sábado, 15 de dezembro de 2007

Júlio Dinis e o Porto de 1855

«Para não compreender isto, para não respeitar este sagrado direito, que tem todo o acusado de se defender, é necessário estar corrompido até ao fundo da alma. O cepticismo e a irreverência para com os outros só se dá em quem duvida de si próprio, e a si próprio se não respeita, porque se conhece». Júlio Dinis/A Morgadinha dos Canaviais
Júlio Dinis (1839-1871) é o escritor português do século XIX que melhor expressão deu à "ideologia burguesa" (Lukács), precisamente aquela exaltada por Marx e Engels no «Manifesto do Partido Comunista».
Portuense, médico e filho de mãe inglesa, Júlio Dinis «formou-se na atmosfera de um home, e assimilou os costumes, educação e mentalidade da burguesia britânica» (Óscar Lopes & António José Saraiva). Ao contrário de Almeida Garrett (outro portuense: 1799-1854) que atacava a «economia política» e o primado das «preocupações materialistas», em nome de um «idealismo» frouxo, Júlio Dinis defendia as transformações sociais realizadas pela burguesia, em busca da eficiência e da valorização do trabalho. No Portugal oitocentista, foi um dos poucos portugueses a compreender verdadeiramente as aspirações da burguesia, talvez por ter nascido e crescido na Cidade Invicta, a capital da «economia política» e do liberalismo económico.
Uma Família Inglesa: Cenas da Vida do Porto (1868) é o seu primeiro romance e a maior obra-prima da literatura portuguesa, cujo subtítulo revela a influência de Balzac, outro ilustre romancista da burguesia. E é desta obra dedicada a pintar "ambientes", nomeadamente o da Bolsa portuense, o do Águia d'Ouro ou o do home (lar) inglês, que retemos este extracto onde Júlio Dinis apresenta uma análise da morfologia social do Porto.
«Esta nossa cidade - seja dito para aquelas pessoas que porventura a conhecem menos (como acontece hoje, ontem e sempre com os lisboetas que tudo fazem para falsificar a História de Portugal, como se Lisboa fosse algo mais do que um bloqueio ao crescimento da «economia política») - divide-se naturalmente em três regiões, distintas por fisionomias particulares:
«A região oriental, a central e a ocidental.
«O bairro central é o portuense propriamente dito; o oriental, o brasileiro; o ocidental, o inglês.
«No primeiro predominam a loja, o balcão, o escritório, a casa de muitas janelas e extensas varandas, as crueldades arquitectónicas, a que se sujeitam velhos casarões com o intento de os modernizar, o saguão, a viela independente das posturas municipais e à absoluta disposição dos moradores das vizinhanças; a rua estreita, muito vigiada de polícias; as ruas, em cujas esquinas estacionam galegos armados de pau e corda e as cadeirinhas com o capote clássico; as ruas ameaçadas de procissões, e as mais propensas a lama, aquelas onde mais se compra e vende; onde mais se trabalha de dia; onde mais se dorme de noite. Há ainda neste bairro muitos ares do velho burgo do Bispo, não obstante as aparências modernas, que revestiu.
«O bairro oriental é principalmente brasileiro, por mais procurado pelos capitalistas que recolhem da América. Predominam nestes umas enormes moles graníticas, a que chamam palacetes; o portal largo, as paredes de azulejo - azul, verde ou amarelo, liso ou de relevo; o telhado de beiral azul; as varandas azuis e douradas; os jardins cuja planta se descreve com termos geométricos e se mede a compasso e escala, adornados de estatuetas de louça, representando as quatro estações; portões de ferro, com o nome do proprietário e a era da edificação em letras também douradas; abunda a casa com janelas góticas e portas rectangulares, e a de janelas rectangulares e portas góticas; algumas com ameias e mirante chinês. As ruas são mais sujeitas à poeira. Pelas janelas quasi sempre algum capitalista ocioso.
«O bairro ocidental é o inglês, por ser especialmente aí o habitat destes nossos hóspedes. Predomina a casa pintada de verde escuro, de roxo-terra, de cor de café, de cinzento, de preto... até de preto! - Arquitectura despretensiosa, mas elegante; janelas rectangulares; o peitoril mais usado do que a sacada. - Já uma manifestação de um viver mais recolhido, mais íntimo, porque o peitoril tem muito menos de indiscreto do que a varanda. Algumas casas ao fundo de jardins assombrados de acácias, tílias e magnólias e cortados de avenidas tortuosas; as portas da rua sempre fechadas, Chaminés fumegando quasi constantemente. Persianas e transparentes de fazerem desesperar curiosidades. Ninguém pelas janelas. Nas ruas encontra-se com frequência uma inglesa de cachos e um bando de crianças de cabelos louros e de babeiros brancos.
«Tais são nos seus principais caracteres as três regiões do Porto; sendo desnecessário acrescentar que nessa, como em qualquer outra classificação, nada há de absoluto. Desenhando o tipo específico, nem se estabelecem demarcações bem definidas, nem se recusa admitir algumas, e até numerosas excepções, hoje (1868) mais numerosas do que então, em 1855.»
Lembrei-me de Júlio Dinis, porque foi numa quadra natalícia infantil que a minha mãe me ofereceu a sua obra completa, que "devorei" em poucos dias e Uma Família Inglesa constitui a minha primeira viagem pelo Porto, a cidade que uns anos depois me acolheu até hoje. Durante os meus estudos elementares, sempre estranhei a ausência de Júlio Dinis dos programas curriculares e, sem conhecer ainda a pedagogia administrativa e seu currículo oculto, já suspeitava da sua presença traidora e falsificadora, afinal a presença de uma Lisboa invejosa e saloia.
J Francisco Saraiva de Sousa

2 comentários:

Aveugle.Papillon disse...

Viva! A saga anti-mouraria continua!
Por acaso li "As Pupilas do Senhor Reitor" para um cadeira de literatura portuguesa que escolhi na Faculdade e não gostei... mas se calhar tenho que ler "Uma casa Inglesa"... duvido à partida que seja "a maior obra de literatura portuguesa"... O Eça é genial! :)))

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

O Eça também é da Póvoa| Literatura burguesa portuguesa: ideologia burguesa.
É uma saga anti-obscurantismo e de resgate do bom pensamento português. Nada mais! :)