terça-feira, 21 de abril de 2009

Prós e Contras: Eleições Europeias - Frente a Frente

O debate "Prós e Contras" (20 de Abril de 2009) foi um frente a frente que opôs os cabeça-de-lista dos partidos políticos portugueses: Vital Moreira (PS), Paulo Rangel (PSD), Ilda Figueiredo (PCP), Nuno Melo (CDS) e Miguel Portas (BE). As duas primeiras partes foram caracterizadas por muito ruído produzido pelos candidatos a deputados europeus: uma exibição televisiva da exaltação parlamentar e da falta de educação típica dos deputados portugueses, que, em vez de debaterem com competência e idoneidade os seus projectos políticos, preferem o golpe baixo e a "demagogia barata" (M. Portas). Eles próprios tentaram justificar este comportamento desordeiro e malcriado: Vital Moreira falou da coligação das duas direitas (PSD e CDS) e das duas esquerdas (PCP e BE) e da sua "convergência" na oposição ruidosa ao PS e ao seu governo socialista: Paulo Rangel foi acusado de "instrumentalizar as eleições europeias" a favor das duas eleições nacionais. Convicto do seu conhecimento da Europa (sic), depois de ter publicitado o seu livro "Nós os Europeus", V. Moreira tentou identificar o espectro político nacional com o espectro político do Parlamento Europeu, de modo a mostrar que o PSD e o CDS integram-se no grupo do Partido Popular Europeu (PPE) e o PCP e o BE incluem-se no Grupo Confederal da Esquerda Unitária Europeia/Esquerda Nórdica Verde, enquanto o PS faz parte do Partido Socialista Europeu (PSE). As direitas são a mesma coisa e as esquerdas também são a mesma coisa: apenas o PS está como peixe na água na sua matriz política e ideológica. Nuno Melo ergueu a sua voz contra o "tabu dos temas nacionais" e passou a distribuir uma série ininterrupta de "cartões vermelhos" à acção governativa, aproveitado a colagem aos movimentos de contestação popular. Miguel Portas e, de certo modo, Ilda Figueiredo exigiram um "debate mais esclarecedor" sobre as questões verdadeiramente europeias e nacionais, sem estar demasiado centrado em torno de Vital Moreira, de resto uma figura pouco importante e absolutamente irrelevante quando "comparado a Manuel Alegre" (M. Portas).
As sondagens mostram que os portugueses não se interessam pelo destino da Europa e do Ocidente, talvez por desconhecimento total das suas raízes culturais e civilizacionais. A perda da experiência e o desenraizamento cultural manifestam-se num estilo de vida metabolicamente reduzido: os europeus estão mais interessados na satisfação desmesurada das suas necessidades metabólicas e na garantia da continuidade do seu labor intracorporal do que com o desenvolvimento das suas capacidades humanas e cognitivas. Eles dão por garantido aquilo que, por natureza, não está garantido: o consumismo egoísta e destrutivo e o metabolismo voraz. As eleições europeias deviam ser uma oportunidade para criar e desenvolver uma consciência ocidental e europeia: os povos europeus devem reatar, de um modo responsável e genuíno, os seus vínculos com a sua matriz civilizacional e assumir a responsabilidade pela sua continuidade. A instrumentalização das eleições europeias mostra até que ponto os partidos políticos portugueses carecem de projectos europeus e de uma visão da Europa e do seu papel no mundo: a própria composição das listas de candidatos revela esse desinteresse, dado serem formadas com o refugo nacional, isto é, encaradas como uma maneira de despachar pessoas que possam dificultar a vida interna dos partidos e/ou como um teste para as eleições nacionais. O suposto conhecimento profundo da Europa atribuído a Vital Moreira chumbou neste frente a frente, não só por ter mudado radicalmente de perspectiva em relação à Europa ao longo do seu atribulado percurso vital (Paulo Rangel acusou-o de ser novamente "estalinista"), mas fundamentalmente por ter sido incapaz de reconhecer que a crise económica torna visível a precariedade do projecto europeu: o rapto da Europa pelos governos das potências, a noção de "Europa dos governos" defendida por M. Portas, e, portanto, o seu distanciamento em relação aos povos (Ilda Figueiredo), impedidos de participar activamente na sua construção através de referendos. O rapto da Europa por uma classe política medíocre significa a morte do projecto europeu e a actual crise económica revela a sua fractura: a lógica do "cada um por si e Deus por todos" (M. Portas). A Europa raptada pelos colarinhos-brancos corruptos é responsável pela crise financeira e económica: o economicismo do Banco Europeu e as políticas hipercapitalistas implementadas pelo "Bloco-Central" europeu estão a destruir a Europa Cultural, o berço da Civilização Ocidental. A ideia do federalismo europeu converteu-se numa pequena federação de interesses capitalistas de grupos minoritários nacionais que buscam compulsivamente remunerações e reformas chorudas e a possibilidade de se tornarem proprietários de acções e de empresas. Em virtude do neoliberalismo, a corrupção invadiu a Europa. Mistificação não é a denúncia deste rapto, como disse V. Moreira, mas o seu ocultamento: a participação de Vital Moreira foi um absoluto fracasso. A ala esquerdista, fotogénica, idosa e hippie do PS rendeu-se ao domínio de José Sócrates em troca de cargos europeus (e nacionais) bem remunerados. Mas, afinal, são pessoas deste tipo que predominam nas pseudo-elites políticas nacionais e internacionais: buscadores compulsivos de benefícios pessoais, não servidores da causa pública! Na terceira parte do programa, mais disciplinada e educada, talvez depois de Fátima Campos Ferreira ter puxado as orelhas aos candidatos a deputados europeus, Miguel Portas, dirigindo-se a Vital Moreira numa relação Eu/Tu e dando eco aos ataques das oposições de Direita (P. Rangel, N. Melo), arrasou-o como projecto constitucionalista e político, reduzindo-o a um nada: "Tu, V. Moreira, não és ninguém" (a mensagem subliminar de M. Portas).
O fio condutor do debate era a ligação entre as eleições europeias e a crise financeira e económica, especialmente o papel desempenhado pela UE no debelar da crise. Segundo o candidato socialista, a Europa está a "dar uma saída à crise", com a implementação do seu "modelo de economia regulada": o "remédio da crise" não é o capitalismo anglo-saxónico e as suas políticas neoliberais que conduziram à crise, mas o retomar da "modelo europeu". A responsabilidade pela crise internacional foi atribuída, em termos ideológicos, aos partidos de Direita que protagonizaram essas políticas, reforçando o domínio do "modelo anglo-saxónico" do capitalismo selvagem. Um medida emblemática a tomar é abolir os paraísos fiscais. Embora tenha reconhecido que a UE possa ser uma oportunidade, dado ter sido o motor da reunião do G20, o candidato social-democrata mencionou os seus "riscos": acusou Vital Moreira de não compreender a natureza da UE, sobretudo na questão do apoio à recandidatura de Durão Barroso, porque a "comissão é uma coligação de forças políticas dispares e diversas". O governo socialista português atrasou-se em relação às medidas tomadas pela UE para combater a crise, e as que tomou, além de serem irrelevantes, chegaram demasiado tarde. Nuno Melo foi mais radical: o governo português não chegou tarde à crise; pelo contrário, "adormeceu na crise" e, no período anterior, negou a existência da crise e do seu impacto na economia nacional. Aproveitou o momento para ironizar a confusão que lhe foi atribuída por Vital Moreira, bem como aos outros candidatos, da "crise anterior" sanada e superada pela consolidação orçamental com a "nova crise": "a velha crise é a do Ministro da Economia e do Primeiro-Ministro". A candidata comunista responsabilizou os governos do PSD, do CDS e do PS pela crise: a "más políticas" neoliberais implementadas pelos governos nacionais e pela comissão da UE agravaram os efeitos da crise, de resto uma "crise do capitalismo" que cresceu lentamente ao longo do tempo, das quais resultaram a destruição de todos os tecidos produtivos nacionais, a acumulação desmesurada dos lucros das grandes empresas e a pobreza crescente de um vasto sector da população. A solução é a ruptura com as políticas neoliberais que conduziram, nos últimos 30 anos, à actual crise económica, com a anulação do Tratado de Lisboa, do Pacto de Estabilidade e da independência do Banco Europeu, e com maior vigilância e clarificação do QREN. O candidato do Bloco de Esquerda destacou duas ideias: sem a Europa e o guarda-chuva do Euro, a crise seria pior, mas a Europa chegou atrasada à crise, o que não sucedeu nos USA. Para M. Portas, a Europa foi "raptada pelos governos": é, pois, uma Europa dos governos e não dos povos, e estes governos foram responsáveis pelo deflagrar da crise, mais eles do que os "banqueiros com mais olhos do que barriga". A Europa é um "Bloco Central": todos ajoelham-se à "alta finança", como se do enriquecimento dos capitalistas e dos seus amiguinhos políticos caíssem umas migalhas para os pobres e os "novos pobres". Ajoelhar diante da alta finança significa desejar mamar e engordar o corpo e os seus depósitos: o sémen recebido e deglutido é capital depositado nos bolsos e nas contas bancárias! A resolução da crise exige a injecção de muito dinheiro, tal como foi defendido pelo Prémio Nobel da Economia de 2008, mas, na realidade, são sempre os mesmos a pagar. Porém, este discurso da velha e da nova pobreza revela a sua faceta hipócrita quando é condescendente em relação às duplas-candidaturas: o desemprego resultante desta crise económica, que ainda não revelou completamente a sua face escura, não é compatível com a acumulação de empregos e de cargos políticos. Os membros da classe política nacional tendem a acumular empregos e cargos, roubando a oportunidade de emprego aos outros e desempenhando mal os seus papéis. A prova da sua mediocridade e da sua gula reside no facto de Portugal estar a distanciar-se das médias europeias, a todos os níveis, bem como na ausência de um discurso responsável e competente sobre questões europeias e nacionais.
J Francisco Saraiva de Sousa

6 comentários:

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Considero este post concluído! Não pretendo desenvolver mais, porque o seu estilo crítico possibilita ao leitor adivinhar as conexões e as implicações! :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Pelos vistos, o falo que nutre de euros os bolsos dos portugueses menos honestos é, segundo o lider do Bloco de Esquerda, o de Ricardo Espírito Santo! A metafórica do BE é deveras nutritiva e fértil! E muito psicanalítica! Seio materno = falo = corrupção! :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

De facto, depois de escutar a entrevista de José Sócrtes na RTP1 e os comentários realizados pelos jornalistas nos 3 canais, salta à vista a incompetência de muitos jornalistas: ou são mesmo "burros" ou são mesmo pessoas más e deformadas! A comunicação portuguesa é um cancro preocupante! :(

Z1Z1 disse...

Julgo que ñ dialogo o suficiente consigo para me sentir à vontade para fazer correcções:)
queria apontar apenas uma imprecisão que pode fazer diferença:
não existe um P.C.E. mas sim Grupo Confederal da Esquerda Unitária Europeia / Esquerda Nórdica Verde.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Sim, tem razão: é o grupo da esquerda unitária europeia e não PCE. :)

Obrigado. Já corrigi, embora PCE soasse melhor. Deve ter sido lapso meu ou, não me lembro, fui induzido em erro por Vital Moreira. :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Dos socialistas que conheço e são muitos, nenhum simpatiza com Vital Moreira: chamam-lhe nomes divertidos, mas não o toleram. Não gostaram da sua participação e não acreditam nas suas supostas competências e conhecimentos. Mais um horror para os militantes e simpatizantes socialistas! Votar na sigla sem imaginar tal figura no parlamento europeu! Se pensarem nisso, não votam! :(