segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Max Scheler e a Antropologia Filosófica

«Sem o homem, nada poderia ser pensado e transmitido». (Ernst Bloch)
A filosofia só se emancipou da teologia no século XVII, quando Descartes avançou com a fórmula: «O homem é uma máquina na qual reside um espírito imortal». Este esquema dualista cartesiano mostrou-se eficaz para a organização dualista de todas as ciências: as ciências do espírito e as ciências da natureza, mas a filosofia não se tornou ateia. É certo que o corpo foi interpretado no sentido das ciências naturais recentemente descobertas, como um corpo entre outros corpos, mas o espírito não foi desligado dos argumentos teológicos, até porque Descartes nunca impugnou o tema da criação.
Isto significa que a tese da teologia, segundo a qual o homem é obra de Deus, criado de um modo imediato, unindo a um corpo material uma alma espiritual, individual e imortal, não sofreu grandes sobressaltos, coexistindo quase pacificamente com os métodos dos biólogos, dos fisiólogos e dos químicos aplicados ao estudo do corpo. Mas a alma humana era estudada pela psicologia e as suas manifestações eram estudadas pela linguística, pela lógica e por outras ciências do espírito.
O idealismo alemão interrompeu esta evolução por um curto período de tempo: Kant, Fichte, Hegel e Schelling não filosofaram como dualistas, mas como "espiritualistas" no sentido de terem espiritualizado completamente o homem, e alguns deles voltaram a aproximar a filosofia da teologia, embora a fenomenologia hegeliana possa ser interpretada como uma secularização da antropologia judaico-cristã. Schopenhaeur foi dualista. Apenas os discípulos de Esquerda de Hegel, em particular Feuerbach e Marx, conseguiram emancipar a antropologia filosófica da teologia e, nessa luta contra a prisão teológica, Darwin teve uma palavra muito decisiva, sobretudo quando afirma que o homem descende de um «macaco».
Contudo, o contributo destes e de outros pensadores, tais como Nietzsche, é demasiado conhecido e, por isso, preferimos falar daquele que tem sido considerado como o verdadeiro fundador da antropologia filosófica: Max Scheler (1874-1928), cuja obra Die Stellung des Menschen im Kosmos foi publicada precisamente no ano da sua morte, em 1928.
Com efeito, esta obra introduziu uma mudança radical no modo como coloca o problema do homem: o homem já não é interpretado na sua relação com Deus, mas na diferença essencial entre o homem e o animal. Ao colocar a diferença entre o homem e o animal no centro da discussão antropológica, Scheler é levado a distinguir duas maneiras de ser, voltando assim à indagação do problema biológico do homem, abandonado durante muito tempo aos cuidados de zoólogos e de médicos na qualidade de «antropologia física» ou, como se prefere hoje dizer, de »antropologia biológica». Scheler defendeu que no que distingue o homem dos animais mais inteligentes (inteligência, fantasia, memória, capacidade de selecção, uso de ferramentas) somente existe uma diferença de grau, mas não uma diferença essencial, o que parece estar demasiado próximo da nossa moderna visão do assunto.
Para Scheler, o princípio especificamente humano que constitui a diferença essencial seria um princípio oposto à vida, a que chamou espírito. A essência do espírito foi definida pela sua capacidade de desligar-se da pressão do biológico e de libertar-se da dependência da vida. Assim, o homem como ser portador de espírito já não está determinado pelos seus instintos e já não se adapta ao seu meio ambiente como um animal. Ele é capaz de elevar o meio ambiente à objectividade e, portanto, capaz de distanciar-se desse meio dado. Isto significa que o princípio especificamente humano é precisamente esta objectividade, esta liberdade de origem interna, esta possibilidade do conhecimento e da acção humanos de ser determinados pelo modo de ser das coisas, tenham ou não valor biológico.
Assim, Scheler pode afirmar que o homem tem o «mundo», tem uma esfera aberta de coisas, e que está «aberto ao mundo». O homem pode objectivar-se a si mesmo e possui autoconsciência. Esta auto-objectivação (ou auto-alienação) e o tomar distância (ou colocar-se de lado), capacitam-no para reprimir os seus próprios impulsos e tendências e, portanto, resistir a si mesmo e aos seus próprios fenómenos vitais. Isto faz potencialmente dele um ser moral, ou seja, um ser que «diz não» à sua própria vida e que é capaz de uma conduta ascética, mediante a repressão ou o controle dos seus impulsos.
É através desta autonegação que o espírito ganha a sua energia, sobretudo quando Scheler parece encarar o espírito, pelo menos nos últimos anos da sua vida, como um adversário da vida.
A título de resumo, podemos sintetizar os resultados de Scheler nas seguintes teses:
1. delineou sobre o fundo da vida animal a tese da abertura do homem ao mundo;
2. afirmou que o anímico, isto é, a sensibilidade, a fantasia, a memória, o sentimento, etc., eram fenómenos vitais não essencialmente distintos dos fenómenos propriamente biológicos;
3. afirmou que o espírito significava a capacidade de libertar-se das pressões biológicas e, deste modo, de elevar-se acima do meio ambiente.
Contudo, embora convincente, a antropologia de Scheler limita-se a deslocar o dualismo, o qual já não se estabelece entre o corpo e a alma, mas entre o espírito e o «corpo animado», chegando ao extremo ao opor o espírito à vida e reconhecendo a sobrevivência da pessoa humana para além da morte. A sua concepção de homem ainda é claramente «centrada» e este centro a partir do qual o homem executa os actos conscientes através dos quais objectiva o mundo, o seu corpo e a sua alma, não faz parte deste mundo. Assim, o espírito não é apenas algo distinto da vida, mas também algo distinto do mundo, que poderá estar relacionado com o corpo e a alma humanos num "Além" sobre o qual Scheler não disse nada. «O homem é, diz Scheler, o ser superior a si próprio e ao mundo». Ora, este dualismo renovado de Scheler foi superado por dois dos seus discípulos: Plessner e Gehlen, sobre os quais já falámos noutros posts.
J Francisco Saraiva de Sousa

14 comentários:

Aveugle.Papillon disse...

Referiu-se a Nietzsche, mas ele diante do "princípio especificamente humano que constitui a diferença essencial [que é] um princípio oposto à vida, a que chamou espírito" ter-se-ia rido. Scheler prossegue na visão dualista platónico-cristã e não me parece que traga essencialmente nada de novo, apenas uma "actualização científica" ao princípio tradicional ocidental.

Cumprimentos:)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Sim, embora tenha ideias interessantes no domínio da fenomenologia e da sociologia do conhecimento, que merecem ser revisitadas.
Cumprimentos :)

Aveugle.Papillon disse...

Sim, não desprezo Scheler. Mas a minha fé "reduz-se" no e pelo corpo. :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Estilo Merleau-Ponty? Sobretudo do "Visível e Invisível": fé perceptiva, corpo, carne... :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Já estive para fazer um post sobre a filosofia do corpo de Merleau-Ponty, mas as suas (dele) ambiguidades irritam-se. Mas talvez associando piercings... dê algum resultado. :)))

Aveugle.Papillon disse...

A fenomenologia de Merleau Ponty é interessante: retoma a irmandade grega entre ver e pensar, duas actividades que precisam de tempo para serem bem feitas. :)
A minha visão é simples: o corpo como medida de todas as coisas, e o espírito não como "anima", ou seja princípio activo justaposto ao corpo, mas como parte integrante do todo que é o corpo. Daí a "fé", só posso celebrá-lo a ele.

Piercings? Queria ter dito "irritam-me"? :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Sim, "irritam-meeee", era o que devia ter escrito, mas algum dedo antecipou-se... Acontece, não sei. :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Aveugle.Papillon disse...

N percebi a "piada" dos piercings... :(

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Piercings e corpo: uma relação a explorar. Não era piada. Dois ou três estudos mostram que ter piercings revela maior disponibilidade sexual, ou seja, quem os faz é "mais dado" a aventuras e a sexo com múltiplos parceiros. O piercing comunica essa disponibilidade do seu(sua) portador(a): comunica; o corpo perfurado e tatuado comunica; é uma linguagem. O corpo é "linguagem". :)

Aveugle.Papillon disse...

Ah, ok. È que o símbolo ":)))" é de difícil interpretação.
Interessante o que diz. Por acaso, n gosto de piercings e ainda menos de tattoos. São quase sempre feias. Os corpos despojados são mais bonitos do que os (mal) enfeitados.
Talvez seja pelo acto de transgressão que simbolizam o piercing e a tattoo, indicando uma maior disponibilidade sexual.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Quando tiver mais tempo, prometo avançar nesse terreno e talvez incluir alguns dados de pessoas com piercings em situação de tratamento.
De resto, concordo consigo: o corpo é mais bonito sem enfeites desse tipo, sobretudo quando a pessoa se torna "lagarto" ou fonte de infecções...

Aveugle.Papillon disse...

"Fonte de infecções"? Sim, pelo menos os que põem enfeites na sua genitália são muuuuuuuito loucos e ousados! E talvez estes tenham uma vida sexual frenética de modo a poderem mostrar seus ornatos a quem mais conseguirem... :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Sim, infecta e precisa de cuidados regulares, sobretudo quando feitos por pessoas menos habilitadas.