quinta-feira, 28 de maio de 2009

Fernando Pessoa e a Psiquiatria

«Eu queria ser um bicho representativo de todos os vossos gestos
Um bicho que cravasse dentes nas amuradas, nas quilhas
Que comesse mastros, bebesse sangue e alcatrão nos conveses,
Trincasse velas, remos, cordame e poleame
Serpente do mar feminina e monstruosa cevando-se nos crimes! (...)
Ser o meu corpo passivo a mulher-todas-as-mulheres
Que foram violadas, mortas, feridas, rasgadas pelos piratas!
Ser no meu ser subjugado a fêmea que tem de ser deles
E sentir tudo isso - todas estas coisas duma só vez - pela espinha!
Ó meus peludos e rudes heróis da aventura e do crime!
Minhas marítimas feras, maridos da minha imaginação!
Amantes casuais da obliquidade das minhas sensações!
Queria ser aquela que vos esperasse nos portos,
A vós, odiados amados do seu sangue de pirata nos sonhos!»
(Álvaro de Campos, Ode Marítima)
«A mulher que sou quando me conheço». (Bernardo Soares, Livro do Desassossego)
É muito difícil encontrar actualmente uma definição consensual da psiquiatria, porque são diversas as áreas disciplinares que contribuem para a constituição da psiquiatria como ramo da medicina, fazendo com que se desdobre em diversas problemáticas, e para o diagnóstico e a terapêutica das perturbações mentais. Uma definição vulgar define a psiquiatria como um ramo da medicina que estuda a patologia da "vida de relação" ao nível da integração que assegura a autonomia e a adaptação do homem nas condições da sua existência, mas a tendência é cada vez mais a de a encarar como uma ciência do comportamento e das perturbações de comportamento. A imagem popular da psiquiatria ainda associa-a às "doenças mentais", de resto uma designação que caiu em desuso, e é essa noção que descobrimos em Fernando Pessoa. Num dos seus escritos de crítica literária, Fernando Pessoa afirmou que "o único crítico de arte ou de letras deve ser o psiquiatra". A noção do psiquiatra como o único crítico literário é deveras estranha. Como fingidor nato, Fernando Pessoa simula conhecer a obra de Freud e dos Freudianos e chega mesmo a dizer que não precisava ler Freud para "conhecer, pelo simples estilo literário, o pederasta e o onanista, e, adentro do onanismo, o onanista praticante e o onanista psíquico". E, mais adiante, procura explicar a introversão (autista) de Mário de Sá-Carneiro - a sua falta de calor humano e de ternura humana - pelo facto de ter perdido a mãe quando tinha dois anos. Como nunca conheceu o carinho materno, devido à morte prematura da mãe, Sá-Carneiro vira sobre si-mesmo a ternura própria e, como verificou Joel Serrão, torna-se um onanista compulsivo. Numa carta a Adolfo Casais Monteiro, Fernando Pessoa utiliza a psiquiatria para explicar a génese dos heterónimos: "A origem dos meus heterónimos é o fundo traço de histeria que existe em mim". Porém, entre ser simplesmente histérico ou ser um histero-neurasténico, Pessoa opta pela segunda hipótese, "porque há em mim fenómenos de abulia que a histeria, propriamente dita, não enquadra no registo dos seus sintomas. Seja como for, a origem mental dos meus heterónimos está na minha tendência orgânica e constante para a despersonalização e para a simulação. Estes fenómenos - felizmente para mim e para os outros - mentalizaram-se em mim; quero dizer, não se manifestam na minha vida prática, exterior e de contacto com outros; fazem explosão para dentro e vivo-os eu a sós comigo. Se eu fosse mulher - na mulher os fenómenos histéricos rompem em ataques e coisas parecidas - cada poema de Álvaro de Campos (o mais histericamente histérico em mim) seria um alarme para a vizinhança. Mas sou homem - e nos homens a histeria assume principalmente aspectos mentais; assim tudo acaba em silêncio e poesia..."
Fernando Pessoa auto-rotula-se em termos médicos como um "histero-neurasténico" desde a infância, mas, nesta auto-interpretação, não é a sua personalidade, a sua sexualidade real ou a sua enfermidade de alma que interessam: o que deveras interessa é compreender a unidade da sua obra poética, onde o seu eu se despersonaliza. A noção de despersonalização de que fala Pessoa parece aproximá-lo da teoria impessoal da poesia de T.S. Eliot: a concepção de poesia como um "todo vivo de toda a poesia já escrita". Nesta perspectiva, o poeta procura conhecer o passado, a Tradição ou o Espírito Ocidental, do qual o presente é a compreensão, e aperfeiçoar constantemente esse conhecimento, rendendo-se e auto-sacrificando-se a si próprio, numa extinção contínua da sua personalidade. Porém, em Fernando Pessoa, a despersonalização não significa o sacrifício das personalidades e das opiniões dos poetas, dos homens e das mulheres a uma ordem impessoal, a Tradição, mas sim a fragmentação do próprio eu e a sua dispersão - orquestrada pelo "dramaturgo" - em múltiplas identidades poéticas, os seus heterónimos, fragmentação essa que Pessoa, na carta a Armando Cortes-Rodrigues, pensa, talvez de modo precipitado, em termos de "crise psíquica", portanto, em termos psiquiátricos, possibilitando uma leitura psicopatológica da sua obra e da sua "alma enferma" (William James). Mas, como onde há dramaturgo, há uma linha condutora consciente unificadora e controladora da dispersão interior, a despersonalização não significa, em Fernando Pessoa, dissociação e/ou desrealização: Fernando Pessoa não sente que perdeu o controle sobre os seus pensamentos, imaginação ou lembranças, como se o seu corpo - movimentos corporais e comportamentos - e a sua mente - pensamentos e identidades - lhe fossem completamente estranhos, observados por si à distância como algo morto (despersonalização), ou carentes de integração e, portanto, fora do controle consciente e selectivo (dissociação). A auto-interpretação de Pessoa em termos psiquiátricos mais não é do que um recurso retórico para dar conta da sua "tendência para criar em meu torno um mundo fictício, de me cercar de amigos e conhecidos que nunca existiram": Fernando Pessoa é desde a infância um "dramaturgo".
Usando a obra de Freud e de Nietzsche, Harold Bloom reescreveu a história literária em termos de complexo de Édipo: os poetas vivem angustiados à sombra de um "poeta forte" anterior que, como "pai primordial", o "Pai Poético", os oprime. Todos os poemas podem ser lidos como tentativas de escapar dessa "angústia de influência" mediante a remodelação e a revisão sistemáticas de um poema anterior: "A Influência Poética - quando diz respeito a dois poetas fortes, autênticos -, processa-se sempre através de uma leitura má do poeta anterior, um acto de correcção criativa que é realmente e necessariamente uma interpretação errónea. A história da influência poética frutífera, que o mesmo é dizer a tradição principal da poesia ocidental a partir do Renascimento, é uma história de angústia e de caricatura defensivas, de distorções, de revisionismos perversos e deliberados sem os quais a poesia moderna enquanto tal não poderia existir". Presos nas teias da rivalidade edipiana, filhos e pais travam constantemente batalhas entre si e, quando essas lutas são entre iguais fortes, o poeta forte procura a todo o custo desarmar a força castradora do seu "perseguidor" - o pai -, penetrando-o a partir de dentro e reescrevendo o poema precursor de modo a revê-lo, deslocá-lo, encobri-lo e modificá-lo. É por isso que todos os poemas podem ser lidos como uma reescritura de outros poemas, mais precisamente como a sua "interpretação errónea". Só assim - lendo-se mal uns aos outros - os poetas fortes conseguem abrir espaço à sua própria originalidade imaginativa, isto é, desobstruir um "espaço de imaginação para si próprios". O poeta forte mais não é do que um "atrasado" que, reconhecendo corajosamente esse "atraso", procura enfraquecer a força do precursor. O poema é essa tentativa de enfraquecimento e de encobrimento que visa, através de diversos recursos retóricos, tais como as seis proporções de revisão - clinamen, tessera, kenosis, demonização, askesis e apófrades -, desfazer e superar outro poema-pai, donde resulta que o significado de um poema é outro poema gerado intra- e inter-poeticamente: "O poeta forte não consegue gerar-se a si próprio - deve esperar pelo seu Filho, que o definirá como ele definiu o seu Pai Poético. Gerar quer aqui dizer usurpar, e esse é o trabalho dialéctico do Querubim", isto é, da "angústia criativa".
A utilização da psicanálise para elaborar uma teoria da poesia não é isenta de dificuldades ou mesmo de abusos hermenêuticos. Theodor W. Adorno denunciou todas as interpretações psicanalíticas da arte que erigem abusivamente em critério um psiquismo normal, mesmo quando a qualidade estética é, como nos casos de Baudelaire e de Fernando Pessoa, condicionada pela ausência da mens sana: "As obras de arte são, para a psicanálise, sonhos diurnos; ela confunde-os com documentos, transfere-os para os que sonham enquanto que, por outro lado, os reduz, em compensação da esfera extramental salvaguardada, a elementos materiais brutos, de um modo aliás curiosamente regressivo em relação à teoria freudiana do «trabalho do sonho». (...) As obras de arte são incomparavelmente muito menos reflexo e propriedade do artista do que pensa um médico, que apenas conhece o artista no seu divã. Só os diletantes referem tudo o que se encontra na arte ao inconsciente. A pureza da sua sensibilidade repete clichés decadentes. No processo de produção artístico, as moções inconscientes são impulso e material entre muitos outros. Inserem-se na obra de arte através da mediação da lei formal; o sujeito literal, que compõe a obra, não passaria de um cavalo pintado. As obras de arte não constituem thematic apperception tests do seu autor. Em tal amusia é responsável também o culto que a psicanálise rende ao princípio de realidade: o que não lhe obedece é sempre «fuga» apenas, a adaptação à realidade surge como o summum bonum". Na carta a João Gaspar Simões, Fernando Pessoa denuncia precisamente a "franca paranóia (freudiana) de tipo interpretativo", cujo "critério psicológico original e atraente" de avaliação das obras de arte assenta numa "interpretação sexual". O freudismo conduz à produção de livros de ciência "obscenos" que interpretam os "artistas e escritores passados e presentes num sentido degradante", "ministrando masturbações psíquicas à vasta rede de onanismos de que parece formar-se a mentalidade civilizada contemporânea". Ora, para Fernando Pessoa, "o Freudismo é um sistema imperfeito, estreito e utilíssimo". É imperfeito, porque nenhum sistema teórico nos pode dar a chave única da "complexidade indefinida da alma humana". É estreito, porque reduz tudo à sexualidade, esquecendo que "nada se reduz a uma coisa só, nem sequer na vida intra-atómica". E é utilíssimo, porque destacou três elementos importantes da vida da alma e fundamentais para a sua interpretação: o inconsciente e a qualidade irracional dos humanos (1), a importância da sexualidade como força motivacional (2) e aquilo a que Pessoa chama a "translação", isto é, "a conversão de certos elementos psíquicos (não só sexuais) em outros, por estorvo ou desvio dos originais, e a possibilidade de se determinar a existência de certas qualidades ou defeitos por meio de efeitos aparentemente interrelacionados com elas ou eles" (3). Fernando Pessoa não nega o uso dos conceitos psicanalíticos como "estímulo da argúcia crítica", desde que esta saiba "afiar a faca psicológica (imagem fálica) e limpar ou substituir as lentes do microscópio crítico (imagem iónica)". Contra os abusos interpretativos de alguns críticos, Pessoa esclarece que a função do crítico é estudar o artista exclusivamente como artista (1), clarificar a explicação central do artista (2), e cercar os seus estudos de uma "leve aura poética de desentendimento" (3). E apresenta o seu exemplo para clarificar o segundo ponto metodológico: "O ponto central da minha personalidade como artista é que sou um poeta dramático; tenho continuamente, em tudo quanto escrevo, a exaltação íntima do poeta e a despersonalização do dramaturgo. Voo outro - eis tudo. Do ponto de vista humano - em que ao crítico não compete tocar, pois de nada lhe serve que toque - sou um histero-neurasténico com a predominância do elemento histérico na emoção e do elemento neurasténico na inteligência e na vontade (minuciosidade de uma, tibieza de outra). Desde que o crítico fixe, porém, que sou essencialmente poeta dramático, tem a chave da minha personalidade, no que pode interessá-lo a ele, ou a qualquer pessoa que não seja um psiquiatra, que por hipótese, o crítico não tem que ser. Munido desta chave, ele pode abrir lentamente todas as fechaduras da minha expressão. Sabe que, como poeta, sinto; que, como poeta dramático, sinto despegando-me de mim; que, como dramático (sem poeta), transmudo automaticamente o que sinto para uma expressão alheia ao que senti, construindo na emoção uma pessoa inexistente que a sentisse verdadeiramente, e por isso sentisse, em derivação, outras emoções que eu, puramente eu, me esqueci de sentir". A chave hermenêutica apresentada por Pessoa para abrir todas as fechaduras da sua expressão poética reconduz-nos ao célebre poema "Autopsicografia":
"O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
"E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
"E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração".
Teixeira de Pascoaes, o pai eterno visado no trabalho intra-poético de Fernando Pessoa, deixou-nos estas palavras de cautela hermenêutica: "Ser sincero é ser, é possuir uma presença integral, como as árvores e os penedos. A mentira representa pontos obscuros, falhas da nossa pessoa que pretendemos ocultar. Mas a sinceridade é a própria luz das almas. Por isso, ela seduz e deslumbra os olhos que amam a claridade". Quando analisa a poesia alheia, em especial a dos pais poéticos que urge assassinar, Fernando Pessoa recorre, dito em linguagem hegeliana, à mediação psicológica e à mediação sociológica para compreender as obras de arte e, no caso referido, para interpretar mal os poemas precursores. O recurso abundante à mediação psicológica visa denegrir os chamados "poetas místicos" - Teixeira de Pascoaes, Guerra Junqueiro e Jaime Cortesão, entre outros - e, como recurso extra-poético, viola o ponto dois da metodologia da crítica literária proposta pelo próprio Fernando Pessoa: explicitar a "explicação central do artista". Os heterónimos ou as máscaras de Pessoa - Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis, além do seu semi-heterónimo Bernardo Soares -, cada um dos quais apetrechado com um profundo conceito de vida e marcado pelas suas próprias influências e preferências poéticas, nacionais e estrangeiras, embora todos eles "discípulos de Caeiro", incluindo o próprio Fernando Pessoa, constituem personagens que Pessoa utiliza para interpretar mal esses poetas nacionais, de modo a desbravar um espaço onde pudesse afirmar sem mácula a sua originalidade imaginativa. A dramatização e a criação dessas máscaras acontecem dentro da própria poesia de Pessoa ou, como prefere dizer, dentro de si próprio, o que mostra a intensidade da angústia da influência sofrida continuamente por Pessoa, que precisa usurpar os outros e vivê-los como suas criações internas e privadas dentro de si próprio. A elaboração das biografias de cada um dos heterónimos mostra que, durante a sua viagem, Pessoa acaba por assassinar cada um deles, com o objectivo de descobrir a sua unidade original. Numa atitude de desprezo pelos seus contemporâneos e antecessores, Pessoa afirma que a sua crise psíquica é a crise "de se encontrar só" por se ter adiantado de mais dos "companheiros de viagem". Ora, afirmar que se encontra adiantado em relação aos poetas-pais equivale a reconhecer o sucesso da sua tarefa de os superar ou de os melhorar. Porém, essa superação bem-sucedida não é evidente, até porque Pessoa se limita a substituir o saudosismo de Pascoaes por um futurismo absolutamente místico: a mitologia do Quinto Império, fortemente devedora dos ensinamentos herméticos de Sampaio Bruno, mas privado da sua leitura antropológica do Encoberto. Bernardo Soares acaba por reconhecer esse fracasso poético: "A minha alma é fraca de mais para ter sequer a força do seu próprio entusiasmo. Sou feito de ruínas do inacabado e é uma paisagem de desistência a que definiria o meu ser. /Divago, se me concentro; tudo em mim é decorativo e incerto, como um espectáculo na bruma. /Escrevo com uma grande intensidade de expressão; o que sinto nem sei o que é. Sou metade sonâmbulo e a outra parte nada. /A mulher que sou quando me conheço". Conhecer a mulher que é ou, como diz Prado Coelho, a sua pederastia passiva, é reconhecer que a sua ambição, mesmo a de vir a ser galardoado com o Prémio Nobel da Literatura, não foi suficiente para fazer dele um poeta forte, tal como Shakespeare, Goethe ou Whitman: o seu super-Camões que parodia o super-homem de Nietzsche foi apenas um sonho diurno que não conseguiu concretizar e completar.
Pela segunda vez, dedico mais este post ao Futebol Clube do Porto, o Tetra-Campeão, que conquistou ontem (31 de Maio de 2009) a Taça de Portugal. A Tribo do Dragão Azul e Branco seduz e conquista Portugal e o Mundo. Viva o FCPorto! Viva o Dragão Azul e Branco! Viva a Tribo do Dragão Azul e Branco!
J Francisco Saraiva de Sousa

58 comentários:

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Pessoa fala do onanista e do pederasta, mas há também o que faz sexo oral e que digere o sémen de modo a incorporar a masculinidade do outro. Se a incorporação ou a fagocitose correr normalmente, temos um poeta forte, capaz de alimentar futuros filhos. O pior é quando o poeta consome, consome sem parar, a substância dos outros, condenando-se a ser mulher: sinal de fragilidade poética. O poeta-mulher que se descobre mulher é sempre fraco, porque não atinge o climax da originalidade poética. Foi Pessoa um poeta forte ou um poeta fraco? Eis a questão!

Denise disse...

Fernando Pessoa foi um poeta tão magnanimamente forte que se poetificou ele mesmo. O Pessoa de hoje falamos resulta da imagem poética que Fernando construiu sobre a sua própria pessoa. Um trabalho magnânimo que creio absolutamente consciente.
As abordagens psicanalíticas e as outras tantas do domínio da metafísica não me convencem.

Denise disse...

Francisco,
Fagogitose normal = força = masculinidade
Consumo exagerado = fragilidade = mulher
(com a agravante de se condenar a)
????
E se o poeta-mulher que se descobre mulher encontra aí a sua verdadeira força generatiz?

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Oi Denise

Sim, mas a poesia de Pessoa tem uma lacuna fundamental: carece de unidade e o Próprio Pessoa vai matando os seus "companheiros" sem conseguir emergir com a tal unidade por ele almejada.

É um poeta curioso, mas está longe dos grandes poetas. Com tempo vou mostrar isso tentando pensar a sua poesia.

Quanto à sexualidade de Pessoa, para além do onanismo, é, para mim, uma questão marginal: apenas digo que predomina passividade que é incapacidade de encontrar unidade e imprimir um rumo. Nesse sentido, fica aquém de outros poetas portugueses mais ricos e ainda pensáveis. Sinceramente, não acho Pessoa um grande poeta... E a prosa revela as suas enormes dificuldades: tudo capelas imperfeitas resultantes de má compreensão dos poemas-pais.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Pense nos poetas ingleses ou americanos que Pessoa admirava: foram fagocitados? Isto é, melhorados? Hummm... parece que não: basta ler Whitman. E o que dizer do Fausto de Goethe? Consegui Pessoa melhorá-lo com a sua versão Fausto?

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Conseguiu Pessoa dar uma saída à indigência do tempo? Não tem uma concepção clara do sagrado e, mesmo quando o rejeita, é incapaz de se colocar no domínio da utopia! É politicamente reaccionário, desconhece o mundo da acção, simula conhecer o que desconhece efectivamente, a sua crítica literária e poética fica aquém da sua própria obra, tem uma concepção aristocrática serôdia, viveu desfasado do espírito do seu tempo e não compreendeu os chamados poetas místicos. São muitas lacunas... Por exemplo, Campos diz:

«De Kant a Hegel
Alguma coisa se perdeu.
Concordo em absoluto».

Que quer isto dizer? O que se perdeu? Pessoa sabe? Não, ele não sabe o que diz, pois nunca leu Kant ou Hegel!

Ou exemplo: Cita dois poetas portugueses:

Mário Beirão:

"A boca, em morte e mármore esculpida,
Sonha com as palavras que não diz".

Teixeira de Pascoaes:

"A folha que tombava
Era alma que subia".

E Pessoa não consegue compreender estes belos e profundos versos, que atribui ao panteísmo... Uma tristeza! Nem os "choupos d'alma" de Cortesão ou o "ungido de universo" de Junqueiro compreende!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Enfim, descobre o síndroma do provincianismo e bem, mas ele próprio sofre esse sindroma: ele julga situar-se no escol dos que têm capacidade de criticar com ideias próprias, quando na verdade revela, muitas vezes, incapacidade de reflectir e, quando reflecte, não tem ideias próprias. Os sintomas estão todos concentrados em Pessoa! Ironia?

Fräulein Else disse...

"Foi Pessoa um poeta forte ou um poeta fraco?"

Pelo amor de Deus... com esses escritos de pseudo-análise poética pode ser que se entretenha, mas qualquer pessoa consciente, culta e sensível não os leva minimamente a sério...

"É um poeta curioso, mas está longe dos grandes poetas. Com tempo vou mostrar isso tentando pensar a sua poesia."

Oh sim, o mundo está à espera disso.

"Conseguiu Pessoa dar uma saída à indigência do tempo?"

mas os poetas têm essa missão? Hmmm... vejamos: Homero, Virgílio, Dante, Goethe - mudaram o mundo?

"E Pessoa não consegue compreender estes belos e profundos versos"

Ainda bem que nasceu o Francisco de Sousa para os perceber.

Enfim, uma alma pequena...

Fräulein Else disse...

O que é engraçado, é q o Francisco diz q n se preocupa com a sexualidade dos poetas, mas a única coisa q é capaz de fazer é clínica dos poetas, e pseudo-análise filosófica.

Fräulein Else disse...

Francisco de Sousa revelará a fraude que é Pessoa... uuuuuuhhhhhh

Brilhante! Divirta-se. Bom fds

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

"Homero, Virgílio, Dante, Goethe - mudaram o mundo?"

Claro que mudaram o mundo e o tempo dos primeiros não era indigente.

E quer seriamente colocar Pessoa nessa moldura? Não tem lugar entre os grandes: Camões sim tem lugar.

A saída dos deuses do palco implica necessariamente uma cissão entre eu (indivíduo) e mundo que não existe nos poetas que citou. Pessoa escreve na época do indivíduo problemático, logo a sua sexualidade pode ser envolvida e é envolvida pelo próprio.

Enfim, a Else não tem argumentos, vai na onda e desiste de pensar... Uma atitude pouco crítica! Até porque o mundo de Pessoa é depressivo... Eu não sou mentiroso ou falsário: essa doença deve ser mais própria dos que simulam...

Fräulein Else disse...

Mas quais argumentos? Os seus argumentos são ridículos, em vez de analisar a sua poesia, porque provavelmente não a percebe, põe-se a ler a sua prosa e a inferir conclusões do seu pensamento... disparatadas, claro está, porque Pessoa, n tinha intenções de produzir uma teoria sobre nada.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

"... mas qualquer pessoa consciente, culta e sensível não os leva minimamente a sério..."

E quem é essa pessoa versada na cultura da posta-de-pescada?

"... fazer é clínica dos poetas, e pseudo-análise filosófica."

Não fiz análise clínica; deve ter compreendido mal, porque essa foi feita por outros. Mas fiz análise filosófica que lhe escapou, embora os conceitos estejam lá bem visíveis.

E não chamei Fraude a Pessoa! Está muito emocionada...

Fräulein Else disse...

E mesmo os poetas que cantam a evasão dos deuses, como Holderlin, mudaram o mundo? Diga-me q poeta grande tenha mudado o mundo?
Mas que crivo o seu, realmente... se n consegue analisar Pessoa, despeça-se dessa tarefa, agora ter a tarefa de desvirtuar a sua grandeza, é realmente deslustroso, mas pode ter a certeza que n é para o Poeta, mas para si.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

"... porque Pessoa, n tinha intenções de produzir uma teoria sobre nada."

Essa afirmação é a negação de Pessoa! O homem andava a escrever por escrever ou para matar o tempo e o tédio! Está a reduzir Pessoa a um idiota!

Fräulein Else disse...

Eu, emocionada? Com a pequenez de espírito alheia? Não, de todo. :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

A Else parece não compreender nada ou, pelo menos, não fixa os pensamentos: estamos sempre na estaca zero!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

E já que supõe estar na posse de Pessoa responda à questão que tinha colocado: o que se perdeu de Kant a Hegel?

Fräulein Else disse...

Mas o q é q isso interessa?
Pessoa é poeta, n é filósofo, a distância é abissal! Diga-me o q n compreende disto.
Houve grandes artistas, n só peotas, que reflectiram sobre a sua arte, e esses escritos são importantes na disciplina da estética, até mesmo da metafísica, etc., mas eles não são filósofos, e n devem ser entendidos como aspirantes a filósofos, mas como criadores/artistas/poetas que reflectiram sobre o que produziam.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Mas essa não é a visão de Pessoa que persegue uma filosofia da poesia diferente da filosofia dos filósofos: não levar a sério essa ambição de Pessoa é desvirtuá-lo, até porque a sua estética está fracturada! O problema de Pessoa é outro... E ele próprio sabe que fracassou...

Fräulein Else disse...

E eu n suponho estar na posse de Pessoa. Admiro o poeta, acho q está entre os melhores, e acho q ainda n foi devidamente pensado, mas aí reside a sua infinita grandeza.
Mas continue a sua tarefa se acredita nela, desconfio das motivações e dos métodos, é só.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Além disso a afirmação é de Campos e a pergunta minha! São versos, não texto de análise...

Fräulein Else disse...

Fracassar faz parte de se ser humano... e a dor profunda faz parte de se ser poeta.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

E quem disse o contrário? O Livro do Desassossego mostra isso...: a unidade almejada não foi encontrada e as biografias atestam a morte desses heterónimos...

Tiago r disse...

A poesia de Pessoa traçou-se vítima da precariedade do seu tempo, o poeta não conseguiu acompanhar o seu potencial num sentido mais solar, digno da vida, devido ao mal circundante que o tomou de posse; no entanto, mesmo que a sua poesia aí o denuncie, ele não é um falhado (seria uma visão demasiado redutora do ponto de vista analítico): Pessoa é simplesmente (ñ assim tão simples) mais uma achega para o entendimento das coisas humanas. Consigo perceber a sua visão, Francisco, que explico com o exemplo de que Pessoa não consegue em mim a exultação que consegue Nietszche ou Whitman ou tantos outros, é certo, qualquer falha parece ter ocorrido nele, que a mim parece-me dever-se a uma descompensação espacio-temporal e intelectual e idiossincrática em face da mediocridade do seu tempo, que ele reflecte de forma decadente na sua poesia. Mas as facetas pessoanas são incontornáveis! Poucos souberam assumir essa faceta humana - a alteridade - tão lucidamente quanto ele. O caso dele não era clínico: «o inferno são os outros» (Sartre). O caso dele foi da mais pura humanidade. O ser humano nunca se soube assumir: daqui nasceram a raça dos psicólogos. O que não é compreendido, é patológico! Se o homem tivesse criado personagem em prosa, era literatura; mas como as criou em verso, é doente! Leia-se o que Nietzsche diz dos psicólogos...
E, provavelmente, Pessoa é/será o Pai que os seus filhos recuperam/recuperarão. Eu vejo-o assim: gosto de Pessoa, mas não desejo caminhar na sua via. Sim, há tb que saber rejeitá-lo, a par de amá-lo. Neste sentido, ele é/é-me útil. Não há contrabalanço sem contrários.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Tiago r

Concordo consigo e o próprio Fernando Pessoa refere-se à mediocridade do seu tempo, que infelizmente ainda é o nosso tempo, quando avança com o provincianismo como patologia da alma nacional. Mas esse é um aspecto que partilha com todos os outros poetas e pensadores nacionais: a ausência de "eco" e de crítica construtiva bloqueia o desenvolvimento do pensamento, isola e condena ao esquecimento. A. Quadros disse isso nalgum sítio: a turba dos medíocres matam a originalidade dos nossos pensadores. Porém, Fernando Pessoa vacila muito na sua auto-compreensão, o que coloca sérios problemas hermenêuticos. :)

Tiago r disse...

Jamais poderia discordar, até porque a vacilação/contradição é uma característica de tantos, veja-se Nietszche. Mas só toma a aparência de vacilação precisamente porque o prisma dessa avaliação provém de um lado medíocre, desse que eu e que o próprio Francisco compreende. O único problema que eu vejo é em toda a problematização relativa à heteronímia de Pessoa. Hiper-valoriza-se a questão, até que a tornaram numa questiúncula de cariz interpretativo, sobre a qual os vários domínios disciplinares passaram lambuzadamente a criar cada vez mais especulações, até ao cúmulo das de cariz patológico. Nem o Pessoa estava, provavelmente, assim tão ralado com o que criara. A imaginação não pode ser vista como uma patologia, por mais incompreensão e medos que ela nos revele. Há sempre que ir mais fundo. Não são as coisas que têm de estar à nossa altura, somos nós que temos de estar à altura das coisas ;)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Kierkegaard também tinha os seus heterónimos e, nalguns casos, um deles escrevia cartas para os outros. Joel Serrão estabeleceu esse paralelo com Fernando Pessoa, para mostrar que a heteronímia de Pessoa não tem nada de original.

Sim, o pensamento de Nietzsche também coloca o problema da unidade e diversas têm sido as interpretações dadas a esse problema. O pensamento evolui ou, pelo menos, sofre alterações, mas o que chocou os críticos de Pessoa foi a criação de diversas figuras de papel com identidades e pensamentos distintos...

Tiago r disse...

Também era para ter mencionado Kierkegaard para falar da heteronímia. Mas depois passou-me, até porque não li senão o In Vino Veritas.
Quanto à de Pessoa, continuo a achar que entre o que ele criou (original ou não) e o que qualquer autor cria (personagens) num romance, não vai uma grande distância...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Tiago r

"... entre o que ele criou (original ou não) e o que qualquer autor cria (personagens) num romance, não vai uma grande distância..."

Sim, é essa também a interpretação de Pessoa, pelo menos na expressão: a sua explicação. Curiosamente, os poetas ingleses que ele admira pensaram na era do imperialismo: o inglês como língua dominante, que Pessoa vai parodiar com o português como língua espiritual da humanidade. Ora, na era imperialista, o herói problemático do romance clássico é dissolvido e, no seu lugar, surgem "sujeitos colectivos". A fragmentação do eu poético de Pessoa pode ser lida a essa luz: a dissolução da personalidade e da individualidade que começa com a fase imperialista do capitalismo.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Mas até mesmo a concepção de Pessoa da língua portuguesa como pátria do espírito é tributária da poética da lingua(gem) de Pascoaes: este último começou a meditar a língua portuguesa em termos filosóficos e, nalguns aspectos, a sua meditação aproxima-se da de Heidegger.

Joel Serrão tenta aproximar Pessoa do existencialismo, mas não o consegue, a não ser pela via do imperialismo que não explorou. O tédio não é suficiente para caracterizar um pensamento como existencialista. Ora, Pascoaes conheceu o existencialismo e tenta aproximar a sua concepção do homem universal da concepção existencial... Pascoaes diz: "O homem é o ser que interroga". E o português encerra o "além homem", o homem transcendente. A poesia dos poetas místicos (Caeiro) é marcadamente ontológica: toda ela gira em torno do mistério do ser desvelado na quadratura do mundo - deuses e mortais, terra e céu. Daí a sua profundidade...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

A língua portuguessa é filosofia; encerra uma filosofia que Pascoaes soube escutar e meditar: saudade, solidão, ermo, abandono, remoto, ausência, luar, sombra, silêncio, nevoeiro, enfim medo, são algumas palavras sagradas da nossa língua que representam o nosso génio nacional. Pascoaes é simplesmente um raio de luz brilhante: um super-génio filosófico e poético!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

A levitação sofreu a acção da força da gravidade e caiu, afundando-se nalguma cratera de Marte. :D

Aveugle.Papillon disse...

Sim, de Marte que é o deus da Guerra e do Sexo.

Hoje o prós e contras deve ser interessante. :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Ya, está a ser um debate muito "quente", mas gosto do Bastonário e do seu estilo guerreiro! :)

Tiago r disse...

"Ser sincero é ser, é possuir uma presença integral, como as árvores e os penedos. A mentira representa pontos obscuros, falhas da nossa pessoa que pretendemos ocultar. Mas a sinceridade é a própria luz das almas. Por isso, ela seduz e deslumbra os olhos que amam a claridade".
Estas palavras (de Teixeira de Pascoaes) fazem-me lembrar essencialmente Sade (ainda que ele achasse que a falsidade, como egoista que era, uma bela prorrogativa), a par com Isidore Ducasse e Nietzsche. Estes, sim, foram filósofos sinceros. E esperavam mais deles mesmos e dos seus semelhantes do que «saudade, solidão, ermo, abandono, remoto, ausência, luar, sombra, silêncio, nevoeiro, enfim medo». Mas claro!, não ignoro isto do ponto de vista analítico, que decerto Pascoaes analisa; não acredito é que se tenha desprendido disso (confesso que nunca me atraiu, do pouco que li), se, tal como diz o Francisco, «são algumas palavras sagradas da nossa língua que representam o nosso génio nacional»: até me arrepio! Se é assim, não sou português, sou nietzschiano! :D

Quanto à sua explicação: «A fragmentação do eu poético de Pessoa pode ser lida a essa luz: a dissolução da personalidade e da individualidade que começa com a fase imperialista do capitalismo.», não acrecenta nem retira nada ao que eu propus (nem com tal nego o que afirma!). Ainda que para tudo haja causas (ou quase), referia-me tão-somente ao exagero clínico-analítico com que se rodeia o «caso» Pessoa... Acho enjoativo (mas sim, é um enjoo subjectivo). :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

São palavras fortes que contrastam com outras numa leitura ontológica que urge fazer: o saudosismo é atraído pelo futuro. Pascoaes tem uma poética forte que ainda não foi compreendida e, de certo modo, é mais actual que Pessoa. O arrepio é o do chamamento do Ser: o Ser arrepia e é preciso escutá-lo nesse arrepio.

Quanto a Pessoa, já não podia desenvolver mais; vou fazendo aos poucos. Sim, de certo modo, critiquei sem nomear duas leituras clínicas de Pessoa; o caso clínico de Pessoa é mais simples...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

A claridade refere-se à clareira que ainda está encoberta, não-desvelada: é a noção de verdade vista aquém da mera correspondência... Suspeito que a frase tenha sido escrita como crítica de Pessoa, mas esse é um aspecto marginal da questão!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

O enjoo também é uma categoria filosófica... :)

Tiago r disse...

No fundo, são todas questões humanas, logo inerentemente filosóficas (o homem ou é filósofo, ou é a potencialidade filosófica (ora mais adormentada ora menos)).
O enjoo subjectivo de q falo relativamente ao assunto do saudosismo (claro que este puxa o desejo de futuro, se bem-entendido) deve-se, apesar deste parêntesis, ao facto do que artimanhas psicológicas como o sebastianismo representam. Só mesmo nós poderíamos ter prorrogado tanto a nossa inércia nesse mito, por mais simbolismo que pretenda. O único poeta/artista português que fez realmente jus ao futurismo (entenda-se: vontade de progresso), foi o Almada («tenho saudades é do futuro!»), e provavelmente o seu n.º 1 amadeo de souza cardoso.
Isto só para dizer que é destes que aproximo a minha simpatia: Ícaros (pl.) mas sem tragédia :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

O sebastianismo provoca enjoo: concordo plenamente. Também não aprecio o termo "saudosismo", embora Pascoaes ou mesmo Bruno não sejam sebastianistas tout court: é mais um pensamento da esperança. Bruno faz uma leitura antropológica do sebastianismo: o encoberto é o novo homem.

Fernando Pessoa também fala da sinceridade e da sua falta. Sim, Almada faz parte da constelação...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

De resto, penso que devemos reler os nossos autores - em novas chaves hermenêuticas - e trazê-los para a nossa companhia: a interpretação é sempre violenta; caso contrário, ficariam entregues ao esquecimento, até porque, apesar do seu génio, não tinham condições objectivas e intersubjectivas para ir mais longe. Não sei se estou a dizer asneira, mas não havia universidade aqui no Porto; parece que havia apenas umas escolas (superiores), mas nenhuma de letras (não estou seguro). Bruno tinha uma padaria; Pascoaes vivia no campo; Coimbra dava aulas no liceu; Junqueiro vivia dos rendimentos, etc., mas foram homens corajosos e organizados: tinham revistas ou jornais; faziam tertúlias ou conferências... enfim lutaram contra a situação...

Tiago r disse...

Sem dúvida - lutaram. A geração de Orfeu tb lutou. E se um e outro grupo tinham rivalidades, era lá coisas deles, a mim não me importam. Só me importa o que cada um deles me pode dar. Como disse e bem - aliás pressuposto sob o qual intervim inicialmente ao seu post -estavam todos condicionados, «não tinham condições objectivas e intersubjectivas para ir mais longe», se bem que o Almada até andou por Paris, e o M. Sá-Carneiro até morreu por lá; quanto ao grupo do Norte não sei. É como tudo, a uns faz bem uma coisa e a outros a mesma coisa não fará tão bem. Se bem que o Almada não ficou muito feliz com o que viu em Paris.
(Por momentos senti-me qual beata, a falar da vida dos outros :D) Bons estudos!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Bruno esteve exilado por causa da causa da república, Pascoaes era viajado e tinha contacto estreito com Unamuno que passava as férias aqui em Espinho ou Porto e Junqueiro foi diplomata. Conheço a biblioteca deles e tiveram acesso a boas obras.

Paris na altura devia ter a sua graça: aliás, Paris é um dos emblenas do grupo do Norte, mais precisamente do Porto. A filosofia portuguesa nasce com Bruno, depois Pascoaes e Leonardo Coimbra: antes deste grupo não havia propriamente uma filosofia em língua portuguesa. Depois é retomada por outros, alguns dos quais de Coimbra.

Também já tive preconceitos em relação à filosofia portuguesa, mas desprezá-la impede a compreensão da filosofia em geral: a linguagem é fundamental em filosofia e não dominar a nossa própria língua cria dificuldades na recepção da filosofia (estrangeira). Basta ver as traduções! A escola do Porto fez uma recepção interessante de Nietzsche, aliás a primeira recepção. Junqueiro pensou a niilite! O niilismo atormentou-os e daí a escolha de certas opções, sem ceder a Igreja!

Isto até pode parecer uma guerra Norte/Sul, mas não é: a nossa história tem sido ideologicamente falsificada e é estranho que nenhum historiador faça algo interessante para repor a verdade. Precisamos de histórias diferenciais... e até mesmo regionais...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Fernando Pessoa escrevia para o órgão da Renascença Portuguesa: "A Águia", um título um pouco infeliz face à actualidade. Havia muitas revistas e semanários especializados na altura: o Porto era uma cidade liberal e progressista, a capital da imprensa, mas tudo isso foi objecto da rapina fascista e centralista que condenou todo o país ao atraso.

Tiago r disse...

Interessa-me bastante os pensadores portugueses, mas, além do tempo que perco a trabalhar, e o que perco em lazer ou a não fazer nada (por vezes tb é bom), rouba-me muito tempo de leitura, a juntar às minhas curiosidade principais relativamente aos meus autores preferidos.
Mas, o que eu acho é que, tanto uns como os outros (Norte/Sul) representam complementos de uma mesma coisa: a Históra do Pensamento Humano. E é nesta unidade que os encaro, embora prefira uns a outros, naturalmente.
Sem dúvida: o fascimo comeu muito do nosso potencial! Não há melhor explicação. Há tb opiniões, leigas e provavlem outras mais acreditadas, que ligam o Almada ao regime de Salazar. Do ponto de vista do movimento, faria sentido, que o Futorismo estava ligado ao Fascismo. Mas não me informei sobre isto. O que é facto é que ele consegui emancipar-se como artista dentro do regime salazarista...
E agora satisfaça-me uma curiosidade que decerto o há-de satisfazer: porque razão a cidade do Porto é a cidade Invicta? Mas poupe-me a sectarismos :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Não sei porque é invicta, talvez por causa das invasões francesas, não sei... ou talvez por causa de ter sido um burgo hospitaleiro mas fechado devido à ponte e portagens e autorizações de entrada... E nunca deve ter sido vencida por causa da fortaleza..., antes pela muralha... :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

E tanto quanto sei nunca o Porto foi tomado por qualquer força estrangeira: resistiu sempre, mesmo com a ajuda dos ingleses. Mas nunca decorei a designação toda: nobre, leal e invicta. Depois vem o trabalho... etc.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Sim, essa ligação a Salazar está presente em Pessoa que até lhe dedicou um poema: Joel Serrão trata desse assunto...

O meu sectarismo não é nenhum, porque não sei a resposta certa à sua pergunta: esqueci-a mas não devo ter andado longe...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

O Porto é a minha cidade de adopção e de coração: não nasci nem cresci aqui na city...

Tiago r disse...

Obrigado! Quanto ao sectarismo, era só no gozo ;)
Abraço

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Ok, amanhã pergunto a um portuense de nascimento e ele deve saber. Depois digo-lhe, porque estive a ver o Torga mas usa a expressão sem a justificar, embora fale dos cuidados portuense. A Agustina deve dar resposta...

Abraço

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Já sei a resposta:

O título "Invicta" ou divisa textual "Antiga, muito nobre e sempre leal e invicta" foi-lhe atribuído (decretado) por D. Maria II, sendo ministro Almeida Garrett.

E deve-se ao seu heroísmo durante o cerco histórico.

Mas a lealdade vem do século XV, quando os burgueses portuenses apoiaram o Mestre de Avis na luta contra o Castelhano.

Camões usa o termo: "Lá na leal cidade..."

A toponímia revela todo esse heroísmo.

Afinal, tinha a resposta aqui no escritório num livro... :D

Tiago r disse...

Já lhe tinha agradecido lá no meu blogue, mas fica aqui tb. Obrigado pelo empenho!
Falta-me agora preencher as minha lacunas históricas... Cerco histórico... Coisa que farei :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Bem, se me lembro da história de Portugal, deve ser a guerra entre miguelistas (absolutistas) e as tropas liberais leais ao rei D. Pedro, onde recorremos à ajuda dos ingleses, alguns dos quais são nomes de ruas e às tais fortificações. Aqui no Porto instalou-se um governo provisório com Palmela, Terceira e Saldanha que chegaram à city num navio fretado: Belfast. A nossa guerra civil decorreu entre 1828 e 1834.

Tiago r disse...

É possivel que vá sair barbaridade: mas tem alguma coisa a ver com a guerra de que o Garrett fala no Viagens na Minha Terra?

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Sim, acho que sim, afinal o Garrett era portuense e liberal...

Há uma zona do Porto que se chama Cerco, mas nunca reparei na existência de restos de fortificações. Aliás, é muito raro andar naquela zona...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Estivemos cercados durante um ano pelas tropas miguelistas: eles eram 80 000 homens, nós liberais éramos 7 500, mas vencemos devido à ajuda do povo que aderiu à causa liberal, oferecendo dinheiro, trabalho e contingente de soldados. A armada esteve sempre activa durante o cerco histórico e os ingleses ajudaram...