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domingo, 20 de outubro de 2013

Projecto Porto Cidade-Estado (5)

Porto Cidade-Estado
Hoje partilho um conjunto de pequenos textos que visam esclarecer a Filosofia Portuense:

1. A mente poética de Teixeira de Pascoaes produziu, em estado prático, uma grande Filosofia da Poesia Portuguesa que urge sistematizar. Destaco uma frase da sua autoria: «D. Quixote é. D. Sebastião há-de ser». A alma lusitana distingue-se assim da alma castelhana: a primeira deseja o futuro, abre-se ao futuro desejado; a segunda fecha-se no passado, actualiza-o. O sebastianismo transfigurado dos pensadores portuenses é uma filosofia da História de Portugal. Não temos outra.

2. Conheço a biblioteca privada de alguns dos pensadores portuenses: os títulos incluem poucas obras de vulto naquele tempo. Ora, o que é inusitado é o facto deles terem redescoberto conceitos filosóficos nucleares e terem feito distinções conceptuais de primeira ordem: a distinção entre "é" e "há-de ser" é brilhante. A alma portuense descobriu uma afinidade que partilha com a alma russa. Mas há outra afinidade e, desta vez, com a alma alemã. O romantismo portuense é brilhante e digno de figurar na grande literatura mundial.

3. As pessoas não compreendem a minha indiferença em relação a Fernando Pessoa e a minha preferência pela poesia e prosa de Teixeira de Pascoaes. Direi apenas que na obra de Pascoaes sinto-me em casa, enquanto na obra de Pessoa sou um estranho: Uma poesia que não se presta ao pensamento não me atrai.

4. Como qualquer um dos grandes pensadores portuenses do passado, eu tento libertar o pensamento filosófico em língua portuguesa da prisão da intriga e da bisbilhotice. E, nessa tarefa de devolver o pensamento à sua matriz conceptual, fui mais longe do que os pensadores ancestrais: Faço Filosofia e, quando confrontado com a Mitologia Nocturna do Povo, converto-a em Filosofia Nocturna. Surgem luzes na escuridão da funda meia-noite.

5. No meu período juvenil, rejeitei o Saudosismo de Teixeira de Pascoaes: a Saudade era-me completamente estranha. Mas, com o decorrer do tempo e à medida que aprofundava a Filosofia Portuense, descobri aquele processo de mutação intelectual a que chamo transfiguração portuense do sebastianismo: a saudade portuense deixou de ser uma noção vaga para passar a ser um conceito político. Vou mais longe: os pensadores portuenses nunca alinharam filosófica e politicamente com a Geração 70: o "há-de ser" é mais do que uma categoria ontológica; é, antes de tudo, um projecto político, e a saudade portuense mais não é do que a saudade do futuro reservado à Cidade do Porto. Eu sou o filósofo portuense da Grande Ruptura: os meus sonhos diurnos antecipam em pensamento o futuro do Porto como Cidade-Estado. Ora, a minha alma portuense não me impede de pensar outras figuras portuguesas, como por exemplo Gil Vicente.

6. Ao falar da transfiguração portuense do sebastianismo, estou a introduzir uma ruptura no seio do sebastianismo português. Rejeito a mitologia sebastianista pensada por sulistas, como por exemplo António Quadros, e aceito o desafio de levar mais longe a problemática filosófica portuense, fazendo do Encoberto-Desejado uma figura da Filosofia. Os heterónimos de Fernando Pessoa tornam-se ridículos perante a figura portuense do Encoberto-Desejado, a figura que anuncia a Filosofia Nocturna e promete a Filosofia Diurna.

7. Há pessoas que se apropriam dos tesouros cognitivos disponibilizados pela Internet como se fossem seus e, quando atacam os outros, pressupõem que eles fazem o mesmo. Ora, nem todos os utentes da Internet são "ladrões cognitivos". É complicado tentar testar a inteligência do outro, sobretudo quando esse outro está a fundar uma nova problemática filosófica, para além das problemáticas da Filosofia da Consciência e da Filosofia da Linguagem: a problemática da Filosofia do Conceito que, de certo modo, reclama a herança de Espinoza. Tontos são aqueles que se limitam a dizer vulgaridades, vampirizando a obra de Vieira, por exemplo.

8. A falência da Editora Livros do Brasil está a privar-nos das obras brasileiras. Uma obra que desapareceu das livrarias portuguesas são os "Sertões" de Euclydes da Cunha. Os portugueses desconhecem o sebastianismo brasileiro, ou melhor, o tremendo impacto de António Vieira sobre o sebastianismo nordestino: o brasileiro é-nos apresentado como um "ser saudoso" (Oliveira Torres) porque descendente detrês raças tristes: o português desterrado da sua pátria, o negro banzado de África, e o índio desesperado por ter sido arrancado às selvas. Dado esta região brasileira ter sido colonizada por gente proveniente do Norte de Portugal, a saudade brasileira - que dizem ser saudade do Paraíso Perdido - é herdeira da saudade galaico-portuense ancestral. Estou cada vez mais convencido de que a Filosofia do Sebastianismo deve ser um empreendimento luso-brasileiro.

9. Abel Salazar duvidava do equilíbrio mental de António Sérgio, cuja mente destrambelhada teve repercussões nefastas sobre o pensamento português e portuense. Os maiores cérebros portugueses seus contemporâneos - Jaime Cortesão e Abel Salazar, por exemplo - não tinham boa imagem de António Sérgio e detestavam o seu "polemismo caceteiro" que mergulhou o cultura portuguesa nas trevas da merda. Convém reanalisar criticamente todas estas polémicas travadas por Sérgio contra a filosofia portuense. Os (pseudo-)intelectuais portugueses herdaram esse espírito caceteiro que se limita a demolir sem construir.

10. Quem é o Encoberto para Sampaio Bruno, o pai do chamado pensamento português, isto é, do pensamento portuense? Eis a sua resposta: «Dissipe-se a nuvem que encobre o herói. O herói não é um príncipe predestinado. Não é mesmo um povo. É o Homem». A transfiguração portuense do sebastianismo está realizada nestas palavras de Sampaio Bruno. A figura do Encoberto - isto é, do Homem Escondido - é a figura de uma antropologia filosófica portuense que ainda não foi pensada nos seus próprios termos. No entanto, o carácter universal da filosofia portuense está estabelecido.

11. Como sabem, não estou de acordo com todos os portuenses ilustres. Dalila Pereira da Costa opera uma mitologização do sebastianismo que rejeito. Porém, há elementos produtivos em "A Nau e o Graal": «Para as duas almas constituintes desta pátria, a céltica e a judaica, a história será encarnação do mito ou o mito em vias de se fazer». Aceito a primeira ideia e rejeito a segunda. Por vezes, diante de obras profundas, temos de realizar uma leitura sintomal, dando destaque aos elementos construtivos de modo a resgatar o pensamento pensado.

12. Em 1904, Sampaio Bruno publicou a sua obra "O Encoberto", cujo índice é o seguinte: I A Fé e o Império; II O Desejado; III O Encoberto; IV O Restaurado; V Mito; VI Realidade; e VII Decadência e Progresso. Reparem que pela estrutura da obra se adivinha o seu programa de desmitologição do sebastianismo. Além disso, aparecem três figuras: o Desejado, o Encoberto e o Restaurado, além da crítica subjacente à teoria da decadência de Portugal de Oliveira Martins e de Antero de Quental. O homem do Porto indicou os caminhos adequados a percorrer.

J Francisco Saraiva de Sousa

sábado, 20 de julho de 2013

Fragmentos facebookianos

Experiência do Túnel
Hoje resolvi explorar o tema da morte e das experiências de quase morte no Facebook para afastar algumas criaturas indesejáveis. Eis alguns fragmentos de lucidez:

Nada é mais eficaz para afastar pessoas indesejáveis do que os momentos de lucidez: a maioria tende a ser zombie e foge do pensamento como o diabo da cruz. Querem rir mas rir de quê? Da sua vida vazia e idiota?

O Facebook não é saudável para pessoas que sofram determinadas perturbações mentais, como por exemplo a depressão: a identidade virtual adoptada pode assumir uma dimensão egocêntrica exagerada que não corresponde ao perfil da pessoa na vida real. O resultado desta clivagem é um perfil absolutamente tirânico e intolerante. A vida online é alienação.

Há uma hipótese metafísica que merece ser pensada para clarificar a questão da morte: Conceber Deus como memória infinita que alienou a sua majestade quando criou o mundo. Nesta perspectiva, a nossa identidade individual não morre, dado participar da memória infinita de Deus. Porém, coloca-se outro problema: conservamos a nossa individualidade ou submergimos na memória divina? Esta hipótese é sedutora porque livra Deus da responsabilidade pelo mal do mundo: Deus-memória infinita é "impotente"; ele aguarda que o homem o resgate.

Por que sou tão irónico? Herdei a ironia de Sócrates, provavelmente. Porém, tenho outra justificação: a ironia é o meu modo de ser entre os mortais. E por vezes a minha ironia tem uma tonalidade agressiva: ao partilhar a hipótese metafísica - Deus-memória-infinita - com os moçambicanos, fui lúcido confrontando-os com a inutilidade de uma memória colonial destruída. A ironia dissolve mundos e cria outros mundos mais saudáveis. Gosto de rir dos homens e da sua caducidade!

Amo almas metafísicas e, se todas as almas que conheço estivessem a salvo da morte, não desejaria coabitar com elas noutra dimensão: Que inferno de eternidade seria "viver" com essas almas fragmentadas e idiotas!

Vou usar outra imagem para retratar a nossa existência virtual: o nosso perfil é por vezes possuído por estranhas criaturas que na vida real exorcizaríamos. Este fenómeno de possessão virtual deve-se talvez à fome do nosso ego e corremos o risco de explodir de tanto inchar.

Igor Sousa

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Prós e Contras: Manifestações e Forças da Ordem

Panóptico do PORTO
Eis o texto reaccionário de apresentação do debate Prós e Contras de ontem (1 de Outubro):

"Grécia, Espanha, Itália e Portugal: A crise agudiza-se e explodem os protestos na rua. O que distingue as manifestações no sul da Europa. A efervescência das sociedades angustiadas e a necessidade de defender o Estado de Direito e a ordem pública. A importância das manifestações e o delicado desempenho das forças da ordem. Como é que as forças de segurança estão a lidar com a tensão crescente?"

Cada um dos quatro convidados de Fátima Campos Ferreira desenvolveu o seu discurso reaccionário em nome do Estado de Direito e da ordem pública. O elogio da fotografia da rapariga e do polícia que circulou pelo Facebook é um elogio reaccionário: os revoltosos dotados de consciência política radical não podem tratar as forças policiais de repressão como forças amigas. A violência das forças policiais é usada para garantir a perpetuação da ordem social estabelecida, precisamente aquela que gera o empobrecimento dos povos do sul da Europa. Em Portugal, não há verdadeiramente Estado de Direito ou mesmo democracia: o Estado foi capturado pela máfia lusitana que usa os aparelhos repressivos de Estado para garantir os seus privilégios. A fotografia só mereceria um elogio se o polícia tivesse despido a farda e passado para o lado dos manifestantes: o caso amoroso desejado pelo General - outro representante do poder repressivo do Estado - implica a capitulação dos manifestantes perante o poder estabelecido. Os polícias não podem ser vistos como aliados porque a sua missão é usar a violência para restabelecer a ordem social que priva os manifestantes da sua humanidade. Como tenho defendido em diversos lugares, os manifestantes devem adquirir consciência política radical: a política praticada pelos governantes portugueses deve ser combatida com novas políticas radicais. Alguém afirmou que o discurso do século XIX - entenda-se o pensamento de Marx - está ultrapassado: os privilegiados temem a luta de classes e dizem condenar a violência, não a sua própria violência retrógrada mas a violência revolucionária que visa a realização plena do humanismo integral. Ora, como demonstrou Merleau-Ponty, não há escolha entre a violência e a não-violência, entre o humanismo e o terror, mas apenas entre dois modos de violência - a capitalista e a socialista. A renúncia à violência revolucionária fortalece o reino da exploração capitalista, mas o seu uso tem a oportunidade de romper o círculo infernal do terror e contra-terror na medida em que é veiculada pela solidariedade do povo em sofrimento que, enquanto força política, é capaz de traduzir o humanismo de ideologia em realidade. Numa sociedade profundamente corrupta e desigual como a sociedade portuguesa, não há diálogo possível entre os carrascos e as vítimas, até porque o diálogo não muda nada. A crítica marxista da democracia liberal não perdeu actualidade e a teoria leninista do Estado continua a ser pertinente, embora deva ser reavaliada. O marxismo é verdadeiro ontem e hoje. Aconselho a leitura de Humanismo e Terror de Merleau-Ponty. (Fátima Campos Ferreira tem uma ideia errada da ordem pública: os verdadeiros representantes da ordem pública são os manifestantes, não os seus convidados privilegiados e opressores! O sociólogo convidado fez uma triste figura!)

J Francisco Saraiva de Sousa

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Uma comunidade marxista virtual?

Porto: Ribeira
A actualização do marxismo exige a formação de uma comunidade marxista virtual. Apelo, portanto, a todos os marxistas que adiram a este projecto de formar um grupo de trabalho, dotado de uma agenda teórica e política, para debater a situação do marxismo num mundo cada vez mais global. Há muitos blogues marxistas, cujos autores podem unir esforços para revitalizar o marxismo. Tenho trabalhado sozinho nesse projecto, mas reconheço ser necessário aliar-me a todos aqueles que consideram que a solução para os problemas sociais se encontra esboçada na obra de Karl Marx: o cibermarxismo preconiza a luta de classes em todos os nichos da Internet. Aguardo a vossa adesão e as vossas sugestões.

Portugal é a "pátria" da indigência cognitiva e cultural. Já tentei criar um grupo real de trabalho com o objectivo de formar a Escola do Porto, dotada de um centro de pesquisa social e filosófica e de uma revista. Porém, as pessoas que aderiram ao projecto careciam de real formação científica e filosófica, encarando-o mais como uma oportunidade de emprego do que como um grupo activo de intelectuais comprometidos na luta pela construção de um mundo melhor. Além disso, os banqueiros e os empresários portugueses são muito conservadores e reaccionários para financiar um projecto que visa a transformação qualitativa do mundo. Aquilo que não consegui realizar no mundo real pode talvez ser realizado no mundo virtual que ultrapassa as barreiras físicas e psicológicas de Portugal; pelo menos, esta é a minha derradeira esperança.

J Francisco Saraiva de Sousa

quarta-feira, 11 de julho de 2012

O Afundamento da Europa


Estamos a assistir ao afundamento da Europa e do mundo ocidental: o ciclo civilizacional do ocidente completou-se e o fim é o seu colapso.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Encerramento para o público português

Francisco Saraiva de Sousa

Vou encerrar a minha actividade na blogosfera por tempo indeterminado. Estou em viagem... em busca das minhas origens. Portugal é uma terra de loucos primitivos e maldosos. Já não suportava lidar com estes tubos digestivos ambulantes. Tenho muito nojo dos portugueses. A sua presença contamina o ar que respiro. É impossível encontrar a serenidade entre estes seres esquecidos por Deus. Portugal é um país maldito que irá arrepender-se de ter nascido: a existência de portugueses é um atentado contra a humanidade dos verdadeiros homens. Só seremos livres quando apagarmos Portugal do mapa do mundo. Lutar contra esta maldição personificada neste povo zombi: eis o sentido da vida. Ou melhor: não precisamos de lutar porque o governo necrófilo de Passos Coelho já está a fazer esse trabalho sujo que é matar os portugueses através de políticas de empobrecimento. Vai chegar o dia em que os portugueses terão de se matar uns aos outros para saciar a fome ou de devorar as carnes putrefactas dos moribundos que morrem nos hospitais sem assistência médica adequada. Só precisamos de ligar a TV para assistir à destruição planeada de um país que não merece existir. O nome de Portugal será esquecido, ficando apenas uma lenda difundida por um filme de terror: Zombis contra Zombis. Uma voz de outro mundo dirá em silêncio: Malditos Portugueses! Até depois de mortos os portugueses continuarão a ser amaldiçoados!

Quanto às pessoas que frequentaram assiduamente este blogue, deixo-lhes um conselho: cada pessoa deve descobrir o seu próprio rumo na vida num diálogo não-ilusório consigo própria, e esse rumo não está aqui na Internet. Eu sempre fui um anti-modelo: tudo o que faço faço-o para aperfeiçoar a minha mente. Nunca procurei ser seguido: a minha caminhada é profundamente solitária. Eu só aprecio a minha própria companhia. Sempre vivi nas imediações do abismo, o meu próprio elemento. Nem todos conseguem viver no abismo: os nossos rumos são diferentes, eu mergulho cada vez mais no fundo do abismo, os outros preferem viver na mentira. Eu sou o filósofo da funda meia-noite: anuncio o fim do mundo e não uma nova aurora. Este pensamento pertence ao meu próprio núcleo existencial: sou a própria meia-noite. Quando iniciei esta actividade na blogosfera, tinha a intenção de sistematizar as categorias da filosofia da funda meia-noite, mas depressa compreendi que não tinha uma audiência à altura. A filosofia da funda meia-noite foi exposta de modo encoberto: cobri-a com o manto da minha própria noite. Não adianta procurar destapar a noite porque nunca encontrareis luz. A filosofia da funda meia-noite é, toda ela, nocturna.

Chessman & Francisco Saraiva de Sousa 

segunda-feira, 25 de junho de 2012

De regresso à Botânica

Ceropegia woodii, Corações unidos

Flor de Cera 

Tenho andado a fazer uma campanha de sensibilização botânica: os portugueses são de tal modo seres brutos que carecem de sensibilidade estética. A minha paixão pelo mundo das plantas remonta à minha infância quando o meu pai me brindava com plantas exóticas. Sou por vocação mais zoólogo do que botânico, mas nessa altura as pessoas pensavam que iria seguir engenharia agrónoma, até porque já fazia experiências botânicas ousadas para a minha terna idade. As trepadeiras sempre me fascinaram: a minha estufa era toda ela coberta por trepadeiras. A frescura e a humidade resultantes permitiam-me cultivar plantas exóticas, quase todas elas provenientes de África. As violetas africanas - dobradas e singelas - predominavam, embora tivesse uma boa colecção de begónias, de gloxínias, de orquídeas, de jarros e de tantas outras plantas exóticas. Os canteiros que tinha no interior da estufa foram palco de algumas experiências engenhosas: a competição entre plantas fascinava-me e eu sabia que, para ter sucesso na reprodução das violetas, devia plantar as folhas - praticamente sem caule - à sombra de outras plantas. (Raramente as colocava num frasco ou copo com água, como faziam certas pessoas!) A exploração desses espaços interiores e escondidos pela luxuriante verdura das grandes plantas justifica o sucesso da reprodução das violetas africanas. Alarguei este princípio a outras plantas e verifiquei que os corações unidos conseguem eliminar todas as outras concorrentes tomando posse total do canteiro. Até mesmo as begónias eles conseguiram eliminar. Depois dos quatorze ou quinze anos de idade fui forçado a concentrar-me na minha real vocação zoo-antropológica. No entanto, a minha tese de mestrado ainda dedica algumas palavras à nova botânica. Hoje não tenho praticamente plantas, com excepção de violetas africanas ou de orquídeas. As plantas exigem muitos cuidados e, por vezes, é difícil tratá-las e libertá-las das suas doenças: os tratamentos recomendados também as podem matar. A vigilância constante é o melhor meio de conservar a saúde das plantas de interior. Quem tenha violetas africanas sabe que pode libertá-las dos parasitas usando um simples cotonete.

A prática da biologia esteve sempre ligada à biofilia. A emergência da biologia molecular quebrou esta união orgânica, fazendo desaparecer o naturalismo. Hoje em dia há milhares ou mesmos milhões de "amigos de tudo e de nada", e, nas redes sociais, proliferam inúmeras causas. A maior parte dos utentes dessas redes limita-se a seguir as "manadas virtuais", colocando automaticamente os seus "likes" em diversas causas incompatíveis entre si. Se há alguma coisa que as liga entre si, desconfio que, além da estupidez, é o ódio pelo homem. São "amigos dos animais ou das plantas" porque odeiam o homem: o seu niilismo antropológico é sintoma de antropofagia ou mesmo de desejo de aniquilação humana. Na verdade, os utentes da Internet não sabem nada de nada. Às vezes sou levado a pensar que estou a dialogar com programas de computador estúpidos. Mas não são os programas e as plataformas que são estúpidos; os utentes é que são absolutamente estúpidos. Alguns dos "amigos dos animais" auto-denominam-se de "zoófilos", sem suspeitar que a zoofilia é classificada como uma parafilia. Acho que nunca houve na longa história do homem uma era tão povoada de burros diplomados como a nossa. Em Portugal, eu só vejo burros, uns diplomados, outros não diplomados, mas todos são burros que cultivam a ignorância activa. A burrice está tão alastrada que, por vezes, quando vou ao café, sou forçado a escutar lições de biologia, de medicina ou de história dadas por um burreco que nem o décimo segundo ano concluiu. Não adianta usar um argumento de autoridade, porque os burros alegam que têm "direito à opinião". Estou cansado desta ralé portuguesa. E estou cada vez mais elitista: o meu desejo é aniquilar a ralé, mesmo que para isso tenha de defender uma ditadura pedagógica ou mesmo o eugenismo. Já não suporto ouvir as vozes destes burros portugueses. O eugenismo foi pensado desde Platão até hoje para proteger os mais aptos das investidas da turba medíocre. Cultivar o mérito já é uma forma de eugenia. Infelizmente, a esquerda contribuiu para o triunfo da mediocridade, destruindo desde logo o ensino e a educação. O fracasso total do 25 de Abril fornece uma nova chave de leitura da ditadura de Salazar. Por vezes, suspeito que Salazar conhecia demasiado bem a natureza arcaica dos portugueses, dando-lhes o tratamento adequado: o regime do silêncio. A gritaria que reina desde o 25 de Abril leva-nos a apreciar esse bem precioso que é o silêncio, sem o qual não conseguimos pensar. Os portugueses são zombis que gritam de manhã à noite. Não teríamos chegado a este estado caótico de gritaria se o sistema de educação tivesse desempenhado o seu papel de triagem: seleccionar os melhores. As escolas não são centros de igualização: a função da escola é realizar uma triagem, separando os dotados dos não-dotados, os quais devem ser encaminhados para outras funções. A realidade social vigente implica uma mudança de função da teoria crítica. Se no passado defendeu a igualdade, ela é hoje forçada a defender a mudança radical que permita aos melhores dominar a ralé. As massas não fazem a história; as massas são moldadas pela história realizada pelos homens mais criativos. Para garantir a evolução do conhecimento científico, é preciso vedar o seu acesso. As vozes dos "amigos de tudo e de nada" devem ser silenciadas. Precisamos de silêncio para pensar o futuro da humanidade e do planeta. Pensar é um exercício solitário; não é uma actividade colectiva. O conhecimento exige esforço e disciplina; é uma actividade penosa. O chicote deve ser usado para disciplinar as massas nas actividades produtivas.

Lá por defender o chicote para disciplinar as massas não deixei de ser um homem de esquerda; pelo contrário, estou a atribuir à esquerda um novo projecto político. O meu conhecimento biomédico - e filosófico - foi precedido por um longo período de educação, cuja escola foi a própria natureza. Esta educação informal - realizada no terreno sob orientação dos pais - é mais rica do que a educação formal dada pela escola. Quando escutava as lições do professor de biologia, tinha consciência de que sabia mais do que ele, que nunca tinha explorado uma floresta, uma savana ou a região africana dos grandes lagos. De certo modo, auto-eduquei-me e os meus pais fomentaram sempre o meu espírito de independência, sem permitir que ele fosse eclipsado por acção de professores medíocres. O ensino administrado pelas escolas portuguesas foi sempre uma merda: o que me salvou da mediocridade portuguesa foi o contacto com estrangeiros, sobretudo com ingleses e alemães. Mesmo quando realizei uma experiência "aristotélica" para explicar a origem da vida, eles apoiaram-me, embora soubessem que estava no caminho errado, porque a minha experiência demonstrava a impossibilidade de surgir vida lá onde ela já existe. Compreendi rapidamente o meu erro e fiz uma dissertação quase-molecular. Não tinha mais de oito anos de idade e já falava a linguagem da biologia molecular. Apesar de ser muito analítico e reducionista, nunca senti essa oscilação entre uma vocação molecular e uma vocação naturalista: a biologia foi sempre para mim a arte de conjugar essas duas vocações. Porém, confrontado com a miséria dos programas de biologia em vigor, sou forçado a privilegiar a base naturalista da biologia. Hoje os alunos não sabem nada: se lhes dermos uma folha para classificar, eles não o sabem fazer, porque não aprenderam classificação do reino vegetal. Aliás, eles não aprendem realmente as bases morfológicas, fisiológicas e evolutivas das ciências da vida. Em Portugal, a ralé que ascendeu com o 25 de Abril justifica o carácter minimalista dos programas, alegando temer a traumatização das crianças. O conhecimento é, por natureza, um trauma. E, sendo assim, é preciso poupar as crianças desse trauma, usando a escola mais como um meio para conversar e socializar do que como um centro difusor de conhecimento. O resultado desta política da educação sem trauma é a produção em massa de pessoas diplomadas sem conhecimentos. Todos são iguais à luz da ausência de conhecimentos: a igualdade implantada é a igualdade da burrice. A passagem do analfabetismo do Estado Novo ao analfabetismo funcional do Estado Democrático é tida como um progresso da sociedade portuguesa. Mas lá onde a ralé triunfante vê progresso, eu vejo regressão: os burros mais insuportáveis são precisamente os diplomados. Estarão as novas gerações portuguesas preparadas para conquistar o futuro? Infelizmente, não estão... Portugal não tem futuro. Com este texto dou início ao estudo da botânica.

Anexo: A minha campanha de sensibilização botânica dos portugueses começou no facebook e na página comunitária Eu Amo o Porto, onde escrevi: "Com as Descobertas Portugal teve todas as oportunidades para desenvolver a exploração geográfica da terra e a ciência natural, mas não as soube aproveitar: a brutalidade dos portugueses é genética. O povo português é arcaico e saloio. O 25 de Abril fez emergir a brutalidade dos portugueses, seres destituídos de inteligência cultivada e castrados de sensibilidade estética. Acho que foi durante a ditadura de Salazar que apareceu uma tentativa de educar a sensibilidade dos portugueses: os concursos dos jardins mais bonitos das estações ferroviárias. Hoje não há jardins: há porcos". Gostava de ver o Porto a liderar um programa de exportação de plantas e flores exóticas: a genética - aliada à tecnologia - permite fazer milagres. Mais: desejo o regresso de canteiros floridos à cidade do Porto, embora saiba que os portugueses são ladrões. Sim, roubam as plantas dos jardins públicos! As orquídeas adaptam-se bem ao clima do Porto. Ainda recentemente tive diversos vasos de orquídeas na varanda e elas floriam abundantemente todos os anos. Infelizmente, não consegui combater uma praga que as matou: agora só tenho orquídeas exóticas dentro de casa. E, neste momento, têm cachos de flores. Elas não gostam muito de sol directo, pelo menos no verão. Quanto às violetas africanas, não as tenho reproduzido, porque plantas e livros nem sempre se articulam bem. Para ter plantas saudáveis em casa, é necessário adaptar a própria casa: as plantas não gostam de estar sozinhas, isoladas umas das outras. Elas querem companhia para formar um micro-sistema ecológico dentro de casa. As plantas socializam umas com as outras. Se tiver espaço em casa, recomendo vasos comunais: misture plantas compatíveis num mesmo vaso e saiba conservar a humidade. Mas não ponha os corações unidos nesses vasos com outras plantas, porque o seu crescimento acaba por eliminar as outras plantas. Eles ocupam sozinhos um desses vasos e, mesmo assim, se estiver distraído, tentam conquistar o território dos vasos anexos.

J Francisco Saraiva de Sousa

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Força Portooooooo Gal!

A verdadeira bandeira de Portugal

Esta imagem foi sacada do Facebook - da página comunitária Quantos Portistas Somos? Ela traduz realmente a verdade sobre Portugal, embora o verde e o vermelho sejam forças de bloqueio. Quando criei a página Eu Amo o Porto, alguém atacou os portuenses e os portistas. Eu não respondi porque não perco tempo a conversar com atrasados mentais que afundam o país na lama. Se eles tivessem alguma capacidade de assimilação cognitiva, abdicavam de usar a designação de "portooooo-gueses"! É que foi o Porto que deu nome a Portugal. Só há uma maneira adequada de reagir: esboçar um sorriso de desprezo.

J Francisco Saraiva de Sousa

domingo, 17 de junho de 2012

Eu Amo o Porto, Nós Amamos o Porto

Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar
 e Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto
Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto
Faculdade de Ciências da Universidade do Porto

Adiram à página que criei no Facebook: Eu Amo o Porto. Procure conhecer melhor a cidade do Porto, os seus habitantes, os seus costumes, a sua cultura, a sua inovação, o seu carisma, enfim o seu imaginário produtivo. E, se alimenta preconceitos contra o Porto, sendo evidentemente "português" sem sentido da história nacional, saiba que foi o Porto que deu nome a Portugal. Em caso de ser preconceituoso e saloio, abdique de utilizar a nacionalidade portuguesa.

J Francisco Saraiva de Sousa

sábado, 2 de junho de 2012

10 melhores postagens do mês de Maio


Porto: Ponte D Luís I, e as bases da antiga Ponte Pênsil

Veja aqui as 10 melhores postagens do mês de Maio de 2012, a selecção mensal do blogue O Fazedor: Wanderson Lima escolheu o meu estudo Etologia: Agressão e Natureza Humana. Recomendo a leitura dos 10 textos escolhidos pelo meu amigo Wanderson Lima. E já agora aproveito a oportunidade para reconduzir o leitor para um texto brilhante de Wanderson Lima: A Virada Cultural e a Crise dos Estudos Literários.

J Francisco Saraiva de Sousa

segunda-feira, 7 de maio de 2012

FCPorto: ESTEJAM ONDE ESTIVEREM, ESTE É O VOSSO DESTINO.

Política do Governo: Velhos e Pobres atiram-se para a valeta

Caricatura que circula no Facebook
... E os restantes portugueses atiram-se para o desemprego e para o empobrecimento. Ana Lourenço (SICNotícias) chama "senadores" - talvez com alguma ironia! - aos seus convidados, entre os quais os dois que figuram nesta caricatura: António Barreto, mais conhecido como o "empregado do merceeiro do Pingo Doce", e Manuela Ferreira Leite, ex-líder do PSD. Não reproduzo o texto que a acompanha por não estar inteiramente de acordo com o seu teor. Prefiro usá-la para ironizar a anti-política do governo liderado por Passos Coelho, mais precisamente pelo Ministro das Finanças.

terça-feira, 1 de maio de 2012

A Beleza do Porto

Cidade do Porto e Rio Douro
A minha amiga Letícia Valle, a Florbela do Brasil, autora do blogue Litteratura Mundi et alii, publicou dois posts: A Beleza do Porto (1) e A Beleza do Porto (2). Cada um deles dedica-me um poema. O primeiro intitula-se Francisco e o segundo, São Francisco. Ambos os poemas cantam a beleza do Porto através da figura de um dos seus habitantes, neste caso eu próprio. Entre amigos, a Letícia Valle é conhecida como a Florbela Espanca do Recife. A Letícia Valle, além de ser uma jovem poetisa, é uma apaixonada pela Cidade do Porto, pelo Futebol Clube do Porto e por cavalos e cavaleiros. Na língua de Paul Celan, denken (pensar) e danken (agradecer) são palavras da mesma raiz. Na língua portuguesa, pensar e agradecer não são palavras da mesma raiz e, por isso, não posso agradecer a partir do campo semântico de gedenken (lembrar), eingedenk sein (rememorar), Andenken (recordação) e Andacht (devoção): agradeço voltando a partilhar os dois poemas da Letícia Valle, nos quais ela vai ao encontro do Outro - a cidade do Porto - através da figura desse Outro - eu próprio. Eis o primeiro poema intitulado Francisco:

Ai, Dr. Francisco,
De Santo, Doutor, Poeta e Louco
Tens um pouco.
Por que não me vens curar
Dessa dor,
Que se alastra
Desterra-me
Para além-mar...

Guardo teu retrato
Debaixo da renda do criado-mudo
E o lencinho no meu peito
Tem bordadas as tuas iniciais.
Já perco saúde e juízo
De esperar a ama anunciar:
“Sinhazinha, é chegado o Dr. Francisco!!!”

Letícia d'Albuquerque Maram. Valle
Capitania hereditária de Pernambuco,
do ilustre Dom Duarte Coelho Pereira
Recife, XXX/IV/MMXII.

O outro poema da Letícia Valle intitula-se São Francisco e diz:

Francisco,
uma beleza
que só santo tem.
faz um milagre
só para mim.

Vem, meu
branquinho
de faiança,
de louça,
numa mesa de festa.

Tu,
da brancura
de uma toalha de linho
lavada na pedra do rio
alvejada pelas minhas mãos.

Acendo-te uma
vela
mas, hoje,
vem
só para mim.

Letícia d'Albuquerque Maram. Valle
Capitania hereditária de Pernambuco,
do ilustre Dom Duarte Coelho Pereira.
Reyno de Portugal, do Brasil e das Terras d'Aquém e d'Além-mar.
Recife, XXX/IV/MMXII.

J Francisco Saraiva de Sousa

quinta-feira, 29 de março de 2012

Congratulations Porto


... For European Best Destination 2012 Awards!

O Porto cativa e encanta o mundo. Viva o Porto, capital do mundo! Mais uma razão para lutarmos pela nossa independência e para nos libertarmos do estigma de ser português! Afinal, somos portuenses, cidadãos da Cidade-Estado chamada Porto! O Porto é a nossa pátria!

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Desenredos: Walter Benjamin, Progresso e Experiência

Miradouro, Porto
Saiu o novo número (Ano IV, nº. 12, Janeiro Fevereiro Março de 2012) de dEsEnrEdoS, uma revista de cultura e literatura, onde poderá ler ou reler o meu texto - Walter Benjamin: Progresso e Experiência da Pobreza. Aconselho a leitura integral deste novo número da revista editada pelos meus amigos Wanderson Lima e Adriano Lobão Aragão: todos os seus artigos, ensaios e secções merecem ser lidos e meditados. Boa leitura de Inverno, pelo menos em Portugal e na Europa! Boa leitura tropical nos países "quentes" de língua oficial portuguesa, Brasil, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde e Timor!

Anexo: O meu arqui-inimigo (sic) voltou a atacar a minha teoria da homofobia aqui. Mas depois da minha longa viagem pelas civilizações pré-colombianas não me apetece voltar a discutir o sexo dos anjos com uma pessoa absolutamente intolerante e reaccionária. Os frades espanhóis também criticaram a homossexualidade asteca, usando os mesmos argumentos intolerantes, como se não soubéssemos da existência de práticas homossexuais nos mosteiros e seminários ao longo da Idade Média e dos Tempos Modernos. O que posso dizer é que a redução obsessiva da homossexualidade à imagem do pénis dentro do ânus é sintomática: ela revela o desejo sexual reprimido daqueles que a usam. Além disso, não preciso de recorrer à autoridade dos cientistas, porque eu próprio sou um cientista que dialoga com outros cientistas na busca cooperativa da verdade: o que nos interessa é revelar a realidade e não discutir "tretas" à velha maneira dos escolásticos. Ciência dura é tudo aquilo que fazemos de modo cooperativo, uns com os outros, sem "conversar" com calhaus destituídos de imaginação científica que, lá onde julgam ser "livres", são escravos daquilo a que chamam "condição heterossexuada do homem" (sic), uma condição "moral" (sic) aberta à condição lésbica e à condição transsexual! Um homem heterossexual seguro da sua orientação sexual não anda sempre a pensar em actos homossexuais, porque o indivíduo que passa toda a sua vida a falar contra a homossexualidade só pode ser um grande "paneleiro" empastelado e rançoso e, portanto, um "gay reprimido" com o "cu" do tamanho de uma cratera lunar, como demonstrou a experiência de laboratório realizada por Adams, Wright & Lohr (1996).

J Francisco Saraiva de Sousa

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Marxismo e Geografia Humana

«Os homens fazem a sua própria história mas não a fazem arbitrariamente, nas condições escolhidas por eles, mas antes sob as condições directamente herdadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações passadas pesa inexoravelmente sobre a consciência dos vivos. E mesmo quando parecem ocupados em transformar-se, a eles e às coisas, em criar algo de absolutamente novo, é precisamente nessas épocas de crise revolucionária que se evocam respeitosamente os espíritos do passado, tomando-lhes de empréstimo os nomes, as palavras de ordem, as roupagens, para surgir no novo palco da história sob esse respeitável disfarce e com essa linguagem emprestada».  (Karl Marx)

Quando deixou de estar em voga na economia, na sociologia e na filosofia, o marxismo emergiu no seio da geografia humana, precisamente durante o período em que os profetas da desgraça anunciavam o triunfo definitivo do malvado neoliberalismo. A geografia humana foi provavelmente a última ciência social e humana a levar a sério o marxismo, mas, quando o fez, pelo menos no mundo anglófono, foi para mostrar o carácter marcadamente ideológico do discurso económico burguês: a leitura da economia feita pela geografia humana é completamente distinta da leitura feita pelos economistas burgueses. A ideia de que novas circunstâncias exigem novas teorias, aliás uma ideia bem tematizada pelo próprio Karl Marx, foi rejeitada por David Harvey, o grande geógrafo que aplicou a economia política marxista à geografia humana. Os geógrafos marxistas não negam as mudanças superficiais sofridas nas últimas décadas pelo capitalismo: Minsky (1989) cunhou o termo capitalismo administrador-de-dinheiro para designar o novo capitalismo em que a economia "simbólica" da moeda e do crédito domina a verdadeira economia de bens e serviços. Neste novo sistema, o dinheiro e as finanças foram protegidos, negociados e especulados nas bolsas em busca de lucro fácil. Apesar de não estarem vinculados à produção de bens e serviços, o dinheiro e as finanças continuaram a exercer uma influência fundamental sobre a produção. É certo que o capitalismo mudou de modo não previsto pela teoria marxista, mas estas mudanças não afectaram a própria validade da teoria marxista. Segundo Harvey, as mudanças sofridas pelo capitalismo estão confinadas à "aparência de superfície" do sistema, não podendo ser confundidas com uma alteração radical das suas "leis estruturais de movimento", tal como foram descobertas por Marx. A crítica que Callinicos fez do pós-modernismo encontra aqui um suporte geo-económico: o mundo em que vivemos continua a ser dominado pelo capitalismo e, por isso, os princípios da economia política marxista não estão a ser enfraquecidos pelas mudanças de superfície que estão a ocorrer. Mas este não é o lugar para analisar o materialismo geo-histórico de Harvey e seus discípulos: o que interessa aqui acentuar é que os novos geógrafos marxistas descobriram que os homens fazem não só as suas próprias histórias, como também as suas geografias. A célebre frase de Marx parece ter sido reformulada, como se ele tivesse privilegiado o tempo em detrimento do espaço. Ora, a geografia humana de orientação marxista mostrou - nas suas diversas áreas ou subdisciplinas: geografia económica, geografia social, geografia política, geografia cultural e geografia urbana - que O Capital explicita uma teoria das temporalidades - a que mais chamou a atenção dos filósofos, em especial a de Althusser - e das espacialidades (Lefebvre). O conceito leninista de desenvolvimento desigual, já presente na obra de Marx, permitiu-lhes elaborar uma teoria marxista da globalização que destaca a geografia da região. Há, portanto, uma geografia - uma geografia do capital-poder - delineada por Marx na sua obra fundamental - O Capital.


J Francisco Saraiva de Sousa

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Sol Robbins: Even at Play

Adoro as pinturas e as ilustrações da vida social e urbana do meu amigo Sol Robbins, não só pela afinidade política que nos une na luta contra a exploração e a opressão, mas também e sobretudo pela qualidade estética da sua obra: a arte visual de Sol Robbins é arte política, no sentido de denunciar todas as situações de extrema pobreza que desumanizam a vida dos homens nas grandes cidades americanas. Todos os álbuns artísticos de Sol Robbins têm um mesmo título - Political Art and Visual Commentary, que, só por si, define as linhas gerais do seu próprio programa estético. O empenhamento político de Sol Robbins permite-lhe alcançar um ponto de vista privilegiado, a partir do qual pode observar a vida dos oprimidos nas grandes cidades e pintá-la com as cores do desespero: cada quadro ou ilustração retrata uma cena da vida quotidiana dos deserdados nas ruas e nos espaços devastados da grande cidade, sem perder de vista a totalidade social do sistema-feitiço que gera a pobreza, a miséria e a alienação. Símbolos americanos, tais como o dólar ou as marcas comerciais mais emblemáticas do colonialismo mundial americano, são usados para inserir uma cena particular da vida quotidiana urbana no seio da totalidade social que, englobando tudo e todos, nos oprime e nos nega uma vida sem angústia. A arte visual como comentário político de Sol Robbins requer do receptor algum conhecimento da vida americana: Sol Robbins orienta-o na tarefa de compreender o que contempla em cada um dos seus quadros ou ilustrações através de legendas, algumas mais detalhadas do que outras. (Conheço a vida de algumas figuras humanas retratadas por Sol Robbins: foi ele que teve a gentileza de me facultar informação adicional sobre um dos seus "prisioneiros". Mas não seremos todos nós prisioneiros das ilusões mesquinhas de um sistema que, além do nosso corpo, também coloniza a nossa mente?) A legenda fixa a obra a um determinado contexto histórico específico: a arte visual de Sol Robbins é história, mas não é prisioneira de uma história já feita, porque, à sua maneira, ela aponta na direcção da história que ainda está por fazer. É nesta sua capacidade de transcender o próprio contexto histórico do qual é um comentário visual que reside a função cognitiva da obra artística de Sol Robbins.

J Francisco Saraiva de Sousa

10 Melhores Postagens do Mês de Julho

Como já é habitual, Wanderson Lima, autor do blogue O Fazedor, escolhe, no final de cada mês, as 10 melhores postagens. Ontem, no último dia do mês de Julho, Wanderson Lima escolheu o meu texto Henri Bergson: Matéria e Memória, colocando-o entre as "10 melhores postagens do mês de Julho". Desta vez, escolhi uma Esplanada da Foz (Porto) como imagem de fundo, para convidar todos os meus leitores a consultar e a ler atentamente os 10 textos da lista escolhida e comentada pelo meu amigo do Brasil, de preferência numa Esplanada agradável: 10 magníficos textos que revelam uma fusão de horizontes entre Brasil e Portugal. Obrigado, Wanderson Lima!


Wanderson Lima lançou-me um desafio: «Mais um texto “borgeano” de Francisco Saraiva, misto de investigação filosófica e conto, denúncia e jocosidade. Esperamos que Francisco escreva mais textos nesta linha!» Prometo voltar a escrever mais textos nessa linha "borgeana", até porque quero provar à alma defunta de John R. Searle - sim, o espectro de Searle visita-me com regularidade! - que nem todo o materialismo é movido pelo horror à consciência. Com efeito, há um materialismo, mais precisamente uma dialéctica inscrita na materialidade, cujo objectivo é superar o próprio materialismo. Se tivesse espreitado para além dos estreitos horizontes anglófonos, John Searle teria descoberto essa dialéctica inscrita na materialidade das práticas sociais, evitando assim a redescoberta tardia daquilo que já todos nós sabíamos há séculos: o carácter social da mente. Doravante, utilizarei o termo zombies cognitivos para designar os filósofos anglófonos e os seus seguidores, cuja falta de conhecimentos alargados e de experiência de vida choca as almas verdadeiramente filosóficas de todos os tempos. A Filosofia de Hegel e de Marx assusta os zombies cognitivos, tal como a autenticidade sexual afugenta os zombies sexuais que povoam os sites Web-cam. Assumir o seu próprio destino e, num só lance, o destino da humanidade, exige dos zombies aquilo que mais temem: deixar de ser meros zombies telecomandados pelo sistema-feitiço para passar a ser simplesmente homens genuínos, capazes de cooperar na busca da verdade e na tarefa de construir um mundo melhor. Houve um tempo sombrio, pelo menos no mundo anglófono, em que era proibido falar publicamente da consciência: o sistema-feitiço dominante precisava de homens privados de consciência para combater o seu adversário marxista e conquistar o mundo global, fazendo dele refém do capital financeiro. Com a revolução cognitiva, a consciência voltou a entrar no vocabulário desses homens privados de consciência, mas, como o dualismo era e é suposto ser contrário à visão científica do mundo, os zombies cognitivos criaram o materialismo eliminativo que recusa a existência de estados mentais. Os zombies cognitivos falam da consciência para logo a seguir a negar, ou, por outras palavras, elaboram teorias da mente para eliminar a mente: John Searle que acreditava na ontologia de primeira pessoa reagiu, rejeitando o próprio materialismo: eis o seu pecado capital que não o libertou completamente da condição zombie! O conhecimento profundo do mundo em que vivemos, nas suas múltiplas temporalidades, aliado a uma experiência de vida rica e alargada, é o único antídoto-instrumento que temos ao nosso dispor para eliminar a Filosofia Zombie predominante. Encaro esta demolição do mundo zombie como uma tarefa "borgeana".

J Francisco Saraiva de Sousa

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Desenredos: Antero de Quental e a Evolução

A Revista Brasileira Desenredos - uma revista de Cultura e de Literatura, editada por Wanderson Lima e Adriano Lobão Aragão, publicou neste seu último número (Ano III, nº. 10, Julho/Agosto/Setembro 2011) o meu pequeno ensaio sobre o pensamento filosófico de Antero de Quental, elucidado a partir da leitura de um soneto: Antero de Quental: a Evolução. Aproveito a ocasião para me associar à comemoração dos seus dois anos de existência com esta edição nº. 10, tendo como fotografia-imagem-pintura de fundo a Ribeira Inundada (Porto) de Armando Aguiar, e aconselhar vivamente a sua leitura integral: o meu agradecimento aos seus editores inscreve-se nesta divulgação da revista brasileira Desenredos.


A comemoração dos dois anos de existência de Desenredos merece que partilhe com os seus leitores este ensaio: Guerra Junqueiro: Poesia e Filosofia. Para a clarificação da articulação que estabeleço entre o pensamento de Antero de Quental e a filosofia portuense, reconduzo para esta megaligação: a Escola do Porto Revisitada.

J Francisco Saraiva de Sousa