um corte temporal do acontecer é um caso (occasion). Todo acontecer é uma captação e um organismo. Uma captação porque apreende em si o universo inteiro. E um organismo porque as suas partes não se encontram justapostas mas formam um todo e o todo determina as partes. Daqui resulta que cada acontecer é, como a mónada de Leibniz, um espelho do universo. O acontecer é a unidade sintética do universo como captado ou apreendido e o mundo uma comunidade orgânica gigantesca em que tudo é influído por tudo e em que não existe uma única relação externa. (Usei o termo "acontecer" em vez de "acontecimento" para evitar introduzir cristalizações ou imobilidades num universo dinâmico!) As noções de espaço e de tempo usadas por Whitehead para mostrar o erro do materialismo - o espaço como abstracção das relações de interpenetração recíproca dos aconteceres e o tempo como abstracção das durações sucessivas dos aconteceres - aproximam a sua filosofia da filosofia vitalista de Bergson, embora rejeite o seu anti-intelectualismo. O contributo de Whitehead para a clarificação da filosofia da teoria quântica foi reconhecido por David Bohm: «A noção de que a realidade deve ser entendida como processo é muito antiga, remontando pelo menos a Heráclito, segundo o qual tudo flui. Em tempos mais modernos, Whitehead foi o primeiro a dar a essa noção um desenvolvimento sistemático e extensivo». O ponto de partida de Whitehead e de Bohm é o mesmo, a noção de realidade como processo, mas as implicações daí derivadas são diferentes: David Bohm elaborou uma teoria da ordem implicada, segundo a qual qualquer elemento contém, dobrado dentro de si, a totalidade do universo que inclui tanto a matéria como a consciência. Bohm é um físico que se notabilizou graças à teoria das variáveis ocultas. A sua primeira teoria foi elaborada em 1951 com base em ideias expostas em 1926 por Louis de Broglie. Segundo esta teoria, existe no espaço, além dos campos de forças, um potencial quântico, que, ao contrário desses campos de forças, não transporta energia e não pode ser detectado directamente. As partículas sofrem-lhe os efeitos e, de certo modo, servem-se dele para comunicar entre si. Assim, por exemplo, nas experiências sobre o paradoxo EPR, as duas partículas que se afastam uma da outra estão permanentemente ligadas por esse potencial quântico: a medição que efectuamos numa delas modifica instantaneamente o potencial que exerce influência na outra, e daí a correlação que observamos entre os resultados das medições. O potencial quântico é a variável oculta não local da teoria de Bohm, a qual também explica a experiência de Aspect e a experiência das fendas de Young. No entanto, a teoria de Bohm deixa de servir quando as partículas, animadas de uma velocidade próxima da luz, colidem entre si e dão origem a outras. Para explicar este último fenómeno, é necessário fazer intervir a teoria da relatividade de Einstein. A teoria de Bohm não foi conciliada com essa teoria: a explicação deste fenómeno é dada pela teoria quântica relativista de campo. (Bohm abdicou dos gravitões!) Mais tarde, em 1980, Bohm elaborou a sua teoria da ordem implicada, de resto já em gestação no tal potencial quântico: a noção básica é a de que a realidade mais profunda não é o espírito, nem a matéria, mas uma realidade de dimensão superior que lhes serve de base comum e na qual prevalece a ordem implicada, onde deixam de ter validade as noções de espaço e de tempo. Esta teoria tem o mérito de propor um novo modelo de realidade que se opõe à visão do mundo como algo fragmentado: a noção do mundo como totalidade adquire assim um novo estatuto científico. (A teoria estocástica de Edward Nelson permite conciliar a teoria da relatividade e a noção de potencial quântico.) A noção de acontecimento como espelho do universo - de Whitehead - traz consigo a noção de totalidade expressiva, a de Leibniz e a de Hegel, com a qual Marx rompeu. Não admira que a filosofia de Whitehead implique como seu coroamento uma teoria de Deus, isto é, uma teologia, que retém alguma coisa do materialismo da necessidade e da teleologia. Há, porém, uma outra noção de totalidade que rejeita as noções de Origem, Sujeito e Fim: o materialismo aleatório - esboçado por Althusser - convida-nos a pensar o mundo como processo sem sujeito. O materialismo aleatório afirma-se na sua diferença radical conquistando as posições e as linhas de defesa do adversário: o que quer dizer que, para elucidar a realidade quântica, deve confrontar-se com as teorias filosóficas rivais, desalojá-las e tomar posse dos seus territórios. A teoria quântica não pode rejeitar o conceito de potencial quântico por ser a criação arbitrária de uma nova entidade física, ao mesmo tempo que «namora» com um nada ideológico que é Deus (no sentido religioso do termo). Mas o materialismo aleatório também deve abrir-se à estranheza radical do mundo quântico: abertura mental deve ser a atitude dos filósofos e dos cientistas que trabalham nas últimas fronteiras do conhecimento, nas quais não é possível traçar uma linha de demarcação entre filosofia e ciência. Afinal, a última palavra não pertence a ninguém.
J Francisco Saraiva de Sousa
segunda-feira, 2 de julho de 2012
A Ditadura da Estupidez
A Europa e o mundo ocidental perderam o juízo. Há muitas formas de totalitarismo e uma delas é a perda do bom-senso. A democracia ocidental produziu nas últimas seis décadas uma sociedade inviável e, o que não deixa de ser sintomático, anti-democrática. A turba pseudo-democrática é totalitária: a ideologia nefasta dos direitos humanos produziu a ditadura da estupidez. Cada elemento da turba de cidadãos anónimos é um inquisidor. Vivemos numa sociedade inquisitorial, a pior sociedade alguma vez produzida pelos homens ao longo da sua história violenta. Platão já sabia que a democracia produz a sua própria destruição: o que ele não sabia é que a democracia banaliza o mal radical. Este é o momento oportuno para introduzir uma inflexão radical: os agentes ideais desta mudança radical devem estar para além da Direita e da Esquerda. Embora não seja um agente secreto, sou suficientemente inteligente para detectar por detrás dos sites mundiais de esquerda a presença de uma ideologia terrorista: as redes sociais são palcos de manobras obscuras, terrivelmente obscuras, algumas das quais abusam do bom nome de Karl Marx para promover o terrorismo. (E onde há x, há também y, o seu arqui-inimigo, que só se unem contra z, neste caso, a Alemanha!) As forças do bem tornaram-se impotentes perante a prepotência das forças do mal que capturaram as redes sociais. O Mal exterior e interior organizou-se para derrubar o ocidente. Se o ocidente não inflectir o seu rumo, será presa fácil das forças exteriores do mal que agem com a cumplicidade de uma população interior envelhecida, egoísta e terrivelmente inculta. Só vejo uma alternativa: a ditadura. E, quando só temos esta alternativa, já não podemos sonhar: o futuro foge do nosso controle. Eu tenho sido sincero quando digo que sou o filósofo da funda meia-noite: não há filosofia sem um público inteligente restrito. As sociedades ocidentais de hoje não são sociedades sem escola; são sociedades sem ensino e sem educação, são sociedades capturadas pela mediocridade, pela inveja e pela maldade. Infelizmente, estamos rodeados de carrascos que elegeram como inimigo a abater o pensamento independente. Uma sociedade envelhecida sem pensamento não tem futuro. O ocidente tal como o conhecemos não tem futuro. (A situação em Portugal é terrivelmente obscura. O povo português é, profundamente, estúpido, invejoso e maldoso; daí a sua incapacidade para produzir uma sociedade civilizada. Infelizmente, o 25 de Abril não produziu o efeito desejado; pelo contrário, banalizou a maldade radical do povo português. Tenho em mente uma geografia da maldade portuguesa, mas esta deixou de ser a minha luta. Portugal não é a pátria de seres inteligentes, Portugal é a pátria dos zombis anti-cognitivos e da sua brutalidade.)
J Francisco Saraiva de Sousa
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domingo, 6 de maio de 2012
União Europeia: a Nova União Soviética
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| União Europeia |
As pessoas que ontem criticavam a União Soviética são as que hoje reconstroem a União Soviética no espaço europeu. A União Europeia está cada vez mais semelhante à União Soviética, excepto no plano da qualidade do ensino: Bolonha desgraçou o ensino universitário. Os eurocratas são criaturas demasiado burras: eles vivem as suas vidas como se fossem os últimos homens. O Projecto Europeu tornou-se indefensável: ele é o suicídio do Ocidente Europeu. Os eurocratas e os gestores e políticos nacionais deviam ser condenados a viver com o salário mínimo. O governo português - a encarnação da maldade radical - só conseguirá legitimar a sua terrível política de empobrecimento quando os seus membros voltarem à escola para estudar como deve ser e souberem viver com o salário mínimo. É fácil decretar a pobreza dos outros, mas é mais difícil viver como esses outros empobrecidos à força da pseudo-fatalidade. Os membros do governo não são melhores do que os restantes portugueses; pelo contrário, são completamente inumanos e brutais: sejam coerentes uma vez na vida e vivam como os pobres que fabricam diariamente. Passos Coelho devia deixar os portugueses sorrirem como ele faz quando anuncia o crescimento galopante do desemprego. Pensando bem, os membros do governo devem ir todos para o desemprego. Quem deseja criar um país de pobres deve dar o exemplo: sejam coerentes uma vez na vida e vivam a pobreza resultante das vossas antipolíticas do desemprego e da vida precária. Afinal, um governo que planeia a pobreza é um gasto desnecessário, uma tremenda palermice, uma brutal perda de tempo. Política do empobrecimento é um oxímoro. Todos os economistas neoliberais portugueses que converteram a economia em "ciência da pobreza planeada" devem ser despedidos e condenados a viver com o subsídio social mais miserável e sem cuidados de saúde. A sua morte precoce seria uma bênção para Portugal: menos "gordura" de Estado, menos parasitas que falam a linguagem do grupo Jerónimo Martins, na expectativa de virem a receber ordenados pornográficos nesse e noutros grupos económicos e financeiros.
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sábado, 5 de maio de 2012
Questões Mortais
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| Porto: Casa da Música |
Lendo e relendo algumas obras de Bertrand Russell, fui reconduzido aos velhos problemas da Filosofia. Algumas soluções são tomadas como evidentes quando, na verdade, elas não chegam a ser verdadeiras soluções. Para já constato que a análise lógica dos problemas filosóficos cria mais dificuldades à sua resolução do que favorece a sua clarificação: a obra de Russell vacila constantemente e muda frequentemente de posição, como o demonstra a sua posição vacilante em relação aos universais. Russell não conseguiu produzir uma filosofia coerente tal como a que foi produzida por Whitehead. Não vejo nisso um fracasso: as suas vacilações são sintomáticas e, nalguns dos seus conceitos, descobre-se um outro horizonte que não chega a tematizar. É precisamente naquilo que Russell mostra sem tematizar que reside o início da solução para os problemas que coloca. E isto que não foi tematizado pela filosofia analítica revela-se no falhanço total da obra de Thomas Nagel. Porém, mesmo com o conhecimento desse horizonte eclipsado pela filosofia analítica, devo reconhecer que a Filosofia realizou uma abordagem errada da mente. (As neurociências herdaram esses erros!) O confronto das diversas filosofias mostra os erros cometidos pela Filosofia ao longo da sua história. Em vez de capitular diante do império ideológico da ciência empírica, a Filosofia deve retomar a crítica da ciência. Esta crítica não deve tomar a forma de crítica do positivismo, porque, como crítica do positivismo, não deixa de ser crítica filosófica de uma filosofia: os alvos da crítica devem ser os empreendimentos teóricos - as teorias, os paradigmas, os métodos, etc. - das próprias ciências. A filosofia matemática de Russell fornece instrumentos preciosos à crítica da ciência, conforme demonstrei em dois seminários, um dedicado às relações entre matemática e estatística e outro ao teorema de Bayes. Nunca ninguém escreveu uma obra sobre a filosofia contemporânea à luz da sua crítica da ciência, talvez com excepção da Dialéctica do Esclarecimento de Horkheimer e Adorno: John Dewey retomou o pragmatismo de William James, invertendo a sua doutrina que surgiu inicialmente como um protesto contra a sobrevalorização da técnica e das ciências da natureza. De protesto a doutrina de James passou a ser usada como apologia da concepção científico-materialista do mundo. O meu conceito de filosofia é demasiado "imperial" para fazer dela uma auxiliar da ciência: a crítica da ciência deve ser levada a cabo não tanto para ajudar a ciência a superar as suas dificuldades, mas sobretudo para nos ajudar a revelar o mundo. Estou convencido que, depois disso, já não poderemos ser materialistas ou realistas ingénuos: a memória está aí para mostrar o fracasso do programa reducionista e materialista. Mas, para alcançar uma nova visão do mundo, pelo menos uma visão mais lúcida do mundo, é necessário levar a cabo a crítica radical da ciência, até porque o idealismo não é uma filosofia absurda. O caminho será solitário porque, como tenho demostrado diversas vezes, vivemos num mundo despovoado de seres inteligentes e cultos: a mediocridade generalizada tomou conta de todas as esferas da sociedade e da cultura. A Filosofia confronta-se com a escassez não só de filósofos dignos deste nome como também de leitores inteligentes. A barbárie ameaça a cultura, confinando-a ao espaço das bibliotecas e fazendo dela cultura morta: o mundo pode terminar a qualquer momento sem que se tenha invertido a direcção da barbárie em marcha. O animal-homem - o animal humano metabolicamente reduzido - tornou-se um problema histórico e político.
J Francisco Saraiva de Sousa
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
Prós e Contras: Ensino Superior, Ciência e Investigação
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| Hospital de São João e Faculdade de Medicina da Universidade do Porto |
Os portugueses começam a discordar com o modelo competitivo de baixos salários que está a ser implementado por este governo de Direita Retrógrada: o planeamento da pobreza ameaça lançar Portugal na miséria do Estado Novo. Prós e Contras debateu (12 de Dezembro) o Ensino Superior, a Ciência e a Investigação, como aposta no futuro de Portugal. O Ministro da Educação e Ciência, Nuno Crato, apresentou a sua reforma da educação, em especial as linhas gerais da revisão da estrutura do ensino básico e secundário e a reestruturação da rede do ensino superior. No que se refere ao primeiro tópico, ficámos a saber que o ministro brindou o Português e a Matemática, a História e a Geografia com mais tempo curricular, com o objectivo de produzir jovens mais bem preparados para o ingresso na universidade. Nuno Crato considera que a cultura humanista é fundamental para as pessoas se orientarem na vida. Não vou esboçar uma história das humanidades, bastando dizer que o seu objecto principal é a própria condição humana. Mas vou mais longe para dizer que não só as ciências sociais e humanas como também as ciências da natureza devem reclamar a tradição das humanidades e incorporar-se nela: todas as ciências ocupam-se, de uma forma ou de outra, com a investigação da condição humana e do lugar do homem no mundo. A beleza da matemática, tão aplaudida por Lobo Antunes (Conselheiro de Estado), não é indiferente à condição humana, como mostrou Ana Bela Cruzeiro, investigadora portuguesa que estuda o campo das probabilidades e dos processos estocásticos. Escutando-a, fiquei com a impressão de que a matemática é, provavelmente, uma das ciências mais humanas - logo a seguir à Filosofia - do saber ocidental. O Ocidente que inventou a Filosofia e a Ciência, é hoje confrontado com a mundialização da sua ciência e da sua tecnologia: culturas estranhas ao espírito ocidental apoderaram-se delas, mas sem integrar e incorporar a sua tradição humanista. As mais importantes disciplinas das humanidades são a Filosofia e a História. Infelizmente, Nuno Crato privilegiou a História em detrimento da Filosofia, sem compreender que a pesquisa interdisciplinar implica necessariamente a intervenção crítica da Filosofia. A Filosofia construiu ao longo do tempo uma tradição crítica que moldou a matriz da civilização ocidental: anular a Filosofia implica abandonar essa tradição crítica, perder a nossa identidade cultural e praticar a ciência ao nível meramente instrumental das culturas que lhe são profundamente estranhas. A ciência praticada no Ocidente não pode perder a sua marca de origem: a tradição crítica que possibilitou o seu aparecimento. Nesta filiação originária, a ciência e a tecnologia ocidentais podem competir - de modo superior - com a ciência e a tecnologia praticadas nos espaços extra-ocidentais: a consciência como condição de liberdade é algo que marca a nossa diferença no mundo global. Os intelectuais ocidentais devem ligar organicamente a educação à libertação intelectual e política. Por isso, aprovo a intenção de reformular os currículos, de modo a eliminar o currículo oculto que destruiu a educação em Portugal: Nuno Crato foi peremptório quando afirmou que não deseja currículos fluídos; a sua intenção é introduzir currículos mais objectivos e mais exigentes, acompanhados pela avaliação rigorosa dos alunos e pela formação de professores competentes. Uma boa reforma curricular é já uma boa reforma da educação! Desejo que o ministro seja bem-sucedido nessa reforma curricular que visa introduzir rigor e exigência no ensino básico e secundário, libertando-o da tutela de professores incompetentes que - supostamente - aprenderam a ensinar sem, no entanto, saber o que ensinar aos alunos indisciplinados e mimados.
O tema que permitiu operar a transição da revisão da estrutura do ensino básico e secundário para o ensino superior foi a fusão entre a Universidade (Clássica) de Lisboa e a Universidade Técnica de Lisboa, cada uma das quais representada neste debate - moderado por Fátima Campos Ferreira - pelo seu reitor: António Nóvoa (UL) e António Cruz Serra (UTL). Segundo António Nóvoa, para quem a universidade deve ser uma instituição de mudança, mesmo em tempos de crise financeira e económica, a fusão que está a ser negociada entre as duas academias, visa fundamentalmente suprimir o fosso existente entre a Universidade Clássica e a Universidade Técnica de Lisboa, de modo a ganhar escala para conquistar massa crítica, escala ao nível da interdisciplinaridade dos saberes, ao nível da valorização económica e social do conhecimento e ao nível internacional, com intervenção privilegiada no espaço cultural dos países de língua portuguesa. António Cruz Serra reforçou esta perspectiva, destacando a competição inter-universitária, tanto a nível nacional como a nível internacional. Porém, lamentou o facto do país, em especial o governo, não estar a ajudar na tarefa de tornar as universidades portuguesas mais competitivas. A autonomia financeira e administrativa das universidades está a ser posta em questão pelo governo: os cortes cegos no financiamento das universidades - 20% de quebra do investimento público no ensino superior - podem afastar as universidades portuguesas da arena da competição internacional. As melhores universidades do mundo são aquelas que gozam de grande autonomia - autonomia essa que o governo de Passos Coelho quer cercear às universidades portuguesas. João Lobo Antunes que visitou as faculdades ligadas às ciências da vida, defendeu a fusão, alegando que ela permite criar uma universidade com escala e dimensão científica. Além disso, a fusão permite gerar projectos comuns de investigação, com ganho de massa crítica. Uma das áreas a promover nessa nova universidade urbana e internacional será, segundo Lobo Antunes, a área das ciências da vida, o grande desafio do século XXI. Quanto à medicina, Lobo Antunes disse que o grande pensamento será a ciência da translação (sic) da bancada para a cama do doente. A biomedicina lança um novo repto à educação médica: os alunos de medicina devem ser envolvidos na investigação interdisciplinar. De facto, urge introduzir a Filosofia, em especial a Filosofia Médica, no campo da biomedicina, isto é, das ciências biomédicas: a interdisciplinaridade, tão defendida neste debate, deve ser orgânica, tal como ocorreu entre a física e a matemática ou entre a física e a química ou mesmo entre a química e a biologia (biologia molecular), e não o resultado de uma mesa redonda. Althusser criticou isso quando denunciou os abusos da interdisciplinaridade na unificação artificial e externa de diversas áreas disciplinares do saber. Achei encantador o facto de Lobo Antunes ter retomado o velho conceito de ciências da vida, tão do agrado de Georges Canguilhem que esboçou a sua história científica. Fernando Ulrich (Presidente do Conselho Geral da Universidade do Algarve) desmentiu Fátima Campos Ferreira quando esta lhe atribuiu a seguinte afirmação: «A universidade formou canudos sem competências». Na presença de tantos professores universitários, Fernando Ulrich fez um balanço positivo das universidades portuguesas, como se o problema da educação portuguesa residisse mais no ensino básico e secundário do que no ensino superior. Porém, Fernando Ulrich esqueceu que os professores do ensino básico e secundário são formados - ou deformados? - no e pelo ensino superior, o que não abona a favor da sua qualidade. Da sua participação retenho as falas proferidas enquanto empregador no sector bancário: Fernando Ulrich quer - ou diz empregar - pessoas dotadas de conhecimentos e de métodos-hábitos de trabalho, capazes de enfrentar problemas - pensá-los, interpretá-los e solucioná-los de modo criativo - e de trabalhar em equipa. Enfim, um conjunto de competências que todos nós admiramos nas pessoas que trabalham connosco. Será que o ensino superior português fornece esse conjunto de competências aos portugueses?
Com esta questão, voltamos ao discurso de Nuno Crato. De modo a responder a algumas críticas dirigidas ao governo, Nuno Crato acentuou ser necessário um esforço para racionalizar os meios e produzir excelência. Além disso, afirmou respeitar e prezar a autonomia universitária - sobretudo a sua capacidade de criar e gerir os seus próprios fundos, como sucede na escola de economia e gestão, representada neste debate por Fátima Barros (Universidade Católica de Lisboa) - reclamada por António Cruz Serra, sem responder directamente à sua proposta de reorganizar o sistema de ensino superior e de financiar de forma diferenciada aquilo que é diferente ou que produz resultados desiguais, premiando as instituições universitárias que produzem melhores resultados. No domínio da ciência e da investigação científica, Nuno Crato elogiou os seus progressos tremendos, prestando homenagem aos anteriores ministros por terem incentivado projectos sustentados ao longo dos anos e contribuído para a sedução pela ciência entre os jovens portugueses. Apesar do dinheiro não ser infinito, Nuno Crato mostrou-se empenhado na tarefa de internacionalizar a ciência que se faz em Portugal: a ciência "portuguesa" deve sair da sua paróquia para entrar no território universal da ciência que se faz no mundo. Mas, para que isso aconteça em maior escala, é necessário aprender, avaliar, apostar na qualidade do ensino e da investigação nacional, cooperar e concentrar esforços. Continuidade na mudança? Nuno Crato não quer que as estatísticas deformem a realidade: o seu desejo é que as estatísticas reflictam fielmente uma realidade em mudança no sentido da qualificação real - e diferencial - dos portugueses. Por fim, acabou por esboçar uma resposta à questão relativa à reestruturação da rede do ensino superior, de resto exemplificada pela tentativa em curso de fusão das duas universidades de Lisboa. Para Nuno Crato, as universidades portuguesas devem pensar na oferta formativa e tentar - em cooperação - racionalizá-la. A palavra de ordem lançada pelo ministro foi a racionalização da rede de oferta. Esta tarefa de redimensionar a rede de ensino superior vai começar em 2012. Nuno Crato terminou o debate, fazendo uma única promessa: «Concentrar-se no essencial, apostando na excelência». Infelizmente, não posso aprofundar algumas ideias ventiladas pelos participantes neste debate, cujo desenvolvimento se encarregou do seu próprio eclipse. Espero que o sadismo das finanças não roube a palavra ao ministro da educação e ciência, submetendo a sua tutela a uma política economista restritiva!
J Francisco Saraiva de Sousa
terça-feira, 29 de novembro de 2011
Prós e Contras: Revolução nos Transportes
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| Via de cintura interna, Porto |
Ontem estive mais interessado em acompanhar as notícias sobre os últimos acontecimentos incendiários do futebol do que em escutar o debate Prós e Contras (28 de Novembro), cujo título não faz sentido. Chamar revolução ao plano estratégico do governo que visa racionalizar o sector público dos transportes, suprimindo algumas linhas e carreiras, é esvaziar o conceito de revolução do seu sentido teórico. O governo utiliza o termo racionalização para justificar o sentido retrógrado das medidas que toma: racionalização como sinónimo de cortes precipitados nas despesas públicas e, portanto, de empobrecimento planeado, é uma noção absolutamente estranha ao próprio conceito. Na história da Filosofia, a racionalização nunca foi usada para designar empobrecimento planeado. Quando começa a filosofar, o governo improvisa uma "filosofia" que não encontra precedente na Filosofia Ocidental: o que quer dizer que este governo se situa fora dos horizontes ocidentais. Mas nós que somos ocidentais sabemos que o governo de Passos Coelho utiliza a racionalidade instrumental que lhe foi imposta do exterior para implementar políticas recessivas, cujo efeito final será a liquidação da economia portuguesa, um processo que já tinha sido iniciado por anteriores governos quando adoptaram o programa de desindustrialização. O governo só tem um objectivo: cumprir o memorando da troika. As políticas que adopta visam - todas elas - garantir esse cumprimento: o fim aceite sem discussão justifica os meios, o fim tornado fetiche implica o suicídio nacional. A "filosofia" do governo é mais oriental do que ocidental, o que quer dizer que este governo, vindo não se sabe de onde, não tem filosofia, isto é, não tem uma perspectiva de crescimento económico e cultural. É certo que Portugal precisa de pagar as dívidas que contraiu ao longo destas duas décadas de deslumbramento, mas o cumprimento do memorando da troika não liberta o seu futuro. Se tivesse uma concepção mais enfática da racionalização, o governo já teria compreendido que as políticas sectoriais só fazem sentido quando inseridas nos quadros de um plano de desenvolvimento estratégico, na ausência do qual são políticas irracionais no sentido de deixarem o país pior do que já está. Um governo que assume o empobrecimento como fim último das suas políticas não é - verdadeiramente - um governo: é um anti-governo que encarna a figura do anti-humano.
Sérgio Monteiro (Secretário de Estado das Obras Públicas) disse que Portugal não tem dinheiro para alimentar as "gorduras" das empresas de transportes públicos. Mas, depois de ter escutado as linhas gerais do seu plano estratégico para os transportes públicos, fiquei sem saber o que são as "gorduras". Paulo Campos (ex-Secretário de Estado) que, pelo que escutei, não merece grande credibilidade, pregou-lhe no final uma finta quando o confrontou com as incongruências do PSD, que antes de ser governo prometia uma coisa, e agora que é governo executa o contrário daquilo que tinha prometido para ganhar as eleições: o novo aeroporto e o TGV não foram abandonados pelo governo. Paradoxalmente, o governo de Passos Coelho comporta-se como o governo de José Sócrates, ou melhor, parece ser a sua versão em miniatura. A ambiguidade de Sérgio Monteiro em relação à construção da linha de Metro do Mondego deixou-me desconcertado. Em momentos cruciais, o governo esquece a austeridade vestida com as roupas da racionalização da pobreza e segue o interesse eleitoral, lembrando a sua filiação social-democrata. Mas a minha perplexidade não foi gerada apenas pelo diálogo entre Sérgio Monteiro e Paulo Campos: os convidados da plateia, entre os quais muitos autarcas, usaram arbitrariamente noções gerais - tais como coesão territorial, coesão social e mobilidade - para garantir a continuidade da própria irracionalidade que nos conduziu à bancarrota. Sérgio Monteiro perdeu a oportunidade para denunciar a irracionalidade vigente: cada "autarca" quer um aeroporto, uma linha de comboio, uma auto-estrada, enfim qualquer coisa móvel, na sua cidade ou vila. A mentalidade do investimento improdutivo - o investimento que endivida sem criar riqueza - continua a estar presente no imaginário político nacional. Muitos dos "exemplos" apresentados pelos autarcas são "gorduras" que devem ser liquidadas de raiz, mas Sérgio Monteiro silenciou a sua voz, deixando Paulo Campos sorrir de satisfação deslumbrada. Ora, este silêncio de Sérgio Monteiro é sintomático: o governo não tem uma visão de conjunto de Portugal e, na ausência dessa visão tão necessária para elaborar um plano de desenvolvimento estratégico, é incapaz de justificar as suas políticas sectoriais. Desgraçadamente, o governo está a perder a oportunidade de operar o salto qualitativo de Portugal, fintando o memorando da troika ao inserir as medidas de racionalização num projecto de crescimento económico e cultural. A execução do memorando da troika sem um projecto de desenvolvimento económico e cultural é um suicídio colectivo. O governo alega que não tem espaço de manobra e tempo para elaborar esse projecto, mas nenhum destes argumentos me convence. Eu penso que é possível cumprir inteligente e criticamente o memorando da troika sem sacrificar a economia e a cultura: o sector dos transportes públicos abre outras vias para além da execução cega, desde que o governo saiba dissolver o abuso ideológico das noções de coesão territorial e social e de mobilidade, eliminando o que não é rentável, rentabilizando aquilo que já é ou pode ser rentável e deixando as regiões desenvolvidas seguir os seus rumos sem as sacrificar nos altares lunáticos das regiões pobres. Se o governo tiver uma filosofia, o futuro não será necessariamente recessivo: os cortes podem ser realizados de modo a promover o desenvolvimento diferenciado do país. Portugal não precisa de mais áreas metropolitanas: as duas - Lisboa e Porto - que tem são suficientes para garantir o desenvolvimento nacional, desde que não sejam sacrificadas para alimentar os sonhos igualitários de regiões que precisam de implementar outros modelos diferenciais de desenvolvimento. A regionalização é necessária para barrar o lunatismo dos autarcas. Mais não digo para não gerar mais "inimigos", embora saiba o que é necessário fazer para arrancar Portugal desta situação de apuro: há, efectivamente, uma concepção de racionalidade amiga do crescimento económico e do desenvolvimento cultural.
J Francisco Saraiva de Sousa
Sérgio Monteiro (Secretário de Estado das Obras Públicas) disse que Portugal não tem dinheiro para alimentar as "gorduras" das empresas de transportes públicos. Mas, depois de ter escutado as linhas gerais do seu plano estratégico para os transportes públicos, fiquei sem saber o que são as "gorduras". Paulo Campos (ex-Secretário de Estado) que, pelo que escutei, não merece grande credibilidade, pregou-lhe no final uma finta quando o confrontou com as incongruências do PSD, que antes de ser governo prometia uma coisa, e agora que é governo executa o contrário daquilo que tinha prometido para ganhar as eleições: o novo aeroporto e o TGV não foram abandonados pelo governo. Paradoxalmente, o governo de Passos Coelho comporta-se como o governo de José Sócrates, ou melhor, parece ser a sua versão em miniatura. A ambiguidade de Sérgio Monteiro em relação à construção da linha de Metro do Mondego deixou-me desconcertado. Em momentos cruciais, o governo esquece a austeridade vestida com as roupas da racionalização da pobreza e segue o interesse eleitoral, lembrando a sua filiação social-democrata. Mas a minha perplexidade não foi gerada apenas pelo diálogo entre Sérgio Monteiro e Paulo Campos: os convidados da plateia, entre os quais muitos autarcas, usaram arbitrariamente noções gerais - tais como coesão territorial, coesão social e mobilidade - para garantir a continuidade da própria irracionalidade que nos conduziu à bancarrota. Sérgio Monteiro perdeu a oportunidade para denunciar a irracionalidade vigente: cada "autarca" quer um aeroporto, uma linha de comboio, uma auto-estrada, enfim qualquer coisa móvel, na sua cidade ou vila. A mentalidade do investimento improdutivo - o investimento que endivida sem criar riqueza - continua a estar presente no imaginário político nacional. Muitos dos "exemplos" apresentados pelos autarcas são "gorduras" que devem ser liquidadas de raiz, mas Sérgio Monteiro silenciou a sua voz, deixando Paulo Campos sorrir de satisfação deslumbrada. Ora, este silêncio de Sérgio Monteiro é sintomático: o governo não tem uma visão de conjunto de Portugal e, na ausência dessa visão tão necessária para elaborar um plano de desenvolvimento estratégico, é incapaz de justificar as suas políticas sectoriais. Desgraçadamente, o governo está a perder a oportunidade de operar o salto qualitativo de Portugal, fintando o memorando da troika ao inserir as medidas de racionalização num projecto de crescimento económico e cultural. A execução do memorando da troika sem um projecto de desenvolvimento económico e cultural é um suicídio colectivo. O governo alega que não tem espaço de manobra e tempo para elaborar esse projecto, mas nenhum destes argumentos me convence. Eu penso que é possível cumprir inteligente e criticamente o memorando da troika sem sacrificar a economia e a cultura: o sector dos transportes públicos abre outras vias para além da execução cega, desde que o governo saiba dissolver o abuso ideológico das noções de coesão territorial e social e de mobilidade, eliminando o que não é rentável, rentabilizando aquilo que já é ou pode ser rentável e deixando as regiões desenvolvidas seguir os seus rumos sem as sacrificar nos altares lunáticos das regiões pobres. Se o governo tiver uma filosofia, o futuro não será necessariamente recessivo: os cortes podem ser realizados de modo a promover o desenvolvimento diferenciado do país. Portugal não precisa de mais áreas metropolitanas: as duas - Lisboa e Porto - que tem são suficientes para garantir o desenvolvimento nacional, desde que não sejam sacrificadas para alimentar os sonhos igualitários de regiões que precisam de implementar outros modelos diferenciais de desenvolvimento. A regionalização é necessária para barrar o lunatismo dos autarcas. Mais não digo para não gerar mais "inimigos", embora saiba o que é necessário fazer para arrancar Portugal desta situação de apuro: há, efectivamente, uma concepção de racionalidade amiga do crescimento económico e do desenvolvimento cultural.
J Francisco Saraiva de Sousa
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sexta-feira, 4 de novembro de 2011
João Ameal: Notícia sobre a História de Portugal
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| João Ameal (1902-1982): Historiador Português |
«Quanto a nós, a História não é apenas ciência, arte ou ética; é, ao mesmo tempo, as três coisas - e ainda qualquer coisa mais. /A História é vida - tal o axioma inicial a propor. E não apenas vida dos outros - de outros tempos, de outros seres - mas a nossa vida, antes de nós. Longe está de abraçar o próprio destino quem julgue que a sua história terrena começa no nascimento e acaba na morte. A nossa história é toda a História. A história dos homens é a História do Homem - e a história de cada homem. Em cada homem, está, por isso, a História inteira - que colaborou na sua formação e veio até ele como impulso que nele se resolve e condensa. A História nos fez; agora, somos nós que a fazemos. Escrever a História é buscar-nos, compreender-nos, definir-nos, sentir-nos solidários de um imenso movimento que nos inclui e nos leva. Nada mais vivo, sem dúvida, visto ser aquilo que em nós é anterior a nós e que nos sobreviverá. /Uma ciência? Uma arte? Uma ética? Tudo isso, e mais que tudo isso. Se nos pedissem que arriscássemos uma definição, sugeríamos esta: a História constitui, para o verdadeiro historiador, - um exame de consciência.» (João Ameal)
Finalmente, resolvi ler a História de Portugal de João Ameal, publicada pela primeira vez em 1941. João Ameal tem uma vasta obra publicada, mas, talvez por causa das suas opções políticas - um monárquico que caminhou durante algum tempo ao lado de Salazar, essa obra caiu no esquecimento. Filosoficamente, João Ameal é um pensador profundamente reaccionário, como testemunham as suas obras dedicadas ao tomismo. No entanto, apesar de ser uma figura anacrónica do pensamento contemporâneo, resultado mais do voluntarismo tão típico dos vigaristas portugueses do que de uma sólida formação teórica, a sua obra merece ser lida, até porque está bem escrita. A História de Portugal de João Ameal é, como seria de esperar, uma história política. Em Portugal, um país pouco dado ao pensamento filosófico e científico, os historiadores manifestam uma clara preferência pela história política. Esta preferência justifica-se por um traço fatal do carácter nacional: o português gosta de opinar e de bisbilhotar a vida alheia sem fazer uso do pensamento disciplinado pelo conceito e pela matriz teórica a que pertence. A história política permite à personalidade nacional manifestar livremente esta sua aversão ao pensamento conceptual, de modo a satisfazer o seu impulso bisbilhoteiro, o qual é profundamente malévolo. A mediocridade visceral faz de cada português um carrasco maldito que procura o sentido da sua vida dizendo mal dos outros e das suas obras. O português típico é, geneticamente, avesso à modernização de Portugal: onde há um português típico há um malvado. A maldição de Portugal está ligada a este vasto sector de portugueses típicos, cuja inveja - alimentada pela miséria mental - paralisa o desenvolvimento do país: quer dizer que a maldição de Portugal são os próprios portugueses, cujos cérebros constrangidos por um envelope genético contendo genes arcaicos são responsáveis pelo atraso estrutural nacional. Não adianta iludir a realidade: o arcaísmo mental dos portugueses é um traço genético complexo, cuja manifestação comportamental tende a agravar-se quando se suaviza o mecanismo de punição capaz de suster os seus efeitos malévolos. O temperamento nacional - o conjunto de traços determinados pela genes - implica necessariamente um regime musculado para o domesticar, de modo a tornar a vida social possível. O fracasso consecutivo do sistema de educação não nos permite saber se esse traço arcaico nacional pode ser mitigado pela acção de factores culturais: o que sabemos é que a democracia não consegue enraizar-se em Portugal. Em Portugal, a democracia é uma experiência falhada. (Posso corroborar esta hipótese biológica através do estudo exaustivo de um sector particular da população portuguesa: a comunidade homossexual cujos comportamentos exibidos resultam dessa patologia nacional que se agrava com o envelhecimento. O culto do corpo musculado estabeleceu uma ponte entre os homens heterossexuais e homossexuais portugueses, dando origem ao aparecimento de uma cloaca comportamental que investiguei exaustivamente: o défice de masculinidade tornou-se evidente e anda associado a défices mentais preocupantes.)
A História de Portugal de João Ameal é uma obra volumosa (846 páginas) que esboça a história política da família portuguesa (sic), «sob a égide daquilo que é a primeira verdade histórica de Portugal: a fé em Cristo e o serviço da Sua Doutrina». Não pretendo realizar aqui uma reflexão filosófica em torno da problemática teórica da história política, tal como foi praticada por Seignobos e Lavisse, cujos traços condenados por Marc Bloch e Lucien Febvre foram sintetizados por Jacques Julliard nestes termos: «A história política é psicológica e ignora condicionalismos; é elitista, biográfica mesmo, e ignora a sociedade global e as massas que a compõem; é qualitativa e ignora o serial; visa o particular e ignora a comparação; é narrativa e ignora a análise; é idealista e ignora o material; é ideológica e não tem disso consciência; é parcial e não sabe que o é; atém-se ao consciente e ignora o inconsciente; é pontual e ignora o longo prazo; numa palavra, porque esta palavra resume tudo na gíria dos historiadores, é factual. Enfim, a história política confunde-se com a visão ingénua das coisas, visão que atribui a causa dos fenómenos ao seu agente mais evidente, mais elevado na escala, e que avalia a sua importância real de acordo com a repercussão na consciência imediata do espectador». Bem sei que o propósito de Julliard é reabilitar a história política, livrando-a da má fama que desfrutava entre os novos historiadores, mas a sua súmula é suficiente para denunciar o carácter factual, isto é, ideológico, da História de Portugal de João Ameal, a qual diz observar «as justas proporções entre os vários períodos e as várias figuras». É uma moda francesa a de atribuir aos autores franceses aquilo que foi realizado por autores alemães: quem destronou a história política como história dos vencedores foi Karl Marx, cujo conceito de modo de produção como estrutura global a-dominante permite pensar a autonomia relativa das suas estruturas regionais, de modo a possibilitar a história de cada uma delas. Mas o que pretendo destacar aqui é a necessidade de revisitar a polémica em torno da história política, porque a história política da família portuguesa de João Ameal não se confunde com a "visão ingénua das coisas": o que está em questão é precisamente o conceito de ideologia que, ao contrário do que parece pensar Julliard, talvez na peugada dos primeiros escritos de Althusser contra o "vivido" da fenomenologia, de ingénua não tem nada. Formulo, portanto, a seguinte tese negativa: a ideologia nunca é uma visão ingénua das coisas. (Ou seja: Se há ingenuidade no fenómeno ideológico, ela não se situa na produção mas antes na recepção dos produtos ideológicos. Quase sou tentado a dizer: os membros pouco instruídos da humanidade são seres humanos incompletos. Regresso ao século XVIII? Reparem que me movo mais no campo dos modos de ser, ver e ler do que no campo das intenções!) A leitura crítica da História de Portugal de João Ameal permite não só explicitar esta tese, com recurso à empiria, como também definir a ideologia que opera a ligação imaginária entre os "factos seleccionados", de modo a fazer a apologia da história dos vencedores portugueses movidos pela fé em Cristo. O portuguesismo que Ameal defende é o resultado infértil de uma cópula fatal entre política e religião. A ideologia - inscrita desde logo na materialidade das práticas sociais e das suas cristalizações institucionais - produz efeitos práticos, neste caso produziu uma sociedade bloqueada.
J Francisco Saraiva de Sousa
A História de Portugal de João Ameal é uma obra volumosa (846 páginas) que esboça a história política da família portuguesa (sic), «sob a égide daquilo que é a primeira verdade histórica de Portugal: a fé em Cristo e o serviço da Sua Doutrina». Não pretendo realizar aqui uma reflexão filosófica em torno da problemática teórica da história política, tal como foi praticada por Seignobos e Lavisse, cujos traços condenados por Marc Bloch e Lucien Febvre foram sintetizados por Jacques Julliard nestes termos: «A história política é psicológica e ignora condicionalismos; é elitista, biográfica mesmo, e ignora a sociedade global e as massas que a compõem; é qualitativa e ignora o serial; visa o particular e ignora a comparação; é narrativa e ignora a análise; é idealista e ignora o material; é ideológica e não tem disso consciência; é parcial e não sabe que o é; atém-se ao consciente e ignora o inconsciente; é pontual e ignora o longo prazo; numa palavra, porque esta palavra resume tudo na gíria dos historiadores, é factual. Enfim, a história política confunde-se com a visão ingénua das coisas, visão que atribui a causa dos fenómenos ao seu agente mais evidente, mais elevado na escala, e que avalia a sua importância real de acordo com a repercussão na consciência imediata do espectador». Bem sei que o propósito de Julliard é reabilitar a história política, livrando-a da má fama que desfrutava entre os novos historiadores, mas a sua súmula é suficiente para denunciar o carácter factual, isto é, ideológico, da História de Portugal de João Ameal, a qual diz observar «as justas proporções entre os vários períodos e as várias figuras». É uma moda francesa a de atribuir aos autores franceses aquilo que foi realizado por autores alemães: quem destronou a história política como história dos vencedores foi Karl Marx, cujo conceito de modo de produção como estrutura global a-dominante permite pensar a autonomia relativa das suas estruturas regionais, de modo a possibilitar a história de cada uma delas. Mas o que pretendo destacar aqui é a necessidade de revisitar a polémica em torno da história política, porque a história política da família portuguesa de João Ameal não se confunde com a "visão ingénua das coisas": o que está em questão é precisamente o conceito de ideologia que, ao contrário do que parece pensar Julliard, talvez na peugada dos primeiros escritos de Althusser contra o "vivido" da fenomenologia, de ingénua não tem nada. Formulo, portanto, a seguinte tese negativa: a ideologia nunca é uma visão ingénua das coisas. (Ou seja: Se há ingenuidade no fenómeno ideológico, ela não se situa na produção mas antes na recepção dos produtos ideológicos. Quase sou tentado a dizer: os membros pouco instruídos da humanidade são seres humanos incompletos. Regresso ao século XVIII? Reparem que me movo mais no campo dos modos de ser, ver e ler do que no campo das intenções!) A leitura crítica da História de Portugal de João Ameal permite não só explicitar esta tese, com recurso à empiria, como também definir a ideologia que opera a ligação imaginária entre os "factos seleccionados", de modo a fazer a apologia da história dos vencedores portugueses movidos pela fé em Cristo. O portuguesismo que Ameal defende é o resultado infértil de uma cópula fatal entre política e religião. A ideologia - inscrita desde logo na materialidade das práticas sociais e das suas cristalizações institucionais - produz efeitos práticos, neste caso produziu uma sociedade bloqueada.
J Francisco Saraiva de Sousa
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
Uma questão do avaliador consigo mesmo ou...
Na minha Escola, a Avaliação docente revelou a existência de uma comunidade científica, pedagógica e cultural que eu desconhecia totalmente, mas o problema será meu, que já faço parte da mobília, ficando muito feliz, pois (aqui integrado) posso aprender muito. Como disse um dia Agustina, «a cidade em que vivemos é a que pior conhecemos». As línguas da sogra (que más as há sempre) dizem que se distribuiu a excelência por todos, mas agora já sou eu a dizer: num concurso entre relatores mamãs-coruja a ver qual deles dizia melhor da sua «linda» cria. Outros colegas usaram (por outras palavras) metáforas de um banquete de leões famintos, outros (por outras) de um concurso de Cantares provincianos, em que ganham sempre os filhos da terra, outros (ainda por mais outras) de um torneio de chicos espertos, jogando ao burro.
Pesoalmente, gostaria mais de ver citado o poema de Mário Cesariny
"Pastelaria":
Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura
Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio
Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante
Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício
Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola
Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come
Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!
Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir de tudo
No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra.
Decerto haverá outras Escolas de excelência, como a minha, em que notas de 9,5 (num tecto de 10) fizeram cair em Bom o avaliando, o que nos deveria a todos entristecer, pois trata-se de um «professor de referência» (na minha escola, há cerca de 50 professores desta categoria ímpar, mais os outros que não tiveram aulas assistidas, entendida aquela restritivamente num jogo de pares, de mim para ti). Uma vez mais, admito que o problema seja meu, pois não acredito freudianamente na excelência da classe (como se sabe para Freud, havia três impossibilidades: a de Pai, e os outros iguais: professor e presidente, salvo erro). Acho que todos nós somos humanos e nos devemos sempre cultivar, estabelecendo obras novas e abertas com os alunos, que nos vão sendo diferentes. Embora cada vez mais o meu maior prazer vá de mim para com os livros que a mim tornam. Coisas da idade...
Esta avaliação, no terreno, revelou aquilo que há de mais profundamente nosso, nesta adaptação livre do grego, da fábula da águia e da coruja de Esopo. Dispensando a águia, esta avaliação relevar-se-ia uma questão do relator consigo mesmo, dependente do seu livre arbítrio de mamã-coruja, de uma cegueira da razão (total, nalguns casos de avaliação em 10 ou valor aproximado, assim se demitindo de avaliar). Uma demissão seguida de outra, já que a comissão de avaliação de desempenho também se demitira do seu papel, sem fazer o trabalho de casa: não regulamentou a montante, apenas podendo, a jusante, cumprir uma espécie de lava-mãos de Pilatos, no Evangelho de S. Mateus.
Justiça cega, sem orientação no meio do caos que permitiu instalado.
Vitorino Almeida Ventura (Professor e autor do texto que publico a seu pedido.)
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
Platão, Roca da Necessidade e Consciência Moral
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| Destino |
«O célebre mito de Er, o homem que passou doze dias no Hades e que, não tendo bebido a água do rio Ameles (despreocupação) na planície do Letes (esquecimento), pode contar a grande viagem, contém uma nova tentativa de escatologia. Aí se encontram intimamente ligadas uma escatologia, aliás bem obscura, e uma teoria do destino humano. Na primeira, fala-se duma coluna de luz que atravessa o Céu e a Terra, e que liga os dois pólos, provavelmente o eixo do mundo; depois, da roca da necessidade, com a sua haste, o seu peso, por meio do qual se fazem todas as revoluções celestes; finalmente, da constituição desse peso, formado por oito botões, de dimensões e de cores diferentes, encaixados uns nos outros, não participando com igual velocidade do movimento da roca, dando cada qual uma nota diferente, e que representam, supondo-se a Terra no centro, o céu dos fixos, os cinco grandes planetas, e finalmente o Sol e a Lua. O que, além disso, há de mais interessante na escatologia propriamente dita é a concepção da predestinação das almas. Estas, em virtude do código penal que lhes é próprio, são admitidas de mil em mil anos, salvo o caso de faltas que exijam mais longa expiação, à escolha duma nova vida terrestre. Exemplares de vida, condições animais ou condições humanas, são postos diante delas, e o destino fixa para cada uma a categoria em que poderá escolher. Mas, como o número de lotes é superior ao das almas, a última não é gravemente lesada. É-lhes dito que cada uma tem a responsabilidade da sua escolha, e que Deus não intervém para nada, que cada uma delas terá, para a conduzir na vida, o demónio que a si própria terá dado. Enquanto expiavam as faltas da sua existência anterior, as almas não tinham esquecido esta. Estes antigos réprobos são, pois, prudentes na sua nova escolha. Mas, entre os bem-aventurados, aqueles que devem a sua felicidade, não à filosofia mas àquelas virtudes de acaso de que falava o Ménon, escolhem muitas vezes sem reflectir, e escolhem mal. Cada alma, feita a escolha, pode ler o seu destino inteiro, e esse destino é irrevogável, por estar ligado ao próprio movimento dos astros. Porque as Parcas são filhas da Necessidade: Láquesis, que preside à opção dos destinos; Cloto, que os fia; Átropos, que os sanciona, têm um papel no mecanismo das revoluções celestes. De resto, a passagem de cada alma, com o seu demónio guardião, sob o trono da Necessidade, indica suficientemente que nada mais lhe resta de ora avante senão sofrer sem apelo possível as consequências da escolha que fez antes de entrar na vida. Se escolheu mal, o seu único recurso será então, segundo parece, aprender com o filósofo a comportar-se bem perante o seu destino presente, e a ser capaz, quando essa hora voltar, de fazer melhor escolha.» (Léon Robin)
«Não esperes jamais permanecer oculto quando cometeres qualquer acção desonesta; pois ainda que pudesses ocultar-te aos demais, terias em ti próprio a consciência da tua culpa». (Pseudo-Isócrates)
Tenho sido acusado pelas mentes preguiçosas de estar a operar uma espécie de viragem conservadora na teoria crítica. Os indivíduos que me acusam de estar ideologicamente mais próximo de Paulo Portas do que de Karl Marx não sabem - tal é o imenso tamanho da sua ignorância diplomada! - que essa viragem conservadora da teoria crítica já foi realizada há muito tempo por Walter Benjamin. Escusado será dizer que os meus acusadores tendem a ser professores, estas estranhas criaturas que, tendo saído da universidade tal como tinham entrado, sem aprender nada de novo, se demitiram da sua missão de ensinar e de educar, abolindo do seu pobre vocabulário a palavra "castigo" para não estorvar a sua sede vampírica pela remuneração que lhes permite fazer viagens de fantasia sexual. O sistema de educação tem contribuído para o aumento da despesa pública sem no entanto produzir resultados positivos: a situação dos professores está mais próxima da situação dos juízes e dos magistrados públicos do que da situação dos profissionais da saúde. Pelos maus resultados que produzem, os professores não merecem o investimento que tem sido realizado na educação e na sua formação: a educação é um enorme buraco negro sem desculpa e sem justificação possível. Enquanto os médicos prestam excelentes cuidados de saúde, os professores e os magistrados destruíram completamente o sistema de educação e o sistema de justiça. Depois do 25 de Abril melhorámos substancialmente o sistema de saúde, mas o mesmo não pode ser dito em relação à educação e à justiça, os dois grandes fracassos da III República. A educação é um fracasso total e os seus agentes devem ser responsabilizados por esse fracasso: os professores não merecem o pão que comem, a água que bebem e o ar que respiram. Os professores são culpados pela degradação acelerada do sistema de ensino e de educação. Não adianta tentarem justificar o injustificável: o fracasso da educação denuncia a vossa culpa essencial e identifica-vos como pecadores que aboliram semanticamente o castigo para não serem castigados pelo vosso crime: a liquidação da cultura superior e da sua transmissão às novas gerações. Se ser conservador é ser guardador de lugar do conhecimento superior, então aceito o rótulo que me fixaram: sou conservador cultural. Mas isso não implica que tenha rompido com o pensamento político de Esquerda que desejo libertar da vossa presença medíocre.
A propósito da culpa dos professores portugueses pela destruição da educação e da cultura, acabei por actualizar a teoria platónica da consciência moral. Platão desenvolveu a sua teoria em diversas obras, das quais destaco a que mais me interessa aqui - A República, cujo livro X expõe o mito de Er. A teoria da consciência moral de Platão compreende a consciência do pecado como perturbação interior da alma e a noção de infelicidade incurável do malvado que ousa obter no presente os seus maiores triunfos. Hoje, neste nosso tempo indigente e malvado, ninguém quer ouvir falar de pecado e de castigos: os malvados - nossos contemporâneos - retiveram de Platão apenas a sua noção de felicidade, dando-lhe um outro sentido que não se coaduna com o seu sentido originário. A preocupação pelo destino de além-túmulo está presente n'A República: a alma do mortal desperta para esta preocupação quando se aproxima do término da sua vida. Esta preocupação pela morte adquire o aspecto de terror ou de serenidade conforme a alma tenha consciência dos seus pecados ou das suas boas acções: as almas malvadas dos pecadores temem os tormentos infernais a que serão condenadas eternamente depois de mortas para a vida. Mas os terrores infernais só nos interessam enquanto estão ligados à consciência do pecado que leva os que pensam na morte a efectuar o seu exame de consciência. O mito de Er gira - quase todo ele - em torno da concepção da consciência de pecado como condenação interior e tormento da alma na vida presente: a consciência da responsabilidade apodera-se da alma daqueles mortais que temem a vida de além-túmulo. As almas que devem reencarnar são conduzidas à presença de Láquesis, filha de Ananke (Necessidade), que tem sobre os joelhos as sortes e os paradigmas das diversas formas de vida. Cada alma deve escolher livremente o seu exemplar de vida, tendo consciência da sua responsabilidade. O profeta que as dispõe por ordem e que apresenta os modelos de vida às almas para que escolham, adverte-as sobre a sua responsabilidade, dizendo-lhes: «Declaração da virgem Láquesis, filha da Necessidade. Almas efémeras, vai começar outro período portador de morte para a raça humana. Não é um génio que vos escolherá, mas vós que escolhereis o génio. O primeiro a quem a sorte couber, seja o primeiro a escolher uma vida a que ficará ligado pela necessidade. A virtude (areté) não tem senhor; cada um a terá em maior ou menor grau, conforme a honrar ou a desonrar. A responsabilidade é de quem escolhe. O Deus é isento de culpa». Esta declaração de Láquesis é muito semelhante à descrição da criação e do destino das almas humanas apresentada no Timeu, embora a liberdade e a responsabilidade das almas sejam mais limitadas n'A República do que no Timeu. Uma vez realizada a escolha, o destino da alma na nova vida é selado pelas Parcas e pela sua mãe, a Necessidade: todas as consequências acarretadas pelo modelo de vida escolhido estão determinadas e a alma que, por causa da sua inexperiência ou cobiça, escolheu de forma apressada e estúpida o seu modelo de vida, encontra-se condenada ao mau destino. Léon Robin concluiu daqui que a fatalidade e a responsabilidade se opõem de tal modo que Platão tem dificuldade em as reconciliar. Porém, como demonstrou Werner Jaeger, a escolha do modelo de vida, além de ser o momento em que a alma afirma plenamente a sua responsabilidade, resulta da vida anterior: o homem deve preparar-se nesta vida presente para poder realizar livremente a escolha que fará na outra vida quando, após a sua peregrinação milenária, estiver disposto a descer novamente à Terra para viver uma vida superior ou inferior. Para Platão, o homem pode participar na obra da sua libertação, lutando pela conquista e pela conservação do caminho ascendente, de modo a completar a sua libertação plena numa nova vida. A predestinação não é, portanto, uma fatalidade transcendente e inelutável, mas "algo" adquirido como consequência da vida anterior: a consciência da vida anterior deve aguçar o sentido de responsabilidade do homem na vida presente. O homem pode resistir ao seu destino. No Timeu, Platão é peremptório quando afirma que as almas devem controlar os seus impulsos e as suas paixões para viver na justiça e não na iniquidade: o homem pode salvar-se desde que seja capaz de suportar todos os bens e todos os males, de modo a conservar-se no caminho ascendente. Possuir consciência vigilante da nossa responsabilidade e efectuar constantemente exame interior são os meios de que dispomos para seguir o caminho ascendente e, deste modo, conquistar a purificação libertadora. O destino do homem na vida mortal presente e na futura vida eterna consiste numa criação contínua da sua consciência moral, a única capaz de impedir a sua precipitação na condenação final. Ésquilo aborda de modo exemplar o problema da responsabilidade quando, em duas das suas obras, faz o coro expressar a convicção de que o homem pode e deve resistir ao impulso do "seu" daimon (demónio) e vencê-lo: a co-responsabilidade do daimon - o génio ou o guardião enviado por Láquesis para guardar a vida escolhida e fazer cumprir as coisas escolhidas pela alma no momento da reencarnação - não liberta e não onera o homem da sua própria responsabilidade.
Para finalizar, convém dizer que a ética platónica está vinculada ao ensinamento de Sócrates, tal como o analisou Hannah Arendt: o mais vergonhoso não é sofrer a injustiça e a maldade, mas sim cometê-las, porque a alma viciada é o pior de todos os males. Eis um trecho do discurso de Sócrates extraído do Górgias de Platão: «Pois bem, ou se refuta a minha tese, demonstrando que não é pela posse da justiça e da temperança que os homens são felizes nem pela maldade que são infelizes, ou se aprova esta tese e se tiram dela as consequências. E estas consequências, Cálicles, são todas aquelas afirmações, a respeito das quais me perguntavas se eu falava a sério, quando dizia que, em caso de culpa, uma pessoa se deveria acusar a si própria, acusar um filho ou um amigo, e que era para isto que devia servir a retórica. E aquilo que supunhas que Polo admitia por vergonha era afinal verdadeiro, ou seja, que praticar a injustiça é não só mais feio como pior do que sofrê-las; igualmente verdadeiro que, para se ser um bom orador, é preciso ser justo e versado nas matérias da justiça, o que Polo dizia que Górgias me tinha concedido também por vergonha. (...) Sustento, Cálicles, que o mais vergonhoso não é eu ser esbofeteado injustamente nem ver o meu corpo mutilado ou a minha bolsa cortada; mais vergonhoso e pior é o facto de me baterem, mutilarem ou despojarem, porque roubarem-me, reduzirem-me à escravidão, entrarem à força em minha casa, numa palavra, cometerem contra mim e contra o que me pertence uma injustiça, é pior e mais vergonhoso para o que a pratica do que para mim que a sofro». (O Ministro das Finanças, Vítor Gaspar, devia ler o Górgias.) Seguindo a orientação predominante da ética antiga, a ética de Platão formula o problema moral como problema da felicidade, mas o seu conceito de felicidade opõe-se ao uso que dele fazem os malvados do nosso tempo. Em Platão, o centro e o critério da consciência moral residem na felicidade, entendendo-se aqui a consciência moral como consciência do dever e consciência do pecado que o viola. O homem deve sentir vergonha não pelo que fazem os outros, mas pelo que ele próprio faz. Sócrates distingue claramente duas formas de vergonha: a forma exterior mediante a qual sentimos vergonha pelos feitos dos outros e pelos seus preconceitos, e a forma interior mediante a qual nos envergonhamos pelos nossos próprios feitos e preconceitos. E, acompanhando o preceito pitagórico posteriormente retomado e aprofundado por Demócrito, Sócrates defende a passagem da forma exterior para a forma interior de vergonha: as consequências deste trânsito são a tranquilidade da consciência perante as ofensas sofridas, pelas quais o sujeito não é responsável, e a perturbação da consciência perante as ofensas que comete contra os outros, pelas quais é responsável. A partir do momento em que intervém a consciência moral, é mais vergonhoso para o sujeito cometer a injustiça do que a sofrer. N'A República, Platão mais não faz do que acentuar que a injustiça e a maldade constituem vícios da alma. O pior de todos os males é a injustiça que o sujeito comete contra os outros, a qual se converte em castigo de si próprio pelo facto de gerar discórdia interior e perturbação na sua consciência: o que quer dizer que a felicidade e a infelicidade não dependem do êxito exterior, porque aquele que logra os maiores êxitos exteriores à custa da maldade e da corrupção se encontra no fundo mais terrível do abismo moral. Porém, aquele que é vítima dessa maldade pela qual o carrasco obtém o seu êxito exterior recebe o seu verdadeiro prémio na aprovação e na tranquilidade da sua consciência: feliz é o homem honesto e bondoso. Para Platão, a felicidade encontra-se na razão inversa dos êxitos obtidos pelo justo e pelo injusto: «o justo é feliz, o injusto é miserável». Ao contrário do que se pensa, a ética de Platão não é uma ética da resignação: as vítimas de Wall Street - enfim, todas as vítimas! - não estão condenadas a sofrer a injustiça e a maldade dos mercados financeiros. Platão afirma que o castigo da injustiça não é aquele que a maior parte dos homens imaginam ser: os carrascos podem evitar o castigo exterior, ocultando as suas maldades ou comprando o parecer dos juízes, mas não conseguem evitar o castigo interior, aquele que se realiza no «interior» da sua consciência. A consciência do pecado implica o seu próprio castigo e o pecador só consegue aliviar esse tormento através da expiação. O castigo não é um mal, mas um benefício para o próprio culpado que, através da expiação, pode purificar e apaziguar a sua alma atormentada pelo pecado. A maior desgraça que pode acontecer ao criminoso é ocultar e evitar o castigo: a consciência moral é assim juiz e castigo interior inexorável e iniludível. O criminoso deve expiar pelos seus crimes, sofrendo o castigo humano aqui na Terra e o castigo divino no além-túmulo, o grande tormento eterno do inferno.
J Francisco Saraiva de Sousa
«Não esperes jamais permanecer oculto quando cometeres qualquer acção desonesta; pois ainda que pudesses ocultar-te aos demais, terias em ti próprio a consciência da tua culpa». (Pseudo-Isócrates)
Tenho sido acusado pelas mentes preguiçosas de estar a operar uma espécie de viragem conservadora na teoria crítica. Os indivíduos que me acusam de estar ideologicamente mais próximo de Paulo Portas do que de Karl Marx não sabem - tal é o imenso tamanho da sua ignorância diplomada! - que essa viragem conservadora da teoria crítica já foi realizada há muito tempo por Walter Benjamin. Escusado será dizer que os meus acusadores tendem a ser professores, estas estranhas criaturas que, tendo saído da universidade tal como tinham entrado, sem aprender nada de novo, se demitiram da sua missão de ensinar e de educar, abolindo do seu pobre vocabulário a palavra "castigo" para não estorvar a sua sede vampírica pela remuneração que lhes permite fazer viagens de fantasia sexual. O sistema de educação tem contribuído para o aumento da despesa pública sem no entanto produzir resultados positivos: a situação dos professores está mais próxima da situação dos juízes e dos magistrados públicos do que da situação dos profissionais da saúde. Pelos maus resultados que produzem, os professores não merecem o investimento que tem sido realizado na educação e na sua formação: a educação é um enorme buraco negro sem desculpa e sem justificação possível. Enquanto os médicos prestam excelentes cuidados de saúde, os professores e os magistrados destruíram completamente o sistema de educação e o sistema de justiça. Depois do 25 de Abril melhorámos substancialmente o sistema de saúde, mas o mesmo não pode ser dito em relação à educação e à justiça, os dois grandes fracassos da III República. A educação é um fracasso total e os seus agentes devem ser responsabilizados por esse fracasso: os professores não merecem o pão que comem, a água que bebem e o ar que respiram. Os professores são culpados pela degradação acelerada do sistema de ensino e de educação. Não adianta tentarem justificar o injustificável: o fracasso da educação denuncia a vossa culpa essencial e identifica-vos como pecadores que aboliram semanticamente o castigo para não serem castigados pelo vosso crime: a liquidação da cultura superior e da sua transmissão às novas gerações. Se ser conservador é ser guardador de lugar do conhecimento superior, então aceito o rótulo que me fixaram: sou conservador cultural. Mas isso não implica que tenha rompido com o pensamento político de Esquerda que desejo libertar da vossa presença medíocre.
A propósito da culpa dos professores portugueses pela destruição da educação e da cultura, acabei por actualizar a teoria platónica da consciência moral. Platão desenvolveu a sua teoria em diversas obras, das quais destaco a que mais me interessa aqui - A República, cujo livro X expõe o mito de Er. A teoria da consciência moral de Platão compreende a consciência do pecado como perturbação interior da alma e a noção de infelicidade incurável do malvado que ousa obter no presente os seus maiores triunfos. Hoje, neste nosso tempo indigente e malvado, ninguém quer ouvir falar de pecado e de castigos: os malvados - nossos contemporâneos - retiveram de Platão apenas a sua noção de felicidade, dando-lhe um outro sentido que não se coaduna com o seu sentido originário. A preocupação pelo destino de além-túmulo está presente n'A República: a alma do mortal desperta para esta preocupação quando se aproxima do término da sua vida. Esta preocupação pela morte adquire o aspecto de terror ou de serenidade conforme a alma tenha consciência dos seus pecados ou das suas boas acções: as almas malvadas dos pecadores temem os tormentos infernais a que serão condenadas eternamente depois de mortas para a vida. Mas os terrores infernais só nos interessam enquanto estão ligados à consciência do pecado que leva os que pensam na morte a efectuar o seu exame de consciência. O mito de Er gira - quase todo ele - em torno da concepção da consciência de pecado como condenação interior e tormento da alma na vida presente: a consciência da responsabilidade apodera-se da alma daqueles mortais que temem a vida de além-túmulo. As almas que devem reencarnar são conduzidas à presença de Láquesis, filha de Ananke (Necessidade), que tem sobre os joelhos as sortes e os paradigmas das diversas formas de vida. Cada alma deve escolher livremente o seu exemplar de vida, tendo consciência da sua responsabilidade. O profeta que as dispõe por ordem e que apresenta os modelos de vida às almas para que escolham, adverte-as sobre a sua responsabilidade, dizendo-lhes: «Declaração da virgem Láquesis, filha da Necessidade. Almas efémeras, vai começar outro período portador de morte para a raça humana. Não é um génio que vos escolherá, mas vós que escolhereis o génio. O primeiro a quem a sorte couber, seja o primeiro a escolher uma vida a que ficará ligado pela necessidade. A virtude (areté) não tem senhor; cada um a terá em maior ou menor grau, conforme a honrar ou a desonrar. A responsabilidade é de quem escolhe. O Deus é isento de culpa». Esta declaração de Láquesis é muito semelhante à descrição da criação e do destino das almas humanas apresentada no Timeu, embora a liberdade e a responsabilidade das almas sejam mais limitadas n'A República do que no Timeu. Uma vez realizada a escolha, o destino da alma na nova vida é selado pelas Parcas e pela sua mãe, a Necessidade: todas as consequências acarretadas pelo modelo de vida escolhido estão determinadas e a alma que, por causa da sua inexperiência ou cobiça, escolheu de forma apressada e estúpida o seu modelo de vida, encontra-se condenada ao mau destino. Léon Robin concluiu daqui que a fatalidade e a responsabilidade se opõem de tal modo que Platão tem dificuldade em as reconciliar. Porém, como demonstrou Werner Jaeger, a escolha do modelo de vida, além de ser o momento em que a alma afirma plenamente a sua responsabilidade, resulta da vida anterior: o homem deve preparar-se nesta vida presente para poder realizar livremente a escolha que fará na outra vida quando, após a sua peregrinação milenária, estiver disposto a descer novamente à Terra para viver uma vida superior ou inferior. Para Platão, o homem pode participar na obra da sua libertação, lutando pela conquista e pela conservação do caminho ascendente, de modo a completar a sua libertação plena numa nova vida. A predestinação não é, portanto, uma fatalidade transcendente e inelutável, mas "algo" adquirido como consequência da vida anterior: a consciência da vida anterior deve aguçar o sentido de responsabilidade do homem na vida presente. O homem pode resistir ao seu destino. No Timeu, Platão é peremptório quando afirma que as almas devem controlar os seus impulsos e as suas paixões para viver na justiça e não na iniquidade: o homem pode salvar-se desde que seja capaz de suportar todos os bens e todos os males, de modo a conservar-se no caminho ascendente. Possuir consciência vigilante da nossa responsabilidade e efectuar constantemente exame interior são os meios de que dispomos para seguir o caminho ascendente e, deste modo, conquistar a purificação libertadora. O destino do homem na vida mortal presente e na futura vida eterna consiste numa criação contínua da sua consciência moral, a única capaz de impedir a sua precipitação na condenação final. Ésquilo aborda de modo exemplar o problema da responsabilidade quando, em duas das suas obras, faz o coro expressar a convicção de que o homem pode e deve resistir ao impulso do "seu" daimon (demónio) e vencê-lo: a co-responsabilidade do daimon - o génio ou o guardião enviado por Láquesis para guardar a vida escolhida e fazer cumprir as coisas escolhidas pela alma no momento da reencarnação - não liberta e não onera o homem da sua própria responsabilidade.
Para finalizar, convém dizer que a ética platónica está vinculada ao ensinamento de Sócrates, tal como o analisou Hannah Arendt: o mais vergonhoso não é sofrer a injustiça e a maldade, mas sim cometê-las, porque a alma viciada é o pior de todos os males. Eis um trecho do discurso de Sócrates extraído do Górgias de Platão: «Pois bem, ou se refuta a minha tese, demonstrando que não é pela posse da justiça e da temperança que os homens são felizes nem pela maldade que são infelizes, ou se aprova esta tese e se tiram dela as consequências. E estas consequências, Cálicles, são todas aquelas afirmações, a respeito das quais me perguntavas se eu falava a sério, quando dizia que, em caso de culpa, uma pessoa se deveria acusar a si própria, acusar um filho ou um amigo, e que era para isto que devia servir a retórica. E aquilo que supunhas que Polo admitia por vergonha era afinal verdadeiro, ou seja, que praticar a injustiça é não só mais feio como pior do que sofrê-las; igualmente verdadeiro que, para se ser um bom orador, é preciso ser justo e versado nas matérias da justiça, o que Polo dizia que Górgias me tinha concedido também por vergonha. (...) Sustento, Cálicles, que o mais vergonhoso não é eu ser esbofeteado injustamente nem ver o meu corpo mutilado ou a minha bolsa cortada; mais vergonhoso e pior é o facto de me baterem, mutilarem ou despojarem, porque roubarem-me, reduzirem-me à escravidão, entrarem à força em minha casa, numa palavra, cometerem contra mim e contra o que me pertence uma injustiça, é pior e mais vergonhoso para o que a pratica do que para mim que a sofro». (O Ministro das Finanças, Vítor Gaspar, devia ler o Górgias.) Seguindo a orientação predominante da ética antiga, a ética de Platão formula o problema moral como problema da felicidade, mas o seu conceito de felicidade opõe-se ao uso que dele fazem os malvados do nosso tempo. Em Platão, o centro e o critério da consciência moral residem na felicidade, entendendo-se aqui a consciência moral como consciência do dever e consciência do pecado que o viola. O homem deve sentir vergonha não pelo que fazem os outros, mas pelo que ele próprio faz. Sócrates distingue claramente duas formas de vergonha: a forma exterior mediante a qual sentimos vergonha pelos feitos dos outros e pelos seus preconceitos, e a forma interior mediante a qual nos envergonhamos pelos nossos próprios feitos e preconceitos. E, acompanhando o preceito pitagórico posteriormente retomado e aprofundado por Demócrito, Sócrates defende a passagem da forma exterior para a forma interior de vergonha: as consequências deste trânsito são a tranquilidade da consciência perante as ofensas sofridas, pelas quais o sujeito não é responsável, e a perturbação da consciência perante as ofensas que comete contra os outros, pelas quais é responsável. A partir do momento em que intervém a consciência moral, é mais vergonhoso para o sujeito cometer a injustiça do que a sofrer. N'A República, Platão mais não faz do que acentuar que a injustiça e a maldade constituem vícios da alma. O pior de todos os males é a injustiça que o sujeito comete contra os outros, a qual se converte em castigo de si próprio pelo facto de gerar discórdia interior e perturbação na sua consciência: o que quer dizer que a felicidade e a infelicidade não dependem do êxito exterior, porque aquele que logra os maiores êxitos exteriores à custa da maldade e da corrupção se encontra no fundo mais terrível do abismo moral. Porém, aquele que é vítima dessa maldade pela qual o carrasco obtém o seu êxito exterior recebe o seu verdadeiro prémio na aprovação e na tranquilidade da sua consciência: feliz é o homem honesto e bondoso. Para Platão, a felicidade encontra-se na razão inversa dos êxitos obtidos pelo justo e pelo injusto: «o justo é feliz, o injusto é miserável». Ao contrário do que se pensa, a ética de Platão não é uma ética da resignação: as vítimas de Wall Street - enfim, todas as vítimas! - não estão condenadas a sofrer a injustiça e a maldade dos mercados financeiros. Platão afirma que o castigo da injustiça não é aquele que a maior parte dos homens imaginam ser: os carrascos podem evitar o castigo exterior, ocultando as suas maldades ou comprando o parecer dos juízes, mas não conseguem evitar o castigo interior, aquele que se realiza no «interior» da sua consciência. A consciência do pecado implica o seu próprio castigo e o pecador só consegue aliviar esse tormento através da expiação. O castigo não é um mal, mas um benefício para o próprio culpado que, através da expiação, pode purificar e apaziguar a sua alma atormentada pelo pecado. A maior desgraça que pode acontecer ao criminoso é ocultar e evitar o castigo: a consciência moral é assim juiz e castigo interior inexorável e iniludível. O criminoso deve expiar pelos seus crimes, sofrendo o castigo humano aqui na Terra e o castigo divino no além-túmulo, o grande tormento eterno do inferno.
J Francisco Saraiva de Sousa
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quinta-feira, 29 de setembro de 2011
John Brockman: a Ciência como Terceira Cultura
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| John Brockman |
«A ciência é uma actividade muito social; viajamos com muita frequência e passamos muito tempo a conversar com outros, tanto amigos com quem trabalhamos como pessoas da comunidade mais vasta. A física é muito oral. Alguns de nós lêem os artigos uns dos outros - eu leio -. mas o canal mais importante de comunicação é por certo a conversação. Na gravidade quântica há uma comunidade de talvez algumas centenas de pessoas, que trabalham activamente no problema e estão em comunicação constante. Para ser franco, há apenas uma coisa de que não gosto na comunidade dos meus colegas, que é o facto de haver ainda tão poucas mulheres. É claro que essa situação vai-se alterando lentamente, mas, nesta área, não se processa ao mesmo ritmo das restantes. Seria interessante saber porquê. /Há um outro aspecto fundamental do trabalho científico que não é, de modo algum, social: o confronto pessoal de cada um com a natureza. No fundo, estou a tentar compreender coisas como o significado do tempo, devido à minha necessidade de saber quem sou, o que é este mundo, o que faço aqui. O trabalho científico constitui, para mim, um tipo de resposta à alienação de ser uma pequena criatura num mundo vastíssimo. Parte da condição de cientista, para mim, reside no facto de saber que, em última instância, estou sozinho e sou responsável por aquilo em que acredito». (Lee Smolin)
Lee Smolin é um físico teórico que tem dedicado grande parte da sua actividade científica à gravitação quântica. A teoria das supercordas foi formulada nos anos 70 e 80 para fundir a relatividade geral com a teoria quântica, de modo a produzir uma descrição correcta do modo como a gravidade e o espaço se comportam, evitando o problema dos infinitos na gravidade: o seu ingrediente fundamental é uma corda microscópica, um objecto que possui uma espessura negligenciável e comprimento muito pequeno, do qual observamos apenas as manifestações de muito baixa energia. O falhanço dramático das teorias das cordas levou Smolin a formular outra teoria unificada da física que conserva o campo gravitacional como ingrediente fundamental da sua problemática teórica, com o objectivo de o tratar quanticamente: o que implica que Einstein não é colocado em segundo plano, sendo a sua teoria encarada como limite de baixa energia, como sucedia e sucede nas teorias das cordas. Smolin tem uma noção mais vasta de terceira cultura do que a de Brockman: a terceira cultura não é tanto o conjunto de académicos que comunicam com o público em geral, mas sobretudo o grupo de académicos que partilham algumas ideias filosóficas que possibilitam o renascimento da tradição da filosofia natural. Dessas ideias destacam-se três: a ideia de que nada é estático nem eterno, evoluindo no tempo (1); a ideia de que não é necessário pensar em termos de um criador inteligente, sendo disparatado considerar que a complexidade e a beleza que observamos à nossa volta partiram da intencionalidade de uma única inteligência (2); e, finalmente, a ideia de que o nosso mundo é essencialmente complexo, diverso e auto-organizado, sendo as propriedades das coisas relativas e não absolutas (3). A teoria unificada de Smolin articula de forma engenhosa e extremamente elegante estas três ideias-temáticas: a teoria da gravidade quântica combina a compreensão do espaço e do tempo que a relatividade nos legou com a teoria quântica, na esperança de obter uma única teoria unificada da física. Mas, além disso, a teoria da gravidade quântica é uma teoria da cosmologia que tem de descrever o universo inteiro do ponto de vista dos observadores que nele vivem. Ora, para construir uma teoria completa e objectiva de todo o universo, Smolin foi inspirado pela biologia da evolução e pela hipótese de Gaia, de modo a evitar o princípio antrópico, tanto na sua versão fraca como na sua versão forte: a fusão entre a relatividade e a cosmologia com a teoria quântica assume assim a forma final de uma teoria da auto-organização. Depois de ter concebido o universo inteiro como um sistema auto-organizado, Smolin procura elucidar o mecanismo de auto-organização capaz de actuar cedo na história do universo para seleccionar as propriedades das partículas elementares e das forças da natureza. O único princípio suficientemente potente para explicar o elevado grau de organização do nosso universo - comparado com um universo com as partículas e as forças escolhidas aleatoriamente - é, na perspectiva de Smolin, a própria selecção natural. E o mecanismo pelo qual a selecção natural actua à escala do próprio universo é enunciado nestes termos: «as propriedades das partículas e das forças são seleccionadas para maximizar o número de buracos negros que o universo produz». De acordo com esta perspectiva, os universos que permitem a complexidade e a evolução reproduzem-se mais eficientemente do que outros universos menos complexos: as suas estrelas formam-se, evoluem e morrem, formando buracos negros, no interior dos quais uma pequena região dá origem a um novo universo que retém as leis da física do universo progenitor. O conjunto de universos evolui assim não de forma aleatória mas por meio de uma espécie de selecção darwinista, em favor de universos potencialmente complexos que contenham relógios e observadores. Para formular a sua teoria, Smolin conjuga e articula ideias que não vamos elucidar, pelo menos neste texto: o que interessa destacar é o facto de Martin Rees - astrofísico teórico - ter demonstrado que o nosso universo não possui propriedades que maximizem a probabilidade de buracos negros, sendo possível imaginar um universo ligeiramente diferente do nosso que fosse capaz de produzir um maior número de buracos negros: quer dizer que a teoria unificada de Smolin é demasiado vulnerável para convidar a construir algo filosoficamente seguro e sedutor a partir dos seus pressupostos darwinistas. A física é hoje conflito de interpretações.
John Brockman formulou muito mal a teoria da terceira cultura e, curiosamente, os cientistas e filósofos que reuniu para dar corpo a essa teoria não souberam distanciar-se da sua formulação demasiado ideológica. A ideia com que se fica é a de que se trata apenas de uma nova cultura pública que dispensa os intermediários: os produtores de conhecimentos dispensam os serviços dos intermediários na difusão da sua visão científica do mundo, assumindo eles próprios a tarefa de divulgar numa linguagem acessível ao grande público os seus resultados científicos. A cultura pública - enquanto nova face da cultura científica - é assim reduzida à divulgação científica. A formulação da teoria da terceira cultura realizada por Brockman parte de um equívoco: Em 1963, quando acrescentou um novo ensaio à sua obra The Two Cultures (1959), Snow apontou o surgimento de uma terceira cultura capaz de superar o fosso de comunicação entre os literatos e os cientistas, usando como exemplo toda a reflexão filosófica gerada em torno da biologia molecular. Brockman retoma o conceito de terceira cultura, mas rejeita veementemente a comunicação entre os agentes das duas culturas, a cultura literária e a cultura científica. Deste modo, a terceira cultura mais não é do que a cultura científica, cujos agentes recusam dialogar com os literatos, preferindo comunicar directamente com o grande público, sem recurso aos intermediários tradicionais. Brockman descreve não o aparecimento de uma terceira cultura, situada além das culturas literária e científica, mas a metamorfose ou a transformação pela qual a ciência, depois da emigração de Albert Einstein para os Estados Unidos, antes da guerra, se tornou cultura pública, eclipsando a cultura tradicional: «os cientistas são os novos intelectuais públicos», cuja missão é modelar «o pensamento da sua geração», - e «os Estados Unidos são agora - graças ao surto da ciência nas universidades americanas, subsequente ao lançamento do satélite soviético Sputnik - o alforge intelectual da Europa e da Ásia». Com este elogio do espírito científico americano, a terceira cultura revela o seu verdadeiro rosto: «O aparecimento da terceira cultura introduz novos modos de discurso e reafirma a supremacia dos Estados Unidos no domínio das ideias importantes. Através da história, a vida intelectual tem sido marcada pelo facto de apenas um número restrito de pessoas se ter dedicado a transmitir um pensamento sério aos seus semelhantes. Estamos a assistir à passagem de testemunho de um grupo de pensadores, os intelectuais tradicionais, para outro grupo, os novos intelectuais da terceira cultura emergente». Os novos intelectuais da terceira cultura emergente, todos eles clientes da agência literária de Brockman, utilizam um «novo conjunto de metáforas que fornecem uma descrição de nós próprios, da nossa mente, do universo e de tudo o que conhecemos»: a nova filosofia natural que protagonizam e que comanda o nosso tempo fundamenta-se na compreensão alargada da complexidade e da evolução. As ideias de Marx e de Freud foram desalojadas pelas ideias de Darwin: a nossa época, pelo menos desde a Queda do Muro de Berlim até à crise financeira de 2008, glorifica em todos os domínios do saber o triunfo de Darwin, o qual corresponde ao período da terrível onda neoliberal. O que é preciso realizar agora é a avaliação crítica deste novo conjunto de metáforas construído em torno de Darwin. Como é evidente, enquanto cientista, não posso duvidar da qualidade da ciência que se pratica nos Estados Unidos: o que está em questão não é a própria ciência, mas a sua organização social, por um lado, e a filosofia natural elaborada a partir dela, por outro lado. Muitos conhecimentos científicos dados como adquiridos estão a ser desmentidos pelas novas descobertas científicas realizadas com o auxílio de tecnologia avançada: os diversos mundos da ciência estão a sofrer alterações tão profundas que não permitem elaborar uma Nova Filosofia. A ciência aproxima-se da Filosofia, mas esta última não encontra solo seguro na ciência para ousar levar a cabo uma reforma radical do entendimento. Ou dito de uma forma provocante: o triunfo da ciência tal como foi protagonizado pelos novos intelectuais da terceira cultura coincide com a tomada de consciência dos limites da própria ciência. Assim, por exemplo, Paul Davies, mais outro físico teórico, retoma Santo Agostinho para concluir que a ciência não é boa para explicar os porquês: «Talvez não exista um porquê. Perguntar "por que" (há um universo e este universo em particular) é muito humano, mas talvez não haja resposta, em termos humanos, para perguntas tão profundas sobre a existência. Ou talvez haja, e estejamos a olhar para o problema da forma errada. Bem, não prometi respostas sobre a vida, o universo e tudo mais, mas pelo menos dei uma resposta plausível para a pergunta com a qual comecei: o que aconteceu antes do big bang? A resposta é: nada». Ao contrário do que defende o próprio Brockman, um número significativo dos seus clientes dialoga activamente com os pensamentos produzidos pela cultura literária, a maior parte das vezes em busca de novas metáforas para descrever o universo, a vida e a mente. A comunidade científica, pelo menos os seus membros mais destacados - cientistas e filósofos, está ciente das dificuldades da própria ciência para elaborar uma nova filosofia, e muitos deles começam a duvidar da autoridade de Darwin, bastando referir os nomes de R. C. Lewontin e de S. J. Gould, cuja filosofia se move nos territórios de Marx. Estará a ciência em crise? Conhecemos a resposta de Lenine: o discurso da crise da ciência é um discurso burguês, de cariz marcadamente idealista. As crises científicas não são crises da ciência, mas crises de crescimento científico que conduzem - por aproximações sucessivas - a uma visão mais verdadeira do mundo. Talvez Lenine tenha razão, mas ainda não conseguimos traçar os contornos gerais dessa nova visão do mundo. Ou talvez não tenha razão, estando hoje a ciência a ser substituída por algo estranho e inusitado cujo rosto desconhecemos. Steve Jones, um especialista em genética, escreveu um belo ensaio para explicar por que algumas pessoas são negras: após ter exposto as diversas teorias darwinistas, chega à conclusão que todas elas são incapazes de explicar a cor da pele. No entanto, Steve Jones continua a acreditar que a resposta correcta será dada brevemente: o seu optimismo científico deve ser confrontado com os resultados da sua própria crítica das teorias propostas, a qual revela a afinidade estrutural entre o darwinismo - convertido em dogma - e a exploração do homem pelo homem, ou seja, a sua natureza ideológica, de resto denunciada por Lewontin e, de modo brilhante, por Marshall Sahlins (1976). Entretanto, a Filosofia - salvo raras excepções - tem evitado fazer incursões pelo território das especulações cosmológicas da ciência, preocupando-se mais com a esfera pública dos assuntos humanos. Ora, é precisamente nesta esfera que a especulação científica tem fracassado: os novos intelectuais da terceira cultura são completamente avessos à História, território distinto da evolução biológica. Toda a obra de Anne Fausto-Sterling - professora de medicina - sobre o papel da raça e do género na construção das teorias científicas, bem como sobre o papel destas teorias na construção das ideias sobre raça e género, pressupõe um diálogo subterrâneo com a teoria de Marx, que ainda não foi explicitado e avaliado. Entre Marx e Darwin não existem tantas afinidades como as supostas, excepto a ideologia do progresso atribuída a ambos. Concordo com a crítica que Brockman dirige às capelinhas exclusivistas, onde habitam os intelectuais específicos de Foucault, mas não o acompanho quando rejeita a herança de Marx a favor da herança de Darwin, porque de uma coisa estou seguro: a nova filosofia que parece emergir no horizonte intelectual do nosso tempo indigente continuará a ser uma filosofia da história e da política, para a construção da qual Darwin não tem nada de importante a dizer.
Observação: Este artigo deve ser lido em conexão com este outro artigo: C. P. Snow: Duas Culturas?. Os novos intelectuais da terceira cultura deviam estudar a sério a Filosofia, para compreender que a cosmologia tal como a concebem tem pouco a dizer sobre o lugar do homem no mundo. Assim, por exemplo, a afirmação de Martin Rees sobre o homem como poeira estelar desencadeia em nós um sorriso filosófico. Diz ele que «para entender a nós próprios, precisamos entender as estrelas», porque nós «somos poeira estelar - as cinzas das estrelas há muito tempo mortas». Uma tal definição da Humanidade do Homem de nada nos serve: a poeira estelar que somos construiu um mundo próprio, no qual se tornou questão para si própria. E é esta questão que concentra toda a atenção da Filosofia.
J Francisco Saraiva de Sousa
John Brockman formulou muito mal a teoria da terceira cultura e, curiosamente, os cientistas e filósofos que reuniu para dar corpo a essa teoria não souberam distanciar-se da sua formulação demasiado ideológica. A ideia com que se fica é a de que se trata apenas de uma nova cultura pública que dispensa os intermediários: os produtores de conhecimentos dispensam os serviços dos intermediários na difusão da sua visão científica do mundo, assumindo eles próprios a tarefa de divulgar numa linguagem acessível ao grande público os seus resultados científicos. A cultura pública - enquanto nova face da cultura científica - é assim reduzida à divulgação científica. A formulação da teoria da terceira cultura realizada por Brockman parte de um equívoco: Em 1963, quando acrescentou um novo ensaio à sua obra The Two Cultures (1959), Snow apontou o surgimento de uma terceira cultura capaz de superar o fosso de comunicação entre os literatos e os cientistas, usando como exemplo toda a reflexão filosófica gerada em torno da biologia molecular. Brockman retoma o conceito de terceira cultura, mas rejeita veementemente a comunicação entre os agentes das duas culturas, a cultura literária e a cultura científica. Deste modo, a terceira cultura mais não é do que a cultura científica, cujos agentes recusam dialogar com os literatos, preferindo comunicar directamente com o grande público, sem recurso aos intermediários tradicionais. Brockman descreve não o aparecimento de uma terceira cultura, situada além das culturas literária e científica, mas a metamorfose ou a transformação pela qual a ciência, depois da emigração de Albert Einstein para os Estados Unidos, antes da guerra, se tornou cultura pública, eclipsando a cultura tradicional: «os cientistas são os novos intelectuais públicos», cuja missão é modelar «o pensamento da sua geração», - e «os Estados Unidos são agora - graças ao surto da ciência nas universidades americanas, subsequente ao lançamento do satélite soviético Sputnik - o alforge intelectual da Europa e da Ásia». Com este elogio do espírito científico americano, a terceira cultura revela o seu verdadeiro rosto: «O aparecimento da terceira cultura introduz novos modos de discurso e reafirma a supremacia dos Estados Unidos no domínio das ideias importantes. Através da história, a vida intelectual tem sido marcada pelo facto de apenas um número restrito de pessoas se ter dedicado a transmitir um pensamento sério aos seus semelhantes. Estamos a assistir à passagem de testemunho de um grupo de pensadores, os intelectuais tradicionais, para outro grupo, os novos intelectuais da terceira cultura emergente». Os novos intelectuais da terceira cultura emergente, todos eles clientes da agência literária de Brockman, utilizam um «novo conjunto de metáforas que fornecem uma descrição de nós próprios, da nossa mente, do universo e de tudo o que conhecemos»: a nova filosofia natural que protagonizam e que comanda o nosso tempo fundamenta-se na compreensão alargada da complexidade e da evolução. As ideias de Marx e de Freud foram desalojadas pelas ideias de Darwin: a nossa época, pelo menos desde a Queda do Muro de Berlim até à crise financeira de 2008, glorifica em todos os domínios do saber o triunfo de Darwin, o qual corresponde ao período da terrível onda neoliberal. O que é preciso realizar agora é a avaliação crítica deste novo conjunto de metáforas construído em torno de Darwin. Como é evidente, enquanto cientista, não posso duvidar da qualidade da ciência que se pratica nos Estados Unidos: o que está em questão não é a própria ciência, mas a sua organização social, por um lado, e a filosofia natural elaborada a partir dela, por outro lado. Muitos conhecimentos científicos dados como adquiridos estão a ser desmentidos pelas novas descobertas científicas realizadas com o auxílio de tecnologia avançada: os diversos mundos da ciência estão a sofrer alterações tão profundas que não permitem elaborar uma Nova Filosofia. A ciência aproxima-se da Filosofia, mas esta última não encontra solo seguro na ciência para ousar levar a cabo uma reforma radical do entendimento. Ou dito de uma forma provocante: o triunfo da ciência tal como foi protagonizado pelos novos intelectuais da terceira cultura coincide com a tomada de consciência dos limites da própria ciência. Assim, por exemplo, Paul Davies, mais outro físico teórico, retoma Santo Agostinho para concluir que a ciência não é boa para explicar os porquês: «Talvez não exista um porquê. Perguntar "por que" (há um universo e este universo em particular) é muito humano, mas talvez não haja resposta, em termos humanos, para perguntas tão profundas sobre a existência. Ou talvez haja, e estejamos a olhar para o problema da forma errada. Bem, não prometi respostas sobre a vida, o universo e tudo mais, mas pelo menos dei uma resposta plausível para a pergunta com a qual comecei: o que aconteceu antes do big bang? A resposta é: nada». Ao contrário do que defende o próprio Brockman, um número significativo dos seus clientes dialoga activamente com os pensamentos produzidos pela cultura literária, a maior parte das vezes em busca de novas metáforas para descrever o universo, a vida e a mente. A comunidade científica, pelo menos os seus membros mais destacados - cientistas e filósofos, está ciente das dificuldades da própria ciência para elaborar uma nova filosofia, e muitos deles começam a duvidar da autoridade de Darwin, bastando referir os nomes de R. C. Lewontin e de S. J. Gould, cuja filosofia se move nos territórios de Marx. Estará a ciência em crise? Conhecemos a resposta de Lenine: o discurso da crise da ciência é um discurso burguês, de cariz marcadamente idealista. As crises científicas não são crises da ciência, mas crises de crescimento científico que conduzem - por aproximações sucessivas - a uma visão mais verdadeira do mundo. Talvez Lenine tenha razão, mas ainda não conseguimos traçar os contornos gerais dessa nova visão do mundo. Ou talvez não tenha razão, estando hoje a ciência a ser substituída por algo estranho e inusitado cujo rosto desconhecemos. Steve Jones, um especialista em genética, escreveu um belo ensaio para explicar por que algumas pessoas são negras: após ter exposto as diversas teorias darwinistas, chega à conclusão que todas elas são incapazes de explicar a cor da pele. No entanto, Steve Jones continua a acreditar que a resposta correcta será dada brevemente: o seu optimismo científico deve ser confrontado com os resultados da sua própria crítica das teorias propostas, a qual revela a afinidade estrutural entre o darwinismo - convertido em dogma - e a exploração do homem pelo homem, ou seja, a sua natureza ideológica, de resto denunciada por Lewontin e, de modo brilhante, por Marshall Sahlins (1976). Entretanto, a Filosofia - salvo raras excepções - tem evitado fazer incursões pelo território das especulações cosmológicas da ciência, preocupando-se mais com a esfera pública dos assuntos humanos. Ora, é precisamente nesta esfera que a especulação científica tem fracassado: os novos intelectuais da terceira cultura são completamente avessos à História, território distinto da evolução biológica. Toda a obra de Anne Fausto-Sterling - professora de medicina - sobre o papel da raça e do género na construção das teorias científicas, bem como sobre o papel destas teorias na construção das ideias sobre raça e género, pressupõe um diálogo subterrâneo com a teoria de Marx, que ainda não foi explicitado e avaliado. Entre Marx e Darwin não existem tantas afinidades como as supostas, excepto a ideologia do progresso atribuída a ambos. Concordo com a crítica que Brockman dirige às capelinhas exclusivistas, onde habitam os intelectuais específicos de Foucault, mas não o acompanho quando rejeita a herança de Marx a favor da herança de Darwin, porque de uma coisa estou seguro: a nova filosofia que parece emergir no horizonte intelectual do nosso tempo indigente continuará a ser uma filosofia da história e da política, para a construção da qual Darwin não tem nada de importante a dizer.
Observação: Este artigo deve ser lido em conexão com este outro artigo: C. P. Snow: Duas Culturas?. Os novos intelectuais da terceira cultura deviam estudar a sério a Filosofia, para compreender que a cosmologia tal como a concebem tem pouco a dizer sobre o lugar do homem no mundo. Assim, por exemplo, a afirmação de Martin Rees sobre o homem como poeira estelar desencadeia em nós um sorriso filosófico. Diz ele que «para entender a nós próprios, precisamos entender as estrelas», porque nós «somos poeira estelar - as cinzas das estrelas há muito tempo mortas». Uma tal definição da Humanidade do Homem de nada nos serve: a poeira estelar que somos construiu um mundo próprio, no qual se tornou questão para si própria. E é esta questão que concentra toda a atenção da Filosofia.
J Francisco Saraiva de Sousa
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