quinta-feira, 12 de julho de 2012

Althusser, Materialismo Aleatório e Mecânica Quântica

Oporto: House Music
Finalmente, depois de uma busca que durava há mais de três anos, descobri duas obras já dadas como perdidas na minha biblioteca, uma das quais da autoria de Althusser. Nutro uma enorme admiração pelo pensamento filosófico de Althusser: considero que foi um dos poucos filósofos contem-porâneos que mais contribuiu para a elaboração de uma teoria da filosofia e de uma teoria da ideologia. A filosofia, sobretudo a filosofia académica em Portugal, tem estado entregue nas últimas décadas a pessoas profun-damente incompetentes e imbecis: o resultado disso é a morte da própria filosofia. Se Portugal tivesse sido dirigido por uma elite do poder esclarecida, não teria chegado à situação de bancarrota cultural - científica e filosófica - em que vive. Hoje sabemos que Portugal tem sido governado por uma classe dirigente medíocre e mafiosa, cujos membros usam a universidade para promover os seus próprios interesses: um político português que transita para o ensino superior é, por natureza, um anti-professor. A estupidez começou primeiro na política, para logo a seguir invadir o mundo dos negócios e o mundo universitário. Portugal é o reino da estupidez fraudulentamente diplomada pelas universidades particulares criadas para esse fim: diplomar a ralé portuguesa que usa os aparelhos partidários não para fomentar políticas de desenvolvimento nacional, mas para benefício próprio. O atraso estrutural de Portugal em todos os níveis sociais deve-se à mediocridade das suas elites e ao imobilismo social que geram para salvaguardar as suas posições e interesses. A indigência cognitiva dos portugueses contribui para a sua própria auto-exclusão do processo civilizacional. É por isso que não levo a sério os portugueses: conheço-os demasiado bem para saber que as suas palavras, os seus diplomas e as suas posições não têm valor. Portugal está mergulhado na mentira institucional. A teoria da ideologia de Althusser permite pensar esta mentira institucional, mas não é sobre ela que pretendo pensar: a minha atenção vai incidir sobre a "filosofia para o marxismo" proposta pelo último Althusser. Numa entrevista concedida a Fernanda Navarro, Althusser esboçou as linhas gerais do materialismo aleatório, encarando-o como a filosofia mais adequada para a teoria marxista da história. Este esboço não está isento de dificuldades teóricas, sobretudo quando tenta articular as anteriores posições teóricas tomadas por Althusser nesse campo de batalha que é a filosofia. O materialismo dos encontros aleatórios seduz-me, pela simples razão de ir ao encontro de duas "propriedades" da mecânica quântica: o indeterminismo e a não-localidade, as quais implicam uma certa globalidade. Althusser não fala uma única vez da mecânica quântica, embora o seu materialismo aleatório possa ser repensado como uma crítica da interpretação ortodoxa da mecânica quântica, a da Escola de Copenhaga. E o seu anti-humanismo teórico - o de Marx - pode ser repensado como a rejeição do Princípio Antrópico. Quem é que ainda não leu as patetices espiritualistas sobre o princípio antrópico cosmológico escritas por Errol E. Harris? É preferível alimentar a imaginação com a filosofia da natureza proposta por Rupert Sheldrake, a qual tem uma ligação metafórica com a teoria dos campos quânticos! Não é preciso falar directamente da mecânica quântica para contribuir para a elaboração da filosofia mais adequada para justificar os seus fundamentos. Steven Weinberg relata-nos um episódio muito instrutivo sobre a relações entre filosofia e ciência: «Há cerca de um ano, enquanto Philip Candelas (do departamento de física da Universidade do Texas) e eu esperávamos pelo elevador, a nossa conversa centrou-se num jovem teórico que fora bastante promissor enquanto estudante de doutoramento e que depois desaparecera. Perguntei a Phil o que teria interferido com a investigação do ex-estudante. Phil abanou a cabeça com tristeza e disse: "Ele tentou compreender a mecânica quântica"». Filosofia e ciência estão embarcadas no mesmo barco: se uma delas for derrubada ou afundada, a outra cai logo a seguir. A aliança entre filosofia e ciência é orgânica: não há filosofia sem ciência e não há ciência sem filosofia. Quando falamos do divórcio entre filosofia e física, devemos ter em conta que esse divórcio foi tematizado por uma filosofia que não representa toda a filosofia: trata-se, portanto, de um divórcio ideológico que desvirtua a cooperação entre pensamento filosófico e pensamento científico, para já não falar do pensamento religioso, que operou a grande revolução científica do século XVII, como demonstrou Alexandre Koyré. Apesar de criticar a "filosofia dos filósofos", Steven Weinberg reconhece que a mecânica quântica precisa da ajuda dos filósofos: «A ajuda de filósofos profissionais para tentarmos perceber o que estamos a fazer seria bem-vinda, mas, com ou sem a sua ajuda, continuaremos a fazê-lo». Os fundadores da mecânica quântica foram, eles próprios, filósofos: a filosofia não foi estranha ao nascimento da mecânica quântica, bastando ler os seus textos fundadores para detectar a sua presença. O facto de ser uma teoria ainda-não-concluída torna provavelmente a mecânica quântica pouco atractiva para os filósofos profissionais, embora um dos filósofos referidos por Étienne Klein - Jean-Paul Sartre - tenha referido o princípio de incerteza de Heisenberg para reforçar a sua filosofia (idealista) do sujeito, segundo Althusser, aceitando para todos os efeitos a interpretação da Escola de Copenhaga. Como é evidente, dado nunca ter abordado explicitamente este assunto, desconheço a posição de Althusser em relação à filosofia da mecânica quântica. No entanto, nas entrelinhas dos seus textos, detecto uma aproximação enigmática às posições tomadas por Karl Popper que odiava os membros da Escola de Copenhaga. Na linguagem de Althusser, podemos dizer que a interpretação da Escola de Copenhaga é dominada por uma tendência idealista, contra a qual se deve definir uma posição materialista. Althusser é um filósofo materialista, não um materialista mecanicista mas um materialista pluralista: o seu pluralismo tem algumas afinidades com o pluralismo de Popper, embora divirja dele no que respeita à teoria da história. O reducionismo de Weinberg - a sua atitude face à natureza - não teria seduzido Althusser. Mas, se tivesse lido outros filósofos além de Wittgenstein, Weinberg teria sido seduzido pelo materialismo aleatório de Althusser. Como tenho defendido nos últimos textos, a mecânica quântica só estará concluída quando despoletar uma imensa revolução filosófica. Os heróis do materialismo aleatório de Althusser - Demócrito, Leucipo, Epicuro e Lucrécio - devem ser substituídos pelos físicos das partículas elementares, se quisermos fazer desse novo materialismo a filosofia da mecânica quântica. Há, no entanto, um obstáculo a ser superado: a interpretação da Escola de Copenhaga é mais favorável à unificação da ciência do que a interpretação materialista ou realista. No entanto, em vez de desistir da tarefa de pensar os fundamentos da mecânica quântica, devemos recordar a engenhosa ilustração dada por Althusser para pensar as duas tendências da filosofia: o filósofo idealista é o homem que, ao tomar o comboio, conhece desde o início da sua viagem as estações de saída e de chegada, a origem e o fim do trajecto, enquanto o filósofo materialista toma sempre o comboio "em marcha", sem conhecer nem a origem nem o destino da sua trajectória. Com esta ilustração, acabo de tomar uma posição filosófica que me possibilita converter uma tese idealista numa tese materialista, sem abdicar da tarefa de unificar a ciência e a filosofia. Faço-o movido pelo interesse de alcançar um objectivo teórico: uma filosofia para o marxismo - ciência da história - é também uma filosofia para a mecânica quântica. A unificação foi sempre o grande sonho da razão.

Althusser é um filósofo surpreendente e, ao mesmo tempo, irritante: ele nunca levou até ao fim todas as suas brilhantes "intuições". A sua proposta de uma filosofia para o marxismo implica necessariamente uma revisão substancial da teoria da história e da sociedade de Marx, mais conhecida pela designação de materialismo histórico. Depois da aproximação que realizei entre a teoria da evolução de Darwin e a teoria da história de Marx, chegou a hora de a reformular em função dos conhecimentos fornecidos pela mecânica quântica. Embora não a mencione uma única vez, a mecânica quântica está presente na reflexão de Althusser, em especial nos conceitos de singularidade e de acção à distância. Se Carl Sagan conhecesse a teoria da história de Marx, não teria escrito alguns disparates perigosos sobre as viagens no espaço e no tempo, sobretudo as viagens ao passado que, na sua perspectiva alucinada, permitiriam transformar a história numa "ciência experimental", com o resultado fatal de abolir o nosso próprio mundo histórico, em nome das viagens interestelares. Não é a teoria da relatividade restrita de Einstein que aqui está em causa, como é evidente, a qual afasta do nosso alcance uma das maneiras de alcançar as estrelas, a possibilidade de construção de uma nave mais rápida que a luz - o limite de velocidade cósmico, mas a própria noção de história de Sagan. Estou consciente de que piso terrenos tanto mais perigosos quanto mais persigo o objectivo de unificação da ciência e da filosofia. Não devemos seguir o exemplo do jovem candidato a físico que, ao procurar entender a mecânica quântica, desistiu da própria ciência. O caminho da ciência, como já dizia Marx, é extremamente difícil e, para muitos de nós, penoso, no sentido de não ser valorizado pelos nossos contemporâneos envolvidos em práticas consumistas destrutivas. O nascimento da mecânica quântica - sistema de teorias no qual as partículas não têm posições e velocidades exactamente definidas mas que, em muitos aspectos, se comportam como ondas, e, de forma semelhante, as ondas de luz se comportam, em muitos aspectos, como partículas - e a sua ruptura epistemológica com a física newtoniana já foram descritos diversas vezes por centenas de cientistas e filósofos da ciência. Aqui convém apenas recordar que a mecânica quântica substituiu o determinismo da física clássica pelo indeterminismo da nova física: «A física do século XX desenvolveu-se a partir da anterior física "clássica", inspirada na obra de Isaac Newton nos finais do século XVII. Newton descobriu as leis fundamentais do movimento e da gravitação e aplicou-as com enorme sucesso à descrição detalhada do movimento dos planetas e da Lua. No século que se seguiu às descobertas de Newton, uma nova interpretação do universo surgiu: o determinismo. De acordo com o determinismo, o universo pode ser encarado como um grande relógio mecânico posto em movimento no início dos tempos pela mão divina e depois abandonado. Dos maiores aos mais pequenos movimentos, toda a criação material evolui de uma forma que pode ser prevista com precisão absoluta pelas leis de Newton. Nada é deixado ao acaso. O futuro é tão precisamente determinado pelo passado como o movimento de um relógio. Apesar de as nossas mentes humanas não poderem, na prática, seguir o movimento de todas as partes deste grande mecanismo e, assim, conhecer o futuro, podemos imaginar que a mente omnipotente de Deus pode fazê-lo e, portanto, ver todo o passado e todo o futuro à sua frente como uma sucessão de montanhas» (Heinz R. Pagels). Quando os físicos entraram em contacto com a estrutura atómica da matéria em finais do século XIX, a imagem determinista do mundo começou a ruir, porque as unidades atómicas da matéria se comportavam de uma forma aleatória que a física determinista não podia descrever. Um conjunto de novas descobertas experimentais permitiu a elaboração de uma nova física, a teoria quântica, entre 1900 e 1926, evidenciando-se a ruptura com a física newtoniana depois de 1926: «Em que consiste esta peculiaridade quântica? A física da nova física quântica contrasta fortemente com a antiga física newtoniana, que veio substituir. As leis de Newton trouxeram a ordem ao mundo visível dos objectos e acontecimentos a que estamos habituados, como a queda de pedras, o movimento dos planetas, o fluir dos rios e as marés. As características básicas da imagem newtoniana do mundo eram o seu determinismo - o relógio do universo está totalmente determinado do princípio ao fim dos tempos - e a suposição tácita de que as pedras e os planetas existem objectivamente mesmo quando nós não os observamos directamente; se lhes voltarmos as costas, eles permanecem no mesmo sítio. Na teoria quântica, estas interpretações aparentemente sensatas do mundo (como o determinismo e a objectividade) não podem ser conservadas. Apesar de o mundo quântico ser racionalmente compreensível, não pode ser visualizado como o mundo newtoniano. (...) A teoria quântica não só nega a ideia tradicional de objectividade, como também destruiu a imagem determinista do mundo. De acordo com a teoria quântica, alguns acontecimentos, como as transições electrónicas nos átomos, ocorrem ao acaso. Não existe nenhuma lei física que nos diga exactamente quando é que uma transição vai ocorrer; o máximo que podemos fazer é determinar a probabilidade de uma dada transição. As mais pequenas rodas do grande relógio, os átomos, não obedecem a leis deterministas. Aos inventores da teoria quântica - Niels Bohr, Louis de Broglie, Erwin Schrödinger, Wolfgang Pauli, Werner Heisenberg e Paul Dirac, para já não falar de Albert Einstein - deparara-se mais uma diferença radical em relação à imagem newtoniana do mundo - a realidade criada pelo observador. Eles descobriram que a teoria quântica implica que aquilo que um observador decide medir influencia o resultado final dessa medida. O que acontece no mundo quântico depende da forma como o observamos. O mundo não existe independentemente da nossa observação; aquilo que existe depende em parte do que decidimos observar - a realidade é parcialmente criada pelo observador. São estas propriedades do mundo quântico - a sua falta de objectividade, a sua indeterminação, a realidade criada pelo observador - que o distinguem do mundo habitual percebido pelos nossos sentidos. É a elas que me refiro como "peculiaridade quântica"» (Pagels). A revolução quântica - e relativista - colheu de surpresa o marxismo, cujo materialismo, sobretudo o de Engels e Lenine, ainda se movia no quadro da tradição racionalista do materialismo da necessidade e da teleologia. Althusser compreendeu isso quando tentou pensar uma filosofia para o marxismo. A minha reflexão move-se na proximidade das teorias de tudo: vejo o materialismo aleatório como a janela através da qual podemos vislumbrar uma teoria unificada, capaz de fornecer explicações para uma grande variedade de factos, com uma contribuição mínima de premissas para as conclusões.

A teoria do materialismo aleatório esboçada por Althusser é ainda uma teoria provisória que deve ser reformulada à luz dos novos conhecimentos fornecidos pela mecânica quântica, tendo como leituras de fundo as obras The Principles of Quantum Mechanics de P. A. M. Dirac (1947), Mathematical Foundations of Quantum Mechanics de J. von Newmann (1955) e The Many-Worlds Interpretation of Quantum Mechanics de B. S. De Witt & R. D. Graham, org. (1973), entre algumas outras obras clássicas. Ela foi esboçada como uma filosofia para o marxismo. Daí que o seu conceito central seja uma nova concepção da história dos homens. Althusser retoma Demócrito e os mundos de Epicuro para recordar a sua tese central: antes da formação do mundo, uma infinidade de átomos caia no vazio, em forma paralela. Esta tese central tem duas implicações fundamentais: 1) não havia absolutamente nada formado antes de haver mundo, e 2) todos os elementos do mundo existiam já isolados, desde toda a eternidade, antes mesmo de haver mundo. Esta tese central e as suas implicações devem ser reformuladas em função dos novos conhecimentos físicos adquiridos. Mas a sua implicação filosófica fundamental pode ser formulada deste modo: antes da formação do mundo não existia nenhuma Origem, Sentido, Causa, Razão ou Fim. O materialismo aleatório rejeita toda a teleologia porque não é um materialismo do sujeito, mas o materialismo de um processo sem sujeito que domina a ordem do seu desenvolvimento, sem um fim atribuível. Foi Epicuro quem defendeu a não-anterioridade do Sentido, opondo-se assim a Platão e a Aristóteles.  A seguir adveio o clinamen, isto é, um desvio que ocorre sem se saber como, nem quando nem onde. O clinamen desencadeia o desvio de um átomo na sua queda no vazio e provoca um encontro com outro átomo. O mundo nasceu de uma sequência durável de encontros, mais precisamente de um desvio aleatório e não da Razão ou da Causa Primeira. Mas o encontro não cria nada por si mesmo: o encontro dá realidade aos próprios átomos que, sem ele e o desvio, não seriam mais do que elementos abstractos e isolados, sem consistência nem existência. Só depois de formado o mundo é que se instaura o reino da razão, da necessidade e do sentido. O que interessa no materialismo aleatório não é tanto a descrição que Epicuro deu dele, a qual deve ser revista, mas o facto dele possibilitar pensar um materialismo de um processo sem sujeito. Ora, esta noção encontra-se, de algum modo, incorporada na proposta sem fronteira de Hartle-Hawking, segundo a qual o espaço e o tempo imaginário formam, em conjunto, uma superfície finita em extensão mas sem fronteiras ou limites. Assim, o espaço-tempo seria como a superfície da Terra, mas com mais duas dimensões. Ora, ao defender que o universo não tinha fronteiras no começo, sendo um todo auto-contido, Hawking descarta-se de Deus porque, num tal universo, Ele não é necessário para dar início ao universo, o qual existe por si mesmo, sem que Deus o tivesse criado. Em vez de se entregar à tarefa de pensar a filosofia da mecânica quântica, Althusser prefere pensar a recusa heideggeriana da questão da Origem, Causa e Fim do mundo como um movimento contemporâneo análogo ao atomismo e ao epicurismo: Heidegger não só recusou a questão da origem, como também - sob inspiração de Epicuro - elaborou uma filosofia que implica uma visão do mundo que lhe restitui uma espécie de contingência transcendental do mundo, para o qual somos lançados, bem como do sentido do mundo que nos orienta para a abertura ao Ser, mais além do qual não há nada para procurar nem nada para pensar. A sua expressão "es gibt" - mundo - significa que o mundo é um "dom" - uma dádiva - para nós mortais. Porém, Althusser vai mais longe quando afirma que, em vez de pensar a contingência como modalidade ou excepção da necessidade, devemos pensar a necessidade como o devir-necessário do encontro dos contingentes. Deste modo, Althusser reanima a tradição materialista esquecida pela história da filosofia, cujas figuras mais importantes foram Demócrito, Epicuro, Maquiavel, Hobbes, Rousseau (2º. Discurso), Marx e Heidegger. Para reactivar este materialismo aleatório que elaborou categoriais tais como, por exemplo, vazio, limite, margem, ausência de centro, deslocamento do centro para a margem (e vice-versa) e liberdade, é preciso rejeitar os materialismos registados pela história da filosofia, incluindo aquele que tem sido atribuído a Marx, Engels e Lenine, na medida em que eles pertencem à tradição racionalista do materialismo: o materialismo aleatório opõe-se, portanto, ao materialismo da necessidade e da teleologia, uma forma disfarçada de idealismo. A proposta de Althusser é, do ponto de vista filosófico, extremamente sedutora, na medida em que nos permite pensar a história da filosofia como esquecimento do materialismo aleatório, canalizando o seu impulso na direcção de um idealismo da liberdade. Sem percorrer este longo e espinhoso caminho não podemos avaliar a sua produtividade, mas de uma coisa podemos estar certos: o desvio idealista operado pela tradição filosófica dificulta a tarefa de elucidar os fundamentos da mecânica quântica. No entanto, ao recusar toda a origem, Althusser é levado a pensar uma filosofia do vazio. Esta filosofia afirma que o vazio preexiste aos átomos que caem sobre ele, ao mesmo tempo que postula um vazio filosófico: em vez de partir dos famosos "problemas filosóficos", a filosofia do vazio começa por os eliminar para partir do nada. Ou mais precisamente: a filosofia do vazio afirma o primado do nada sobre a forma, o primado da ausência sobre a presença. O nada funciona aqui como o nada de objecto, que permite a Althusser retomar a sua anterior tese de que a filosofia não tem objecto, no sentido em que a ciência tem um objecto. Deste modo, Althusser radicaliza a crítica de toda a filosofia (idealista) na sua pretensão de dizer a Verdade sobre as coisas. O carácter fragmentário das declarações de Althusser não nos permite ir mais longe. O que posso dizer é que esta noção de vazio primordial requer uma reformulação à luz da mecânica quântica, na medida em que parece parasitar uma noção ultrapassada de espaço. A teoria dos mundos de Epicuro já não pode constituir o ponto de referência para a elaboração de um materialismo aleatório. É certo que Althusser vai mais além de Epicuro quando radicaliza e actualiza o seu pensamento, de modo a convertê-lo em crítica radical de toda a tradição idealista, mas, sem disso se aperceber, permanece prisioneiro de noções ultrapassadas. O que Althusser diz a seguir deixa-me perplexo: o materialismo aleatório afirma o primado da materialidade sobre tudo, incluindo o aleatório. A formulação abstracta deste primado não nos permite avaliar a sua produtividade, sem termos realizado análises prévias e pormenorizadas sobre o seu alcance real. Penso que Althusser está a pensar em Aristóteles, quando este diz que a matéria se diz de muitas maneiras. O primado da materialidade não se reduz ao primado da matéria nua; ele é generalizado, de modo a incluir o primado do dispositivo experimental, a materialidade de um gesto ou mesmo a materialidade de um traço - da escritura - que, segundo Derrida, se encontra no fonema emitido por uma voz que fala. Althusser é peremptório quando afirma que o primado da materialidade é universal. Ora, o carácter universal do primado da materialidade permite-lhe reformular a tese marxista do primado da infra-estrutura económica, cuja universalidade depende das forças produtivas: «Ça dépend, palavra aleatória e não dialéctica», usada por Marx na Contribuição à Crítica da Economia Política. Sendo assim, tudo pode ser determinante em última instância, tudo pode dominar, e, na superestrutura, o que é determinante é também a sua materialidade: a teoria da ideologia de Althusser mostrou a materialidade da superestrutura e da ideologia, permitindo pensar o deslocamento da materialidade - sempre determinante em última instância - em cada conjuntura concreta. Haverá ainda lugar para a dialéctica num tal materialismo aleatório? Ou será ele o substituto real do materialismo dialéctico? A dialéctica - hegeliana ou marxista, idealista ou materialista - é mais "congruente" com a interpretação da Escola de Copenhaga do que com uma interpretação materialista da mecânica quântica. A noção de objecto é ainda uma categoria dialéctica: o materialismo aleatório - rigorosamente pensado - é levado a abandonar essa noção de objecto e o par a que pertence (sujeito-objecto). Estaremos nós preparados para romper completamente com o idealismo, para pensar a tradição subterrânea da filosofia? Quem sabe se ao pensarmos esta tradição esquecida pela história da filosofia, não estaremos a dar os primeiros passos para revelar a energia e a matéria escuras do universo?

O processo de Bolonha, esta terrível invenção de eurocratas destituídos de inteligência, está a bloquear o crescimento do conhecimento científico: as orgias que promove vão no sentido de liquidar a persistência e a continuidade de uma linha forte de formação e de investigação. Em Portugal, o processo de Bolonha tem sido usado para diplomar analfabetos que pertencem à rede do poder corrompido. De certo modo, Bolonha é isso mesmo: a possibilidade de diplomar os "burros". Com a sua política de empobrecimento generalizado, o governo português vai levar Bolonha ao seu limite extremo: a liquidação da formação e da investigação. Hoje compreendemos a razão de ser da insensibilidade dos políticos portugueses em relação ao conhecimento: a falsidade das suas qualificações leva-os a abolir a cultura do mérito em todas as esferas da sociedade portuguesa. As classes dirigentes portuguesas são os carrascos de Portugal. Mas, afinal, o que é que o recente caso polémico da pseudo-licenciatura de Miguel Relvas - ministro do actual governo português - tem a ver com a mecânica quântica? Pergunta desconcertante que me permite introduzir a história nesta reflexão. Althusser não pensou a filosofia da mecânica quântica: em vez disso, esboçou uma filosofia para o marxismo, ao mesmo tempo que reformulou os princípios da ciência da história fundada por Marx. Graças à teoria do Big Bang, a história deixou de ser uma noção estranha ao universo dos físicos que se dedicam à cosmologia, a ciência do cosmos considerado no seu conjunto e na sua evolução. Estou convencido de que é possível aproximar as duas noções de história. E, além disso, penso que Althusser abriu esse caminho. A teoria althusseriana da história é demasiado complexa para ser aqui exposta. Dela retenho apenas a sua derradeira versão que introduzo aqui formulando uma tese: Há uma coexistência de histórias que se sobredeterminam. A formulação deste tese permite desde logo fazer a aproximação entre a história do cosmos e a história dos homens, e, no entanto, ela parece rejeitar a unificação teórica desses dois conceitos. Althusser começa por afirmar que há dois tipos de histórias: a História dos historiadores e dos outros cientistas sociais, e a História no presente, que a língua alemã designa com a palavra Geschichte. Esta distinção introduz o escândalo no seio da teoria althusseriana da história, ao ponto de nos levar a duvidar da própria fundação da ciência da história por Marx. Mas o escândalo torna-se aparente quando compreendemos o sentido da manobra que opera esta distinção entre duas histórias: abrir o caminho a um novo projecto político. Tudo se passa como se, para realizar a unificação da história do cosmos e da história dos homens, fossemos obrigados a desenvolver uma teoria diferencial da história humana, de modo a possibilitar um novo pensamento político. Ou dito em termos provocantes: a unificação é, em última instância, política. A introdução da política na mecânica quântica é uma proposta sedutora: afinal, o que é a filosofia a não ser a política na ciência? Nutro uma admiração reservada pela interpretação da mecânica quântica dada por Fritjof Capra: "reservada" porque não é necessário recorrer ao misticismo oriental - hinduísmo, budismo, pensamento chinês, taoísmo e zen - para compreender a novidade radical da mecânica quântica e da sua visão do mundo. Tal como a Filosofia, a mecânica quântica é uma invenção ocidental que só pode ser compreendida nos termos da sua cultura filosófica. Culturas que não chegaram a descobrir a filosofia e a ciência não podem ser convocadas para as interpretar. Até mesmo uma interpretação em termos de misticismo ocidental seria confrontada com o facto deste só ter sido possível a partir de grandes avanços científicos e filosóficos: misticismo ocidental e misticismo oriental não pertencem à mesma família. Porém, a chave que nos permite clarificar os fundamentos da mecânica quântica não se encontra no misticismo, mas na tradição subterrânea do materialismo ocidental, aquela que não foi registada pela história da filosofia. Althusser afirma que os historiadores podem falar de "leis" da História porque consideram apenas o facto consumado, o da história passada. Assim, nesta perspectiva, a história apresenta-se como um objecto fixo e estável, cujas determinações podem ser estudadas como as de um objecto físico, um objecto acontecido, morto. A fonte da ideologia espontânea dos historiadores encontra-se nesta concepção da história consumada, da qual sacam estatísticas determinantes e deterministas, sem levar em conta a história viva. A língua alemã dispõe de uma palavra para designar a história viva: Geschichte. A história no presente é determinada em grande parte pelo passado já acontecido, mas só em parte, porque a história presente está aberta também a um futuro incerto, imprevisto, ainda não-consumado e, portanto, aleatório. A história presente só obedece a uma "constante" que não é uma lei: a constante da luta de classes. Marx nunca utilizou o termo "constante": ele utilizou a expressão "lei tendencial". Uma tendência não possui a forma ou a figura de uma lei linear, na medida em que pode bifurcar-se sob o efeito de um encontro com outra tendência e assim até ao infinito. Em cada cruzamento de caminhos, a tendência pode tomar uma via imprevisível, o que indica que a história presente é sempre a história de uma conjuntura singular e aleatória. Barry Hindess & Paul Q. Hirst levaram esta concepção até ao ponto de libertar o marxismo da história dos historiadores, lembrando que a história é um texto potencialmente infinito, voltado sobre si mesmo e constantemente a ser reescrito. O conceito que se destaca desta nova concepção da história é o de conjuntura singular e aleatória. Uma conjuntura é uma combinação ou encontro aleatório de elementos, em parte existentes mas também imprevisíveis. Assim, toda a conjuntura é um caso singular como todas as individualidades históricas e como tudo o que existe. Esta concepção da história presente permite a Althusser criticar a interpretação do marxismo apresentada por Karl Popper: os objectos do marxismo não são do tipo da história consumada, mas da história viva que se faz e surge das tendências aleatórias, cujas formas são estranhas ao determinismo das leis físicas clássicas. O marxismo precisa do materialismo aleatório para pensar a abertura do mundo ao acontecimento, à imaginação inaudita e à prática viva. Como já tinha mostrado num outro estudo preparatório, há uma forte afinidade entre a filosofia de Althusser e a filosofia do primeiro Wittgenstein. Para confirmar a abertura ao acontecimento, Althusser cita a célebre frase que abre o Tratado Lógico-Filosófico de Wittgenstein: «O mundo é tudo aquilo que acontece» ou, segundo a tradução de Russell, «O mundo é tudo o que é o caso». Ora, a tese de que o mundo não é mais do que casos, situações e indivíduos singulares totalmente distintos entre si, é a tese fundamental do nominalismo. No esboço da história do materialismo apresentado por Marx n'A Sagrada Família, o nominalismo é visto como «a primeira expressão do materialismo». Mas Althusser vai mais longe do que Marx quando afirma que o nominalismo é já o materialismo, que, segundo certos estudos etnográficos, reina nas sociedades primitivas, tanto ao nível do pensamento como ao nível da realidade e da prática social. Para os membros destas sociedades primitivas, só existem seres singulares, cada um dos quais é designado por uma palavra singular: o "aqui e agora" não pode ser nomeado por uma palavra mas simplesmente indicado ou assinalado com o dedo. O acto de indicar com o dedo, em vez de recorrer à palavra, significa o primado do gesto sobre a palavra, do traço material sobre o signo. Embora tenha sido desenvolvido de forma sistemática no decorrer da Idade Média por Duns Escoto e Guilherme Ockham, com o primeiro a interrogar-se «se a matéria não poderia pensar», o nominalismo ocidental recua até Homero, Hesíodo, os sofistas e os atomistas (Demócrito e Epicuro). Infelizmente, Marx não chegou a elaborar uma teoria da história, no sentido do acontecimento histórico imprevisto, único e aleatório: o único filósofo que se aproximou da história política no presente foi Maquiavel. O materialismo aleatório força o materialismo histórico a abrir-se ao mundo do acontecimento, ao mesmo tempo que o convida a pensar uma nova prática política. A mecânica quântica obriga o materialismo histórico a operar uma viragem quântica. E, ao levar a bom-porto esta viragem, desenvolvendo uma nova teoria da história, o marxismo estará a contribuir para a elaboração activa de uma teoria unificada e global. Os físicos têm dialogado com filósofos menores, cujas obras geraram pequenas tempestades à superfície da água sem quebrar o próprio copo. Marx revolucionou tanto a filosofia como a ciência da história. Não consigo imaginar uma teoria unificada que não integre a sua teoria da história reformulada à luz do materialismo aleatório. Vejamos esta breve descrição do mundo quântico dada por Fritjof Capra: «A teoria quântica derrubou os conceitos clássicos de objectos sólidos e de leis da natureza estritamente deterministas. No nível subatómico, os objectos materiais sólidos da Física clássica dissolvem-se em padrões de probabilidade semelhantes a ondas; estes padrões não representam, em última instância, probabilidades de coisas mas sim probabilidades de interconexões. Uma análise cuidadosa do processo de observação na Física atómica tem demonstrado que as partículas subatómicas não possuem significado enquanto entidades isoladas, só podendo ser compreendidas como interconexões entre a preparação de uma experiência e a sua posterior medição. A teoria quântica revela, assim, uma unidade básica no universo. Mostra-nos que não podemos decompor o mundo em unidades menores dotadas de existência independente. À medida que penetramos na matéria, a natureza não nos mostra quaisquer "blocos básicos de construção" isolados. Ao contrário, surge perante nós como uma complicada teia de relações entre as diversas partes do todo. Estas relações incluem sempre o observador, de maneira essencial. O observador humano constitui o elo final na cadeia de processos de observação e as propriedades de qualquer objecto atómico só podem ser compreendidas em termos de interacção do objecto com o observador. Por outras palavras, o ideal clássico de uma descrição objectiva da natureza perde a sua validade. A partição cartesiana entre o eu e o mundo, entre o observador e o observado, não pode ser efectuada quando lidamos com a matéria atómica. Na Física atómica, jamais podemos falar sobre a natureza sem falar, ao mesmo tempo, sobre nós próprios». Não há nada nesta descrição que não possa ser traduzido numa linguagem marxista clássica. A tese de doutoramento de Marx foi sobre os sistemas de filosofia da natureza de Demócrito e de Epicuro. Althusser foi, no entanto, mais longe quando adoptou a linguagem quântica - ou atomista: a de Epicuro - para pensar a novidade radical da descoberta científica de Marx. Se Fritjof Capra conhecesse a teoria de Marx ou mesmo a dialéctica de Hegel, não teria sido tão acrítico na recepção das ideias orientais: a interacção do objecto com o observador implica a ideia de um universo dinâmico num sentido não "intuído" pelo misticismo oriental. A leitura do livro de Capra é instrutiva pelo facto de mostrar que, lá onde predomina o misticismo oriental, a mecânica quântica está ausente.

J Francisco Saraiva de Sousa

23 comentários:

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Sim, o nível de abstracção é demasiado elevado porque o objectivo é quebrar barreiras e abrir o caminho... Depois começarei algures a voar mais baixo: de momento não preciso de explicitar conceitos já adquiridos por quem conheça o assunto.

Alfred Jerry disse...

Francisco, quando você diz: "...acabo de tomar uma posição filosófica que me possibilita converter uma tese idealista numa tese materialista, sem abdicar da tarefa de unificar a ciência e a filosofia."

Tem alguma ideia de por onde começar? Digo, uma ideia mesmo que ainda superficial, de como o fazer?

Agenor de Miranda Seixas Buarque disse...

muito bom parabéns pelo blog.
segui você tiver um tempo dá uma lida no meu talvez goste abraços.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Alfred Jerry

Este texto é um pouco mágico: a ideia que preside nessa frase é a de que o segredo do novo materialismo está no indeterminismo. Penso que, ao pensarmos a realidade quântica, somos levados a reformular o próprio materialismo. O indeterminismo permite expulsar Deus, até mesmo o Deus que joga aos dados. Devemos abandonar a brincadeira de invocar Deus a propósito das tentativas de definir a realidade quântica.

As teorias mais extravagantes da mecânica quântica são aquelas que me seduzem. Ao introduzir o indeterminismo na história, Althusser mina a visão clássica do determinismo que, no fundo, é materialista. Ele inaugura um novo pensamento materialista. O idealismo situa-se preferencialmente no mundo humano e, quando os físicos discutem estes assuntos, são vítimas das suas armadilhas. De momento, penso que libertando a história humana dessa visão clássica que, no fundo, resulta da secularização do modelo teológico, podemos aperfeiçoar o materialismo em diálogo com a mecânica quântica. O indeterminismo liquida todas as noções idealistas. A história liberta da visão clássica deverá ser equivalente à história cósmica. Mas tudo isso só pode ser explicitando abrindo caminhos e aprofundando os assuntos. Pagels ajuda muito a clarificá-los.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Não simpatizo com o argumento subjectivista da "falta de informação", de resto já criticado por Popper: Gosto de ler Edward Speyer mas não concordo com a sua interpretação da mecânica quântica. De momento não posso apresentar uma visão unificada porque a própria filosofia sai alterada quando tenta definir a realidade quântica. Apanhei o comboio mas não sei para onde vou, ou melhor, tenho a noção vaga que apresentei anteriormente. A filosofia só pode ajudar alterando-se ela própria. Não há uma receita filosófica prévia: é isso que define uma revolução teórica, mudança radical.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

No entanto, estou consciente das dificuldades do materialismo aleatório de Althusser, mas aceito acompanhar até ao fim a sua ideia-força... A revolução quântica vai implicar uma mudança radical na nossa maneira de ver o mundo e o homem no mundo. Althusser fala de "constantes" na história. Tenho referido algumas constantes antropológicas, embora o seu anti-humanismo teórico expulse a teoria da natureza humana. Mas nada está concluído: as teorias devem ser aprofundadas e aperfeiçoadas.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Seixas Buarque

Thank you! Logo que tenha tempo visito o seu blogue!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Ah, há outra ideia subjacente a este texto: o nominalismo como materialismo consequente. Claro, ainda não tentei aplicar esta teoria aos problemas clássicos da mecânica quântica. Há muito trabalho para realizar: só pensando podemos esperar resolver os problemas.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Mas há mais duas outras ideias de fundo subjacentes a essa frase:

1. A ideia de reformular o reducionismo. Weinberg diz ser reducionista e eu também sou reducionista. No entanto, quando o exemplifica com o giz, ele está a reformulá-lo sem disso ter consciência. Por isso, defendo uma mecânica quântica completa...

2. No campo da filosofia, é preciso abandonar as problemáticas da filosofia da consciência e da filosofia da linguagem e desenvolver a problemática da filosofia do conceito: esta oferece um campo mais sólido para o pleno desenvolvimento da mecânica quântica.

Há ainda uma outra ideia que já desenvolvi noutros textos: o meu marxismo é imaginário, no sentido de já não ser o de Marx. Um cientista compreende facilmente isto, mas os humanista não compreendem... Conservo o nome de Marx porque foi ele que abriu o continente história à ciência. Esta está sempre em processo de transformação: o marxismo de Marx deve ser e foi aperfeiçoado e aprofundado. O indeterminismo coloca-o na senda da ciência. Fica por resolver o problema de um novo projecto político. O erro do anterior estava no facto da sua utopia ser a secularização de um mito! Hoje estamos para além da estratégia da secularização.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Laplace não precisava de Deus porque o tinha integrado no seu determinismo absoluto. Hoje não precisamos de Deus porque não há lugar para ele no seio da mecânica quântica. A ideia althusseriana de um processo sem sujeito, origem e fim coincide com a visão do universo sem princípio e fim de Hawking. Num tal universo não há lugar para um criador! A palavra mágica é sempre a mesma: o núcleo duro do materialismo aleatório de Althusser. :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Precisamos de novos conceitos: o materialismo mecanicista foi enterrado pela mecânica quântica. Este é um dos seus trunfos. Acrescento: o materialismo tem sido até hoje um teomaterialismo. Hoje o materialismo não deixa lugar algum para Deus.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Kant pensou a diferença entre a intuição-entendimento divino e a intuição-entendimento humano: o homem como paixão inútil de Sartre diz precisamente que não podemos tentar ser Deus. No fundo, sabemos qual deve ser o rumo a imprimir ao conhecimento científico!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

E já que falei de Kant: a teoria da relatividade geral alterou completamente as nossas noções de espaço e de tempo e, no entanto, muitos filósofos e não só continuam a pensar em termo kantianos! Está aqui um problema que devemos resolver.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Há uma estranha relação entre o interpretação de Copenhaga e o kantismo. Estou convencido que sem Kant não teriam formulado essa interpretação: afinal o observador é uma estranha mas conhecida personagem filosófica! É preciso clarificar isso...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Como disse, a filosofia sai alterada quando pensa a mecânica quântica! E isso é bom, muito bom, porque precisamos de uma nova filosofia - digna de uma nova física!

Alfred Jerry disse...

Muito bom Francisco. E por favor, se possível, coloque aqui qualquer avanço sobre o assunto: está muito interessante sua reflexão sobre o tema.

Alfred Jerry disse...

Mas Francisco, se mudassem o método de investigação da quântica (que ao que tudo indica, é a opção mais viável), já não seria contradizer, banalizar, de certa forma até negar tudo oque foi feito até alí, até o "descobrimento" da própria quântica? E caso fosse, não seria uma exímia contradição?

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Não defendo a mudança de método. Há uma linha condutora que não explicitei porque o assunto é deveras complexo: estou convencido de que só a mecânica quântica nos permite tentar resolver o problema da consciência. Aqui tento abrir a via para o materialismo aleatório como filosofia adequada para a física quântica que, provavelmente, vai sofrer novas alterações. E mais: algumas "inconsistências" podem ser clarificadas a partir desta nova filosofia que, afinal, sempre existiu oculta.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Mas de momento não me quero comprometer com uma linha definida. Prefiro desbloquear o caminho para a tal "unificação", o qual implica uma revisão da estratégia reducionista. O materialismo aleatório tem grande potencial: é preciso aprofundá-lo. Curiosamente, relendo algumas obras ou partes, detectei a presença no discurso científico do conflito islão-judaísmo. Claro, os autores são judeus e teimam em manter a noção de Deus que joga aos dados. Devemos pensar o mundo quântico sem Deus, tout court.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Infelizmente, não posso neste texto introduzir a noção de campo, uma das lacunas de Althusser. A "analogia" pode ser levada mais longe, embora esteja consciente da minha dependência da interpretação de Copenhaga. Só caminhando saberemos para onde vamos...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

A teoria da história de Althusser é indeterminista e, tal como a mecânica quântica, abre-se ao futuro.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Alfred Jerry

Este texto pressupõe que as pessoas conheçam a mecânica quântica: ele incide sobre um nível mais complexo da realidade, como se quisesse fazer luz a partir de cima.

Como já disse noutro comentário, precisamos de uma problemática da filosofia do conceito. Há elementos para a formular mas ela ainda não foi desenvolvida. E, na sua escassez, sou forçado a avançar em diversas frentes. No entanto, alguns conceitos libertadores já foram mostrados: precisam de ser aprofundados. Quando falo da reavaliação do reducionismo, refiro-me ao abandono do mecanicismo que lhe é subjacente. Deste modo, fica aberto o caminho para uma teoria mais global que não precisa de voltar aos elementos do nível inferior para explicar a realidade. Mas não estou seguro se compreendi a sua questão da melhor forma...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Lembrei que nunca se tentou ler tudo isto à luz da crítica da racionalidade instrumental: é provavel que a interpretação de Copenhaga possa ser reformulada de modo radical. O mundo é deveras estranho: está tudo ligado e sozinhos não conseguimos pensar todas as conexões e implicações.