terça-feira, 5 de novembro de 2013

Dossier Filosofia Médica (5)

Cidade do Porto
Mais ideias sobre Filosofia Médica na sua relação com a Antipsiquiatria:

1. R. D. Laing legou-nos um conceito primordial: Segurança Ontológica. A Antipsiquiatria inspira-se no existencialismo de Sartre. A transição da segurança ontológica à insegurança ontológica permite compreender o modo de ser-no-mundo daqueles - os psicóticos - que a psiquiatria hospitaliza: o indivíduo ontologicamente inseguro pode viver três formas de angústia: ser tragado, implosão e petrificação e despersonalização. A Filosofia Dialéctica da Antipsiquiatria ainda não foi devidamente estudada.

2. A política de empobrecimento do Governo de Portas-Coelho mina completamente o sentimento de segurança ontológica dos portugueses, os quais não possuem um sentido de realidade forte em circunstâncias normais. A penúria lança-os na insegurança ontológica e perturba-os nas suas relações com os outros. Porém, no caso dos portugueses, em virtude da sua propensão para a loucura, é necessário introduzir novas manifestações de angústia, nomeadamente o vampirismo existencial e a inveja patológica. Portugal caminha na direcção de um país pobre e louco.

3. O meu encanto pela antipsiquiatria levou-me a desenterrar das estantes todas as obras dos fundadores deste movimento e a relê-las com mais atenção. Durante a minha vida só devo ter lidado com meia dúzia de esquizofrénicos e, por isso, não tenho grande experiência da experiência esquizofrénica. Hoje acompanhei o desenvolvimento intelectual de Laing e aprendi a reler "A Política da Experiência", talvez a sua obra mais antipsiquiátrica. E a apreciar o modo como Cooper politiza o movimento da antipsiquiatria à não-psiquiatria, a partir de uma mudança profunda da sociedade. Marx foi redescoberto pelos fundadores da antipsiquiatria. Ora, um tal questionamento radical da psiquiatria clássica implica uma reformulação do próprio campo da medicina.

4. A revolução antipsiquiátrica deve ser entendida como uma revolução da consciência que denunciou a violência exercida sobre os esquizofrénicos e os danos causados pelo imperialismo da norma. A revolução fundamental preconizada pela antipsiquiatria contra a dominação será o resultado de uma evolução da consciência humana: Laing libertou a subjectividade ao acentuar a continuidade entre o normal e a loucura. As consequências mais importantes da antipsiquiatria resultam deste acto de fazer ir pelos ares a barreira-ruptura entre o normal e a loucura.

5. Convém não ver uma ruptura entre The Divided Self (1960) e The Politics of Experience (1967). O conceito de experiência transcendental de Laing corresponde aos conceitos de reversão de Esterson e de anoia de Cooper: «A verdadeira saúde mental implica de uma maneira ou de outra a dissolução do ego normal, desse falso eu sabiamente adaptado à nossa realidade social alienada, a emergência dos arquétipos "interiores" mediadores da potência divina, o desembocar desta morte numa re-nascença e a re-criação de uma nova função do ego, em que o eu já não traia o divino, mas o sirva» (Laing).

6. A Antipsiquiatria fez uma crítica justa da psiquiatria clássica e sua ideologia clerical e da ciência e seus "métodos cegos", embora tenha fracassado no "tratamento" dos esquizofrénicos. Ora, a psiquiatria institucional aboliu-a dos manuais de psiquiatria e, quando a refere, é para dizer que os seus "bons loucos" são como os "bons selvagens" de Rousseau. Porém, o que interessa na antipsiquiatria é a sua teoria da experiência e a sua crítica justa da ciência objectiva. Além disso, a antipsiquiatria abre a medicina ao mundo social e, quando apresenta a norma como alienação, converte-se em crítica social e política. A adaptação social não é critério de saúde mental.

7. A psiquiatria institucional está ao serviço da manutenção da sociedade estabelecida e, nessa função, deve ser criticada: a antipsiquiatria pode ser encarada como crítica da ideologia psiquiátrica. Os antipsiquiatras foram grande profetas: o mundo presente confirma as suas profecias. Se tivessem sido escutados nos anos 60, o mundo não estaria hoje à beira do abismo. A vida saudável não pode ser dissociada da vida justa: a medicina precisa mais de filosofia do que de psicologia.

8. Aprovo o programa pré-revolucionário proposto por Cooper: a criação de Centros Revolucionários de Consciência. A psiquiatria pode integrar um tal programa de investigação científica. O atraso estrutural de Portugal tem uma dimensão humana: o país não se desenvolve porque os portugueses são seres mental e cognitivamente atrasados. A reformulação do programa pré-revolucionário de Cooper pode ajudar os portugueses a superar-se a si mesmos e a renascer como novas pessoas. 

9. Aprovo a crítica antipsiquiátrica da família e da escola. De facto, devemos gerar um movimento de Antipedagogia e defender a criação de anti-escolas e de anti-universidades. A mente arcaica dos portugueses refugiou-se na pedagogia para não aprender: o fracasso da educação em Portugal fornece-nos todos os elementos para pensar a antipedagogia

10. Defendo a libertação da subjectividade rebelde, mas não a situo ao nível da loucura. A psiquiatria institucional tende a colocar loucos e génios do mesmo lado da barreira entre norma e loucura, exigindo a ambos a adaptação social à média social. A noção antipsiquiátrica de viagem deve ser diferenciada: a viagem do louco é diferente da viagem do revolucionário. Neste terreno, o diálogo com a antipsiquiatria pode ser muito produtivo. 

J Francisco Saraiva de Sousa

14 comentários:

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Portugal é o país mais idiota da Europa: as estatísticas mostram que os portugueses odeiam a leitura. É por isso que a sua forte presença no Facebook significa e indica falta de pensamento: o português típico é uma falha existencial na vida.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Só agora compreendi que é preciso elaborar a Antipedagogia, em vez de continuar com a pedagogia crítica. A antipsiquiatria conduz à antipedagogia: a eliminação da escola como aparelho ideológico do Estado Capitalista.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Tento ser revolucionário mas, quando olho para o mundo, não acredito na sua salvação: a humanidade não merece ser salva. Vou cuidar de mim!

Portugal chegou a século XX com a maior parte dos portugueses a desconhecer o que era o Estado. É muito difícil para nós que não somos portugueses acreditar que Portugal quase não existiu ao longo dos seus oito séculos - dizem - de existência.

Que tipo de "seres humanos" são os portugueses? Quando olho para eles vejo seres mentalmente mutilados! E não tenho a certeza de que as suas mentes sejam habitadas por um Eu. Uso os mesmos métodos utilizados pelos etólogos para compreender os comportamentos dos animais.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Só agora compreendi que para questionar o campo da Psicomedicina preciso de romper com o modelo da psicopatologia proposto por Karl Jaspers. Afinal, o tratado "Psicopatologia Geral" de Karl Jaspers pode ser lido como uma obra sobre Filosofia Médica, na medida em que aborda as suas questões fundamentais em chave fenomenológica.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Lembrei-me que Marx falou do "empobrecimento da normalidade". Este conceito é extremamente revolucionário. Marx como psiquiatra do capitalismo!

As pessoas ainda não compreenderam que as reivindicações e os protestos não modificam a realidade social estabelecida. Sem Filosofia não há mudança. Pessoas privadas de filosofia são zombies que não sabem o que fazem.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Estava a pensar no nascimento dos hospitais psiquiátricos em Moçambique porque tenho uma vaga ideia de um desses hospitais na Beira: o chamado "hospital dos malucos". Interessante porque permite articular dois registos: o clínico e o colonial.

Em Moçambique Colonial, havia pluralismo médico efectivo: os próprios portugueses recorriam aos curandeiros e aos feiticeiros africanos em busca de curas milagrosas. Além do recurso à medicina banto, recorriam também a curas espirituais, muitas das quais administradas por indianos. A medicina ocidental era praticada nos hospitais e nos consultórios médicos privados. Penso que os médicos militares também prestavam cuidados médicos. Tenho quase a certeza de que existia asilos de alienados mentais na Beira e em Lourenço Marques.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Tenho quase o certeza que "Macuti" estava associado a loucura, tal como Conde Ferreira ou Miguel Bombarda estão associados à loucura.

Agora não sei se os africanos loucos eram tratados nessas unidades hospitalares ou nas instituições católicas.

Para todos os efeitos, a neurofarmacologia estava a surgir nos últimos anos do colonialismo. Moçambique era muito liberal em matéria de novos medicamentos. As drogas fizeram moda entre os jovens portugueses coloniais.

Outro capítulo de Moçambique Colonial é o da criminalidade: há registo de homicídios em série.

E acho que um caso era de homicídio sexual.

Apesar da chuva que me irrita os neurónios, estou feliz com a minha longa viagem pelo domínio da Psiquiatria. A etnopsiquiatria das sociedades africanas é muito tolerante: um louco no ocidente pode ser uma figura importante em África. Mas vou ver se há em Moçambique hospitais psiquiátricos ou serviços de psiquiatria nos hospitais centrais.

Há os hospitais psiquiátricos Infulene, Nampula e Marracuene. E os hospitais centrais têm serviço de psiquiatria e ajuda às vítimas de abuso sexual.

África - sobretudo África Portuguesa - regrediu depois da descolonização. Um turista que sofra um acidente em África pode ir parar a um hospital - se houver hospital ou posto médico nas imediações - e sofrer uma cirurgia sem anestesia.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Estou feliz mas sei que não posso resolver o problema fundamental da Psiquiatria: Sem uma solução credível para o problema filosófico cérebro-mente, não podemos apresentar um único modelo psiquiátrico: a abordagem será pluralista. Aposto na Psiquiatria Biológica mas aceito o pluralismo teórico e prático.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Chuva e malucos é dose: Acordei a pensar que o mundo humano é um tremendo hospício de alienados mentais. Como abordar a loucura na vida quotidiana? E como escapar da companhia dos loucos?

O Facebook está a perder piada, talvez devido a mumificação mental. Já não dá gozo tentar estabelecer um diálogo racional e construtivo com pessoas virtuais: a tecnologia falha, os utentes falham, falha tudo.

O divórcio entre a imagem idealizada e a imagem real da humanidade está a alterar a minha relação com os livros. A leitura dos livros de psiquiatria obscurece a minha mente: Vejo tudo sombrio. A loucura está fora dos hospitais psiquiátricos. Daqui resulta a necessidade de proteger as mentes saudáveis dos atropelos da cidade dos loucos.

A minha tendência natural é defender uma medicina sem psiquiatria. No entanto, travo-a porque sei que existem "doentes mentais" que precisam de tratamentos farmacológicos. Ora, a esquizofrenia não tem um tratamento eficaz: reduzir a actividade cerebral através do "bloqueio" da dopamina não é tratamento eficaz, até porque tem efeitos colaterais nefastos.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Estava a pensar que a sistematização de uma psiquiatria racial pós-colonial me permite enviar um grande número de mentes portuguesas perturbadas para a patologia e para tratamento. A síndrome lusa pode ser encarada como arcaísmo mental e retardamento mental: Há algo inerte na mente portuguesa que a leva a bloquear a abertura ao mundo e a inovação. Os portugueses não são conservadores; são simplesmente "burros" ou idiotas culturais. Os sintomas deste bloqueio mental são evidentes em todos os encontros na vida quotidiana, em especial na sala de aula.

É muito difícil inovar porque os tugas bloqueiam tudo. Aquilo que desconhecem não existe para eles: o seu self é a função que exercem; é um self-coisa que bloqueia. Em termos gerais, os portugueses têm uma vida psicológica ou interior pobre e isso dificulta a sua inteligência social: a forma social é a manada.

Para se abrir ao mundo, a sociedade portuguesa precisa libertar-se dos seus membros perturbados, cuja perturbação mental está associada à maldade. Como identificar os portugueses portadores de arcaísmo mental? E o que fazer com eles? Se não encaramos de frente este problema, Portugal estará para sempre condenado ao marasmo social.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Quem assista à Quadratura do Círculo pode decifrar alguns indicadores da síndrome lusa de arcaísmo mental na figura de Lobo Xavier, embora haja outros como ele na TV portuguesa. No último debate, ele condenou os quadros pictóricos de Pacheco Pereira, de modo a restringir o vocabulário e assumir o papel de "sabedor". Uma vez numa aula fui confrontado por uma aluna que não distinguia entre taxias e tropismos. Ela tinha sido instruída por um familiar-professor que lhe emprestou um conflito entre zoologia e botânica. A partir deste episódio tornei-me atento à rigidez conceptual e linguística dos portugueses. Há um défice cognitivo e linguístico: as palavras são empobrecidas e o pensamento encalha como o de um esquizofrénico.

Em Portugal, não podemos elaborar um vocabulário privado ou próprio: o arcaísmo mental dos portugueses empobrece as palavras e, se elas funcionam como conceitos num discurso teórico, o seu "sentido" é padronizado. Isso acontece em muitas disciplinas no ensino secundário, onde tudo é padronizado, de modo a que o professor possa dizer ou comentar: "Isto está ERRADO". Ora, o "isto" é o uso de uma palavra previamente acorrentada num colecte. A criatividade é desde logo bloqueada, sobretudo quando se trabalha na interdisciplinaridade, onde as palavras-conceitos permitem estabelecer pontes. O português-doente mental reduz tudo à média da mediocridade.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Vou dar um exemplo: Na etologia, a distinção entre períodos críticos e períodos sensíveis no desenvolvimento é relevante. Porém, um teste americano pode ser abusivo quando exige o uso exclusivo de uma destas expressões como "verdadeira". Afinal, uma ciência é sempre conjectural e nós podemos recorrer a outras abordagens teóricas que descartam essa distinção conceptual. De facto, os testes americanos são abusivos e castradores.

Outro indicador de miséria mental dos portugueses: o português-doente mental não consegue expor um discurso teórico com princípio, meio e fim. Para simular a sua "esperteza", ele parasita o discurso da pessoa saudável, manipulando o sentido das palavras. E chama a essa farsa "lógica" ou, como diz de modo idiota, "pensar com lógica". Onde reside aqui o arcaísmo mental? No poder mágico atribuído às palavras pela mente arcaica.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Hoje foi dia de estudar o pai da psiquiatria americana: Benjamin Rush (1746-1818). Concordo com o seu amigo Jefferson: os seus tratamentos da loucura eram demasiado cruéis e condenáveis: aparelhos como o tranquilizador ou o girador são aparelhos de tortura. Mas o que me chamou a atenção foi a sua teoria da lepra da negritude dos escravos. A cor negra é uma doença que, segundo Rush, pode ser tratada. Em termos ideológicos, Rush diz o seguinte: o negro pode ser um empregado doméstico aceitável do ponto de vista médico, embora deva ser alvo de segregação sexual para impedir a transmissão de uma doença hereditária temida. Os brancos não devem tiranizá-los - os negros - e não devem casar com eles: a doença poderá ser curada no futuro.

Negando as diferenças entre doenças do corpo e doenças da mente, Benjamin Rush abusou da metáfora médica para medicalizar a vida social: o Pennsylvania Hospital foi a materialização da ideologia psiquiátrica que fez do desvio social uma doença mental.

Infelizmente, Portugal é um país entregue aos burros: O Bode expiatório da psiquiatria foi o Homossexual. O auto de 1723 relata um caso que ocorreu em Lisboa, cuja sentença foi a flagelação e dez anos de serviço nas galés. A homossexualidade era tratada como um delito e o delito como uma heresia: o castigo era a relaxação - queima na fogueira - ou flagelação - açoitamento - e as galés. A chamada libertação dos loucos não ocorreu em Lisboa, mas sim no Porto: o Hospital Conde de Ferreira protagoniza esse movimento em Portugal, embora usasse ainda alguns instrumentos de tortura. Porém, ainda não temos uma história da loucura em Portugal.

A masturbação foi outra prática sexual condenada e punida pela Psiquiatria Institucional: a ideologia psiquiátrica da masturbação é deveras bizarra. Porém, ainda hoje os pacientes que se masturbam compulsivamente nas enfermarias são objecto de uma tratamento clássico: as mãos são amaradas às grades da cama. Mas como devem ter reparado falei de masturbação compulsiva: o que quer dizer que há formas patológicas de masturbação. Devemos criticar a violência psiquiátrica sem deitar fora a Psiquiatria.

Enfim, concordo com a crítica da violência psiquiátrica levada a cabo pela Anti-psiquiatria, mas também condeno os excessos deste movimento, em especial a política do orgasmo. Chegou a hora de mandar à merda o orgasmo.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

A teoria da negritude de Benjamin Rush parece ser um disparate e assim é. Mas faz algum sentido no contexto americano oitocentista. Com efeito, por volta de 1792, começaram a surgir zonas brancas no corpo de um escravo negro chamado Henry Moss, que, no espaço de três anos, ficou completamente branco. Ele era portador de uma doença hereditária chamada vitiligo. Ora, quando soube disso, Rush pensou que a cor biologicamente normal do negro era uma doença que, no caso de Moss, tinha sido curada de modo espontâneo. Daí que tenha sugerido que a cor negra era resultado do sofrimento de lepra pelos seus ancestrais africanos. Ora, nalguns casos, em especial os habitantes das ilhas de lepra do Pacífico Sul, a lepra é acompanhada pela cor negra da pele.

Em termos simples, este foi o raciocínio de Rush. Ele lembra os lábios grossos e o cabelo encaracolado dos ilhéus. Vitiligo é uma doença não-contagiosa em que ocorre a perda da pigmentação natural da pele. E ocorre em brancos e negros: isso Rush n sabia.