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terça-feira, 5 de novembro de 2013

Dossier Filosofia Médica (5)

Cidade do Porto
Mais ideias sobre Filosofia Médica na sua relação com a Antipsiquiatria:

1. R. D. Laing legou-nos um conceito primordial: Segurança Ontológica. A Antipsiquiatria inspira-se no existencialismo de Sartre. A transição da segurança ontológica à insegurança ontológica permite compreender o modo de ser-no-mundo daqueles - os psicóticos - que a psiquiatria hospitaliza: o indivíduo ontologicamente inseguro pode viver três formas de angústia: ser tragado, implosão e petrificação e despersonalização. A Filosofia Dialéctica da Antipsiquiatria ainda não foi devidamente estudada.

2. A política de empobrecimento do Governo de Portas-Coelho mina completamente o sentimento de segurança ontológica dos portugueses, os quais não possuem um sentido de realidade forte em circunstâncias normais. A penúria lança-os na insegurança ontológica e perturba-os nas suas relações com os outros. Porém, no caso dos portugueses, em virtude da sua propensão para a loucura, é necessário introduzir novas manifestações de angústia, nomeadamente o vampirismo existencial e a inveja patológica. Portugal caminha na direcção de um país pobre e louco.

3. O meu encanto pela antipsiquiatria levou-me a desenterrar das estantes todas as obras dos fundadores deste movimento e a relê-las com mais atenção. Durante a minha vida só devo ter lidado com meia dúzia de esquizofrénicos e, por isso, não tenho grande experiência da experiência esquizofrénica. Hoje acompanhei o desenvolvimento intelectual de Laing e aprendi a reler "A Política da Experiência", talvez a sua obra mais antipsiquiátrica. E a apreciar o modo como Cooper politiza o movimento da antipsiquiatria à não-psiquiatria, a partir de uma mudança profunda da sociedade. Marx foi redescoberto pelos fundadores da antipsiquiatria. Ora, um tal questionamento radical da psiquiatria clássica implica uma reformulação do próprio campo da medicina.

4. A revolução antipsiquiátrica deve ser entendida como uma revolução da consciência que denunciou a violência exercida sobre os esquizofrénicos e os danos causados pelo imperialismo da norma. A revolução fundamental preconizada pela antipsiquiatria contra a dominação será o resultado de uma evolução da consciência humana: Laing libertou a subjectividade ao acentuar a continuidade entre o normal e a loucura. As consequências mais importantes da antipsiquiatria resultam deste acto de fazer ir pelos ares a barreira-ruptura entre o normal e a loucura.

5. Convém não ver uma ruptura entre The Divided Self (1960) e The Politics of Experience (1967). O conceito de experiência transcendental de Laing corresponde aos conceitos de reversão de Esterson e de anoia de Cooper: «A verdadeira saúde mental implica de uma maneira ou de outra a dissolução do ego normal, desse falso eu sabiamente adaptado à nossa realidade social alienada, a emergência dos arquétipos "interiores" mediadores da potência divina, o desembocar desta morte numa re-nascença e a re-criação de uma nova função do ego, em que o eu já não traia o divino, mas o sirva» (Laing).

6. A Antipsiquiatria fez uma crítica justa da psiquiatria clássica e sua ideologia clerical e da ciência e seus "métodos cegos", embora tenha fracassado no "tratamento" dos esquizofrénicos. Ora, a psiquiatria institucional aboliu-a dos manuais de psiquiatria e, quando a refere, é para dizer que os seus "bons loucos" são como os "bons selvagens" de Rousseau. Porém, o que interessa na antipsiquiatria é a sua teoria da experiência e a sua crítica justa da ciência objectiva. Além disso, a antipsiquiatria abre a medicina ao mundo social e, quando apresenta a norma como alienação, converte-se em crítica social e política. A adaptação social não é critério de saúde mental.

7. A psiquiatria institucional está ao serviço da manutenção da sociedade estabelecida e, nessa função, deve ser criticada: a antipsiquiatria pode ser encarada como crítica da ideologia psiquiátrica. Os antipsiquiatras foram grande profetas: o mundo presente confirma as suas profecias. Se tivessem sido escutados nos anos 60, o mundo não estaria hoje à beira do abismo. A vida saudável não pode ser dissociada da vida justa: a medicina precisa mais de filosofia do que de psicologia.

8. Aprovo o programa pré-revolucionário proposto por Cooper: a criação de Centros Revolucionários de Consciência. A psiquiatria pode integrar um tal programa de investigação científica. O atraso estrutural de Portugal tem uma dimensão humana: o país não se desenvolve porque os portugueses são seres mental e cognitivamente atrasados. A reformulação do programa pré-revolucionário de Cooper pode ajudar os portugueses a superar-se a si mesmos e a renascer como novas pessoas. 

9. Aprovo a crítica antipsiquiátrica da família e da escola. De facto, devemos gerar um movimento de Antipedagogia e defender a criação de anti-escolas e de anti-universidades. A mente arcaica dos portugueses refugiou-se na pedagogia para não aprender: o fracasso da educação em Portugal fornece-nos todos os elementos para pensar a antipedagogia. 

10. Defendo a libertação da subjectividade rebelde, mas não a situo ao nível da loucura. A psiquiatria institucional tende a colocar loucos e génios do mesmo lado da barreira entre norma e loucura, exigindo a ambos a adaptação social à média social. A noção antipsiquiátrica de viagem deve ser diferenciada: a viagem do louco é diferente da viagem do revolucionário. Neste terreno, o diálogo com a antipsiquiatria pode ser muito produtivo. 

J Francisco Saraiva de Sousa

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Pensamentos Políticos Dispersos (1)

Eis alguns pensamentos políticos partilhados no Facebook a propósito da situação de Guerra em Moçambique:

1. Em Portugal, a lógica do aparelho partidário dos partidos políticos está a afundar a democracia: os deputados e os políticos são incompetentes que fazem da "política" uma fonte de rendimento. Eles não pensam em termos de ideologias em confronto mas sim em termos de emprego e de regalias. Daí que façam alianças com o poder financeiro e empresarial e com os grandes escritórios de advocacia. O regime político português está completamente podre e o povo não tem sabedoria para lutar pela sua refundação saudável. Um povo idiota tem os líderes que merece: políticos corruptos.

2. A única coisa que melhorou substancialmente em Portugal depois do 25 de Abril foi a saúde. A educação e a justiça afundaram-se completamente. Governar em função de indicadores estatísticos forjados cria um país de mentira que não resiste a uma tempestade. Portugal não resistiu à crise porque é uma mentira oficial.

3. A função primordial da Constituição é limitar o exercício do poder político. Em democracia, os partidos políticos - tanto os que estão no poder como os que estão na oposição - não podem subverter a Constituição, usando os aparelhos repressivos de Estado (Exército e Forças Policiais). Em Moçambique, os movimentos armados não podem ser vistos como partidos políticos. Por definição, um partido político não tem exército, nem nacional nem privado. Converter o exército nacional em braço armado do partido no poder é abolir a democracia.

4. O que falhou em Angola e em Moçambique? Falhou a experiência democrática: os movimentos de libertação não souberam converter-se em partidos políticos, cada um dos quais com a sua própria ideologia política. A democracia implica alternância política: uns ganham, outros perdem. Recorrer à força para conservar o poder não é política democrática.

5. A "despolitização" da sociedade e do ensino é perigosa. Sempre condenei a abolição da disciplina de Introdução à Política no ensino secundário e a indiferença dos cursos de Filosofia em relação à Filosofia Social e Política. Foi com prazer que, consultando as obras de Maurice Duverger, me deparei com uma distinção rigorosa entre Fascismo e Comunismo. Estou farto da propaganda americana que falsifica a verdade histórica para vender uma mentira: o comunismo é igualitário, o fascismo é aristocrático. O colapso do comunismo foi terrível para todo o mundo. Sociedades sem oposição interna e externa lançam o mundo no abismo, como estamos a verificar.

6. Comparemos qualquer Presidente americano com Lenine: o que verificamos? Verificamos que o primeiro é ignorante e que o segundo foi um grande pensador. O mal da esquerda contemporânea é ter rompido com a sua grande tradição: Não há grande política sem um grande pensador por detrás.

7. Por que não simpatizo com o pensamento de Michel Foucault? Porque a substituição da macropolítica - a visão marxista da política e do poder - pela micropolítica deixa-nos sem projecto político e sem visão de futuro. Ao ser seduzida por questões de micropolítica, a esquerda entregou o campo da macropolítica ao neoliberalismo que aproveitou o colapso do comunismo para impor a agenda terrível da globalização financeira. Ora, convém ler D. Guérin, porque há uma associação perigosa entre Fascismo e Grande Capital. Os comunistas da Alemanha lembram-me sempre da ligação entre BMW e Nazismo.

8. O Guião da Reforma do Estado de Paulo Portas é ridículo. O que é o Estado? Quais as funções do Estado que se pretendem reformar? A reforma do Estado tem sempre uma forte componente ideológica: o governo quer enfraquecer o Estado e transferir algumas das suas funções para o sector privado. Nunca vi governo tão pouco patriótico como este: Alemanha, França, Inglaterra, USA ou mesmo a China são Estados fortes.

9. Concordo com a experiência pedagógica da Escola de Matosinhos: a separação dos bons alunos e dos maus alunos em turmas diferentes permite melhorar a qualidade do ensino, dando especial atenção aos alunos inteligentes; os outros podem assim estudar ao seu ritmo lento e ser canalizadas para outras áreas profissionais sem prejudicar os alunos inteligentes.

10. A situação de Moçambique agrava-se. Primeiro: a descolonização foi mal feita. Segundo: não há partidos políticos em Moçambique, mas dois movimentos armados que visam a conquista definitiva do poder. Terceiro: não havendo partidos políticos, não há democracia. Quarto: predomina a ideologia da eliminação do adversário porque não há ideologias políticas em confronto mas ambições pessoais de dirigentes totalitários.

11. Já leram o guião da reforma do Estado apresentado por Paulo Portas? Privatização das escolas públicas! É tudo tão ridículo que não vale a pena comentar! No entanto, vale a pena referir a experiência interessante de uma escola de Matosinhos: separar os bons dos maus alunos ajuda a melhorar a qualidade do ensino.

12. Os sonhos de infância ditam os destinos de Portugal: Passos Coelho e Paulo Portas sonharam que, quando fossem grandes, queriam ser Primeiro-Ministros. Ser Primeiro-Ministro tornou-se o objectivo das suas vidas. E basta a ambição para ser Primeiro-Ministro em Portugal. Daí que nunca tenha havido projecto político de futuro neste pobre e feio país.

13. Façam este exercício: Pensar a composição etária e regional deste governo. Uma conclusão se impõe: os ministros e secretários-de-Estado mais jovens são incompetentes e vingativos. E alguns deles são provenientes do interior profundo de Portugal.

14. Em vez da captação de migração de "valor qualificado", devíamos seguir uma política de expulsão de cérebros de diminuto valor, como o de Pedro Lomba.

15. Por que não simpatizo com a Frelimo? Sou a favor dos movimentos de libertação dos povos oprimidos. Porém, no caso de Moçambique, o movimento de libertação devia converter-se em partido político depois da Independência mudando de nome. A Frelimo aliou-se ao comunismo, seguindo o modelo de partido-único detentor do poder político. Mais tarde, depois da Guerra Civil, tanto a Frelimo como a Renamo deviam dar origem a dois partidos parlamentares que disputam democraticamente em eleições livres a conquista do poder. Porém, como estamos a ver, nenhum destes movimentos abdicou do seu braço armado: a Frelimo usa o exército nacional para se perpetuar no poder e a Renamo tem o seu exército privado. O Estado de Direito não pode existir nestas circunstâncias. Eliminar fisicamente adversários políticos não está no ADN do combate democrático pela conquista do poder. (Angola não é bom exemplo de democracia!)

16. Quando os portugueses diziam que "somos ricos", eu reagia a tal afirmação ultra-igualitária com espanto, pensando que eles eram e são idiotas. Apesar do colapso do comunismo, a teoria marxista do poder continua a ser válida: os partidos políticos são, de certo modo, classes sociais organizadas em termos de conquista do poder. Ora, o próprio Estado não é completamente neutro em matéria de luta de classes: as suas instituições nucleares - os aparelhos repressivos e ideológicos de Estado - impõem através da violência física e/ou simbólica o domínio da classe dominante sobre as classes desfavorecidas. Até mesmo o Estado Democrático é um "Estado de Classe". Uma prova: os portugueses estão a pagar os prejuízos privados dos bancos. O Estado socorre o grande capital nacional e internacional através do empobrecimento do povo. O Guião da Reforma do Estado proposto por Paulo Portas visa reforçar o carácter de classe do Estado português.

17. Paulo Portas diz ter lido Raymond Aron, mas parece ter retido pouca coisa dessa leitura: Raymond Aron foi sempre um defensor da democracia liberal, da economia de duplo-sector e da elevação do nível de vida das classes trabalhadoras, de modo a conter o avanço do comunismo. Paulo Portas propõe a privatização das escolas públicas, entre outras medidas conjunturais ridículas.

18. Quem é que já leu "Que Fazer?" de Lenine? Uma grande obra de pensamento político que pensa a conjuntura - o momento presente - sem esquecer a estrutura a longo prazo. Lenine foi uma mente brilhante. Ora, os políticos portugueses não escrevem obras que mereçam ser lidas. O pensamento político português é lixo.

19. Sempre que ouço os socialistas a defender uma solução federalista para a Europa fico aterrorizado. Será que eles ainda não compreenderam que a alienação da soberania nacional fortalece a soberania alemã? E sempre que escuto Passos Coelho a atacar o Tribunal Constitucional a palavra "Fascismo" vem-me à cabeça. 

20. Dizem no Facebook que em Belém habita a doença de Alzheimer. Confesso que esta concepção de doença como entidade exterior aos doentes - os seus portadores - me é completamente estranha. Neste aspecto, afasto-me do platonismo médico. 

J Francisco Saraiva de Sousa

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

A Palavra do Anjo Nocturno: Portugal está morto

Arte de Rua, Cidade-Estado do Porto
«Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonha, feixes de miséria, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalépsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, - reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta.» (Balanço Patriótico, Guerra Junqueiro) 

Durante algum tempo alimentei o projecto de pensar uma filosofia em língua portuguesa, de modo a avaliar os contributos do pensamento português para a Filosofia Universal. Porém, depressa compreendi que, com excepção da Escola do Porto, os portugueses odeiam visceralmente o pensamento filosófico e científico. A imbecilidade natural dos portugueses foi pensada por Guerra Junqueiro e Teixeira de Pascoaes, entre outros ilustres portuenses. A minha experiência de exílio interior levou-me a restringir o âmbito desse projecto filosófico destacando apenas o pensamento portuense. Ultimamente o projecto filosófico portuense converteu-se num projecto político: a auto-instituição da Cidade do Porto como Cidade-Estado. Operei assim uma ruptura com Portugal, cuja morte anuncio hoje.

1. Acordei a pensar que é necessário rever todas as nossas teorias filosóficas sobre o homem nas suas relações com o mundo. O homem não é nenhuma maravilha da natureza; é talvez o ser propenso à loucura e à violência desmesurada. As antropologias propostas com base na etologia apreenderam o diabo que habita cada um dos homens. A saturação social torna-nos inimigos mortais uns dos outros. E num tal ambiente de hostilidade cada sociedade define o Outro como alvo a abater. O clima é favorável à vinda triunfal do Anti-Cristo.

2. O sebastianismo pode ser criticado de modo a revelar a "essência" portuguesa: Um povo sem história digna de ser rememorada em termos mundiais sonha com o Quinto Império realizado sob a liderança de uma figura portuguesa. Ora, nós sabemos que os portugueses são desprezados por todos os europeus e por todos os povos da terra: Um povo medíocre e inferior - um povo sem metafísica - não pode ter sonhos mundiais. Portugal é um país medíocre habitado por gente atrasada e arcaica.

3. A figura messiânica de D. Sebastião deve converter-se - mediante mutação radical - na figura do Anjo Nocturno que anuncia o Fim de Portugal. Eis o anúncio terrível do Anjo Nocturno: "Portugal está morto". Convém aceitar este anúncio e assumir todas as consequências que resultam dele. A morte de Portugal é a única maneira de fazer justiça plena aos "portugueses" - em especial aos portuenses - que ousaram pensar neste asilo de alienados mentais que foi e é Portugal. Só à luz da morte de Portugal podemos alcançar alguma redenção e serenidade. É com alegria que anuncio a morte de Portugal.

4. Não há pensamentos portugueses. Todo o pensamento genuíno afirma-se contra Portugal. Ou melhor: Todo o pensamento é, na sua essência, anti-português. Pensar contra a existência de Portugal é pensar por antecipação um mundo liberto da imbecilidade e da corrupção, esse mal dos povos latinos e atrasados.

5. A História de Portugal é uma tremenda mentira para consumo interno, porque, na verdade, um povo sem metafísica não tem história. Os pensadores que pensaram a imbecilidade do povo português sabiam que ele era incapaz de fazer história. Aliás, os portugueses não merecem a designação de "povo": "rebanho" é o termo adequado para designar uma população animal que deve ser estudada pela Zoologia - e não pela Antropologia.

6. A Globalização em marcha reserva um destino para o rebanho português: a escravatura. As pessoas são tão burras que ainda não perceberam que o retrocesso civilizacional de que se fala é o regresso da escravatura.

7. A nossa missão filosófica e política é salvar a Cidade do Porto do naufrágio de Portugal. Quando falei da metamorfose portuense do sebastianismo nacional, procurei pensar aquilo que permaneceu impensado no pensamento portuense: a metamorfose implica - em última análise - uma ruptura política da Cidade do Porto com Portugal. A Filosofia Nocturna que se insinua nas entrelinhas do pensamento portuense anuncia claramente a morte de Portugal. Porém, a noite eterna de Portugal significa um novo amanhecer para a Cidade do Porto: a morte de Portugal é o grande dia da libertação do Porto Cidade-Estado.

8. Os pensadores portuenses reagiram mal ao Ultimatum inglês e Guerra Junqueiro escreveu uma pequena obra de poesia intitulada Finis Patriae. Hoje a reacção ao eterno resgate (financeiro) de Portugal deve ser mais profunda e radical: a ruptura política da Cidade do Porto com Portugal. Mas, para consumar a grande ruptura. é necessário um novo homem, isto é, um novo portuense suficientemente corajoso para enterrar Portugal. 

9. Como é evidente, um povo apático e fatalista que se ajusta pela maleabilidade da indolência a qualquer estado ou condição - o povo português segundo Guerra Junqueiro, não pode protagonizar a ruptura com Portugal. Essa missão cabe a todos aqueles que já não conseguem olhar para os símbolos nacionais sem vomitar e sentir náusea. 

10. O fracasso da revolução republicana portuense levou Sampaio Bruno ao exílio. Quando regressou do seu exílio em França e na Holanda, Sampaio Bruno refugiou-se na sua terra natal - a Cidade do Porto, onde pensou o seu exílio interior. Lá no fundo da sua alma danificada ele sabia que, para salvar a Cidade do Porto do naufrágio de Portugal, era preciso romper com essa matriz nacional, cuja história é uma "série de biografias, num desfilar de personalidades, dominando épocas" (Guerra Junqueiro). Não basta sonhar a "quimera"; é preciso realizá-la. Ora, a "quimera" foi sempre para os ilustres portuenses a auto-instituição da sociedade portuense como Cidade-Estado.

Apocalipse de Portugal, o Cumprimento da Profecia:

1. A pobreza começa a instalar-se na chamada classe média e as pessoas são tão burras que não sabem o que fazer. Por este caminho, Portugal vai recuar até aos tempos do fascismo. As pessoas já vivem no modo de sobrevivência: não há futuro.

2. A classe dos idosos portugueses passa fome e não tem dinheiro para os comprimidos. Aliás, acho que os portugueses passam fome para pagar as contas e os empréstimos: Asseguram o abrigo e passam fome. Os funcionários públicos - apesar dos cortes - ainda resistem à crise.

3. Portugal já está pobre mas no próximo ano passará a ser um país do Terceiro Mundo, portanto um país miserável. A sociedade portuguesa já entrou em colapso e nunca mais sairá da miséria. Portugal é a lixeira da Europa. A mão-de-obra escrava será recrutada entre portugueses.

4. A maldição abateu-se sobre Portugal: o povo que sonhou o Quinto Império será escravizado no futuro próximo. A verdade é que não há lugar para os portugueses na sociedade do futuro. A existência de portugueses é uma crueldade. De facto, o extermínio desta raça maldita é a salvação do mundo.

5. Portugal não está na agenda nem do Anti-Cristo nem de Cristo: os portugueses nasceram sem salvação possível. O seu lugar natural é o inferno.

J Francisco Saraiva de Sousa

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Dossier Filosofia Médica (1)

Uma mala moçambicana
«Procura-se a medicina, em geral, ignorando-se totalmente as teorias médicas, mas não sem ideias preconcebidas sobre os conceitos médicos». (G. Canguilhem).

Hoje partilho algumas ideias do Dossier Filosofia Médica:

1. A relação médico-doente deve ser revisitada pela filosofia médica: Um doente inteligente é aquele que sabe desafiar o médico, quebrando o ritual médico. O doente que se entrega à sabedoria médica sem a desafiar é tratado como uma coisa: a responsabilidade da reificação médica deve ser atribuída ao doente ignorante e passivo.

2. Hoje, ao contactar com alguns exemplares da população idosa masculina, conclui que há dois tipos de idosos masculinos: um simpático embora burrinho e outro detestável. Ainda não temos uma teoria das masculinidades portuguesas. O meu palpite é simples: Há um défice de masculinidade em Portugal.

3. O que é a imbecilidade? É julgar que todos os "sinais do mundo" se dirigem a si próprio. Ora, o mundo não gira em torno de ninguém: o imbecil que se coloca no centro do mundo atribui uma carga mágica àquilo que interpreta como "sinais do mundo" dirigidos à sua própria pessoa. O mundo da imbecilidade merece estudo.

4. Com o advento das neurociências, a psicologia tornou-se uma ciência sem objecto, e, como não há ciência sem objecto - isto é, ciência que tenha o nada como objecto, a psicologia desaparece do universo das ciências. A abertura do Dossier Filosofia Médica visa precisamente desalojar a psicologia médica que não pode resolver os problemas que herda da filosofia: o problema do normal e do patológico não é um problema científico mas sim um problema filosófico. A noção de homem total é filosófica e não psicológica. Desconstruir as ilusões de sabedoria da psicologia médica - produzida por psiquiatras - é desde logo lançar as bases de uma nova filosofia médica.

5. Os manuais de psicologia médica que reflectem a ambição-orientadora da psiquiatria no seio da medicina tratam invariavelmente de três tópicos: o doente e sua doença, o médico e sua medicina e a relação médico-paciente. A função apostólica atribuída-imputada por M. Balint aos médicos deve ser repensada, de modo a evitar as ratoeiras da linguagem psiquiátrica: a conversão médica do doente pode ser uma ilusão.

6. Numa aula, quando procurei articular a medicina psicológica e a medicina social com a medicina biológica, um aluno disse-me que estava a privilegiar o modelo médico. De certo modo, tinha razão porque uma reconfiguração destes três modelos que dê prioridade à medicina biológica implica o poder dos médicos. Porém, esse poder tem os seus limites: Sou contra a medicalização da vida.

7. Os psiquiatras que escrevem manuais de psicologia médica adoram apresentar uma série de casos que geram dificuldades na medicina biológica, de modo a justificar a sua intervenção psicológica. E, mais recentemente, usam o argumento dos custos desses casos para o serviço nacional de saúde. Ora, sem negar a existência desse tipo de doentes, podemos devolver aos psiquiatras a função apostólica que eles atribuem aos médicos: a sua presença é onerosa.

8. Repare-se que não estou a excluir a psiquiatria da medicina: o que estou a dizer é que os discursos psiquiátricos reforçam a medicalização da vida. Ora, uma das tarefas da filosofia médica é desmedicalizar a vida, dando uma certa autonomia ao doente. Aliás, são as indústrias farmacêuticas que estão interessadas na medicalização da vida, fazendo das pessoas eternos doentes.

9. Agora vou directo ao que interessa: A Esquerda não sabe defender o Serviço Nacional de Saúde. Em Portugal, o Estado financia a medicina privada através da ADSE. Ora, a Esquerda já devia ter abolido esse privilégio se fosse defensora do SNS. Todos conhecemos casos em que os beneficiários da ADSE dizem ser "ricos" porque recorrem à medicina privada. Tantas ilusões, tantas manias de grandeza!

10. Ao meditar as temáticas da Filosofia Médica, topei com a morte vodu, morte mágica ou morte por feitiço. Curiosamente, ainda não sabemos explicar a morte mágica a não ser mediante o recurso aos aspectos culturais do stress. Outra noção curiosa é a de que a inveja pode matar pelo olhar: o Mau-Olhado causa diversos tipos de problemas de saúde. Seria interessante fazer uma geografia cultural do mau-olhado: Portugal - país de invejosos - encabeça a geografia do mau-olhado.

11. Eis como a antropologia médica caracteriza a perspectiva do médico sobre a doença: racionalidade científica (1), ênfase sobre a mensuração objectiva e numérica (2), ênfase em dados bioquímicos (3), dualismo mente-corpo (4), visão das doenças como entidades (5) e ênfase sobre o paciente individual, não na família ou na comunidade (6). Há a tendência para criticar a mudança do método subjectivo de diagnóstico - os sintomas subjectivos do paciente, a interpretação subjectiva dos sinais físicos por parte do clínico - para o método objectivo que utiliza a tecnologia de diagnóstico para a colecta e a mensuração de dados clínicos. Ora, esta caracterização é simplista: a filosofia médica deve esclarecer a problemática da biomedicina.

12. A relativização do modelo médico é perigosa: a temática das metáforas das doenças associa-se, na imaginação das pessoas, a crenças tradicionais sobre a natureza moral e religiosa da saúde, da doença e do sofrimento humano, prejudicando a explicação e o controle das próprias doenças. Vê-se aqui a necessidade de elaborar uma filosofia para a biomedicina capaz de romper com as "doenças populares". Colocar a biomedicina ao lado das curas espirituais e da homeopatia é um disparate.

13. É muito complicado elaborar uma Filosofia da Doença. A normalidade é definida através da referência a determinados parâmetros físicos e bioquímicos. Para cada medida existe uma faixa numérica - um valor normal - na qual o indivíduo é considerado saudável. Valores superiores ou inferiores a esta faixa são anormais e indicam a presença de doença - entendida como desvio da normalidade. Assim, por exemplo, um valor inferior ao normal para a hormona da tiróide no sangue indica hipotiroidismo; um valor superior indica hipertiroidismo; e, se o valor for intermédio, indica que a tiróide esta a funcionar normalmente. Esta noção de doença como desvio da normalidade deve ser trabalhada.

14. Em Moçambique, discute-se muito o regresso dos curandeiros e dos feiticeiros. Porém, a sua explicação é simples: Quando o Estado não constrói uma rede hospitalar para fazer face aos problemas de saúde, a população que adoece recorre às "medicinas alternativas". As crenças tradicionais combatem-se através da educação e, sobretudo, de um serviço nacional de saúde.

J Francisco Saraiva de Sousa

domingo, 20 de outubro de 2013

Projecto Porto Cidade-Estado (5)

Porto Cidade-Estado
Hoje partilho um conjunto de pequenos textos que visam esclarecer a Filosofia Portuense:

1. A mente poética de Teixeira de Pascoaes produziu, em estado prático, uma grande Filosofia da Poesia Portuguesa que urge sistematizar. Destaco uma frase da sua autoria: «D. Quixote é. D. Sebastião há-de ser». A alma lusitana distingue-se assim da alma castelhana: a primeira deseja o futuro, abre-se ao futuro desejado; a segunda fecha-se no passado, actualiza-o. O sebastianismo transfigurado dos pensadores portuenses é uma filosofia da História de Portugal. Não temos outra.

2. Conheço a biblioteca privada de alguns dos pensadores portuenses: os títulos incluem poucas obras de vulto naquele tempo. Ora, o que é inusitado é o facto deles terem redescoberto conceitos filosóficos nucleares e terem feito distinções conceptuais de primeira ordem: a distinção entre "é" e "há-de ser" é brilhante. A alma portuense descobriu uma afinidade que partilha com a alma russa. Mas há outra afinidade e, desta vez, com a alma alemã. O romantismo portuense é brilhante e digno de figurar na grande literatura mundial.

3. As pessoas não compreendem a minha indiferença em relação a Fernando Pessoa e a minha preferência pela poesia e prosa de Teixeira de Pascoaes. Direi apenas que na obra de Pascoaes sinto-me em casa, enquanto na obra de Pessoa sou um estranho: Uma poesia que não se presta ao pensamento não me atrai.

4. Como qualquer um dos grandes pensadores portuenses do passado, eu tento libertar o pensamento filosófico em língua portuguesa da prisão da intriga e da bisbilhotice. E, nessa tarefa de devolver o pensamento à sua matriz conceptual, fui mais longe do que os pensadores ancestrais: Faço Filosofia e, quando confrontado com a Mitologia Nocturna do Povo, converto-a em Filosofia Nocturna. Surgem luzes na escuridão da funda meia-noite.

5. No meu período juvenil, rejeitei o Saudosismo de Teixeira de Pascoaes: a Saudade era-me completamente estranha. Mas, com o decorrer do tempo e à medida que aprofundava a Filosofia Portuense, descobri aquele processo de mutação intelectual a que chamo transfiguração portuense do sebastianismo: a saudade portuense deixou de ser uma noção vaga para passar a ser um conceito político. Vou mais longe: os pensadores portuenses nunca alinharam filosófica e politicamente com a Geração 70: o "há-de ser" é mais do que uma categoria ontológica; é, antes de tudo, um projecto político, e a saudade portuense mais não é do que a saudade do futuro reservado à Cidade do Porto. Eu sou o filósofo portuense da Grande Ruptura: os meus sonhos diurnos antecipam em pensamento o futuro do Porto como Cidade-Estado. Ora, a minha alma portuense não me impede de pensar outras figuras portuguesas, como por exemplo Gil Vicente.

6. Ao falar da transfiguração portuense do sebastianismo, estou a introduzir uma ruptura no seio do sebastianismo português. Rejeito a mitologia sebastianista pensada por sulistas, como por exemplo António Quadros, e aceito o desafio de levar mais longe a problemática filosófica portuense, fazendo do Encoberto-Desejado uma figura da Filosofia. Os heterónimos de Fernando Pessoa tornam-se ridículos perante a figura portuense do Encoberto-Desejado, a figura que anuncia a Filosofia Nocturna e promete a Filosofia Diurna.

7. Há pessoas que se apropriam dos tesouros cognitivos disponibilizados pela Internet como se fossem seus e, quando atacam os outros, pressupõem que eles fazem o mesmo. Ora, nem todos os utentes da Internet são "ladrões cognitivos". É complicado tentar testar a inteligência do outro, sobretudo quando esse outro está a fundar uma nova problemática filosófica, para além das problemáticas da Filosofia da Consciência e da Filosofia da Linguagem: a problemática da Filosofia do Conceito que, de certo modo, reclama a herança de Espinoza. Tontos são aqueles que se limitam a dizer vulgaridades, vampirizando a obra de Vieira, por exemplo.

8. A falência da Editora Livros do Brasil está a privar-nos das obras brasileiras. Uma obra que desapareceu das livrarias portuguesas são os "Sertões" de Euclydes da Cunha. Os portugueses desconhecem o sebastianismo brasileiro, ou melhor, o tremendo impacto de António Vieira sobre o sebastianismo nordestino: o brasileiro é-nos apresentado como um "ser saudoso" (Oliveira Torres) porque descendente detrês raças tristes: o português desterrado da sua pátria, o negro banzado de África, e o índio desesperado por ter sido arrancado às selvas. Dado esta região brasileira ter sido colonizada por gente proveniente do Norte de Portugal, a saudade brasileira - que dizem ser saudade do Paraíso Perdido - é herdeira da saudade galaico-portuense ancestral. Estou cada vez mais convencido de que a Filosofia do Sebastianismo deve ser um empreendimento luso-brasileiro.

9. Abel Salazar duvidava do equilíbrio mental de António Sérgio, cuja mente destrambelhada teve repercussões nefastas sobre o pensamento português e portuense. Os maiores cérebros portugueses seus contemporâneos - Jaime Cortesão e Abel Salazar, por exemplo - não tinham boa imagem de António Sérgio e detestavam o seu "polemismo caceteiro" que mergulhou o cultura portuguesa nas trevas da merda. Convém reanalisar criticamente todas estas polémicas travadas por Sérgio contra a filosofia portuense. Os (pseudo-)intelectuais portugueses herdaram esse espírito caceteiro que se limita a demolir sem construir.

10. Quem é o Encoberto para Sampaio Bruno, o pai do chamado pensamento português, isto é, do pensamento portuense? Eis a sua resposta: «Dissipe-se a nuvem que encobre o herói. O herói não é um príncipe predestinado. Não é mesmo um povo. É o Homem». A transfiguração portuense do sebastianismo está realizada nestas palavras de Sampaio Bruno. A figura do Encoberto - isto é, do Homem Escondido - é a figura de uma antropologia filosófica portuense que ainda não foi pensada nos seus próprios termos. No entanto, o carácter universal da filosofia portuense está estabelecido.

11. Como sabem, não estou de acordo com todos os portuenses ilustres. Dalila Pereira da Costa opera uma mitologização do sebastianismo que rejeito. Porém, há elementos produtivos em "A Nau e o Graal": «Para as duas almas constituintes desta pátria, a céltica e a judaica, a história será encarnação do mito ou o mito em vias de se fazer». Aceito a primeira ideia e rejeito a segunda. Por vezes, diante de obras profundas, temos de realizar uma leitura sintomal, dando destaque aos elementos construtivos de modo a resgatar o pensamento pensado.

12. Em 1904, Sampaio Bruno publicou a sua obra "O Encoberto", cujo índice é o seguinte: I A Fé e o Império; II O Desejado; III O Encoberto; IV O Restaurado; V Mito; VI Realidade; e VII Decadência e Progresso. Reparem que pela estrutura da obra se adivinha o seu programa de desmitologição do sebastianismo. Além disso, aparecem três figuras: o Desejado, o Encoberto e o Restaurado, além da crítica subjacente à teoria da decadência de Portugal de Oliveira Martins e de Antero de Quental. O homem do Porto indicou os caminhos adequados a percorrer.

J Francisco Saraiva de Sousa

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Projecto Porto Cidade-Estado (4)

Porto Cidade-Estado
Hoje as ideias partilhadas no Facebook seguiram um novo rumo: a temática do sebastianismo e as metamorfoses da espera. Têm relevância para o Porto Cidade-Estado:

1. A Alma Portuguesa só pode ser pensada à luz da fragmentação. A Imagem do Porto-Trabalho deve ceder à imagem do Porto-Pensador. Uma das clivagens da alma portuguesa pode ser enunciada assim: o Porto pensa enquanto Lisboa desconstrói e destrói o pensamento pensado pelo e no Porto. Todas as Histórias da Literatura Portuguesa são falsificações que secam os vestígios geniais da alma portuense. O Romantismo em Portugal é uma criação portuense: os sulistas sabem isso quando dizem ser anti-românticos, isto é, anti-portuenses. As obras de Teixeira de Pascoaes tematizaram o romantismo, dando-lhe uma filosofia sistemática. Há portanto uma Filosofia do Romantismo Portuense. Porém, convém exorcizar uma concepção prévia do romantismo: o culto do passado que encontramos em Alexandre Herculano converte-se em ânsia de futuro em Teixeira de Pascoaes, o que quer dizer que o romantismo não é necessariamente retrógrado e reaccionário. A filosofia de Teixeira de Pascoaes é sombria no sentido de ser uma filosofia nocturna que aguarda por um novo amanhecer.

2. O sebastianismo foi mal pensado filosoficamente: o sebastianismo do Padre António de Vieira que, de certo modo, revive na "Mensagem" de Fernando Pessoa foi completamente transfigurado pelos filósofos e poetas portuenses. A transfiguração portuense do sebastianismo é, desde logo, uma transfiguração filosófica e política. A figura do Encoberto é, na filosofia portuense, uma figura tão importante como o Zaratustra na filosofia de Nietzsche. Com efeito, ela é uma figura da filosofia nocturna. (Ocorreu aqui uma polémica que ditou a sequência seguinte:)

3. A Universidade de Coimbra foi sempre inimiga do pensamento portuense, como o demonstra a "questão académica". A Faculdade de Letras do Porto foi fundada em Agosto de 1919 por Leonardo Coimbra e, depois da polémica com Coimbra, foi suprimida por decreto em 1928. Esta supressão fascista deslocou algumas figuras do pensamento portuense para a Universidade de Coimbra: o exílio coimbrão não conseguiu ofuscar o génio portuense. A Universidade de Coimbra foi sempre o túmulo do pensamento filosófico e científico. A Aliança Porto-Lisboa quebrou esse feitiço de Coimbra.

4. Eis como Teixeira de Pascoaes lamenta a imbecilidade dos portugueses: «O grande poder emotivo da Raça contrário ao pensamento intelectualizado, opunha-se à criação de uma verdadeira Filosofia. O sentimento inundante afoga em lágrimas e nuvens o pensamento lúcido e sereno. Também o viço excessivo de uma planta não a deixa frutificar». Considera que o Criacionismo de Leonardo Coimbra é «a primeira Filosofia com todo o ritual e espiritual, escrita em língua portuguesa».

5. O messianismo pode ser definido - em termos gerais - como "esperança histórica". E o sebastianismo como sua versão portuguesa nasce da dor e nutre-se da esperança (Lúcio de Azevedo). Apesar de terem sido publicadas muitas obras sobre o sebastianismo, ainda não temos uma História do Sebastianismo (Lusófono) e muito menos uma Filosofia do Sebastianismo. A tese que proponho é uma inversão de marcha: Pensar o Encoberto como o Desejado. A Filosofia Portuense realizou de certo modo essa inversão que rompe com a Profecia: a transfiguração portuense do sebastianismo é assim secularização da crença bíblica na vinda de um Deus ou de um Enviado de Deus, que salvará o seu povo oprimido. (Aqui o meu amigo Wanderson Lima deu a seguinte bibliografia brasileira: um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete e oito.)

6. É preciso ser filósofo profissional para compreender a "História do Futuro" do Padre António Vieira. Eis aqui uma afirmação a reter: «A ciência dos futuros - disse Platão - é a que distingue os deuses dos homens e daqui lhes veio, sem dúvida, aos homens, aquele antiquíssimo apetite de serem como deuses». O Capítulo Primeiro da História do Futuro tem muita filosofia que urge compreender.

7. Na "História do Futuro", António Vieira fala "com todo o mundo" no primeiro capítulo, e "só com Portugal" no segundo capítulo. Ora, um filósofo hermeneuta sabe que há aqui algo a decifrar, porque logo a seguir Vieira diz: «nem todos os futuros são para desejar, porque há futuros para temer». A Fé não é suficiente para deslindar a lucidez histórica e política de Vieira.

8. Sugiro o tema de um novo livro sobre o Padre António Vieira que namora o título de uma obra de Isaac Deutscher: António Vieira, Profeta Armado, Profeta Desarmado e Profeta Vencido: Uma trilogia.

9. Em 1634, nos arrabaldes do Salvador, António Vieira pregou o seu Sermão de S. Sebastião. O seu sebastianismo evoluiu do sebastianismo estático, preso à esperança do regresso do rei morto em Alcácer Quibir, para o sebastianismo do Quinto Império. O sebastianismo conheceu diversas peripécias sem mudar de matriz. Ora, quem sonha o Quinto Império? Fernando Pessoa que se filia ao último Vieira.

10. Lamento a miopia política do governo português no caso da parceria estratégica com Angola: A Inglaterra livrou-se disso ao criar colónias ocidentais; nós portugueses sabemos que ainda há preconceitos nas relações com as ex-colónias, em especial Angola e Moçambique. Com excepção do Brasil, o património lusófono não é assumido por esses países africanos. É preciso ter paciência na construção da comunidade lusófona.

11. António Vieira realizou uma síntese messiânica que combina o joaquimismo, o messianismo nacional português - bandarrismo - e o messianismo judaico. Desta combinação resulta uma figura que não vou aqui delinear, limitando-me a dizer que o reino messiânico sobre a terra foi formalmente anunciado pelos profetas (1); que haverá três estados da Igreja, da Sinagoga à Igreja actual e desta à Igreja do futuro (2); e que o início da era messiânica será marcado pelo esmagamento dos turcos pelos exércitos cristãos comandados pelo rei de Portugal (3). Como é evidente, a profecia de Vieira falhou: os judeus foram conduzidos a Israel no decurso da Segunda Guerra Mundial sem a orientação de um Messias. Mas o sebastianismo é mais do que isto, e o que tenho defendido é a necessidade de pensar a sua filosofia: a sua concepção da História e da Política.

12. No trabalho intelectual, há divisão de trabalho: uns recolhem o material sem lhe acrescentar mais-valia; outros processam esse material adicionando-lhe erudição; e, finalmente, há os criadores que jogam entre os trabalhadores e os eruditos, criando tempestades inovadoras no seio das ciências e da filosofia. Sem cérebros criativos não haveria mudança de problemáticas e o mundo seria chato e monótono. Só de falar disso dá-me sono! Desperta e acorda para a ciência revolucionária!

13. Fiquei desiludido com esta discussão em torno do Padre António Vieira: Aspectos biográficos foram ventilados sem entrar na sua matriz de pensamento, precisamente o que me interessa enquanto filósofo. Para contornar uma má biografia de Vieira, sugeri um título: António Vieira, Profeta Armado, Desarmado e Vencido. E, para abordar o seu pensamento messiânico, outro título: António Vieira, História e Política. Mas parece que andei a pregar para os peixes.

14. Eu só reconheço a autoridade de uma pessoa em matéria de estudos vieiristas quando ela souber elucidar a concepção de tempo nas obras de Vieira. Eu não procuro uma biografia; procuro - isso sim - uma filosofia sistematicamente pensada.

15. Por que amo o Barroco Alemão? Porque o drama alemão mergulha inteiramente na desolação da condição terrena, afastando-se da escatologia e fugindo para uma natureza desprovida de graça. Ora, meus amigos, o Barroco Português não está longe do Barroco Alemão: Falta-lhe apenas estudiosos disciplinados pelo rigor da filosofia.

16. Amigo CM: Deixo-lhe aqui quatro notas críticas:

16.1. António Vieira é um escritor português muito estudado não só por portugueses mas também por estrangeiros. O facto de ter dedicado 12 anos ao estudo de Vieira não lhe dá o direito de desprezar os trabalhos pioneiros e brilhantes de Lúcio de Azevedo, Hernâni Cidade e António José Saraiva. A melhor biografia de Vieira continua a ser a "História de António Vieira" de Lúcio de Azevedo. Como é evidente, o maior conhecimento da obra e da vida de Vieira permite elaborar novas biografias, escritas à luz de novas problemáticas teóricas. A investigação nunca está concluída e ninguém pode afirmar deter a última palavra sobre um assunto.

16.2. Ontem negou a filiação de António Vieira à problemática luso-brasileira do sebastianismo. Tentei uma definição concisa do sebastianismo apresentando-o como uma versão portuguesa do messianismo. António Vieira realizou a passagem do sebastianismo estático ao sebastianismo do Quinto Império. As peripécias do sebastianismo não podem eclipsar a sua matriz teórica e política que permanece constante ao longo do tempo: as metamorfoses da espera não alteram significativamente a problemática do sebastianismo, sendo adaptações à conjuntura política.

16.3. Ontem estabeleceu um paralelo entre António Vieira e Sabetai Zevi, como se se tratasse de uma descoberta original. Ora, estudos anteriores - em especial os de António José Saraiva - já tinham identificado esse paralelo, mostrando que o ano de 1666 era messiânico para os dois autores. Aquilo que diz ser uma descoberta original sua não é, de facto, original. Os encontros de Vieira com rabinos portugueses na Holanda estão bem estudados. Há uma figura que esqueceu: Menasseh ben Israel, cujas obras têm afinidades com as obras messiânicas inacabadas de Vieira. A Política de Vieira não pode ser dissociada da questão da escravatura e dos índios brasileiros: as Dez Tribos perdidas de Israel são importantes para compreender a Igreja do Futuro mas não eclipsam a questão da escravatura e dos engenhos.


16.4. (O CM) escreveu algures o seguinte: «São três os Sermões do Rosário que falam dos escravos. O único estudo que existe destes trintário é meu, se conhece outro prove-o. Chama-se "Um sermonário mariano de Vieira, Maria Rosa Mística", foi publicado pela Universidade Católica, deveria ser uma treta como o senhor faz querer. Apresente teses, tenha universidades que lhas publiquem, e depois venha discutir sobre aquilo que ainda tem muito que aprender. Seja mais humilde e não pretenda ser enciclopédia, pois as asneiras saem-lhe em catadupa».

Deixando de lado a tontice da sua retórica muito lusitana e agressiva, devo dizer que a questão dos escravos foi abundantemente analisada por diversos estudiosos portugueses, brasileiros e estrangeiros. O segundo volume da "História de António Vieira" de Lúcio de Azevedo aborda esses Sermões no Sexto Período - O Vencido, em especial na secção VI: A tarefa dos sermões. Hernâni Cidade e António José Saraiva também não foram indiferentes à questão dos escravos, para já não falar dos estudiosos brasileiros - ainda ontem foram referidos alguns mediante links - e estrangeiros. É certo que os sermões podem ser analisados em função de chaves de leitura diferentes, mas o seu conteúdo político - esse sim foi estudado.

Tinha outras coisas para dizer sobre a adjectivação que me foi atribuída, mas prefiro omiti-las porque não são relevantes para a elucidação do pensamento de Vieira.


17. O Problema António Vieira consiste em articular a História e a Política, e esta articulação é a sua Filosofia. Ora, a articulação História-Política já deriva de uma problemática de fundo que não foi descoberta por Vieira: Os seus compromissos políticos assumem a forma de teses filosóficas sobre a história e a política do seu tempo. É nesse sentido que o sebastianismo do Quinto Império ainda não foi pensado.

18. Descobri um paradoxo na concepção da "História do Futuro" de António Vieira, nas duas edições que disponho dessa obra. Vieira é enfático quando distingue a sua História do Futuro da História do Passado escrita por autores clássicos. Porém, para a fundamentar, apresenta as suas quatro "utilidades". Ora, a terceira utilidade da História do Futuro - «as promessas e as disposições divinas, antecedentemente conhecidas na previsão do futuro, tudo facilitam e a tudo animam» - reduz a História à Política de realização das promessas. A concepção de tempo de António Vieira aproxima-se e, ao mesmo tempo, distancia-se da concepção de tempo de Santo Agostinho. Para Vieira, o tempo tem dois hemisférios - o passado e o futuro - e um horizonte de tempo presente em que termina o passado e começa o futuro. É esta concepção de tempo que está na raiz dos cinco impérios: o Quinto Império mundial será realizado à escala mundial por Portugal e pelos portugueses sob a liderança de um rei português. Ora, a quarta utilidade da História do Futuro é advertir os inimigos -holandeses e espanhóis e outros - de que não vale a pena lutar contra Portugal, cujo destino foi traçado por Deus. Dado ser um império mundial temporal no mundo, o Quinto Império - a ideia - rompe com a escatologia, outra dificuldade a pensar em Vieira.

19. A burocratização do ensino queimou os neurónios dos auto-intitulados professores que assumem o cargo burocrático dispensando a tarefa de ensinar e educar. Munidos das palermices das pedagogias administrativas, pretendem ser avaliadores por decreto celestial. Porém, como podem avaliar o que não sabem ou o que não ensinaram? O ensino em Portugal e no mundo é uma mentira. Uma maneira tipicamente portuguesa de evitar o confronto da avaliação é dizer que não aceitam ser avaliados e testados. Sim, são múmias mas múmias que querem avaliar sem ser avaliadas.

20. O que me irrita nos chamados escritores portugueses? A bisbilhotice, a atracção exclusiva por pormenores da vida privada dos autores que dizem analisar, o golpe-baixo no diálogo, enfim a incapacidade de pensar o pensamento pensado e de criar novos pensamentos. Nunca se avança; patina-se na mesma merda. Daqui a pouco estávamos a discutir a virgindade de Vieira! Odeio gente burra!

21. Como exemplificar a estupidez dos livros produzidos por portugueses medíocres? Em primeiro lugar, denunciando a falta de qualidade científica e linguística da maior parte das teses de mestrado e de doutoramento. Um avaliador externo que as lesse ficaria chocado: as universidades andam a produzir burros diplomados em série. Em segundo lugar, poderia referir muitas obras editadas pelo centro de Braga da Universidade Católica: as obras filosóficas tratam de tudo menos de Filosofia. Mas posso dar outro exemplo, desta vez portuense: a Fundação Spes tentou aprofundar os estudos da vida e da obra do Bispo D. António Ferreira Gomes e uma dessas iniciativas foi a publicação de uma série de livros volumosos e vazios de pensamento. Enfim, o Bispo do Porto morreu uma segunda vez.

22. Olho em redor e vejo coisas. É certo que a linguagem me permite classificá-las, dando-me o esqueleto de uma concepção do mundo. Porém, preciso de muito trabalho de pensamento para elaborar o conhecimento do fragmento de mundo que vejo. Mas nunca estou na estaca zero porque possuo conhecimentos prévios do mundo. A teoria - o conhecimento concreto do mundo concreto - é sempre o resultado de um trabalho teórico: uma matriz teórica e instrumental permite-me converter a matéria-prima do conhecimento - um conhecimento prévio - em conhecimento científico ou filosófico.

J Francisco Saraiva de Sousa

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Projecto Porto Cidade-Estado (3)

Cidade-Estado do PORTO
Novas ideias para pensar a Filosofia da Autonomia Radical do Porto:

1. A Cidade do Porto merece uma nova história geral e diversas histórias regionais: a História Social do Porto deve ser completada pelas Histórias da Cultura e Literatura Portuenses, da Filosofia Portuense, da Arte Portuense e do Pensamento Político Portuense. Há muito trabalho teórico a realizar e este trabalho não pode ser realizado por amadores. Há muitos livros sobre o Porto, mas a maior parte deles são escritos num estilo apaixonado e distante da disciplina do rigor teórico. Ora, sem teoria não há obra séria.

2. A sociedade portuguesa é uma sociedade de classes peculiar: a classe dominante portuguesa não sabe lidar com as classes dominantes de outros países, como o demonstra o caso de Angola. Se olharmos para a elite do poder português, ficamos chocados com a sua imbecilidade, a sua emotividade histérica, a sua subserviência em relação às instituições estrangeiras e a sua corrupção. As pessoas que protagonizam a política externa portuguesa em Lisboa são criaturas delirantes: o espírito lisboeta é doentio.

3. O complexo nacional de inferioridade revela-se nas universidades: Quando se realiza um congresso internacional, os investigadores portugueses são subservientes em relação aos convidados estrangeiros, sobretudo os europeus, desvalorizando o trabalho uns dos outros nas conversas privadas com os convidados estrangeiros. Ora, quem conheça bem a alma portuguesa, sabe que os portugueses se comportam assim para dar graxa aos estrangeiros, julgando obter algum benefício. Porém, o que obtêm é um atestado de incompetência e de falta de credibilidade pessoal e científica. São os portugueses que afundam Portugal.

4. Nas situações referidas anteriormente, eu tenho muita vergonha em assumir a nacionalidade portuguesa: Utilizo o meu fenótipo e a minha inteligência para me demarcar dos portugueses, tanto em território nacional como em território estrangeiro, porque não quero fazer parte do gueto português ou latino. Os portugueses não são boa-companhia e, se não quiseres ser um "Dr Merdinhas", demarca-te dos portugueses e nega seres português.

5. Ser português é um estigma social e este estigma foi inventado pelos próprios portugueses. A Cidade do Porto só tem um caminho a seguir para se libertar desse estigma: auto-instituir-se como Cidade-Estado.

6. "O Porto é o berço da Renascença" portuguesa: A prosa de Teixeira de Pascoaes é infinitamente superior à de Fernando Pessoa: Teixeira de Pascoaes foi um poeta-pensador que produziu uma filosofia a que chamou Saudosismo. O erro de Teixeira de Pascoaes não reside no seu "nacionalismo", mas no facto de não ter compreendido as fissuras que existem na alma portuguesa. Com efeito, a alma portuguesa não é unitária e as polémicas que o poeta travou com António Sérgio demonstraram isso. Se interpretarmos o saudosismo como uma filosofia da esperança, então podemos corrigir o erro de Teixeira de Pascoaes, traduzindo "alma portuguesa" por alma portuense. É preciso usar violência hermenêutica para recuperar os pensadores da Escola do Porto e trazê-los para as proximidades do projecto filosófico e político do Porto Cidade-Estado.

7. Teixeira de Pascoaes elaborou uma teoria da mentira, articulando-a com a antipatia da vida moderna: «A mentira reina sobre o mundo. Quase todos os homens são súbditos desta omnipotente Majestade». O texto onde o poeta-pensador desenvolve as suas ideias é demasiado breve: a sua fenomenologia da antipatia implica uma fenomenologia da simpatia que quase supera a de Scheler. A ideia central é a de que a antipatia é estranha à Natureza, onde tudo se liga e atrai. Temos aqui uma dinâmica de forças que foi tematizada de diversas maneiras pelos pensadores da Escola do Porto. A sua fidelidade a Bergson reflecte-se no abuso de metáforas que caducam rapidamente o pensamento profundo que elaboraram.

8. «Assim um indivíduo (e as nações são como os indivíduos) educado contra as tendências naturais do seu espírito, jamais será alguém»: Pensamento brilhante de Teixeira de Pascoaes que ele utiliza para justificar o fracasso do constitucionalismo. Porém, ao lado brilhante deste pensamento, devemos associar o seu lado sombrio: a nacionalidade portuguesa não se casa com o constitucionalismo porque este é estrangeiro. Compreendo o desejo de criar uma Religião Lusitana: vejo-o como a tentativa de realizar tardiamente a Reforma em Portugal. Mas não consigo pensar o isolamento da alma portuguesa. A alma portuense deve abrir-se ao mundo. Ser alguém em vez de ninguém exige abertura ao mundo.

9. O pensamento portuense - produzido por portuenses para portuenses - encontra-se na mesma situação dos Edifícios do centro histórico: precisa de ser reabilitado através de uma hermenêutica subtilmente violenta que o confronte com as grandes tendências da Filosofia Moderna.

10. O que penso da filosofia de Leonardo Coimbra? Leonardo Coimbra foi provavelmente o primeiro filósofo portuense - e português - a produzir filosofia enquanto filosofia. Os poetas-pensadores que foram seus contemporâneos viram no seu criacionismo o culminar filosófico do seu próprio pensamento. De facto, há uma unidade de pensamento na Escola do Porto, a qual foi pensada por Sampaio Bruno, Guerra Junqueiro e Teixeira de Pascoaes. Porém, o desenvolvimento filosófico de Leonardo Coimbra ainda não foi pensado: a sua filosofia experimental e a sua atracção pelo cálculo diferencial e integral ainda não foram seriamente estudadas.

11. Chegou o momento de criticar alguns portuenses, aqueles que escrevem textos que parecem ser um amontoado de lombrigas. Há na Cidade do Porto homens e mulheres que deviam ser expulsos da cidade devido à sua estupidez disfarçada de "bairrismo": os seus textos, os seus comportamentos mancham a dignidade da Cidade do Porto. Tenho muito nojo desses tristes e grosseiros portuenses!

12. Os auto-intitulados "filósofos lisboetas" - supostamente racionalistas - condenam o "nacionalismo" inerente à Filosofia Portuense, dedicando o seu tempo a discutir o carácter nacional ou universal da filosofia. Ora, estes idiotas nunca devem ter lido uma obra de filosofia e, diga-se de passagem, desconhecem a filosofia do romantismo alemão e do idealismo alemão. Ser patriota não é um crime: os portuenses são patriotas e amam a sua cidade. Crime é vender o país aos estrangeiros, como fazem os governantes em Lisboa.

13. E eis que Teixeira de Pascoaes sonha a origem atlante do Porto: «A Saudade é deusa atlântica, não mediterrânica. Os Iberos são atlânticos, esses refugiados do Cataclismo que submergiu o célebre Continente». Descobri agora mesmo esta bela intuição histórica do poeta do Norte!

14. O abismo separa o pensamento vivo de Teixeira de Pascoaes do pensamento morto de Fernando Pessoa: O poeta do Porto usa a sua experiência para se apropriar da história da filosofia. A sua apropriação da filosofia revela um profundo conhecimento da mesma: Vejam como ele na frase anterior se apropria de Platão emprestando-lhe o Desejo.

15. É fundamental elaborar a Filosofia do Romantismo Portuense - quase tão brilhante quanto a Filosofia do Romantismo Alemão - e colocar o seu poder subversivo ao serviço da causa nobre que é a instituição do Porto como Cidade-Estado. O génio portuense surpreende-me: Como é que homens que viveram nesse ermo chamado Portugal conseguiram elevar-se às alturas do pensamento filosófico criativo? Porém, quando olho para Fernando Pessoa, vejo um homem sombrio incapaz de pensar um único conceito filosófico. O abismo do pensamento afasta o Porto de Lisboa.

16. Sempre que Teixeira de Pascoaes fala do Encoberto e do Enevoado sabemos que está a falar da missão histórica do Porto. Mas, para quem conheça a sua obra, o Enevoado é a funda meia-noite que abriga e esconde uma Nova Filosofia. Tal como Sampaio Bruno, Teixeira de Pascoases atribui ao Encoberto a missão de pensar a filosofia da história da Cidade do Porto. Como eles foram profundamente hegelianos e românticos!

17. Quem nasceu na Cidade do Porto sabe que os dias e as noites de nevoeiro cerrado convidam ao recolhimento espiritual: O Porto pensa enquanto Lisboa festeja nas ruas. Este pensamento essencial foi descoberto por Sampaio Bruno; eu limito-me a dar-lhe um outro alcance filosófico dizendo: Quebrar o exílio interior é romper com Lisboa e instituir o Porto como Cidade-Estado.

18. E agora chegou a hora de dizer o que os ilustres portuenses pensavam dos portugueses: a sua experiência de exílio interior levou-os a pensar a maldade do povo português. Em Portugal, ou ficamos calados e somos cúmplices do mal existente ou ousamos pensar e somos perseguidos, empobrecidos e afastados. Como dizia o poeta: nacionalidade portuguesa e democracia (constitucionalismo) não casam, bastando pensar nas chantagens deste governo e nos ataques que dirige contra o Tribunal Constitucional. A máfia que preside aos destinos de Portugal é criminosa.

J Francisco Saraiva de Sousa

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Projecto Porto Cidade-Estado (2)

Cidade-Estado do Porto
O projecto filosófico e político de pensar a auto-instituição da sociedade portuense como Cidade-Estado está em andamento. Eis algumas novas ideias defendidas no meu perfil no Facebook:

1. As teorias do Eu Socializado afirmam que a auto-imagem de uma pessoa não precisa ter relação com factos objectivos. Supondo que esta afirmação foi corroborada empiricamente por estudos científicos, a Filosofia pode questioná-la alegando que a formação social de uma tal auto-imagem pode facilmente colidir com a realidade objectiva. Assim, por exemplo, os pais que dizem que os seus filhos são lindos quando na verdade são feios estão a contribuir para a desgraça futura dos seus filhos: a maquilhagem estereotipa a beleza e esconde a fealdade sem a liquidar. Assistimos assim à produção em série de barbies, todas iguais umas às outras. Mas há uma consequência mais perigosa, de resto bem evidente em Portugal: a conspiração dos burros, cujas auto-imagens são reforçadas em rede fechada, contra as pessoas dotadas de dons objectivos. A auto-imagem sem suporte objectivo é uma ilusão perigosa.

2. Um esclarecimento sobre o projecto Porto Cidade-Estado: Como é evidente, este projecto visa todo o Norte, de modo a refazer Portus Cale. A resistência que ele gera revela a sua força política e o medo dos centralistas que fizeram de Portugal uma ruína. É preciso ser inteligente para conquistar um futuro novo.

3. William Graham Summer forjou o termo "etnocentrismo" para designar a atitude estreitamente vinculada aos preconceitos culturais ou sociais de um indivíduo. A batalha do etnocentrismo foi introduzida pelos antropólogos no próprio núcleo da sua formação académica. Porém, falta saber se o antropólogo seria capaz de participar num ritual canibal comendo carne humana. O etnocentrismo tem duas faces: a face branca que consiste numa mera prevenção metodológica contra a imposição dos marcos de referência ocidentais às situações não-ocidentais; e a face negra que consiste num ataque moral contra os valores ocidentais enquanto tais. Esta mudança de direcção do etnocentrismo aconselha o seu abandono. Hoje é necessário sermos entusiasticamente "etnocêntricos" e defender os valores ocidentais, tais como os direitos humanos, a dignidade da vida humana e a liberdade humana. A Filosofia e a ciência são empreendimentos intelectuais ocidentais e, por isso, são etnocêntricas.

4. Debato-me com o problema da formação cultural da Cidade do Porto. Conheço as suas mitologias heróicas e uma ou outra construção fantástica. Porém, sou forçado a concluir que a cultura portuense é uma cultura urbana - cosmopolita e aberta ao mundo. Ora, uma cultura urbana é burguesa. O Porto é burguês.

5. O projecto Porto Cidade-Estado obriga-me a retomar a língua alemã que já não frequento há muito tempo. Vou almoçar e aproveitar para lançar os olhos sobre obras que ajudam a conceptualizar a cultura urbana portuense. Burgofilia pode ser um termo adequado para designar os vínculos que unem os portuenses à sua cidade.

6. Os profetas do Antigo Testamento - homens rurais - denunciaram os pecados e os vícios das cidades maléficas e Jefferson também as desprezava, acreditando que somente uma nação de lavradores podia permanecer como democrática. O espírito anti-urbano esquece que a liberdade e a diferença só se manifestam na sociedade urbana. Infelizmente, os portuenses vivem mais do que pensam a Cidade do Porto: Não temos um único estudo sobre sociologia urbana do Porto.

7. As cidades são espaços de contrastes. Para pensar a cultura urbana do Porto, escolhi como interlocutor Georg Simmel: o conceito de cultura é problemático na Filosofia. Simmel define-a como aperfeiçoamento do indivíduo; daí que faça a distinção entre cultura objectiva e cultura subjectiva. O conceito de formação cultural adequa-se melhor ao pensamento de Simmel. Mas, para compreender a formação cultural portuense ao longo do tempo, é necessário encará-la como formação simbólica que investe diversas esferas da vida psicossocial portuense. A tarefa complica-se e, como filósofo, estou mais preocupado com o investimento cognitivo do que com o investimento afectivo.

8. A história urbana da Cidade do Porto obedece aos mesmos princípios do desenvolvimento urbano das cidades europeias. As análises estéticas de Simmel das cidades de Florença e de Veneza ajudam a compreender algumas especificidades do Porto, como por exemplo o vínculo afectivo entre os portuenses e a sua cidade. Em Simmel, a grande cidade protagoniza o individualismo moderno. O Porto já era uma cidade moderna no século XII: a sua cultura urbana sempre foi uma cultura burguesa. Porém, não temos um estudo empírico sério sobre o individualismo portuense. A questão "Quem são os portuenses?" exige uma resposta.

9. Uma forma engenhosa e inteligente de contornar a ausência de estudos portuenses profundos é pensar a burgofilia dos portuenses como arrependimento: o de ter dado início à formação de Portugal. À luz deste arrependimento podemos pensar o desejo secreto portuense de voltar à restituição integral de Portus Cale.

10. Um historiador malvado de Coimbra procurou ofuscar o brilho da Cidade do Porto, fazendo de Coimbra o pólo do renascimento português. O homem é tão burro e inculto que esqueceu que houve um renascimento no século XII, do qual participou a Cidade do Porto. Se houve um estilo de vida renascentista em Portugal, ele só podia ocorrer na Cidade do Porto. Afinal, a Universidade de Coimbra nunca ajudou a superar a estupidez cognitiva dos portugueses.

11. Reconquistar a unidade perdida: eis o sentimento renascentista da alma portuense. O espírito renascentista impregna toda a alma portuense. Cidades como Florença e Veneza encarnaram esse espírito procurando restituir a unidade perdida do espírito grego. A História de Portugal pode ser lida como fragmentação da unidade: o amor que os portuenses nutrem pela sua cidade - Portus Cale - e que os distingue dos portugueses revela o seu desejo de refazer a unidade que se perdeu com a formação de Portugal.

12. O que é o Porto Romântico a não ser a busca da unidade perdida? O Porto que deu o nome a Portugal é o mesmo Porto que, em momentos fulcrais da sua história, se arrepende de ter iniciado a formação de Portugal. O Porto aprendeu que as suas iniciativas são desfiguradas quando apropriadas por Portugal, bastando referir a revolução liberal de 1820 e a tentativa portuense de implantação da República. Ora, os portuenses que se orgulham de ser liberais nem sempre sabem o que significa ser liberal. Um portuense orgulhoso do seu sangue não pode aplaudir Salazar ou a Monarquia Absoluta de D. Miguel.

J Francisco Saraiva de Sousa