quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Helmuth Plessner: O Riso e o Choro

Portugal é um país pobre em termos editoriais e isto porque os seus universitários são geralmente pessoas pouco dotadas intelectual e culturalmente, sobretudo no que se refere à Filosofia e às Ciências do Espírito Humano. Contudo, apesar desta ausência maldosa de cultura, o filósofo que vos quero apresentar foi vítima da Segunda Guerra Mundial, que o privou do contacto com os meios académicos alemães. Quando fiz a minha tese de mestrado, ninguém em Portugal, nomeadamente na Universidade, conhecia a antropologia biofilosófica de Plessner ou mesmo a de Arnold Gehlen. E, como sucede nestas ocasiões, aquele que procura inovar, neste caso eu próprio, é, de algum modo, «penalizado». Os nossos académicos não suportam a novidade e a profundidade científica. Sentem-se ameaçados, provavelmente confrontados com a sua terrível mediocridade, e reagem negativamente, de modo a conservar o seu falso status. Os estudantes inteligentes, verdadeiramente inteligentes, devem ser avisados sobre este traço da personalidade académica nacional; caso contrário, se não souberem «dar palha ao burro» (expressão de um Professor de NeuroAnatomia, meu amigo), são simplesmente liquidados.
A obra de antropologia de Plessner (1892-1985) é muito superior à analítica existencial de Heidegger e, no entanto, este último é muito mais conhecido do que Plessner. Em 1928, Plessner publicou a sua primeira e maior obra de antropologia filosófica, «Die Stufen des Organischen und der Mensch». E, mais tarde, no seu exílio holandês, em 1941, publica «Lachen und Weinen» (O Riso e o Choro), que pode ser vista como uma actualização da sua obra anterior, onde Plessner procura mostrar a superioridade da sua reflexão antropológica sobre a filosofia existencial de Heidegger. Por isso, optámos pela sua apresentação, de resto mais simples de explicar do que o seu clássico de antropologia.
Numa das suas últimas obras, «Conditio Humana», Plessner resume a sua concepção do riso e do choro, quando afirma que ambos são reacções perante alguns limites (a noção de Jaspers de situação-limite) contra os quais tropeça a nossa conduta. Isto significa que são manifestações de uma impotência humana que derivam basicamente do carácter elementar da nossa vida e dependem da estrutura do comportamento humano, constituindo os seus limites. De todas as possibilidades miméticas do homem, o riso e o choro são as mais imprescindíveis, porque revelam a sua incapacidade de articular respostas mediante as expressões «normais», aquelas que se exprimem através da linguagem e da formulação de discursos baseados na abstracção e na conceptualização, perante os desafios desmesurados da existência humana. O riso e o choro são, portanto, sintomas de desorientação, de paralisação, de incapacidade de estabelecer relações significativas que permitam a continuação do trajecto vital.
Segundo Plessner, o significado destas expressões emotivas só pode ser «compreendido» quando indagamos as relações que o homem mantém consigo mesmo e sobretudo com o seu corpo. As gargalhadas ou o choro copioso produzem uma verdadeira fractura no equilíbrio psico-físico do homem. Este perde o controle sobre si mesmo e mostra-se incapaz de se expressar da maneira habitual, porque é obrigado a fazer frente a situações e a emoções que o lançam para fora de si e que o forçam a superar os limites da normalidade quotidiana. Como escreve Plessner: «O riso responde à paralisação do comportamento pela desequilibrada equivocidade dos pontos de contacto, e o choro, à paralisação do comportamento pela negação da relatividade da existência». Isto significa que o homem, nestas situações, se retira ante as situações insólitas e delega no corpo (Körper) a responsabilidade de lhes responder com expressões descontroladas. Plessner distingue o riso (Lachen) do sorriso (Lächeln): No sorriso, «o homem mantém a distância em relação a si mesmo e ao mundo e faz questão de a mostrar jogando com ela. No riso e no choro, o homem é a vítima da sua altura excêntrica, no sorriso dá-lhe expressão».
Para evitar analisar os conceitos fundamentais da sua antropologia, diremos, a título de resumo, que o riso e o choro são situações críticas que fracturam a unidade da pessoa e, consequentemente, dão origem a comportamentos fragmentados, portanto, de ruptura. Deste modo, o homem perde o controle do seu corpo, os processos corporais emancipam-se e produzem-se reacções imprevisíveis, que quebram a sua postura habitual. O resultado desta quebra do equilíbrio entre o físico e o psíquico, entre o corpo e a mente, é precisamente a perda do autocontrole. Na explosão súbita do riso, interrompe-se a relação entre o eu e o seu corpo, ficando o corpo completamente livre do controle do eu. No abandono ao choro, é o próprio homem que renuncia à relação com o corpo, que passivamente se deixa arrastar pela emotividade. Para finalizar, diremos ainda que no riso e no choro revela-se, de modo evidente, a natureza dual do ser humano, que se apresenta no equilíbrio instável de ser um corpo e de ter um corpo. Nesta distinção subtil, a posição excêntrica do homem no reino orgânico, revela-se o anticartesianismo da antropologia de Plessner.
Penso ter cumprido a minha missão de apresentar brevemente uma aplicação concreta da antropologia filosófica de Plessner, uma das maiores antropologias do século XX, desconhecida em Portugal, e, ao mesmo tempo, ter acusado os intelectuais portugueses de serem também responsáveis pela pobreza material e espiritual do povo português. No fundo, eles atrofiam o espírito nacional para salvaguardar a sua vidinha metabolicamente reduzida, de modo a não serem ameaçados pelo advento do espírito entre as almas populares. Cabe à política cultural socialista do actual governo socialista de José Sócrates mudar este estado de dominação e de exploração ideológica do povo e tornar a cultura superior acessível a todos os portugueses.
J Francisco Saraiva de Sousa

14 comentários:

Aveugle.Papillon disse...

Na Universidade Nova dá-se muito Heidegger; os problemas são vistos à luz da analítica existencial do Dasein, por dois professores extraordinariamente eloquentes e inteligentes. Mas, por maior que seja Heidegger, esta decisão é questionável. Porque, de facto, em nome de Heidegger outros pensadores ficam por dar ou muito superficialmente são abordados e, na minha opinião, não acho que o curso de Filosofia deva ser um curso de História da Filosofia, pois não haveria espaço para a análise exaustiva, essencial na investigação filosófica, mas acho que, neste caso concreto, há uma obsessão narcísica.


Sobre a teoria que apresentou brevemente, pergunto pelas situações-limite que não se expressam por riso e choro. Por exemplo, estados de choque, estados catatónicos em que o corpo petrifica. A mente não tem controle sobre ele, mas ele tb n está livre.

Além disso, creio que só assim, no caso do riso, a análise fica incompleta. E isto porque o riso joga-se sempre na alteridade (rimo-nos dos outros, com os outros, de mim mesmo como outro). Ou seja, há de facto uma liberdade do corpo, uma libertação da tensão - e aqui talvez quanto mais agressividade, mais riso? (na hipótese das diferenças sexuais). Se estiver tensa posso chorar e saro um pouquinho; mas para rir tenho que ter alguém ou algo, isto é, tem que haver uma identificação que pode ser do mais idiossincrático em mim ao mais humanamente universal. Não rimos só porque estamos tensos ou nos sentimos impotentes.

Por vezes, este fenómeno descrito acontece. Por exemplo, rimos muito nos velórios. Mas o que digo é que assim o riso fica incompreendido. De resto, um fenómeno muito difícil de explicar, talvez o mais difícil.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Sim, tem toda a razão: o riso implica os outros e Plessner diz isso, mas não deu para expor a sua teoria completa, nomeadamente a sua concepção do cómico. Os alemães têm bons estudos sobre estes fenómenos, infelizmente ignorados ou esquecidos, pelo menos no nosso meio. Conheço a Universidade Nova e... uma decepção. A pesquisa filosófica é mais do que «história da filosofia», de resto mal dada.
Num outro post, não prometo, tentarei fazer um "resumo" da antropologia de Plessner. (A tradução é difícil.)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Cara Aveugle.Papillon
Veja se a leitura que faço do seu último post é a mais adequado: a serpente que tentou Eva no Paraíso, levando-a a comer o fruto proibido (o conhecimento), é o pénis-serpente. Mas esta releitura afirma o carácter masculino do conhecimento. Estou enganado?

Aveugle.Papillon disse...

Antes de mais gostava que me dissesse porque achou a Universidade Nova uma decepção, no que concerne à filosofia, claro.
De facto, a estrutura do curso não é a melhor, mas acho que há bons professores. Além disso há o Instituto de Filosofia da Linguagem (IFL) que se formou à revelia do departamento de Filosofia e é um excelente pólo de investigação, ganha imensos prémios, conseguiu por isso, dinheiro e prestígio e com isso conseguem criar e manter projectos diversificados (claro que o facto dos directores da própria Universidade serem os directores do IFL ajuda). :)

Sobre a sua interpretação, não pensei nisso. A serpente pela sua forma, segundo Freud, representa o pénis. No Génesis representa o demoníaco, a língua bifurcada é a força que separa. Pensei mais no potencial veneno da serpente e na emergente necessidade de cuidarmos de nós e dos outros, assumindo responsabilidades. (1 dez. dia mundial da sida)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Porque não me identifico com o estilo de filosofar que é praticado e com o seu snobismo. Esse estilo não traz prestígio à Filosofia e condena-a a ser algo fechado em si mesmo e impotente. Penso que a filosofia precisa modernizar-se e acompanhar os tempos modernos. Deve abrir-se as metodologias científicas e recuperar terreno perdido para as ciências sociais, que de resto foram um fiasco no tratamento desse território da filosofia. Elas parasitam a filosofia e tentam afirmar-se profissionalmente e estes lusofilósofos consentem. (Tenho outras razões.)
As verbas nem sempre são merecidas ou bem gastas ou ambas: o exemplo da filosofia no Porto mostra-o.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Além disso, perde-se muito tempo a divagar sobre questões pouco interessantes e sempre mastigadas até à naúsea.
Boa interpretação, antecipando o dia da Sida. De facto, também pode ser um instrumento fatal e mortífero.

Aveugle.Papillon disse...

Sim, snobismo há muito! A soberba é o pecado capital de quem faz Filosofia.
Sim, também concordo que a psicologia, sociologia e outras que tais não tiraram o valor da Filosofia - Heidegger demonstra muito bem isso.

Sim, uma das coisas que não compreendi no meu curso foi que não abordam questões actuais, ou fazem-nas de maneira superficial. Por exemplo, tive aulas de bio-ética, mas foram uma coisa muito ligeira e (quase) catequista pelo casal Renaud, membros da comissão nacional de bio-ética e fervorosos católicos.

Obrigada pelos seus comentários!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Ui... O casal Renaud é mofo, de bio não percebem nada, mas de acumulação de taxos católicos percebem tudo. E nisso se reduz a sua ética. Conheço-os e muito bem.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Tachos com "xxx".

Aveugle.Papillon disse...

Rio-me com o seu comentário... :D

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

E os irmãos pandas? Um já faleceu, mas ambos têm e tinham uma enorme dificuldade de expressão e comunicação? Intencional ou não? Expressão de profundidade?

Aveugle.Papillon disse...

:D irmãos pandas!!! :D
Caro Francisco, nestes momentos perdoo o seu machismo. ;)

O falecido nunca o conheci, mas o outro tive o desprazer de levar com ele e ao seu "problema de comunicação". Aquilo é crónico! Pede-se-lhe que explique e repete o mesmo, às vezes, descaradamente pelas mesmas palavras! Simplificação é-lhe um processo totalmente ignoto.
Tivémos alguns desacertos nas aulas, não o suporto mesmo.
Partilho com ele o gosto por bailarinos e bailado... ;)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Ok Vou meditar mais no cómico.