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terça-feira, 9 de julho de 2013

Mia Couto é reaccionário!


Recebe o Prémio Camões, alegando que se trata de uma "coisa-negócio luso-brasileira": Que falta de respeito para com a língua portuguesa! Tanto "miou" na infância - daí o nome "Mia" - que acabou por desaprender a língua(gem) dos seres humanos. Quando se deseja modificar a natureza de um povo, neste caso do povo moçambicano, não podemos usar a sua linguagem: o conhecimento popular é, por natureza, retrógrado. Um povo que queira conquistar o futuro sem deixar a história passar ao lado deve produzir uma nova linguagem: a escrita de Mia Couto degrada a língua portuguesa, bloqueando o futuro aos seus utentes. Sendo biólogo, Mia Couto tem uma concepção retrógrada da biologia, ao reduzi-la à história-narrativa da vida. Mia Couto que é tão avesso ao colonialismo acaba por render-se à sua mais poderosa arma, o racismo: o discurso dos atractores - a perspectiva do desenvolvimento - é-lhe estranho.

terça-feira, 1 de maio de 2012

A Beleza do Porto

Cidade do Porto e Rio Douro
A minha amiga Letícia Valle, a Florbela do Brasil, autora do blogue Litteratura Mundi et alii, publicou dois posts: A Beleza do Porto (1) e A Beleza do Porto (2). Cada um deles dedica-me um poema. O primeiro intitula-se Francisco e o segundo, São Francisco. Ambos os poemas cantam a beleza do Porto através da figura de um dos seus habitantes, neste caso eu próprio. Entre amigos, a Letícia Valle é conhecida como a Florbela Espanca do Recife. A Letícia Valle, além de ser uma jovem poetisa, é uma apaixonada pela Cidade do Porto, pelo Futebol Clube do Porto e por cavalos e cavaleiros. Na língua de Paul Celan, denken (pensar) e danken (agradecer) são palavras da mesma raiz. Na língua portuguesa, pensar e agradecer não são palavras da mesma raiz e, por isso, não posso agradecer a partir do campo semântico de gedenken (lembrar), eingedenk sein (rememorar), Andenken (recordação) e Andacht (devoção): agradeço voltando a partilhar os dois poemas da Letícia Valle, nos quais ela vai ao encontro do Outro - a cidade do Porto - através da figura desse Outro - eu próprio. Eis o primeiro poema intitulado Francisco:

Ai, Dr. Francisco,
De Santo, Doutor, Poeta e Louco
Tens um pouco.
Por que não me vens curar
Dessa dor,
Que se alastra
Desterra-me
Para além-mar...

Guardo teu retrato
Debaixo da renda do criado-mudo
E o lencinho no meu peito
Tem bordadas as tuas iniciais.
Já perco saúde e juízo
De esperar a ama anunciar:
“Sinhazinha, é chegado o Dr. Francisco!!!”

Letícia d'Albuquerque Maram. Valle
Capitania hereditária de Pernambuco,
do ilustre Dom Duarte Coelho Pereira
Recife, XXX/IV/MMXII.

O outro poema da Letícia Valle intitula-se São Francisco e diz:

Francisco,
uma beleza
que só santo tem.
faz um milagre
só para mim.

Vem, meu
branquinho
de faiança,
de louça,
numa mesa de festa.

Tu,
da brancura
de uma toalha de linho
lavada na pedra do rio
alvejada pelas minhas mãos.

Acendo-te uma
vela
mas, hoje,
vem
só para mim.

Letícia d'Albuquerque Maram. Valle
Capitania hereditária de Pernambuco,
do ilustre Dom Duarte Coelho Pereira.
Reyno de Portugal, do Brasil e das Terras d'Aquém e d'Além-mar.
Recife, XXX/IV/MMXII.

J Francisco Saraiva de Sousa

As 10 Melhores Postagens de Abril

Sou Eu: J Francisco Saraiva de Sousa
«Penso que o modo como as pessoas são hoje educadas tende a diminuir a sua capacidade para sofrer. Presentemente, uma escola considera-se boa "se as crianças se divertem". E esse não costumava ser o critério. Além disso, os pais querem que os seus filhos cresçam como eles (só que mais), mas sujeitam-nos, contudo, a uma educação muito diferente da deles. - A resistência ao sofrimento não é muito cotada, porque não deve haver sofrimento; de facto, está fora de moda». (L. Wittgenstein)

Veja aqui as 10 melhores postagens do mês de Abril de 2012, a selecção mensal do blogue O Fazedor: Wanderson Lima escolheu o meu texto Ocaso da Literatura. O aforismo de Wittgenstein reforça a hipótese que explicitei no meu texto. Já agora aproveito a oportunidade para partilhar mais três aforismos de Wittgenstein: «No âmbito do espiritual, o projecto de uma pessoa não pode em geral ser continuado por outra, nem o deverá ser. Estes pensamentos fertilizarão o solo para uma nova sementeira». «Quase todos os meus escritos são conversas privadas comigo mesmo. Coisas que a mim próprio digo face a face». «Deixa ao leitor tudo o que ele pode fazer sozinho». O modo como articulei estes aforismos deixa transparecer uma ironia. Neste nosso tempo indigente, sou forçado a conversar comigo mesmo, porque já não há leitores inteligentes, capazes de cuidar da minha sementeira sem se apropriar indevidamente dela, como se pudessem pensar os meus próprios pensamentos. Chamei-lhes comunas-replicadores pelo facto de fazerem próprio o pensamento alheio. A escola está morta!

A minha amiga Letícia Valle, a Florbela Brasileira, acaba de publicar este post A Beleza do Porto (1), um belo poema intitulado Francisco. Eis o poema de Letícia Valle - e mais outro aqui:

Ai, Dr. Francisco,
De Santo, Doutor, Poeta e Louco
Tens um pouco.
Por que não me vens curar
Dessa dor,
Que se alastra
Desterra-me
Para além-mar...

Guardo teu retrato
Debaixo da renda do criado-mudo
E o lencinho no meu peito
Tem bordadas as tuas iniciais.
Já perco saúde e juízo
De esperar a ama anunciar:
“Sinhazinha, é chegado o Dr. Francisco!!!”

Letícia d'Albuquerque Maram. Valle

Capitania hereditária de Pernambuco, 
do ilustre Dom Duarte Coelho Pereira

Recife, XXX/IV/MMXII.

O outro poema da Letícia Valle intitula-se São Francisco e diz:

Francisco,
uma beleza
que só santo tem.
faz um milagre
só para mim.


Vem, meu
branquinho
de faiança,
de louça,
numa mesa de festa.

Tu,
da brancura
de uma toalha de linho
lavada na pedra do rio
alvejada pelas minhas mãos.

Acendo-te uma
vela
mas, hoje,
vem
só para mim.

Letícia d'Albuquerque Maram. Valle

Capitania hereditária de Pernambuco,
do ilustre Dom Duarte Coelho Pereira.
Reyno de Portugal, do Brasil e das Terras d'Aquém e d'Além-mar.

Recife, XXX/IV/MMXII.

J Francisco Saraiva de Sousa

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Impulso Suicida

Porto: Terreiro da Sé-Catedral do Porto
Melancolia

Sombras azuladas. Oh, olhos de mágoas
Que me olham longamente ao deslizar.
Guitarras nos jardins, a acompanhar
O outono e a dissolver-se em escuras águas.
Duras trevas da morte, construídas
Por mãos nínficas, rubros seios sugados
Por lábios podres, e os cabelos molhados
Do jovem nas águas enegrecidas.

Georg Trakl

Lamento

Sono e morte, as sombrias águias
Esvoaçam toda a noite ao redor desta cabeça:
A vaga gelada da eternidade
Engolindo a imagem dourada
Do homem. Em tenebrosos recifes
Despedaça-se o corpo purpúreo
E a voz grave lamenta-se
Sobre o mar.
Irmã de amotinada melancolia
Olha, um barco angustiado afunda-se
Sob estrelas,
Sob o rosto silencioso da noite.

Georg Trakl

Grodek

Ao entardecer, as florestas outonais
ecoam de armas mortíferas, e as planícies douradas
e os lagos azuis, por sobre os quais rola
um sol sombrio; a noite abraça
guerreiros moribundos, o lamento selvagem
das suas bocas destroçadas.
Mas, em silêncio, num fundo de salgueiros,
juntam-se nuvens rubras, onde um Deus irado habita;
e o sangue derramado, e frescura lunar;
todos os caminhos desembocam em negra podridão.
Sob a dourada ramagem da noite e sob estrelas
a sombra da irmã vacila pelo bosque de silêncio,
para saudar os espíritos dos heróis, as cabeças ensanguentadas;
e levemente, nos canaviais, soam as flautas sombrias do outono.
Oh, dor orgulhosa! Vós, brônzeos altares,
Uma dor portentosa alimenta hoje a chama escaldante do espírito,
Os filhos que ainda hão-de nascer.

Georg Trakl

terça-feira, 3 de abril de 2012

As 10 melhores postagens de Março

Cidade do Porto: Parque da Cidade
«O povo existe. O que é preciso é educá-lo. Porém, aqui urge não nos iludir com o lema, porque a educação dum povo faz-se conferindo os direitos públicos a esse mesmo povo. Ele aprende usando, e só assim». (Sampaio Bruno, Portuense ilustre)

«A vida modificou-se (...). As classes não estavam tão divididas. Hoje o rico desconhece o pobre. Nunca se deu menos dinheiro aos asilos e às Misericórdias, do que depois que o dinheiro anda a rodos. O que se acentua na vida actual é o egoísmo e a febre de gozar. Os ricos, através das gerações, eram sempre os mesmos ricos. O pobre não tinha visto muita gente, e da pior, enriquecer de repente. (...) Conheço dez, vinte casos cuja fortuna assenta numa primitiva infâmia. Conheço mil pobres com uma vida digna de quem ninguém fez caso. O rico explora o desgraçado, já não há homem nenhum que não se sinta afrontado e que no íntimo não deseje que isto desabe... Só falta um passo. O que falta é exteriorizar a nossa alma. Essa sociedade anticristã que aí está, não merece ser poupada: não só não crê em Deus, como só crê na matéria e no gozo. Este homem não tem direito a um lugar na vida. A vida é uma coisa muito séria e ele explora-a. Sim, os pobres têm razão. É por isso que eu, e todos, sentimos a necessidade da catástrofe. Tenho uma certa pena, uma certa saudade do passado, mas caminho com decisão para o futuro. Tu e eu, leitor, reclamamos a hora tremenda do juízo final». (Raul Brandão, Portuense ilustre)

O Porto não precisa do resto do país para pensar. O Porto foi sempre a Cidade do Pensamento: cabe-nos a nós, seus herdeiros que não temos cara de bolacha-maria, zelar pela memória dos portuenses ilustres contra as investidas dos mouros. Veja aqui as 10 Melhores Postagens do Mês de Março de 2012, a selecção mensal do blogue O Fazedor: Wanderson Lima escolheu o meu conto Sobre os mortos que nos visitam.

J Francisco Saraiva de Sousa

sábado, 24 de março de 2012

Borges: Esse Ofício do Verso

Porto: Ponte da Arrábida
Mergulhei completamente no meu projecto estético dos Quadros Portuenses: estudo a geografia da doença de António Nobre e, ao mesmo tempo, aproximo Guerra Junqueiro de Sampaio Bruno, cuja intuição fundamental do devir fundamenta todo o seu projecto filosófico. Ontem fui tentado a publicar um texto, António Nobre: a Geografia da Tuberculose, mas a leitura de uma biografia do poeta portuense obrigou-me a adiar a sua publicação. Hoje descobri Sampaio Bruno e António Nobre de "mãos dadas" no exílio em Paris: ambos fizeram a experiência do desterro e, logo depois, já em terras portuguesas, a experiência do exílio. Do Porto disse Sampaio Bruno: «É a melhor terra do mundo para se viver. Nem Paris lhe chega!» É o Porto que ainda me liga a Portugal, porque a minha vontade é ir de vez para a Dinamarca, a Suécia ou qualquer outro país nórdico. E também descobri o desentendimento entre Sampaio Bruno e Ricardo Jorge a propósito da "peste bubónica" do Porto (1899). Doravante, o quadro dominante é o Porto Mental, a capital do pensamento português. Entretanto, nesta minha vinda rápida à blogosfera, descubro este texto do meu amigo Wanderson Lima, cuja leitura recomendo: Borges e a Poesia: Esse Ofício do Verso. Uma análise fina da obra de Borges, Esse Ofício do Verso!

J Francisco Saraiva de Sousa

quarta-feira, 21 de março de 2012

António Nobre: Do Porto a Baltimore

Cidade do Porto: Ponte D. Luís I
De Maio a fins de Junho de 1897, António Nobre viajou até à América do Norte, aproveitando a sua paragem pelos Açores para cumprir um voto expresso na sua poesia: visitar o túmulo de Antero de Quental. Nos Estados Unidos, a mesma intenção o levou a Baltimore, em homenagem à poesia de Edgar Poe. Baltimore, a cidade americana onde morreu o poeta admirado nos meios literários do Porto, sugeriu-lhe as quintilhas intituladas Sensações de Baltimore, incluídas na sua obra póstuma Despedidas: «Meu caro Antero de Figueiredo, como post-scriptum à minha última carta, envio-lhe esse belo magazine, Bookman, onde desde já poderá ir estudando feições da sua Revista. Tanto mais que ela publica neste número um estudo sobre Edgar Poe, acompanhado desses retratos, que muito lhe deve interessar. Cheguei, há pouco, aqui procedente de Baltimore onde fui visitar o túmulo do pobre Allan, do "Corvo". Também vi um convento de Pretos. Adeus» (Filadélfia, sábado, 29 de Maio de 1897). Hoje estive a estudar a cartografia de António Nobre. Das cidades que conheceu a que mais amou foi a sua terra natal, a cidade do Porto, que ele canta a partir da Foz e dos Rios Douro e Leça: «Tu não gostas de Lisboa, dizes. É pour? E daí, é possível que sejas franco. Eu, por mim, só me sinto bem, quando estou no Porto, em minha casa, com a minha família, com os meus amigos. Tenho muitas saudades do Porto...» (Carta de Eduardo Coimbra dirigida a António Nobre, 3 de Abril de 1884). (Lisboa d'O Desejado é uma pedra no meu sapato hermenêutico! Porém, a pedra dissolve-se quando penso que o António é o herói Anrique!) Eis o poema incompleto sobre Baltimore:

«Cidade triste entre as tristes,
Oh Baltimore!
Mal eu diria que na terra existes
Cidade dos Poetas e dos Tristes,
Com teus sinos clamando "Never-more".

«Os comboios relâmpagos voando,
Pela cidade de Baltimore,
Levam uns sinos que de quando em quando
Ferem os ares, o coração magoando,
E os sinos clamam "Never-more, never-more. (...)» (Baltimore, 1897)

E sobre o mar do Porto - da Foz a Leça - retenho este soneto antigo, Ao Mar: António Nobre retém das cidades tudo aquilo que o evoca, como se depreende de uma carta dirigida da Madeira a Antero de Figueiredo, datada de 28 de Junho: «Creia que tenho as maiores saudades do nosso Portugal. Os meus estios, se bem que no Doiro, administrativamente, diante de Deus e do céu estrelado, estão no Minho também. Que saudades dessas fontes, dessas águas! A Madeira é linda, mas falta-me o passado que é tudo em mim, nada me evoca por mais que eu olhe».

«Ó meu amigo Mar, meu companheiro
De infância! dos meus tempos de colégio,
Quando pra vir nadar como um poveiro
Eu gazeava à lição do mestre-régio!

«Recordas-te de mim, do Anto trigueiro?
(O contrário seria um sacrilégio)
Lembras-te ainda desse marinheiro
De boina e de cachimbo? Ó mar, protege-o!

«Que tua mão oceânica me ajude.
Leva-me sempre pelo bom caminho,
Não me faltes nas horas de aflição.

«Dá-me talento e paz, dá-me saúde,
Que um dia eu possa, enfim, poeta velhinho!
Trazer meus netos a beijar-te a mão...»

J Francisco Saraiva de Sousa

terça-feira, 20 de março de 2012

Guerra Junqueiro: Ruínas

Porto: Torreão-Cisterna,
Rua Barão de Nova Sintra
«Eu amo a noite sombria; /Amo as trevas mais que o dia, /Pois consolam na tristeza, /E dão alívio e firmeza /A quem se acolhe ao seu manto. /Ó sombras da noite escura, /Dai-me estrofes de amargura! /Ó noite, inspira meu canto. (...) Eu não tenho quem deplore /A minha morte, ninguém; /Não tenho pai que me chore, /Tão-pouco não tenho mãe. /E depois, que importa ao mundo, /O ser que morre, que vai? /É gota do mar profundo, /E no ar perdido um ai». «O fundo da alma portuguesa, visto com os olhos, é azul e branco». (Guerra Junqueiro)

Guerra Junqueiro teve a infelicidade de nascer em Portugal, o ermo onde o pensamento essencial não germina. Os portugueses são demasiado medíocres para apreciar a sua poesia e o pensamento que se abriga em cada um dos seus poemas. Hoje estive a reler algumas páginas portuguesas dedicadas ao pensamento de Guerra Junqueiro: a crítica que António Sérgio, talvez o mais burro dos portugueses, lhe dirige revela, exemplificando-a, a incapacidade inata dos portugueses para compreender a novidade de uma obra que transcende a mediocridade do horizonte cognitivo nacional. António Sérgio projecta a sua própria estupidez na obra alheia, procurando ridicularizar aquilo que, ele próprio, introduziu furtivamente nela: António Sérgio é, portanto, um projecto que se auto-anula, tropeçando nos seus raciocínios esqueléticos. Porém, os maiores inimigos de Guerra Junqueiro não são tanto os seus adversários declarados mas sobretudo os seus supostos aliados, que o filiam à matriz obscura do pensamento português. Leonardo Coimbra dedicou-lhe uma obra inteira, ou melhor, um conjunto de textos recolhidos em livro. Já escrevi um longo ensaio para libertar o pensamento de Guerra Junqueiro da leitura de Leonardo Coimbra: a chave de leitura que utilizei para elucidar o pensamento essencial de Guerra Junqueiro permitiu-me esboçar um projecto estético e político para a História de Portugal, do qual apenas resta o projecto dos quadros portuenses. Precisava de mais uma vida para realizar o projecto inicial, mas, como não a tenho, preferi substituir Portugal pela Cidade do Porto. Uma suspeita antiga confirmou-se subitamente durante a tarde de hoje: a magia que a palavra "ruínas" desperta em mim não me permitiu ver que, no poema Ruínas de Guerra Junqueiro, há um outro andamento, um outro caminho a percorrer, para o qual a minha filosofia da história tinha vedado o acesso: «A consciência humana é um monte de destroços». Sabia da sua existência, meditei-a longamente, mas foi preciso reformular a minha concepção da história para lhe dar acesso. Na poesia de Guerra Junqueiro, as ruínas adquirem uma extensão conceptual raramente vista num outro poeta, numa articulação fantástica com uma nova concepção de infância: «Oh, que existência doirada /Lá cima, no azul, na glória, /Sem cartilhas, sem tabuada, /Sem mestre e sem palmatória. (...) Como querem que despontem /Os frutos na escola aldeã, /Se o nome do mestre é - Ontem /E o do discíp'lo - Amanhã!» Ou então estes versos: «Vendo esta velhinha, encarquilhada e benta, /Toque, toque, toque, que recordação! /Minha avó ceguinha se me representa... /Tinha eu seis anos, tinha ela oitenta, /Quem me fez o berço fez-lhe o seu caixão!» Eis os dois sonetos desse grande poema:

I

«E é triste ver assim ir desfolhando,
Vê-las levadas na amplidão do ar,
As ilusões que andámos levantando
Sobre o peito das mães, o eterno altar.

Nem sabe a gente já como, nem quando,
Há-de a nossa alma um dia descansar!
Que as almas vão perdidas, vão boiando
Nesta corrente eléctrica do mar!...

Ó ciência, minha amante, é sonho belo!
És fria como a folha dum cutelo...
Nunca o teu lábio conheceu piedade!

Mas caia embora o velho paraíso,
Caia a fé, caia Deus! sendo preciso,
Em nome do Direito e da Verdade.

II

Morreu-me a luz da crença - alva cecém,
Pálida virgem de luzentas tranças
Dorme agora na campa das crianças,
Onde eu quisera repousar também.

A graça, as ilusões, o amor, a unção,
Doiradas catedrais do meu passado,
Tudo caiu desfeito, escalavrado
Nos tremendos combates da razão.

Perdida a fé, esse imortal abrigo,
Fiquei sozinho como herói antigo
Batalhando sem elmo e sem escudo.

A implacável, a rígida ciência
Deixou-me unicamente a Providência,
Mas, deixando-me Deus, deixou-me tudo».

J Francisco Saraiva de Sousa

domingo, 18 de março de 2012

Sobre os vampiros do Porto

Fotografia artística de Herb Ritts 
Nesta nossa triste peregrinação pela terra somos actores que desempenhamos papéis que nem sempre resultam da nossa escolha. Por detrás desse emaranhado de papéis, há um eu que não se atreve a revelar-se a si próprio, nem sequer nas páginas mais íntimas de um diário: tudo o que diz ou escreve sobre si próprio não é ele próprio. O eu não se revela a si próprio: mostra-se e oculta-se ao mesmo tempo. A gratuitidade da vida revela-se em cada um dos momentos vividos por esse estranho hóspede da casa do cérebro. Se a vida não fosse gratuita, o cérebro não seria a máquina de fabricar ilusões que de facto é, para suportar esse pesadelo que é a vida. A angústia fundamental que se apodera da nossa alma resulta do carácter gratuito da vida, fazendo dela uma tragédia, da qual nem sequer o dramaturgo mais exímio consegue escapar: a solidão acompanha-o eternamente. Quando saí de uma discoteca do Porto, já na rua, fui interceptado por um vampiro, o vampiro A., que durante vários anos procurou destruir a minha vida. Escrevo estas palavras sob o efeito da febre, provavelmente resultante de uma dentada de vampiro infectado por sangue corrompido. Estou sozinho e tenho toda a madrugada por minha conta, o que nem sempre sucede. Desde que fiquei órfão deixei de ter alguém em quem confiar. E, quando se perde a confiança nas pessoas que nos rodeiam, somos frequentemente assaltados por um pensamento demasiado íntimo: alguns caracterizam-no como o medo de estar completamente só, num mundo que nos é estranho e no qual não podemos intervir, mas não é tanto a solidão que assusta, mas sim a maldade que nos cerca nas silhuetas espectrais dos outros e que, aos poucos, nos estrangula quando menos esperamos: a maldade que nos rouba o sossego e que nos afasta dos caminhos de uma vida não-danificada. Só tomamos consciência da solidão quando perdemos a confiança naquelas silhuetas nocturnas que nos rodeiam por todos os lados. Nesse momento, receamos que nos roubem todos os vestígios da nossa vida. E um único pensamento nos consola quando tememos pela nossa vida: o pensamento da morte, a encenação quase onírica da nossa morte própria e a invocação dos mortos queridos. Com efeito, é deste pensamento ritualmente convocado dia após dia que renascemos novamente para a vida, na esperança de que um dia o carrasco se encarregue da sua própria morte. Adormecemos e, ao amanhecer, começa um novo dia que não sabemos se será melhor do que o dia anterior que findou com o pensamento da morte própria. Não o sabemos de antemão e não adianta consultar o horóscopo ou lançar as cartas do Tarot, para sondar o futuro próximo ou distante: estamos vivos e preparados para lutar contra a adversidade anónima de outrem. Herdei da minha mãe a coragem de ser e do meu pai, a percepção da beleza da natureza. Talvez um dia venha a ter a oportunidade para unificar a minha dupla-herança numa única peça do meu destino. De facto, se há uma lição a tirar do princípio do egoísmo genético, é a de que não podemos viver sem os nossos congéneres numa sociedade, num tempo e num espaço que não escolhemos: a sexualidade condena-nos a essa fatalidade, a fatalidade de viver com quem não queremos viver, a partir do momento em que suspeitamos que a vida não tem sentido. Se a sociedade é forjada por rivalidades, a começar desde logo pelas rivalidades entre irmãos, como pressupõe o princípio do egoísmo genético, então estas rivalidades só podem existir na ambiência do amor e da conexão. Ódio e amor são as duas palavras fundamentais inscritas no genoma humano, donde resulta ser este um permanente campo de batalha. O gene egoísta precisa de outro gene egoísta para atingir o seu propósito básico: fazer uma cópia de si próprio. E nós que somos prisioneiros da genética, desejamos no entanto o impossível: o predomínio da vida e a permanência do amor. Quando penso na minha mãe, já defunta, vejo o mundo com mais confiança, tal é a força do seu espírito. Começo a ficar com sono. Devo ter adormecido, porque acordei com novo ânimo: persistir na minha luta contra a maldade humana, sem me deixar encantar pelas vozes sedutoras dos vampiros que cativam os mortais neste tempo tão carente de experiência. Quando uma pessoa, num determinado momento da sua trajectória vital, olha para trás e diz "foi em vão", não é apenas uma avaliação que faz do seu passado, é sobretudo o pensamento horrível de desperdício vital e de perda de tempo que lamenta. Vida danificada: eis a expressão usada por Adorno para designar este pensamento avassalador. Mas, dada a irreversibilidade do tempo, essa flecha acelerada que nos leva até aos braços da morte, o mais grave é o facto de não podermos recuperar de algum modo o tempo perdido, à maneira de Proust, porque o tempo desperdiçado na companhia das silhuetas nocturnas está irremediavelmente perdido para a alegria: aquilo que poderia ter sido já não pode ser. O tempo e a morte são parceiros íntimos no jogo que preside à vida. Guerra Junqueiro disse num dos seus poemas que o tempo era um coveiro. De facto, o fluir do tempo encarrega-se de enterrar tudo, mas, quando enterra uma parte significativa e substancial da nossa vida, a parte do sonho, da esperança e da promessa, enterra-nos a nós próprios, sem nos dar uma segunda oportunidade, a oportunidade de escolher um novo projecto de vida, um novo começo. A vida transforma-se, nesse momento em que é problematizada pelo balanço feito pelo pensamento livre de ilusões, em angústia profunda: o projecto que poderíamos ter sido já não é viável. Matámos todas as nossas possibilidade e, quando as queremos despertar, já é demasiado tarde. Da angústia que captura a nossa alma não nos podemos livrar, nem sequer através da memória criadora, a menos que sejamos demasiado fracos. A vida que se torna estranha a si própria confronta o seu suporte com a sua verdade, à luz da qual o interroga sobre a sua responsabilidade pelo desperdício do seu tempo com pessoas e coisas que não mereciam a sua atenção vital. Ninguém no seu perfeito juízo escolhe uma vida danificada que o afunda na morte precoce. É talvez a genética que nos obriga a correr riscos desnecessários na vida, numa oscilação permanente entre a aliança e a rivalidade. O homem sonha com o amor-dádiva, o único que a seu ver o pode libertar da prisão das conexões perigosas. Rivalidade e aliança são dois conceitos nucleares da genética moderna. Hoje, quando acordei, fui logo tomar três cafés, e, neste preciso momento, acabo de tomar o meu quarto café do dia. Preciso de cafeína para pensar. O vampiro S. que me serviu este último café na esplanada tem um hábito terrível. Quando lhe dou uma nota de 20 euros para pagar o café, ele faz-me o troco como se lhe tivesse dado uma nota de 5 euros. Uma voz sepulcral diz-me aos ouvidos: "É a crise que se instalou na restauração!". Engana-se, porque é o velho espírito de pilhagem e de trapaça dos portugueses que faz o vampiro S. agir deste modo tão previsível. Mas este não é o pior tipo de vampiro que habita a cidade do Porto. Quase todos os vampiros que tentam apoderar-se do meu sangue têm nomes começados pela letra A. Estranha coincidência: a primeira letra do alfabeto dá o nome ao vampiro A., igual a tantos outros vampiros. A vida do homem decorre sob o signo da guerra, a mãe de todas as coisas. A guerra, a luta de todos contra todos, é a matriz desse enredo tecido de alianças e de rivalidades. Afinal, a aliança não é mais do que a formação de um grupo para lutar contra outro grupo rival. Cada um de nós pertence a uma tribo, urdida por mil e uma artimanhas e por rivalidades internas confessas, que só alcançam um estado de paz quando o nosso grupo se une contra outro grupo estranho. O princípio do egoísmo genético não nos oferece outra alternativa, a não ser a do nós unidos contra os outros estranhos, porque não pertencem ao nosso grupo. O homem está condenado a lutar para viver e, por isso, não adianta tentar limar as arestas deste imperativo vital, ao qual a própria individualidade não é alheia. Com efeito, a nossa individualidade forma-se, como já Hegel sabia, na luta que travamos contra os outros: cada um dos seus traços distintivos traz a marca de uma vitória contra os outros que tudo fizeram para bloquear o nosso processo de diferenciação e de individualização. Lembro-me que, quando fui lançado no Liceu de Alexandre Herculano no Porto, vindo do estrangeiro e de um colégio particular, me senti cercado por um bando primitivo de vampiros que odiavam a nobreza da minha personalidade. Mas não podia queixar-me, porque essa tinha sido a minha decisão: terminar o curso complementar numa escola pública do Porto. A mediocridade geral dos professores não me surpreendeu: eu sou o autor do projecto em andamento que se faz a si próprio. Mas tomei consciência daquilo que sempre soube: os vampiros perdem a sua individualidade quando vivem em bandos. Ou talvez fosse melhor dizer: os vampiros carecem de individualidade. O meu excesso de individualidade repele e atrai, ao mesmo tempo, os vampiros, porque sou tudo aquilo que eles não são e que procuram ser, mediante um acto de apropriação ilícita. Nada mais assusta aquele que se abriga no azul anímico da noite estrelada do que ser sugado pelos vampiros que o rodeiam por todos os lados. O imaginário lendário dos povos associa a figura do vampiro à figura de um morto-vivo perverso que, à noite, sai da sua tumba para ir caçar vítimas humanas vivas, com o objectivo de lhes sugar o sangue vermelho, símbolo de vitalidade, a vitalidade de que necessitam para continuar a viver nas trevas. O vampirismo, mesmo nesta forma lendária e cinematográfica, é uma espécie de parasitismo. Porém, nem sequer Drácula era tão cruel como os novos vampiros arregimentados e massificados que circulam nos lugares públicos da moderna sociedade urbana. Talvez devido a uma mudança de perspectiva e a uma degenerescência genética, os vampiros urbanos desejam mais do que a apropriação da energia vital dos mortais: eles desejam absorver o eu do indivíduo que resiste à massificação e apropriar-se literalmente da sua vida, da sua acção, da sua obra, das suas emoções, dos seus sentimentos, das suas ideias, do seu estatuto social, dos seus bens, do seu pensamento, dos seus desejos, enfim dos seus amigos, conhecidos e familiares. Outrora o vampiro sugava o sangue dos vivos para dar vida ao seu corpo morto; hoje tudo faz para absorver a alma daqueles que ousaram traçar a sua trajectória de vida no mapa social. Vampirar é tornar "seu" aquilo que pertence ao outro, apropriando-se ilicitamente até mesmo da sua identidade e da sua intimidade. Este novo tipo de vampirismo egológico está intimamente ligado à sociedade de consumo: consumir pessoas, o seu eu localizado no mapa social, tornou-se uma forma de vida para todos aqueles que não possuem um eu forte. Ora, este consumo de identidades alheias é parente próximo do canibalismo: os novos vampiros que sofrem de fragilização do eu, desenterram práticas arcaicas que deixaram de ser visíveis há muito tempo. O vampiro A. é um consumidor nato daquilo que não lhe pertence. Julgo que a arte de copy paste foi uma invenção do vampiro A., porque ele não só toma emprestada a vida dos outros, como também lhes saca as suas obras de pensamento: tudo o que exibe como se fosse "seu" pertence a alguém, cujo nome é sistematicamente omitido para não ensombrar a sua pseudo-criatividade e a sua pseudo-originalidade. Mas há mais: Julgo que todos os portugueses são meros clones do vampiro A., o pai ancestral de todos aqueles que tomam emprestada a vida dos estranhos sobre-individualizados que habitam o mesmo território com eles. O exílio a que os vampiros A. condenam os portadores de eu forte torna-se preocupante quando os leva a perder a confiança nos outros, mas nada está perdido: a vida partilhada encarrega-se, mais tarde ou mais cedo, de arrancar o véu que cobre as nossas ilusões e adições sociais. Até mesmo aqueles que comem, dormem, trabalham ou vivem connosco acabam por perder a auréola, tornando-se aquilo que sempre foram: meros vampiros de tipo A., a que estávamos ligados pelo hábito e pela inércia. O tempo das promessas apaga-se subitamente, e, no seu lugar, emerge repentinamente o tempo vazio que nos prepara para a morte, da qual não há regresso. Tal como Prometeu roubou o fogo a Zeus para o dar aos homens, eu roubei o segredo aos portugueses, para o expor ao julgamento mundial. Os clones do vampiro A. são Ninguém, essa terrível figura corporal da escassez de existência que invade a nossa vida em todas as suas dimensões espessas, não para a fortalecer, acrescentando-lhe valência ontológica, mas para a enfraquecer, procurando anular o projecto que cada um de nós é. O Ninguém - o anti-herói deste conto! - não tem espírito: esta é a sua doença mortal que, pelo seu comportamento promíscuo, se alastra a toda a sociedade. Não sei até que ponto a figura vicentina do Parvo se coaduna com o Ninguém que estou a elaborar, em função do perfil do vampiro A. Mas suspeito que o Parvo afirma ser "ninguém" para se demarcar e se distanciar daquele "alguém" que é pelo facto de exibir publicamente uma máscara colectiva, adornada ou não com pedras preciosas, igual a tantas outras, por detrás da qual não há um hóspede genuíno. Se esta leitura estiver correcta, e eu julgo que está, então o "ninguém" vicentino prenuncia de algum modo a máscara anónima e impessoal do Ninguém, cujo perfil domina o nosso tempo indigente. Privado de espírito, o Ninguém procura afirmar-se no mundo comum pela apropriação ilícita do espírito subjectivo e objectivo do outro e pelo consumo conspícuo de objectos, fetiches, maquilhagens, próteses, tecnologias, comportamentos estereotipados, ideias e identidades, para a construção dos quais não deu nenhum contributo significativo, embora procure convencer-se a si próprio e convencer os outros de que tudo isso é sua criação. A alma de Georg Lukács acabou de me sussurrar aos ouvidos: "Converteste a tua angústia numa concepção do mundo!" Mal ela sabe que, com a ajuda do meu feiticeiro invisível, nesta luta constante contra os vampiros que tem sido a minha vida, me transformei num vampiro milenar, o mais antigo da estirpe dos vampiros nobres, aquele que nasceu para os matar. Ninguém que tenha ousado desafiar-me conseguiu viver muito tempo depois disso. Georg Trakl farta-se de rir, dizendo em voz alta: "Tu és o Sebastian, o Helian, o Elis que anunciei para matar a estirpe maldita". Já não sei bem quem sou: Serei ainda humano ou serei antes a nobre figura azul que habita a eterna noite, tendo por companheiras as almas brilhantes do outro mundo? De uma coisa estou certo: neste mundo despovoado de almas brilhantes, sou mais lúcido e sábio quando estou a dormir e, sobretudo, a sonhar do que quando estou acordado, lançado entre os vampiros. Acordei do sonho nocturno depois de ter assassinado o vampiro A., sem lhe espetar uma estaca de madeira no coração. Descobri que os vampiros podem ser privados da sua aparente imortalidade clonal quando lhes damos a beber sangue contaminado. No meu sonho redentor, o vampiro A. morreu de doença contraída enquanto andava à caça de sangue fresco, para os lados de Leça, Gaia e Águas Santas. O que fiz para o matar? Transformei um sapo numa figura afrodisíaca, com olhos de cão abandonado, cujo sangue foi contaminado pelo velho feiticeiro africano. A doença consumiu-o até ao seu último suspiro vital. Enterremo-lo, porque já cheira a carne putrefacta. Depois deste acontecimento redentor, já posso mergulhar de novo no regaço sereno da noite azul. Matei com astúcia o vampiro que ousou tentar roubar-me a alma.

J Francisco Saraiva de Sousa

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Lendo Homero...

Busto de Homero
«Estando a sós a trocar estes desagradáveis discursos, acompanhados de lágrimas copiosas, aproximou-se a alma de Aquiles, filho de Peleu, com a de Pátroclo, a do nobre Antíloco e a de Ajax, que era o mais distinto entre os Dánaos, depois do nobre filho de Peleu, por sua beleza e por sua estatura. A alma do veloz neto de Éaco reconheceu-me e, lamentando-se, disse-me estas aladas palavras:

- Filho de Laertes, da estirpe de Zeus, Ulisses fecundo em recursos, porque meditaste, infeliz, no teu espírito uma empresa maior do que as passadas! Como tiveste a ousadia de baixar ao Hades, onde os mortos habitam, privados do uso dos sentidos e como sombras de homens que morreram?

Assim falou; e eu repliquei-lhe: Ó Aquiles, filho de Peleu, o mais valente dos Argivos, eu vim por causa de Tirésias, em busca de um conselho para chegar à rochosa Ítaca. Na verdade, ainda não me aproximei da Acaia, nem pus os pés na minha terra, pois tenho andado sempre a padecer infortúnios. Mas tu, Aquiles, és o mais feliz dos homens do passado e do futuro, pois que, enquanto vivias, os Argivos honravam-te como aos deuses, e agora, estando aqui, tens pleno poder sobre os mortos; por isso, não deves afligir-te de ter morrido.

Assim falei; e ele disse-me logo em resposta:

- Preclaro Ulisses, não tentes consolar-me a respeito da morte! Eu preferia cultivar campos e trabalhar ao serviço doutrem, de um homem pobre e de poucos recursos, a dominar sobre todos os mortos. Fala-me do meu filho ilustre e diz-me se ele foi à guerra, para ser o primeiro na frente da batalha, ou não. Conta-me também se te constou que o nobre Peleu conserva ainda a sua realeza entre os numerosos Mirmídones ou se é menosprezado na Hélade e em Ftia, por causa da velhice lhe ter enfraquecido as mãos e os pés. Oxalá eu estivesse sob os raios do Sol para o auxiliar, tal como, um dia, na vasta Tróia, onde, em combate a favor dos Argivos, trucidei um exército valente! Se eu, sendo o mesmo, voltasse, ainda que fosse por pouco tempo, a casa do meu pai, eles temeriam o meu valor e as minhas invencíveis mãos, todos quantos o violentam e privam da sua realeza.

Assim falou; e eu repliquei-lhe: Não me constou nada a respeito do nobre Peleu; mas, acerca do teu filho Neoptólemo, vou declarar-te toda a verdade, tal como tu me pedes. Eu próprio fui quem o levou na nau bojuda de Esciro para entre os Aqueus de belas grevas. Aí, quando deliberávamos em conselho, junto da cidade de Tróia, ele falava sempre antes de todos; e os seus discursos eram inferiores apenas aos do divino Nestor e aos meus. E, quando na planície dos Troianos combatíamos com o bronze, nunca ficava entre a multidão ou na turba dos guerreiros, mas adiantava-se muito para as primeiras linhas, sem ceder a ninguém em valor. Muitos guerreiros matou nas refregas terríveis! Eu não poderia dizer ou nomear a quantos Troianos ele tirou a vida, em defesa dos Argivos. Direi apenas que matou a um herói como Eurípilo, filho de Télefo, com o qual morreram muitos Mísios, por causa dos presentes feitos a uma mulher. Excepto o ilustre Mémnone, ainda não vi homem mais belo do que ele.

Quando eu e os mais valentes dos Argivos entrámos no cavalo que Epeu fabricou (a mim fora-me confiado tanto abrir como fechar a porta da cilada), os chefes e conselheiros dos Dánaos limpavam as lágrimas e tremiam em todos os seus membros; mas nunca os meus olhos viram que a cor esplêndida de Neoptólemo se tornasse pálida ou que enxugasse as lágrimas do rosto. Pelo contrário, ele pedia-me com insistência que o deixasse sair do cavalo e empunhava a sua espada e a lança énea, meditando males contra os Troianos. E, depois que destruímos a alta cidade de Príamo, embarcou na sua nau com uma bela recompensa, que lhe tinha cabido em parte, e sem o ter alcançado o bronze agudo nem ser ferido em combate corpo a corpo, como muitas vezes na guerra sucede, em que Ares se enfurece contra todos indistintamente.

Assim falei; e a alma do veloz neto de Éaco afastou-se, a grandes passos, pelo Prado do Asfódelo, contente por lhe ter dito que o seu filho era um guerreiro distinto. (...)». (Homero, Odisseia, XI)

A vulnerabilidade da literatura portuguesa deve-se, em grande medida, ao facto dos portugueses nunca terem cultivado as obras clássicas dos gregos. No universo da língua portuguesa, não descobrimos nenhuma obra que possa ser equiparável ao Fausto de Johann W. Goethe, à Morte de Empédocles de Hölderlin, aos Sonetos a Orfeu de Rainer Maria Rilke ou ao Ulisses de James Joyce: o Fausto, Tragédia Subjectiva, de Fernando Pessoa revela apenas a sua indigência cognitiva que nos cobre de vergonha. A epopeia de Camões é pálida e, infelizmente, o Prometheu Libertado de Guerra Junqueiro nunca passou de esboço do poema. E onde está a versão portuguesa da Antígona de Sófocles? Quando estudava Filosofia, cheguei a assistir a duas ou a três palestras de Maria Helena da Rocha Pereira, cuja antologia da Cultura Grega, Hélade, ainda continua a ser uma obra inovadora em Portugal. Mas os seus estudos sobre cultura grega, embora interessantes, estão aquém - em termos de apropriação crítica do pensamento grego - daqueles que lhe dedicaram os especialistas ingleses, alemães e franceses: a lacuna grega não foi completamente preenchida na cultura portuguesa pela obra de Helena da Rocha Pereira. A grandeza da literatura inglesa, alemã e francesa deve-se à idealização precoce da antiga Hélade levada a cabo pelos pensadores e pelos poetas dos respectivos países. Portugal permaneceu estupidamente à margem da tarefa de apropriação critica do legado grego, e, ainda hoje, não temos edições completas das obras dos autores gregos. É certo que elas foram praticamente todas traduzidas, mas estão dispersas em traduções que exigem ser corrigidas sempre que deixam escapar a subtileza do pensamento ou mesmo a riqueza psicológica. Assim, por exemplo, lendo as traduções portuguesas dos diálogos platónicos, não conseguimos apreender a sua concepção do pensamento, pelo menos tal como a definiu Hannah Arendt: as traduções omitem que Sócrates, no seu diálogo com Cálicles, no Górgias, avança com uma noção-chave: «eu, que sou um». A sua omissão não permite descobrir que, «embora eu seja um, não sou simplesmente um, tenho um ser próprio e entro em relação com esse ser próprio enquanto meu próprio eu. Este si mesmo de cada um de nós não é de modo algum uma ilusão; faz-se ouvir falando-me - falo comigo próprio, não me limito a estar consciente de mim próprio - e, nesse sentido, embora seja um, sou dois em um e pode haver harmonia ou desarmonia no meu ser próprio. Quando discordo de outras pessoas, posso afastar-me delas; mas não posso afastar-me de mim próprio, e o melhor será, portanto, tentar pôr-me de acordo comigo antes de entrar em linha de consideração com os outros». De um modo geral, as traduções portuguesas tendem a transferir para as obras alheias a pobreza psicológica e cognitiva dos seus tradutores. A constatação frequente desta transferência levou-me a pensar que os portugueses são seres psicologicamente pobres, aquilo a que tenho chamado a mente primitiva dos portugueses, um traço provavelmente determinado por genes arcaicos inscritos no genoma lusitano. Curiosamente, o núcleo duro de colaboradores da revista Presença, em especial José Régio, avaliava a qualidade das obras literárias portuguesas em função da sua riqueza ou pobreza psicológicas. Ora, uma tal avaliação é mais psicológica do que estética, e, segundo penso, tem a sua razão de ser no facto de podermos constatar na vida diária a pobreza psicológica dos nossos interlocutores portugueses. Como é evidente, não estou a inserir Helena da Rocha Pereira no quadro da pobreza psicológica: os seus estudos sobre cultura grega estão aí para testemunhar a sua luta heróica contra a indigência mental e cognitiva dos portugueses. Mas os portugueses, além de serem seres psicologicamente pobres, são também seres malevolamente ingratos: o esforço de Helena da Rocha Pereira não teve eco nas suas mentes vazias. Os portugueses condenam ao exílio interior todos aqueles que, entre eles, ousam pensar: o pensamento germinal dos outros agride-os de tal modo que se apressam a apagar todos os seus vestígios geniais. Helena da Rocha Pereira ainda não morreu, mas já foi enterrada em vida. As diversas mortes de Florbela Espanca são tentativas desesperadas de escapar à condenação-julgamento do público português, sendo o seu grande temor ser morta depois de ter morrido. É o carácter dilacerante desta experiência de ser um exilado na sua própria terra que leva os poetas e os pensadores portugueses a fazer dela o tema fundamental das suas obras. Porém, para se libertar da prisão que é Portugal, este tema deve abrir-se ao mundo exterior, além das fronteiras portuguesas. Ora, a leitura de Homero permite refrescar este tema obsessivo da poesia-pensamento português. Chegou a altura de regressar ao lar, o tema imortalizado por Homero e presente no Frei Luís de Sousa de Almeida Garrett e nos Simples de Guerra Junqueiro! (Não sei se repararam que a fala de Aquiles, onde ele diz que preferia permanecer vivo como escravo de um homem pobre a ser rei dos mortos, questiona o núcleo duro da Ilíada: as duas obras apresentam concepções do mundo distintas. É sempre gratificante pensar que foi um mesmo poeta - Homero - que articulou estas duas concepções do mundo e da vida.)

J Francisco Saraiva de Sousa

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Três Sonetos de António Nobre

Cidade do Porto: Ribeira
Estamos em Portugal, onde de vez em quando surge uma figura de génio que a mediocridade nacional se apressa a sepultar em vida. Nesta terra amaldiçoada pela Senhora Inveja, todas as figuras de génio foram sepultadas em vida, e, depois de mortas, as suas obras são encerradas em encadernações tumulares que invadem as livrarias a preços verdadeiramente proibitivos, como que a não incentivar a sua leitura. A cultura superior não é bem-vinda em Portugal, onde a cunha ou qualquer outro esquema corrupto valem mais do que todo o mérito de um homem nascido com a estrela da redenção. Não admira portanto que António Nobre tenha escrito estes versos: «Não me importas, País! seja meu Amo /O Carlos ou o Zé da T'resa... Amigos, /Que desgraça nascer em Portugal!» Sim, é uma desgraça, uma terrível desgraça, uma terrível fatalidade nascer em Portugal: o fatalismo que é atribuído a António Nobre não tem outro sentido a não ser o de um grito de desespero - o grito não escutado pelos carrascos! - daquele que é sepultado em vida por um corcel de alienados mentais. Portugal é o país maldito que sepulta em vida todos os que nasceram com a estrela da redenção: a figura de génio que tenha nascido nesta terra maldita é sempre-já exilada e enclausurada. O exílio interior é o destino de todos os portugueses de génio: «Que triste fado! /Antes fosse aleijadinho, /Antes doido, antes cego.../Ai do Lusíada, coitado!». O sepultamento em vida que é o exílio interior assume muitas formas, uma das quais é a negação do mérito. Em Portugal, todos são iguais, de modo terrivelmente nivelador, sobretudo depois desse fatídico dia que foi o 25 de Abril de 1974: os vizinhos - os malditos vizinhos! - da figura de génio não lhe reconhecem publicamente o mérito; roubam-lhe o mérito, apropriando-se das suas ideias como se elas lhes pertencessem: os portugueses são macacos de imitação que simulam ser e pensar aquilo que efectivamente não são e não pensam. Figuras absolutamente planas e superficiais que tomam emprestada uma profundidade que não lhes pertence. Quando um homem de génio como António Nobre se sente assaltado na sua essência única, no seu núcleo existencial, reage enaltecendo o seu próprio ego, o Eu-Virgílio: o carácter autobiográfico da poesia de António Nobre só pode ser compreendido como uma defesa do seu próprio eu num mundo que não tolera a diferença que se destaca da mediocridade nacional. Os portugueses comportam-se como zombies, mortos-vivos, que, para alimentar os seus corpos desabitados, precisam de sacar o sangue dos outros que são habitados por estrelas da redenção. O fatalismo dos portugueses de génio mais não é do que a filosofia que lhes permite conservar e proteger a autenticidade do seu núcleo existencial dos ataques da turba de medíocres. A afirmação do eu contra um mundo de corpos desalmados - a tirania da maioria desalmada! - constitui um acto de extrema coragem, cujo preço é a própria solidão. António Nobre (Porto: 1867-1900) publicou em vida uma única obra - , da qual assistiu a duas edições (1892, 1898), sendo as outras duas obras póstumas: Despedidas, que inclui um fragmento d' O Desejado (1902), e Primeiros Versos (1921). Hannah Arendt traçou uma distinção muito importante entre o estar isolado e o estar solitário: o indivíduo está isolado quando se encontra numa situação em que não pode agir porque não há ninguém para agir consigo, e está solitário quando se encontra numa situação em que, como pessoa, se sente completamente abandonado por toda a companhia humana. Deste modo, ao isolamento na esfera pública corresponde a solidão na esfera dos contactos sociais, sendo o primeiro um conceito político e o segundo um conceito existencial. Mas os dois conceitos não se excluem em certas situações distantes do governo totalitário, como o demonstra a condição de estar só de António Nobre. Epicteto ajuda a compreender esta condição do poeta portuense quando distingue entre o homem solitário, aquele que, apesar de estar rodeado por outros, não pode estabelecer contactos com eles, estando exposto à sua hostilidade, e o homem só, aquele que, estando sem companhia, pode desfrutar a companhia de si mesmo, já que tem a capacidade de falar consigo mesmo. A poesia de António Nobre é, toda ela, um diálogo de dois-em-um: o poeta aproveita a ocasião de não ter no mundo português um lugar reconhecido e garantido pelos outros concidadãos para estar consigo mesmo, na companhia do seu próprio eu, sendo assim dois-em-um, não só o Eu-António mas também o Eu-Portugal. A minha leitura do de António Nobre pretende apenas resgatar a sua poesia, dando resposta ao seu anseio tumular no reino da paz: «O tempo tudo põe no seu lugar e faz justiça a quem na tem». Ora, referindo-se à recepção da primeira edição do , António Nobre confessa em Janeiro de 1896: «Quando eu publiquei o meu livro, saíram-me ao encontro meia dúzia de bandidos que nos jornais me caíram em cima». A caricatura que Rafael Bordalo Pinheiro fez dele em 1892 mereceu-lhe este comentário, talvez o seu grande testamento: «Não devo ao meu país glorioso e lindo senão o acaso do nascimento. E com o parto do mais uma vez vi que a literatura portuguesa é uma Costa de África de penas, lutas, horrores». António Nobre não deve nada a Portugal, a não ser o acaso do nascimento e o seu próprio exílio. Portugal é um túmulo, Portugal é um ermo, no qual os portugueses não deixam germinar o génio. Buscar a companhia de si mesmo, em resposta à hostilidade dos outros, num diálogo interminável do eu consigo mesmo, é um acto que se abriga desde logo na proximidade da morte: «Toda a dor pode suportar-se, toda! (...) /Mas uma não: a dor do pensamento! /Ai quem me dera entrar nesse convento /Que há além da Morte e que se chama A Paz!» O acto de pensar implica um afastamento do mundo, de modo a que aquele que pensa possa estar a sós consigo mesmo, mas o pensamento que se pensa a sós visa sempre encontrar o seu caminho num mundo comum, através do seu reconhecimento pelos outros. Porém, quando se perde o mundo, a garantia recíproca e a esperança de modificar o mundo real na companhia dos outros, como sucedeu com António Nobre, cujo mundo já não é o mundo real mas o mundo-desejo do Eu-António, aquele a quem os portugueses negaram todas as suas tentativas de renascimento, corre-se o risco de perder o próprio eu, desejando a sua aniquilação: o Eu-Saudade, o Eu-Portugal mais não são do que desejos - ou configurações do desejo - do Eu-António que pensa na vizinhança da morte. Mas o suicídio é também a possibilidade virtual de um assassinato colectivo: a morte de Portugal tumular e dos bandidos que o povoam. A poesia de António Nobre vacila entre o suicídio e o homicídio, ambos figuras do desejo, sem fechar a porta a um eventual resgate futuro, o qual implica a morte de Portugal e o seu renascimento periódico, duplo-movimento inscrito na terrível dialéctica entre o colectivo aniquilador e o individual criativo. Eis o legado de António Nobre que transita de génio em génio, longe dos zombies assassinos que se apoderaram do destino de Portugal, o país quase-totalitário que obriga os seus génios a "serem infelizes para serem grandes", para parafrasear uma frase de António Nobre escrita em 1888.

Eis os três sonetos de António Nobre:

Em certo Reino, à esquina do Planeta,
Onde nasceram meus Avós, meus Pais,
Há quatro lustres, viu a luz um poeta
Que melhor fora não a ver jamais.

Mal despontava para a vida inquieta,
Logo ao nascer, mataram-lhe os ideais,
À má-fé, numa traição abjecta,
Como os bandidos nas estradas reais!

E, embora eu seja descendente, um ramo
Dessa árvore de Heróis que, entre perigos
E guerras, se esforçaram pelo Ideal:

Nada me importas, País! seja meu Amo
O Carlos ou o Zé da T'resa... Amigos,
Que desgraça nascer em Portugal! (Coimbra, 1889)

Longe de ti, na cela do meu quarto,
Meu corpo cheio de agoirentas fezes,
Sinto que rezas do Outro-Mundo, harto,
Pelo teu filho. Minha mãe, não rezes!

Para falar, assim, vê tu! já farto,
Para me ouvires blasfemar, às vezes,
Sofres por mim as dores cruéis do parto
E trazes-me no ventre nove meses!

Nunca me houvesses dado à luz, Senhora!
Nunca eu mamasse o leite aureolado
Que me fez homem, mágica bebida!

Fora melhor não ter nascido, fora,
Do que andar, como eu ando, degredado
Por esta Costa d'África da Vida. (Coimbra, 1889)

Falhei na Vida. Zut! Ideais caídos!
Torres por terra! As árvores sem ramos!
Ó meus amigos! todos nós falhamos...
Nada nos resta. Somos uns perdidos.

Choremos, abracemo-nos, unidos!
Que fazer? Porque não nos suicidamos?
Jesus! Jesus! Resignação... Formamos
No Mundo, o Claustro-Pleno dos Vencidos.

Troquemos o burel por esta capa!
Ao longe, os sinos místicos da Trapa
Clamam por nós, convidam-nos a entrar:

Vamos semear pão, podar as uvas,
Pegai na enxada, descalçai as luvas,
Tendes bom corpo, Irmãos! Vamos cavar! (Coimbra, 1889)

J Francisco Saraiva de Sousa

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Uma aproximação ao Porto Poético

Casa de Almeida Garrett, Porto
A minha alma está hoje vestida de negro: não quero viver, mas também não quero morrer. E é entre estes dois não-desejos que estou lançado num presente esvaziado de conteúdo. Mas a minha vivência deste presente não é de tédio: a escuridão que se instala na minha alma, vestindo-a de negro, livra-me do tédio e entrega-me inteiramente ao pensamento essencial. Nestes momentos de sombria negritude anímica, que não são momentos de depressão, sou conduzido até às proximidades da poesia. Já editei diversos textos sobre poesia, nos quais a faço comparecer perante o pensamento filosófico. A poesia que não desperta a actividade do pensamento filosófico não merece a minha atenção. Para mim, a grande poesia é aquela que convida a pensar: eu penso a poesia e pensar a poesia é sujeitá-la a uma disciplina de rigor conceptual. Nem todos os poetas da praça resistem à força do conceito e à sua violência. Há poetas que ficam completamente despidos depois de terem sido sujeitados ao escrutínio do conceito: a sua poesia não tem nada a dizer sobre o mundo, sendo por isso o lugar de um vazio absoluto, isto é, uma inutilidade, um não-valor. Devemos queimar esses poetas que pouco mais fazem do que rimar lugares-comuns e banalidades fora de prazo. Diversos são os motivos que explicam este meu estado sombrio de alma, um dos quais é a complexidade do meu Projecto dos Quadros Portuenses. A Cidade do Porto é de tal modo rica que desafia os esquemas que elaboro para capturar conceptualmente a sua riqueza. A grande Filosofia que projecto para o Porto é forçada a recorrer à astúcia da razão para capturar para a eternidade os quadros portuenses: o seu projecto está a adquirir uma estrutura complexa e fluída que se move dialecticamente entre dois pólos, o da permanência e o da mudança súbita. Desde que medito a poesia de António Nobre fui confrontado com a necessidade de criar um quadro do Porto dos poetas: o Porto Poético. António Nobre é o pai de toda a poesia romântica portuguesa. As relações entre o quadro do Porto Poético e o quadro do Porto Filosófico são relações dialécticas, portanto relações de tensão, que não pretendo solucionar passando para um plano de síntese superior: sou um filósofo demasiado nocturno - o filósofo da funda meia-noite - para tentar uma reconciliação. Apesar disso, o meu projecto dos quadros portuenses pretende libertar o Porto do eterno ciclo da decadência-regeneração: quer dizer que a Filosofia que projecto para o Porto vai abrir um novo caminho, libertando-o desse ciclo infernal inventado desde logo por Alexandre Herculano. Nunca é demais repetir que os quadros portuenses são quadros portugueses, na medida em que foi o Porto (Portus Cale) que deu o nome a Portugal.


Depois deste esclarecimento prévio, com um toque pessoal, chegou a hora de justificar a criação do quadro do Porto Poético. O Porto oitocentista assistiu ao aparecimento de diversas revistas de poesia, das quais destaco: A Lyra da Mocidade, datada de 1849 e dedicada a Alexandre Herculano, tendo durado um ano; a Miscelânia Poética, criada em 1851; O Bardo, criado em 1852 e desaparecido em 1854, embora tenha sido reeditado em 1857; e A Grinalda, publicada ininterruptamente de 1855 a 1869. Jaime Cortesão disse que Portugal era um país de poetas e, de certo modo, tinha alguma razão: poetas portugueses houve e há muitos, mas a maior parte deles não é digna de atenção. Aubrey Bell - colocado na situação-limite de escolher entre a perda das obras de Homero, ou Dante, ou Shakespeare, e toda a literatura portuguesa - optou pela perda desta última. O desleixo dos portugueses em relação à conservação do seu património cultural merece este reparo que lhes foi feito por um estrangeiro que estudou a nossa literatura: o meu projecto dos quadros portuenses é de tal modo sensível à escolha aniquiladora de Aubrey Bell que alimenta a esperança de resgatar toda a nossa cultura, de modo a impedir que a sacrifiquem para salvar seja quem for. Alguém disse-me que, apesar do meu aspecto estrangeiro cultivado fora do meio português, eu era demasiado português. Tenho meditado muito este "insulto" e chego à conclusão que, de tanto frequentarem o meu pensamento, os meus supostos adversários já não sabem distinguir a cultura portuguesa, tal como foi elaborada até aqui, da interpretação que dela faço: interpreto isso como a sua rendição ao meu próprio pensamento. Para todos os efeitos, o resgate da cultura portuguesa já triunfou: a minha mente formou-se fora do meio português; o único instrumento português que usei para construir o projecto que sou foi a língua portuguesa, e foi por seu intermédio que me apropriei da herança portuguesa. Mas, depois de ter ocidentalizado a herança portuguesa, pondo-a a falar alemão na sua própria língua, surgiu a ideia de resgatar o Porto. O resgate do Porto implica uma reavaliação do meu empreendimento filosófico: aquilo que fingi desconhecer quando lhe dei início deve agora ser explicitado. O projecto que sou foi moldado, em grande parte, pelo pensamento que germinou na Europa Central. Quando dei início à tarefa de resgate da poesia portuguesa, limitei-me a emprestar-lhe as categorias que tinha ali assimilado. No entanto, à medida que ia avançando nesse projecto, fui subitamente assaltado por uma ideia: a minha violência hermenêutica não era tão violenta quanto pensava de início; os poetas que analisava prestavam-se pacificamente a essa violência estrangeira, como se eles tivessem sido os primeiros a inventar o pensamento que lhes emprestava do exterior. Descobri assim uma afinidade entre o pensamento essencial da Europa Central e o pensamento dos poetas portugueses, todos eles ligados ao Porto. A poesia de António Nobre e a filosofia de Sampaio Bruno constituíam os alicerces desse pensamento de fundo que fazia de Portugal uma "província de significado" da Europa Central. Esta descoberta fundamental distanciou-me imediatamente do pensamento que se elaborava em Lisboa, que passei a acusar de ter falsificado a cultura portuguesa. Foi nesta rota de colisão com o pensamento lisboeta que surgiu o projecto dos Quadros Portuenses: os primeiros textos que lhe dediquei procuraram reinterpretar o sebastianismo e o saudosismo tão maltratados pela crítica pseudo-racionalista e positivista dos pensadores de Lisboa, de modo a recuperá-los para o pensamento filosófico. Mas, de repente, deixei de ser um filósofo diurno para passar a ser aquilo que sempre fui - o filósofo da funda meia-noite, que vai cobrir de noite funda todo o projecto dos Quadros Portuenses. Chegou a hora de Portugal construir a grande filosofia do século XXI.


Um dos pensamentos mais profundos da filosofia nocturna que animo encontra-se dito nestes versos de António Nobre: «... Amigos, /Que desgraça nascer em Portugal!» Ou de modo mais transparente: «Que fazer? Porque não nos suicidamos? /Jesus! Jesus! Resignação... Formamos /No Mundo, o claustro-pleno dos Vencidos.» Só compreendi o sentido profundo destes versos de António Nobre quando um morto me veio visitar numa noite de desespero mágico. A alma do defunto Georg Trakl conduziu-me numa viagem mediada pelo computador até ao seu túmulo, onde depositei as sete rosas brancas que ele me tinha pedido na noite anterior, e dali abriu-me o seu arquivo guardado num mosteiro fortalecido de noite, algures nos Alpes, donde me interpelou com estes versos: «Tu és em funda meia-noite /Um não-concebido em ventre de amor, /O que nunca foi e não tem ser! /Tu és em funda meia-noite.» Nessa longa noite em que viajei pelo mundo inteiro, ao sabor da revelação de Georg Trakl com o corpo a sangrar, vesti-me de funda meia-noite e, com a ajuda do meu feiticeiro negro, criei um Golem para liquidar o mundo diurno. A longa noite foi iluminada pelos incêndios que controlava com o meu desejo nocturno e, quando chegou a aurora, tinha adormecido, saboreando o sangue que Georg Trakl me dava a beber, o sangue da maldita geração cujo destino tinha incendiado. Os ruídos diurnos não interromperam o meu longo sono e, quando acordei, já era funda meia-noite: o contacto íntimo com Georg Trakl transformou-me no próprio Encoberto, aquele que não foi e não tem ser. A Dialéctica do Encoberto e do Desejado estava completamente explicitada na minha mente e, para tal, não precisei passar pela fase da convalescença. Recebi a missão de forjar a ferro e fogo os novos seres da longa e funda meia-noite, as criaturas nocturnas que não suportam o pensamento da aurora e da Primavera. Habitamos a funda meia-noite e vivemos nas proximidades dos hospitais e dos cemitérios, tendo a Morte por companheira. Somos mortais e é como mortais que queremos viver: as alucinações dos diurnos divertem-nos - a nós nocturnos que durante a noite as incendiamos, para depois através da televisão vermos a desolação estampada no rosto dos diurnos. Nada nos dá mais prazer do que destruir os sonhos e as fantasias dos diurnos que teimam em passar pela vida como se fossem imortais. A Dialéctica do Encoberto permite-me esboçar uma cronologia para a poesia portuense, a qual estabelece três fases, cada uma delas com o seu próprio tipo de poeta. A sucessão atribulada destas três fases, cada uma delas com as suas próprias peripécias, conduz até o âmago da própria Dialéctica do Encoberto, a filosofia da funda meia-noite que eu e os meus companheiros nocturnos conspirámos na longa noite da destruição do mundo diurno, precisamente a noite que antecedeu os acontecimentos que mostraram a vulnerabilidade do Ocidente. Toda a poesia portuense do período liberal gira em torno de uma única ideia que a liga organicamente ao pensamento essencial da Europa Central: a ideia da morte dos deuses que os poetas ligados ao Porto pensaram como crise da religiosidade tradicional e como busca cooperativa de uma nova fundamentação da vida, de uma imanência capaz de substituir a destronada transcendência católica. A obra-prima que tematiza a morte dos deuses é a Velhice do Padre Eterno de Guerra Junqueiro. A Modernidade é pensada como crise e, em cada uma das fases do processo poético portuense, os seus poetas significativos pensaram a crise que é a modernidade, procurando uma nova fundamentação da vida. No primeiro período do poeta-cidadão, destaco as figuras de Almeida Garrett, Alexandre Herculano e Soares de Passos; no período do poeta-revoltado, a figura ímpar de Guerra Junqueiro; e, no período do poeta-esteta, outra figura ímpar, a de António Nobre. Convém esclarecer que nenhum dos referidos poetas e de outros não mencionados fica prisioneiro do seu próprio período: a evolução mental dos poetas significativos reflecte a própria cronologia esboçada para elucidar a poesia portuense. A visão do mundo dos poetas-cidadãos tem como vectores Deus e a Liberdade: A Harpa do Crente de Herculano, Camões de Garrett e as Poesias de Passos permitem reconstituir essa primeira visão do mundo, cuja ideia-força se revela nestes versos de Soares de Passos: «Depois da noite escura vem o dia; /Depois deste desterro, a eterna pátria!». A trilogia que Isaac Deutscher dedicou a Trotski - O Profeta Armado, O Profeta Desarmado e O Profeta Banido - ajuda-nos a esclarecer a sequência cronológica do processo poético portuense: a primeira visão do mundo dos poetas-cidadãos - os nossos profetas armados - corresponde ao período em que a burguesia portuense era perfeitamente liberal, aliás mais liberal do que democrática. Porém, no palco da história onde se joga o destino da humanidade mortal, a revolução liberal mergulhou o país numa guerra civil. O pensamento dos poetas portuenses foi forçado a trocar a esperança na chegada do novo dia pela revolta que, na poesia de Guerra Junqueiro, assume a forma da ânsia de algo novo. Mas o Ultimato quebrou a ânsia dos poetas-revoltosos, desarmando-os completamente. À revolta - mais democrática do que liberal - seguiu-se o período da desistência, cuja poesia se inscreve na busca de paraísos artificiais perdidos, para articular os títulos de duas obras de poesia, a de Baudelaire e a de Milton. Não me enganei quando vi na obra de Guerra Junqueiro - poesia e prosa - o berço nomeado da filosofia portuense: Os Simples e as Orações fazem coro com o de António Nobre que morreu antes de concluir O Desejado. Apesar de inconcluso, O Desejado é o grande legado deixado por António Nobre à posteridade, deixando marca no saudosismo de Teixeira de Pascoaes ou mesmo nas filosofias de Sampaio Bruno e de Leonardo Coimbra: «A saudade inclui a esperança; e por isso, a lembrança visa também o futuro. Estas duas forças (uma criadora e outra perpetuadora) são a essência e o corpo da Saudade» (Teixeira de Pascoaes).


A poesia portuense - na sua articulação dinâmica com outros poetas de diferentes proveniências regionais portuguesas - esboça uma filosofia da História de Portugal ou, pelo menos, uma interpretação filosófica da nossa história. Os poetas portuenses elucidaram o sentido do tempo, captando os três momentos do fluir irreversível do tempo, o passado, o presente e o futuro: o tempo psicológico - a duração - cede o seu lugar ao tempo histórico e, sobretudo, ao tempo nacional. Em Portugal, o passado pesa e pesa muito sobre a consciência poética. Alexandre Herculano foi o primeiro pensador oitocentista a pensar a decadência nacional, a qual se teria iniciado antes do descobrimento do caminho marítimo para a Índia, com a instauração do regime absoluto de D. João II. Ora, este sentimento da decadência - aliado ao peso esmagador da história - levou os poetas-pensadores a procurar caminhos para resgatar Portugal. O sentimento da decadência nacional consuma-se poeticamente em duas obras de Guerra Junqueiro: Pátria e Finis Patriae, a segunda das quais é antecedida por trechos da História de Portugal de Oliveira Martins. A grandeza azul-anímica de Soares de Passos revela-se nestes momentos críticos: «Esta nação de laureada fronte, /Esta a ditosa pátria minha amada! /Ditosa e grande quando foi potente, /Hoje abatida, sem poder, sem nada.» A concepção de passado cristalizada no sentimento da decadência nacional está ligada à experiência saudosa: a saudade da Pátria perdida, cujos contornos nunca foram definidos pela consciência do desterro. No entanto, esta saudade da Pátria perdida muda de matiz após o fracasso do 31 de Janeiro, a tentativa de implantar a República levada a cabo no Porto. A consciência do desterro converte-se em sentimento profundo de exílio da alma na terra, que, na obra de Sampaio Bruno, adquire uma moldura metafísica: os poetas e os filósofos portuenses sentem-se exilados numa sociedade que os nega, os corrompe ou os abandona. A saudade feita figura de pensamento passa de António Nobre e de Sampaio Bruno a Teixeira de Pascoaes: a República é apresentada - na obra deste grande poeta-pensador - como uma realização imperfeita da Quimera sonhada pelas almas exiladas na terra pátria. Vista como mais uma regeneração, a República não correspondia à realização definitiva da quimera sonhada: instala-se assim um fosso profundo entre aquilo que é e aquilo que devia ser. Ora, este fosso agudiza a consciência do presente e do futuro, isto é, a consciência da situação presente que adia a realização da pátria sonhada. A experiência do presente esvaziado de conteúdo é anunciada neste verso de Soares de Passos: «Que tempos, que tempos estes!» Mas a sua cristalização ocorre no ciclo da poesia revoltada, em especial na obra poética de Guerra Junqueiro, toda ela uma denúncia da situação presente, e consuma-se na figura trágica dos poetas suicidas, tais como Laranjeira, Camilo e Florbela Espanca no Porto, e Antero de Quental e Mário de Sá-Carneiro fora do Porto. A "doença de viver" tolheu a esperança destes poetas que ousaram sonhar um Portugal Novo, levando-os ao suicídio já vislumbrado mentalmente na poesia de António Nobre. Mas nem todos eles desesperaram com a situação presente, perdendo a esperança e entregando-se livremente à morte que tudo devora: a saudade do que deixou de ser conjuga-se - nalguns casos - com a esperança no tempo vindouro. Esta perspectiva do futuro era completamente estranha a Garrett e a Herculano, para os quais pensar o futuro de Portugal era viver o presente com confiança nas tarefas em que estavam envolvidos. A sede de justiça terrena e o protesto contra a situação presente que adia a chegada do futuro são traços da poesia de revolta. A Geração de 70 retoma os três elementos nucleares da concepção do mundo dos poetas-revoltados: a demolição do passado, quase visto como uma catástrofe, a crítica da situação presente e a esperança do futuro, mas acaba por capitular, cedendo - com Eça - ao chamamento do retorno ao campo, onde «a terra toda parece prenhe de pão» (Eça de Queirós). Há um elemento reaccionário que atravessa quase todas as obras destes poetas, portuenses e não-portuenses, o qual pode ser neutralizado mediante uma hermenêutica subtil: todos eles - ou quase todos - acabaram por desistir de lutar por um Portugal capaz de se manter ao ritmo europeu coevo, abandonando mental ou fisicamente a cidade e os seus valores. A vitória do campo sobre a cidade implica o fracasso da realização do projecto da modernidade em Portugal. É fácil, demasiado fácil, responsabilizar o sebastianismo por este fracasso, como fizeram alguns pensadores lisboetas (António Sérgio, por exemplo), mas convém esclarecer que o obscurantismo e o esoterismo subjacentes ao sebastianismo não foram invenções dos poetas-pensadores portuenses: o sebastianismo enquanto pátria fora do tempo e pátria das almas redimidas da ganga terrena é uma invenção de Fernando Pessoa, o mais anti-moderno dos poetas portugueses. Toda a poesia de Fernando Pessoa é um diálogo envenenado com a poesia-pensamento essencial portuense: a experiência do tédio de Fernando Pessoa não corresponde à experiência do cansaço dos poetas portuenses, os quais conheciam demasiado bem a obra de Nietzsche. O azul-anímico que protege os poetas portuenses angustia-se perante o nada, mas não desespera: os poetas-pensadores portuenses aproximaram-se das figuras do Desejado e do Encoberto, e foi nessa proximidade que deram início à crítica do progresso, cuja civilização ameaça lançar a humanidade no abismo. A ideia de catástrofe surge - ainda coberta de nevoeiro - no horizonte do pensamento portuense: Sampaio Bruno - seguindo as brilhantes intuições poéticas de António Nobre - enamora-se pelo seu vestígio-simulacro, mas não soube dar-lhe o nome correcto, talvez porque tenha errado ao traçar a sua proveniência. Sim, o Encoberto visitou no passado o Porto, mas só hoje vive no Porto, o lugar do grande Eleito para orientar a humanidade nos caminhos da longa noite. Hoje, neste nosso tempo indigente, só à luz da Dialéctica do Encoberto podemos resgatar o pensamento essencial portuense, libertando-o da falsificação a que o sujeitou a crítica lisboeta. Chegou a hora da humanidade viver a maldição do tempo que lhe nega a eternidade: o Encoberto que revela o Apocalipse alimenta-se do sangue derramado pela geração maldita. Nunca houve outro futuro para a humanidade pecadora - incluindo os portuenses, como é evidente - a não ser a catástrofe definitiva: o resto são quimeras.


(O artigo seminal que deu origem a este projecto dos Quadros Portuenses pode ser lido aqui: Guerra Junqueiro: Poesia e Filosofia. Ah, um pouco de bisbilhotice: Uma vez realizei uma conferência sobre o pensamento de Guerra Junqueiro na Universidade de Évora. E um dos seus professores - que moderava o debate - identificou-se de tal modo com a minha leitura que se fartou de me interromper para corromper a minha lucidez com os seus comentários mesquinhos dignos de um macaco! Outra vez na Universidade do Porto um idiota de Braga teve a ousadia de querer saber mais do que eu: mandei parar a passagem de slides e pedi-lhe para fazer o desenho da circulação do sangue. Depois - como ele ficou engasgado - disse-lhe que tinha cérebro de morcego e chamei-lhe burro! Para mim, estas mulas académicas são batatas!)


J Francisco Saraiva de Sousa