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terça-feira, 27 de março de 2012

Prós e Contras: O Ânimo da Nação

Porto ao anoitecer
Não pretendo comentar o debate Prós e Contras de ontem (26 de Março), mas, desta vez, Fátima Campos Ferreira dispensou a presença envelhecida das figuras tutelares dos seus debates e convidou novas figuras da sociedade civil para debater o estado de espírito dos portugueses, sujeito - como está! - às chicotadas permanentes do Ministro das Finanças e da EDP. A pergunta que interroga pelo estado de espírito dos portugueses neste tempo sombrio de crise é puramente retórica. Depois de pagar todas as suas contas mensais, sobretudo a renda ou prestação de casa e as contas da electricidade, do gás e da água, o espírito dos portugueses não pode presentear a alma com ânimo. Neste momento, a alma e o espírito dos portugueses estão divorciados: o espírito não dá ânimo à alma e a alma não alimenta o espírito. Os portugueses não estão preparados para fazer a longa travessia, porque o seu espírito já não é capaz de abrir caminhos, de os iluminar e de pôr a alma a caminho. (A Irmã Fátima, uma das convidadas que encantou Herman José, o humorista que cultiva os "melhores grelos da margem sul", falou de espiritualidade, dando ao espírito o sentido espiritual de pneuma (grego) e de spiritus (latim). Mas o espírito de que falo aqui - mais inspirado no ruah (hebraico) - é a chama do entusiasmo que inflama e que nos caça e nos extasia, lançando-nos, a cada um de nós, para fora de si mesmo. O resgate do espírito do jazigo do esquecimento implica a elaboração de uma pneumatologia filosófica, capaz de transcender o velho dualismo ocidental: o Espírito, esse sopro de vida que habita o mundo, em toda a sua espessura carnal e material, leva os homens a lutar contra a opressão e a iniciar uma vida nova, fazendo deles sujeitos activos dessa vida nova, em comunhão com a natureza e a história resgatadas.) Sem chama que o inflama, o espírito dos portugueses já nem sequer é capaz de sentir a dor que dilacera: ele está morto! Passos Coelho, o Ministro das Finanças e a EDP mataram-no! O Congresso do PSD limitou-se a reafirmar a morte de Portugal, cujo anoitecer já não promete uma nova aurora. Portugal é noite, não noite azul mas noite escura!

J Francisco Saraiva de Sousa

terça-feira, 13 de março de 2012

Prós e Contras: O que falta cumprir?

Cidade do Porto
Em Portugal, alguns sabem aquilo que deve ser feito para conquistar o futuro, mas os decisores políticos adiam por tempo indeterminado a efectivação dos planos adequados de desenvolvi-mento e, quando os realizam, já é tarde demais: a corrupção política instalada nos aparelhos de Estado - no sentido de Althusser - bloqueia a sociedade portuguesa, condenando-a a um atraso estrutural jamais superado em qualquer período histórico.

«A lógica, por si só, permanece exangue e estéril; não nos traz qualquer fruto do pensamento, se o pensamento (informado) o não conceber por outro lado». (John de Salisbury)

Ando muito ocupado à procura de um livro que deve estar algures perdido nalguma secção da minha biblioteca: quero escrever sobre a Sé-Catedral do Porto, para a colocar entre as grandes catedrais da Europa Medieval, mas o livro teima em esconder-se, obrigando-me talvez a comprar outro se ainda estiver à venda nas livrarias. Com esta desculpa pretendo mostrar o meu desencanto com o teor do debate Prós e Contras de ontem (12 de Março). Sempre que um debate desperta a minha curiosidade intelectual arranjo tempo para o meditar. Mas o debate sobre o que falta cumprir do acordo da troika deixou-me perplexo e preocupado: Carlos Moedas (Secretário de Estado), Eurico Dias (PS) e Pedro Reis (AICEP), três figuras mais novas do universo político português, desiludiram-me com a sua falta de experiência de vida, com a sua perda do bom-senso, com o seu conhecimento lacunar e com a sua insensibilidade social. Foi Basílio Horta (PS) que salvou o debate da "guerrinha medíocre" entre Eurico Dias e Carlos Moedas, com o último a acusar os "socialistas" de lhe darem "tiros". (Mas como é que Eurico Dias pode dar tiros se ele não sabe manejar a arma da crítica? Ai, onde está o PS de outros tempos, o PS de Mário Soares?) Ficámos a saber que existe uma guerra - mais precisamente uma troca de tiros - no seio do actual governo chefiado pelo Ministro das Finanças, já que Passos Coelho se auto-demitiu das suas funções de Primeiro-Ministro: a demissão do Secretário da Energia foi o primeiro sinal da desagregação do governo, aguardando-se já a queda do Ministro da Economia. (A todo-poderosa EDP, de olhos chineses, manda no governo!) Se não fosse a astúcia dialéctica de Basílio Horta, a voz do PS teria sido silenciada por Eurico Dias, cujo cérebro carece de vocação política e de cultura de Esquerda. Em síntese, o discurso de Carlos Moedas foi o seguinte: Como Portugal viveu acima das suas possibilidades, agora os portugueses "têm de sofrer", o governo deve ser duro a implementar o programa de ajustamento imposto pela troika, comportar-se como "bom aluno", prestar vassalagem a Angela Merkel e levar a cabo o empobrecimento do país, porque "não há dinheiro", "não há alternativa". Enfim, a recessão e a pobreza são inevitáveis: Carlos Moedas apelou ao consenso nacional em torno da pobreza e da miséria. O caminho da pobreza foi apresentado como o único caminho para abolir o problema que é a existência de Portugal. Pedro Reis que é mais papista do que o Papa, aconselhou os portugueses a silenciar as suas vozes e a aceitar resignadamente o empobrecimento. (Afinal, quem quer investir num país empobrecido, entregue materialmente a homens insensíveis, mais preocupados com o seu destino pessoal do que com o destino nacional, e espiritualmente ao segredo dos deuses?) Eurico Dias esteve quase sempre ausente do debate, porque, quando intervinha, introduzia novos elementos extraterrestres, sem saber do que se falava. Basílio Horta revoltou-se contra o discurso do consenso e defendeu a crítica, mostrando que há dois caminhos: o caminho do crescimento e do emprego, o caminho do PS, e o caminho da consolidação orçamental sem perspectiva de futuro, o caminho seguido pelo governo de Direita açoitado com vara curta pelo Ministro das Finanças. Pouco mais há a dizer sobre este debate, aliás um debate sem história!, a não ser o seu desenlace. Basílio Horta aproveitou a última intervenção de Carlos Moedas, onde o Secretário Adjunto remeteu o futuro para o segredo dos deuses, para confirmar a sua suspeita fundamentada: Afinal, o governo não tem "horizonte de esperança". Carlos Moedas ficou sem palavras! Lá no fundo ele também não deve apreciar a anti-política orquestrada pelo Ministro das Finanças!

J Francisco Saraiva de Sousa

terça-feira, 6 de março de 2012

Prós e Contras: Lutar ou resignar?

Helmut Newton
Não tenho comentado os últimos debates de Prós e Contras, moderados por Fátima Campos Ferreira. Em parte, isso deve-se ao facto de não acreditar no futuro de Portugal. Tal como a modelo desta fotografia de Helmut Newton, que morre de tédio de tanto esperar que aconteça alguma coisa de novo que a desperte da rotina, aborreço-me sempre que vejo portugueses ou ouço as suas intermináveis conversas patéticas. Ontem (5 de Março) o debate Prós e Contras voltou a ser dominado pelo discurso lunático dos gestores, essas tristes figuras destituídas de cultura e de experiência. Fazendo coro com o governo suicida de Passos Coelho, os gestores lunáticos promoveram a emigração como saída para a crise nacional e para o desemprego. O mais sofista deles todos até vai dar uma palestra - a pagar, claro! - para ensinar os jovens portugueses a obter vistos! Outro referiu o avião como o meio de transporte em tempos de crise! Ele não o disse, mas parece que a TAP vai ser financiada pelo governo para dar viagens grátis a todos os emigrantes portugueses! Enfim, em Portugal, ficam apenas os velhinhos a receber magras pensões e os pobrezinhos a comerem-se uns aos outros e a morrerem sozinhos em casa! E, claro, os velhos tubarões e as suas crias burras a engordar à custa do emagrecimento do Estado! (A despolitização dos jovens recém-licenciados é simplesmente chocante! Afinal, onde estão as suas supostas competências e a sua formação excelente? Que escolas são essas que formam indivíduos a-políticos? De uma coisa estou certo: escolas de excelência não são, porque deixar os seus alunos pensar que caíram de pará-quedas na terra é pura incompetência.) Não sei se devemos rir ou chorar: o que sei é que este discurso dos gestores merece figurar nos manuais de psiquiatria. O debate reforçou a minha ideia de Portugal como a terra dos loucos, onde nada de novo acontece, e, quando a racionalidade dos agentes falha, não é possível dialogar com eles: o comentário deverá assumir a forma de uma análise psiquiátrica. Ora, como não acredito no futuro desta terra de loucos, não quero desperdiçar o meu tempo a analisar comportamentos lunáticos. Bem sei que nem todos os participantes eram deslumbrados, mas a sua voz sábia foi silenciada pelo ruído neoliberal dos loucos. Apesar disso, deixo aqui um novo conceito: o neoliberalismo é uma doença psiquiátrica, que, no caso português, pretende fazer marketing de pretensas figuras portuguesas bem-formadas (sic) que arruinaram Portugal. E um desafio: os canais portugueses de televisão deviam poupar os seus públicos da presença de economistas e de gestores. O discurso dos economistas e a prática dos gestores não geram riqueza; pelo contrário, planeiam pobreza. A economia neoliberal deve aglutinar todos os seres pensantes em torno da tarefa da sua desconstrução: as escolas de economia e de gestão são escolas da mentira e do roubo. (Se este governo não for derrubado, Portugal corre o sério risco de perder de novo mais de metade do século XXI: a história repete-se nesta terra capturada por corruptos! Fechar as escolas, fechar os hospitais, suspender a justiça, abolir as forças armadas, diminuir os salários e as reformas, aumentar o tempo de trabalho não-remunerado, privatizar as empresas públicas, pagar os prejuízos privados, gerar o desemprego, fechar as fábricas, antecipar a morte dos portugueses, regressar à assistência social, obrigar a emigrar, enfim, planear a pobreza: eis as anti-políticas deste governo.)

J Francisco Saraiva de Sousa 

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Prós e Contras: Ensino Superior, Ciência e Investigação

Hospital de São João e Faculdade de Medicina
da Universidade do Porto
Os portugueses começam a discordar com o modelo competitivo de baixos salários que está a ser implementado por este governo de Direita Retrógrada: o planeamento da pobreza ameaça lançar Portugal na miséria do Estado Novo. Prós e Contras debateu (12 de Dezembro) o Ensino Superior, a Ciência e a Investigação, como aposta no futuro de Portugal. O Ministro da Educação e Ciência, Nuno Crato, apresentou a sua reforma da educação, em especial as linhas gerais da revisão da estrutura do ensino básico e secundário e a reestruturação da rede do ensino superior. No que se refere ao primeiro tópico, ficámos a saber que o ministro brindou o Português e a Matemática, a História e a Geografia com mais tempo curricular, com o objectivo de produzir jovens mais bem preparados para o ingresso na universidade. Nuno Crato considera que a cultura humanista é fundamental para as pessoas se orientarem na vida. Não vou esboçar uma história das humanidades, bastando dizer que o seu objecto principal é a própria condição humana. Mas vou mais longe para dizer que não só as ciências sociais e humanas como também as ciências da natureza devem reclamar a tradição das humanidades e incorporar-se nela: todas as ciências ocupam-se, de uma forma ou de outra, com a investigação da condição humana e do lugar do homem no mundo. A beleza da matemática, tão aplaudida por Lobo Antunes (Conselheiro de Estado), não é indiferente à condição humana, como mostrou Ana Bela Cruzeiro, investigadora portuguesa que estuda o campo das probabilidades e dos processos estocásticos. Escutando-a, fiquei com a impressão de que a matemática é, provavelmente, uma das ciências mais humanas - logo a seguir à Filosofia - do saber ocidental. O Ocidente que inventou a Filosofia e a Ciência, é hoje confrontado com a mundialização da sua ciência e da sua tecnologia: culturas estranhas ao espírito ocidental apoderaram-se delas, mas sem integrar e incorporar a sua tradição humanista. As mais importantes disciplinas das humanidades são a Filosofia e a História. Infelizmente, Nuno Crato privilegiou a História em detrimento da Filosofia, sem compreender que a pesquisa interdisciplinar implica necessariamente a intervenção crítica da Filosofia. A Filosofia construiu ao longo do tempo uma tradição crítica que moldou a matriz da civilização ocidental: anular a Filosofia implica abandonar essa tradição crítica, perder a nossa identidade cultural e praticar a ciência ao nível meramente instrumental das culturas que lhe são profundamente estranhas. A ciência praticada no Ocidente não pode perder a sua marca de origem: a tradição crítica que possibilitou o seu aparecimento. Nesta filiação originária, a ciência e a tecnologia ocidentais podem competir - de modo superior - com a ciência e a tecnologia praticadas nos espaços extra-ocidentais: a consciência como condição de liberdade é algo que marca a nossa diferença no mundo global. Os intelectuais ocidentais devem ligar organicamente a educação à libertação intelectual e política. Por isso, aprovo a intenção de reformular os currículos, de modo a eliminar o currículo oculto que destruiu a educação em Portugal: Nuno Crato foi peremptório quando afirmou que não deseja currículos fluídos; a sua intenção é introduzir currículos mais objectivos e mais exigentes, acompanhados pela avaliação rigorosa dos alunos e pela formação de professores competentes. Uma boa reforma curricular é já uma boa reforma da educação! Desejo que o ministro seja bem-sucedido nessa reforma curricular que visa introduzir rigor e exigência no ensino básico e secundário, libertando-o da tutela de professores incompetentes que - supostamente - aprenderam a ensinar sem, no entanto, saber o que ensinar aos alunos indisciplinados e mimados.

O tema que permitiu operar a transição da revisão da estrutura do ensino básico e secundário para o ensino superior foi a fusão entre a Universidade (Clássica) de Lisboa e a Universidade Técnica de Lisboa, cada uma das quais representada neste debate - moderado por Fátima Campos Ferreira - pelo seu reitor: António Nóvoa (UL) e António Cruz Serra (UTL). Segundo António Nóvoa, para quem a universidade deve ser uma instituição de mudança, mesmo em tempos de crise financeira e económica, a fusão que está a ser negociada entre as duas academias, visa fundamentalmente suprimir o fosso existente entre a Universidade Clássica e a Universidade Técnica de Lisboa, de modo a ganhar escala para conquistar massa crítica, escala ao nível da interdisciplinaridade dos saberes, ao nível da valorização económica e social do conhecimento e ao nível internacional, com intervenção privilegiada no espaço cultural dos países de língua portuguesa. António Cruz Serra reforçou esta perspectiva, destacando a competição inter-universitária, tanto a nível nacional como a nível internacional. Porém, lamentou o facto do país, em especial o governo, não estar a ajudar na tarefa de tornar as universidades portuguesas mais competitivas. A autonomia financeira e administrativa das universidades está a ser posta em questão pelo governo: os cortes cegos no financiamento das universidades - 20% de quebra do investimento público no ensino superior - podem afastar as universidades portuguesas da arena da competição internacional. As melhores universidades do mundo são aquelas que gozam de grande autonomia - autonomia essa que o governo de Passos Coelho quer cercear às universidades portuguesas. João Lobo Antunes que visitou as faculdades ligadas às ciências da vida, defendeu a fusão, alegando que ela permite criar uma universidade com escala e dimensão científica. Além disso, a fusão permite gerar projectos comuns de investigação, com ganho de massa crítica. Uma das áreas a promover nessa nova universidade urbana e internacional será, segundo Lobo Antunes, a área das ciências da vida, o grande desafio do século XXI. Quanto à medicina, Lobo Antunes disse que o grande pensamento será a ciência da translação (sic) da bancada para a cama do doente. A biomedicina lança um novo repto à educação médica: os alunos de medicina devem ser envolvidos na investigação interdisciplinar. De facto, urge introduzir a Filosofia, em especial a Filosofia Médica, no campo da biomedicina, isto é, das ciências biomédicas: a interdisciplinaridade, tão defendida neste debate, deve ser orgânica, tal como ocorreu entre a física e a matemática ou entre a física e a química ou mesmo entre a química e a biologia (biologia molecular), e não o resultado de uma mesa redonda. Althusser criticou isso quando denunciou os abusos da interdisciplinaridade na unificação artificial e externa de diversas áreas disciplinares do saber. Achei encantador o facto de Lobo Antunes ter retomado o velho conceito de ciências da vida, tão do agrado de Georges Canguilhem que esboçou a sua história científica. Fernando Ulrich (Presidente do Conselho Geral da Universidade do Algarve) desmentiu Fátima Campos Ferreira quando esta lhe atribuiu a seguinte afirmação: «A universidade formou canudos sem competências». Na presença de tantos professores universitários, Fernando Ulrich fez um balanço positivo das universidades portuguesas, como se o problema da educação portuguesa residisse mais no ensino básico e secundário do que no ensino superior. Porém, Fernando Ulrich esqueceu que os professores do ensino básico e secundário são formados - ou deformados? - no e pelo ensino superior, o que não abona a favor da sua qualidade. Da sua participação retenho as falas proferidas enquanto empregador no sector bancário: Fernando Ulrich quer - ou diz empregar - pessoas dotadas de conhecimentos e de métodos-hábitos de trabalho, capazes de enfrentar problemas - pensá-los, interpretá-los e solucioná-los de modo criativo - e de trabalhar em equipa. Enfim, um conjunto de competências que todos nós admiramos nas pessoas que trabalham connosco. Será que o ensino superior português fornece esse conjunto de competências aos portugueses?

Com esta questão, voltamos ao discurso de Nuno Crato. De modo a responder a algumas críticas dirigidas ao governo, Nuno Crato acentuou ser necessário um esforço para racionalizar os meios e produzir excelência. Além disso, afirmou respeitar e prezar a autonomia universitária - sobretudo a sua capacidade de criar e gerir os seus próprios fundos, como sucede na escola de economia e gestão, representada neste debate por Fátima Barros (Universidade Católica de Lisboa) - reclamada por António Cruz Serra, sem responder directamente à sua proposta de reorganizar o sistema de ensino superior e de financiar de forma diferenciada aquilo que é diferente ou que produz resultados desiguais, premiando as instituições universitárias que produzem melhores resultados. No domínio da ciência e da investigação científica, Nuno Crato elogiou os seus progressos tremendos, prestando homenagem aos anteriores ministros por terem incentivado projectos sustentados ao longo dos anos e contribuído para a sedução pela ciência entre os jovens portugueses. Apesar do dinheiro não ser infinito, Nuno Crato mostrou-se empenhado na tarefa de internacionalizar a ciência que se faz em Portugal: a ciência "portuguesa" deve sair da sua paróquia para entrar no território universal da ciência que se faz no mundo. Mas, para que isso aconteça em maior escala, é necessário aprender, avaliar, apostar na qualidade do ensino e da investigação nacional, cooperar e concentrar esforços. Continuidade na mudança? Nuno Crato não quer que as estatísticas deformem a realidade: o seu desejo é que as estatísticas reflictam fielmente uma realidade em mudança no sentido da qualificação real - e diferencial - dos portugueses. Por fim, acabou por esboçar uma resposta à questão relativa à reestruturação da rede do ensino superior, de resto exemplificada pela tentativa em curso de fusão das duas universidades de Lisboa. Para Nuno Crato, as universidades portuguesas devem pensar na oferta formativa e tentar - em cooperação - racionalizá-la. A palavra de ordem lançada pelo ministro foi a racionalização da rede de oferta. Esta tarefa de redimensionar a rede de ensino superior vai começar em 2012. Nuno Crato terminou o debate, fazendo uma única promessa: «Concentrar-se no essencial, apostando na excelência». Infelizmente, não posso aprofundar algumas ideias ventiladas pelos participantes neste debate, cujo desenvolvimento se encarregou do seu próprio eclipse. Espero que o sadismo das finanças não roube a palavra ao ministro da educação e ciência, submetendo a sua tutela a uma política economista restritiva!

J Francisco Saraiva de Sousa

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Prós e Contras: Cortes e Greve Geral

O Primeiro-Ministro de Portugal, Pedro Passos Coelho, foi recentemente peremptório quando afirmou que toda a sua política geral consiste em empobrecer Portugal para consolidar o orçamento do Estado. Manuel Carvalho da Silva (CGTP) sacou desta afirmação o elogio dos cortes, do desemprego galopante e das políticas recessivas. O debate Prós e Contras (22 de Novembro) debruçou-se basicamente sobre o mercado do trabalho, tendo como pano de fundo a greve geral que vai realizar-se no próximo dia 24 de Novembro. As associações sindicais - Carvalho da Silva (CGTP) e João Proença (UGT) - e patronais - António Saraiva (CIP) e Pedro Ferraz da Costa (Fórum para a Competitividade) - reconheceram a falência da concertação social, pela qual responsabilizaram o actual governo de Direita, e, sobretudo através da voz de Ferraz da Costa, acusaram o governo de não ter uma linha política de rumo definido, ideia que foi reforçada por António Saraiva para mostrar que, sem uma perspectiva de futuro, os portugueses não compreendem a gravidade dos sacrifícios que lhes são exigidos pelo plano acordado entre o Primeiro-Ministro e o Ministro das Finanças, sem a participação dos restantes membros do governo. Ninguém está satisfeito com as políticas de empobrecimento do governo chefiado por Passos Coelho e quase todos pensam que elas vão mergulhar rapidamente o país na recessão e no caos. Além disso, foram unânimes a condenar a troika: João Proença lembrou que a troika falhou redondamente na Grécia, o que demonstra que as políticas de consolidação orçamental - políticas de cortes - não conduzem a nada. Para Carvalho da Silva, a troika é o governo dos agiotas e dos credores de Portugal, e, para António Saraiva, a fórmula macro-económica da troika não se adapta à realidade micro-económica das empresas portuguesas. Todos os convidados de Fátima Campos Ferreira condenaram a ideia proposta pela troika de cortar os salários no sector privado. Com as políticas recessivas que o governo está a implementar, indo para além da troika, Portugal não vai crescer nos próximos anos. Jorge Bacelar Gouveia que não é um homem de esquerda, vai fazer greve no dia 24 de Novembro, colocando-se ao lado das duas confederações sindicais portuguesas. De resto, o debate foi monótono e repetitivo, sem acrescentar nada de novo ao que já todos sabemos. Ferraz da Costa propôs um outro debate para discutir a tal "linha de fundo para a competitividade", mas esqueceu que a sociedade portuguesa não está estruturalmente organizada para promover o mérito e a competitividade. O mal português é radical e, sem a ajuda inteligente de uma série de catástrofes naturais selectivas, não vejo futuro para Portugal. Os portugueses têm o que merecem: a inutilidade humana dos portugueses evidencia-se na sua incapacidade de resolver os problemas, virando a página. Discutir os mesmos problemas, ano após ano, não abona a favor da inteligência dos portugueses. Comentar a eterna repetição dos mesmos problemas empobrece a mente de um ser inteligente. Portugal não tem futuro e suspeito que a situação portuguesa seja equivalente à situação grega. Um povo que nunca produziu uma Filosofia não pode ter futuro: o Portugal Real é-nos mostrado diariamente na Secret Story 2 ou Casa dos Segredos (TVI). O resto é um bando horrível de Duarte's Lima's!


J Francisco Saraiva de Sousa 

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Prós e Contras: Quem decide os medicamentos que tomamos?

O debate Prós e Contras (14 de Novembro) foi uma sessão de pugilismo entre o Bastonário da Ordem dos Médicos, José Manuel Silva, e o Bastonário da Ordem dos Farmacêuticos, Carlos Maurício Barbosa, com a autoridade burocrática do Presidente do Infarmed, Jorge Torgal, a ser alvo da suspeita crítica. Tudo isso tendo como pano de fundo a lei de prescrição por denominação comum internacional (DCI): a prescrição médica por princípio activo que, nas farmácias, pode ser trocado por um genérico à escolha do farmacêutico, em função da disponibilidade financeira do doente. Ambos os bastonários afirmaram representar o ponto de vista do doente, mas com uma diferença abismal: o médico está mais próximo do doente do que o farmacêutico e, sobretudo, neste caso em particular em que Carlos Barbosa e Jorge Torgal tomaram o partido do governo neoliberal de Passos Coelho, cuja política da saúde (sic) visa mais a poupança do que a qualidade dos cuidados médicos. José Manuel Silva adoptou a atitude correcta: a suspeita crítica. Pouco importa que a instituição dirigida por Jorge Torgal siga as regras impostas pelas organizações europeias: o facto de não divulgar os dados de biodisponibilidade não abona a seu favor. Procedimentos burocráticos não são procedimentos científicos e, o que é deveras importante salientar, em última análise, não há decisões científicas. Usar a ciência para justificar medidas burocráticas ou comerciais é um atentado contra o espírito científico. Sem uma filosofia da saúde, não há verdadeiramente política da saúde: o actual governo não tem uma política de saúde. Cortar nas despesas do sistema de saúde não constitui uma política da saúde, e não adianta dizer que este projecto de lei devolve ao doente a decisão final. Com a miséria crescente incrementada pelas políticas neoliberais, o doente é forçado a escolher os medicamentos mais baratos, os genéricos, mesmo que o seu médico lhe tenha dito que a sua eficácia terapêutica seja menor do que a do medicamento de marca equivalente. Em situação de pobreza, não há autonomia do doente: o governo está a criar uma clivagem entre dois serviços de saúde, um para os ricos que preferem os medicamentos de marca, como é evidente, e outro para os pobres que não têm outra alternativa a não ser os genéricos mais baratos do mercado. Neoliberalismo significa empobrecimento e, no que se refere à saúde, morte precoce por falta de cuidados médicos excelentes e de tratamentos adequados. Como já demonstrei noutras ocasiões, é necessário introduzir a disciplina de Filosofia Médica na educação médica, criando um Departamento Multidisciplinar capaz de orientar os médicos no campo da política da saúde na sua articulação com todas as outras políticas sectoriais: o exercício da crítica é uma actividade filosófica que se adquire quando se aprende a olhar para a saúde no seu contexto social mais vasto. Sem filosofia médica não podemos elaborar um pensamento médico capaz de zelar pelos interesses do doente num mundo capitalista que fez da saúde um negócio lucrativo. A Filosofia enquanto crítica da ideologia ajuda a desmistificar os interesses de classe e de corporação que movem o projecto neoliberal, cuja finalidade última é desmantelar o Estado Social, começando desde logo por favorecer o aumento da taxa de mortalidade. O neoliberalismo é profundamente necrófilo e as suas colorações tecnocráticas facilitam a tomada de decisões terroristas que visam executar o extermínio dos mais desfavorecidos e dos pobres. 


A discussão girou basicamente em torno dos medicamentos de marca versus genéricos. Convém salientar desde já que a Ordem dos Médicos não é contra a prescrição de genéricos: o mercado de genéricos estabeleceu-se em Portugal em 2002 e, desde então, tem estado em crescimento. Em nome da promoção do mercado de genéricos, Carlos Barbosa ridicularizou a metáfora do "Bacalhau à Brás" usada por uma médica de hipertensão para diferenciar os medicamentos de marca dos genéricos, afirmando que os médicos não sabem do que falam. Mas podemos substituir essa metáfora por outra imagem: a do mercado da arte, onde o original - o medicamento de marca - vale mais do que as suas cópias ou reproduções - os genéricos. Se uma reprodução técnica perde a aura da obra de arte original, o genérico perde a eficácia terapêutica do medicamento de marca, cujo valor inclui a investigação clínica necessária para o testar. Medicamentos de marca e genéricos não são rigorosamente equivalentes, no sentido de serem "iguais" na sua composição molecular e na sua eficácia clínica, como demonstraram os médicos presentes neste debate: os genéricos tendem a distanciar-se dos medicamentos de marca, embora utilizem o mesmo princípio activo. Diversas "medidas" permitem avaliar esse distanciamento, como por exemplo a bioequivalência (usada para comparar as biodisponibilidades de dois medicamentos considerados equivalentes) e a biodisponibilidade (a ferramenta fundamental da farmacocinética que permite avaliar a eficácia clínica do medicamento). Os doentes não possuem conhecimentos farmacológicos, médicos e estatísticos - quem sabe o que é um intervalo de confiança! - suficientes para avaliar estas diferenças de fabrico, de formato e de composição (os excipientes utilizados e as quantidades do princípio activo, por exemplo): os médicos e os farmacêuticos devem ajudar o doente a decidir, mas para o fazerem precisam ter acesso a informação não disponibilizada pelo site do Infarmed. Como é que o bastonário da Ordem dos Farmacêuticos justificou os preços mais baixos dos genéricos? Carlos Barbosa definiu o genérico como o "mesmo" (sic) medicamento sem o custo da investigação clínica, para explicar a diferença de preços entre medicamentos inovadores e genéricos. Mas quando acusou a Ordem dos Médicos de ser contra os genéricos, criticando primeiro a sua qualidade, depois a bioequivalência e agora a cor e o formato dos comprimidos, esqueceu que os médicos não lucram nada com a venda dos medicamentos: a preocupação fundamental dos médicos é zelar pela saúde dos seus doentes, sejam eles pobres ou ricos, sem deixar que a última palavra seja dada aos farmacêuticos, que - esses sim! - vivem da venda dos medicamentos. No entanto, embora seja evidente que Carlos Barbosa alinha politicamente com as políticas neoliberais do actual governo, não lhe quero atribuir uma conduta de má-fé, até porque a sua definição de genérico evidencia a clivagem social existente: os portugueses ricos tratam-se com medicamentos de marca, enquanto os portugueses pobres são forçados a consumir genéricos baratos, muitos dos quais não foram testados. Ou seja: o crescimento do mercado de genéricos - muitos dos quais importados da Índia ou da China - resulta do empobrecimento dos europeus. Na verdade, não há escolha: doravante, o consumo generalizado e extensivo de genéricos pode ser usado como índice do empobrecimento geral de Portugal.

J Francisco Saraiva de Sousa

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Prós e Contras: O Euro à beira do Abismo

Brain: tudo o que falta aos portugueses!
«Na URSS, a violência e a fraude são (eram) oficiais, a humanidade existe (existia) na vida quotidiana. Nas democracias, pelo contrário, os princípios são humanos, mas a fraude e a violência encontram-se na prática. A partir daí, a propaganda possui vasto campo de manobra.» (Maurice Merleau-Ponty)

Prós e Contras (7 de Novembro) debateu o futuro do euro, deixando a impressão geral de que os participantes desconhecem a realidade efectiva portuguesa. Para denunciar esse desconhecimento, escolhi a imagem azul da fonte orgânica do conhecimento: o nosso órgão da vida em relação. Penso que, pelo menos, dois dos convidados de Fátima Campos Ferreira - João Ferreira do Amaral e António Hespanha - estarão, de certo modo, em sintonia com esta escolha imagética, na medida em que ambos defenderam a necessidade de discutir localmente - nalguma gruta subterrânea - alternativas ao chamado Plano A, de resto imposto pela troika. Pedro Santa-Clara assustou-se com a proposta de saída concertada de Portugal da zona Euro, avançada por Ferreira do Amaral que já tinha criticado a nossa entrada nessa zona. Pedro Santa-Clara acredita em milagres externos e, tal como a avestruz, esconde a cabeça na areia quando é desafiado a pensar alternativas. João Borges de Assunção favoreceu o fatalismo, lembrando que, neste momento, Portugal está dependente do pensamento externo. Não preciso perder mais tempo para mostrar que os intelectuais portugueses são incapazes de pensar o futuro de Portugal, o que não abona a favor da sua tese da excelência (sic) das universidades portuguesas, a mentira fatal que irá mergulhar o país no limbo obscuro. Quando afirmou - e com razão - que todos os portugueses - governantes e governados - são responsáveis pela situação de falência total em que se encontram, Borges de Assunção - para ser coerente - não podia excluir desse conjunto a população universitária a que pertence. As universidades portuguesas - tal como as restantes instituições sociais, públicas e privadas - nunca se pautaram pelo mérito, a começar desde logo pelo recrutamento de docentes: Portugal é uma fraude malvada atravessada de lés a lés pela corrupção. E é por ser uma fraude malvada, uma cloaca comportamental, que se encontra na situação em que está: a maldade patológica dos portugueses conduziu o país até ao abismo. A crise externa limitou-se a precipitar a sua queda, confrontando os portugueses com a sua própria estupidez diplomada. Observado a partir das alturas de uma nave extraterrestre, Portugal não merece ser salvo: tudo o que virá a acontecer aos portugueses será justo, profundamente justo. Ao contrário do que se diz nestes debates, os portugueses não desfrutam de boa-fama no estrangeiro. De facto, conversando com um português, é muito difícil sentir simpatia por ele. Para haver criação genuína, é preciso afastar os portugueses, que, como se sabe, além de serem malvados e invejosos, se comportam como macacos imitadores, sem compreenderem realmente aquilo que imitam: o voluntarismo histérico dos portugueses é o sinal mais evidente da sua fatal indigência mental e cognitiva. A única maneira que encontro de ajudá-los é oferecer-lhes umas orelhas de burro, na vã esperança de que esse estigma os liberte da sua malvadez. O discurso que diz a verdade magoa, mas, sem ele, não é possível pensar o futuro novo. Há alternativas demasiado evidentes, mas não há vontade para as partilhar com pessoas malvadas: os malvados devem ser punidos e não ajudados. Portugal está sozinho e sem desculpa, estando a colher o que semeou ao longo destas últimas décadas de delírio nacional. O Norte estigmatiza o Sul latino e, à luz da sabedoria imparcial da nave extraterrestre, não há nada que abone a favor da causa dos países do Sul: Grécia, Portugal, Itália e Espanha, bem como a França. (Delfim Leão abordou o problema grego como se a Grécia de hoje fosse a Grécia Antiga. Ora, não é e, por isso, não vale a pena perder tempo com essa quimera.)


A única "grande novidade" deste debate - aquela que merece ser pensada e discutida - é a já conhecida saída de Portugal da zona Euro. Ferreira do Amaral foi peremptório: o projecto político da zona euro está morto, alegando duas razões: nenhum país devia entrar em incumprimento e o domínio da Alemanha, com a sua política da moeda forte. A situação aflitiva da Itália não permite a continuação da zona euro, porque a Europa não tem meios para a ajudar, como ficou demonstrado nesta última cimeira do G20, onde os lideres europeus se insultaram uns aos outros. O problema da dívida da Itália é "ingerível" não só para os próprios italianos, como também para a Europa. A desagregação do euro entrou em ritmo acelerado e a única solução para a travar seria o BCE emitir dinheiro para ajudar os países em dificuldade. Mas, como essa solução implica uma moeda fraca, a Alemanha opõe-se. Coube a Pedro Santa-Maria recusar esta proposta de saída da zona euro, alegando contra ela a falência do sistema financeiro, entre outros pormenores. O que ele parece não ter compreendido é um princípio muito simples, que Ferreira do Amaral enunciou deste modo: o afunilar do debate nacional pode ser fatal para o futuro de Portugal. Deixar correr o tempo significa perder alternativas e, quando for necessário tomar uma decisão radical, já não haverá alternativas a não ser a catástrofe, como sucedeu com a descolonização. Ferreira do Amaral e António Hespanha defenderam a necessidade de debater alternativas, isto é, os Planos B's, mas os outros dois convidados preferiram apostar no pensamento táctico, sacrificando o pensamento estratégico. Para Borges de Assunção, Portugal não tem outra alternativa a não ser caminhar o caminho estreito para chegar ao fim, fim este que não está garantido. Angela Merkel afirmou que esta crise vai demorar dez anos para ser resolvida: o que quer dizer que, daqui a dez anos, não haverá economia, estando toda a Europa mergulhada no caos. É muito difícil pensar novas alternativas sem questionar o capitalismo que gera as crises: o que devia estar em questão é o próprio destino do capitalismo. A receita proposta por Pedro Santa-Clara - reduzir o nível de vida e aumentar o nível de produção - mais não é do que uma tentativa de prolongar a vida do moribundo, sacrificando as pessoas. Repare-se que não estou a impugnar a própria receita ou mesmo as restantes medidas micro-económicas propostas por Pedro Santa-Clara, como por exemplo forçar a EDP a reduzir os custos da electricidade: o que estou a fazer é dar razão a António Hespanha quando afirmou que esta discussão já dura há mais de um ano sem ter gerado qualquer aquisição positiva. De resto, não concordo estruturalmente com nenhuma das análises apresentadas, porque todas elas partem de um conhecimento insuficiente da realidade nacional e internacional, baseado em estatísticas forjadas para manipular a realidade em função de uma determinada perspectiva do mundo, precisamente aquela que está em crise. Para descobrir uma saída para a crise profunda em que vive, o Ocidente precisa de realizar a auto-crítica do seu legado histórico-civilizacional. Meus amigos, há um conhecimento que quero partilhar convosco: a tecnologia não é, em si mesma, neutral. A tecnologia está a conduzir o mundo à catástrofe final: tudo aquilo que se atribui ao progresso tecnológico como se fosse uma conquista civilizacional é uma fatalidade. Ao contrário do que pensam os convidados de Fátima Campos Ferreira, o prolongamento da vida humana não é uma bênção; pelo contrário, é uma maldição que condena o Ocidente ao eclipse civilizacional. O Estado Social está em crise porque - entre tantas outras razões - os europeus prolongaram exageradamente a sua vida, bloqueando a própria renovação da vida e da sociedade em nome de direitos adquiridos. (Usar a Constituição para garantir os direitos de uns - os que beneficiaram com o estado de alucinação nacional - e entregar o destino dos outros à miséria é um procedimento pouco democrático e pouco solidário, procedimento que o movimento europeu dos magistrados públicos deseja cristalizar com a sua "autonomia": o resultado seria a institucionalização do regime ditatorial dos juízes. Porém, talvez apercebendo-se desse perigo, António Hespanha vacilou na sua defesa dos direitos adquiridos e atacou a seguir o sistema de justiça português. A democracia é, nas actuais circunstâncias, letra morta! O exército que António Hespanha deseja abolir tem uma missão: livrar o país dos malditos que o bloqueiam para conservar os seus privilégios pornográficos!) Há, portanto, soluções alternativas desde que se tenha a coragem para romper radicalmente com a irracionalidade do próprio capitalismo. O mundo novo não se constrói com velhos! A luta do homem senil contra a lógica da vida está condenada à catástrofe.


J Francisco Saraiva de Sousa 

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Prós e Contras: O Orçamento que todos temíam

Terreiro da Sé do Porto ao pôr-do-sol
Fui tentado a colocar uma imagem de pobreza, mas depois pensei que não valia a pena dar visibilidade a uma realidade cruel vivida diariamente pelos portugueses, preferindo a beleza do pôr-do-sol contemplado a partir do Terreiro da Sé-Catedral do Porto. No contexto deste debate Prós e Contras (17 de Outubro) sobre o Orçamento terrorista de Estado apresentado por este governo neoliberal de extrema-direita, ele representa o fim de um mundo, um mundo de ilusões que alucinou de tal modo os portugueses que toldou a sua mente consciente e crítica, impedindo-os de ver que o futuro de Portugal estava a ser sistematicamente sacrificado para engordar as elites do poder. Os convidados de Fátima Campos Ferreira começaram por apresentar perspectivas diferentes: João Cantiga Esteves (economista neoliberal), Carlos Moreno (juiz jubilado) e o Padre António Vaz Pinto foram, pelo menos inicialmente, simpáticos em relação ao orçamento de Estado, mas depois de terem escutado as dificuldades e as aflições reais dos convidados da plateia, mudaram de perspectiva, acabando por alinhar - de certo modo - ao lado de Carlos Carvalhas (economista do PCP) e condenando a incapacidade deste governo para apresentar sinais concretos de esperança, ou seja, um programa de crescimento e de desenvolvimento económicos. O governo liderado por Passos Coelho governa há pouco mais de 100 dias e, no entanto, já ninguém acredita nele. D. Januário Torgal Ferreira classificou este orçamento de Estado como terrorismo: o governo está a empobrecer os portugueses e a lançar a economia em recessão, assaltando os seus bolsos sem se preocupar se eles têm dinheiro para se alimentar. O PSD deve ser responsável pelas medidas mais neoliberais que foram recolhidas pela troika: a sua sede pelo poder levou-o a denegrir Portugal perante os mercados financeiros numa espécie de campanha terrorista contra o anterior governo e, o que é pior, contra o próprio povo português. O memorando da troika radicalizado foi sempre o programa de governo do PSD. O alheamento e a fantasia letal dos cidadãos portugueses não lhes permitiu ver que estavam a ser novamente enganados: eles votaram em massa no partido que hoje os lança sem dó nem piedade na pobreza, na miséria, na doença e na ignorância. O terror está instalado em Portugal e, se não houver uma mudança radical na Europa, os portugueses vão regressar aos tempos mais miseráveis da sua história, mas desta vez sem dignidade e sem desculpas. Os portugueses em geral - e os professores em particular - são culpados pela situação de miséria material e mental em que vivem: eles permitiram a troco de umas migalhas que as elites do poder - sediado em Lisboa - desgovernassem Portugal, sacando-lhe toda a riqueza em benefício próprio. Alguém na manifestação dos indignados que ocorreu no Porto usou a expressão certa para caracterizar as elites do poder: Ali Babá e os quarenta ladrões. A corrupção é a doença das elites do poder portuguesas.


Portugal é um país profundamente desigual e assimétrico em termos sociais e de acesso ao poder. A ilusão de riqueza foi gerada pelo próprio poder político e económico em conluio com a comunicação social lisboeta. Os canais privados de televisão alimentaram a alucinação colectiva através das suas telenovelas, da sua publicidade e de toda a sua agenda: o novo-riquismo é uma invenção fantasiosa lisboeta difundida para todo o país sem levar em conta as assimetrias regionais. A III República está a ser um fracasso total e a única coisa boa que ela produziu - o sistema nacional de saúde - vai ser destruída pela agenda neoliberal deste governo. Carlos Moreno - o juiz jubilado - fez questão em afirmar que a sua intervenção neste debate seria uma intervenção "sem ideologias". Ora, esta é a mais terrível das ideologias: a ideologia que tenta olhar para a realidade social a partir de uma espécie de observatório extraterrestre. Claro que Carlos Moreno foi ágil a criticar tudo e todos sem ter colocado no banco dos réus a corporação a que pertence: a maior vergonha da democracia portuguesa é o sistema judicial, em especial o Ministério Público que age de um modo absolutamente terrorista. O Ministério Público é a Al-Qaeda de Portugal. Se fosse um observador universal, Carlos Moreno devia ter denunciado as práticas terroristas deste sector da sua própria "família profissional", uma das principais responsáveis pelo atraso económico de Portugal. A intervenção de Carlos Moreno traz a mancha negra da sua corporação: os portugueses não acreditam nos seus magistrados públicos, cuja acção terrorista consiste em fabricar bruxas para depois as tentar caçar. A ideologia que se apressa demasiado rapidamente a negar o seu carácter ideológico é a mais mentirosa de todas as ideologias. Daí a ambiguidade estrutural do discurso de Carlos Moreno: «Um orçamento violento e inesperado que provocou angústia e medo do futuro». No entanto, Carlos Moreno admira este orçamento violento, alegando ser um orçamento de verdade e de coragem. Coragem no sentido do governo ter perdido o seu estado de graça, e verdade no sentido de assumir o descalabro e a irresponsabilidade das finanças públicas portuguesas. Com este orçamento violento, termina a era das ilusões portuguesas. O governo fez a sua própria opção: cortar as despesas públicas, liquidar a economia e empobrecer Portugal. Mas Carlos Moreno vai mais longe quando une a sua voz à voz da sua corporação terrorista: é preciso responsabilizar e talvez enviar para a prisão os responsáveis pelo descalabro das finanças públicas. A caça às bruxas foi o único sinal de esperança dado por Carlos Moreno que, tal como os seus colegas do Ministério Público, sonha com uma "democracia judicial", ou melhor, com uma ditadura judicial. Uma coisa é certa: Carlos Moreno não é democrata e a sua cultura jurídica é claramente inquisitorial! Outra voz que se uniu à voz do governo foi a de João Cantiga Esteves, que interpretou o orçamento como a chegada da factura do despesismo descontrolado e o desmentido da negação socrática da estagnação da economia portuguesa. Como não há financiamento da economia, Portugal está dependente do apoio da troika. Este é o orçamento da verdade e do rigor para os portugueses: o sadismo de Cantiga Esteves leva-o a congratular-se com o fracasso do modelo económico e do modelo social portugueses. É com prazer sádico que ele afirma que o Estado Social é insustentável: Cantiga Esteves quer punir os portugueses e privá-los dos benefícios sociais. O que ele lamenta na acção deste governo é o facto de estar a desmantelar e a desmontar o Estado Social "pela calada": Cantiga Esteves quer que o governo privatize abertamente a educação, a saúde e a segurança social, dizendo aos portugueses o que vem a seguir. O que vem a seguir? A pobreza e a miséria, a dor e o sofrimento, a angústia e o desespero, a doença e a morte, claro! Quando afirma que "tudo vai acabar", Cantiga Esteves quer dizer que vem aí a pobreza como sistema social e como forma de vida. Reinventar uma nova forma de estar é, nesta perspectiva sádica, adaptar os portugueses à pobreza e à miséria. Que sinais de esperança concreta nos deixaram Carlos Moreno e Cantiga Esteves? A situação de crise exige mudança de paradigmas, como é evidente, mas a ditadura judicial e a pobreza propostas por estes dois profetas da desgraça não são solução para o futuro: os portugueses deviam privar os profetas da desgraça dos privilégios que lhes foram conferidos pelo Estado Social. O ambiente em Portugal seria muito mais leve se nos libertássemos destas vozes da desgraça. De certo modo, Carlos Carvalhas - e, em menor grau, António Vaz Pinto - contribuíram para esta tarefa nacional ao defenderem que é preciso mais tempo para reduzir o défice e renegociar a dívida. Carlos Carvalhas é contra a austeridade, alegando que este orçamento vai produzir falências em série, especialmente no domínio da restauração bem representado por Celeste Jorge, desemprego galopante e catástrofe. Deste modo, Carlos Carvalhas desmistificou os discursos ideológicos de Cantiga Esteves e de Carlos Moreno, apresentando dados que refutavam as teses empíricas destes profetas sádicos da desgraça. Como já tinha dito, ninguém duvida da necessidade de reinventar a sociedade portuguesa: o desacordo começa quando se discute a nova sociedade que os portugueses querem construir. Ora, no que se refere à construção de uma nova sociedade, o debate foi muito pobre: a Europa está a sacrificar as novas gerações para conservar os benefícios das gerações mais velhas. Esta é uma política de suicídio ocidental: o futuro não pertence aos velhos mas sim aos mais novos. Hoje a luta contra o sistema deve ser protagonizada pelos jovens, de preferência por jovens inteligentes, cultos e politizados. 

J Francisco Saraiva de Sousa 

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Prós e Contras: Austeridade não basta

Depressão
«A ignorância do passado não se limita a prejudicar o conhecimento do presente; compromete, no presente, a própria acção». (Marc Bloch)


Hoje a perplexidade tomou conta de mim enquanto escutava os intervenientes do debate Prós e Contras (10 de Outubro), moderado por Fátima Campos Ferreira: Manuel Pedro de Magalhães (médico), Elísio Estanque (sociólogo), Paulo Trigo Pereira (economista), Pedro Lains (economista), Manuel Forjaz (economista) e Américo Baptista (psicólogo) deram voz à cidadania para discutir a triste situação portuguesa.  Há, no entanto, uma ideia que desejo expressar desde já: a Felicidade tão aplaudida por Américo Baptista para justificar o emprego dos psicólogos - aumentando a despesa sem trazer ao mundo qualquer tipo de mais-valia ôntica - é a ideia mais desgraçada alguma vez inventada pela humanidade. A procura da felicidade é o caminho mais curto para o insucesso, a frustração e a desgraça. A expressão Economia da Felicidade é um oxímoro: o resultado dessa tentativa néscia de colocar a economia e a sociedade ao serviço desse X que é a felicidade é uma espécie de economia libidinal, uma economia em que há emprego mas não há trabalho, uma economia em que se consome mais do que se produz, uma economia em que há mais direitos do que deveres e obrigações, enfim uma economia ociosa em que os empregados utilizam as novas tecnologias para conquistar novos parceiros sexuais, o que só por si evidencia que não são pessoas saudáveis e realizadas. O quadro económico e financeiro esboçado por Paulo Trigo Pereira denuncia a irracionalidade deste tipo de economia mágica que foi implementado em Portugal nas últimas décadas, pelo menos desde a sua adesão à CEE (Pedro Lains). Quase todas as políticas públicas promovidas para aumentar artificialmente o bem-estar dos portugueses tiveram um efeito contrário ao pretendido: geraram e agravaram a pobreza material e a indigência cognitiva e produziram um país improdutivo, consumista, alucinado, alienado nas e pelas novas tecnologias e, facto curioso!, deprimido. Em vez de superar o seu atraso estrutural e histórico, Portugal lançou-se num empreendimento de suicídio colectivo: o endividamento, a fórmula mágica escolhida para simular ser aquilo que nunca foi - um país estruturalmente desenvolvido, levou-nos à crise profunda que vivemos. O Estado altamente protector (Elísio Estanque) construído pelos portugueses nestas décadas de alucinação colectiva bloqueou a sociedade portuguesa. Portugal vai empobrecer significativamente nos próximos anos, como frisou Paulo Trigo Pereira. As medidas propostas por Manuel Pedro de Magalhães - aumentar o número de horas de trabalho, de modo a melhorar a produtividade, e a punição, tendo em vista premiar o mérito - justificam-se desde que enquadradas num novo projecto de desenvolvimento económico e cultural nacional. 


Agora que nos libertámos das estatísticas dos indicadores de felicidade, podemos demolir outros mitos. Dizem que hoje as novas gerações estão mais preparadas do que as gerações anteriores, como se o aumento do número de diplomados e de sobre-diplomados significasse maior competência. Ora, todos sabemos que o sistema de ensino entrou em crise há muito tempo: as universidades produzem diplomas em série e, hoje em dia, até mesmo um "atrasado mental" pode obter facilmente um diploma. Diplomar artificialmente os portugueses não foi e não é uma política racional. Sou solidário com os protestos de rua organizados pelos movimentos dos indignados, mais por razões ideológicas do que por razões de confiança na sua capacidade para alterar qualitativamente o mundo: sei que os seus membros não possuem conhecimentos efectivos e capacidade crítica; os seus diplomas não garantem a sua qualificação. Bolonha produziu um aborto monstruoso: um número excessivo de diplomados sem qualificações, isto é, de analfabetos diplomados. O problema dos mais jovens, muitos dos quais ainda fingem ser "ricos", como se no mundo de amanhã fosse possível continuar a viver da magia da engenharia financeira, é o desemprego. Em Portugal, as empresas não produzem empregos suficientes e, muito menos, empregos para pessoas alucinadas e iludidas com as suas próprias capacidades, direitos e competências. O emprego duro poderia funcionar como uma escola de reaprendizagem, dando-lhes aquilo que não receberam na sua escolarização formal: algumas competências, alguns conhecimentos, alguma experiência de vida. A falsa qualificação das gerações mais jovens não garante o futuro de Portugal. A maior parte deles sonha com o emprego "seguro" nalgum sector do Estado: eles desejam prolongar a carreira que os seus pais e avós fizeram na função pública, sem terem consciência de que o Estado ficou cativo da geriatria instalada, a qual lhes hipotecou o futuro. A situação é completamente negra, e o aumento da idade da reforma, em vez de libertar o futuro, nega-o em nome da própria inviabilidade, como demonstrou Paulo Trigo Pereira: o aumento da esperança de vida é, nestas circunstâncias, letal para o futuro de Portugal e da Europa. Manuel Forjaz acha graça ao facto dos "nossos filhos poderem vir a viver até aos 95 anos", esquecendo que para isso seria necessário conservar a qualidade dos serviços prestados pelo SNS. A sua formação económica tolda-lhe a mente, impedindo-a de antecipar cenários futuros, com conhecimento do passado. Quando aconselhou o seu filho a aprender chinês, o único cenário que brilhou na sua mente foi a catástrofe do Ocidente: o triunfo da China sobre um Ocidente envelhecido. Porém, Manuel Forjaz ventilou outra ideia que favorece o ocaso do Ocidente: o discurso contra as Humanidades, aquilo a que chamou as ciências humanas, que, segundo ele, não dão emprego. Bem, o ensino das Humanidades foi vítima da irracionalidade das políticas da educação, mas não é este aspecto que me preocupa aqui: Manuel Forjaz esquece que não são as "ciências técnicas" que dão sentido ao mundo; pelo contrário, desde que se apostou exclusivamente nelas, a marcha do mundo para a catástrofe não tem parado de acelerar o seu passo. Aquilo que garante a unidade da matriz da civilização ocidental são as Humanidades e, de modo especial, a Filosofia, a ponto de podermos dizer que o Ocidente é uma invenção filosófica. O que nos deve preocupar neste momento de crise é o facto de algumas potências emergentes adoptarem a ciência e a tecnologia do Ocidente abdicando da sua Filosofia. A minha perplexidade deve-se ao facto dos convidados de Fátima Campos Ferreira mostrarem desconhecer a nossa História: o imediatismo - em associação com o egoísmo atroz - paralisou a única actividade nobre do homem - o pensamento. A crise de valores de que tanto fala Fátima Campos Ferreira mais não é do que a crise de sentido. Um futuro sem pensamento: eis o rosto do próprio terror!

J Francisco Saraiva de Sousa

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Prós e Contras: A Reforma do Poder Local

«À pergunta liminar - se o ensino deve ser filosófico - respondo enfaticamente que sim. Em meu juízo, a ideia de que dissocio educação e filosofia só pode ocorrer aos indivíduos, ou pouco atentos, ou que consideram esta última sob um aspecto demasiado abstracto, não na sua parte mais humana, onde a actividade filosófica - da mais viva origem e do mais largo interesse - implica com necessidades sociais e é uma teoria da educação. /A filosofia, estritamente, só se origina no momento em que a crise da Cidade acarreta a crise da Educação...» (António Sérgio)


Prós e Contras debateu (3 de Outubro) a reforma do poder local, tendo como convidados principais Miguel Relvas (Ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares) e Fernando Ruas (Presidente da Associação Nacional de Municípios Portugueses), além de um vasto leque de representantes do poder municipal. Como seria de esperar - afinal estamos em Portugal! -, o poder local falou praticamente a uma só voz, opondo-se à reforma do poder local. A primeira impressão deste debate diz-me que o poder local parece funcionar como uma rede de dependências que se serve da solidariedade social para justificar o injustificável. Um só exemplo: um Presidente de Junta de Freguesia contou que hoje um indivíduo de 35 anos foi ter com ele para lhe dizer que tinha tentado suicidar-se e ele, como bom-samaritano que é, em vez de contactar alguém que lhe pudesse arranjar um emprego, reconduziu-o a um psiquiatra. Eis um exemplo de como alguns presidentes de juntas resolvem os problemas das populações da sua freguesia. Outro bom exemplo é aquele em que constroem piscinas ou pavilhões multiusos numa freguesia ou num município do interior envelhecido e desertificado. Oh, estou a ser duro: coitadinhos dos velhinhos e do meio rural que abandonou a agricultura para viver da solidariedade nacional. E o que pensar das inúmeras rotundas construídas nas pequenas e médias cidades do interior? Há uma ideia que não deve ser esquecida quando se luta pelo desenvolvimento do país: as zonas ou regiões mais avançadas de Portugal não podem ser sacrificadas para socorrer as zonas ou regiões improdutivas e parasitárias. Convém aceitar de uma vez por todas o carácter desigual do desenvolvimento no contexto do capitalismo: privar as zonas ricas do dinheiro para o distribuir pelos improdutivos empobrece o próprio país, tirando-lhe toda a competitividade. O regime de solidariedade nacional mergulhou-nos no abismo e o problema da pobreza, em vez de ser resolvido, agravou-se. As dificuldades sentidas no Norte - a região mais produtiva de Portugal - resultaram dessa política fraudulenta de empobrecer o Norte para enriquecer falsa e fraudulentamente o Sul que, pelas características endógenas das suas populações, carece de vocação para o desenvolvimento. Vejam o caso da região autónoma da Madeira: o betão de Alberto João Jardim trouxe riqueza ao país? Não: o que trouxe foi endividamento e pobreza. Os três poderes - o central, o regional e o local - não contribuíram para o desenvolvimento nacional: solidariedade social não é desenvolvimento cultural e económico. E, no entanto, os madeirenses votam constantemente em Alberto João Jardim: deve ser "bom" viver à custa dos outros! Os portugueses não pensam em termos nacionais e, por isso, não conseguem dar uma resposta adequada aos desafios da globalização. As poucas plataformas de desenvolvimento existentes em Portugal foram - nas últimas décadas - desmanteladas para alimentar a improdutividade nacional: a inveja patológica dos portugueses reproduz a própria pobreza que se tornou evidente quando as torneiras de financiamento externo se fecharam. Associado à inveja patológica, desenvolve-se o espírito de imitação tão típico dos portugueses: o resultado é a indiferenciação. A monotonia das paisagens lança-nos fatalmente na indiferenciação e na miséria material e mental.


O problema nº. 1 de Portugal é fundamentalmente um problema de desenvolvimento: primeiro, de desenvolvimento cultural das suas populações e, segundo, de desenvolvimento económico. Estas duas facetas do desenvolvimento implicam-se reciprocamente. Em Portugal, o que trava o desenvolvimento económico são os próprios portugueses. A tese que tenho estado a defender pode ser enunciada do seguinte modo: era mais fácil transformar qualitativamente Portugal antes de 25 de Abril do que depois de 25 de Abril. Visto a esta distância e à luz da actual situação de crise nacional, o 25 de Abril foi uma catástrofe nacional. Hoje, graças à pseudo-educação que temos, os portugueses funcionam como empata-mudanças: o seu arcaísmo mental é de tal modo assustador e medonho que os reformadores só podem fazer reformas contra os portugueses, de resto bem personificados na triste figura de Alberto João Jardim. Não adianta tentar neutralizar-me, alegando que a minha tese branqueia o fascismo: conheço bem o atraso gerado pela ditadura do Toni, mas o que lamento mais é o facto do regime pós-25 de Abril nos ter lançado no abismo, como se a democracia não pudesse germinar em solo português. E, de facto, a democracia deixa de funcionar quando se converte em regime social. O ministro parece estar ciente de que as reformas estruturais não podem ser implementadas com a ajuda dos portugueses: o Livro Verde merece ser meditado e discutido publicamente. Os autarcas disseram concordar com os seus princípios gerais, mas nenhum deles foi favorável à agregação ou fusão de freguesias. Em nome do princípio das assimetrias regionais e, claro!, da solidariedade nacional, defenderam que essa agregação deve ser levada a cabo nas grandes cidades, Porto e Lisboa, cujos representantes locais não estiveram presentes neste debate. Em suma, lá onde existe um excesso de freguesias, precisamente no interior do país, eles não as querem reduzir; pelo contrário, exigem mais dinheiro para prestar serviços de solidariedade social às suas populações, como se os portugueses dos grandes centros urbanos fossem imensamente ricos para sustentar todo um país improdutivo que quer continuar a viver acima das suas possibilidades. É preciso mudar de vida, disse o ministro, mas ninguém quer mudar de vida. Afinal, a vida fácil é preferível à vida de trabalho! Os portugueses aprenderam a viver sem ter trabalho e não querem abdicar desse estilo de vida parasitário que nos arruinou a todos. Luís Filipe Menezes fez uma proposta mais ousada: a fusão dos municípios do Porto e de Gaia. Não se trata aqui de uma agregação de freguesias, mas sim de uma fusão de municípios, tendo em vista construir a maior cidade da Península Ibérica, o Grande Porto. Esta fusão - se fosse realizada já amanhã de manhã - criaria uma enorme plataforma de desenvolvimento do Norte e a nós o que nos interessa é gerar riqueza. É por isso que concordo com o autarca de Viana do Castelo quando, em vez da fusão de freguesias, propôs a discussão do projecto de regionalização, uma reforma estrutural radical capaz de promover o desenvolvimento nacional continental. Neste aspecto, os autarcas têm razão: a Reforma do Estado não precisa passar pela reforma do poder local. Aliás, a reforma do Estado para ser bem feita precisa estar articulada organicamente com um projecto de desenvolvimento nacional, sem o qual nunca poderá ser uma reforma estrutural. As reformas estruturais só fazem sentido à luz de um grande projecto de desenvolvimento nacional efectivo que não sacrifique o Norte para alimentar um país improdutivo e parasitário. É isto que este governo de Passos Coelho não compreende: a sua obsessão pela figura do "bom aluno", submisso aos ditames irracionais da troika, não nos vai livrar do atraso estrutural; pelo contrário, poderá vir a ter como resultado final a catástrofe-ocaso de Portugal. O governo de Passos Coelho não tem um projecto de desenvolvimento cultural e económico para justificar os terríveis sacrifícios que está a impor tiranicamente aos portugueses, privando-os do direito à revolta. O ministro deseja que o PS se comprometa com as políticas de austeridade do seu governo. Francamente, Senhor Ministro, como pode exigir ao PS aquilo que o seu partido não lhe deu quando era governo? O PS está na oposição e é como partido da oposição firme e dura que se deve comportar. O elogio ministerial da obra de autarcas do PSD - as autarquias mais corruptas que conhecemos são do PSD! - revela a incapacidade deste partido de assumir a sua responsabilidade pela crise nacional. Ontem não havia crise externa, a responsabilidade era toda de José Sócrates, hoje que o PSD é poder quer silenciar-nos para que os mercados externos não nos ouçam. A ausência de ideias e de crítica é fatal para o futuro de Portugal. E, neste aspecto, penso que os portugueses - apesar de tudo! - não querem ser novamente amordaçados.


J Francisco Saraiva de Sousa

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Prós e Contras: O Desafio

Belo Edifício da Rua de Sá da Bandeira, Porto
Pela primeira vez, Álvaro Santos Pereira, Ministro da Economia deste governo de Passos Coelho, aparece em público para defender as suas políticas económicas. O debate Prós e Contras (26 de Setembro) discutiu o futuro da economia portuguesa, cujo problema essencial neste momento de crise é o seu financiamento. Além do ministro da economia e dos convidados da plateia, estiveram presentes mais três figuras do mundo empresarial: Luís Baptista Coelho (Ceo NDrive), Carlos Moreira da Silva (Cotec) e Cristina Siza Vieira (Associação Hoteleira do Sul). Pretendia fazer uma crítica radical à política de desenvolvimento económico deste governo de Direita, mas, quando escutei o ministro a falar de duas linhas de bitola europeia - Sines-Madrid e Aveiro-Salamanca -, constatei que toda a sua política económica continua a ser feita contra o Porto e o Grande Porto. Luís Baptista Coelho que é um empresário portuense de sistemas de navegação de tecnologia avançada, com sucesso no Brasil, Turquia e França, decidiu deslocar a sua empresa para Silicon Valley (San Francisco), provavelmente para escapar a esta perseguição invejosa movida pela mouraria contra o Porto. De facto, "a tecnologia não tem passaporte", como disse, e aqui no Porto o nosso passaporte é sermos portuenses - e não portugueses, de resto mal-vistos justamente em todo o mundo. Temos de tal modo vergonha da nacionalidade portuguesa que omitimos nos nossos contactos com estrangeiros essa fatalidade peçonhenta: a Marca Porto é a única que assumimos com orgulho. Não se percebe esta decisão irracional de preferir a linha Aveiro-Salamanca à linha mais lucrativa Porto-Vigo, a não ser pela má-fé que move este governo contra o Porto e o Norte. Não vemos como é que a linha Aveiro-Salamanca pode constituir um serviço de alta competitividade, para usar a expressão do ministro e da comissão europeia. (Curiosamente, a burguesia do Porto arruinou-se no passado para construir a ligação ferroviária Porto-Salamanca, para a qual o malvado poder central não contribuiu. O Sul foi sempre-já a causa fundamental do atraso nacional. Essa burguesia portuense de outros tempos deve ser lembrada por todos aqueles que lutam pela autonomia do Norte!) No entanto, o ministro até explanou um pacote de políticas económicas bastante consistente e, nalguns aspectos pontuais, de ruptura interessante com o passado. Quanto ao turismo, defendeu novos conceitos de turismo, em especial o turismo religioso e o turismo de património, que se afastam claramente do turismo do mar e do sol que descaracteriza o Algarve, fazendo dele um potencial buraco orçamental que alimenta empresários hoteleiros sem escrúpulos. Apostar em todas as valências, dando especial destaque às diversas regiões de Portugal e não apenas ao triste e feio Algarve, constitui efectivamente uma boa aposta do governo: Portugal é um país pequeno, como disse Álvaro Santos Pereira, mas possui grande diversidade geográfica susceptível de atrair novos turistas. Além disso, o turismo patrimonial implica uma nova política de reabilitação das grandes cidades, outra boa política. Porém, num momento de crise e de escassez de meios financeiros, essa política deve ser implementada nas cidades que já têm condições para promover esses dois tipos de novos turismos: uma é Lisboa, que já está bem servida, a outra é o Porto. Mas também aqui o ministro revelou o seu ódio pelo Porto que possui - se a memória não me falha - mais de 64 igrejas, para já não falar das capelas. Mas o património portuense não se reduz à arquitectura sacra: o Porto é Património Mundial da Humanidade (UNESCO). Uma vez que não quer ajudar o Porto e o Norte a promover a sua política de desenvolvimento regional, Lisboa deve - se ainda tiver alguma dignidade - negociar com o povo portuense - e tenho a certeza que todo o Norte se alia ao Porto - a sua independência. O Norte, ao contrário do que disse uma figura da plateia, tem o seu próprio turismo da natureza, não só o Douro mas também outras belas regiões, como por exemplo o Gerês. Para os habitantes do Norte que criaram a nação, é muito difícil compreender como a Madeira ultrapassa o Norte em termos de rendimentos: eles sabem que estão a ser sacrificados para sustentar o parasitismo do país improdutivo. Como lembrou um empresário do calçado, Lisboa fez tudo para destruir as indústrias do calçado e têxtil, duas industrias tradicionais do Norte. E hoje, graças ao espírito de iniciativa do Norte, sem a ajuda do Estado-ladrão, são duas indústrias de prestígio internacional que exportam para os melhores mercados do mundo, os mercados exigentes que preparam as empresas para o desafio da competitividade global, enquanto as regiões do sul pouco fazem para contribuir para as exportações nacionais, limitando-se a sacar o que não lhes pertence: o Norte está a ficar mais pobre para sustentar o luxo dos parasitas do sul. Não admira que o desejo pela independência comece a surgir no espírito das pessoas do Norte e a ser ventilado nas conversas privadas, difundindo-se pelas diversas redes sociais. O PSD enganou o Norte quando - durante a campanha eleitoral - se mostrou receptivo à regionalização. Mas nunca é demais repetir que Lisboa pode libertar-se desse ódio, dando a independência ao Norte e, em especial, ao Porto. Nós portuenses não desejamos mais ligações com Lisboa e com o sul: a nossa alma dirige-se para o norte na direcção da Galiza e dos países do Norte da Europa, com cujas populações temos mais laços genéticos do que com as populações do sul de Portugal. No fundo, a linguagem do sangue fala mais alto do que a linguagem de uma falsa unidade nacional que só nos empobrece e nos prejudica. Lisboa pode ter a certeza de que nenhum país se negará a formar uma aliança de sangue com o Porto. Hoje sabemos que o nosso bem-estar só será conquistado quando abandonarmos a nossa ligação a Portugal, cujo nome lhe foi dado pelo Porto (Portus Cale). A Associação Hoteleira de Portugal já usa o termo Portugal para designar exclusivamente o sector hoteleiro do sul. A palavra Portugal tornou-se-nos completamente estranha, tal como nos é estranha a chamada selecção nacional. Bem sei que o ministro pretende quebrar essa equação Turismo = Algarve, mas referiu apenas Guimarães esquecendo intencionalmente o Porto, talvez na tentativa de dividir o Norte para que Lisboa possa exercer a sua terrível dominação sobre a região à qual nega a designação portuguesa, falsificando perversamente a História de Portugal. Não há uma única teoria do desenvolvimento económico que aponte o turismo como uma espécie de motor da explosão económica de um país: o conceito de um país de turismo revela o seu nível de subdesenvolvimento. Ao apostar estupidamente na marca Algarve, o poder central português - além de ter sacrificado o desenvolvimento económico das regiões produtivas - mostrou ser incapaz de alavancar o desenvolvimento nacional equilibrado e diferenciado. Um país económica e culturalmente desenvolvido não tem como sector dominante o turismo: o facto do turismo ser o quarto sector da economia portuguesa revela fatalmente o seu atraso estrutural. Algarve é, pois, sinónimo de subdesenvolvimento e de atraso estrutural, e, qualquer turista culturalmente informado não escolhe o Algarve como destino turístico. Neste aspecto, a proposta do ministro da economia de diferenciar o turismo, privilegiando a valorização do património histórico e cultural, permite deslocar a economia portuguesa na direcção de outro modelo de desenvolvimento económico: cuidar do património atrai turistas culturais sem sacrificar a economia produtiva, aquela que liberta o país do atraso estrutural e da mediocridade cultural, desde que saiba defender-se da terrível noção de Portugal como um museu vivo. Tal como a Madeira de Alberto João Jardim, o Algarve é, virtualmente, um buraco orçamental. Os grandes grupos económicos do Norte deslocam as suas sedes para a Holanda e outros países do Norte da Europa por causa do espírito ladrão do poder central e do sul: eles não querem alimentar os parasitas do sul. E, sem querer, prejudicam o próprio bem-estar das populações do Norte produtivo. Assim, por exemplo, o Vinho do Porto é uma marca do Norte, mas os canais de televisão do sul, em particular a TVI, apropriaram-se da nossa marca e usam-na nas suas hilariantes telenovelas para promover um falso estilo de vida sulista - o parasitismo improdutivo. As telenovelas da TVI são simplesmente saloias, irracionais e patológicas - meras falsificações da realidade nacional que prejudicam fatalmente a formação cultural dos portugueses, sobretudo dos mais jovens. Todo o imaginário sulista é parasita, delirante e chulo: os saloios limitam-se a copiar aquilo que não lhes pertence e a consumir aquilo que não produzem, como já sabia Fernando Pessoa.


Em termos de conceitos, com exclusão da animosidade deste governo contra o Norte, não tenho nada de muito dramático a opor às propostas apresentadas por Álvaro Santos Pereira. Nos debates promovidos por Fátima Campos Ferreira, o excesso de convidados não ajuda a clarificar os temas discutidos. Neste debate, apesar da subserviência oportunista de quase todos os outros intervenientes, o ministro da economia e do emprego pouco falou. Porém, a sua noção de uma economia dual, uma economia a duas velocidades, presta-se a mostrar a existência de uma grande assimetria regional: um Norte dotado de iniciativa e um Sul absolutamente dependente do Estado e parasitário, no meio dos quais se encontra o Estado que tem preferido empobrecer o Norte para alimentar o parasitismo do Sul. O Norte contribui com mais de 40% para as exportações nacionais e, no entanto, encontra-se atrás de Lisboa e da Madeira no que se refere à riqueza: o que quer dizer que, sem a intervenção irracional do Estado, o Norte estaria preparado para diminuir as importações e aumentar as exportações, promovendo a produção nacional e o emprego. Os governantes portugueses nunca souberam promover o desenvolvimento económico nacional: o seu impulso natural e espontâneo é sacar as regiões mais ricas do país para promover um falso estilo de vida na capital, usando a bandeira da solidariedade nacional em benefício próprio. O ministro da economia e do emprego pretende promover os produtos nacionais, ou seja, a marca Portugal, mas onde estão os produtos nacionais, no Norte ou no Sul? O PSD - se quiser fazer um ajuste de contas sincero com o seu terrível passado - não pode continuar a empobrecer o Norte, como sucedeu nos governos chefiados por Cavaco Silva que nos privaram da nosso próprio sector bancário. O centralismo é, de facto, a causa principal do atraso estrutural de Portugal. A história está aí para demonstrar que os países centralistas nunca conseguiram seguir a via do desenvolvimento económico e cultural. Não adianta falar de reformas estruturais, como fez o ministro, quando nelas não se inclui a descentralização ou mesmo a regionalização: os países desenvolvidos são federações de Estados autónomos. O desenvolvimento económico traz a marca de sangue do desenvolvimento desigual, e não vejo como no seio de um mundo capitalista se possa contornar este índice de desigualdade: a corrupção, a inveja e o espírito de imitação tal como as conhecemos em Portugal bloqueiam a via do desenvolvimento. É provável que a "solução" esteja na diferenciação competitiva defendida pelo ministro para o turismo, desde que alargada a todos os sectores da economia nacional. A maior parte das empresas portuguesas não estão preparadas para responder àquilo a que o ministro chamou o desígnio nacional: a internacionalização, a abertura aos mercados mundiais. Não sei se o programa da via rápida para o investimento proposto pelo ministro será capaz de levar as empresas a reinventarem-se através do espírito de iniciativa e da inovação. Em Portugal, não há propriamente uma cultura empresarial: a agilização dos investimentos e a lei da concorrência são palavras que não fazem parte do vocabulário da maior parte dos empresários portugueses, de resto destituídos de cultura. Curiosamente, o ministro e o partido que tanto criticaram no passado o optimismo de José Sócrates são hoje adeptos inveterados do optimismo. Em Portugal, o optimismo anda associado ao poder: aqueles que estão no poder são optimistas - a vida corre-lhes bem!, enquanto que aqueles que estão fora do poder e da sua esfera de influência são pessimistas: eis aqui mais um retrato da corrupção nacional. Álvaro Santos Pereira garantiu que os sacrifícios exigidos aos portugueses não serão em vão: o governo pretende cumprir na integra o memorando da troika, indo para além das medidas de austeridade previstas, consolidar o orçamento e levar a cabo as velhas reformas estruturais para fomentar uma economia mais inovadora e mais competitiva. E, no que se refere às políticas de obras públicas, o governo, além do projecto de construção das duas linhas de bitola europeia, pretende apostar no Mar e nos portos, com exclusão do Porto de Leixões, tal é o seu ódio visceral pelo Porto, e no equilíbrio das energias, abandonando de certo modo o programa das energias renováveis, e abrindo-se à possibilidade da energia nuclear. Por fim, o ministro falou do investimento que será realizado em Portugal, algures numa região do sul, por uma empresa multinacional, sem no entanto a nomear. Afinal, qual é o instrumento estratégico deste governo de Direita? A reforma semântica não é suficiente para quebrar o feitiço chamado Portugal. Até Miguel Gonçalves foi de tal modo enfeitiçado pelo optimismo semântico que se limitou a aplaudir a necessidade de produzir urgentemente heróis descarados. De facto, é preciso ter muito descaramento para mendigar o capital que não se reproduz no solo nacional. Triste fado o nosso!

J Francisco Saraiva de Sousa

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Afinal, quem se responsabiliza pela manutenção da Ponte do Infante?

Ponte do Infante Dom Henrique, Porto-Gaia
A Ponte do Infante D. Henrique - o príncipe Navegador que nasceu no Porto - é uma ponte rodoviária - sobre o rio Douro - que liga as Fontainhas (Porto) e a Serra do Pilar (Gaia). Foi construída pouco a montante da Ponte D. Luís I, em plena zona histórica do Porto, para substituir o tabuleiro superior desta ponte histórica, convertido para uso da Linha Amarela (Hospital de São João/D. João II) do Metro do Porto. Porém, agora que o pavimento precisa de ser substituído, ninguém assume a responsabilidade pela manutenção desta bela ponte do Porto. E a Ponte D. Maria Pia, substituída pela Ponte ferroviária de São João, continua - tanto quanto sei - abandonada, apesar de ser uma das pontes de ferro mais conhecida nas histórias mundiais da arquitectura. Os políticos portugueses não são verdadeiramente políticos, mas "amigos do tacho". Portugal teve poucos políticos de qualidade e este é mais outro problema nacional que ameaça levar-nos à ruína. E, com este governo, sem projecto e submisso aos estados hormonais de Angela Merkel, caminhamos aceleradamente para o Abismo da miséria negra.

J Francisco Saraiva de Sousa