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quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Dossier Filosofia Médica (6)

Cidade do Porto: Massarelos
1. Hoje foi dia de estudar o pai da psiquiatria americana: Benjamin Rush (1746-1818). Concordo com o seu amigo Jefferson: os seus tratamentos da loucura eram demasiado cruéis e condenáveis: aparelhos como o tranquilizador ou o girador são aparelhos de tortura. Mas o que me chamou a atenção foi a sua teoria da lepra da negritude dos escravos. A cor negra é uma doença que, segundo Rush, pode ser tratada. Em termos ideológicos, Rush diz o seguinte: o negro pode ser um empregado doméstico aceitável do ponto de vista médico, embora deva ser alvo de segregação sexual para impedir a transmissão de uma doença hereditária temida. Os brancos não devem tiranizá-los - os negros - e não devem casar com eles: a doença poderá ser curada no futuro.

2. Negando as diferenças entre doenças do corpo e doenças da mente, Benjamin Rush abusou da metáfora médica para medicalizar a vida social: o Pennsylvania Hospital foi a materialização da ideologia psiquiátrica que fez do desvio social uma doença mental.

3. Infelizmente, Portugal é um país entregue aos burros: O Bode Expiatório da psiquiatria institucional foi sempre o Homossexual. O auto de 1723 relata um caso que ocorreu em Lisboa, cuja sentença foi a flagelação e dez anos de serviço nas galés. A homossexualidade era tratada como um delito e o delito como uma heresia: o castigo era a relaxação - queima na fogueira - ou flagelação - açoitamento - e as galés. A chamada libertação dos loucos não ocorreu em Lisboa, mas sim no Porto: o Hospital Conde de Ferreira protagoniza esse movimento em Portugal, embora usasse ainda alguns instrumentos de tortura. Porém, ainda não temos uma história da loucura em Portugal.

4. A masturbação foi outra prática sexual condenada e punida pela Psiquiatria Institucional: a ideologia psiquiátrica da masturbação é deveras bizarra. Porém, ainda hoje os pacientes que se masturbam compulsivamente nas enfermarias são objecto de um tratamento clássico: as mãos são amarradas às grades da cama. Mas como devem ter reparado falei de masturbação compulsiva: o que quer dizer que há formas patológicas de masturbação. Devemos criticar a violência psiquiátrica sem deitar fora a Psiquiatria.

5. Enfim, concordo com a crítica da violência psiquiátrica levada a cabo pela Antipsiquiatria, mas também condeno os excessos deste movimento, em especial a política do orgasmo. Chegou a hora de mandar à merda o orgasmo. Descarta-te do sexo e cultiva a tua mente! Todos os movimentos de emancipação sexual fracassaram. Hoje sabemos que o sexo não liberta; pelo contrário, escraviza, destruindo a mente, a vida pessoal e social e a saúde mental e física.

6. A teoria da negritude de Benjamin Rush parece ser um disparate e assim é. Mas faz algum sentido no contexto americano oitocentista. Com efeito, por volta de 1792, começaram a surgir zonas brancas no corpo de um escravo negro chamado Henry Moss, que, no espaço de três anos, ficou completamente branco. Ele era portador de uma doença hereditária chamada vitiligouma doença não-contagiosa em que ocorre a perda da pigmentação natural da pele, tanto nos negros como nos brancos. (Rush desconhecia que a perda de pigmentação pode ocorrer nos brancos.) Ora, quando soube disso, Rush pensou que a cor biologicamente normal do negro era uma doença que, no caso de Moss, tinha sido curada de modo espontâneo. Daí que tenha sugerido que a cor negra era resultado do sofrimento de lepra pelos seus ancestrais africanos. Ora, nalguns casos, em especial entre os habitantes das ilhas de lepra do Pacífico Sul, a lepra é acompanhada pela cor negra da pele.

J Francisco Saraiva de Sousa

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Dossier Filosofia Médica (5)

Cidade do Porto
Mais ideias sobre Filosofia Médica na sua relação com a Antipsiquiatria:

1. R. D. Laing legou-nos um conceito primordial: Segurança Ontológica. A Antipsiquiatria inspira-se no existencialismo de Sartre. A transição da segurança ontológica à insegurança ontológica permite compreender o modo de ser-no-mundo daqueles - os psicóticos - que a psiquiatria hospitaliza: o indivíduo ontologicamente inseguro pode viver três formas de angústia: ser tragado, implosão e petrificação e despersonalização. A Filosofia Dialéctica da Antipsiquiatria ainda não foi devidamente estudada.

2. A política de empobrecimento do Governo de Portas-Coelho mina completamente o sentimento de segurança ontológica dos portugueses, os quais não possuem um sentido de realidade forte em circunstâncias normais. A penúria lança-os na insegurança ontológica e perturba-os nas suas relações com os outros. Porém, no caso dos portugueses, em virtude da sua propensão para a loucura, é necessário introduzir novas manifestações de angústia, nomeadamente o vampirismo existencial e a inveja patológica. Portugal caminha na direcção de um país pobre e louco.

3. O meu encanto pela antipsiquiatria levou-me a desenterrar das estantes todas as obras dos fundadores deste movimento e a relê-las com mais atenção. Durante a minha vida só devo ter lidado com meia dúzia de esquizofrénicos e, por isso, não tenho grande experiência da experiência esquizofrénica. Hoje acompanhei o desenvolvimento intelectual de Laing e aprendi a reler "A Política da Experiência", talvez a sua obra mais antipsiquiátrica. E a apreciar o modo como Cooper politiza o movimento da antipsiquiatria à não-psiquiatria, a partir de uma mudança profunda da sociedade. Marx foi redescoberto pelos fundadores da antipsiquiatria. Ora, um tal questionamento radical da psiquiatria clássica implica uma reformulação do próprio campo da medicina.

4. A revolução antipsiquiátrica deve ser entendida como uma revolução da consciência que denunciou a violência exercida sobre os esquizofrénicos e os danos causados pelo imperialismo da norma. A revolução fundamental preconizada pela antipsiquiatria contra a dominação será o resultado de uma evolução da consciência humana: Laing libertou a subjectividade ao acentuar a continuidade entre o normal e a loucura. As consequências mais importantes da antipsiquiatria resultam deste acto de fazer ir pelos ares a barreira-ruptura entre o normal e a loucura.

5. Convém não ver uma ruptura entre The Divided Self (1960) e The Politics of Experience (1967). O conceito de experiência transcendental de Laing corresponde aos conceitos de reversão de Esterson e de anoia de Cooper: «A verdadeira saúde mental implica de uma maneira ou de outra a dissolução do ego normal, desse falso eu sabiamente adaptado à nossa realidade social alienada, a emergência dos arquétipos "interiores" mediadores da potência divina, o desembocar desta morte numa re-nascença e a re-criação de uma nova função do ego, em que o eu já não traia o divino, mas o sirva» (Laing).

6. A Antipsiquiatria fez uma crítica justa da psiquiatria clássica e sua ideologia clerical e da ciência e seus "métodos cegos", embora tenha fracassado no "tratamento" dos esquizofrénicos. Ora, a psiquiatria institucional aboliu-a dos manuais de psiquiatria e, quando a refere, é para dizer que os seus "bons loucos" são como os "bons selvagens" de Rousseau. Porém, o que interessa na antipsiquiatria é a sua teoria da experiência e a sua crítica justa da ciência objectiva. Além disso, a antipsiquiatria abre a medicina ao mundo social e, quando apresenta a norma como alienação, converte-se em crítica social e política. A adaptação social não é critério de saúde mental.

7. A psiquiatria institucional está ao serviço da manutenção da sociedade estabelecida e, nessa função, deve ser criticada: a antipsiquiatria pode ser encarada como crítica da ideologia psiquiátrica. Os antipsiquiatras foram grande profetas: o mundo presente confirma as suas profecias. Se tivessem sido escutados nos anos 60, o mundo não estaria hoje à beira do abismo. A vida saudável não pode ser dissociada da vida justa: a medicina precisa mais de filosofia do que de psicologia.

8. Aprovo o programa pré-revolucionário proposto por Cooper: a criação de Centros Revolucionários de Consciência. A psiquiatria pode integrar um tal programa de investigação científica. O atraso estrutural de Portugal tem uma dimensão humana: o país não se desenvolve porque os portugueses são seres mental e cognitivamente atrasados. A reformulação do programa pré-revolucionário de Cooper pode ajudar os portugueses a superar-se a si mesmos e a renascer como novas pessoas. 

9. Aprovo a crítica antipsiquiátrica da família e da escola. De facto, devemos gerar um movimento de Antipedagogia e defender a criação de anti-escolas e de anti-universidades. A mente arcaica dos portugueses refugiou-se na pedagogia para não aprender: o fracasso da educação em Portugal fornece-nos todos os elementos para pensar a antipedagogia

10. Defendo a libertação da subjectividade rebelde, mas não a situo ao nível da loucura. A psiquiatria institucional tende a colocar loucos e génios do mesmo lado da barreira entre norma e loucura, exigindo a ambos a adaptação social à média social. A noção antipsiquiátrica de viagem deve ser diferenciada: a viagem do louco é diferente da viagem do revolucionário. Neste terreno, o diálogo com a antipsiquiatria pode ser muito produtivo. 

J Francisco Saraiva de Sousa

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Dossier Filosofia Médica (4)

Mais ideias sobre Filosofia Médica nas suas relações com a Psiquiatria:

1. Hoje tenho passado o dia chuvoso a estudar psiquiatria portuguesa e americana. tendo relido uma conferência dada por Goffman a uma audiência de psiquiatras. A psiquiatria tem um passado macabro que revejo no excesso de autoridade dos psiquiatras portugueses, desde o século XIX até ao 25 de Abril. Conheço de perto a síntese antropológica da medicina proposta pela psiquiatria portuguesa, embora não a entenda teoricamente. Devemos combater o imperialismo psiquiátrico no seio da medicina: não acredito na eficácia das psicoterapias e os novos ramos da psiquiatria - psiquiatria comunitária, psiquiatria geriátrica e psiquiatria forense, entre outros ramos - estão claramente ao serviço da manutenção do status quo.

2. Os profissionais da saúde mental temem a desmedicalização da psiquiatria. Em Portugal, a recepção do movimento da antipsiquiatria foi muito má: todos temiam ficar sem emprego. "A violência em psiquiatria é preeminentemente a violência da psiquiatria" (David Cooper), isto é, a subtil e tortuosa violência perpetrada pelos outros, pelos "sadios", contra os rotulados de loucos. A neurocirurgia praticada por EGAS MONIZ foi um acto de violência da psiquiatria. Qualquer história arqueológica da psiquiatria devia ter um capítulo final consagrado à "Violência e Psiquiatria". 

3. Infelizmente, não temos um bom estudo sobre a vida e obra de EGAS MONIZ: os portugueses não sabem fazer análises finas do pensamento daqueles que pensaram neste ermo que é Portugal. Já escrevi 3 ou 4 textos sobre a homofobia de Egas Moniz: a sua prática psiquiátrica é pura violência da psiquiatria. A destruição de partes do encéfalo é mais devastadora do que o encarceramento dos loucos. Egas Moniz comportou-se como um psiquiatra fascista.

4. Ontem, num piso inferior do Shopping do Bom Sucesso, foi brutalmente assassinado um homem gay que tinha marcado um encontro clandestino: a busca compulsiva de parceiro sexual levou a um encontro com a morte brutal. Ora, o crime do Bom Sucesso traz à baila o estilo de vida promíscuo dos homens homossexuais. A busca compulsiva de novos parceiros sexuais coloca em perigo a vida dos homens homossexuais, não só em termos de doenças sexualmente transmissíveis, mas também em termos de saúde mental e de criminalidade: sexo casual é sinónimo de encontro com a morte. A comunidade homossexual exibe um vasto espectro de perturbações mentais: o modelo de intervenção psiquiátrica junto da comunidade homossexual é relevante para a Filosofia Médica. A psiquiatria comunitária pode ser avaliada a partir deste modelo de intervenção psiquiátrica.

5. E. Goffman caracterizou o Hospital Psiquiátrico como uma instituição total, dando destaque ao seu "ciclo metabólico": a entrada ou recrutamento, a mastigação e o regurgitamento dos seres humanos. A analogia biológica chocou os psiquiatras, bem como M. Mead, a qual alegou que o ser humano não é um excremento ou um vómito. Porém, a mesma analogia foi usada por David Cooper: «No hospital psiquiátrico tradicional, actualmente, a despeito da proclamação de progresso, a sociedade consegue o melhor de ambos os mundos - a pessoa, que é "vomitada" para fora da família, para fora da sociedade, é "engolida" pelo hospital e, então, digerida e metabolizada, fora da existência como pessoa identificável. Creio que isto deve ser encarado como violência». 

J Francisco Saraiva de Sousa

sábado, 2 de novembro de 2013

Dossier Filosofia Médica (3)

 Mala Moçambicana
Eis mais algumas ideias sobre Filosofia Médica:

1. O nazismo forçou o exílio de muitos intelectuais alemães. Adorno que nunca foi feliz no seu exílio americano falou da sua "vida danificada". Ora, nascer português é nascer para a vida danificada. Esta é uma verdade terrível que devia ser discutida publicamente pelos portugueses. A maldade humana manifesta-se em diversos momentos da história. Mas não é permanente como a maldade portuguesa.

2. Deleuze dedicou um livro à explicitação da filosofia de Foucault sem no entanto ter alcançado esse objectivo. Desconheço a existência de uma análise da "Arqueologia do Saber" de Foucault, obra onde ele se debate com o estruturalismo. Além disso, a relação de Foucault com o marxismo ainda não foi explicitada, embora as entrevistas forneçam muitas indicações a esse respeito. Eu comecei a ler Foucault durante a minha adolescência: a articulação entre relação de produção (Marx) e relação de poder sem teoria política (Nietzsche) nunca me seduziu: o aparelho de Estado ocupou sempre um lugar de destaque no meu pensamento. Estou convencido de que podemos analisar o Hospital, a Prisão, o Exército, etc., a partir da teoria do poder de Marx sem rejeitar o contributo de Foucault.

3. Hospital Psiquiátrico: Foucault e Goffmann aliaram-se à Anti-Psiquiatria para demolir esta instituição de saúde. Devo reconhecer que sempre estive associado a essa tendência num terreno estritamente científico: a defesa de uma Psiquiatria Biológica. No entanto, não sou favorável ao fechamento dos Hospitais Psiquiátricos. A crítica de Goffmann do Hospital Psiquiátrico como instituição total é justa: aprecio tudo o que disse sobre os territórios do eu e sobre os processos de mortificação do eu. Estes fenómenos ocorrem em qualquer tipo de internamento. Precisamos de uma Filosofia da Hospitalização.

4. Infelizmente, ainda não temos uma História da Escola Médico-Cirúrgica do Porto, a vanguarda da medicina e da psiquiatria portuguesas. As obras fundadoras da Psiquiatria Portuense não estão disponíveis no mercado do livro. Barahona Fernandes tentou suprir essa lacuna dos estudos médicos portugueses escrevendo "A Psiquiatria em Portugal" como complemento de "Um Século de Psiquiatria" de P. Pichot. Porém, a obra é francamente medíocre. Barahona Fernandes limita-se a condenar a anti-psiquiatria tal como a entende Foucault. 

5. Os médicos portuenses dão nome a diversas instituições de saúde espalhadas pelo país. Destaco três nomes: Júlio de Matos, Miguel Bombarda e Magalhães de Lemos, para já não falar de Ricardo Jorge. Júlio de Matos escreveu duas obras fundamentais: "Os Alienados nos Tribunais" e "A Loucura", nas quais se afirma como alienista-filósofo. Magalhães Lemos defendeu a face neurológica da psiquiatria. António Maria de Sena legou-nos uma obra profunda: "Os Alienados em Portugal". Enfim, uma série de obras que ainda não foram estudadas. De certo modo, a anti-psiquiatria tal como a entende Foucault percorre cada uma delas. O cerne da anti-psiquiatria é a luta  com, dentro e contra a instituição psiquiátrica: o questionamento do poder na prática anti-psiquiátrica leva à desmedicalização da loucura

6. António Mendes Correia é outro ilustre portuense que nos legou um conjunto de obras em diversas áreas científicas, da biologia à história, passando pela antropologia e pela criminologia: O Génio e o Talento na Patologia (1911), Criminosos Portugueses (1913), Crianças Delinquentes (1915), Antropologia (1915), Raça e Nacionalidade (1919), Homo (1921), Os Povos Primitivos da História (1924), A Antropologia nas suas relações com a Arte (1925), A Nova Antropologia Criminal (1931), Origens da Cidade do Porto (1932), Da Biologia à História (1934), Da Raça e do Espírito (1940), Uma Jornada Científica na Guiné Portuguesa (1946) e Antropologia e História (1954). A malvadez dos portugueses condena ao esquecimento as obras dos ilustres portuenses.

7. Interrompi o meu estudo sobre a evolução da psiquiatria portuguesa para estudar a situação da psiquiatria nos países asiáticos, tais como China, Coreia, Tailândia, Japão e Índia. Fiquei encantado com a abordagem cultural da psiquiatria asiática. Entretanto, tenho espreitado a psiquiatria forense americana, em especial o homicídio sexual em série porque ela me permite reintroduzir a noção de maldade, de modo a pensar a natureza perversa dos portugueses.

8. O aumento do número de assassinos em série nos USA levou alguns teóricos a reintroduzir a noção de maldade dentro da esfera da psiquiatria. As noções de mal e de pecado transitam da esfera religiosa para a esfera da psiquiatria e da filosofia, dando-nos uma plataforma conceptual de pensamento sobre a experiência humana universal de crueldade e dor (Cf. Andrew Delblanco, 1995). Doravante, a maldade ocupa um lugar privilegiado nos vocabulários profissionais da psiquiatria e da filosofia: as pessoas que cometem actos de crueldade devem ser consideradas responsáveis pelos seus actos, mesmo que uma doença mental possa estar presente.

9. Cesare Lombroso (1836-1909) acreditava que havia uma forte correlação entre certas configurações faciais e várias tendências criminais: o self exterior compartilhava assim da mesma "degeneração" manifestada pelo self interior do insano (Morel). De Cardano e Della Porta a Lombroso, passando por Gall, predominava o interesse pela fisionomia, no caso dos italianos, e pelo formato do crânio, no caso de Gall. Ora, em Portugal, a obra de António Mendes Correia situa-se nessa linhagem teórica da criminalidade: o ilustre portuense elaborou uma nova antropologia criminal - e do génio, tal como Lombroso, que urge analisar nesse contexto cultural.

10. A síndrome japonesa de ka-roh-shi - cujo significado literal é "morte por excesso de trabalho" - tem preocupado os psiquiatras japoneses. À carga de trabalho imposta pelas empresas japonesas aos executivos médios, eles acrescentam as pressões parentais. Com efeito, a elevada expectativa parental por desempenho académico está na base da criação de um sistema de escolas extremamente exigentes, onde os alunos continuam debruçados sobre os seus livros após o termo do seu já longo dia escolar. No Japão, as crianças estudam e fazem tudo para obter boas classificações escolares. Ora, as pressões familiares e sociais levam aqueles que não conseguem alcançar as notas exigidas à depressão ou mesmo à delinquência. A taxa de suicídio é alta no Japão. Em Portugal, as escolas já não funcionam: a paixão pela ignorância converteu as escolas portuguesas em recreios de engate.

11. O meu interesse pelas neurociências espirituais abriu a minha mente ao estudo de Tomio Hirai (1989) sobre uma forma de meditação Zen - Zazen - em relação ao tratamento psiquiátrico. O Zazen - a meditação sentada - está relacionado com os ensinamentos budistas e o estado de tranquilidade que proporciona é chamado satori (iluminação) que significa mente livre de ilusões. À medida que a meditação prossegue, a frequência de ondas alfa diminui gradualmente e aparecem as ondas teta rítmicas, alterações que correspondem àquelas que ocorrem durante o sono e estados de transe hipnótico. A filosofia da meditação Zen é mais interessante que a filosofia da psicanálise.

12. A disfunção psicossexual é frequente na China. Nos homens, a disfunção psicossexual pode tomar a forma de suoyang que significa "encolhimento do pénis". Na cultura popular, esta condição representa a perda da força yang (masculina) como resultado de actividades sexuais excessivas ou de possessão por espíritos maus (Wen, 1995). Além disso, a masturbação excessiva pode exaurir o yang do indivíduo, levando à condição mórbida conhecida como shenkui, equivalente ao nosso antigo conceito de neurastenia. O significado original de shenkui é deficiência renal, reflectindo a crença popular de que o rim armazena o sémen. A neurastenia cerebral - nao-shenjing shuai-ruo - está relacionada com esta neurastenia sexual, sendo ocasionada por excesso de estudos: tontura, falta de concentração e de memória e insónia são os seus sinais.

J Francisco Saraiva de Sousa

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Projecto Porto Cidade-Estado (6)

Cidade do Porto
Hoje partilho alguns comentários sobre o jogo FCPorto-Sporting:

1. Porto Cidade-Estado deve rever a sua toponímia e eliminar selectivamente todas as designações estranhas à Cidade Invicta, tal como sucedeu com o Passeio dos Clérigos. A sua designação anterior - Praça de Lisboa - era um atentado contra o espírito portuense.

2. A história de Portugal é uma sucessão contínua de fracassos. Os "portugueses" que não se identificam com a imbecilidade nacional deviam criar uma página - ODEIO PORTUGAL.

3. Portugal afundou-se de vez e já nunca mais conseguirá recuperar. O melhor é negar a nacionalidade portuguesa e abrir novos caminhos, tais como Porto Cidade-Estado, de preferência governada por nórdicos.

4. Presidente da FIFA goza Cristiano Ronaldo em Oxford e prefere Messi. A caricatura que fez de CRonaldo merece um prémio: Perfeita! O mundo goza claramente Portugal e, de facto, devemos rir porque os portugueses merecem ser gozados.

5. Uma geografia da distribuição da loucura portuguesa pode seguir um critério clubístico: zona azul indica saúde mental, zona encarnada e zona verde indicam um espectro complexo e difuso de perturbações mentais. Basta ver o "Dia Seguinte" para sermos confrontados com cérebros patológicos.

6. Não podemos mudar aquilo que desconhecemos. Para mudar o mundo, é preciso conhecê-lo. A célebre tese de Marx sobre a transformação do mundo foi mal-interpretada: a filosofia de Marx nunca abdicou da teoria a favor da praxis. Nós conhecemos relativamente bem a dinâmica do capitalismo, mas este conhecimento não é suficiente para transformar o mundo: os agentes sociais da mudança já não são os mesmos do século XIX. O capitalismo introduziu mudanças significativas no mundo da vida quotidiana e no mundo da cultura e da personalidade. Conhecer os novos agentes sociais e os seus mundos fantásticos e saturados é uma prioridade da teoria crítica. Este conhecimento implica mudanças estruturais na agenda política da esquerda atenta ao mundo.

7. Eu sou muito objectivo e lúcido nas análises que faço: Basta assistir aos programas de TV para constatar que reina em Portugal uma conspiração contra o Porto e o FCPorto. Vejamos de perto um caso: "O Dia Seguinte" da SicNotícias. O comentador encarnado possui um cérebro saudável? O comentador verde foi objectivo na análise que fez do jogo Porto-Sporting e dos confrontos prévios ao jogo? Quem atiçou o ódio da claque terrorista do Sporting? Ora, a estratégia do FCPorto foi o silêncio.

8. Perante a evidência empírica não há argumentos e muito menos argumentos produzidos por cérebros alucinados: O FCPorto afirmou-se como vencedor depois do 25 de Abril. O ódio ao Porto vem do tempo do fascismo que tinha os seus clubes de regime: Benfica e Sporting. Estes clubes de regime nunca se adaptaram à cultura democrática do mérito: Eles não sabem vencer a não ser pressionando os árbitros, caluniando o adversário ou recorrendo às secretarias dos tribunais ou da imprensa. A chamada imprensa portuguesa é frontalmente contra o Porto e o FCPorto. Sabemos isso e devemos agir em conformidade: Exigir a autonomia radical do Porto Cidade-Estado porque não queremos ser invadidos por vândalos.

9. Como adepto do FCPorto, o que me interessa Cristiano Ronaldo, a Selecção Nacional ou o Estádio do Jamor? Absolutamente nada! Quando ouço os jornalistas da SIC a dizer que nos recebem na sua "sala de visitas" ou que a Selecção Nacional é o retrato da cópula encarnado-verde, sinto-me distante dessas realidades saturadas de provincianismo saloio. Eu sou portista e nada mais.

10. O que é o jornalismo desportivo em Portugal? Falar-conspirar durante horas seguidas sobre as frustrações desportivas do Benfica e do Sporting, lançando calúnias contra o FCPorto. O país está dividido e não adianta falar de coesão nacional porque esta mais não é do que uma falsa-unidade contra o Porto: Benfica e Sporting estão unidos na calúnia contra o FCPorto e a Cidade do Porto. Ora, como portuenses e portistas, somos excluídos dessa falsa-coesão imposta pelo regime fascista. Daí desejarmos ser um território independente e autónomo.

11. Mais outro exemplo do defeito cerebral dos comentadores encarnado-verdes: a corrupção da semântica que leva à mentira desportiva. Um jogador encarnado ou verde agride um jogador do FCPorto e eles falam de "virilidade". Um jogador encarnado ou verde lança-se à relva e eles acusam o jogador do FCPorto de ter cometido uma falta sem ter sido penalizado pelo árbitro. Pois, os cérebros defeituosos subverteram a "virilidade" fazendo dela uma mentira desportiva. O motivo secreto desta subversão é pressionar os árbitros a fazer o seu jogo de secretaria, deixando-os sozinhos no campo sem equipa adversária.

12. O FCPorto venceu o Sporting por 3-1. No último programa do "Dia Seguinte", o comentador verde diz para o comentador azul: "sorte de jogo". O comentador azul responde-lhe: "a sorte paga-se" (com esforço, disciplina e inteligência desportivas). E o comentador encarnado coloca a frase descontextualizada na sua página do Facebook para caluniar o FCPorto. O que podemos dizer sobre um cérebro que distorce as imagens dos lances dos jogos? Quando se perde o bom-senso, perde-se o mundo, como já dizia Hannah Arendt. Só nos resta o sorriso psiquiátrico!


A lição a sacar destas considerações futebolísticas é simples: as pessoas que possuem um "self" débil precisam desse sentimento de pertença que lhes empreste uma identidade colectiva. Ora, como o meu self é forte, o facto de ser adepto do FCPorto não me ofusca a mente: a minha identidade pessoal não sofre "mossa" quando o FCPorto perde ou joga menos bem. Deixa de ser fanático e liberta a tua mente para o caminho da verdade, do bem e da beleza! O fanatismo clubístico é uma perturbação mental: somar os fracassos desportivos do teu clube aos teus próprios fracassos pessoais arruína a tua vida mental, levando-te à violência desportiva.  

J Francisco Saraiva de Sousa

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Criação versus Evolução

PORTO: Sunset
Meus amigos pró-criacionistas:

A teoria da evolução não precisa de refutar a teoria da criação porque esta última é um tremendo absurdo. (Deus não explica nada porque - ele próprio - exige uma explicação!) Se o homem foi criado por Deus, à sua imagem e semelhança, então somos forçados a questionar a natureza desse "deus" que criou malvados idiotas. Quando olhamos para o mundo e para a história, aquilo que vemos não abona a favor da bondade da criação divina. O vosso "deus" é um monstro. Sempre achei que os homens de fé mais não são do que adoradores do Diabo! E não adianta recorrer aos "dados" da neurociência espiritual: eles não abondam a favor de nenhuma crença religiosa, até porque as neuro-imagens revelam a materialidade opaca da chamada "felicidade" dos homens-tubo-digestivo. Além disso, o programa de pesquisa subjacente é materialista e redutor: o que é feito do vosso espírito?

J Francisco Saraiva de Sousa

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Reviravolta da Filosofia do Mal

Sé-Catedral do Porto
«No sentido rigoroso do termo, o mal moral - o pecado na linguagem religiosa - designa o que torna a acção humana objecto de imputação, de acusação e de repreensão. A imputação consiste em consignar a um sujeito responsável uma acção susceptível de apreciação moral. A acusação caracteriza a própria acção como violação do código ético dominante na comunidade considerada. A repreensão designa o juízo de condenação, em virtude do qual o autor da acção é considerado culpado e merece ser punido. É aqui que o mal moral interfere no sofrimento, na medida em que a punição é um sofrimento infligido». (Paul Ricoeur)

O Holocausto tem alimentado a reflexão filosófica em torno do problema do mal. Porém, dada a sua singularidade, o Holocausto não constitui o terreno propício a partir do qual se pode elaborar uma filosofia do mal. A vacilação de Hannah Arendt entre o mal radical e a banalidade do mal mostra precisamente os limites da utilização do holocausto como modelo para pensar o mal. O mal deve ser estudado lá onde ele se manifesta em toda a sua visibilidade. Como se sabe, o terramoto de Lisboa inspirou a teodiceia (Leibniz, Voltaire). Hoje, nós compreendemos o sentido desta inspiração: Portugal é, por excelência, a terra da maldade humana. A imbecilidade dos portugueses foi pensada por ilustres pensadores que tiveram o azar de nascer em Portugal, dos quais destaco Guerra Junqueiro e Teixeira de Pascoaes. Conhecemos bem a associação existente entre imbecilidade e malvadez. O terramoto de Lisboa não teve o mesmo impacto destrutivo em todas as regiões de Portugal: o seu maior impacto destrutivo fez-se sentir no Sul de Portugal, exibindo todo o seu poder destrutivo em Lisboa. Os efeitos destrutivos do terramoto fizeram-se sentir na direcção sul-norte, com o norte a ser menos atingido do que o sul. A gradação dos efeitos destrutivos do terramoto de Lisboa permite esboçar uma geografia da maldade portuguesa: o sul de Portugal é mais malvado do que o norte. A primeira tentativa planeada de exterminar os judeus foi levada a cabo em Lisboa. A Inquisição portuguesa implantou-se mais no sul do que no norte de Portugal: as populações portuenses exibiram resistência contra a inquisição. E a PIDE foi um fenómeno especificamente lisboeta. O sul de Portugal concentra terríveis forças malévolas que não deixam o país progredir e construir uma história da liberdade. Não estou a defender as populações do norte de Portugal, até porque, para mim, os portugueses são todos malvados. As ex-colónias portuguesas devem abandonar rapidamente o espaço da lusofonia: importar portugueses é importar imbecilidade malvada. Nenhuma filosofia do mal possui uma grelha conceptual capaz de explicar a maldade demoníaca dos portugueses: a fenomenologia da experiência do mal proposta por Ricoeur não se aplica a Portugal, porque, nessa terra demoníaca, a maldade é protegida pela "lei". Em Portugal, a acção humana que gera o mal não é objecto de imputação, acusação e punição: aquele que comete o mal triunfa sobre aquele que sofre o mal. Os portugueses carecem de um código ético e, talvez por isso, não conseguem discriminar entre uma conduta boa e uma conduta má. Encarnações da potência demoníaca, os portugueses são, por natureza, catalisadores e promotores do mal e, por isso, devem ser severamente punidos pela comunidade internacional. 

A história de Portugal é a história do mal e, como tal, constitui o modelo adequado para elaborar uma filosofia do mal. A imoralidade demoníaca dos portugueses evidencia-se no facto destas criaturas do mal condenarem automaticamente a validade do discurso moral. Os portugueses fogem da ética e do pensamento como o Diabo foge da Cruz. O filme O Exorcista podia ter sido realizado em Portugal, tendo como cenário de fundo paisagens do sul. Estou convencido de que, se salpicarmos os portugueses com água benta, eles reagem como a personagem possuída pelo Demónio reagiu nesse filme: os portugueses são efectivamente criaturas malévolas que espalham a maldade impune pelas redes sociais. Até as novas tecnologias da informação e da comunicação os portugueses utilizam para cometer o mal e alastrá-lo pelo espaço virtual. A imbecilidade portuguesa que não suporta a diferença qualitativa é genética: o genoma português deve conter genes demoníacos - ou arcaicos - responsáveis por tanta malvadez. Os americanos conhecem bem a malvadez dos portugueses. Em termos gerais, os homens heterossexuais são mais agressivos do que os homens homossexuais. Mas em Portugal a malvadez também é um atributo dos homens homossexuais, dois dos quais a exibiram no Hotel Intercontinental em New York: um jovem gay português assassinou e mutilou barbaramente o seu "namorado" mais idoso, estando actualmente preso numa cadeia americana. Fugiu do Hotel antes de ser seduzido pela ideia macabra de grelhar os testículos da vítima e de os devorar. Os turistas estrangeiros não desfrutam de segurança nas praias do sul de Portugal, territórios de roubos, de sexo perigoso e de violência. O mal tem raízes biológicas e genéticas: a debilidade das filosofias contemporâneas do mal reside no facto de não terem levado em conta os conhecimentos biológicos sobre a agressividade humana. A secularização do pecado não é suficiente para formular uma filosofia do mal: o quadro teológico deve ceder o seu lugar ao quadro biológico. Esta mudança de quadro de referência permite pensar o mal de um modo mais coerente e sistemático e, acima de tudo, liberto das aporias da problemática tradicional. Como tenho defendido nos últimos textos, o nexo que define a filosofia é a sua relação com a ciência: uma teoria filosófica do mal deve ter como fundamento a biologia da agressividade humana. E, para distinguir entre agressão benigna e agressão maligna, deve tomar como objecto de estudo a sociedade destrutiva dos portugueses malignos. Portugal é, ao longo da sua história, um laboratório de maldade maligna. Se quiserem conservar uma moldura teológica para o problema do mal, então serão obrigados pela força da argumentação lógica a considerar os portugueses como figuras diabólicas que devem ser punidos pela comunidade internacional. Doravante, a luta contra o mal passa pela punição dos portugueses malignos que forjaram instituições que perpetuam a maldade. Esta raça maldita não inventou nada de novo que tenha contribuído para a libertação da humanidade: lá onde os portugueses malignos se instalam a luz é eclipsada. O povo português é um povo sem qualidades. Duas palavras são suficientes para definir a sua natureza: inteligência reduzida e malvadez, dois traços que permitem compreender todos os outros atributos que definem este grupo de malvados malignos. Com a ridícula ideia de Quinto Império, os portugueses malvados e loucos sonham com o seu domínio maligno do mundo: um povo medíocre, pobre e estúpido - um povo feio e sujo que não sabe produzir um pensamento - a sonhar com a dominação mundial, ideia patológica digna de figurar num tratado de Psiquiatria. D. Afonso Henriques matou - simbólica ou realmente a mãe, tanto faz! - para se apoderar da teta produtora de leite: o Quinto Império mais não é do que uma reminiscência desse crime que fundou Portugal, mamar o leite produzido pelos outros. (O mal já foi definido como carência de ser. Não concordo com as implicações filosóficas de um tal conceito teológico, mas sou tentado a definir os portugueses malvados como criaturas deficitárias de ser. O predomínio da oralidade na sua vida sexual justifica uma tal definição. Tal como o ilhéu das ilhas Trobiand, o português malvado - o "carlitos-pá" de "jesus" sem Cristo, o Anti-Cristo, logo o Diabo em pessoa! - absorve o sémen do seu parceiro sexual como se estivesse a incorporar a sua virilidade ou a sua essência identitária. O português malvado carece de vida psicológica e, por isso, comporta-se como um zombi.) 

Chessman & Francisco Saraiva de Sousa

segunda-feira, 2 de julho de 2012

A Ditadura da Estupidez

A Europa e o mundo ocidental perderam o juízo. Há muitas formas de totalitarismo e uma delas é a perda do bom-senso. A democracia ocidental produziu nas últimas seis décadas uma sociedade inviável e, o que não deixa de ser sintomático, anti-democrática. A turba pseudo-democrática é totalitária: a ideologia nefasta dos direitos humanos produziu a ditadura da estupidez. Cada elemento da turba de cidadãos anónimos é um inquisidor. Vivemos numa sociedade inquisitorial, a pior sociedade alguma vez produzida pelos homens ao longo da sua história violenta. Platão já sabia que a democracia produz a sua própria destruição: o que ele não sabia é que a democracia banaliza o mal radical. Este é o momento oportuno para introduzir uma inflexão radical: os agentes ideais desta mudança radical devem estar para além da Direita e da Esquerda. Embora não seja um agente secreto, sou suficientemente inteligente para detectar por detrás dos sites mundiais de esquerda a presença de uma ideologia terrorista: as redes sociais são palcos de manobras obscuras, terrivelmente obscuras, algumas das quais abusam do bom nome de Karl Marx para promover o terrorismo. (E onde há x, há também y, o seu arqui-inimigo, que só se unem contra z, neste caso, a Alemanha!) As forças do bem tornaram-se impotentes perante a prepotência das forças do mal que capturaram as redes sociais. O Mal exterior e interior organizou-se para derrubar o ocidente. Se o ocidente não inflectir o seu rumo, será presa fácil das forças exteriores do mal que agem com a cumplicidade de uma população interior envelhecida, egoísta e terrivelmente inculta. Só vejo uma alternativa: a ditadura. E, quando só temos esta alternativa, já não podemos sonhar: o futuro foge do nosso controle. Eu tenho sido sincero quando digo que sou o filósofo da funda meia-noite: não há filosofia sem um público inteligente restrito. As sociedades ocidentais de hoje não são sociedades sem escola; são sociedades sem ensino e sem educação, são sociedades capturadas pela mediocridade, pela inveja e pela maldade. Infelizmente, estamos rodeados de carrascos que elegeram como inimigo a abater o pensamento independente. Uma sociedade envelhecida sem pensamento não tem futuro. O ocidente tal como o conhecemos não tem futuro. (A situação em Portugal é terrivelmente obscura. O povo português é, profundamente, estúpido, invejoso e maldoso; daí a sua incapacidade para produzir uma sociedade civilizada. Infelizmente, o 25 de Abril não produziu o efeito desejado; pelo contrário, banalizou a maldade radical do povo português. Tenho em mente uma geografia da maldade portuguesa, mas esta deixou de ser a minha luta. Portugal não é a pátria de seres inteligentes, Portugal é a pátria dos zombis anti-cognitivos e da sua brutalidade.)

J Francisco Saraiva de Sousa

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Futebol: a válvula dos impulsos homo-eróticos


Ontem foi um dia divertido: uns amigos alemães de esquerda socialista partilharam comigo estas e muitas outras imagens dos rituais futebolísticos. Foi uma oportunidade para rever a teoria da tribo do futebol de Desmond Morris e de lhe dar um conteúdo mais sexual: o futebol como cópula gay ritualizada no campo e exteriorizada algures nos bastidores. Penso que a teoria da natureza homossexual das relações sociais proposta por Lévi-Strauss e retomada por Luc de Heusch, para já não falar de Lionel Tiger e Robin Fox, pode ser desenvolvida a partir do paradigma do futebol ou mesmo do exército e de outras instituições masculinas: a rigidez das sexualidades de género masculino é hoje um conceito amachucado. As sexualidades masculinas não são tão rígidas como pensávamos: a fluidez que verificamos nos nossos dias reconduz ao núcleo homo-erótico. Não bastar dar um nome: "homens que fazem sexo com outros homens"; é preciso explicar este comportamento e revelar o seu núcleo homo-erótico. Os chimpanzés e outros macacos fornecem excelentes modelos animais para compreender a natureza homossexual das relações sociais humanas. A libertação das mulheres produziu efeitos estranhos na sociedade: desvalorizou o corpo feminino e sobrevalorizou o corpo masculino, quebrando o tabu homossexual. (Um efeito perverso pode ser o desejo de auto-amputação e a erotização do membro amputado!) Os homens de hoje fazem aquilo que os homens de ontem desejavam fazer: "curtem a sua própria masculinidade". Este comportamento homo-erótico está presente em muitas sociedades arcaicas, onde a iniciação permite a prática institucional de relações homossexuais. A homossexualidade institucionalizada não é apenas uma invenção indo-europeia, bem exemplificada no caso grego (Bernard Sergent, K. J. Dover), mas uma prática presente nas mais diversas áreas culturais (G. Herdt, R. C. Kirkpatrick), bem como nas nossas instituições masculinas totais. Não sei se desejo retomar a minha investigação sobre determinação sexual e diferenciação sexual do cérebro e do comportamento: prefiro explorar outras áreas do conhecimento, embora reconheça a importância desta área da pesquisa sexual. Escusado será dizer que, ao fazer estas observações, estou a tentar mostrar que o que é surpreendente não é a homossexualidade mas a própria heterossexualidade. Ou seja, estou a problematizar a própria heterossexualidade. Quando realizei a minha investigação estava consciente disso, mas não soube dar-lhe expressão. Afinal, por que os homens são heterossexuais? Não estará o sucesso do futebol ligado à sua natureza homossexual? Não será a tribo do futebol uma tribo gay que revive nos nossos dias os rituais da caça ancestral? Ontem, quando os portugueses festejavam os golos do Cristiano Ronaldo, olhei-os de outra forma: vi que eles lá no fundo de si próprios eram e são "paneleiros". Depois dei-me ao trabalho de observar atentamente os sites nórdicos "Anti-Cristiano": o que observei? Observei que os nórdicos redescobriram o facto do "paneleiro" ser uma figura latina. As amostragens americanas já levam em conta esta classificação. Compreende-se agora a razão que leva os homens latinos a mascarar-se de prostitutas nos cortejos carnavalescos: eles são "travecas" exímios que aproveitam o Carnaval para dar expressão à mulher de má-vida que habita neles. (A nossa aliança - ego-alemães - é estritamente política: derrubar as políticas de direita da chanceler!)

J Francisco Saraiva de Sousa

domingo, 10 de junho de 2012

Genética do Comportamento: O colapso das ciências sociais

Experiência Genética
Nick Martin planeou uma carreira profissional na política, tendo iniciado uma licenciatura em Artes. Mas o seu interesse pela tensão existente entre as ideias políticas de igualdade perante a lei e a realidade biológica das diferenças individuais levou-o a iniciar o seu primeiro estudo de gémeos durante o seu período estudantil na Universidade de Adelaide (Austrália). Atraído pela análise genética do comportamento que se realizava em Birmingham, Nick Martin foi para Inglaterra para realizar a sua tese de doutoramento, onde trabalhou com Lindon Eaves e John Jinks. Martin e Jinks desenvolveram a análise genética da estrutura da covariância, em que se baseia em grande medida a análise genética multivariante. Os cálculos da potência dos estudos de gémeos revelaram que estes estudos deviam ser mais extensos que os realizados até aí. Martin regressou à Austrália para fundar o Registo Australiano de Gémeos, em torno do qual desenvolveu os seus estudos sobre genética da personalidade, alcoolismo e outros traços psiquiátricos, estando actualmente a realizar estudos de ligamento e associação para descobrir os genes implicados nos caracteres do comportamento humano.

Martin trocou a carreira política pela carreira de investigação científica no domínio da genética do comportamento. As massas anarquistas de "esquerda" suspeitam da genética: a ciência da hereditariedade é, para estas criaturas sem qualidades, uma ciência capitalista. Em 1969, foi publicada nos Estados Unidos da América a tradução inglesa do livro de Z. A. Medvedev - The Ascent and Fall of T. D. Lysenko. Deste maravilhoso livro retenho apenas dois parágrafos, um do próprio Lysenko e outro do seu discípulo Prezent. Sobre a competição entre membros de uma mesma espécie. Lysenko escreve em 1947: «A humanidade constitui uma só espécie biológica. Segundo os capitalistas, é da lei natural que os membros de uma espécie compitam entre si para obter os recursos necessários para sobreviver; os indivíduos mais bem adaptados, saem vitoriosos. O mesmo, dizem, ocorre com a espécie humana: os empresários vivem com luxo e os seus milhões de operários vivem na miséria, devido a que os empresários são mais inteligentes e capazes, dada a sua herança biológica». Prezent reforça a convicção de Lysenko: «O capitalismo, durante o seu período histórico florescente e no cume da sua cultura, produzia uma das criações supremas do pensamento biológico: o darwinismo, uma visão histórica do mundo orgânico. O capitalismo corrupto produziu, durante o período imperialista do seu desenvolvimento, um bastardo abortado da ciência biológica: a doutrina metafísica e anti-histórica da genética formal». Com o apoio de Estaline e mais tarde de Kruschov, Lysenko e Prezent - o teórico do lysenkysmo - apresentaram uma nova teoria da hereditariedade, rejeitando a teoria morgano-mendeliana como um produto capitalista que negava os princípios fundamentais do "materialismo dialéctico". Para eles, os genes não existiam: a hereditariedade era uma propriedade geral interna da matéria viva que, como tal, não necessita de um sistema genético separado, localizado nos cromossomas. Escusado será dizer que quando foram aplicadas às práticas agrícolas a teoria da hereditariedade de Lysenko (sic) e a sua pretensa descoberta do processo de vernalização - enfim, a biologia mitchurinista por oposição à biologia capitalista - produziram fracassos agrícolas desastrosos, levando a URSS a importar cereais do estrangeiro. O lysenkysmo não só criticou o darwinismo social, o que era e é justo, como também aboliu o ensino da genética mendeliana nas academias soviéticas, gerando um atraso estrutural da investigação biológica na URSS. Usar o lysenkysmo para condenar o materialismo dialéctico não faz sentido, bastando ler as obras de Marx e Engels para nos convencermos disso. No entanto, apesar das intuições geniais de Engels, a maior parte do marxistas seguiu a via das ciências sociais sem procurar clarificar a sua base natural. Os marxistas traíram a teoria da história de Marx. O medo da genética de Lysenko propagou-se a todos aqueles que lutam por uma igualdade nivelada por baixo, em nome da qual sacrificaram o desenvolvimento exaustivo do materialismo histórico. O resultado dessa luta fraudulenta salta à vista: os menos aptos ingressaram nas ciências sociais, enquanto os mais aptos optaram pelas ciências naturais. As ciências sociais abortaram sem ter conseguido aperfeiçoar o paradigma científico de Marx; as ciências naturais desenvolveram-se de tal modo que procuram realizar aquilo que não foi efectuado nas ciências sociais pelos menos aptos, cujo objectivo de vida é partilhar aquilo que é produzido pelos outros ou que deriva da sua actividade. A clivagem entre ciências sociais e ciências naturais é uma clivagem de competências: os menos aptos apoderaram-se do domínio das ciências sociais, provocando a sua estagnação. E são de tal modo destituídos de capacidades mentais que não se aperceberam de que a ideia de selecção não é estranha ao materialismo histórico. Vistas à luz do conhecimento de que dispomos hoje, as teorias de Darwin e de Marx não são teorias rivais; pelo contrário, elas são complementares, até porque ambas germinaram no século XIX no seio da sociedade inglesa. O que é a teoria da ideologia de Marx a não ser uma teoria da selecção social das ideias? A aproximação de Marx a Darwin permite concluir a teoria do materialismo histórico, ao mesmo tempo que prepara o terreno para a sua integração na teoria sintética da evolução. O marxismo soviético fracassou lá onde ele se distanciou do materialismo histórico: a queda da URSS não fez mossa na teoria da história de Marx.

Os meus últimos textos movem-se em terrenos movediços e perigosos. A tese que pretendo defender é a seguinte: a teoria sintética da evolução não está completa enquanto não integrar o materialismo histórico no seio do seu quadro teórico. Nem todos os sociobiólogos reagiram do mesmo modo ao estudo dos comportamentos humanos: os americanos mostram-se muito mais propensos a ver os seres humanos como organismos sociobiológicos do que os ingleses. Trivers (1976), Alexander (1975) e Wilson (1975) consideram que a selecção natural é responsável pela nossa formação, sendo necessário compreendê-la para conhecer as nossas identidades. Dawkins (1976) que nunca fez parte do círculo íntimo de Wilson está menos disposto a aplicar a sociobiologia aos seres humanos, os quais escaparam nos seus aspectos mais importantes às regras biológicas. Maynard Smith (1972) vai mais longe quando se dissocia completamente da sociobiologia humana, negando a sua relevância para o domínio do homem. Dawkins propôs a sua própria teoria da evolução cultural, na qual os memes - tipos de unidades intelectuais - substituem os genes. Uma ideia semelhante já tinha sido proposta por Jacques Monod sob a designação de teoria da selecção natural das ideias. O modelo da hominização esboçado por Engels permite explicar a emergência da cultura no seio do mundo natural, sem ceder ao idealismo. Quando falo da necessidade de integrar o materialismo histórico na nova síntese, refiro-me à articulação das duas formas de evolução, a biológica e a cultural. Os etólogos e os sociobiólogos perderam muito tempo a tentar produzir uma teoria da cultura quando na verdade ela já tinha sido produzida por Marx, em conformidade com a estratégia materialista da ciência. A teoria da cultura assume na obra de Marx a forma de uma teoria da história: a teoria da cultura é, portanto, teoria da história humana. Não se pode ser materialista no plano da biologia humana e idealista no plano da cultura humana. Este contra-senso que atravessa as obras de cientistas revolucionários deve-se ao facto do seu temor pelo comunismo os ter afastado da obra de Marx. Uma vez depurado deste elemento ideológico externo, o marxismo revela ser aquilo que sempre foi: um programa de investigação científica da história humana, fundado na ciência natural. Além disso, os cientistas revolucionários não podem negar a antiga visão tipológica do mundo, substituindo-a pelo esquema da evolução, com base na biologia das populações, e, ao mesmo tempo, conservar uma visão imobilista da história do homem. O conceito marxista de história como uma sucessão descontínua de formações sociais é o único conceito adequado à teoria sintética da evolução. Alguns destes cientistas recorrem à teoria das revoluções científicas de Thomas S. Kuhn para pensar a novidade revolucionária das suas teorias, sem no entanto compreenderem que essa teoria mais não é do que a aplicação do esquema marxista da história ao estudo do crescimento científico. De facto, o mundo nunca mais voltou a ser o que era depois de Marx. Como é evidente, esta integração do materialismo histórico na nova síntese não pode ser levada a cabo sem a participação da neurobiologia e da ecologia. É mais fácil começar pela segunda, reformulando a teoria marxista da reprodução social à luz da teoria da população, do que pela primeira, embora a genética do comportamento abra uma via nesse sentido, como veremos mais adiante. A síntese eco-marxista é um passo fundamental na estratégia de fusão do materialismo histórico e da teoria sintética da evolução. A dificuldade em relação à neurobiologia não reside na explicação neuronal dos comportamentos humanos: a integração de toda a super-estrutura ideológica e noológica implica o desenvolvimento prévio de uma biologia do espírito humano, em articulação com o paradigma da natureza humana. As neurociências têm proposto soluções para o problema mente/cérebro sem levar em conta um factor crucial de estruturação da vida mental: a sociedade. Embora nunca tenha abordado este assunto, pelo menos de modo directo e explícito, Marx abriu a via que permite clarificá-lo, desde os Manuscritos de 1844 até às suas últimas obras. Na Ideologia Alemã, podemos ler esta orientação teórico-metodológica: «E só agora, depois de já examinados quatro momentos, quatro aspectos das relações históricas originárias, nos apercebemos de que o homem também possui "consciência". (Variante: o homem tem "espírito" e esse "espírito" manifesta-se como consciência.) Mas não se trata de uma consciência que seja de antemão "pura". Desde sempre pesa sobre o "espírito" a maldição de estar "imbuído" de uma matéria que aqui se manifesta sob a forma de camadas de ar em movimento, de sons, numa palavra, sob a forma da linguagem. A linguagem é tão velha como a consciência: é a consciência real, prática, que existe também para outros homens e que, portanto, existe igualmente só para mim, e, tal como a consciência, só surge com a necessidade, as exigências dos contactos com os outros homens. Onde existe uma relação, ela existe para mim. O animal "não se encontra em relação" com coisa alguma, não conhece de facto qualquer relação; para o animal, as relações com os outros não existem enquanto relações. A consciência é, pois, um produto social e continuará a sê-lo enquanto houver homens. A consciência é, antes de tudo, a consciência do meio sensível imediato e de uma relação limitada com outras pessoas e outras coisas situadas fora do indivíduo que toma consciência; é simultaneamente a consciência da natureza que inicialmente se depara ao homem como uma força francamente estranha, todo-poderosa e inatacável, perante a qual os homens se comportam de uma forma puramente animal e que os atemoriza tanto como aos animais; é, por conseguinte, uma consciência de natureza puramente animal (religião natural). Por outro lado, a consciência da necessidade de entabular relações com os indivíduos que o cercam marca para o homem a tomada de consciência de que vive efectivamente em sociedade. Este começo é tão animal como a própria vida social nesta fase; trata-se de uma simples consciência gregária e, neste aspecto, o homem distingue-se do carneiro pelo simples facto de a consciência substituir nele o instinto ou de o seu instinto ser um instinto consciente. Esta consciência gregária ou tribal desenvolve-se e aperfeiçoa-se posteriormente devido ao aumento da produtividade, das necessidades e da população, que constitui aqui o factor básico». (Marx, pelo menos na Ideologia Alemã, parece ser tentado a definir a "consciência" como uma espécie de interface entre o indivíduo e o meio natural e social. A "consciência" como interface pode ser um conceito produtivo.) Depois de ter tentado apresentar uma solução para o problema mente/cérebro, o naturalismo biológico, ao longo de mais de 300 páginas, John R. Searle conclui a sua viagem de redescoberta da mente afirmando que é necessário redescobrir o carácter social da mente. No entanto, quando noutra obra tenta realizar essa tarefa, esquece que a descoberta do carácter social da mente se deve a Marx, tendo sido desenvolvida e ampliada pelos estudos de L. S. Vygotsky, A. R. Luria e Mikhail Bakhtin, para já não falar de E. Fromm e de G. H. Mead. A recusa da teoria de Marx traduz-se sempre num desvio idealista: Tanto John Searle como António Damásio são idealistas quando tentam resolver o problema da natureza da mente sem levar em conta a sua formação socialA superioridade intelectual de Marx em relação aos biólogos reside no facto de não fazer moralismo: quase todas as teorias biológicas propostas acabam por conduzir a uma ética tão individualista - portanto, idealista - quanto o seu pressuposto individualismo metodológico. A integração do marxismo na teoria sintética da evolução desafia alguns dos seus princípios, obrigando-a a reformulá-los e a depurá-los dos seus elementos ideológicos liberais. Um desses desafios diz respeito à unidade fundamental da selecção natural. Estou convencido de que a sugestão de Dawkins é aquela que se adequa melhor à noção marxista de "portador" que aparece explicitada na opus magnum de Marx, O Capital: «a unidade fundamental da selecção (...) não é a espécie, nem o grupo, nem mesmo a rigor o indivíduo - é o gene, a unidade da hereditariedade», donde resulta que os seres vivos são «máquinas de sobrevivência» dos genes.

A genética constituiu um dos maiores avanços científicos do século XX, tendo começado com a redescoberta das leis de Mendel e terminado com a sequência completa do genoma humano. A genética do comportamento constitui uma ponte entre as ciências biológicas e as ciências do comportamento. Para estudar os factores genéticos do comportamento, a genética do comportamento utiliza diversas estratégias de investigação, como por exemplo os estudos de gémeos e de adopção (genética quantitativa), que investigam a influência dos factores genéticos e ambientais, e as estratégias para identificar genes específicos (genética molecular). A genética do comportamento aplica todas estas estratégias de investigação ao estudo do comportamento normal e anómalo, incluindo disciplinas como a genética psiquiátrica, que estuda as perturbações mentais, e a psicofarmacogenética, que estuda as respostas comportamentais às drogas. (:::/:::) O primeiro livro que definiu a genética do comportamento - Behavior Genetics de J. L. Fuller & W. R. Thompson - foi publicado em 1960. Os anos 60 do século XX foram caracterizados por inúmeras controvérsias sobre natureza (genes, herança) versus educação (meio). Um dia será necessário fazer a história destas controvérsias. A grande responsável pelo atraso da investigação genética do comportamento foi precisamente a psicologia, a "ciência" que foi demolida pela etologia, ecologia do comportamento e sociobiologia. O facto de alguns psicólogos trabalharem hoje no campo da genética do comportamento não nos deve impedir de olhar para a psicologia como a grande derrotada pelo progresso científico. O fundador do behaviorismo, J. B. Watson, descartou-se dos factores hereditários, alegando que as estruturas hereditárias podem ser conformadas de mil maneiras distintas, dependendo do meio em que a criança é educada. Nascia assim o mito da educação - o ambientalismo - que veio a ser destruído pela revolução etológica e pela revolução sociobiológica. Em 1992, a Associação Americana de Psicologia destacou a genética como o tema que melhor representava o futuro da psicologia, dando início à invasão da genética do comportamento por psicólogos. Ninguém é contra a participação activa dos psicólogos na investigação genética do comportamento, mas se compararmos os manuais de genética do comportamento com os manuais de outras disciplinas biológicas, verificamos a ausência de um paradigma da natureza humana desenvolvido em conformidade com a teoria sintética da evolução. A psicologia evolutiva não é argumento porque, ela própria, mais não é do que outra designação dada à sociobiologia. Ao longo da sua história já centenária a psicologia nunca conseguiu fazer a sua própria revolução científica: a sua prática normal é "anexar" as descobertas realizadas noutros campos disciplinares. Uma das descobertas científicas que ajudou a clarificar o papel dos genes no comportamento foi a fenilcetonúria (FKU), defeito devido a um único gene - o gene codificante de PAH, a enzima que converte a fenilalanina em tirosina, que era antes causa de um retardamento mental severo e responsável por cerca de 1% dos indivíduos atrasados institucionalizados. Estudos bioquímicos sobre as vias que unem genes e comportamento indicaram que a causa última do retardamento mental era a incapacidade para degradar a fenilalanina, que se traduz na acumulação de níveis elevados desta substância no sangue, danificando gravemente o cérebro em desenvolvimento. Os indivíduos que sofrem de FKU podem ser tratados administrando-lhes durante o período de desenvolvimento uma dieta baixa em fenilalanina. (:::/:::)

Ora, como se sabe, o cérebro constitui a conexão funcional entre os genes e o comportamento, sendo mais impressionante do que o genoma pelos triliões de sinapses em vez de biliões de pares de bases de ADN e pelas centenas de neurotransmissores em vez de quatro bases nucleotídicas do ADN. A neurobiologia - ou neurociência - estuda a função cerebral e, na actual conjuntura teórica, constitui uma das áreas mais activas da ciência. A genética do comportamento interessa-se não só pela descoberta dos genes relacionados com o comportamento, como também pelo modo como funcionam esses genes. Chama-se genómica funcional ao estudo de como funcionam os genes: ela abarca todos os níveis de análise, desde os genes até ao comportamento. Os biólogos moleculares estudam a função ao nível celular, identificando os produtos génicos - as proteínas - e examinando a sua função celular. A este nível a variação genética implica mudanças na estrutura tridimensional das proteínas. Um nível de análise superior é o das mudanças moleculares que ocorrem na sinapse: a plasticidade sináptica tem sido estudada pela neurogenética para compreender a aprendizagem e a memória como processos que implicam mudanças celulares na sinapse. Outros níveis superiores de análise da função cerebral são os dos padrões de estimulação entre neurónios e através de distintas regiões cerebrais e do comportamento do organismo inteiro. A neurogenética é o estudo genético da estrutura e da função cerebral em relação com o comportamento. Utilizando animais mutantes, isto é, animais portadores de mutações espontâneas, mutações produzidas por mutagénese química ou mutações dirigidas, a neurogenética já produziu resultados importantes em pelo menos três áreas: a do ritmo circadiano, onde descobriu vários genes clock cuja expressão controla este ritmo; a da aprendizagem e memória, onde se descobriram mudanças na estrutura e função da sinapse, impulsionadas geneticamente, que desempenham um papel crucial na sinfonia de transformações implicadas nestes processos; e a da resposta a fármacos. (:::/:::)

Em construção. J Francisco Saraiva de Sousa

sexta-feira, 16 de março de 2012

Sobre os mortos que nos visitam

Porto: Escadas do Barredo
«Um morto vem visitar-te. Do coração corre-lhe o sangue que ele próprio verteu, e no sobrolho negro aninha-se um instante indizível. Encontro lúgubre. Tu - uma lua de púrpura, quando o outro aparece na sombra verde da oliveira. Segue-o a noite eterna». (Georg Trakl)

A alma errante de Georg Trakl já me visitou, pedindo-me sete rosas brancas que depositei no seu túmulo em Innsbruck. E nunca mais me abandonou, tendo-se aninhado no meu lar, junto do meu feiticeiro e do meu séquito de onze almas protectoras. Um vidente do Centro Espirita do Porto aproximou-se de mim para me dizer que andava bem acompanhado por vinte e uma almas. Sorri garantindo-lhe que havia mais uma alma, talvez a mais querida das minhas almas defuntas. A TVI tem o seu programa sobre a "vida depois da morte", frequentado por uma plateia de pessoas em busca de contacto com os seus mortos queridos. Vivemos num mundo despojado de sinais de transcendência e, quando as pessoas os procuram, fazem-no de um modo extremamente mesquinho e egoísta, mais para se livrarem dos remorsos do que por reverência pelo mundo transcendente da alma. As pessoas umbilicais não sabem que para verem os mortos que nos visitam não precisam de ir à TVI, bastando-lhes mergulhar numa multidão urbana e distinguir entre os vivos e os mortos. Pelo menos, este é um exercício que não exige treino nem mediadores: os mortos gostam de passear entre os vivos e, por isso, nada melhor do que os procurar lá onde os vivos se aglomeram. Ao contrário do que pensam as pessoas mesquinhas, esmagadas pelos remorsos, os cemitérios são despovoados: as almas dos defuntos não gostam de habitar os cemitérios, fechadas dentro dos caixões. Elas estão onde há pessoas vivas. Na cidade do Porto, podemos ver muitos mortos a circular entre os vivos nas Ruas de Santa Catarina e Sá da Bandeira ou mesmo no metro nas suas horas de ponta. E nem todos os mortos que visitam o Porto são naturais desta bela cidade. Nas artérias de maior movimento, encontramos muitos mortos provenientes de outras zonas do país e do estrangeiro: o cosmopolitismo portuense também é um cosmopolitismo de almas. As almas do outro mundo não resistem aos encantos do Porto: elas habitam o Porto, tal como os vivos, de modo perdidamente apaixonado. Abençoado por Deus desde tempos imemoriais, provavelmente desde o fabuloso começo do mundo, o Porto é um dos maiores pólos mundiais de atracção da transcendência e de comércio entre os vivos e os mortos. A Sida leva à morte um artista portuense, algures num passado não muito distante, mas meses depois do seu enterro a sua colega D. cruza-se com ele perto da sede originária do Banco Borges & Irmão, no cruzamento entre as Ruas de Sá da Bandeira e de 31 de Janeiro, sob o olhar atento da Estação de São Bento. Pensando que estava a ter uma alucinação visual, sinal evidente da "loucura" que a família lhe atribui, evita olhá-lo de frente e continua o seu caminho. Ele intercepta-a novamente e sorri-lhe, passando para o outro lado da rua, e, quando ela tenta conversar com ele, a imagem-holográfica do defunto já está no cimo da Rua de 31 de Janeiro: o morto aproximou-se dela e sorriu-lhe, mas não lhe falou. Esta aparição deixou-a de rastos, como se fosse o anúncio da proximidade da sua própria loucura. Calou-se e não contou nada a ninguém. Mas, mais tarde, já num outro dia, D. cruza-se com uma amiga de infância de Vila Real, desta vez na Rua de Santa Catarina: cumprimenta-a e tenta pôr a conversa em dia, mas o holograma sorri sem lhe responder, desaparecendo rapidamente na multidão. À noite, D. contou à mãe e à irmã que esteve com a sua amiga de infância que não via há muitos anos. A troca de olhares entre a irmã e a mãe gelou-lhe o sangue. E a mãe disse-lhe: "Então, filha, não sabes que ela morreu num acidente trágico?" Quando ouviu estas palavras da mãe, D. começou a chorar, dizendo que estava a ficar louca, porque já era a segunda vez que via um morto. A mãe confortou-a quando lhe disse que ver mortos não constituía sinal de loucura: "Os mortos andam entre os vivos e tu, minha filha, tens o dom de os ver". Quando me relatou estes dois encontros lúgubres com mortos, D. referiu um outro episódio: um estranho telefonema nocturno que lhe tirou o sono, pelo facto de pressentir a morte próxima da sua prima, que, de facto, morreu tragicamente nessa madrugada no Hospital de São João. Enquanto conversávamos, a maior bruxa do Porto, sim aquela que cheira mal, mais conhecida como a "língua-esfregona" do Porto, aproximou-se de nós, toda sorridente, e convida-nos a ir com ela ao Cemitério de Agramonte, onde a mãe está sepultada, em busca de "sinais dos mortos". Olhei para D., receando uma reacção de desaprovação, mas, em vez disso, ela prontificou-se a ir ao cemitério à noite. E, no cemitério, junto das suas grades, as duas "malucas" surpreenderam-me: uma - a bruxa, claro! - chamava pelos gatos, na esperança de que um deles fosse a mãe; a outra empoleirou-se no muro e divertia-se a comentar os túmulos e a contar as velas e os caixões de cada um dos jazigos familiares. Uma brisa de ar moveu um dos pinheiros e a bruxa decifrou no movimento insignificante dos galhos uma mensagem do outro mundo. D. comentava baixinho comigo que ela estava "mesmo louca", quando ela me interpela mencionando a cor dos olhos de um gato negro: "A minha mãe está neste gato, porque os olhos são da mesma cor". Afastei-me ligeiramente dela, para não alimentar a sua paranóia, mas qual a minha surpresa quando a ouço a chamar "cabra" ao gato. A força do remorso de ter deixado a mãe morrer sozinha não era suficientemente poderosa para apagar o ódio que sempre nutriu por ela: o gato-mãe continuava a ser uma "cabra". D. que também tem as suas discussões com a mãe, não compreendia como a "velha bruxa" podia odiar tanto a mãe já morta e sepultada, a ponto de ter deitado no lixo quase todas as suas lembranças. Afinal, havia no mundo uma criatura mais "maluca" do que ela: as suas idas nocturnas ao cemitério ainda eram alimentadas por esse velho ódio de estimação que a levou a abandonar precocemente a casa materna. Em privado, já depois do regresso atribulado a casa, repleto de palavrões, contei-lhe que a bruxa sofre de uma doença bipolar e que ela só vai ao cemitério quando entra em depressão profunda. Mas, enquanto lhe explicava as ambiguidades anómalas do comportamento da bruxa, Georg Trakl segredou-me aos ouvidos uma ida às escadas do Barredo. Levei D. até às escadas do Barredo, onde em determinado sítio a deixei sozinha, depois de lhe ter tirado os aparelhos auditivos, para ela temer as sombras dos eucaliptos e das árvores. Cobertos pelas sombras nocturnas dos muros, eu e Trakl riamo-nos com os gritos de D. que acenderam algumas luzes. Ainda pensei chamar um velho vampiro do Porto para lhe morder o pescoço, mas a sua aflição comoveu-me. Depois de lhe devolvermos a audição, arrancando-a ao mundo do silêncio absoluto, resolvemos levar D. até casa, onde a deixámos entregue aos seus pensamentos de cafeína e de haxixe. D. nunca mais voltou a ver mortos: ela prefere ver homens vivos, de preferência musculados e fortes mas sem usar tatuagens e piercings na língua e no pénis e, sobretudo, sem necessidade de tomar viagra ou dar uma injecção no pénis para obter erecções fortes, evitando uns - as "barbies masculinas" - e aproximando-se de outros, nesse eterno movimento de alienação que é a vida quotidiana

J Francisco Saraiva de Sousa