segunda-feira, 11 de julho de 2011

Drogas e Cérebro: Filosofia NeuroFarmacológica

«Depois de haver devastado a natureza que o rodeia, o Homem não está a arruinar o seu próprio cérebro? Um único número, o do consumo de um dos medicamentos mais vendidos no Mundo: as benzodiazepinas, revela a urgência do problema. Estes tranquilizantes secundários actuam ao nível do receptor cerebral de um neurotransmissor inibidor, o ácido gama-aminobutírico. Exaltando o seu efeito, acalmam a angústia e induzem o sono. São vendidas sete milhões de caixas por mês em França e registam-se vendas comparáveis na maior parte dos países industrializados. Terá o Homem moderno necessidade de adormecer para poder suportar os efeitos de um meio ambiente que ele próprio criou? É altura de encarar o problema com seriedade.» (Jean-Pierre Changeux)

Encarar este problema da necessidade humana de adormecer para poder suportar a sociedade capitalista em que vivemos é tarefa da Filosofia Médica: o homem enquanto ser-sem-abrigo necessita de drogas para controlar a sua angústia essencial. A necessidade de adormecer e de controlar a ansiedade é tão antiga quanto o próprio homem. Não é, portanto, uma invenção das sociedades industrializadas, como supõe Changeux, mas um traço estrutural da natureza humana: o capitalismo comercializou esta necessidade humana e fez dela uma grande indústria lucrativa - o vasto sector das indústrias farmacêuticas. Ao longo da sua história, os homens têm ingerido todos os tipos de substâncias - animais, vegetais ou minerais. A partir destas experiências, aprenderam a consumir certas substâncias e a evitar outras. Os costumes sociais e os códigos dietéticos evoluíram de modo a assegurar a protecção dos indivíduos contra o consumo de produtos perigosos. Esta longa história de pesquisas, de testes e de utilização de diversas substâncias, não provém somente da necessidade de nutrição, mas também da necessidade de aliviar a dor, de controlar a ansiedade e de obter prazer. Diversas são as drogas que podem satisfazer estas necessidades humanas, mas algumas delas também podem provocar um estado de dependência ou mesmo induzir estados psicóticos ou de pânico. O consumo de drogas está de tal modo estendido no tempo e no espaço que podemos definir o homem como um animal consumidor de drogas. B. E. Leonard (1992) forjou a feliz expressão - «o animal que ingere drogas» para definir o homem no seu tratado Fundamentals of Phychopharmacology, mas R. Siegel (1973, 1989) procurou contrariar esta noção antropológica, alegando que muitos outros animais fazem o mesmo. Hugh Brown (1974) denunciou o antropomorfismo subjacente à descrição dos modelos animais apresentados por R. Siegel, o que nos permite elaborar e afinar a noção de homem como animal consumidor de drogas, não só de substâncias químicas que têm efeitos terapêuticos sobre as perturbações ou sobre os seus sintomas, mas também e sobretudo de substâncias químicas que tendem a criar abuso nos indivíduos, como a heroína e a cocaína. As antropologias filosóficas têm dedicado todo o seu tempo a definir os atributos que distinguem o homem dos outros animais: os modelos propostos afirmam que o homem é o único animal que cozinha os seus alimentos, que tem uma linguagem, que pratica a religião, que mata por prazer, que pode alterar o seu meio ambiente, que tem consciência de si próprio, que sabe que vai morrer ou que está preocupado com o sexo todos os dias do ano. Apesar de todos estes comportamentos serem importantes para definir o especificamente humano, há outro comportamento - o de consumir drogas - que nunca foi enunciado por estes modelos bio-antropo-filosóficos. De todos os comportamentos referidos este é aquele que mais manifesta o fenómeno da mente humana: o homem é o único animal que toma intencionalmente substâncias químicas por razões que não têm nada a ver com as necessidades nutritivas. As drogas são ingeridas pelo homem para tratar as doenças e para alterar a sua mente e o seu corpo. As últimas drogas são provavelmente aquelas que mais interessam à antropologia fundamental: o homem utiliza drogas em si mesmo para alterar os seus estados mentais - sensações, percepções, emoções, motivação, consciência, personalidade e sociabilidade. E, para se alterar a si próprio, manipula quimicamente todas as facetas do funcionamento heterotrófico ou todas as operações relativas à sua integração no meio ambiente - físico e social. O homem muda a realidade, e muito particularmente a realidade desagradável, para a ajustar às suas mais diversas necessidades. Em 1973, E. J. Simon, S. H. Snyder e L. Terenius descobriram os receptores para os opiácios e esta descoberta conduziu em 1975 ao isolamento de dois pequenos péptidos, as encefalinas, que interagem com esses receptores (John Hughes & Hans Kosterlitz, 1975). As encefalinas inauguraram a descoberta dos opiopéptidos, grupo posteriormente enriquecido com a descoberta da família das endorfinas e das endomorfinas, péptidos endógenos que controlam a dor. Existem três tipos de receptores aos opiácios: os receptores delta (Evans et al., 1992), os receptores kappa (Yasuda et al., 1993) e os receptores mu (Wang et al., 1993). Este conjunto de descobertas é suficiente para mostrar que o cérebro humano produz substâncias endógenas - a sua própria morfina, neste caso - para controlar a dor e outros estados psicológicos: as substâncias químicas exógenas usam a mesma maquinaria neural para produzir alterações dos estados mentais. O cérebro que se droga com as suas próprias substâncias químicas endógenas está preparado para sofrer a acção de drogas exógenas. A apetência pela adição exibida pelo cérebro humano articula-se com a morte e com o sexo de um modo que ainda não pretendo explicitar. Porém, ao utilizar o conceito de apetência pela adição, escapei ao domínio da psicofarmacologia - o estudo dos efeitos dos fármacos sobre o sistema nervoso e sobre os comportamentos - para entrar noutros domínios das neurociências: o conceito de adição deve ser definido de modo a abranger não só a dependência criada pelas substâncias químicas, mas também as dependências comportamentais e tecnológicas. Deste modo, podemos definir literalmente a religião como ópio, tal como fez Marx, ou mesmo definir o amor como adição. O carácter estruturalmente aditivo de todos os comportamentos institucionais do homem decorre da sua condição de ser-sem-abrigo: lançado num mundo hostil que não escolheu e sabendo que vive em vão, porque da morte não pode escapar, o homem precisa literalmente de diversas drogas para enfrentar a hostilidade de um mundo e de uma vida que não lhe pertencem. Quando refere a necessidade de adormecer a mente consciente e desperta para suportar os efeitos nefastos da sociedade capitalista, Changeux sabia que o comportamento de consumir drogas revelava uma grande quantidade de informação sobre a mente no mundo alienado de hoje: a sociedade que combate a nicotina é a mesma sociedade que, pela sua irracionalidade estrutural, leva os homens a consumir substâncias químicas exógenas que produzem abuso, dependência e habituação, tais como o álcool, os opiácios (morfina, heroína, codeína e metadona), os estimulantes (cocaína e anfetaminas), os alucinogénios (LSD, mescalina, cannabis e haxixe) e os solventes orgânicos. Paul A. Baran & Paul M. Sweezy mostraram como a racionalização dos processos da economia capitalista e a impregnação de todos os aspectos do mundo da vida pelo cálculo comprimiram de tal modo o homem que fizeram dele um produto padronizado e sistematicamente controlado por meio de levantamentos estatísticos realizados por departamentos especializados: o mal-estar produzido pelo sistema irracional que é o capitalismo priva o trabalho de sentido, transforma o lazer em preguiça sem alegria, atinge fatalmente o sistema educativo e as condições de desenvolvimento sadio dos jovens, transforma a religião e a igreja em veículos comercializados de fuga à solidão e destrói a base da sociedade, a família, além de mutilar afectivamente o indivíduo, de atrofiar a sua vida sexual e de o entregar aos cuidados psiquiátricos. A irracionalidade da sociedade capitalista nega ao homem - sobretudo aos mais jovens - tudo aquilo que lhe permitia enfrentar a vida e o mundo sem recurso abusivo a drogas exógenas. O ser que consome drogas para controlar a angústia existencial é forçado a adormecer - ou a hiperestimular - a sua mente para suportar o capitalismo: o capitalismo não inventou a apetência pela adição; o que ele fez foi privar o homem das suas adições naturais, levando-o a consumir novas drogas, em especial os ansiolíticos (tranquilizantes), os sedativos e os hipnóticos, por um lado, e as drogas de abuso, por outro, que o sistema no seu conjunto comercializa com lucro. Para mostrar a especificidade deste comportamento humano de consumir drogas, basta referir o paralelismo entre o poder de uma droga que provoca um comportamento de auto-administração no animal e a sua tendência para induzir uma maior dependência psicológica no homem. No domínio das drogas, não convém extrapolar sistematicamente observações realizadas no animal para os domínios do homem: o comportamento de um animal torna-se rapidamente normal depois da abstenção da droga, enquanto que no homem a perturbação da síndrome de abstinência fica durante mais tempo. Esta diferença mostra que a dependência é um traço próprio do homem, tanto na sua componente psicológica, como na sua componente sociocultural. No homem, o consumo da droga é um sintoma da angústia profunda do indivíduo mortal, da sua ansiedade insuportável e da sua dor existencial. O homem precisa ser anestesiado por produtos de todos os tipos para suportar viver num mundo hostil que não lhe pertence. A irracionalidade da economia capitalista é de tal modo necrófila que, privando os seus indivíduos dos escudos protectores naturais e das drogas que não viciam, para os lançar nessa selva que é o mercado auto-regulado (sic), os leva a passar facilmente do simples uso para um verdadeiro abuso das drogas. A farmacologia confronta-se aqui com o homem na sua especificidade, com as suas pulsões, os seus desejos, os seus medos, enfim as suas fraquezas, que o capitalismo manipula e explora para garantir a sua perpetuação, mesmo que isso implique a devastação da natureza e a dominação do próprio homem. O abuso das drogas testemunha não só o desajustamento dos indivíduos em relação a uma realidade que lhes nega a dignidade de uma vida sem angústia, como também o fracasso histórico do capitalismo que está a conduzir a humanidade até ao abismo. É certo que, ao alterarem a experiência que cada um dos seus utilizadores tem do mundo, as drogas produzem algum tipo de ajustamento, mas este ajustamento não liberta a humanidade da catástrofe iminente, pela qual devemos responsabilizar o capitalismo e os seus agentes económicos. A neurofarmacologia deve proteger-se do uso que o capitalismo pode fazer das suas descobertas científicas: o facto das operações mentais serem mediadas quimicamente pode levar o capitalismo a querer controlar quimicamente a mente dos homens, mesmo que isso implique o fim da aventura humana sobre a terra. No quadro global do capitalismo enlouquecido, nenhuma revolução científica - incluindo a revolução psicofarmacológica (Caldwell, 1970) - está a salvo do impulso necrófilo que o move.


O alargamento conceptual da adição - aqui referido - exige uma reformulação alargada da neurofarmacologia ou, pelo menos, a exposição exaustiva dos seus princípios fundamentais, tarefa que não irei levar a cabo neste estudo. A palavra grega pharmacon, que está na raiz de farmacologia, tem três significações diferentes: ser um amuleto, isto é, um objecto dotado de poder mágico (1), um veneno (2) e um remédio ou medicamento (3). Estes três sentidos sugerem desde logo a extensão e a complexidade da neurofarmacologia, mas, para restringir o seu âmbito objectual, usarei a palavra fármaco - ou droga - para designar uma substância química exógena que, não sendo necessária para o funcionamento celular normal, altera significativamente as funções de algumas células do organismo quando é tomada em doses relativamente baixas. A neurofarmacologia estuda unicamente as substâncias químicas que alteram as funções das células do sistema nervoso: as drogas que nos interessam têm efeitos e lugares ou sítios de acção no sistema nervoso. Os efeitos farmacológicos são as alterações que podem ser observadas nos processos fisiológicos de um organismo e nos seus comportamentos. Os lugares de acção são os sítios onde as moléculas das drogas interagem com moléculas localizadas na membrana ou no interior das células do organismo, afectando deste modo alguns dos seus processos bioquímicos. Ora, para exercer os seus efeitos, as drogas devem alcançar os seus lugares de acção: as moléculas da substância química exógena devem entrar dentro do organismo e, desde logo, na corrente sanguínea, para poder ser transportadas até ao órgão ou aos órgãos sobre os quais exercem os seus efeitos. Para entrar dentro do sistema nervoso e alcançar aí os seus lugares de acção, as moléculas das drogas devem atravessar uma série de barreiras, entre as quais a barreira hematoencefálica. A farmacocinética estuda o processo pelo qual as drogas são absorvidas, distribuídas pelo organismo, metabolizadas e excretadas pela urina e/ou pelas fezes. As drogas podem ser administradas por injecção intravenosa, intraperitoneal, intramuscular e subcutânea. Ou então podem ser administradas por via oral, sublingual, rectal, por inalação e topicamente. Além disso, em casos especiais, podem ser administradas por via intracerebral ou intracerebroventricular. As drogas lipossolúveis atravessam com facilidade a barreira hematoencefálica. Outras substâncias químicas exógenas atravessam esta barreira de modo muito lento e algumas não conseguem atravessá-la. Com a excepção da injecção intravenosa, os cursos temporais das outras vias de administração de drogas são diferentes. Quando atingem a corrente sanguínea, as moléculas das drogas podem unir-se à albumina e ligar-se a depósitos de armazenamento no tecido adiposo, nos músculos e nos ossos. Por fim, as substâncias químicas exógenas desaparecem completamente do organismo: algumas são inactivadas por enzimas, especialmente no fígado, e outras são simplesmente excretadas pela via urinária e/ou fecal. A curva dose-resposta representa a efectividade ou a eficácia do fármaco, relacionando a quantidade administrada - geralmente em mg/kg de peso corporal do sujeito - com o efeito resultante. A maior parte das substâncias químicas exógenas têm mais de um lugar de acção e, por isso, mais de um efeito. A segurança de um fármaco mede-se pela diferença entre as doses que produzem efeitos desejáveis e as doses que geram efeitos secundários adversos ou mesmo letais. As substâncias químicas exógenas têm efectividades diferentes devido à natureza dos seus lugares de acção e à afinidade entre as suas moléculas e os seus lugares específicos de acção. A administração repetida de uma droga causa tolerância, um fenómeno de ordem fisiológica que se traduz pela necessidade de aumentar progressivamente a dose de droga consumida para manter os efeitos que ela provoca. Quando se administra uma droga repetidamente, os seus efeitos não se mantêm constantes: umas vezes diminuem (tolerância), outras vezes tornam-se progressivamente mais eficazes (sensibilização). Porém, quando interrompe a administração de uma droga, como por exemplo um opiácio, o indivíduo sofre de sintomas de abstinência. Estes sintomas consistem basicamente em efeitos opostos à droga tomada regularmente. Assim, por exemplo, a heroína produz euforia e a sua abstinência produz disforia (ansiedade insuportável): a heroína produz obstipação e a sua abstinência produz náuseas e cãibras; enfim, a heroína produz relaxação e a sua abstinência produz inquietude. A tolerância pode ser causada pela diminuição da afinidade da droga com os seus receptores, pela redução do número de receptores ou pela diminuição do acoplamento dos receptores com as etapas bioquímicas que controla. Além disso, alguns efeitos de uma droga podem induzir tolerância, enquanto que outros induzem sensibilização.


Todas as drogas psicoactivas actuam sobre o sistema nervoso, interferindo com a transmissão sináptica química. Muitas dessas drogas de abuso actuam directamente sobre os sistemas moduladores, nomeadamente os sistemas noradrenérgico, dopaminérgico e serotoninérgico. O processo de transmissão sináptica supõe a síntese da substância transmissora, o seu armazenamento em vesículas sinápticas, a sua libertação na fenda sináptica, a sua interacção com receptores pós-sinápticos e a consequente abertura dos canais iónicos na membrana pós-sináptica. Os efeitos da substância transmissora terminam através da sua recaptação pelo botão terminal ou, no caso da acetilcolina, mediante a inactivação enzimática. Cada uma das etapas da transmissão sináptica pode ser afectada pelas drogas ou fármacos que actuam como antagonistas, e algumas podem ser estimuladas pelas substâncias exógenas que actuam como agonistas. As substâncias antagonistas são aquelas que bloqueiam ou inibem os efeitos pós-sinápticos. As substâncias agonistas são aquelas que facilitam os efeitos pós-sinápticos. Deste modo, as substâncias exógenas podem aumentar a quantidade do precursor disponível, bloquear as enzimas que intervêm na biossíntese, impedir o armazenamento da substância transmissora nas vesículas sinápticas, estimular ou bloquear os receptores pós-sinápticos, atrasar a recaptação, ou inactivar as enzimas que destroem a substância transmissora. As drogas que activam os receptores pós-sinápticos actuam como agonistas, enquanto que as drogas que activam auto-receptores pré-sinápticos actuam como antagonistas. As drogas que bloqueiam os receptores pós-sinápticos actuam como antagonistas, enquanto que as drogas que bloqueiam auto-receptores pré-sinápticos actuam como agonistas. As drogas que activam ou bloqueiam heteroreceptores pós-sinápticos actuam como agonistas ou antagonistas, dependendo do papel dos heteroreceptores na facilitação ou na inibição pré-sináptica. Os efeitos exercidos pelas drogas são demasiado complexos para serem aqui descritos em pormenor. De um modo muito esquemático, convém destacar os efeitos que elas exercem sobre a síntese das substâncias transmissoras (1), sobre o armazenamento e a libertação das substâncias transmissoras (2), sobre os receptores (3), e sobre a recaptura ou a degradação das substâncias transmissoras (4).


As substâncias transmissoras têm dois efeitos gerais sobre as membranas pós-sinápticas: a despolarização ou a hiperpolarização. Porém, no cérebro, além das substâncias excitatórias e inibidoras, há muitas outras substâncias que têm efeitos moduladores. A maior parte da comunicação sináptica é levada a cabo por duas substâncias transmissoras: o glutamato que tem efeitos excitatórios, e o GABA que tem efeitos inibidores. A actividade dos circuitos neuronais locais supõe equilíbrios entre os efeitos excitatórios e os efeitos inibidores destas duas substâncias que são responsáveis pela transmissão da informação: os neurónios recebem inputs excitatórios de botões terminais que libertam glutamato e inputs inibitórios de neurónios que libertam GABA ou glicina. Com a excepção dos neurónios que detectam estímulos dolorosos, libertando péptidos, todos os órgãos sensoriais transmitem a informação ao cérebro através de axónios cujos terminais libertam glutamato. As outras substâncias transmissoras exercem efeitos moduladores, activando ou inibindo circuitos neuronais inteiros envolvidos em funções cerebrais específicas. Assim, por exemplo, a secreção de acetilcolina activa o córtex cerebral e facilita a aprendizagem; a secreção de noradrenalina aumenta o estado de vigília e facilita a disponibilidade para agir quando se detecta um sinal-estímulo; a secreção de serotonina suprime alguns tipos de comportamentos típicos da espécie e reduz a probabilidade de agir impulsivamente; e a secreção de dopamina activa movimentos voluntários. As drogas afectam selectivamente os neurónios que libertam determinadas substâncias transmissoras, exercendo assim efeitos específicos sobre os comportamentos. O sistema nervoso contém diferentes substâncias transmissoras, cada uma das quais interactua com um receptor especializado. As substâncias transmissoras mais estudadas são a acetilcolina e as monoaminas: dopamina, noradrenalina e 5-hidroxitriptamina (serotonina). A síntese destas substâncias é controlada por enzimas. Aminoácidos - tais como o glutamato, o GABA e a glicina actuam como substâncias transmissoras, isto é, como neurotransmissores: o glutamato é uma substância transmissora excitatória e os outros dois aminoácidos são substâncias transmissoras inibitórias. As substâncias transmissoras peptídicas consistem em cadeias de aminoácidos e, tal como as proteínas, são sintetizadas nos ribossomas segundo as sequências codificadas pelos cromossomas. Os peptídeos mais conhecidos do sistema nervoso são os opióides endógenos, cujos efeitos são imitados por drogas de abuso como o ópio e a heroína. Há um lípido - um ácido gordo - que actua como mensageiro químico: a anandamida, o ligando endógeno do receptor THC (tetrahidrocanabinol) da marijuana. A adenosina, um nucleosídeo que tem efeitos inibidores sobre a transmissão sináptica, é libertada pelos neurónios e pelas células gliais no cérebro. Além disso, há dois gases solúveis - o óxido nítrico e o monóxido de carbono - que difundem para o exterior da célula onde foram sintetizados e que desencadeiam a produção do segundo mensageiro nas células adjacentes. Quanto à farmacologia da dependência que dá corpo à ideia de droga que leva a uma toxicomania, irei destacar apenas a acção do álcool, dos opiácios, dos estimulantes, do cannabis e dos alucinogénios. O álcool é um produto sedativo e ansiolítico que age sobre os receptores GABAérgicos. Estes receptores permitem a modulação das respostas ansiosas do organismo e determinam a acção dos tranquilizantes. No sangue, os neuromediadores reagem quimicamente com o acetaldeido - um produto fabricado no fígado a partir do álcool, formando substâncias cuja estrutura é de tal modo semelhante à da morfina que se fixa sobre os receptores aos opiácios. Embora a dependência ao álcool não seja da mesma natureza fisiológica que a dos opiácios, o certo é que o consumo crónico do álcool aumenta a produção das endomorfinas e o número de receptores aos opiácios. Curiosamente, os heroinómanos em falta ingerem grandes quantidades de álcool para suavizar os efeitos da abstenção da heroína. O mal-estar sentido quando da abstenção do álcool deve-se à diminuição directa da estimulação GABAérgica e/ou à perturbação da estrutura das membranas celulares, que o uso crónico do álcool "rigifica", tornando menos acessíveis e funcionais os receptores GABAérgicos. As drogas morfínicas - analgésicos potentes - inibem selectivamente as actividades neuronais produzidas por estímulos excitadores. Assim, por exemplo, na resposta à dor, a morfina age sobre o cérebro e a espinal medula e não sobre os nervos periféricos como o faz a aspirina. A morfina bloqueia a libertação de neuromediadores excitadores, em especial a noradrenalina, na terminação sináptica dos neurónios da espinha dorsal que nos informam sobre a sensação dolorosa. Além disso, no locus coeruleus, bloqueia a actividade de base e talvez a actividade induzida por estímulos. A administração de opiácios exógenos inibe a libertação de endomorfinas para os neurónios, como se a heroína se apropriasse dos lugares em detrimento das morfinas endógenas. Gradualmente, as células nervosas deixam de produzir as endomorfinas e, quando se encontra em falta, como já não há mais endomorfinas como reserva a curto prazo, o toxicodependente sente um mal-estar até que o organismo comece a produzir as morfinas endógenas. Para acalmar a falta de produção endógena, é obrigado a administrar a si próprio a droga equivalente à endomorfina: morfina, heroína, codeína, metadona e outros opiácios. Os receptores dos opiácios são expostos a fortes concentrações das moléculas da droga durante longos períodos, tornando-se pouco a pouco menos sensíveis: a tolerância instala-se. A cocaína - um estimulante - estimula a mediação noradrenérgica, tanto a nível central como a nível periférico. A cocaína aumenta a libertação da dopamina e da noradrenalina pelos neurónios e inibe a sua recaptura pelos botões terminais, fixando-se numa zona específica do receptor destes neuromediadores - o receptor da cocaína. As anfetaminas - outro grupo de estimulantes - facilitam a libertação de dopamina dos botões terminais. Uma mutação dirigida do gene responsável pela produção de transportadores de dopamina bloqueia estes efeitos. Além de produzir vigilância, activação e reforço positivo, a cocaína e as anfetaminas podem provocar sintomas psicóticos similares aos observados na esquizofrenia paranóide. O seu uso crónico durante um longo período leva mais a um efeito de sensibilização do que de tolerância. Os efeitos destas drogas são mediados pelo aumento de dopamina no núcleo accumbens, e os sintomas desagradáveis próprios da síndrome de abstinência podem ser mediados pela actividade dos neurónios secretores de dinorfinaOs canabinóides agem sobre as mediações serotoninérgicas, noradrenérgicas e GABAérgicas e, de uma maneira não específica, sobre as membranas celulares. A memória está ligada ao hipocampo, uma estrutura cerebral que compreende numerosos receptores dos canabinóides e receptores GABAérgicos. A maior parte das substâncias psicotrópicas, e principalmente o cannabis, agem sobre esta estrutura, diminuindo as capacidades de memorização e de atenção. A dependência física ao cannabis parece ser fraca: a sua abstenção evidencia sinais de natureza psicossomática, tais como ansiedade com palpitações, dores musculares e insónias. Os alucinogénios - cujo motivo estrutural comum é o núcleo indólico, identificado na serotonina - agem através da mediação serotoninérgica, fixando-se nos receptores da serotonina e, deste modo, interferindo com a transmissão sináptica de outros mediadores químicos. Desta acção múltipla dos alucinogénios resulta o seu envolvimento na maior parte das grandes funções neurofisiológicas. O LSD - uma droga que é eficaz em doses extremamente baixas - produz distorções das percepções visuais, agindo em muitos lugares de acção no cérebro: a sua acção como agonista directo dos receptores 5-HT2 no prosencéfalo parece ser responsável pelos efeitos comportamentais desta droga, já que outras substâncias químicas exógenas que actuam como agonistas 5-HT2 também têm efeitos alucinogénios.


Anexo: A neurofisiologia da adição às drogas é um mundo demasiado vasto para poder ser resumido em poucas palavras. Neste estudo, não tratei de muitos aspectos da adição às drogas, apesar de alguns deles decorrerem da noção nuclear de que o comportamento aditivo do consumidor de drogas é mais motivado pelo aliviar do mal-estar do que pela busca de prazer. Pelo menos, é este o aspecto fundamental do comportamento aditivo que interessa à antropologia fundamental. A neurofarmacologia abre novos horizontes à antropologia fundamental, permitindo-lhe elucidar melhor as relações entre mente e cérebro, bem como as relações dos homens com o mundo físico e com o mundo social. Um indivíduo adito a uma droga está condenado, em certo sentido, a uma relação de servidão involuntária, sentindo-se obrigado a satisfazer as demandas da sua dependência da droga. A atracção pelas drogas deve-se ao facto delas estimularem os mecanismos cerebrais responsáveis pelo reforço, aspecto que deixei de lado neste estudo preparatório. Por isso, serei obrigado a voltar a este tema noutros textos.

J Francisco Saraiva de Sousa

sábado, 9 de julho de 2011

Sherwood L. Washburn: a Questão da Hominização

«Na savana há muito pouca fruta. A vida é mais perigosa. Um bípede capaz de usar instrumentos adaptou-se aos problemas da savana caçando e comendo carne.» (Sherwood L. Washburn)


«A história fala-nos de inúmeros retrocessos (...), mas nada nos diz que não existe a possibilidade de retrocessos muito mais básicos do que qualquer outro até hoje conhecido, incluindo o mais básico de todos eles: o total desaparecimento do homem como homem e o seu silencioso retorno à escala animal». (José Ortega y Gasset)


«Sem homens certamente não haveria cultura; mas, de forma semelhante e muito significativamente, sem cultura não haveria homens». (Clifford Geertz)

Os meus heróis da ciência são mortos, com os quais continuo a dialogar através da leitura assídua das obras que legaram à humanidade. O facto de preferir dialogar com os mortos, em vez de dialogar com os vivos, meus contemporâneos, diz muito sobre aquilo que penso da ciência que se faz no nosso tempo indigente: a organização social da ciência padronizou e uniformizou de tal modo a sua prática que a fechou ao pensamento e à inovação. A ciência que se pratica hoje em dia é tão indigente quanto o espírito do nosso tempo. A indigência da ciência contemporânea reforça a minha necessidade de olhar para o seu passado em busca daquele espírito genial que alimenta o meu próprio pensamento. Ontem, num momento de profunda angústia, lembrei-me da obra de paleontologia humana de Sherwood L. Washburn, um dos meus heróis da ciência no tempo em que preparava a minha tese sobre o Homem Fóssil. O meu interesse pela hominização é tão antigo quanto o meu interesse pela biologia: ambos recuam até à minha idade escolar. Escrevi a minha tese sobre o Homem Fóssil para satisfazer este meu interesse antigo. Quando a conclui, abandonei o tema da hominização para me dedicar ao estudo da determinação sexual e da diferenciação sexual do cérebro e do comportamento. Porém, nunca desisti de actualizar os estudos sobre a hominização e, ontem, como me lembrei do velho mestre, fui ler e reler alguns desses estudos actuais. Fui assaltado literalmente pela dúvida que passo a partilhar de um modo ainda vago.


Quando escrevi a minha tese sobre o Homem Fóssil, apresentei um modelo interdisciplinar da antropogénese, marcadamente neurobiológico, que pretendia elucidar as linhas gerais da antropologia fundamental. Hoje reconheço a existência de duas falhas teóricas: o modelo neurobiológico da antropogénese é mais científico do que filosófico, o que contraria a intenção de elaborar uma antropologia fundamental ou de constituir a sua base, e, talvez por isso, cai no mesmo erro cometido por Leroi-Gourhan ou mesmo por Yves Coppens quando atribui a capacidade da linguagem aos hominídeos com um cérebro igual ou pouco maior do que o dos antropóides, perdendo assim de vista as lições de S. L. Washburn, David Pilbeam e W. E. Le Gros Clark. A inclinação para aceitar uma hipótese que carece de evidência empírica justifica-se pelo facto da hominização nunca ter sido levada em conta pelas antropologias filosóficas (Max Scheler, Arnold Gehlen, Helmuth Plessner, Ernst Cassirer, M. Landmann, M. Buber, E. Rothacker, Ph. Lersch), com a brilhante excepção da bioantropologia de A. Portmann: ao aceitar uma hipótese facilmente desmentida pela evidência neurobiológica, procurei dar à antropologia fundamental uma teoria da hominização, ao mesmo tempo que só me libertava do horizonte estreito das antropologias filosóficas à custa de sacrificar o seu carácter filosófico no altar da revolução da biologia molecular. A tradição da ciência e da filosofia alemãs é muito diferente da tradição da ciência e da filosofia anglo-saxónicas, por um lado, e francófonas, por outro. A biologia alemã - Europa Central e Rússia - resistiu durante muito tempo ao poder da evolução darwiniana, e é fácil detectar sinais dessa resistência até mesmo nos biólogos darwinistas, como por exemplo Konrad Lorenz. É talvez por isso que as antropologias filosóficas - todas elas oriundas da Alemanha - nunca foram sensíveis ao tema da hominização. A polémica entre Karl Rahner (teólogo) e Paul Overhage (biólogo) a propósito do problema da hominização lança luz sobre a dificuldade de elaborar uma antropologia filosófica que tenha em conta a evolução biológica do homem. Quando afirma que «onde há transcendência há homem; onde não há transcendência, só encontramos um animal», Rahner mais não faz do que definir uma teoria da natureza humana que se fecha à evolução e à história: o lugar peculiar do homem no mundo tem sido definido sem ter em conta a sua própria evolução biológica, ou seja, duas das três dimensões - a espiritual e a divina - que Rahner atribui ao homem não podem ser atribuídas aos seus antepassados fósseis. Os esquemas antropo-filosóficos só se aplicam ao resultado da própria evolução biológica do homem e não ao processo de aparição do homem como ser psicossomático a partir de formas animais anteriores. É certo que tentei colmatar esta lacuna da antropologia filosófica, mas a verdade é que, para o fazer, fui obrigado a atribuir funções mentais superiores a antepassados fósseis do homem com cérebros demasiado pequenos. Este erro estrutural atravessa todas as teorias da hominização. (A arqueologia está a seguir uma via filosófica mais radical: aplicar a filosofia de Heidegger aos artefactos arqueológicos pode ser interessante desde que esses objectos tenham pertencido ao homem moderno; mas o seu recuo no tempo é puro delírio. A noção de rosto não se aplica a todos os homens fósseis: a redução da face é um processo lento. Porém, o uso desta terminologia conceptual é da competência do paleoantropólogo.) Segundo W. von Humboldt, homem e linguagem estão tão indissociavelmente ligados entre si que podemos dizer que - sem linguagem não há homem, sem homem não há linguagem. Alguém que seja humano consegue penetrar no interior de uma mente privada de lingua(gem)? A paleontologia humana obriga-nos a imaginar o universo mental dos hominídeos fósseis, muitos dos quais não eram dotados da capacidade de falar. (Já agora uma provocação: Se nos deparássemos com alguns exemplares do Australopithecus ou do Homo habilis, o que faríamos? Tenho a certeza que os colocávamos num Jardim Zoológico, pensando levá-los a seguir para um laboratório. De certo modo, é esta uma das lições do filme de ficção científica - O Planeta dos Macacos.)


Vejamos brevemente o esquema evolutivo de S. L. Washburn: ele defende - e com razão - que o bipedismo, o fabrico de instrumentos e a caça são anteriores ao aumento da capacidade cerebral. E, pelo menos num artigo de 1978, reconhece que, durante grande parte do último milhão de anos, a evolução humana, tanto biológica como tecnológica, foi muito lenta: a sua aceleração começou há cerca de 40 000 anos quando desapareceram todas as formas humanas primitivas para dar lugar a seres humanos de anatomia totalmente moderna - Homo sapiens sapiens -, com maior capacidade para a comunicação verbal. Washburn não afirma que o homem fóssil fosse mudo durante grande parte da sua evolução; o que defende é que a extraordinária expansão do homem moderno se deve, provavelmente, à sua maior capacidade para a comunicação verbal: «É provável que a linguagem, que combina a emissão de sons com a capacidade cognitiva, tenha sido a base biológica da nossa aceleração histórica. Tal como a bipedismo e o fabrico de instrumentos caracterizam as primeiras fases da evolução humana, a capacidade fisiológica para a comunicação verbal constitui a base biológica das suas últimas fases. Sem esta forma de comunicação, de suma eficácia, o nosso progresso teria sido muito mais lento e limitado». Temos assim duas evoluções e duas humanidades: uma evolução lenta, caracterizada pelo bipedismo, fabrico de instrumentos e caça, e uma evolução acelerada pela aquisição da capacidade da linguagem. Se a última é a nossa própria evolução - a evolução do Homo sapiens sapiens, a outra é a evolução das formas primitivas de humanidade que desapareceram quando surgimos. O esquema bioantropológico de Washburn opõe duas naturezas humanas, uma primitiva, a outra moderna: o seu conceito de humanidade plena - a nossa - não se aplica às formas fósseis extintas na Europa há 30 000 anos - o Homo neandertalensis - ou no decorrer do próprio processo evolutivo dos hominídeos e dos primatas em geral (70 milhões de anos). De certo modo, o reconhecimento de duas humanidades e de duas antropologias ajuda a superar a dificuldade que tentei especificar, mas fá-lo a partir da noção que o homem moderno tem de si próprio. Ou dizendo de outra forma mais provocante: os homens fósseis, os hominídeos fósseis, incluindo o Australopithecus, o primeiro a assumir a marcha bípede, fazem parte da nossa genealogia distante, mas ainda não são figuras humanas propriamente ditas. Esta maneira de encarar a evolução biológica do homem não colide com os esquemas das antropologias filosóficas. Mas, quando se apropria da hipótese da caça (Washburn & Lancaster, 1968; R. B. Lee & I. DeVore, ed., 1968) para afirmar que o que nos tornou seres humanos únicos foi a carne, isto é, o desejo da carne, de comer, de caçar e de partilhar essa mesma carne, Craig B. Stanford reduz o homem moderno ao homem primitivo fóssil, como se o traço específico da humanidade plena fosse um traço arcaico que o homem partilha com os chimpanzés, os babuínos e os capuchinhos. A menos que a teoria do homem-caçador de Stanford pretenda dar conta de um fenómeno regressivo que está em curso nas nossas sociedades, o que não é o caso, não podemos aceitar de ânimo leve este seu pressuposto: «as raízes do conhecimento humano devem ser procuradas no nosso passado mais remoto, quando os nossos antepassados primatas não humanos tinham de responder a muitos dos mesmos contextos sociais». Há aqui conceitos de fundo que raramente são tematizados, tal é a força da moderna dogmática laica. Para os explicitar - e resolver a dificuldade teórica que referi, preciso refazer a própria teoria da hominização, mas esta é uma tarefa para levar a cabo em diversos textos.

J Francisco Saraiva de Sousa

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Um embrião mecânico?: Filosofia Embriológica


«A generatio aequivoca, em virtude da qual se entende a produção de um ser organizado através da mecânica da crua matéria, (é algo impossível).» (I. Kant)


Estudei embriologia a partir do clássico tratado de Embriologia Médica de Jan Langman. Hoje, graças aos avanços tecno-científicos da biologia molecular, a embriologia faz parte integrante da biologia do desenvolvimento, um dos ramos mais fantásticos das ciências biomédicas. Devo confessar que a teratologia - o estudo do embrião patológico ou das malformações congénitas do embrião - me fascinava quando comecei a estudar a embriologia, não tanto pelo facto das figuras embrionárias monstruosas satisfazerem a minha curiosidade natural pelo mórbido, mas sobretudo pelo facto do pathos - o anormal, o monstruoso - despertar e condicionar o meu interesse teórico pelo normal, como se a vida só se revelasse à minha consciência através das suas infracções, fracassos dolorosos e inadaptações. Porém, o meu interesse teórico pelo desenvolvimento embriológico só adquiriu forma consistente através da leitura dos artigos, bem como da obra Embryos and Ancestors (1958), de Gavin de Beer que clarificavam o alcance dos factos embriológicos sobre o problema da evolução, a partir da utilização feita por Darwin das leis de von Baer para mostrar a importância da embriologia na determinação das afinidades dos organismos. O estudo do desenvolvimento do embrião humano não é nada fácil, nem para o biólogo ou médico, nem para o filósofo. A história da teoria atómica da matéria encontra-se intimamente ligada à história do pensamento biológico. Dado o seu carácter não teleológico, o atomismo grego constituía um obstáculo para o pensamento biológico, tendo desencadeado uma reacção de desprezo em três grandes nomes da biologia: Aristóteles, Galeno e Harvey. O atomismo de Leucipo e de Demócrito não só ofendia a intuição biológica de Aristóteles, como também era totalmente adverso à metafísica teleológica que discutiu - durante quase duas décadas - na Academia de Platão. Como era possível uma teoria atómica da embriologia? Convencido de que o mundo inteiro era um embrião gigante, Aristóteles defendeu que as explicações do macrocosmos eram suficientes para compreender o desenvolvimento do microcosmos. Aristóteles não fazia nenhuma distinção real entre a física e a biologia: ambas eram aspectos de uma única ciência da natureza e os seus mundos tendem para um fim. O predomínio do paradigma embriológico no pensamento aristotélico manifesta-se desde logo na sua noção de movimento, elaborada a partir do desenvolvimento do organismo: o actual antecede o potencial significa que a galinha é antes do ovo ou que o homem é anterior à criança. Todo o desenvolvimento é desenvolvimento para um fim: a análise embriológica do conceito de causa em Aristóteles mostra claramente a prioridade dada ao adulto sobre o embrião e a idade juvenil. Aristóteles ridicularizava todos aqueles que, como os atomistas, sugeriam que as formas do corpo vivo se desenvolviam por acaso ou coincidência: as especializações corporais não eram obra do acaso, mas resultado de um processo de desenvolvimento activado pela forma (morfologia): a forma adulta desloca e faz mover a forma juvenil, a actualidade arranca a crisália do meramente potencial, originando a implementação do que existe em potência. A biologia aristotélica é uma fabulosa construção teórica que serviu de referência a todo o pensamento biológico posterior. E foi, para a defender do assalto mecanicista, que Maupertius (1756) rejeitou todas as explicações fisicalistas do desenvolvimento embrionário, alegando que a formação de um corpo organizado não pode ser explicada pelas propriedades físicas da matéria. A ideia de um embrião mecânico - o fio condutor deste estudo - chocava não só a sensibilidade de Aristóteles como também a sensibilidade dos seus inúmeros discípulos, de Galeno até Driesch, passando por Harvey e Maupertuis.

Teoria da epigénese de William Harvey. William Harvey descobriu a circulação do sangue e, juntamente com René Descartes, é considerado como um dos fundadores da moderna fisiologia. Mas a sua ligação a Aristóteles não lhe permitiu ir tão longe quanto Descartes na formulação de uma fisiologia mecanicista. No campo da embriologia, Harvey conservou uma perspectiva profundamente aristotélica: a convicção de que o raciocínio teleológico é fundamental para o conhecimento da embriologia atravessa toda a obra que dedicou ao estudo do desenvolvimento - Exercitaciones de Generatione Animalium (1651), onde descreveu o desenvolvimento embrionário não só de mamíferos e de vertebrados, mas também de todo o reino animal. A sua descrição do desenvolvimento do embrião da galinha ainda merece ser revisitada, bem como a sua visão de que todas as formas vivas derivaram inicialmente de ovos, omne vivum ex ovo. De certo modo, com esta visão geral, Harvey antecipou no século XVII a famosa declaração de Virchow no século XIX: omnis cellula e cellula. Para clarificar a sua teoria epigenética do desenvolvimento, vou traduzir livremente um texto de Harvey, onde reconhece a sua dívida em relação a Aristóteles: «Tão-pouco estão menos enganados aqueles que fazem todas as coisas de átomos, como Demócrito, ou de elementos, como Empédocles. Como se a Geração não fosse nada no mundo, mas uma mera separação ou Colecção ou Ordem de Coisas. Em definitivo, não nego que, para a Produção de uma coisa a partir de outra, sejam necessárias essas coisas que mencionei, mas a Geração em si é uma coisa bastante diferente de todas elas. (Aristóteles é desta mesma opinião) e eu próprio procuro elucidá-la a cada instante, que todas e cada uma das partes do pinto, quer se trate de Ossos, Mandíbulas, Carne ou o que quer que seja, são procriadas e alimentadas a partir da mesma Clara de Ovo. Além disso, aqueles que argumentam desta maneira - os atomistas - assinalam somente uma causa material, deduzindo as causas das Coisas Naturais de uma involuntária e causal concorrência dos elementos ou de diversas disposições ou realizações de Átomos; não alcançam o que se encontra fundamentalmente implicado nas operações da Natureza e na Geração e Nutrição dos animais, a saber o Agente Divino e Deus da Natureza, cujas operações são dirigidas pelo Supremo Artífice, Providência e Sabedoria, e todas as obras tendem para um determinado fim e todas são produzidas para algum bem certo.» A abordagem de Harvey dos fenómenos embriológicos é epigenética: os órgãos do galo ou da galinha adultos formam-se progressivamente, surgindo a partir de uma «clara de ovo» inicialmente indiferenciada. Os sucessores de Harvey abandonaram esta perspectiva epigenética e, com a ajuda do microscópio, aplicaram o esquema da fisiologia mecanicista ao estudo do desenvolvimento embrionário.

Teoria da preformação. Durante a segunda metade do século XVII, os embriologistas começaram a utilizar o microscópio para observar os fenómenos embriológicos: as suas observações microscópicas deram início a uma controvérsia científica que durou quase um século. No centro desta controvérsia científica, estava a compreensão do modo como os organismos se reproduzem: Como surge um novo indivíduo da união dos seus progenitores? Era o sémen do macho que dava forma à matéria indiferenciada da fêmea, como defendiam Aristóteles e os seus sucessores escolásticos? Ou a mãe também contribui para a formação da sua descendência, como defendiam Hipócrates, Empédocles e Demócrito? O sistema reprodutivo tinha sido estudado com grande interesse no decurso dos séculos XV e XVI que protagonizaram a ressurreição da anatomia: Leonardo da Vinci realizou brilhantes investigações anatómicas do corpo humano, e Fallopio, além de ter dado o seu nome às trompas de Falópio, forjou, em 1561, os termos "vagina" e "placenta". O mestre de Harvey, Fabricio, investigou o feto e o desenvolvimento dos ovos das aves. Os folículos ováricos foram descritos pela primeira vez por Steno e de Graaf em 1672, e, em 1676, Leeuwenhoek expôs as suas observações de «imensas quantidades de animalzitos vivos» no fluído seminal humano perante o auditório da Royal Society. Em 1862, von Baer forjou o termo "espermatozóide" para designar a estranha população de pequenos animais fecundos observada por Leeuwenhoek. Apesar da observação da fertilização (fecundação) de um ovo (óvulo) pelo espermatozóide só ter sido realizada por Hertwig em 1875, a comunidade científica e filosófica, logo após as comunicações de de Graaf e de Leeuwenhoek, já estava convencida de que um tal acontecimento estava na raiz da reprodução sexual, sendo levada a questionar a pertinência das noções aristotélicas e escolásticas da concepção. Quando e como intervinha a alma para dar forma ao embrião em desenvolvimento? Se o sémen era composto por pequenos animais fecundos, todos eles e cada um deles transportavam a alma? E, se fosse assim, donde tinham obtido tão preciosa carga? Ter-lhes-á sido oferecida no acto inicial da criação, aguardando desde então a sua oportunidade para viver no macrocosmos, ou era antes o ovo que continha o princípio vital? Swammerdam (1669, 1737), um entomologista versado no uso do microscópio, defendeu a ideia de que o insecto perfeito jaz plenamente formado dentro da pele da ninfa e da crisália. Para Swammerdam, a larva não passava primeiro a crisália e, depois, a crisália a animal com asas: o que ele observava era que o próprio animal, mudando a sua pele, se constituía primeiro em ninfa ou crisália e depois em animal adulto com asas, tal como sucedia com os girinos. Todo o processo de desenvolvimento se resumia nos conceitos de preformação, preexistência e emboîtement: o adulto formava-se em virtude da expansão das partes já formadas. Em 1694, Hartsoeker desenhou um homúnculo espermático para ilustrar o conceito de que o homem completo se encontrava em miniatura dentro de um espermatozóide. Porém, nem todos os preformacionistas eram animaliculistas: os ovulistas observavam ao microscópio indivíduos minúsculos no interior dos folículos. Bonnet (1769), Malebranche (1672) e Leibniz (1714) ajudaram a expandir e a difundir a teoria da preformação, seduzindo todos os cientistas com inclinações teológicas que a utilizavam para justificar o pecado original. Aliás, a melhor descrição da articulação entre preformação e emboîtement encontra-se na obra-prima de Malebranche: «Uma só semente de maçã contém todas as maçãs e todas as macieiras de uma infinidade ou quase infinidade de séculos». Para Malebranche, a primeira fêmea de cada espécie continha dentro de si todos os indivíduos subsequentes da sua respectiva espécie.

Quando bem pensados, os conceitos de emboîtement e de preformação continham sérias dificuldades internas, a primeira das quais era de ordem teológica: Se cada animalículo, cada ovo que se observava ao microscópio, continha de facto um homem ou uma mulher perfeitamente acabados, esperando simplesmente o seu crescimento para tomar parte nos assuntos do grande mundo, que seria feito dos incontáveis animalículos e ovos que não conseguiram entrar no mundo? Estariam condenados estes minúsculos homens e mulheres a morrer sem terem nascido? O optimismo do século XVIII recusava um tal destino cruel, preferindo elaborar teorias fantásticas para dar uma nova oportunidade aos inúmeros ovos e espermatozóides que não tinham sido bem-sucedidos. Uma dessas teorias supunha que eles escapavam para a atmosfera, onde hibernavam até voltar a ser chamados para desfrutar da sua oportunidade na competição por um lugar sobre a terra. Além desta dificuldade de fundo que atormentava a teologia, havia outras dificuldades mais mundanas, das quais destacamos três relativas à explicação dos híbridos, da regeneração e dos monstros. Como é que a teoria da preformação poderia explicar os híbridos, a regeneração e os monstros? A comunidade científica sabia que a descendência era semelhante aos dois progenitores. Então como explicar este facto óbvio a partir do conceito de preformação? Perrault invocou a imaginação materna, sugerindo que esta podia afectar de algum modo a abundância de alimentação recebida pelo homúnculo em crescimento. Apesar de ser surpreendentemente exótica, a explicação de Perrault foi aceite até aos finais do século XVII. (E penso que, no campo da medicina veterinária, foram feitas observações invulgares em cadelas que apontam para um fenómeno idêntico à imaginação maternal, que provavelmente terá uma explicação psico-neuro-hormonal.) A comunidade científica sabia que, quando se corta a cauda a um lagarto, ela volta a crescer de novo, e que, quando um caranguejo perde uma pinça, ela regenera-se. Como explicar estas observações à luz da teoria da preformação? Os preformacionistas dispunham de duas explicações: uma delas seria considerar que se formavam nestas partes germes tão pequenos que podiam ser distribuídos sem ser vistos por todo o corpo do animal. Reamur (1741) elaborou a ideia de uma alma divisível em paralelismo com o corpo divisível para explicar a regeneração, mas acabou por reconhecer que o problema não tinha solução à luz do conceito de preformação. Quanto ao nascimento de monstros, fenómeno bem conhecido pela comunidade científica, a teoria da preformação procurou explicá-lo a partir de um acidente do processo de crescimento ou como consequência de uma enfermidade. Porém, a própria ocorrência de nascimentos monstruosos constituía uma afronta à crença da omnipotência de Deus que proporcionava à teoria da preformação - tão próxima das escolas teológicas da predestinação! - grande parte da sua força psicológica. Apesar dos factos biológicos não se submeterem ao seu esquema conceptual e à sua ideia-força de que a estrutura e a organização do adulto estavam já presentes no embrião, a teoria da preformação vigorou durante quase um século, tendo dominado a mente dos embriologistas desde a descoberta dos espermatozóides (1672) até aos anos 60 do século XVIII. O facto de concordar com a teoria teológica da predestinação e com as tendências da filosofia mecanicista da época ajuda a compreender o seu sucesso entre os membros da comunidade científica: o conceito de um embrião mecânico permitia pensar a embriologia em conformidade com os princípios da fisiologia mecanicista predominante. O conceito de desenvolvimento embrionário como escalada de crescimento de uma máquina (inicialmente) em miniatura só foi abandonado quando a filosofia mecanicista começou a declinar em meados do século XVIII, tendo sido substituída pelas filosofias românticas da natureza. A Naturphilosophie que se desenvolveu no início do século XIX contra a visão mecanicista do mundo teve um impacto enorme sobre a embriologia: o conceito de matéria inerte que obedece às leis da mecânica cedeu o seu lugar à ideia de que a matéria continha um princípio elástico, vital ou mesmo divino, em contínuo funcionamento. Como não pretendo analisar os princípios fundamentais das filosofias da natureza, limito-me a chamar a atenção para o importante contributo biológico de Goethe, que, além de ter forjado o termo "morfologia" em 1786, deu início ao estudo da morfogénese - termo que só aparece em 1868, com a publicação da sua obra Sobre a Morfologia, a Formação e a Transformação dos Seres Orgânicos (1817-22).

Controvérsias científicas do século XIX. A teoria da preformação encontrou o seu ultimo paladino em Albrecht von Haller, que, no último volume da sua obra Elementa Physiologiae Corporis Humani (1766) afirma que a epigénese é absolutamente impossível - epigénesis omnino impossibilitis est. Curiosamente, antes de ser preformacionista convicto, Haller tinha sentido uma forte «inclinação pela epigénese», mas o seu trabalho sobre o desenvolvimento do coração dos galináceos (1758) levou-o a abraçar a teoria da preformação, cujos conceitos fundamentais foram destruídos por Gaspar Friedrich Wolff. A partir do estudo microscópico do embrião da galinha, Wolff distanciou-se da filosofia mecanicista do século XVIII para remontar a Aristóteles e a Harvey, de modo a demolir a teoria preformativa do seu contemporâneo Haller que desvalorizava - com a sua autoridade - a obra de Wolff, alegando que a razão pela qual ele não podia observar o galo ou a galinha em miniatura no ovo se devia ao baixo poder de resolução dos microscópios da época. Mas Wolff não se intimidou com a autoridade reconhecida de Haller e avançou com os seus argumentos contra a teoria da preformação: Se o embrião estivesse efectivamente preformado dentro do ovo, sendo invisível por causa do seu pequeníssimo tamanho, então, quando começasse a tornar-se visível, deveria aparecer já plena e perfeitamente formado. Para apoiar a sua hipótese e desmentir a hipótese adversária, Wolff estudou o desenvolvimento dos vasos sanguíneos do embrião da galinha: as suas observações mostraram que os vasos sanguíneos se desenvolveram através da fusão de certo número de «ilhas de sangue» inicialmente independentes umas das outras. Além disso, o intestino da galinha, longe de aparecer plenamente formado, desenvolve-se progressivamente mediante o enrolamento de uma lâmina de tecido sobre a superfície ventral do embrião. Estas e outras observações permitiram a Wolff generalizar as suas ideias para defender que, longe de estarem preformados, todos os órgãos do corpo adulto se desenvolveram através de uma epigénese similar. A teoria da epigénese ridicularizada por Haller lançou as bases da moderna embriologia - na sua versão clássica, claro!, ao mesmo tempo que inspirou a biologia romântica dos filósofos da natureza no início do século XIX: a noção preformista do corpo como uma espécie de máquina concluída no momento da criação, latindo através das gerações até ao juízo final, era demasiado tosca para servir como paradigma explicativo do processo vital.

Com a entrada da embriologia no século XIX, a teoria da preformação sofreu um golpe mortal graças à obra de Karl Ernst von Baer - Ueber Entwicklungsgeschichte der Thier (1828-1837). H. C. Pander, colega de von Baer, tinha realizado uma monografia (1817) sobre o desenvolvimento da galinha (frango doméstico), onde mostrava que um dos primeiros acontecimentos era a diferenciação da blastoderme em três camadas ou estratos de células: a endoderme (pele interna), a mesoderme (pele intermédia) e a ectoderme (pele externa), tal como as designamos hoje em dia (Remak, 1845). Von Baer generalizou a teoria das três camadas germinais de Pander para explicar o desenvolvimento dos vertebrados em geral, mas a sua análise do desenvolvimento embrionário deu um novo passo em frente ao frisar que ele vai do geral ao particular. O pinto começa por ser simplesmente um vertebrado, a seguir converte-se em vertebrado de respiração aérea, depois em ave, mais tarde em ave terrestre, logo a seguir em ave galinácea e, por fim, em frango doméstico. Apesar da proximidade com as ideias evolucionistas de Haeckel, em especial a sua teoria da recapitulação, convém dizer que von Baer nunca aceitou a teoria da evolução: a "lei biogenética" de von Baer - segundo a qual o embrião se diferencia a partir de um começo generalizado - foi elaborada para refutar o conceito de preformação, ou seja, a ideia de que o ovo ou o esperma contém em estado de latência um homúnculo perfeitamente diferenciado que aguarda o estímulo adequado para aumentar de tamanho. Mas, como sucede frequentemente na história das ciências, as vitórias nem sempre são definitivas. Em 1888, Wilhelm Roux, o fundador da embriologia analítica ou, como ele lhe chamou, entwicklungsmechanik, realizou uma experiência em que, após ter dividido uma célula do embrião da rã em duas células, observou que cada uma das células separadas desenvolveu um meio-embrião. Ora, tal como Aristóteles, Roux reduzia todo o conhecimento ao conhecimento das causas, mas, ao contrário do mestre grego, não levava em conta as causas finais, interessando-se unicamente pelas causas eficientes e pelas causas materiais. Por isso, interpretou os resultados da sua experiência à luz da mecânica do desenvolvimento: a anatomia do futuro organismo já estava desenhada na substância do zigoto e, talvez, na substância do ovo, o que dava novamente razão a Haller contra Wolff e von Baer. Porém, este recrudescimento serôdio da teoria da preformação foi efémero, porque, logo a seguir, se demonstrou que, se o blastómero dividido for separado do seu vizinho, este último se desenvolvia dando lugar a um embrião completo, ainda que só tivesse metade do tamanho normal: a ideia de Roux - a divisão do zigoto divide o homúnculo latente - estava completamente errada. Em 1892, Driesch, após ter realizado experiências sofisticadas sobre o embrião do ouriço-do-mar que lhe permitiram obter embriões normais de blastómeros divididos tomados das etapas de 2, 4, 8, 16 ou mesmo de 32 células da blástula deste animal, escreveu que a teoria de Roux das «áreas germinais formadoras de órgãos» deve «ser descartada, pelo menos na sua forma geral», voltando a dar a vitória à teoria da epigénese.

A enteléquia de Driesch e o paradigma psicológico. Jacques Monod criticou severamente os animismos e os vitalismos - o vitalismo metafísico de Bergson e vitalismo cientista de Driesch e de Elsässer, que pressupõem a hipótese inversa à da biologia molecular tal como a interpretou: em vez de encararem a aparição, a evolução e o aperfeiçoamento progressivo das estruturas cada vez mais intensamente teleonómicas como resultado de perturbações ocorridas numa estrutura possuindo já a propriedade de invariância, capaz de conservar o acaso e de submeter os seus efeitos ao jogo da selecção natural, os vitalismos defendem um princípio teleonómico inicial, do qual todos os fenómenos vivos seriam manifestações. Porém, Monod descarta-se do vitalismo de Hans Driesch, alegando que ele trocou a embriologia pela filosofia. Embora seja verdade que abandonou a biologia para ensinar filosofia em Leipzig, Driesch realizou experiências engenhosas sobre o embrião do ouriço-do-mar - alterando as posições relativas dos blastómeros - para elucidar os mecanismos em acção durante o desenvolvimento. No início, procurou proporcionar uma explicação mecanicista para as suas observações, tendo publicado em 1891 a sua obra Mathematico-mechanistic Investigation of the Problem of Morphology in Biology, mas, com o decorrer do tempo, deixou de acreditar que um mecanismo pudesse explicar os resultados do seu trabalho experimental. Quando apresentou as suas Gifford Lectures de 1907-08, publicadas com o título The Science and Philosophy of Organism, Driesch demonstrou que não havia nenhum mecanismo capaz de explicar os fenómenos da morfogénese. Para Driesch, a máquina era «uma configuração típica de constituintes físicos e químicos através de cuja acção se chegava a um efeito típico»: as suas experiências sobre o embrião do ouriço-do-mar destruíam claramente esta configuração maquínica, mostrando que a vida não podia ser vista como «uma disposição especializada de acontecimentos inorgânicos». A física e a química não eram aplicáveis à biologia. Para Driesch, a biologia era uma «ciência independente»: o factor - algo de imaterial que actua sobre os corpos materiais - de que eram dotados os organismos vivos e que nenhum objecto inanimado possuía era a enteléquia. Porém, o conceito de enteléquia não seduziu nenhum embriologista ou biólogo. Permanecendo fiel ao seu impulso cartesiano, a biologia continuava a aguardar a sua redução à química e à física. A embriologia experimental e analítica continuou o seu caminho em direcção a uma teoria mecanicista da epigénese, como testemunham os trabalhos de Hans Spemann e Theodor Boveri. Os embriologistas, em especial Boveri, sonhavam com o dia em que «a análise morfológica fosse levada até ao ponto em que os seus elementos últimos fossem entidades químicas específicas». Ora, esse dia sonhado por Boveri chegou, em plena metade do século XX, quando Watson & Crick (1953) descobriram a solução para a estrutura do ADN (ácido desoxirribonucleico), e Kendrew e Perutz decifraram as estruturas das primeiras proteínas globulares - a mioglobina e a hemoglobina. Em 1976, James D. Watson publicou a sua obra Molecular Biology of the Gene (3ª. Edição), uma das primeiras obras da biologia molecular.

Evolução da teoria da matéria e a embriologia molecular. A biologia molecular - tal como a definiu François Jacob (1966) - procura interpretar os fenómenos que se desenrolam no seio dos organismos vivos em função das estruturas e das interrelações funcionais que se manifestam entre os constituintes macromoleculares da célula. Não se trata tanto de uma nova ciência biológica, marcadamente molecular e celular, mas sobretudo de um novo paradigma científico (Kuhn) que orienta todas as pesquisas dos fenómenos biológicos, incluindo os fenómenos embriológicos, em todos os domínios das ciências biomédicas. Com a emergência da biologia molecular, aparece a embriologia molecular que se propõe dar conta da diferenciação embrionária em função das propriedades químicas e físicas das macromoléculas - ácidos nucleicos e proteínas - constitutivos de cada tipo celular, de modo a elucidar a morfogénese: Como é que um ovo fecundado, que recebeu os seus genes do seu pai e da sua mãe, pode dar origem a todos os órgãos que estão presentes no adulto? Nesta secção final, não pretendo elucidar - pelo menos de modo sistemático e exaustivo - o desenvolvimento embrionário em função deste novo paradigma da genética molecular: o meu objectivo é clarificar os passos fundamentais que possibilitaram o seu aparecimento, em ligação com a evolução da teoria atómica da matéria, sem perder de vista o fio condutor deste estudo - a concepção do embrião mecânico, o alvo do desdém de Aristóteles e de Galeno. A união da morfopoiesis e da química, que se tornou evidente no último terço do século XX, deve-se tanto ao desenvolvimento da química como ao desenvolvimento da biologia. O conhecimento da natureza das ligações químicas que ocorreu durante o século XX não só clarificou o modo como os átomos se unem para formar moléculas, como também destruiu o antigo antagonismo entre a física atómica e a biologia. Em 1897, J. J. Thomson descobriu os electrões e, em 1911, Rutherford demonstrou que eles davam voltas em órbita ao redor de um núcleo atómico central de carga positiva. Em 1913, Bohr publicou o seu modelo da estrutura electrónica dos átomos que só deixou de ser enigmático na década de 1920, quando de Broglie (1923) sugeriu que, tal como a luz, as partículas da matéria deviam exibir propriedades ondulatórias, além das propriedades corpusculares. Em 1926, Schroedinger desenvolveu a ideia de de Broglie numa teoria matemática: a mecânica ondulatória que introduz uma mudança radical na visão fisicalista do mundo, unificando a física das partículas e a física das ondas. Doravante, a matéria exibe tanto propriedades de ondas como propriedades corpusculares. Ao nível subatómico os fenómenos devem ser interpretados nuns casos como devidos a partículas subjacentes, e noutros casos como devidos a ondas subjacentes. Esta dualidade inscrita na própria matéria permite resolver a antiga dicotomia entre os átomos e o vazio: uma partícula pode ser considerada, para muitos propósitos, como algo que se estende no espaço como uma onda.

Ora, esta transformação das bases do pensamento físico alterou completamente a biologia: a mecânica ondulatória permite explicar as ligações entre os átomos para formar moléculas, o caso mais elementar de morfopoiesis, sem recorrer aos velhos modelos de átomos semelhantes a bolas de bilhar em miniatura. A imagem newtoniana de partículas sólidas, maciças, consistentes, impenetráveis e móveis dá lugar à imagem de uma gota de líquido: a noção de que os átomos - as ondas de electrões associadas aos electrões valência, se unem ou se fundem para abraçar o núcleo dos átomos implicados harmoniza-se com a ideia morfológica da forma orgânica. As moléculas da vida - as biomoléculas - podem ser visualizadas, não como um emaranhado de partículas discretas impenetráveis, mas como formas tridimensionais complexas cuja densidade varia de uma parte a outra. A descoberta das estruturas tridimensionais da hemoglobina e da mioglobina (M. F. Perutz, 1962) selou o destino da biologia: a imagem do mundo de Demócrito reformulada pela nova física triunfou em todos os domínios da biologia, não só no domínio da morfologia e da anatomia, onde emergiu a biofísica, e no domínio da fisiologia, capturado pela bioquímica, mas também no domínio da embriologia. O antagonismo exibido por Aristóteles, Galeno, Harvey e Maupertuis em relação ao atomismo de Demócrito foi resolvido a favor deste último: Como é possível um embrião mecânico? A resposta requer - como é evidente! - o mecanismo adicional da evolução darwiniana: as proteínas globulares enrolam-se automaticamente nas suas complexas configurações tridimensionais quando são colocadas no meio físico-químico adequado. Neste caso, a morfopoiesis resulta da interacção de múltiplas forças físicas de curto alcance. Além disso, as moléculas biológicas consistem num determinado número de subunidades que se empurram umas às outras até ligarem entre si as superfícies complementares. Também neste aspecto a morfopoiesis surge unicamente de interacções físicas. A seguir temos a formação de estruturas consistentes em duas espécies de moléculas diferentes, tal como sucede na morfogénese de componentes celulares. Nos ribossomas e nos vírus (elementos genéticos móveis), as espécies moleculares implicadas são proteínas e ácidos nucleicos. O caso do bacteriófago T4 que infecta a E. coli - estudado por Wood & Edgar (1967) - ajuda-nos a compreender esta capacidade de morfogénese espontânea. Este vírus bacteriano - abreviadamente, fago - compreende uma cabeça, uma cauda, um plano de cauda e filamentos de cauda: a cabeça possui uma espiral de ADN contida dentro de uma cápsula de proteínas globulares. Quando parasita uma bactéria, o bacteriófago injecta-lhe o seu ADN que, uma vez dentro da célula hospedeira, começa a programar a maquinaria de síntese de proteína bacteriana de modo a que possam ser sintetizados também os novos componentes do vírus bacteriófago. Dos cem genes que estão presentes na cabeça do bacteriófago, quarenta desses genes parecem estar profundamente envolvidos na morfogénese e são eles que programam a síntese dos componentes bacteriófagos. O facto destes componentes se ligarem de forma espontânea mostra que, mesmo a este nível mais complexo, a morfogénese se deve simplesmente a forças físico-químicas. A biologia molecular abriu uma brecha profunda no sistema aristotélico: investigar o desenho dos componentes morfopoiéticos é investigar os mecanismos da evolução molecular. O curso temporal do processo morfogenético é explicado em termos da rede complexa de circuitos moleculares de controle que se desenvolveram dentro da célula, onde operam a vários níveis, desde o mecanismo de retro-alimentação de Jacob e Monod que controla a expressão da informação genética até ao nível em que essa informação é «traduzida» na estrutura das moléculas de proteína, para já não falar dos controles que governam a quantidade de metabolitos sintetizados. Todo este sistema integrado de controles assegura a organização do processo de morfogénese, ao mesmo tempo que permite à célula adulta operar como um sistema integrado. Deste modo, graças à cibernética e à teoria do controle, o carácter teleológico dos processos vivos que tanto impressionou os biólogos e os filósofos da natureza começa a ser explicado em termos de sistemas integrados de controle, sem recorrer às causas finais de Aristóteles, isto é, a um princípio teleonómico inicial. Jacques Monod resumiu tudo isto nesta feliz expressão: «a invariância precede necessariamente a teleonomia». Ou, como prefere dizer S. E. Luria: «A vida é diferente de todos os outros fenómenos naturais: ela tem um programa», inscrito numa substância única - os genes.

Chegámos ao fim deste estudo da evolução das ideias e das teorias da embriologia ao longo dos últimos quatro séculos. Falta-nos dar uma resposta a esta pergunta: o que aconteceu com a controvérsia entre preformacionistas e epigeneticistas depois que surgiu a embriologia molecular? Hoje vemos que os dois campos do debate tinham, cada um deles, alguma razão. É certo que as células germinais não contêm um homúnculo plenamente formado, mas contêm, inscrita no seu ADN, uma representação do plano básico deste homúnculo. O embrião não surge de um protoplasma homogéneo e não-estruturado, mas se diferencia a partir de um material indiferenciado que está sob o controlo de instruções internalizadas nas moléculas de ADN. Os séculos XVIII e XIX careciam de uma apreciação das ciências dos computadores e da informação, que hoje já não nos permitem considerar os processos embriológicos como milagres que escapam ao esquema conceptual da física.

J Francisco Saraiva de Sousa

terça-feira, 5 de julho de 2011

Prós e Contras: A Questão da Dívida


Escolhi esta imagem da passagem do metro na Ponte D. Luís I (Porto) como imagem de fundo do debate Prós e Contras de hoje (4 de Julho) para incentivar o uso dos transportes públicos. "Muita lábia e pouca acção": eis como podemos resumir-reduzir todos os debates da televisão portuguesa, encabeçada desde logo pelos canais privados (SICNotícias e TVI24). Os jovens - sim, os da plateia! - que Fátima Campos Ferreira convidou fizeram uma triste figura: "Oh, que gado humano tonto! Até já vai pelos seus próprios pés para os matadouros do desemprego e da miséria!" Carlos Carvalhas dominou completamente os seus adversários de classe - os economistas neoliberais, o que significa que os apologistas do capitalismo financeiro global - António Pires de Lima, Leonardo Mathias, João Cantiga Esteves e João Carlos Barradas - não estão convictos da capacidade das novas políticas do governo de coligação PSD-CDS - sempre "as mesmas falsidades" (Carlos Carvalhas)! - para superar a crise estrutural nacional. Costumo escutar as entrevistas de Cantiga Esteves na SICNotícias e detectei que ele retoma o discurso de José Sócrates - o seu inimigo de estimação! - para defender o actual governo, livrando-o de futura responsabilidade pela derrota de Portugal quando acentua a natureza externa da crise. O discurso que ontem - no tempo do governo socialista - foi mentira é agora verdadeiro! Mas quem nos garante que Cantiga Esteves está a dizer toda a verdade? Vejamos com mais pormenor estas flutuações discursivas-ideológicas dos economistas portugueses que não ajudam a descobrir novas alternativas económicas. João Ferreira do Amaral é o único economista português que ousa pensar - pelo menos academicamente - novas alternativas económicas, propondo a saída de forma organizada de Portugal da zona Euro. O abandono ideológico do discurso do atraso histórico de Portugal em relação à Europa do Norte mais desenvolvida é nefasto para o nosso futuro, revelando a incapacidade dos dirigentes portugueses para governar o país e fazer dele uma nação desenvolvida. Quando os destinos da nação estavam nas mãos do governo socialista, os economistas televisivos negavam a componente externa da crise portuguesa, responsabilizando José Sócrates pela bancarrota. Mas depois da vitória do PSD nas últimas eleições esqueceram o carácter estrutural e histórico da crise portuguesa para acentuar unicamente a sua componente externa. Assim, por exemplo, Carlos Barradas condenou a arquitectura do Euro que subjuga os países periféricos aos interesses da banca franco-alemã, Leonardo Mathias criticou o actual enquadramento europeu, e Cantiga Esteves afirmou que a Europa não se preparou para a globalização. António Pires de Lima chegou mesmo a dizer que o problema da dívida não é português, mas sim europeu. Não estou a negar o momento de verdade destas declarações para dar ênfase ao seu momento de falsidade; o que estou a fazer é chamar a atenção para a mudança de discurso económico que ocorreu quando o PSD assumiu as rédeas do poder. A mentira de ontem é hoje verdade: é isto que não compreendo! A situação portuguesa não melhorou desde que o governo de coligação da Direita tomou posse: os juros da dívida continuaram a subir e o PEC 5 - o corte no subsídio de Natal - não será suficiente para resolver o problema do défice português. O que sei é que o Ministério das Finanças se prepara para assaltar a bolsa dos portugueses, incluindo aqueles que não contribuíram para o endividamento nacional, sugando-lhes todo o sangue, para no final estarmos mais pobres do que estamos hoje. Sacar o pouco dinheiro que as pessoas têm para saciar a fome e pagar as suas contas mensais da água, da luz, do gás, do telefone e da televisão-Internet - todas elas autênticos roubos! - é simplesmente um crime. A maior parte dos portugueses são obrigados a dar ao Estado-Opressor aquilo que não têm - Dinheiro. O Estado-Arbitrário quer roubar-nos para pagar as suas dívidas públicas e as dívidas dos privados. Em vez de nos proteger, racionalizando os serviços públicos sem os privatizar, o Estado-Alucinado que governou mal rouba-nos para satisfazer a gula dos mercados financeiros. Afinal, para que precisamos deste Estado capturado por uma rede feudal de conexões corruptas? É certo que Portugal é responsável pela seu endividamento, mas estes juros pornográficos da dívida reflectem a exploração dos países periféricos pelos bancos do Norte da Europa. A União Europeia é uma armadilha imperialista conspirada pelo eixo franco-alemão para explorar os países mais fracos: as relações de classe que se observam no interior de um país projectam-se no plano europeu nas relações assimétricas de poder e de exploração entre o Norte-Colonizador e o Sul-Colonizado. O capitalismo selvagem gera guerras imperialistas e a Europa parece caminhar para a sua III Guerra Mundial. A grande promotora das duas primeiras guerras mundiais, a Alemanha, quer guerra e, nesta guerra, os árabes vão participar. (A agência de notação Moody´s baixou o rating da dívida pública portuguesa: Hoje Portugal é lixo! No Ocidente, a democracia tornou-se uma figura da falsidade: o poder político está completamente cativo do poder económico e financeiro que age na sombra. O destino de Portugal e da Grécia foi selado! E o fim das golden shares da Galp, EDP e PT confirma a vitória desse estranho poder anti-democrático.)

O primeiro confronto deste debate ocorreu entre Carlos Carvalhas e Pires de Lima. Depois de ter referido alguns problemas da sociedade portuguesa, tais como a estagnação económica, o desemprego e os desequilíbrios assustadores de rendimento, Pires de Lima reconheceu que vamos viver tempos muito difíceis e exigentes, mas não piores do que os tempos já vividos. Porquê? Porque chegou a altura de dar sinais de esperança, em vez de fazer o discurso da desgraça. Ora, foi neste terreno que Carlos Carvalhas entrou no debate, afirmando que o problema não é o discurso da desgraça sem sinais de esperança, mas a ausência de realismo no discurso económico neoliberal. Para Carlos Carvalhas, o governo de Passos Coelho não é diferente do governo de José Sócrates: ambos procuram resolver o problema da banca à custa dos contribuintes, aumentando os impostos e reduzindo neste momento o subsídio de Natal. Carlos Carvalhas recorreu às previsões do FMI para mostrar que, seguindo estas políticas de controlo do défice impostas pela troika, as taxas de crescimento económico serão em 2016 inferiores às actuais, o que quer dizer que a dívida portuguesa é impagável e, com estes juros elevados que os mercados financeiros nos cobram, vamos pagar em 2016 o dobro da dívida. Sem a renegociação da dívida, as políticas de controle do défice comprometem o crescimento económico de Portugal. Pires de Lima aceitou que o problema fundamental de Portugal é o do crescimento económico, mas tentou embaraçar Carlos Carvalhas fazendo referência ao preâmbulo da Constituição que aponta para a construção de uma sociedade socialista. Bem, Pires de Lima devia ler as obras económicas do marxismo, fazendo abstracção do comunismo, porque elas ajudam a clarificar a actual crise do capitalismo. Esta incapacidade para analisar com realismo a situação económica, social e política do país no contexto do mundo global evidencia-se no discurso de Cantiga Esteves: o modelo económico português falhou por três razões - excesso do peso do Estado, diminuição crescente do PIB e a crença de que o motor da economia é o investimento público. Cantiga Esteves usou Keynes contra os seus defensores: a presença do Estado justifica-se em períodos de crise e de recessão, mas não nos períodos de normalidade, em que o Estado deve sair da economia, entregando-a à iniciativa privada. Mas afinal vivemos num período de crise ou de normalidade? A receita neoliberal de Cantiga Esteves supõe que vivemos num período de normalidade, porque quer privatizar tudo, mesmo correndo o risco de entregar aos estrangeiros - a baixo custo! - as nossas grandes empresas. Porém, este deslize da argumentação de Cantiga Esteves não deve desviar a nossa atenção do núcleo duro da sua proposta. Para continuarmos a fazer parte do clube europeu do Euro, Cantiga Esteves defende que o governo português deve fazer o seu trabalho de casa, comportando-se como um bom aluno: Passos Coelho deve encarnar a figura de Cavaco Silva e implementar as políticas recessivas que nos lançaram e laçam no abismo. E não foi o bom aluno por excelência que iniciou a política de destruição do nosso tecido produtivo, levando-nos a viver acima das nossas possibilidades? Os grandes capitalistas sempre "comeram" os pequenos capitalistas e, nesta lógica do capital, Portugal continuará a ser comido pelos países do Norte: a política do bom aluno que obedece às ordens do mestre canibal é - foi e será! - a política do suicídio nacional. Inicialmente, Pires de Lima defendeu uma proposta aparentemente semelhante - a racionalização da despesa pública para dar sinais de confiança ao investimento estrangeiro, mas o seu bom-senso - e, para mim, Pires de Lima é inegavelmente um homem de bom-senso! - levou-o a reconhecer que o nosso problema fundamental é o do crescimento económico, que Cantiga Esteves ilude quando afirma dogmaticamente que devemos viver em função da riqueza que produzimos. Certo, Portugal não pode viver acima da riqueza efectiva que produz, estilo de vida artificial responsável pelo endividamento, mas esta riqueza que não produzimos justifica os salários milionários dos gestores públicos e privados? Certo, o Estado português tem um peso excessivo na economia e na sociedade - e isto é uma constante ao longo da nossa história, mas onde está o investimento privado? Certo, a economia precisa dos bancos para criar empresas e gerar empregos, mas onde investiu até hoje a banca portuguesa? Na economia ou no crédito ao consumo? Em Portugal, nada funciona bem e, se quisermos fazer o discurso da verdade, do rigor e da transparência, como diz defender Cantiga Esteves, não podemos mudar de perspectiva como quem muda de cuecas todos os dias ou várias vezes ao dia. A participação de Fernando Santos - seleccionador nacional da selecção grega - ajudou - mais do que a de Filipe de Meneses (Irlanda) - a iluminar estas irracionalidades do discurso económico oficial que ainda não compreendeu que é o capitalismo que gera estas crises periódicas que sacrificam gerações inteiras ao longo da sua já longa marcha triunfal. Não há diálogo possível - nem sequer futuro - com pessoas que recomendam a mesma receita que nos conduziu ao abismo! O neoliberalismo não se cura a si próprio! É preciso pensar seriamente o nosso futuro sem esta gula ideológica que nos mergulha no nada!

J Francisco Saraiva de Sousa

domingo, 3 de julho de 2011

O que é a antropologia imunitária?

Em 1971, J. Z. Young, professor de Anatomia da Universidade de Londres (University College), escreveu um volumoso tratado de antropologia física - Introdução ao Estudo do Homem, onde advoga uma abordagem unificada e plural do estudo científico do homem. O carácter enciclopédico da obra seduziu o meu espírito unificador que, na altura, procurava unificar o estudo do homem a partir de uma neurobiologia filosófica fundamental, fortemente marcada por outra obra de J. Z. Young - A Model of the Brain (1964). J. Z. Young foi sempre um herói científico para mim, que li todas as suas obras, sobretudo A Vida dos Vertebrados (1950) e A Vida dos Mamíferos (1957). Hoje, passados os anos da minha longa formação académica, regresso às obras deste fabuloso anatomista para encontrar inspiração para redefinir a antropologia imunitária. Qualquer tratado de antropologia biológica ou física integra, pelo menos os mais recentes, como o clássico de A. Portmann, o de André Langaney e sobretudo o de Steve Jones, Robert Martin & David Pilbeam, uma secção sobre os sistemas imunológicos do homem. Mas, como nunca utilizam a expressão antropologia imunitária, posso não só reclamar a sua autoria, como também a sua problemática teórica. O meu objectivo não é tanto estudar a variação química dos sistemas imunológicos no seio de uma mesma população, mas sobretudo utilizar os conhecimentos imunológicos para reformular a antropologia fundamental que é, como já tenho defendido, antropologia filosófica. Quando estabeleci as bases da neurobiologia filosófica, não só conhecia todo o corpo de conhecimentos da imunologia, como é evidente, como também tinha lido o artigo de Niels K. Jerne, onde este imunologista estabelece um paralelo entre o sistema imunitário e o sistema nervoso, paralelo que foi levado em conta por Jean-Pierre Changeux e Gerald M. Edelman na elaboração do darwinismo das sinapses. Porém, como J. Z. Young não prestou muita atenção ao sistema imunitário para além do seu papel na regulação homeostática da vida, acabei por «esquecer» a antropologia imunitária como peça fundamental e estruturante da antropologia fundamental. Foi preciso um encontro com os poetas para recuperar a noção de sem-abrigo, libertando-a da sua significação sociológica para a devolver à antropologia filosófica: o homem como ser-sem-abrigo arrancou subitamente a antropologia imunitária do esquecimento - e eis que revisito o meu ponto de partida, "assombrado-ofuscado-esclarecido" pela polémica entre Arnold Gehlen e Konrad Lorenz. O que procuro hoje para reformular a antropologia fundamental esteve sempre comigo e, curiosamente, esse elo perdido-hoje-achado - porque lhe dei um nome! - operou activamente em todas as teorias que formulei ao longo do tempo: chama-se antropologia imunitária. O conceito hegeliano de homem como morte adiada pode ser lido à luz dos actuais conhecimentos genéticos e imunológicos: a antropologia imunitária é basicamente uma imunologia da morte. Ou, se quiserem, a analítica da finitude assume hoje a forma de uma imuno-genética da morte. A genética do cancro retoma a noção hegeliana do homem como morte adiada quando afirma que o homem tem a tendência natural para se transformar em tumor. Ora, todo o programa científico de pesquisa do envelhecimento foi claramente esboçado-antecipado por Macfarlane Burnet. O facto de hoje estarmos rodeados de pessoas velhas - autênticos tumores ambulantes! - ajuda a tomar consciência deste aspecto nuclear da natureza humana que a geriatria instalada no Ocidente tentou sequestrar da atenção pública para poder exercer o seu domínio corrupto. A filosofia contemporânea que sofre de uma doença auto-imune cognitiva ajudou o poder estabelecido a sequestrar a morte. Porém, apesar de estarem dependentes do financiamento capitalista alheio, as ciências biológicas, biomédicas e médicas desequestraram a morte: a proliferação celular está sob controle genético, e, se mutações somáticas que ocorrem com maior frequência à medida que envelhecemos criarem uma variante que prolifere rapidamente, esse clone tenderá a tomar conta do organismo, transformando-o em tumor. O sistema imunitário declina com a idade e favorece assim a sobrevivência de qualquer infecção susceptível de levar à morte. (É certo que a teoria imunológica do envelhecimento não se aplica de igual modo a todos os seres vivos, sobretudo no caso de serem invertebrados, mas, como aqui só estou preocupado com o homem imunitário, não preciso recorrer à evolução da imunidade para acentuar o carácter sofisticado do sistema imunitário adaptativo dos mamíferos.) O homem é lançado no mundo para morrer depois de ter desempenhado o seu papel reprodutor: a vida que lhe é dada entre o nascimento e a morte não lhe pertence; é o homem que pertence à Vida que o usa para realizar o seu sonho: reproduzir-se.

Tal como as neurociências tiveram o seu Homem Neuronal, a imunologia merece ter o seu Homem Imunitário. Chegou a altura de sintetizar as analogias que Niels K. Jerne estabeleceu entre o sistema imunitário e o sistema nervoso: eles são os únicos órgãos do corpo capazes de responder adequadamente a uma enorme variedade de sinais. Ambos os sistemas revelam dicotomias: as suas células podem receber e transmitir sinais e os sinais podem ser excitatórios ou inibidores. Ambos os sistemas penetram na maioria dos tecidos do corpo, mas evitam o contacto de um com o outro: a barreira hematoencefálica impede que os linfócitos estabeleçam contacto com as células nervosas. As células nervosas - neurónios - estão fixas no cérebro, na medula espinal e nos gânglios, e os seus longos prolongamentos - axónios - conectam-se entre si, formando uma rede. A capacidade do axónio de um neurónio para formar sinapse com o grupo alvo-correcto de neurónios utiliza um mecanismo semelhante ao reconhecimento dos determinantes antigénicos. Os linfócitos são 100 vezes mais numerosos do que os neurónios e, ao contrário destes, podem mover-se livremente, interagindo, quer através de um encontro directo, quer através das moléculas de anticorpos que libertam. Estes elementos podem tanto reconhecer como ser reconhecidos e, quando isso acontece, formam uma rede. Como no caso do sistema nervoso, a modulação da rede mediante sinais alheios representa a sua adaptação ao meio. Deste modo, os dois sistemas biológicos aprendem com a experiência e constituem uma memória que se mantém por reforço sem poder ser transmitida à geração seguinte. Niels K. Jerne atribuiu estas analogias na expressão dos sistemas imunitário e nervoso às semelhanças nos conjuntos de genes que codificam a sua estrutura e controlam o seu desenvolvimento e a sua função. Como já analisei os conceitos fundamentais da imunologia no texto Filosofia Imunológica, prefiro - neste momento - seguir outro rumo: tanto o sistema imunitário (Macfarlane Burnet) como o sistema nervoso (Gene D. Cohen) envelhecem com a idade. Porém, a par da decadência física que caracteriza o envelhecimento tanto no animal como no homem, A. Portmann recorre às veneráveis figuras dos profetas e das sibilas, cujo poder intelectual continua vivo na convicção dos povos primitivos e dos povos civilizados, para mostrar alguns traços específicos do homem velho condenado à morte depois de ter cumprido a sua função reprodutiva: a pujança criadora dos homens de idade avançada, ilustrada pelas obras geniais de Tizian (pintor), Verdi (músico) e Gauss (matemático), é vista como a exteriorização da individualidade e da acentuação do tipo específico de personalidade que ocorrem durante o processo de envelhecimento. K. Wezler atribuiu este traço específico do homem velho à dominância relativa da actividade do cérebro que vivifica todas as restantes funções corporais, sem levar em conta os distúrbios mentais da idade avançada e o grande mistério da medicina moderna, a doença de Alzheimer. Admiro a bio-antropologia de A. Portmann, mas não posso aceitar que ela generalize e universalize a criatividade observada nalguns cérebros em idade avançada, como se todos os cérebros humanos que envelhecem fossem criativos, o que não é o caso. A referência ao nascimento da oligarquia dos homens idosos - gerusia - entre os aborígenes da Austrália, bem como em Esparta e no Império Japonês, que Portmann deriva deste traço específico do homem velho, parece justificar ideologicamente o egoísmo geriátrico que capturou o poder político na Europa contemporânea. Ora, a captura da política pela gerontologia traz a marca letal da anti-natalidade que bloqueia o futuro do Ocidente ou de qualquer outra cultura ou civilização. O prolongamento da vida realizado à custa da natalidade condena tudo à morte, tanto os homens como as suas culturas. É certo que as pesquisas científicas sobre o envelhecimento têm sido financiadas para prolongar a vida, mas os seus resultados apontam noutra direcção não desejada pelo poder estabelecido e pelo sonho ancestral do elixir da juventude. Hoje sabemos que a morte é um programa genético que não pode ser contornado sem gerar efeitos catastróficos. No campo das ciências biomédicas, dispomos de diversas teorias biológicas do envelhecimento que obedecem ao princípio dos seres vivos - animais ou plantas - envelhecerem de acordo com padrões específicos da espécie a que pertencem. Destaco oito grupos de teorias, cada um dos quais pode compreender versões ligeiramente diferentes: teoria da entropia /teoria da exaustão /teoria do desgaste (1), teorias da morte celular /programação genética ou teoria de perpetração (2), teoria da mutação genética /teoria do erro (3), teoria calórica /teoria do colagénio /teoria da ligação cruzada (4), teoria do radical livre (5), teoria da lipofuscina (6), teoria imunológica (7), e teoria dos relógios do envelhecimento /teoria das hormonas da morte - a testosterona é uma delas em determinados quadros clínicos, como por exemplo o cancro da próstata! - e do sistema endócrino (8). Cada uma destas teorias configura arranjos estruturais entre factores intrínsecos e factores extrínsecos ao organismo para explicar o envelhecimento e a morte programada do organismo. Muitas destas teorias são complementares e penso que a genética molecular das doenças e dos distúrbios neurológicos será no futuro capaz de articular - com a ajuda preciosa da imunologia que chama a atenção para as doenças degenerativas dos homens velhos, tais como as doenças cardiovasculares e a doença de Alzheimer, bem como para duas doenças frequentes no decurso da senescência: a leucemia linfóide e o mieloma múltiplo - uma teoria unificada do envelhecimento. De momento, o que podemos dizer é que as teorias biológicas não permitem ao homem continuar a sonhar com uma vida além-túmulo. O homem enquanto ser-sem-abrigo, nascido de um parto prematuro e obrigado por isso a permanecer no ninho, pelo menos durante o período neonatal do seu desenvolvimento, não tem morada definitiva nem aqui na terra nem noutro não-lugar qualquer. Alex Comfort defendeu a ideia de que o envelhecimento é essencialmente uma perda de interesse da Natureza pelos organismos que, tendo finalizado a sua tarefa reprodutora, deixaram de estar submetidos à pressão evolutiva. Depois de terem criado uma família até à idade adulta, os homens e as mulheres deixam de ter importância biológica para a espécie humana e, a partir de determinada idade - 60 anos?, ficam intrinsecamente à deriva. É certo que os mecanismos de controle e de reparação continuam a funcionar, mas falta-lhes a capacidade de renovação da juventude. As mutações somáticas conduzem a defeitos enzimáticos e, num ou noutro lugar, produzem-se "avarias" com efeitos desastrosos noutras partes do mecanismo vital, com uma tendência variável mas inexorável para a decrepitude e uma vulnerabilidade cada vez maior aos ataques e às agressões do meio. A morte que o homem tanto teme, a ponto de imaginar como consolação ilusória um tipo de experiência consciente depois da morte, é, portanto, uma necessidade biológica: o pensamento, a consciência, a linguagem, a capacidade sensorial, a capacidade motora e tudo aquilo que deriva destas capacidades, sobretudo o nosso mundo subjectivo que se afirma através da luta no mundo comum que partilhamos com outras subjectividades, dependem totalmente da disposição e do funcionamento metabólico normal das nossas células nervosas. Assim, quando um homem morre, o seu universo mental finaliza com a sua morte cerebral. Ó, amigos das ilusões, não há vida para além da morte!

J Francisco Saraiva de Sousa

sábado, 2 de julho de 2011

10 Melhores Postagens do Mês de Junho

O meu amigo Wanderson Lima, autor do magnífico blogue O Fazedor, é a segunda vez que escolhe as 10 melhores postagens do mês, primeiro as do mês de Maio e agora as do mês de Junho. Desta vez, Wanderson Lima escolheu o meu texto Autismo e Terror da História, dando-lhe o "primeiro lugar indiscutível" na sua fantástica lista-comentada das "10 melhores postagens do mês de Junho". Resta-me agradecer-lhe e enviar um abraço-amigo para o Brasil. Escolhi a Ponte da Arrábida em dia de nevoeiro como fotografia de fundo para homenagear todos os brasileiros que frequentam o meu blogue e, particularmente, o Wanderson Lima, cuja revista Desenredos tem funcionado como uma ponte que liga duas margens tão distantes mas paradoxalmente tão próximas - o Brasil e Portugal. Os dias chuvosos e de nevoeiro intenso - aqui na Cidade do Porto - convidam à interioridade e ao exercício do pensamento: a Ponte da Arrábida em dia de nevoeiro é, para mim, uma ponte mental que me liga ao Brasil Tropical. Obrigado, Wanderson Lima!

Apreciei pela sua inteligência o comentário de Wanderson Lima: «Erudição e derrisão. Ensaio e narrativa. Um texto-vertigem. Primeiro lugar indiscutível.» Devo confessar que este texto Autismo e Terror da História desencadeou duas reacções nos meus amigos fisicamente próximos, nenhuma das quais me agradou especialmente, talvez por andarem a ver de modo obsessivo o programa Depois da Vida da TVI, onde Anne Germain pede licença aos convidados - muitas vezes destituídos de espírito e dominados pelo remorso e pela culpa - para falar - em inglês! - com os seus "mortos queridos" que nunca aprenderam o inglês. (Bem, fiquei a "saber" que no outro mundo todos falamos inglês!) O Wanderson Lima compreendeu de tal modo os dois registos em que se move o texto que acabou por dar aos meus amigos próximos a resposta que lhes recusei dar. Depois de não ter resistido à tentação de ironizar o além-túmulo na versão inglesa de Anne Germain, a médium que capta as vibrações dos mortos, as imagens visuais do seu passado e os seus sinais sonoros, prefiro não acrescentar mais palavras ao "texto-vertigem"!

J Francisco Saraiva de Sousa