sábado, 29 de dezembro de 2007

Violência Doméstica

Em Portugal, a violência doméstica é muito mais frequente do que se pensa e, no entanto, é um fenómeno pouco estudado. Os portugueses têm esse hábito terrível que é omitir tudo aquilo que os revele ou fingir que nada de grave se passa com eles. E, quando se tomam algumas medidas legislativas, estas são claramente discriminatórias: a violência doméstica é vista como um fenómeno que ocorre unicamente no seio de casais heterossexuais. Mais um sinal da ausência de cultura jurídica democrática e liberal! Portugal silencia as suas "vítimas" para manter o seu auto-retrato de um «país de brandos costumes», apesar dos meios de comunicação social exibirem imagens e notícias de violência preocupante, incluindo homicídios.
Apesar das dificuldades teóricas, metodológicas e sociais, existem já muitos estudos (Neilson, 2004; Brand & Kidd, 1986; Burke & Follingstad, 1999; Bryant & Demian, 1994; Gardner, 1989; Bradford, Ryan & Rothblum, 1994; KurdeK, 1994; Marrujo & Kreger, 1996; Merrill, 2001; Miller et al, 2001; Poorman & Seelau, 2001; Renzetti, 1992) que mostram que os incidentes de violência ocorrem frequentemente tanto nos casais heterossexuais como nos casais homossexuais (11-12%). Estes estudos refutam a premissa de que a violência é perpetrada somente por homens heterossexuais sobre mulheres heterossexuais e sugerem que a violência doméstica constitui um "abuso de poder" que pode ocorrer em qualquer tipo de relação íntima, independentemente do género ou da orientação sexual (Rohrbaugh, 2006).
Além disso, os tipos de violência (abuso físico, abuso sexual e abuso psicológico) são similares em todos os casais, excepto no caso das vítimas do mesmo-género sofrerem frequentemente de stress adicional devido ao seu isolamento (social e jurídico) e ao medo de que o abusador(a) possa expor, de modo hostil, a sua (das vítimas) orientação sexual. Aliás, em Portugal, as vítimas tendem a silenciar os abusos que sofrem nas suas relações íntimas, até mesmo das famílias, talvez porque, neste país, algumas das características extravagantes dos abusadores (infidelidade conjugal, agressividade, falsas imagens de masculinidade, alcoolismo, homofobia suspeita, o ditado segundo o qual "entre marido e mulher não se deve meter a colher", heterosexismo irracional) sejam admiradas e incentivadas publicamente.
As características dos abusadores parecem ser similares em todos os tipos de relações. Geralmente, os abusadores têm uma história de doença mental grave e foram abusados durante a infância. Os abusadores também são emocionalmente dependentes, sentem-se impotentes, tendem a responsabilizar os outros pelos seus problemas e usam a violência como um meio para impor poder, controle e dominação nas suas relações íntimas. É provável que o tipo de violência seja mais suave nos casais do mesmo-género do que nos casais de diferente-género, mas alguns estudos mostraram que a violência do mesmo-género não se reduz somente ao abuso ou terrorismo íntimo, mas abrange igualmente o uso de violência física e psicológica para dominar, controlar, intimidar e degradar o parceiro(a).
Os dados da nossa pesquisa de campo revelam uma associação forte entre o abusador e o seu papel sexual preferido: os homens gay sexualmente activos e as lésbicas do tipo "butch" tendem a usar mais a violência física do que os seus parceiros com preferências sexuais complementares às suas. Contudo, nos casais homossexuais masculinos a escalada de violência pode ser muito grave, porque as vítimas tendem a defender-se mais do que as vítimas heterossexuais femininas. O isolamento social é favorecido pelo abusador e a vítima pode ficar completamente isolada, até mesmo da família e dos amigos, e perder a oportunidade de uma vida profissional segura, com graves efeitos na sua saúde.
J Francisco Saraiva de Sousa

11 comentários:

Aveugle.Papillon disse...

Interessante...
N sabia q os gays poderiam ser abusados sistematicamente pelos parceiros. Pensava que os gays, mesmo os mais femininos, fossem mais seguros do que as mulheres... Se calhar n é mesmo uma questão de sexo, mas de fraqueza humana - do abusador, mas também do abusado, pois parece-me estranho o abusado persistir neste tipo de relação desiquilibrada.

As lésbicas, por senso comum, sabe-se que são muito ciumentas, têm medo de serem trocadas. São mulheres.

Se n houver amigos e família há associações que ajudam. Há a polícia que tem o dever de nos proteger.
- Sejam corajosos e libertem-se.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Sim, a violência gay é muito física: pancada, destruição de bens da vítima, isolamento social, ameaças com facas e outros objectos cortantes, murros, bofetadas, lutas constantes, muitos ferimentos, além dos insultos e maus tratos verbais. As lésbicas também...
Tem razão: devem queixar-se mas os do mesmo-sexo não o podem fazer. :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Interessante a sua observação sobre os abusados "permitirem" a persistência da relação. Os abusadores isolam a vítima e tentam destruir a sua auto-estima, levando-as a crer que estão isoladas, dependentes deles e "sem saída". "Bato-te porque te amo": raciocínio terrível...

Aveugle.Papillon disse...

A sério? Mas porquê? N fazia ideia. Pensei que a partir do momento em que alguém me injuriasse psicologicamente e/ou fisicamente a sociedade tivesse o dever de me proteger e de castigar o abusador, independentemente da minha orientação sexual.

Bem, isso é mesmo à filme, Francisco. Contudo, acho que há muitos mais casos de mortes de mulheres em relações heterosexuais do que em relações homosexuais. Percebo o seu enfoque, mas a realidade é outra.

Acho que há um perfil de vítima. Provavelmente esse "bato-te porque te amo" é uma ressonância do que passou na sua infância. As relações afectivas foram feitas sob laços de violência.
E depois a agressividade remete sempre à sexualidade e à linha ténue que aparta estes instintos.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Aliás, a maioria das mulheres portuguesas são agredidas verbalmente pelos maridos. Basta ir a um grande centro comercial e estar atento: muita humilhação pública, discussões e insultos. Em casa é pancada e gritos... :(

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Também temos alguns crimes do mesmo-sexo em Portugal, cuja leitura foi falsificada. Tenho estatísticas dos USA e doutros países mais abertos e liberais.
Coloca uma hipótese. Infelizmente, só levei a sério a violência doméstica na fase final da minha pesquisa e, apesar de me ter associado ao projecto New York, já não tive tempo para aplicar os testes. Por isso, recorri à cyberpesquisa, mas a amostra é pequena. Sim, há vítimas que têm mesmo perfil de Vítimas, mas devemos ser mais tolerantes com elas do que com os abusadores. Essa mentalidade de culpar a vítima pelo seu triste destino isola-as e elas fecham-se e não contam por sentirem vergonha. Não deve ser tão "dura" com as vítimas.

Helena Antunes disse...

Muito pertinente este tema! Mas, infelizmente, esta realidade ainda é pouco denunciada, mais ainda a violência de mulheres sobre os homens e em casais homossexuais.
A vergonha perante a sociedade é um dos muitos factores que dificulta a apresentação de queixa.

Abraço.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Exacto. Tem toda a razão. E, se pensarmos no abuso nas relações médico-paciente e no assédio sexual nos empregos, ficamos deveras preocupados, porque estes problemas ocorrem em Portugal muito frequentemente e não apenas nos USA. (Está um frio húmido.)
Abraço

Aveugle.Papillon disse...

Sim, é muito revoltante, mesmo, mesmo! N sei se os homens são umas bestas, ou as mulheres têm fraca auto-estima... e pensam: se eu n o tiver, mais ninguém me quererá!

É muito triste... Os educadores devem ter responsabilidades e começar desde pequenos a garantir uma educação dos afectos também. Quem me bate NÂo gosta de mim, porque primeiro nem dele mesmo consegue gostar...

Pois, talvez tenha razão. Sou pouco tolerante com vitimizações, e se calhar estou a sê-lo com as vítimas, também. Mas faz-me confusão.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Oi Helena
Baralhei os comentários, mas sem efeitos negativos, uma vez que partilha a nossa preocupação, minha e da Papillon.
Penso ter perdido outro comentário... Peço desculpa, não sei como sucedeu.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Interessante esta nossa conversa. Já editei vários posts sobre assuntos relacionados e a minha abordagem biológica começa a tornar-se visível. Mas ainda não estou preparado para avançar com hipótese unificada, com um conjunto de genes candidatos. Até porque são muitas as patologias em estudo... Talvez este ano de 2008 me dê animo para elaborar essa hipótese.
Em Portugal temos tantos problemas negligenciados e estamos impedidos de avançar, porque dependemos por vezes de abusadores do poder incultos, malcriados, histéricos e hipócritas. Infelizmente, é a nossa realidade e o nosso túmulo!