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segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Dossier Filosofia Médica (4)

Mais ideias sobre Filosofia Médica nas suas relações com a Psiquiatria:

1. Hoje tenho passado o dia chuvoso a estudar psiquiatria portuguesa e americana. tendo relido uma conferência dada por Goffman a uma audiência de psiquiatras. A psiquiatria tem um passado macabro que revejo no excesso de autoridade dos psiquiatras portugueses, desde o século XIX até ao 25 de Abril. Conheço de perto a síntese antropológica da medicina proposta pela psiquiatria portuguesa, embora não a entenda teoricamente. Devemos combater o imperialismo psiquiátrico no seio da medicina: não acredito na eficácia das psicoterapias e os novos ramos da psiquiatria - psiquiatria comunitária, psiquiatria geriátrica e psiquiatria forense, entre outros ramos - estão claramente ao serviço da manutenção do status quo.

2. Os profissionais da saúde mental temem a desmedicalização da psiquiatria. Em Portugal, a recepção do movimento da antipsiquiatria foi muito má: todos temiam ficar sem emprego. "A violência em psiquiatria é preeminentemente a violência da psiquiatria" (David Cooper), isto é, a subtil e tortuosa violência perpetrada pelos outros, pelos "sadios", contra os rotulados de loucos. A neurocirurgia praticada por EGAS MONIZ foi um acto de violência da psiquiatria. Qualquer história arqueológica da psiquiatria devia ter um capítulo final consagrado à "Violência e Psiquiatria". 

3. Infelizmente, não temos um bom estudo sobre a vida e obra de EGAS MONIZ: os portugueses não sabem fazer análises finas do pensamento daqueles que pensaram neste ermo que é Portugal. Já escrevi 3 ou 4 textos sobre a homofobia de Egas Moniz: a sua prática psiquiátrica é pura violência da psiquiatria. A destruição de partes do encéfalo é mais devastadora do que o encarceramento dos loucos. Egas Moniz comportou-se como um psiquiatra fascista.

4. Ontem, num piso inferior do Shopping do Bom Sucesso, foi brutalmente assassinado um homem gay que tinha marcado um encontro clandestino: a busca compulsiva de parceiro sexual levou a um encontro com a morte brutal. Ora, o crime do Bom Sucesso traz à baila o estilo de vida promíscuo dos homens homossexuais. A busca compulsiva de novos parceiros sexuais coloca em perigo a vida dos homens homossexuais, não só em termos de doenças sexualmente transmissíveis, mas também em termos de saúde mental e de criminalidade: sexo casual é sinónimo de encontro com a morte. A comunidade homossexual exibe um vasto espectro de perturbações mentais: o modelo de intervenção psiquiátrica junto da comunidade homossexual é relevante para a Filosofia Médica. A psiquiatria comunitária pode ser avaliada a partir deste modelo de intervenção psiquiátrica.

5. E. Goffman caracterizou o Hospital Psiquiátrico como uma instituição total, dando destaque ao seu "ciclo metabólico": a entrada ou recrutamento, a mastigação e o regurgitamento dos seres humanos. A analogia biológica chocou os psiquiatras, bem como M. Mead, a qual alegou que o ser humano não é um excremento ou um vómito. Porém, a mesma analogia foi usada por David Cooper: «No hospital psiquiátrico tradicional, actualmente, a despeito da proclamação de progresso, a sociedade consegue o melhor de ambos os mundos - a pessoa, que é "vomitada" para fora da família, para fora da sociedade, é "engolida" pelo hospital e, então, digerida e metabolizada, fora da existência como pessoa identificável. Creio que isto deve ser encarado como violência». 

J Francisco Saraiva de Sousa

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Democracia porca - a portuguesa!

Membros das elites portuguesas do poder

O problema estrutural português está identificado: A Porca com as tetas é o Estado; os Leitões são os membros das classes dirigentes. Portugal é uma pocilga. Oralidade: eis a palavra que ajuda a compreender a história de Portugal! Ontem, no debate Prós e Contras, um luso-brasileiro disse que ia contactar a polícia federal brasileira para pressionar os leitões portugueses. Eu prefiro o exército americano... para desempenhar essa missão: liquidar os leitões portugueses e vender os seus corpos mortos na China! 

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Criação versus Evolução

PORTO: Sunset
Meus amigos pró-criacionistas:

A teoria da evolução não precisa de refutar a teoria da criação porque esta última é um tremendo absurdo. (Deus não explica nada porque - ele próprio - exige uma explicação!) Se o homem foi criado por Deus, à sua imagem e semelhança, então somos forçados a questionar a natureza desse "deus" que criou malvados idiotas. Quando olhamos para o mundo e para a história, aquilo que vemos não abona a favor da bondade da criação divina. O vosso "deus" é um monstro. Sempre achei que os homens de fé mais não são do que adoradores do Diabo! E não adianta recorrer aos "dados" da neurociência espiritual: eles não abondam a favor de nenhuma crença religiosa, até porque as neuro-imagens revelam a materialidade opaca da chamada "felicidade" dos homens-tubo-digestivo. Além disso, o programa de pesquisa subjacente é materialista e redutor: o que é feito do vosso espírito?

J Francisco Saraiva de Sousa

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Reviravolta da Filosofia do Mal

Sé-Catedral do Porto
«No sentido rigoroso do termo, o mal moral - o pecado na linguagem religiosa - designa o que torna a acção humana objecto de imputação, de acusação e de repreensão. A imputação consiste em consignar a um sujeito responsável uma acção susceptível de apreciação moral. A acusação caracteriza a própria acção como violação do código ético dominante na comunidade considerada. A repreensão designa o juízo de condenação, em virtude do qual o autor da acção é considerado culpado e merece ser punido. É aqui que o mal moral interfere no sofrimento, na medida em que a punição é um sofrimento infligido». (Paul Ricoeur)

O Holocausto tem alimentado a reflexão filosófica em torno do problema do mal. Porém, dada a sua singularidade, o Holocausto não constitui o terreno propício a partir do qual se pode elaborar uma filosofia do mal. A vacilação de Hannah Arendt entre o mal radical e a banalidade do mal mostra precisamente os limites da utilização do holocausto como modelo para pensar o mal. O mal deve ser estudado lá onde ele se manifesta em toda a sua visibilidade. Como se sabe, o terramoto de Lisboa inspirou a teodiceia (Leibniz, Voltaire). Hoje, nós compreendemos o sentido desta inspiração: Portugal é, por excelência, a terra da maldade humana. A imbecilidade dos portugueses foi pensada por ilustres pensadores que tiveram o azar de nascer em Portugal, dos quais destaco Guerra Junqueiro e Teixeira de Pascoaes. Conhecemos bem a associação existente entre imbecilidade e malvadez. O terramoto de Lisboa não teve o mesmo impacto destrutivo em todas as regiões de Portugal: o seu maior impacto destrutivo fez-se sentir no Sul de Portugal, exibindo todo o seu poder destrutivo em Lisboa. Os efeitos destrutivos do terramoto fizeram-se sentir na direcção sul-norte, com o norte a ser menos atingido do que o sul. A gradação dos efeitos destrutivos do terramoto de Lisboa permite esboçar uma geografia da maldade portuguesa: o sul de Portugal é mais malvado do que o norte. A primeira tentativa planeada de exterminar os judeus foi levada a cabo em Lisboa. A Inquisição portuguesa implantou-se mais no sul do que no norte de Portugal: as populações portuenses exibiram resistência contra a inquisição. E a PIDE foi um fenómeno especificamente lisboeta. O sul de Portugal concentra terríveis forças malévolas que não deixam o país progredir e construir uma história da liberdade. Não estou a defender as populações do norte de Portugal, até porque, para mim, os portugueses são todos malvados. As ex-colónias portuguesas devem abandonar rapidamente o espaço da lusofonia: importar portugueses é importar imbecilidade malvada. Nenhuma filosofia do mal possui uma grelha conceptual capaz de explicar a maldade demoníaca dos portugueses: a fenomenologia da experiência do mal proposta por Ricoeur não se aplica a Portugal, porque, nessa terra demoníaca, a maldade é protegida pela "lei". Em Portugal, a acção humana que gera o mal não é objecto de imputação, acusação e punição: aquele que comete o mal triunfa sobre aquele que sofre o mal. Os portugueses carecem de um código ético e, talvez por isso, não conseguem discriminar entre uma conduta boa e uma conduta má. Encarnações da potência demoníaca, os portugueses são, por natureza, catalisadores e promotores do mal e, por isso, devem ser severamente punidos pela comunidade internacional. 

A história de Portugal é a história do mal e, como tal, constitui o modelo adequado para elaborar uma filosofia do mal. A imoralidade demoníaca dos portugueses evidencia-se no facto destas criaturas do mal condenarem automaticamente a validade do discurso moral. Os portugueses fogem da ética e do pensamento como o Diabo foge da Cruz. O filme O Exorcista podia ter sido realizado em Portugal, tendo como cenário de fundo paisagens do sul. Estou convencido de que, se salpicarmos os portugueses com água benta, eles reagem como a personagem possuída pelo Demónio reagiu nesse filme: os portugueses são efectivamente criaturas malévolas que espalham a maldade impune pelas redes sociais. Até as novas tecnologias da informação e da comunicação os portugueses utilizam para cometer o mal e alastrá-lo pelo espaço virtual. A imbecilidade portuguesa que não suporta a diferença qualitativa é genética: o genoma português deve conter genes demoníacos - ou arcaicos - responsáveis por tanta malvadez. Os americanos conhecem bem a malvadez dos portugueses. Em termos gerais, os homens heterossexuais são mais agressivos do que os homens homossexuais. Mas em Portugal a malvadez também é um atributo dos homens homossexuais, dois dos quais a exibiram no Hotel Intercontinental em New York: um jovem gay português assassinou e mutilou barbaramente o seu "namorado" mais idoso, estando actualmente preso numa cadeia americana. Fugiu do Hotel antes de ser seduzido pela ideia macabra de grelhar os testículos da vítima e de os devorar. Os turistas estrangeiros não desfrutam de segurança nas praias do sul de Portugal, territórios de roubos, de sexo perigoso e de violência. O mal tem raízes biológicas e genéticas: a debilidade das filosofias contemporâneas do mal reside no facto de não terem levado em conta os conhecimentos biológicos sobre a agressividade humana. A secularização do pecado não é suficiente para formular uma filosofia do mal: o quadro teológico deve ceder o seu lugar ao quadro biológico. Esta mudança de quadro de referência permite pensar o mal de um modo mais coerente e sistemático e, acima de tudo, liberto das aporias da problemática tradicional. Como tenho defendido nos últimos textos, o nexo que define a filosofia é a sua relação com a ciência: uma teoria filosófica do mal deve ter como fundamento a biologia da agressividade humana. E, para distinguir entre agressão benigna e agressão maligna, deve tomar como objecto de estudo a sociedade destrutiva dos portugueses malignos. Portugal é, ao longo da sua história, um laboratório de maldade maligna. Se quiserem conservar uma moldura teológica para o problema do mal, então serão obrigados pela força da argumentação lógica a considerar os portugueses como figuras diabólicas que devem ser punidos pela comunidade internacional. Doravante, a luta contra o mal passa pela punição dos portugueses malignos que forjaram instituições que perpetuam a maldade. Esta raça maldita não inventou nada de novo que tenha contribuído para a libertação da humanidade: lá onde os portugueses malignos se instalam a luz é eclipsada. O povo português é um povo sem qualidades. Duas palavras são suficientes para definir a sua natureza: inteligência reduzida e malvadez, dois traços que permitem compreender todos os outros atributos que definem este grupo de malvados malignos. Com a ridícula ideia de Quinto Império, os portugueses malvados e loucos sonham com o seu domínio maligno do mundo: um povo medíocre, pobre e estúpido - um povo feio e sujo que não sabe produzir um pensamento - a sonhar com a dominação mundial, ideia patológica digna de figurar num tratado de Psiquiatria. D. Afonso Henriques matou - simbólica ou realmente a mãe, tanto faz! - para se apoderar da teta produtora de leite: o Quinto Império mais não é do que uma reminiscência desse crime que fundou Portugal, mamar o leite produzido pelos outros. (O mal já foi definido como carência de ser. Não concordo com as implicações filosóficas de um tal conceito teológico, mas sou tentado a definir os portugueses malvados como criaturas deficitárias de ser. O predomínio da oralidade na sua vida sexual justifica uma tal definição. Tal como o ilhéu das ilhas Trobiand, o português malvado - o "carlitos-pá" de "jesus" sem Cristo, o Anti-Cristo, logo o Diabo em pessoa! - absorve o sémen do seu parceiro sexual como se estivesse a incorporar a sua virilidade ou a sua essência identitária. O português malvado carece de vida psicológica e, por isso, comporta-se como um zombi.) 

Chessman & Francisco Saraiva de Sousa

segunda-feira, 2 de julho de 2012

A Ditadura da Estupidez

A Europa e o mundo ocidental perderam o juízo. Há muitas formas de totalitarismo e uma delas é a perda do bom-senso. A democracia ocidental produziu nas últimas seis décadas uma sociedade inviável e, o que não deixa de ser sintomático, anti-democrática. A turba pseudo-democrática é totalitária: a ideologia nefasta dos direitos humanos produziu a ditadura da estupidez. Cada elemento da turba de cidadãos anónimos é um inquisidor. Vivemos numa sociedade inquisitorial, a pior sociedade alguma vez produzida pelos homens ao longo da sua história violenta. Platão já sabia que a democracia produz a sua própria destruição: o que ele não sabia é que a democracia banaliza o mal radical. Este é o momento oportuno para introduzir uma inflexão radical: os agentes ideais desta mudança radical devem estar para além da Direita e da Esquerda. Embora não seja um agente secreto, sou suficientemente inteligente para detectar por detrás dos sites mundiais de esquerda a presença de uma ideologia terrorista: as redes sociais são palcos de manobras obscuras, terrivelmente obscuras, algumas das quais abusam do bom nome de Karl Marx para promover o terrorismo. (E onde há x, há também y, o seu arqui-inimigo, que só se unem contra z, neste caso, a Alemanha!) As forças do bem tornaram-se impotentes perante a prepotência das forças do mal que capturaram as redes sociais. O Mal exterior e interior organizou-se para derrubar o ocidente. Se o ocidente não inflectir o seu rumo, será presa fácil das forças exteriores do mal que agem com a cumplicidade de uma população interior envelhecida, egoísta e terrivelmente inculta. Só vejo uma alternativa: a ditadura. E, quando só temos esta alternativa, já não podemos sonhar: o futuro foge do nosso controle. Eu tenho sido sincero quando digo que sou o filósofo da funda meia-noite: não há filosofia sem um público inteligente restrito. As sociedades ocidentais de hoje não são sociedades sem escola; são sociedades sem ensino e sem educação, são sociedades capturadas pela mediocridade, pela inveja e pela maldade. Infelizmente, estamos rodeados de carrascos que elegeram como inimigo a abater o pensamento independente. Uma sociedade envelhecida sem pensamento não tem futuro. O ocidente tal como o conhecemos não tem futuro. (A situação em Portugal é terrivelmente obscura. O povo português é, profundamente, estúpido, invejoso e maldoso; daí a sua incapacidade para produzir uma sociedade civilizada. Infelizmente, o 25 de Abril não produziu o efeito desejado; pelo contrário, banalizou a maldade radical do povo português. Tenho em mente uma geografia da maldade portuguesa, mas esta deixou de ser a minha luta. Portugal não é a pátria de seres inteligentes, Portugal é a pátria dos zombis anti-cognitivos e da sua brutalidade.)

J Francisco Saraiva de Sousa

quarta-feira, 20 de junho de 2012

A ideia das Humanidades no plural

Porto: Caminhos do Romântico
Chegou a hora de demolir a ideia de uma única humanidade. Há humanidades no plural, cada uma das quais com a sua própria história filogenética e cultural. Nos últimos textos, tenho omitido a ideia de cultura como processo de pseudo-especiação, mas deve-mos retomá-lo e reformulá-lo, de modo a mostrar as especi-ficidades de cada uma das humanidades existentes e da sua evolução cultural. É um erro fatal - o mais fatal de todos os erros - pensarmos a humanidade no singular, como se todos os homens pertencessem a uma única humanidade. No passado ainda recente, essa ideia levou-nos a classificar as sociedades em primitivas e civilizadas, como se todas elas pertencessem a um mesmo processo contínuo de evolução social e cultural. Porém, a verdade é que as sociedades primitivas não pertencem ao círculo de evolução da civilização ocidental: as nossas próprias sociedades arcaicas pertencem ao passado, mas a distinção que fazemos entre sociedades primitivas e sociedades civilizadas pertence ao presente, um presente que permanece igual a si próprio, apesar da difusão da ideologia igualitária. Não podemos abdicar de dizer a verdade para contribuir para a difusão de uma mentira que ameaça mergulhar o mundo na catástrofe. É urgente reformular a biologia das raças humanas, de modo a elaborar sociobiologias humanas particulares. (Os continentes estiveram isolados uns dos outros durante milhares e milhares de anos e as diferenciações culturais geraram barreiras etológicas que são refractárias aos cruzamentos entre pseudo-espécies. A hibridização não é futuro. Não é o racismo que gera barreiras; é a própria biologia que as gera. Qualquer cultura híbrida é decadente.) O fracasso da implantação da democracia liberal nos espaços ocupados por culturas não-ocidentais aponta nessa direcção. O discurso do racismo ou do etnocentrismo está gasto e já não convence ninguém: lá onde se iludem a violência predomina. Devemos ser corajosos e ousar dizer a verdade: a grande narrativa da humanidade unida é uma mentira. Precisamos pensar as bifurcações antropológicas e culturais, se quisermos pacificar a vida na Terra. Meus amigos, a minha missão é mostrar-vos o caminho da salvação.

Advertência. Muniram-me dos instrumentos necessários para reformular a biologia das raças humanas. O conceito de humanidades no plural não colide com a "unidade" da espécie Homo sapiens, embora acentue a relatividade dessa unidade. Em 1941, Julian Huxley propôs a substituição do termo raça pela expressão mais neutra de grupo étnico. Compreendo a pertinência desta sugestão, mas os dois conceitos referem-se a realidades diferentes, embora interligadas entre si. Tal como o usa, o conceito de grupo étnico está mais próximo da realidade que designo de humanidades no plural. Em princípio, aceito a definição de raça dada por Dunn e Dobzhansky (1946): as raças humanas como populações que diferem na frequência relativa de alguns dos seus genes. Este conceito permite pensar as raças não em termos de diferenças fenotípicas absolutas, mas em termos de diferenças relativas na distribuição de frequências de caracteres ou genes. O que interessa é compreender o mecanismo de raciação: os grupos humanos isolados estão - ou estiveram - sujeitos a processos de mudança evolutiva, nos quais entraram em jogo os seguintes factores: selecção natural, mutação, isolamento, oscilação genética, hibridação, selecção sexual e selecção social. Eu sou contra o racismo, isto é, contra a doutrina ideológica que usa as diferenças raciais para justificar e legitimar a dominação de uma raça sobre outras raças. No entanto, não podemos acusar uma pessoa de ser racista por não considerar os membros de outra raça eroticamente atractivos, por exemplo. Estou convencido de que o estudo biológico das raças humanas pode ajudar a dissolver muitos preconceitos negativos.

J Francisco Saraiva de Sousa 

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Futebol: a válvula dos impulsos homo-eróticos


Ontem foi um dia divertido: uns amigos alemães de esquerda socialista partilharam comigo estas e muitas outras imagens dos rituais futebolísticos. Foi uma oportunidade para rever a teoria da tribo do futebol de Desmond Morris e de lhe dar um conteúdo mais sexual: o futebol como cópula gay ritualizada no campo e exteriorizada algures nos bastidores. Penso que a teoria da natureza homossexual das relações sociais proposta por Lévi-Strauss e retomada por Luc de Heusch, para já não falar de Lionel Tiger e Robin Fox, pode ser desenvolvida a partir do paradigma do futebol ou mesmo do exército e de outras instituições masculinas: a rigidez das sexualidades de género masculino é hoje um conceito amachucado. As sexualidades masculinas não são tão rígidas como pensávamos: a fluidez que verificamos nos nossos dias reconduz ao núcleo homo-erótico. Não bastar dar um nome: "homens que fazem sexo com outros homens"; é preciso explicar este comportamento e revelar o seu núcleo homo-erótico. Os chimpanzés e outros macacos fornecem excelentes modelos animais para compreender a natureza homossexual das relações sociais humanas. A libertação das mulheres produziu efeitos estranhos na sociedade: desvalorizou o corpo feminino e sobrevalorizou o corpo masculino, quebrando o tabu homossexual. (Um efeito perverso pode ser o desejo de auto-amputação e a erotização do membro amputado!) Os homens de hoje fazem aquilo que os homens de ontem desejavam fazer: "curtem a sua própria masculinidade". Este comportamento homo-erótico está presente em muitas sociedades arcaicas, onde a iniciação permite a prática institucional de relações homossexuais. A homossexualidade institucionalizada não é apenas uma invenção indo-europeia, bem exemplificada no caso grego (Bernard Sergent, K. J. Dover), mas uma prática presente nas mais diversas áreas culturais (G. Herdt, R. C. Kirkpatrick), bem como nas nossas instituições masculinas totais. Não sei se desejo retomar a minha investigação sobre determinação sexual e diferenciação sexual do cérebro e do comportamento: prefiro explorar outras áreas do conhecimento, embora reconheça a importância desta área da pesquisa sexual. Escusado será dizer que, ao fazer estas observações, estou a tentar mostrar que o que é surpreendente não é a homossexualidade mas a própria heterossexualidade. Ou seja, estou a problematizar a própria heterossexualidade. Quando realizei a minha investigação estava consciente disso, mas não soube dar-lhe expressão. Afinal, por que os homens são heterossexuais? Não estará o sucesso do futebol ligado à sua natureza homossexual? Não será a tribo do futebol uma tribo gay que revive nos nossos dias os rituais da caça ancestral? Ontem, quando os portugueses festejavam os golos do Cristiano Ronaldo, olhei-os de outra forma: vi que eles lá no fundo de si próprios eram e são "paneleiros". Depois dei-me ao trabalho de observar atentamente os sites nórdicos "Anti-Cristiano": o que observei? Observei que os nórdicos redescobriram o facto do "paneleiro" ser uma figura latina. As amostragens americanas já levam em conta esta classificação. Compreende-se agora a razão que leva os homens latinos a mascarar-se de prostitutas nos cortejos carnavalescos: eles são "travecas" exímios que aproveitam o Carnaval para dar expressão à mulher de má-vida que habita neles. (A nossa aliança - ego-alemães - é estritamente política: derrubar as políticas de direita da chanceler!)

J Francisco Saraiva de Sousa

terça-feira, 8 de maio de 2012

As Fatalidades de Agustina Bessa Luís

Agustina Bessa Luís: Escritora Portuense
«A extraordinária presença de António Inácio, a graça, que era nele uma espécie de investimento da ilusão, tornaram José Matildes no que ele era realmente: um homem só em busca de integração no grupo social. Subitamente produziu-se nele o curto-circuito estratégico, e foi buscar ao imaginário da economia política e da ciência a linguagem; e tecnocrata apareceu muito de um materialismo próprio em que a máquina social se move sem qualquer intervenção da ideologia moral, religiosa ou filosófica. O seu casamento com Rosamaria deu-se nesse tempo, em parte porque ela era o travesti do seu primo António Inácio, em parte porque toda a decisão de alcance económico começa por uma tomada de posição ao nível da vida privada. Amava Rosamaria tanto mais seriamente quanto ela registava o seu domínio de classe, isto é, supremacia da concepção masculina, visão técnica da procriação». (Agustina Bessa Luís)

Um confronto entre Mrs. Dalloway de Virginia Woolf e Os Meninos de Ouro de Agustina Bessa Luís revela a existência de um abismo entre as duas escritoras: Agustina Bessa Luís nunca perde a autoridade, isto é, a omnisciência, em relação às personagens dos seus romances, donde resulta que, na sua obra, a realidade social não é representada através dos pensamentos, impressões e outras experiências imediatas das diversas personagens, como sucede nos romances de Virginia Woolf, mas sim através da omnisciência e da concepção superior da autora. A epistemologia romanceada de Agustina Bessa Luís é profundamente social. Cada personagem tem a sua própria visão do mundo, mas o processo de representação da realidade social não resulta da justaposição das diversas visões do mundo das personagens. Não há, portanto, uma representação pluripessoal da realidade nos romances da escritora portuense: a autora impõe-lhes uma perspectiva superior que permite ao leitor compreender a realidade em que se movem as suas personagens. O realismo de Agustina Bessa Luís tem mais afinidades como a teoria marxista da sociedade do que com o realismo da filosofia de Cambridge: o solipsismo metodológico de Bloomsbury é algo estranho ao universo literário e filosófico de Agustina Bessa Luís. Os seus mundos literários não são construções de um mundo comum - o mundo público de Russell - a partir de perspectivas diferentes da realidade ou mesmo de mundos privados. Virginia Woolf enfrentou um mundo em transformação violenta que tanto produzia tentativas de interpretação sintética e objectiva como as derrubava rapidamente a um ritmo alucinante. Seria demasiado fácil explicar as diferenças entre as duas escritoras alegando os diversos atrasos estruturais de Portugal, aliás evidenciados pela contemporaneidade da escritora portuense. Mas esta não é a única explicação possível. Apesar de ter nascido fatalmente em Portugal, o ermo inóspito da Europa, a terra dos loucos, Agustina Bessa Luís não perdeu o contacto com o mundo exterior, o mundo desenvolvido que sofria essas transformações sociais profundas que demoravam a chegar a Portugal. O atraso estrutural de Portugal e a pobreza mental dos seus habitantes reforçaram a omnisciência de Agustina Bessa Luís, cuja "filosofia" rejeita a construção russelliana de um universo leibniziano hipotético: a realidade social não é, para Agustina Bessa Luís, um somatório de perspectivas das mónadas de Leibniz. Agustina Bessa Luís tem uma concepção sintética e objectiva da realidade social, que ousa articular politicamente com a perspectiva da salvação: «O que significa a salvação senão aquele ponto em que os homens desistem de oprimir outros homens, e se retiram com a sua limitada perfeição?» A escritora portuense detesta o carácter narcisista da sociedade portuguesa: a sua "crónica social" tritura as personalidades públicas portuguesas e a montanha de có-có que produzem desalmadamente. Os meninos de ouro portugueses são feitos de matéria fecal: o seu narcisismo traduz-se no abuso de poder e na síndrome de hostilidade contra os outros, sobretudo contra as mulheres. Agustina Bessa Luís descobriu a síndrome masculina de hostilidade associada ao narcisismo muito tempo antes dela ter sido definida pela psiquiatria. Mais: ela descobriu que os homens portugueses - feitos de matéria fecal - não prestam: a tecnocracia é pura violência. A matéria fecal diz-se de muitas maneiras. Ora, se os homens portugueses são feitos de matéria fecal, a sua diversidade psicológica que exprime a diversidade de matéria fecal tem como princípio denominador comum o travestismo: os homens portugueses feitos de matéria fecal são travestis que partilham uma mesma concepção do mundo, a "visão técnica da procriação". (Natália Correia dizia que os açorianos eram "mariquitas". Uma vez disse-lhe que, no fundo, os homens portugueses eram "mariquitas" e ela concordou, acrescentando que também as mulheres portuguesas eram "mariquitas". J. M. Bailey defendeu recentemente o carácter travesti dos homens latinos, concepção que partilho sem reservas.) Como é evidente, estou a forçar a concepção superior da autora chamada Agustina Bessa Luís, sem no entanto a violar: a escritora portuense ousou ser no seu universo literário aquilo que não foi na vida real, a trituradora das masculinidades travestis portuguesas, cujo abuso de poder reflecte um défice de masculinidade genuína. Todos os seres verdadeiramente inteligentes que nasceram em Portugal, o país onde os homens se comem uns aos outros, real ou ritualmente, odeiam Portugal. O ódio que nutrem por Portugal exprime-se numa espécie de ciência melancólica, a filosofia subjacente a todos os grandes pensamentos partilhados pelos exilados portugueses. Os Meninos de Ouro de Agustina Bessa Luís terminam com este pensamento filosófico: «As geresianas não são produto da insistência da relação com objectos e pessoas. São o tempo original em que a alma convive com a eternidade; o coração repousado no amor do seu destino aguarda e vê. O indivíduo escapa ao nosso entendimento, as grandes ideias não se unificam nem se movem em turbilhão; a identidade extinguiu-se porque as pessoas, como chamas, se confundem, para sempre esquecidas da noção de dois mundos, de duas realidades. Desde que se atingem as vertentes das geresianas, um ser humano dissolve-se num outro «como uma gota de orvalho cintilante» - diria a meu poeta, assim como disse que às vezes Deus dá o sinal de que passa pelas trevas distantes, e tudo se imobiliza, cóleras, segredos, vento que desce da serra, ecos das torrentes, palavras que descem como torrentes, tudo - e um amor imenso paira e reconcilia todas as coisas. Velha amiga que é a terra, ela não nos decepciona, e poderemos durante milénios chamar nobre à raça humana. Se uma lágrima descer sobre estas linhas como um fio de prata, é porque existe consolação até ao último homem que por último desaparecer; quando a Terra rolar à volta do Sol, com noites e manhãs, e só talvez o lírio geresiano olhe e pense no seu seio de cinzas» (Porto, 25 de Junho de 1982).

Infelizmente, ainda não posso realizar uma análise filosófica exaustiva da obra de Agustina Bessa Luís, a maior romancista da língua portuguesa de todos os tempos, e é provável que nunca venha a realizar esse estudo, até porque não há em Portugal leitores inteligentes. Em Portugal reina a insanidade mental. Qualquer tentativa de escapar à loucura reinante é em vão: as palavras não encontram eco em mentes adormecidas e entorpecidas pelas forças da loucura. A primeira grande fatalidade de um ser inteligente é ter nascido em Portugal, o túmulo em vida de todas as individualidades que anseiam pelo seu alargamento e pela sua expansão. Agustina Bessa Luís nasceu fatalmente em Portugal, mas esta primeira fatalidade não é da sua responsabilidade. Se pudéssemos escolher a nossa nacionalidade de nascença, não escolheríamos nascer portugueses. Ser português é um estigma que se carrega para toda a vida. É uma tortura mental lidar todos os dias com criaturas burras e invejosas: os portugueses são especialistas em terrorismo íntimo e na arte de roubar a vida aos outros. Quem lida com portugueses deve saber que está a lidar com malvados. A posição de privilégio que a autora toma em relação às suas personagens "demasiado portuguesas" mostra que Agustina Bessa Luís soube distanciar-se dos portugueses, sugerindo a retirada das personalidades narcisistas da cena política. No entanto, a omnisciência que conquistou no universo literário perdeu-a no universo real da vida quotidiana: Agustina Bessa Luís rodeou-se de pessoas erradas que a levaram a tomar más decisões políticas e existenciais. A sua ligação ao PSD foi fatal para a recepção alargada da sua obra literária. A vida pública de Agustina Bessa Luís é uma sucessão de erros fatais: o PSD é uma espécie de buraco negro que suga a luz de quem se aproxima dele. A Direita não tem cultura: o PSD, o grande amigo das práticas de corrupção, sugou toda a luz de Agustina Bessa Luís, afastou os leitores cultos da sua obra, distanciou a sua vida pública do seu universo literário e não promoveu a sua obra no mundo, de modo a ser lida e admirada por um auditório universal e a garantir a entrega do Prémio Nobel da Literatura à sua autora. (Os portugueses não servem para nada, nem para ler obras!) Todos sabemos como a Direita reaccionária e inculta portuguesa reagiu à entrega do Prémio Nobel a José Saramago: Rui Rio recusou dar o seu nome a uma rua da cidade do Porto e Cavaco Silva não compareceu ao seu funeral. A Direita portuguesa é o coveiro da cultura. "Direita" e "Cultura" são duas palavras que não casam entre si: onde há Direita não há cultura e onde há cultura não há Direita, o que equivale a dizer que toda a cultura superior é de Esquerda. Para resgatar a obra literária de Agustina Bessa Luís das grilhetas incultas do PSD, é preciso conhecer muito bem a sua biografia: alguma coisa a coloca desde cedo na proximidade de um campo social nefasto, do qual a sua obra se distancia de diversos modos, usando diversas técnicas narrativas. Mas, para todos os efeitos, Agustina Bessa Luís não teve na vida real a coragem que demonstrou ter no seu universo literário: ela foi na vida real escrava de um sistema, provavelmente o sistema da "concepção masculina", com o qual o seu universo literário rompe: «A vida de família corrompe muito da originalidade humana». (Quem escreve uma tal frase deve estar cansado da estupidez da família! O arrependimento de ter constituído família?) É a própria autora que aponta aqui para uma fatalidade familiar. Jean-Paul Sartre escreveu duas belas obras, uma sobre Flaubert e outra sobre Jean Genet, nas quais pensa todas essas mediações, incluindo a mediação familiar. Algo semelhante deve ser realizado em relação à vida e obra de Agustina Bessa Luís: as homenagens ritualizadas e formais que lhe são prestadas pelos bajuladores malvados não acrescentam à sua imensa obra as determinações do conhecimento, as únicas que podem garantir-lhe a imortalidade da fama. Sei que esta tarefa teórica ultrapassa o universo mental português e, por isso, resolvi escrever este texto para dar a conhecer ao mundo a obra de uma escritora portuense chamada Agustina Bessa Luís. 

J Francisco Saraiva de Sousa 

sexta-feira, 6 de abril de 2012

José Seguro, Inseguro e Sem Projecto

José Seguro, o actual "líder" do PS
Não vou comentar a actual deriva do PS, até porque não há nada para comentar: a Esquerda entrou em crise profunda, não só em Portugal mas também em toda a Europa. António José Seguro, em vez de apresentar uma alternativa política ao actual governo que está a "matar" com prazer os portugueses, propõe mudanças de estatutos do PS e persegue os deputados socialistas que desejam sonhar: vive para dentro sem se preocupar com o destino de Portugal. Enfim, Portugal é um navio a afundar-se. A Esquerda já não consegue contrabalançar o afundamento planeado pelo governo de Passos Coelho ou de Vítor Gaspar. Afinal, quem é o Primeiro-Ministro deste governo sadicamente orientado? Passos Coelho ou o Ministro das Finanças? Pensando bem, nem vale a pena saber! Em Portugal, nada muda: os pobres serão eternamente pobres e os ricos, eternamente ricos. 

terça-feira, 27 de março de 2012

Prós e Contras: O Ânimo da Nação

Porto ao anoitecer
Não pretendo comentar o debate Prós e Contras de ontem (26 de Março), mas, desta vez, Fátima Campos Ferreira dispensou a presença envelhecida das figuras tutelares dos seus debates e convidou novas figuras da sociedade civil para debater o estado de espírito dos portugueses, sujeito - como está! - às chicotadas permanentes do Ministro das Finanças e da EDP. A pergunta que interroga pelo estado de espírito dos portugueses neste tempo sombrio de crise é puramente retórica. Depois de pagar todas as suas contas mensais, sobretudo a renda ou prestação de casa e as contas da electricidade, do gás e da água, o espírito dos portugueses não pode presentear a alma com ânimo. Neste momento, a alma e o espírito dos portugueses estão divorciados: o espírito não dá ânimo à alma e a alma não alimenta o espírito. Os portugueses não estão preparados para fazer a longa travessia, porque o seu espírito já não é capaz de abrir caminhos, de os iluminar e de pôr a alma a caminho. (A Irmã Fátima, uma das convidadas que encantou Herman José, o humorista que cultiva os "melhores grelos da margem sul", falou de espiritualidade, dando ao espírito o sentido espiritual de pneuma (grego) e de spiritus (latim). Mas o espírito de que falo aqui - mais inspirado no ruah (hebraico) - é a chama do entusiasmo que inflama e que nos caça e nos extasia, lançando-nos, a cada um de nós, para fora de si mesmo. O resgate do espírito do jazigo do esquecimento implica a elaboração de uma pneumatologia filosófica, capaz de transcender o velho dualismo ocidental: o Espírito, esse sopro de vida que habita o mundo, em toda a sua espessura carnal e material, leva os homens a lutar contra a opressão e a iniciar uma vida nova, fazendo deles sujeitos activos dessa vida nova, em comunhão com a natureza e a história resgatadas.) Sem chama que o inflama, o espírito dos portugueses já nem sequer é capaz de sentir a dor que dilacera: ele está morto! Passos Coelho, o Ministro das Finanças e a EDP mataram-no! O Congresso do PSD limitou-se a reafirmar a morte de Portugal, cujo anoitecer já não promete uma nova aurora. Portugal é noite, não noite azul mas noite escura!

J Francisco Saraiva de Sousa

sábado, 24 de março de 2012

O Mal de Portugal

Porto: Rua da Reboleira
O descobrimento do mal - o mal existe! - marcou toda a filosofia de Sampaio Bruno, cuja peça-chave é a dialéctica do bem e do mal. Raul Brandão que o acompanhava nas suas deambulações filosóficas pelas ruas nocturnas do Porto, provavelmente à luz do óleo ou do gás, reteve estas palavras suas que nunca mais esqueceu:

Sampaio Bruno: «- Escusam de procurar... a nossa ruína não vem dos políticos nem do regime. Mudaremos o regime e ficaremos na mesma. O mal é mais profundo; o mal é da raça.»

Um dos amigos: «- A raça? Mas com esta raça descobrimos o mundo! ...»

Sampaio Bruno: «O mal é da raça. Se quisermos modificar o País, temos de fazer exactamente o mesmo que se faz com os cavalos, temos de mandar vir homens do norte, ingleses, escandinavos ou suecos, e de montar aqui e além postos de cobrição.» (Raul Brandão, Vale de Josafat)

Ironia portuense? Não sabemos se Sampaio Bruno proferiu estas palavras que lhe foram atribuídas por Raul Brandão, mas elas convencem os espíritos esclarecidos: o mal de Portugal são os portugueses! Infelizmente, esta é a grande verdade: Sem renovação genética - e sem uma revolução radical que liquide as pseudo-elites nacionais - Portugal não tem futuro! Afinal, quem de perfeito juízo quer jogar golfe com os "cagalhotos entalados" que dão rosto às elites portuguesas do poder? Pena não existirem anacondas gigantes a sair dos buracos para os devorarem! Malditos ladrões que nem sequer os répteis os conseguem digerir!

J Francisco Saraiva de Sousa

terça-feira, 6 de março de 2012

Prós e Contras: Lutar ou resignar?

Helmut Newton
Não tenho comentado os últimos debates de Prós e Contras, moderados por Fátima Campos Ferreira. Em parte, isso deve-se ao facto de não acreditar no futuro de Portugal. Tal como a modelo desta fotografia de Helmut Newton, que morre de tédio de tanto esperar que aconteça alguma coisa de novo que a desperte da rotina, aborreço-me sempre que vejo portugueses ou ouço as suas intermináveis conversas patéticas. Ontem (5 de Março) o debate Prós e Contras voltou a ser dominado pelo discurso lunático dos gestores, essas tristes figuras destituídas de cultura e de experiência. Fazendo coro com o governo suicida de Passos Coelho, os gestores lunáticos promoveram a emigração como saída para a crise nacional e para o desemprego. O mais sofista deles todos até vai dar uma palestra - a pagar, claro! - para ensinar os jovens portugueses a obter vistos! Outro referiu o avião como o meio de transporte em tempos de crise! Ele não o disse, mas parece que a TAP vai ser financiada pelo governo para dar viagens grátis a todos os emigrantes portugueses! Enfim, em Portugal, ficam apenas os velhinhos a receber magras pensões e os pobrezinhos a comerem-se uns aos outros e a morrerem sozinhos em casa! E, claro, os velhos tubarões e as suas crias burras a engordar à custa do emagrecimento do Estado! (A despolitização dos jovens recém-licenciados é simplesmente chocante! Afinal, onde estão as suas supostas competências e a sua formação excelente? Que escolas são essas que formam indivíduos a-políticos? De uma coisa estou certo: escolas de excelência não são, porque deixar os seus alunos pensar que caíram de pará-quedas na terra é pura incompetência.) Não sei se devemos rir ou chorar: o que sei é que este discurso dos gestores merece figurar nos manuais de psiquiatria. O debate reforçou a minha ideia de Portugal como a terra dos loucos, onde nada de novo acontece, e, quando a racionalidade dos agentes falha, não é possível dialogar com eles: o comentário deverá assumir a forma de uma análise psiquiátrica. Ora, como não acredito no futuro desta terra de loucos, não quero desperdiçar o meu tempo a analisar comportamentos lunáticos. Bem sei que nem todos os participantes eram deslumbrados, mas a sua voz sábia foi silenciada pelo ruído neoliberal dos loucos. Apesar disso, deixo aqui um novo conceito: o neoliberalismo é uma doença psiquiátrica, que, no caso português, pretende fazer marketing de pretensas figuras portuguesas bem-formadas (sic) que arruinaram Portugal. E um desafio: os canais portugueses de televisão deviam poupar os seus públicos da presença de economistas e de gestores. O discurso dos economistas e a prática dos gestores não geram riqueza; pelo contrário, planeiam pobreza. A economia neoliberal deve aglutinar todos os seres pensantes em torno da tarefa da sua desconstrução: as escolas de economia e de gestão são escolas da mentira e do roubo. (Se este governo não for derrubado, Portugal corre o sério risco de perder de novo mais de metade do século XXI: a história repete-se nesta terra capturada por corruptos! Fechar as escolas, fechar os hospitais, suspender a justiça, abolir as forças armadas, diminuir os salários e as reformas, aumentar o tempo de trabalho não-remunerado, privatizar as empresas públicas, pagar os prejuízos privados, gerar o desemprego, fechar as fábricas, antecipar a morte dos portugueses, regressar à assistência social, obrigar a emigrar, enfim, planear a pobreza: eis as anti-políticas deste governo.)

J Francisco Saraiva de Sousa 

domingo, 1 de janeiro de 2012

2012: Ano da Miséria em Portugal


Bem, agora que já estamos em 2012, convém esclarecer que será o Ano da Miséria em Portugal: o governo diabólico de Passos Coelho tudo faz para roubar o sustento digno aos portugueses. 2012 vai ser um Mau Ano: miséria, fome, doença, desemprego galopante, roubo, assaltos, criminalidade, corrupção, privação, violência, infidelidade, mentiras privadas, separações, divórcios, demência precoce, desistência escolar, oportunismo, nudez forçada, prostituição, enfim desalojamento, eis alguns dos seus aspectos essenciais. Com os aumentos decretados pelo governo sádico de Passos Coelho, os portugueses não vão ter dinheiro para comer ou mesmo para ter casa. Passos Coelho é sinónimo de POBREZA! Se não derrubarem este governo nas ruas, os portugueses serão privados da sua humanidade pelo governo que elegeram. Eis a burrice do povo português: elegeu o seu carrasco e o seu coveiro! O PSD é a desgraça de Portugal! Depois de ter gerado a corrupção, o PSD assumiu agora a missão de mergulhar Portugal na pobreza sadicamente planeada. 

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

A Alienação Mental no Porto: Notas para uma pesquisa

Hospital Conde de Ferreira, concluído em 1881
e inaugurado em 1883, tendo como director António 
Maria de Senna, Porto
«Quero que os meus testamenteiros empreguem todo o remanescente da minha fortuna (…), em construir onde julgarem conveniente, um edifício para o hospital de alienados, não devendo gastar no edifício mais da terça parte do remanescente e, acabada a obra e mobilado o hospital, farão entrega à Santa Casa da Misericórdia desta cidade, não só do edifício, mas também dos fundos sobrantes, previamente empregados em efeitos de crédito público, que farão averbar a favor do hospital e à mesma Santa Casa prestarão contas da sua gerência com respeito ao remanescente». (Conde de Ferreira, Testamento)

«Desde que no seio d’uma familia (…) apparece um desgraçado com rasão perdida, urge, em beneficio d’elle e da sociedade, que entre em um estabelecimento preparado com as condições necessarias para socorrel-o com efficacia». (António Maria de Senna)

O meu projecto dos Quadros Portuenses pode vir a incluir um fragmento dedicado à História da Loucura no Porto Oitocentista. De certo modo, o fragmento psiquiátrico previsto - sob o signo do Conde de Ferreira - pode ser visto como um repto à obra de Michel Foucault: Histoire de la Folie à l'Âge Classique (1972). A ideia de elaborar uma História da Psiquiatria no Porto andou sempre associada aos meus esboços de Filosofia Médica, sendo alimentada pela frequência das obras de Foucault, Goffman, Coe, Helman, Lévy, Stone e Rosen. Ontem a leitura do ensaio de José Mattoso, Saúde Corporal e Saúde Mental na Idade Média Portuguesa, despertou em mim a ideia de escrever um quadro portuense dedicado à loucura na época do Conde de Ferreira (1782-1866). Estive a ler um artigo sobre a alienação no Porto (A alienação no Porto: o Hospital de Alienados do Conde de Ferreira (1883-1908) / Pedro Teixeira Pereira. Revista da Faculdade de Letras: História, série III, vol. 06, 2005, pag. 99-128), donde saquei a bibliografia que se segue:

Fontes

1) Fontes Manuscritas (Biblioteca do Centro Hospitalar Conde de Ferreira).
  • Relatório Acerca do Estado das Obras no Novo Hospital para Alienados em Construção no Logar da Cruz», s./f.
  • Testamentaria do Conde de Ferreira, Construção do Hospital de Alienados da Cruz, s./f.
2) Fontes Impressas (Regulamentos e Relatórios).
  • Projecto de Regulamento do Hospital de Alienados do Conde de Ferreira, 1882,  Coimbra: Imp. da Universidade.
  • Regulamento Geral do Hospital de Alienados do Conde de Ferreira, 1883, Porto: Imprensa Real.
  • Relatório do Serviço Medico e Administrativo do Hospital do Conde de Ferreira Relativo ao Primeiro Biennio (1883-1885), Porto: Typographia Occidental.
  • Relatório dos Actos da Mesa da Santa Casa da Misericórdia do Porto (1883 a 1908).
3) Imprensa
  • A Trepanação, 15.06.1888, «Medicina Contemporânea».
  • Bombarda, Miguel, 05.06.1898, Viagens Scientificas, «Medicina Contemporânea», n.º 23.
  • Cardoso, Aguiar, Agosto 1906 – Polícia dos Alienados, «Medicina Moderna», n.º 152.
  • Hospital de Alienados, «Primeiro de Janeiro», n.º 76, ed. 25.03.1883.
  • Sequeira, Montalverne de, 19.08.1888, Hipnotismo e Sugestão, «Medicina Contemporânea», n.º 34.
  • Sequeira, Montalverne de, 10.07.1898, Os Alienados nos Açores, in «Medicina Contemporânea», n.º 28.

Bibliografia

  • Alves, Jorge Fernandes (coord.), 2003, Signo de Hipócrates: O Ensino Médico no Porto Segundo Ricardo Jorge, Porto: Roche.
  • Carvalho, Fernando, 1996, Hospital do Conde de Ferreira: Breve História, Porto: s./ed.
  • Costa, Maria Isabel S. Resende, 1988, Era Uma Vez um Hospital Psiquiátrico, seminário de pré-profissionalização apresentado à Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, Ed. do A.
  • Coutinho, Azevedo, 1886, Diagnóstico da Paralysia Geral dos Alienados, Porto: Typographia de Viuva Gandra.
  • Fernandes, Barahona, 1986, História e Desenvolvimento da Ciência em Portugal, O Nascimento da Psiquiatria em Portugal, vol. I, sep. das «Publicações do II Centenário da Academia de Ciências de Lisboa», Lisboa: Academia de Ciências de Lisboa.
  • Fernandes, Barahona, 1933, Manicómios e Clínicas Psiquiátricas: Relatório de uma viagem de estudo a Inglaterra e França, Lisboa: Imprensa Médica.
  • Lemos, Magalhães, 1907, Assistence des Aliénés en Portugal, Porto: s./ed.
  • Lemos, Magalhães, 1908, Notes sur l’Assistence des Aliénés en Portugal, Porto: Oficina Tipográfica do Hospital de Alienados do Conde de Ferreira.
  • Lima, J. A. Pires de, 1939, Alienados Perigosos, Lisboa: Centro Tipográfico Colonial.
  • Mattos, Júlio de, 1911, Elementos de Psychiatria, Porto: Livraria Chardron.
  • Mattos, Júlio de, 1884, Manual das Doenças Mentais, Porto: Editores Porto.
  • Pina, Luís de, 1958, Raízes Brasileiras da Organização Hospitalar Psiquiátrica Portuense, Lisboa: s./ed.
  • Pita, João Rui & Pereira, Ana Leonor, 1993, Liturgia Higienista no Século XIX: Pistas para um Estudo, in «Revista História das Ideias», vol. 15, Coimbra: Instituto de História e Teoria das Ideias.
  • Ribeiro, Vítor, 1907, Historia da Beneficência Pública em Portugal, Coimbra: Imprensa da Universidade.
  • Senna, António Maria de, 1886, Beneficios Sociaes do Hospital do Conde de Ferreira no Primeiro Triennio, Porto: Typographia Occidental.
  • Senna, António Maria de, 1885, Os Alienados em Portugal: Hospital do Conde de Ferreira, Porto: Imprensa Portugueza.
  • Senna, António Maria de, 2003, Os Alienados em Portugal, Lisboa: Ulmeiro.
  • Senna, António Maria, 1883, Os Attestados Medicos para Admissão de Doentes em Hospitaes d’Alienados, Porto: Typographia Elzeviriana.
  • Vasconcelos, António Emílio Antunes, 1908, A Assistência Familial dos Alienados, Porto: s./ed.
  • Alves, Jorge Fernandes, 1992, Percursos de um brasileiro no Porto: o Conde de Ferreira, Revista da Faculdade de Letras: História, série II, vol. 09, pag. 199-214.
  • Fonseca, A. Fernandes da, 2003, O Hospital Conde de Ferreira e a Psicopatologia, Leituras, Porto.
  • Lemos, Maximiano, 1991, História da Medicina em Portugal, 2 vols., Lisboa: Dom Quixote.

J Francisco Saraiva de Sousa

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Prós e Contras: Cortes e Greve Geral

O Primeiro-Ministro de Portugal, Pedro Passos Coelho, foi recentemente peremptório quando afirmou que toda a sua política geral consiste em empobrecer Portugal para consolidar o orçamento do Estado. Manuel Carvalho da Silva (CGTP) sacou desta afirmação o elogio dos cortes, do desemprego galopante e das políticas recessivas. O debate Prós e Contras (22 de Novembro) debruçou-se basicamente sobre o mercado do trabalho, tendo como pano de fundo a greve geral que vai realizar-se no próximo dia 24 de Novembro. As associações sindicais - Carvalho da Silva (CGTP) e João Proença (UGT) - e patronais - António Saraiva (CIP) e Pedro Ferraz da Costa (Fórum para a Competitividade) - reconheceram a falência da concertação social, pela qual responsabilizaram o actual governo de Direita, e, sobretudo através da voz de Ferraz da Costa, acusaram o governo de não ter uma linha política de rumo definido, ideia que foi reforçada por António Saraiva para mostrar que, sem uma perspectiva de futuro, os portugueses não compreendem a gravidade dos sacrifícios que lhes são exigidos pelo plano acordado entre o Primeiro-Ministro e o Ministro das Finanças, sem a participação dos restantes membros do governo. Ninguém está satisfeito com as políticas de empobrecimento do governo chefiado por Passos Coelho e quase todos pensam que elas vão mergulhar rapidamente o país na recessão e no caos. Além disso, foram unânimes a condenar a troika: João Proença lembrou que a troika falhou redondamente na Grécia, o que demonstra que as políticas de consolidação orçamental - políticas de cortes - não conduzem a nada. Para Carvalho da Silva, a troika é o governo dos agiotas e dos credores de Portugal, e, para António Saraiva, a fórmula macro-económica da troika não se adapta à realidade micro-económica das empresas portuguesas. Todos os convidados de Fátima Campos Ferreira condenaram a ideia proposta pela troika de cortar os salários no sector privado. Com as políticas recessivas que o governo está a implementar, indo para além da troika, Portugal não vai crescer nos próximos anos. Jorge Bacelar Gouveia que não é um homem de esquerda, vai fazer greve no dia 24 de Novembro, colocando-se ao lado das duas confederações sindicais portuguesas. De resto, o debate foi monótono e repetitivo, sem acrescentar nada de novo ao que já todos sabemos. Ferraz da Costa propôs um outro debate para discutir a tal "linha de fundo para a competitividade", mas esqueceu que a sociedade portuguesa não está estruturalmente organizada para promover o mérito e a competitividade. O mal português é radical e, sem a ajuda inteligente de uma série de catástrofes naturais selectivas, não vejo futuro para Portugal. Os portugueses têm o que merecem: a inutilidade humana dos portugueses evidencia-se na sua incapacidade de resolver os problemas, virando a página. Discutir os mesmos problemas, ano após ano, não abona a favor da inteligência dos portugueses. Comentar a eterna repetição dos mesmos problemas empobrece a mente de um ser inteligente. Portugal não tem futuro e suspeito que a situação portuguesa seja equivalente à situação grega. Um povo que nunca produziu uma Filosofia não pode ter futuro: o Portugal Real é-nos mostrado diariamente na Secret Story 2 ou Casa dos Segredos (TVI). O resto é um bando horrível de Duarte's Lima's!


J Francisco Saraiva de Sousa 

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Desconstrução da Cultura Portuguesa

«Portugal é para os Portugueses mais uma mátria que uma pátria (uma oposição de palavras inventada pelo padre António Vieira). A mátria é a terra de origem, dá leite e a criação materna: é a cultura ao nível da afectividade. A pátria ensina padrões ao nível das relações com o exterior, que é também o nível propriamente intelectual. /Os Portugueses comportam-se como um povo que teve mãe, mas é órfão de pai, o que historicamente até se poderia explicar de uma maneira positivista pela emigração maciça dos chefes de família durante a maior parte do tempo da nossa história. E esta explicação poderia ter desenvolvimentos psicanalíticos. /Mas preferimos outra hipótese, que aliás não exclui a anterior. O "pai" da gente portuguesa era representado pela "Espanha", no antigo significado de pátria comum de todos os povos ibéricos; dela nos vinham os padrões de civilização ao nível intelectual. A "mãe" era a região onde se falava o galego-português, ninho dos valores afectivos. Desde que Portugal rejeitou a paternidade hispânica, a família ficou precocemente amputada. /O aldeanismo liga-se com o apego carnal à terra e é um complexo gerado pela criação sem doutrina. O sebastianismo é um sentimento de orfandade combinado com a expectativa do regresso do pai. Há algo inacabado e até de amputado na nossa cultura, uma espécie de infância para além do termo, cujo mais recente exemplo é o pós-25 de Abril. E foi isso, talvez, que nos levou a procurar outro "pai" além-Pirenéus, que é desde o século XVIII a França. /Resta saber se ela pode desempenhar essa função, harmoniosamente, num povo que está visceralmente fora da mentalidade ocidental». (António José Saraiva)

Já esbocei esta hipótese em chave psicanalítica, de modo a mostrar que Portugal é um país de malvados: a hipótese do matricídio não é incompatível com a hipótese do patricídio intelectual insinuada por António José Saraiva, na medida em que explica o facto de Portugal ser órfão de pai, sem ter necessidade de nomear a matriz hispânica e de suspeitar da ocidentalidade da cultura portuguesa. A História de Portugal pode e deve ser lida em chave psico-patológica: a maldade dos portugueses explica a sua indigência intelectual. Mas, como a malvadez dos portugueses é um facto demasiado evidente, prefiro esboçar a filosofia da desconstrução da História de Portugal e, neste caso em particular, da cultura portuguesa. A desconstrução que tenho em vista, pouco tem a ver com a desconstrução derridiana: a desconstrução será entendida como uma forma de resgate levado a cabo a partir de nenhures, isto é, do exílio neste desterro chamado Portugal. Há mundo fora dos textos, e, para alterar esse mundo, é preciso libertar os textos das interpretações oficiais que bloqueiam o salto qualitativo de Portugal. Destruir as interpretações oficiais constitui o momento negativo da desconstrução: confrontá-las com o mundo é desmistificá-las, mostrando que mais não são do que manifestações da ideologia dos vencedores. As interpretações oficiais assentam em mitos dominantes que António José Saraiva definiu como «uma forma de consciência fantasmagórica com que um povo define a sua posição e a sua vontade na história do mundo». Alexandre Herculano desmontou o mito da Cruzada, mas, para dar um sentido à História de Portugal, criou um novo mito, o mito dos concelhos. A desconstrução é um procedimento subversivo que procura descobrir a estrutura de interesses e de poderes que se oculta por baixo das obras visíveis do mundo social, indo do manifesto ao latente: rasgar e demolir as definições oficiais que legitimam o mundo tal como parece ser na sua visibilidade bruta constitui a primeira tarefa da desconstrução, para a qual o mundo não é o que aparenta ser. Mas o desocultamento das ilusões não deve gerar novas ilusões: a crítica da ideologia proíbe a criação de novos mitos. Porém, a crítica da ideologia é movida por um interesse libertador: o mundo não é o que aparenta ser e, acima de tudo, poderia ser diferente do que é. Para um ser mortal como o homem, o mundo não está concluído: o mito da estabilidade é o maior adversário da aventura humana. Afirmar que o mundo não está concluído não é apenas apontar para um futuro que, em última análise, não nos pertence: é, antes de tudo, afirmar que o próprio passado, o objecto predilecto da História, não está concluído e, muito menos, garantido. No fundo, o que pretendo dizer é que só podemos libertar o horizonte do futuro resgatando o passado. O passado resgatado e, deste modo, colocado na clareira da verdade essencial da mortalidade humana, quebra todas as ilusões que o homem projecta sobre o futuro que não lhe pertence. O pensamento do futuro que se liberta do passado precipita a catástrofe final. Do futuro só podemos aguardar a morte. As "faculdades humanas" que o iluminismo dissociou, sacrificando a memória no altar da imaginação, voltam a fundir-se no passado resgatado: agindo sobre o passado, o homem pode libertar o horizonte do futuro. Foi um erro fatal privar o passado de ser, de modo a equipará-lo, numa primeira aproximação, ao futuro, dizendo que o primeiro já não é e que o segundo ainda não é. Privar o presente, o eterno presente, da espessura do passado que o sustenta, é o mesmo que restituir o homem à sua condição meramente animal, fazendo do futuro um prolongamento alargado da sua voracidade destrutiva. O mortal só pode ser sendo o seu passado constantemente resgatado: fora deste âmbito finito as faculdades mentais do homem de nada lhe servem neste mundo condenado fatalmente à caducidade. O que nos adianta desejar se não podemos realizar o nosso desejo? As faculdades humanas entregues ao seu próprio exercício alucinado geram frustração, sobretudo quando os seus "conteúdos mentais" se projectam sobre um futuro desejado. O homem não é aquilo que deseja ser e é isto que significa a finitude. O resgate do passado que liberta o horizonte do futuro, sem no entanto o colonizar com novos mitos, é a única tarefa que um ser mortal e finito pode realizar sem gerar frustração.


Das obras sobre cultura portuguesa destaco as de Hernâni Cidade e de António José Saraiva, nenhum dos quais ousou definir claramente o que entendia por cultura: ambos elaboraram uma História da Cultura Portuguesa sem explicitar uma teoria geral da cultura. A ausência de uma tal teoria é mais perdoável em Hernâni Cidade do que em António José Saraiva, o qual pretendeu ser um historiador marxista da cultura portuguesa. A sua História da Cultura em Portugal foi interrompida quando teve de ir buscar o ganha-pão em França, mas, quando retomou já em Portugal esse empreendimento, foi para o abandonar, substituindo-o pela Cultura em Portugal, onde rompeu com os métodos marxistas da história económico-social, como se a cultura fosse um reino imaterial vindo não se sabe de onde. António José Saraiva não só se desviou da doutrina marxiana das supra-estruturas, como também duvidou da ideia de história da cultura: a sua viragem idealista obrigou-o a encarar a cultura como um reino espiritual a-histórico, conceito nem sempre congruente com a sua abordagem de alguns elementos da cultura portuguesa. Há, portanto, um desfasamento entre as considerações teóricas incompletas tecidas por António José Saraiva e as suas análises culturais concretas: a dissociação portuguesa entre a afectividade e a intelectualidade toma na mente de António José Saraiva a forma de dissociação entre o teórico e o empírico, como se a sua mente intelectual fosse incapaz de disciplinar as suas múltiplas falas, impondo-lhes o rigor do conceito. A obra de António José Saraiva é, toda ela, uma obra dissonante que, além disso, traz a marca da malvadez dos portugueses: o que ele atribui aos portugueses - o sentimento de orfandade - também lhe pode ser atribuído; a sua obra, além de ser órfã de teoria, é profundamente parricida. Não há teoria que resista à indigência cognitiva de António José Saraiva, que, possuído pela loucura, colocou estas questões estúpidas para justificar o desvio teórico da sua obra: «Como é possível estabelecer o nexo necessário entre a economia portuguesa do século XVI e, por exemplo, Camões? E que explicação socioeconómica há para o facto de Fernando Pessoa se ter manifestado no primeiro terço do século XX em Portugal?» Sem o mencionar, Joel Serrão deu uma resposta adequada à segunda questão, destacando a experiência de tédio dos habitantes da grande cidade. Da ideia de História António José Saraiva retém apenas a «sucessão cronológica, aplicável também aos factos do espírito, na medida em que eles se manifestam fenomenalmente». Mas logo a seguir - isto depois de ter falado da mesma essência humana que se manifesta em obras separadas por milhares de anos - recusa o carácter homogéneo de cada época da cultura portuguesa, atribuindo-o à longa duração. É provável que António José Saraiva tenha lido as obras de Georges Duby e de Jacques Le Goff, pelo menos leu a obra de Johan Huizinga que lhe inspirou O Crepúsculo da Idade Média em Portugal, mas não aprendeu a romper com a concepção do tempo homogéneo: a sua concepção da cultura desvinculada da materialidade das práticas sociais e das suas cristalizações sociais levou-o a conceber uma homogeneidade através da longa duração da formação cultural portuguesa. A "autonomia" que concede à cultura implica aquilo que ele crítica nas obras dos agentes culturais portugueses: a ausência de crítica social. A formação cultural portuguesa é concebida como um todo homogéneo, cujas fases não são suficientemente poderosas para quebrar o complexo de orfandade. António José Saraiva define quatro critérios para periodizar as épocas da cultura portuguesa, a saber: os mitos dominantes, os grupos dominantes (o topo e a base), o dentro e o fora, e as palavras e as coisas. A conjugação destes critérios permite-lhe distinguir na história da cultura portuguesa duas grandes fases: «a que vai até meados do século XVIII, aproximadamente, e a que se segue até à actualidade. Dentro da primeira fase há oscilações e conjunturas. Até à segunda metade do século XIV afirma-se com mais força o sentimento da nacionalidade e é repelida uma tentativa de união política sob a hegemonia castelhana. Daí em diante há uma espécie de rivalidade das duas culturas, mas dentro do mesmo espaço cultural; cada uma pretende ser mais autenticamente espanhola que a outra. Este período dura até 1580, aproximadamente. A partir de então, até à Restauração de 1640, a cultura portuguesa é subalternizada e provincializada. Quanto à segunda grande fase, caracteriza-se por uma tentativa constante de europeização, em que a Europa é confundida com a França. Segundo o fenómeno de geminação que já apontámos, as camadas culturalmente dirigentes de ambos os países voltam as costas uma à outra, e ambas à tradição peninsular, para, independentemente uma da outra, buscarem modelos e valores no Ocidente europeu». Enfim, António José Saraiva menoriza a cultura portuguesa, mantendo-a cativa de um complexo de inferioridade, como demonstrou de certo modo Albert Silbert. Em vez de elaborar o conceito da sua história, António José Saraiva cavou a sepultura da cultura portuguesa, da qual a desconstrução pretende libertá-la, inserindo-a na cultura ocidental e confrontando-a com as suas tendências dominantes. Um ano antes da Revolução de 1820, Almeida Garrett, captando o ambiente no Porto ostensivamente contrário à presença britânica e à administração dos governantes do Reino, escreveu este belo poema (citado por Teófilo Braga, Porto, 1908), com o qual termino esta primeira intervenção na desconstrução da cultura portuguesa:


«Aqui (Porto) o germem,
Aqui os elementos
Escondidos estão, que a vida nova
Hão-de chamar a abastardada espécie
Da corrompida Gente lusitana.
D'aqui, donde houve nome
O velho Portugal, seu nome ainda
Honrado surgirá. Preságio vejo
Na geração crescente ir despontando
As feições renovadas
Com que a antiga família portuguesa
Se distinguia outrora; o brio, a honra,
Os sãos costumes, puro amor da Pátria,
A singela franqueza,
A nobre independência de outras eras,
Ressurgirão daqui. - E então o aspecto
Desta formosa terra, hoje encoberto
De nevoeiros britanos,
Resplenderá com a natural beleza.
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
Oh! quando te hei-de ver, pátria querida,
Limpa de ingleses (da troika!), safa de conventos...
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
E oh! mais que tudo, do estrangeiro odioso
Que no insofrido jugo
Nos rebitou os cravos que abalavam,
E, mercador chatim, do nosso sangue,
Da nossa honra fez tráfico e ganância
Co's bachás do tirano.
Sim, amigo; esta corja odiosa e bárbara,
Opressora da lusa liberdade,
Esta canalha de Albion soberbo
Aqui fixou seu trono,
Pousou seu génio bruto em nossos muros...»


J Francisco Saraiva de Sousa