quinta-feira, 22 de outubro de 2009

José Saramago e o Marxismo

«A história dos homens é a história dos seus desentendimentos com deus, nem ele nos entende a nós, nem nós o entendemos a ele». (José Saramago, Caim)
«A história de toda a sociedade até aos nossos dias mais não é do que a história da luta de classes». (Marx/Engels, Manifesto do Partido Comunista)
«A miséria religiosa constitui ao mesmo tempo uma expressão da miséria real e um protesto contra a miséria real. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o sentimento de um mundo sem coração e a alma de situações sem alma. É o ópio do povo. /A abolição da religião enquanto felicidade ilusória dos homens é uma condição para a sua felicidade real. O apelo para que abandonem as ilusões a respeito da sua condição é o apelo para abandonarem uma condição que precisa de ilusões. A crítica da religião é, pois, a crítica embrionária do vale de lágrimas de que a religião é a auréola. /A crítica colheu das cadeias as flores imaginárias, não para que o homem suporte as cadeias sem capricho ou consolação, mas para que lance fora as cadeias e colha a flor viva. A crítica da religião liberta o homem da ilusão, de modo que pense, actue e configure a sua realidade como homem que perdeu as ilusões e reconquistou a razão, a fim de que ele gire em torno de si como seu verdadeiro sol. A religião é apenas o sol ilusório à volta do qual gira o homem enquanto não circula em torno de si próprio». (Karl Marx)
Com este post dou início a uma série de análises críticas do último romance publicado por José Saramago - Caim. Este primeiro post será constituído pelos comentários que fiz aqui - na caixa de comentários - à medida que lia a obra: vou apresentá-los sem tentar fazer uma análise mais coerente do texto de Saramago. A leitura é um processo activo e em andamento: as perplexidades do leitor também merecem atenção. Os comentários foram agrupados em doze parágrafos numerados, dos quais o sétimo pode ser dispensado por incidir sobre um assunto relativamente marginal à análise da obra de Saramago.
1. O momento de decepção. Estou a ler José Saramago. Tomei a deci-são de o ler ontem (21 de Outubro) à noite, vesti-me e fui comprar alguns livros de Saramago. Estou concentrado no Caim e, de momento, estou decepcionado com a obra, como se estivesse a ler uma "historinha" escrita por uma "velha ama" que tem por hábito contar histórias às suas crianças antes de adormecerem. À primeira vista, falta-lhe aparentemente espessura, densidade filosófica; é muito literal, pouco profundo, muito imediatista, muito pobre em termos de pensamento filosófico. Como crítica da religião, a obra parece ser uma regressão total: Saramago escreve como se estivesse do lado de fora da crítica da religião e do seu rigor metodológico. Até agora só encontrei uma frase com valor crítico - aquela que aparece em epígrafe, mas não vejo como a posso fundamentar e explicitar recorrendo ao resto da obra povoada de masturbações, de sexo ardente e de projecções de sémen. Porém, mantenho uma abertura total de espírito, porque acho graça ao modo como o espírito burguês é recuado no tempo ou como o Caim é ainda nosso contemporâneo. Este expediente de fazer Caim viajar no tempo é frutífero como recurso narrativo, mas penso que Saramago não soube tirar proveito integral dele, talvez porque tenha levado Deus muito a sério, como se ele tivesse sido - ou ainda fosse - uma "pessoa" que intervém de modo imoral e cruel na história do homem, sem se preocupar com o seu futuro: Saramago não compreende como funciona a ideologia religiosa ou, pelo menos, parece não estar interessado nesse funcionamento ideológico: Deus não é mau; os homens é que são maus, embora Caim seja o mais honesto e o mais humano dos homens. Como escreve Saramago: «Apesar de assassino, caim é um homem intrinsecamente honesto, os dissolutos dias vividos em contubérnio com lilith, ainda que censuráveis do ponto de vista dos preconceitos burgueses, não foram bastantes para perverter o seu inato sentido moral da existência, haja vista o corajoso enfrentamento que tem mantido com deus, embora, forçoso é dizê-lo, o senhor nem de tal se tenha apercebido até hoje, salvo se se recorda a discussão que ambos travaram diante do cadáver ainda quente de abel».
2. Onde está o marxismo? Não detecto aparentemente nenhuma afini-dade estrutural entre Saramago e o marxismo: a sua posição é a de um homem crente que se zangou com Deus, não a de um crítico materialista e ateu da ideologia religiosa. A tal frase que referi colide com a ideia fundamental do marxismo, que, como já mostrei noutros posts, não é um ateísmo, pelo menos do ponto de vista estritamente teórico, mas uma teoria que, na medida em que a religião existe como obstáculo, se vê forçada a lutar contra ela, não para matar as pessoas que têm crenças religiosas ou para as forçar a renunciar a essas crenças, mas para descobrir o que essas crenças encerram de positivo, de modo a procurar novas formas de entendimento e de esclarecimento. Para o marxismo, o ateísmo é uma ideologia religiosa que se articula com uma determinada perspectiva do humanismo. É por isso que Marx não criticou a ideia de Deus, nem negou ou afirmou a sua existência: a redução da história dos homens a um diálogo-confronto dos homens com Deus é uma concepção absolutamente estranha ao marxismo. A ausência ou a fragilidade simulada de conhecimentos filosóficos faz de Saramago um narrador dotado de grande sensibilidade metafísica: a sua aparente ingenuidade, a sua aparente infantilidade, são intelectualmente desconcertantes.
3. "A maligna natureza do sujeito". Eis outra noção desconcertante de Saramago, mas de grande profundidade filosófica. De que sujeito? Do sujeito humano-criatura ou do Sujeito-Deus-criador do mundo e do homem? Trata-se no texto sobre a adoração do bezerro de ouro do sujeito humano, mas também e primordialmente do Sujeito divino. Insinua-se aqui uma ambiguidade que é, à primeira vista, desconcertante, como se Saramago aceitasse a noção de que a história do homem é uma história da maldade depois da queda ou da expulsão do paraíso, mas esta noção não rompe cabalmente com o cristianismo e, a partir dela, Deus pode ser ilibado da crueldade que lhe atribui Saramago. No entanto, no romance de Saramago, surge a crítica da ideia de obediência: Deus testa as suas criaturas para ter a prova da sua obediência, isto é, da sua fé. Mas as criaturas bíblicas revelam alguma resistência, o que significa que Deus - talvez ciente dessa resistência devida à liberdade humana - é forçado a testá-las constantemente. A interpretação literal e irónica dos textos bíblicos justifica-se pelo facto de Saramago pretender indiciar essa resistência dos sujeitos humanos ao domínio de Deus. Seguindo esta via de leitura atenta é possível talvez confiar, isto é, fiar em Saramago.
4. O poder do homem e o "sentido moral da existência". A noção de poder de Saramago aparece representada pelos palácios e pelas exibições de Deus diante dos auditórios dos homens, e revela-se sempre que utiliza uma linguagem mais adequada aos tempos de miséria, usando termos muito modernos, tais como desemprego, crise, operário, ocioso, etc. O poder está muito localizado, como se Saramago desconhecesse a hegemonia. No entanto, nas relações Deus-homens revela-se uma hegemonia. Por enquanto, ainda não descobri todas essas conexões, mas estou com o espírito aberto e medito. Há uma tese interessante que Saramago formula logo no início da sua narrativa: Caim matou Abel por não poder matar Deus. Caim é um herói humano condenado por Deus a errar pelo mundo: a sua luta contra a arbitrariedade e a imoralidade do poder de Deus é permanente. É preciso matar Deus e, deste modo, conquistar definitivamente a emancipação do homem. Começo a entrar no espírito da obra, mas é provável que o resultado final desta análise não coincida com a própria leitura que Saramago faz da sua obra. Mas eu sou filósofo e não escrevo romances. A morte de Abel, em vez da morte do Senhor, permite a Saramago fazer uma incursão metafísica quando se interroga sobre o "objectivo final" ou "razão última" da aventura humana. A Igreja Católica já deu a sua resposta: a reprodução da espécie, isto é, fazer filhos, sem no entanto responder claramente porquê e para quê. A outra resposta - diametralmente oposta - foi dada por Caim e não é nada optimista. Mas não vou revelar já a minha leitura: a surpresa encontra-se revelada nos últimos parágrafos.
5. O segredo de Caim-Deus. Já ganhei avanço crítico na leitura atenta do Caim de José Saramago e estou a gostar do modo como o estou a ler: a história humana de Caim e do pacto secreto estabelecido entre Caim e Deus. A crítica que os padres e os teólogos dirigem a Saramago é simplesmente o resultado de má-fé e de ignorância activa, bem como aquela que lhe é feita pelos pseudo-intelectuais invejosos - os tugas burrecos. O sentido literal não é relevante; o que interessa é o sentido humano da história do homem - a "instrutiva e definitiva história de caim" (Saramago), aliás uma história dialéctica, no sentido de resultar de uma discussão entre Deus e os homens. Adão, Eva, Caim, Abel, Set, Abraão, Isaac e por aí fora são seres humanos que conquistaram "voz própria", isto é, autonomia em relação a Deus. Um país hipócrita como Portugal nunca está preparado para ser confrontado com leituras críticas da Bíblia: o tuga típico é invejoso, ignorante, oportunista, malicioso e mais medroso do que Eva que teve coragem para seduzir o Querubim, provocando-lhe o desejo carnal. Antes de terem comido do fruto da árvore do conhecimento e de conhecerem o bem e o mal, Adão costumava dizer a Eva: "Vamos para a cama". E "os solitários ocupantes do paraíso terrestre", quais "pobres órfãos abandonados na floresta do universo" (Saramago), fornicavam com prazer e gostavam de repetir esse comércio sexual, não para fazer filhos, como desejava o Senhor, mas para desfrutar dos prazeres carnais - a grande marca da humanidade ancestral.
6. A Inflexão hermenêutica. A tensão habita a minha leitura, mas vis-lumbro na estrutura da narrativa e na temporalidade que a suporta uma via de reconciliação possível entre Saramago e o marxismo. É claro que deveria recorrer a outras obras do Prémio Nobel da Literatura (1998), mas vou resistir a tal tarefa, fazendo a filosofia funcionar na escassez de palavras edificantes do narrador chamado Saramago: a peça, o mecanismo central do funcionamento da ideologia religiosa encontra-se no tirar a prova - a obediência cega a Deus, isto é, à ideologia eterna que, inscrita num aparelho e nas suas práticas, interpela os homens concretos como criaturas sempre-já sujeitas, sujeitadas, subjugadas e submissas ao outro Sujeito, único e central, que é Deus - Aquele que diz ser o senhor, isto é, "eu sou aquele que é". Por enquanto, torna-se evidente que o primado do eterno presente - as mudanças súbitas de presentes por parte de Caim conduzidas a maior parte das vezes pelo jumento - permite a Saramago trazer a história bíblica de Caim até aos nossos tempos modernos, mas suspeito que, em termos filosóficos, não se trata aqui de mera magia do narrador, porque há nesse modo de temporalização uma filosofia da história subjacente e implícita, de cunho marcadamente pessimista. Para Saramago, a história do homem entendida como discussão entre os homens e Deus é uma única e mesma "catástrofe": quer olhe para trás (passado) ou para a frente (futuro), Caim testemunha a mesma catástrofe, a mesma tempestade, da qual Deus é o principal e, em última análise, o único responsável.
7. Contra os críticos de Saramago. Falar de Saramago é quase tabu em Portugal e estou com os ouvidos entupidos, quer pelas falas dos amigos, quer pelos palpites de Lobo Xavier e de Pacheco Pereira na Quadratura do Círculo. Vou fazer algumas observações sumárias:
7.1. A crítica que Saramago faz dos textos bíblicos não é original, pelo menos à luz de uma leitura precipitada, nem sequer é a mais radical. Em Portugal, Guerra Junqueiro foi mais radical, pelo menos em A Velhice do Padre Eterno, mas também ele acabou por regressar ao seio do cristianismo com a sua doutrina do cristianismo eterno ou integral. Porém, uma leitura atenta da obra de Saramago - Caim - revela uma mensagem original.
7.2. Como criador Saramago tem todo o espaço de manobra para criar e recriar as suas figuras bíblicas: um romance não é uma obra de exegese, embora possa utilizar esses conhecimentos, mas uma criação literária autónoma, que deve ser avaliada como tal pela crítica filosófica e literária, até porque Saramago fornece indicações a esse respeito.
7.3. Estranho é o facto dos seus críticos fazerem crítica sem ter lido a obra: as críticas são dirigidas a um nada ideológico - o vazio noológico dos falsos-críticos - que simplesmente não está presente na obra de José Saramago. A própria interpretação de Saramago pode ser descartada, se for a que ele tem difundido através dos mass media.
7.4. Em Portugal, todos pensam que percebem de tudo, mas na hora da verdade são uns burrecos: o país está como está - na miséria e na pobreza - devido à burrice malévola dos tuga-burrecos. As pseudo-elites nacionais são abortos culturais, como se sabe ou devia ser sabido, e muito, muito, muito invejosas. Daí que não haja progresso e crescimento em Portugal, mas regressão pantanosa.
7.5. A leitura que faço aceita as regras de jogo estipuladas por Saramago como narrador. Vou jogar com essas regras e, se necessário, contra o seu principal jogador - o próprio Saramago, tentando uma reconciliação com o marxismo que, como se sabe, não permite deitar fora o livro que guarda os suspiros dos oprimidos. Este princípio colide com o que Saramago disse ou tem dito sobre Caim. Além da Bíblia imoral dos vencedores, há, como mostraram Ernst Bloch, Jürgen Moltmann, Leonardo Boff e Gustavo Gutierrez - a Bíblia dos pobres. Herdeira do pensamento utópico de E. Bloch, a teologia da libertação postula a união da escatologia e da política, da fé e da acção política, de modo a construir aqui e agora a sociedade da fraternidade humana através da praxis histórica transformadora. O marxismo é teoria crítica, mas não rompe com a tradição; pelo contrário, exige a sua realização plena através da luta contra a realidade social e política existente: a realização das promessas ainda não cumpridas a favor da emancipação do homem como possibilidade de uma acção antecipadora do reino de Deus, ligada estreitamente à esperança escatológica da Bíblia.
7.6. No mundo ocidental, talvez devido ao triunfo do neoliberalismo e do pensamento único, as pessoas estão a ficar muito pouco receptivas à crítica: querem abolir a crítica, querem silenciar as vozes dissonantes, em nome da trivialidade, da frivolidade e da mediocridade metabólica. A crítica incide basicamente sobre conteúdos objectivos de conhecimento e situações injustas, mas nas actuais circunstâncias de eclipse da crítica os anti-críticos devem ser alvo privilegiado da crítica: os burrecos devem ser silenciados, porque a sua existência é inútil, gratuita e desperdiça energia. Eles não distinguem entre a sua pessoa e as suas opiniões e, quando as últimas são criticadas, reagem brutalmente como se estivessem a ser alvo de um ataque mortal. Ora, isto é sintoma de regressão cognitiva e talvez de perturbações mentais difusas: o animal metabolicamente reduzido não foi talhado para pensar.
8. A noção de tempo, a viagem no tempo. Já fiz referência à noção de temporalidade que estrutura a narrativa de Saramago: as súbitas mudanças de presente permitem a Caim viajar no tempo, ora para a frente - presente por vir - ora para trás - presente passado. A unidade da narrativa é garantida pelo facto de Caim mudar de presente, o que faz dele a figura central do romance - e da história do desentendimento entre Deus e os homens - como testemunha ocular e, em casos importantes, como quando impede que Abraão matasse o seu filho Isaac, participativa, da intervenção de Deus nos assuntos humanos. Ora, os críticos não compreenderam esta estrutura temporal da narrativa e, por isso, dizem disparates, alegando que Saramago fica prisioneiro do sentido literal dos textos bíblicos, descontextualizando a acção das figuras bíblicas e descurando as interpretações simbólicas. Em termos teológicos, Saramago distancia-se claramente da exigência de desmitologização dos textos bíblicos: a hermenêutica existencial de Rudolf Bultmann é-lhe completamente estranha, até porque o seu programa de desmitologização lhe soa talvez a desteocratização da Bíblia. Para Bultmann, a verdade e a novidade do cristianismo reside nesse paradoxo mediante o qual a transcendência de Deus se faz presente, como chamamento de salvação, no homem Jesus Cristo. As religiões místicas introduzem Deus nos acontecimentos ou nos signos objectivos deste mundo, liquidando assim a sua transcendência, enquanto o humanismo religioso liberal o identifica com o âmbito da abertura do homem. Ora, para Bultmann, só o cristianismo, centrado no paradoxo de Cristo, permite que Deus seja transcendente e o homem, puramente humano, postulando a unidade de ambos em Cristo. Assim entendida a novidade do cristianismo, torna-se possível proclamar e realizar a palavra salvadora - como transcendência interior e como libertação do mundo e abertura à esperança - no âmbito da própria vida humana. Saramago não só não acredita na salvação, mesmo na sua forma secularizada como realização de uma sociedade fraterna, como também desconfia do sentido político desta viragem teológica. Na sua perspectiva, desmitologizar a Bíblia significa desteocratizá-la e desteocratizar a Bíblia significa humanizá-la, com o objectivo de apagar todos os vestígios literais da responsabilidade de Deus pela história cruel da humanidade e do seu descuido pelo futuro do homem. Daí que Saramago procure recuperar e reanimar o sentido literal historicizado da Bíblia para acusar e condenar Deus. Isaac detectou a essência da lógica da intervenção divina na história dos homens quando disse a Abraão: «Pai, a questão, embora a mim me importe muito, não é tanto ter eu morrido ou não, a questão é sermos governados por um senhor como este, tão cruel como baal, que devora os seus filhos» (Saramago).
9. O final do romance. O final do romance de José Saramago é descon-certante, mas dotado da grandeza de todo o pensamento original: já sabia que era desconcertante, mas estava com esperança de encontrar no texto uma outra orientação hermenêutica mais positiva. Caim mata um a um - com excepção de Noé - os escolhidos de Deus, contrariando o projecto divino de iniciar uma segunda humanidade. Depois do dilúvio, da humanidade resta apenas Caim que discute com Deus, uma discussão que continua, sem sabermos se terá um fim. No entanto, Deus não mata Caim, condenando-o à morte natural. Matar Deus foi, para Caim, matar os seus escolhidos: engravidou as noras de Noé, como se estivesse a ajudar a aumentar a nova humanidade, mas acabou por matá-las, incluíndo a mulher de Noé. A propagação da espécie, quer seja por imposição do cio, quer seja por simples apetite, é vista como uma compensação dos mortos perdidos na guerra. Quando disse «Crescei e multiplicai-vos», Deus impôs ao homem a necessidade de fazer filhos para alimentar as guerras com novos combatentes e para «suprir as perdas em mortos e feridos que sofriam os exércitos próprios e alheios» (Saramago), mas este pensamento perde-se aparentemente com o final desconcertante. Caim encontrou o sentido da sua vida matando Deus, isto é, contrariando o seu projecto: Matar Deus como sentido último da história? Mas se matar Deus é dizer não à reprodução, então a consumação do ateísmo seria um suicídio colectivo - a morte voluntária da humanidade, tal como fez Noé quando se lançou às águas negras e profundas do dilúvio, mas com esta diferença: Noé suicida-se para não ter de enfrentar a ira de Deus e responder pelo fracasso da missão que lhe fora atribuída, enquanto o homem finalmente liberto se suicida para se livrar de vez do domínio cruel de Deus. Com efeito, homem e Deus pertencem-se um ao outro: a morte de um é a morte do outro. Onde há homens há Deus e onde há Deus há homens: a emancipação humana do domínio de Deus só pode ser consumada na morte voluntária. Esta é a mensagem pessimista de Caim!
10. A morte voluntária do homem é a morte de Deus. O romance de José Saramago termina com este derradeiro diálogo entre Caim e Deus: «Onde estão Noé e os seus, perguntou o senhor, Por aí, mortos, respondeu caim, Mortos, como, mortos, porquê, Menos Noé, que se afogou por sua livre vontade, aos outros matei-os eu, Como te atreveste, assassino, a contrariar o meu projecto, é assim que me agradeces ter-te poupado a vida quando mataste abel, perguntou o senhor, Teria de chegar o dia em que alguém te colocaria perante a tua verdadeira face, então a nova humanidade que eu tinha anunciado, houve uma, não haverá outra e ninguém dará pela falta, Caim és, e malvado, infame matador do teu próprio irmão, Não tão malvado e infame como tu, lembra-te das crianças de sodoma, Houve um grande silêncio, Depois caim disse, Agora já podes matar-me, Não posso, palavra de deus não volta atrás, morrerás da tua natural morte na terra abandonada e as aves de rapina virão devorar-te a carne, Sim, depois de tu primeiro me haveres devorado o espírito, A resposta de deus não chegou a ser ouvida, também a fala seguinte de caim se perdeu, o mais natural é que tenham argumentado um contra o outro uma vez e muitas, a única coisa que se sabe de ciência certa é que continuam a discutir e que a discutir estão ainda, A história acabou, não haverá nada mais que contar». No suicídio colectivo da humanidade reside o núcleo essencial da mensagem do Caim de José Saramago. Não haverá nova humanidade: Saramago não acredita na possibilidade de realização plena de uma sociedade fraterna. O fim da história só pode ser consumado com a morte voluntária do homem. A história como desentendimento entre o homem e Deus chegará ao fim com a morte do último homem e o suicídio de Deus. Enquanto essa morte essencial e livre - absolutamente aniquiladora - não ocorrer, a história continuará a ser crime, conflito, guerra, exploração, injustiça, crueldade, enfim violência gratuita. Só podemos matar Deus cometendo o suicídio, porque, sem criaturas subjugadas ao seu domínio, Deus deixa de reinar e também ele será forçado a suicidar-se. Ora, esta não é a ideia marxista do cumprimento da modernidade: a emancipação como morte consciente e voluntariamente enfrentada é de facto uma ideia que colide com o optimismo de Marx e a sua fé num para além da história. Caim é um assassino, Deus é um assassino, e, sendo assim, Caim devia ter saído da barca de Noé e ter-se suicidado perante Deus. Como não o fez, a discussão - a dialéctica antropo-teológica da guerra e da crueldade - continua até aos tempos modernos.
11. Destruição de Sodoma. Até parece ser uma ideia estranha esta que atribuo ao Caim de Saramago, mas não é nada estranha. O jumento leva Caim a viajar no tempo, ora indo para atrás, ora indo para a frente: o homem que matou o irmão com a intenção de matar o pai - Deus - é omnipresente, participando em todos os acontecimentos como testemunha ocular da inveja que Deus sente pelos homens. Mas há um acontecimento marcante: a destruição de Sodoma. Os homens que fazem sexo com outros homens não fazem filhos: os seus prazeres carnais não agradam a Deus, porque este precisa que os homens façam filhos, de modo a garantir a «continuidade biológica» da humanidade e assim a governação divina da «vida íntima dos seus crentes» (Saramago). As gerações que morrem natural ou violentamente para prazer do senhor devem ser substituídas por novas gerações: a diversão do senhor precisa de novas vítimas. Atribuo importância a este episódio, porque ele permite nas suas diversas recapitulações chegar à conclusão exposta nos dois parágrafos anteriores. Para Saramago, não fiar em Deus é, em última análise, não fiar no homem: à liquidação da esperança na chegada de um futuro inteiramente novo que não seja "uma sucessão de cópulas bem sucedidas" (Saramago) corresponde um pessimismo total. A história está condenada a ser um desentendimento entre pai e filho e o comércio sexual entre eles - como sucedeu entre Noé e o seu filho mais novo - conduz a nova maldição, a nova destruição. A humanidade nasceu do comércio sexual entre o pai e o seu filho: é incesto, é pacto maligno entre eles, é discussão.
12. Job. Todos os "presentes" visitados por Caim revelam o sentido infame desse pacto entre Deus e os homens, entre Deus e Caim e entre Deus e o diabo: o sentido da aliança que o episódio de Job - que, apesar do sofrimento, continua a ser fiel ao senhor - ajuda a clarificar. Convém relembrar o episódio mais originário: Deus criou o homem e deu-lhe liberdade. Ao matar Abel por ciúme, Caim exerceu plenamente o poder que lhe foi conferido pelo senhor: a liberdade para matar. No último capítulo do romance, Caim mata um a um os membros da família de Noé, escolhida por Deus para repovoar a terra com uma segunda humanidade. Caim que começou por matar o seu irmão por culpa de Deus, mata por fim, mesmo depois de ter impedido que Abraão matasse o seu filho numa das suas viagens no tempo, a família de Noé para impedir a realização do projecto divino. Tal como a força bruta dos seus "anjos-operários", o poder humano de matar e de enfrentar consciente e voluntariamente a sua própria morte assusta Deus, porque escapa ao seu controle. Se o homem e Deus se pertencem um ao outro, não há outra saída - e isto se quisermos eliminar Deus e consumar definitivamente o ateísmo - a não ser matar os homens, fomentando o terror ou, de preferência, enfrentando consciente e voluntariamente a nossa própria morte: a morte de um é a morte do outro. Foi por isso que Deus não matou Caim, pondo-lhe na testa o sinal, não só da sua condenação por ter assassinado Abel, mas também e fundamentalmente da sua protecção: «Então não serei castigado pelo meu crime, perguntou caim, A minha porção de culpa não absolve a tua, terás o teu castigo, Qual, Andarás errante e perdido pelo mundo, Sendo assim, qualquer pessoa me poderá matar, Não, porque porei um sinal na tua testa, ninguém te fará mal, mas, em pago da minha benevolência, procura tu não fazer mal a ninguém, disse o senhor, tocando com o dedo indicador a testa de caim, onde apareceu uma pequena mancha negra, Este é o sinal da tua condenação, acrescentou o senhor, mas é também o sinal de que estarás toda a vida sob a minha protecção e sob a minha censura, vigiar-te-ei onde quer que estejas, Aceito, disse caim, Não terias outro remédio» (Saramago). Aqui reside a parte substantiva do pensamento de Saramago, que, nesta lógica teológica e teocrática da história, é ele próprio, tal como Caim, prisioneiro do ciclo infernal e cruel da história do homem, que é também a história de Deus. Só há uma saída para escapar definitivamente ao domínio infame e malvado de Deus: o suicídio. Assumir a incumbência da morte voluntária é dizer não à continuidade do jogo divino-diabólico que move a história. Hegel tinha-nos ensinado que o suicídio era a realização e a manifestação mais autênticas da liberdade individual absoluta, mas Saramago prega uma finta a Hegel quando, recusando que a história tenha chegado ao seu fim com a Revolução Francesa e a realização da liberdade, insinua que a libertação final e derradeira do homem implica a morte conjunta de Deus e do seu duplo - o homem. A leitura está concluída, mas será necessário confrontá-la com outros livros de Saramago para afinar os seus conceitos nucleares.
J Francisco Saraiva de Sousa

83 comentários:

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Ai, ai, ai... Estou a ler José Saramago. Tomei a decisão de o ler ontem à noite, vesti-me e fui comprar alguns livros dele. Estou concentrado no Caim e, de momento, estou decepcionado com a obra, como se estivesse a ler uma "historinha" escrita por uma cozinheira vulgar. Falta-lhe espessura, densidade filosófica; é muito literal, pouco profundo, muito imediatista, muito pobre em termos de pensamento. Como crítica da Religião é uma regressão total: Saramago escreve como se estivesse do lado de fora da crítica da religião e do seu rigor metodológico.

Mas vou escrever alguns posts sobre o Caim de Saramago!

Ah, até agora só encontrei uma frase com valor crítico, mas não vejo como a posso fundamentar e explicitar recorrendo ao resto da obra povoada de masturbações e de projecções de sémen. :(

Porém, mantenho uma abertura total, porque acho graça ao modo como o espírito burguês é recuado no tempo ou o Caim é um nosso contemporâneo. Esta operação é frutífera, mas penso que Saramago não soube tirar proveito dela, talvez porque tenha levado deus muito a sério, como se ele tivesse sido - ou fosse - uma pessoa: Saramago não compreende como funciona a ideologia: Deus não é mau; maus são os homens mas Caim é honesto.

Não detecto nenhuma afinidade entre Saramago e o marxismo: a sua posição é a de um homem crente, não a de um crítico da ideologia religiosa. A tal frase que referi colide com a ideia fundamental do marxismo, que, como já mostrei noutros posts, não é um ateísmo. É por isso que Marx nunca criticou a ideia de Deus, reduzindo a história dos homens a um diálogo-confronto com Deus. A ausência de conhecimentos filosóficos faz de Saramago um narrador quase-popular: a sua ingenuidade é desconcertante!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

"A maligna maldade do sujeito": eis outra noção desconcertante de Saramago. De que sujeito? Do sujeito humano-criatura ou do Sujeito-Deus? Trata-se no texto sobre a adoração do bezerro de ouro do sujeito humano. Há aqui uma ambiguidade que é desconcertante, como se Saramago aceitasse a noção de que a história do homem é uma história da maldade depois da queda, mas esta noção não rompe com o cristianismo e, a partir dela, Deus pode ser ilibado da crueldade que lhe atribui Saramago.

A feitura deste post vai ser lenta, porque quero ser justo. :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

No entanto, no romance de Saramago surge a crítica da ideia de obediência: Deus testa as suas criaturas para ter a prova da sua obediência, da sua fé. Mas as criaturas biblícas revelam alguma resistência, o que significa que Deus - talvez ciente disso - é forçado a testá-las constantemente. A interpretação literal e irónica dos textos biblícos justifica-se pelo facto de Saramago pretender indiciar essa resistência dos sujeitos humanos ao domínio de deus. Seguindo talvez esta via é possível confiar em Saramago.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

A noção de poder de Saramago aparece nos palácios e revela-se sempre que utiliza uma linguagem mais adequada aos tempos de miséria - desemprego, crise, operário, ocioso, etc. O poder está muito localizado, como se Saramago desconhecesse a hegemonia. no entanto, nas relações deus-homens revela-se uma hegemonia. Por enquanto, ainda não descobri todas essas conexões, mas estou com o espírito aberto - medito.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Há uma tese interessante: Caim matou Abel por não poder matar o senhor-deus. Caim é um herói humano condenado por deus: a luta é permanente. É preciso matar deus... e conquistar a emancipação. Começo a entrar no espírito da obra, mas é provável que o resultado final desta análise não coincida com a própria leitura que Saramago faz da sua obra. Mas eu sou filósofo e não escrevo romances!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Ah, a morte de Abel, em vez da morte do senhor, permite a Saramago fazer uma incursão metafísica quando se interroga sobre o objectivo final ou razão última da aventura humana. A Igreja Católica diz: a reprodução da espécie, isto é, fazer filhos, sem responder claramente porquê e para quê. A resposta foi dada por Caim e não é nada optimista. Mas termino aqui, não vou revelar já a minha leitura. Surpresa! :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Já ganhei avanço na leitura atenta de Caim de Saramago e estou a gostar do modo como o estou a ler: a história humana de Caim - o segredo de Caim-deus.

A crítica que os padres dirigem a Saramago é simplesmente o resultado de má-fé e de ignorância activa, bem como aquela que lhe é feita pelos pseudo-intelectuais invejosos - os tugas burrecos. O sentido literal não é relevante; o que interessa é o sentido humano da história do homem, aliás uma história dialéctica. Adão, Eva, Caim, Abel, Set e por aí fora são seres humanos que conquistaram "voz própria", isto é, autonomia em relação a Deus. Um país hipócrita como Portugal nunca está preparado para ser confrontado com leituras críticas da Biblía: o tuga é medroso e mais medroso que Eva que teve coragem para seduzir o Querubim, provocando-lhe o desejo carnal. antes de conhecerem o bem e o mal, Adão e Eva fornicavam e gostavam de fornicar - a marca da humanidade. O tuga é ignorante, malicioso e invejoso!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

A tensão habita a minha leitura, mas vislumbro na estrutura da narrativa e na temporalidade que a suporta uma via de reconciliação - entre Saramago e o marxismo. É claro que deveria recorrer a outras obras, mas vou resistir a tal tarefa, fazendo a filosofia funcionar na escassez de palavras edificantes do narrador chamado Saramago: a peça central do funcionamento da ideologia religiosa encontra-se no tirar a prova - a obediência a deus, isto é, à ideologia.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Por enquanto, vejo o primado do presente que permite a Saramago trazer a história biblíca de Caim até aos nossos tempos modernos, mas suspeito que, em termos filosóficos, não se trata de mera magia do narrador, porque há nesse modo de temporalização uma filosofia da história, talvez de cunho pessimista. É nisso que estou a trabalhar, isto é, a pensar...

Aveugle.Papillon disse...

Bem o "filósofo" a querer perceber a obra do romancista é deveras compassivo. :)

Abraço cheio de chuva desta cidade onde "finit l'Europe".

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Olá Else

Sim, estou a analisar Saramago - Caim - e estou a gostar do desafio. Aqui tb tem chovido e muito!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

O burreco do homófobo anda a insultar Saramago sem o ter lido: Que burreco invejoso e mórbido o homófobo! Estas criaturas da direita reaccionária são mesmo anti-humanas! Mentem, mentem, mentem... e não têm vergonha na cara por serem tão burrecas e porcas!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Quando Lilith pergunta a Caim que cidade era essa que viu crianças carbonizadas pelo fogo do céu, Caim responde - sodoma é a cidade onde os homens preferiam os homens às mulheres. Referência à homofobia! Menciono isto para lembrar que os homófobos são tão panascas quanto os homossexuais que querem queimar. Ora, as cenas eróticas de Caim - dignas dos Salmos - despertam os desejos secretos dos homófobos que, por momentos, gostariam de ser as escravas que receberam o sémmen de Caim na cara e na boca ou a
Lilith que abriu as pernas a Caim e que se fartou de gemer de prazer. O homófobo é panasca! :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

A virilidade de Caim - o seu desejo, a sua potência, as suas erecções fortes, a sua fertilidade, o seu tremendo falo - seduz os homófobos que, como criaturas deficitárias de masculinidade, desejam consumir o sémen de Caim, de modo a incorporar a sua virilidade. Ah, já estou cansado destes homófobos-panascas! :(

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Sr

Ando ocupado mas li os seus comentários. Uma nota:

Marcel Mauss ou mesmo Lévi-Strauss não podem ser incluídos na banda dos seguidores franceses de Nietzsche, porque a sua teoria da troca vem de Malinowski, funcionando quase como uma categoria indígena.

A "parte maldita" de Bataille não é uma novidade: Marx preocupou-se mais com o excedente (económico) do que com a escassez, além de ter uma teoria completa da troca. :)

Sr disse...

Hey, francisco. Ta aí?
Ligue no canal Historia e fique a ver os seusamgs dialecticos marxistas a namorar apaixonadamente com os dialeticos nazistas o.O

Sr disse...

http://www.canaldehistoria.pt/pt/012ficha_programa.php?housenumber=ID103N7M



Nietzsche \0/

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Bem, falar de Saramago é quase tabu em Portugal e estou com os ouvidos entupidos, quer pelas falas dos amigos, quer pelos palpites do Lobo Xavier na Quadratura do Círculo. Vou fazer algumas notas:

1. A crítica que Saramago faz dos textos biblícos não é original de todo, nem sequer é a mais radical. Em Portugal, guerra Junqueiro foi mais radical.

2. Como criador Saramago tem todo o espaço de manobra para criar e recriar as suas figuras biblícas: um romance não é uma obra de exegese, embora possa utilizar esses conhecimentos. É essa criação que deve ser avaliada, até porque Saramago fornece indicações a esse respeito.

3. Estranho é o facto dos seus críticos fazerem crítica sem ter lido a obra: as críticas são dirigidas a um nada ideológico que simplesmente não está presente na obra. A própria interpretação de Saramago pode ser descartada, se for a que ele tem difundido nos media.

4. Em Portugal, todos pensam que percebem de tudo, mas na hora da verdade são uns burrecos: o país está como está devido à burrice malévola dos tuga-burrecos. As pseudo-elites nacionais são abortos culturais, como se sabe ou devia ser sabido. E muito, muito, muito invejosas. Daí que não haja progresso mas regressão pantanosa.

5. A leitura que faço aceita as regras de jogo estipuladas por Saramago como narrador. Vou jogar com essas regras e, se necessário, contra o seu principal jogador, tentando uma reconciliação com o marxismo que, como se sabe, não permite deitar fora o livro que guarda o suspiros dos oprimidos. Este princípio colide com o que Saramago disse ou tem dito sobre Caim. Há a Biblía dos pobres e essa permanece por realizar. O marxismo é crítico mas não rompe com a tradição; pelo contrário, exige a sua realização plena - a realização das promessas ainda não cumpridas a favor da emancipação.

6. No mundo ocidental, talvez devido ao triunfo do neoliberalismo e do pensamento único, as pessoas estão a ficar muito pouco receptivas à crítica: querem abolir a crítica, querem silenciar as vozes dissonantes, em nome da trivialidade e da mediocridade metabólica. A crítica incide sobre conteúdos objectivos e situações injustas, mas neste caso os anti-críticos devem ser alvo da crítica: os burrecos devem ser silenciados, porque a sua existência é inútil e desperdiça energia. Eles não distinguem entre a sua pessoa e as suas opiniões e, quando as últimas são criticadas, sentem ser alvo de um ataque. Ora, isto é sintoma de regressão cognitiva e talvez de perturbações mentais difusas: o animal metabolicamente reduzido não foi talhado para pensar.

Sr

Os marxistas não são nazis e não há uma única tese marxista susceptível de ser usada pelos nazis: a dialéctica revolta-se contra qualquer forma de pensamento totalitário; a imobilidade é um estado que lhe é visceralmente estranho. Daí que os ideólogos de Estaline tenham tentado abolir a dialéctica, convertendo-a numa concepção do mundo, mas este foi um dos seus erros. O mesmo não pode ser dito de Nietzsche: Heidegger escreveu o seu Nietzsche bem perto dos campos da morte. Além disso, não faz sentido tentar colocar Nietzsche ao nível de Marx: o último é um pensador original que consuma a tradição; Nietzsche é reaccionário, voltando-se para temas já superados e pouco actuais, tal como o da morte de Deus. Bem, Bataille não é um seguidor de Nietzsche: o Nietzsche dos franceses é uma mistificação conceptual. A obra mais recente de Baudrillard colide com a de Foucault, a de Foucault não coincide com a de Deleuze, e as obras de todos estão distantes da de Bataille. Os supostos seguidores são dissonantes, mas pode tentar uma síntese: cada um é livre... :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Ah, e outra coisa: marxismo e comunismo não são sinónimos. Marx já era comunista antes de ser marxista: o comunismo é um conceito velho cuja história pode ser recuada até a alvorada do cristianismo ou mesmo a Platão.

E eu sou marxista mas não sou comunista; aliás, tenho defendido que devemos aproveitar a onda e navegá-la sem ser atormentados pela experiência "comunista" na ex-URSS. Ou Saramago pode ser comunista sem ser marxista... etc.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Sr

Se me disser que Nietzsche contribuiu para pensar a modernidade, eu aceito, mas lembro que a sua filosofia está integrada no período terceiro da filosofia burguesa: Lukács mostrou isso e o tempo confirmou a sua análise. Este é um facto incontornável e penso que ficamos todos prejudicados por não o levar em conta. Não descarto nietzsche mas também não esqueço que a sua filosofia foi usada para justificar o racismo no período do capitalismo imperialista.

Marx acertou em cheio quando destaca a nova ordem económica: a modernidade não pode ser dissociada do capitalismo. A filosofia burguesa foi revolucionária, mas depois entrou em decadência, aliás um aspecto captado por Nietzsche mas interpretado em termos fisiológicos. Também não descarto completamente essa decadência fisiológica, mas não aceito a solução de Nietzsche. O romantismo que alimenta o pensamento alemão é anticapitalista, mas de modo regressivo: o regresso a formas anteriores de sociedade - feudal ou grega. Hegel que foi apanhado nessa teia libertou-se dela, elogiando a revolução francesa. Período revolucionário que já não era o do tempo de Nietzsche. Daí que muitos dos seus temas sejam serôdios.

Lembre-se que o capitalismo dispensa a moral e a cultura, não porque não tenha valores, mas porque os reduz aos valores económicos. Simmel aceitou esta tese de Marx e tb ele foi vitalista.

Os franceses que remodelam Nietzsche foram antes estruturalistas, o pensamento tecnocrático, e conservaram muitos temas do estruturalismo no período seguinte, mas pecaram quando condenaram ou limitaram a resistência: ajudaram inadvertidamente no triunfo do pensamento unidimensional - sem oposição.

É claro que faço uma leitura marxista, porque acho que ainda é a única chave segura para abrir novas portas. :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Já fiz referência à noção de temporalidade que estrutura a narrativa de Saramago: súbitas mudanças de presente permitem-lhe -a - Caim - viajar no tempo, ora para a frente - presente por vir - ora para trás - presente passado. A unidade da narrativa é garantida pelo facto de Caim mudar de presente, o que faz dele a figura central do romance. Ora, os críticos não compreenderam isso e por isso dizem disparates, alegando o sentido literal que neste caso não é evidentemente respeitado devido à originalidade da mensagem.

Sr disse...

J Francisco Saraiva de Sousa disse.
Sr

Os marxistas não são nazis e não há uma única tese marxista susceptível de ser usada pelos nazis: a dialéctica revolta-se contra qualquer forma de pensamento totalitário; a imobilidade é um estado que lhe é visceralmente estranho. Daí que os ideólogos de Estaline tenham tentado abolir a dialéctica, convertendo-a numa concepção do mundo, mas este foi um dos seus erros. O mesmo não pode ser dito de Nietzsche: Heidegger escreveu o seu Nietzsche bem perto dos campos da morte. Além disso, não faz sentido tentar colocar Nietzsche ao nível de Marx: o último é um pensador original que consuma a tradição; Nietzsche é reaccionário, voltando-se para temas já superados e pouco actuais, tal como o da morte de Deus. Bem, Bataille não é um seguidor de Nietzsche: o Nietzsche dos franceses é uma mistificação conceptual. A obra mais recente de Baudrillard colide com a de Foucault, a de Foucault não coincide com a de Deleuze, e as obras de todos estão distantes da de Bataille. Os supostos seguidores são dissonantes, mas pode tentar uma síntese: cada um é livre... :)



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Fantástico, esse foi talvez o seu unico post que me fez sentir estar totalmente em desacordo quanto às suas interpretaçãoes. :))

Sobre nietzsche nem vale a pena comentar, pois ele já tá mais q dissecado(embora, pelos vistos, ainda mal compreendido)e a influencia marcante que todos os grandes pensadores do sec passado lhe reconheceram está aí pra o provar. ^^
Levi-Strauss também, yeah, e esta madrugada até perdi algum tempo, com bastante agrado diga-se, a reler entrevistas e outros txt dele. ^^ Foi bastante util - e é neste tipo de coisas q o seu blog é estimulante, pois incentiva-nos a pesquisa - já que, obvio, tem tudo a ver com os tais estudos sociologicos q o bataille fez sobre as sociedades indigenas e a dimensao do sagrado e isso permitiu q perspectivasse ainda melhor as intuiçoes e estudos n so do bataille, como tantos outros como artaud, surrealistas, mauss etc pela exploração dessa via.
Relativamente ao Levi-Strauss, é Mauss sim a quem ele reconhece gr influencia, confirmei-o no seu "Introdução à obra de Marcel Mauss", lol


Sobre o tal doc do Historia, aconselho-o vivamente a ver(repetem hoje), pois nele fica claramente desmontada essa velha tentativa de dissociação do "ai, uma coisa é o marxismo, outra estaline e blabla".
Até é notorio q os autores do doc sao indisfarçavelmente anti-socialistas, howeva, naõ deixaram de saber pegar em conceitos chave marxistas pra demonstrar o fundo esquiso-paranoico da doutrina, retomando afinal, algumas das pp intuiçoes nietzscheanas sobre o tema.
A principal q me parece ser destacada no doc é a noção de CLASSE, a qual, e a exemplo da critica do baudrillard ao denunciar a paranoia capitalista de ver tudo como produção e produção de si mesmo.


cont depois, vou alm :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Sr

É preciso colocar os textos no seu tempo: o facto de Nietzsche ter sido lido na segunda metade do século XX com alguma atenção deve ser interpretado como a procura de uma terceira via, mas a sua influência na esquerda não produziu nenhuma via; pelo contrário, bloqueou tudo, levando a esquerda a seguir um caminho suicidário. Mas este assunto é muito complexo.

Lévi-Strauss nessa introdução demarca-se da explicação dada por Mauss, o que significa que a proximidade não implica conformidade de perspectivas: o estruturalismo tal como o pratica Strauss é avesso a Mauss. Porém, não compreendo como pode estabelecer uma ligação entre esta escola sociológica - a de Durkheim - e Nietzsche, porque não há ligação. A perspectiva antropo-sociológica de Mauss não tem nada a ver com Nietzsche e Lévi-Strauss com Batallie. Aliás, Lévi-Strauss estabelece uma ligação do seu pensamento com o de Marx: uma clarificação da super-estrutura.

Baudrillard é masturbação e não tenho paciência para falar de masturbadores compulsivos. Já disse o suficiente sobre ele! A produção é fundamental e, sem ela, não há sociedade. Baudrillard está de tal modo alienado que pensa que a sociedade pode subsistir sem produção.

Bem, essa ligação entre marxismo e nazismo não a levo a sério, porque carece de sentido.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Todos sabemos que não existem nietzscheanos, porque não há apenas um Nietzsche mas muitos Nietzsche-s: a sua obra presta-se a diversas leituras. Basta ler as diversas obras que lhe foram dedicadas: o facto de ser uma obra fragmentar e inacabada, portanto, um mosaico, permite que cada um recolha os aforismos mais do seu agrado e com eles construa alguma coisa semelhante a um pensamento.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

De certo modo, Baudrillard é vítima do fetichismo do dinheiro, aliás uma possessão dominante na UE: destruir o tecido produtivo e especular. A crise económica traz novamente o homem à realidade da produção: precisamos produzir para combater a pobreza, a miséria e o desemprego. Mas quem revelou a essência do dinheiro? Marx, claro... Nietzsche não compreendeu o espírito dos tempos modernos. Um dos leitores de Nietzsche - Simmel - segue Marx, destacando o papel da economia monetária.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Os grandes mentores são Hegel e Marx: Nietzsche tentou superá-los mas sem sucesso. Inversão de Platão? Mas quem a realizou? Hegel, mas também Kant... Morte de deus? Mas é este um tema original? É velho, muito velho: Hegel matou deus, Feuerbach também, e antes deles houve outros, a começar pelo Caim de Saramago. Super-homem e transmutação de todos os valores? Isso é uma novidade? Leia as teses sobre Feuerbach de Marx e encontra lá a ideia correcta, não susceptível de ser usada pela banda-desenhada! Resta a genealogia como uma leitura da história da filosofia: a vontade de poder que conduziu ao relativismo que nos apoquenta.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

O final do romance de Saramago é desconcertante: já sabia que era desconcertante, mas estava com esperança de encontrar no texto uma outra orientação. Caim mata um a um - com excepção de noé - os escolhidos por Deus, lixando o projecto divino de iniciar uma segunda humanidade. Depois do dilúvio, da humanidade resta Caim que discute com Deus, uma discussão que continua, sem sabermos se terá um fim. Deus não mata Caim, condenando-o à morte natural. Matar deus foi para Caim matar os seus escolhidos: engravidou as noras de noé, mas também as matou. A propagação da espécie é vista como uma compensação dos mortos na guerra, ou seja, é necessário fazer filhos para alimentar as guerras, mas este pensamento perde-se com o final desconcertante. Caim encontrou o sentido da sua vida matando deus, isto é, o seu projecto. Matar deus como sentido da história? Mas se matar deus é dizer não à reprodução, então o final seria um suicídio colectivo - a morte voluntária da humanidade, tal como o entendeu Noé que se lançou às águas do dilúvio. Homem e deus pertencem-se um ao outro: a morte de um é a morte do outro. Onde há homens há deus e onde há deus há homens: a emancipação é a morte. Esta é a mensagem pessimista de Caim!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

O suicídio colectivo da humanidade: eis a mensagem do Caim de Saramago. Não há segunda humanidade! O fim da história é a morte voluntária do homem! A história como desentendimento entre o homem e deus chega ao fim com a morte do homem e de deus. Enquanto essa morte geral - absolutamente aniquiladora - não ocorrer, a história é conflito, é guerra, é exploração. Só podemos matar deus cometendo o suicídio. Sem criaturas deus deixa de reinar e também ele se suicida. Ora, esta não é uma ideia marxista: emancipação = morte é de facto uma ideia que colide com o optimismo de Marx. Caim é um assassino, deus é um assassino, e, sendo assim, Caim devia ter saído da barca de noé e suicidar-se diante de deus. como não o faz, a discussão - a dialéctica da guerra - continua...

Sr disse...

A principal q me parece ser destacada no doc é a noção de CLASSE, a qual, e a exemplo da critica do baudrillard ao denunciar a paranoia capitalista de ver tudo como produção e produção de si mesmo, o doc isola e mt bem para a projectar, inclusive, em personalidades confessadamente socialistas mas fora do espaço sovietico, como foi o caso do conhecido G.Bernard Shaw. Á constatação dos pogroms e politica de genocidio nazi, apenas terá objectado q se opunha, mas só pq hitler estava equivocado em querer eliminar judeus e outros povos supostamente inferiores, quando, segundo a doutrina, o q devia ser eliminado massivamente era o inimigo de CLASSE, neste caso a burguesia indiferenciadamente. E como ele outras personalidades e partidos socialistas e comunistas da altura anuiram a esse genocidio e politica nazi, tendo o documentario apresentado diferentes provas mais q crediveis, já q resultam de investigações historicas alheias ao programa. Até apareceu o goebells a discursar no partido e a afirmar/elogiar as similitudes socialistas de ambos os partidos, lol Tb coisas como cedencias de bases maritimas e comboios de mantimentos aos nazis, enquanto o povo, internamente, era reprimido e morria à fome tsc tsc Ah e foi o Estaline e blabla?? Foi, so q isso n explica tudo pois todos os seus maiores dirigentes, desde lenine a transfugas como trotsky, seguiam o mesmo tipo de acção politica: a eliminação directa e impiedosa em nome do socialismo até à grande sintese final, lol



Quanto à tal conexão q faço e diz não conseguir descortinar, já o aflorei varias e no seu post anterior até deixei o tal excerto de nietzsche do Crepusculo dos Idolos. :) Básicamente, consiste em insistir na recuperação e aprofundamento dos estudos sobre o dom(e similares) e a economia pelo lado da despesa como o fez, por ex, Mauss e bataille, como constatação de possibilidade de outras formas de organização social para além da circulo asfixiante, excludente e esquizofrenico da produção e acumulação de mercadorias, bem como da continua saga de dominação paranoica universal da natureza.
basicamente é esta a matriz :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Até parece uma ideia estranha esta que atribuo a Saramago, mas não é. O jumento conduz Caim a viajar no tempo, ora indo atrás, ora indo à frente: o homem que matou o irmão com o objectivo de matar o pai (deus) é omnipresente, participando de todos os acontecimentos como testemunha da inveja que deus tem dos homens. Mas há um acontecimento marcante: a destruição de sodoma. Os homens que fazem sexo com outros homens não fazem filhos: os seus prazeres não agradam a deus, porque este precisa que os homens façam filhos. As gerações que morrem natural ou violentamente para prazer do senhor devem ser substituídas por novas gerações: a diversão do senhor precisa disso, precisa de novas vítimas. Atribuo importância a este episódio, porque ele permite nas suas diversas recapitulações chegar à conclusão exposta nos dois comentários anteriores. Para Saramago, não fiar em deus é não fiar no homem: liquidação da esperança! Pessimismo total! A história está condenada a ser um desentendimento entre pai e filho e o comércio sexual entre eles - como sucedeu com noé e o seu filho mais novo - conduz a nova maldição, a nova destruição. A humanidade nasceu do comércio sexual entre o pai e o seu filho - é incesto, é pacto maligno entre eles, é discussão...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Todos os "presentes" visitados por Caim mostram esse pacto entre deus e Caim: o sentido da aliança que o episódio de Job ajuda a clarificar. Não vejo outra saída: homem e deus pertencem-se e a morte de um é a morte do outro. Foi por isso que deus não matou Caim... aqui reside a parte substantiva do pensamento de Saramago, que, nesta lógica, é ele próprio prisioneiro do ciclo infernal da história do homem que é também a história de deus. Só há uma saída - aquela que noé protagonizou - a morte voluntária é dizer não ao jogo divino-diabólico. A leitura está concluída. Será necessário confrontá-la com outros livros de Saramago.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Logo que tenha tempo, faço alguns esclarecimentos e recomponho os parágrafos que compõem este post.

Aveugle.Papillon disse...

Hoje, neste "paraíso abitado por diabos" vi uma adaptação teatral do conto da ilha desconhecida de Saramago - muito belo e verdadeiro. :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Estive a ver o debate entre Sramago e o padre Carreira das Neves na Sic e a leitura que fiz confirma-se. Com tempo vou construir aos poucos as outras ligações. Sim, a escrita dele é muito rica e é pena que um burrico como Paulo rangel diga aquelas barbaridades que disse, como se percebesse de teologia. A boa teologia é protestante! Viva Saramago, apesar de não saber defender-se!

Sr disse...

Hey papillon!
isso é na bretanha, né? Q tal sao aí os asterixes em comparação com a pretalhada de cá? :))


Sobre o saramago, nao me parece q vá ler o livro, mas, mal tenha algum tempinho, urge repescar o kieerkgaard ^^

Aveugle.Papillon disse...

Ásterixes, pretalhada, bretagne? N sei do que fala. Eu estou a Sul e os homens aqui sao lindos, sim. Mas n há muitos pretos, só imigrantes do Senegal.

Sr disse...

kierkgaard, lol*
vou tentar ler este post do francisco e logo ja procuro o dinaamarqueês :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Ainda vou aperfeiçoar o post, de modo a preparar o aprofundamento da leitura que será alargada a outra obra - o evangelho segundo jesus cristo.

Aveugle.Papillon disse...

Francisco vi por curiosidade o debate de que falou via youtube e n foi nada de especial, até porque n há luz possível numa discussão entre um exegeta da bíblia e um artista, quer dizer, são coisas completamente distintas: Saramago pode dizer o que quiser pois tem a liberdade criativa mas n tem autoridade científica pq n tem o conhecimento, logo a aporia final isntala-se. De qq modo, ouviu-se bem, sem sobressaltos.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Sim, mas de qualquer modo Saramago soube disputar essa exegese, questionando o monopólio clerical da palavra de deus. Vou tentar introduzir alguns elementos desse debate neste post, embora não queira prolongar muito o texto, porque seria entrar já no próximo post.

Aveugle.Papillon disse...

Por acaso n estou de acordo. Esse monopólio n existe. Há uma interpretação católica da bíblia, a par de outras, e é exposta assim. É claro que do ponto de vista católico ele é absoluta, universal e verdadeira. Mas eles n detêm a bíblia e a autoridade sobre ela. Isso é demagogia... aliás os reparos de Saramago são interessantes por serem infantis: as perguntas que ele coloca são aquelas que nós (no meu caso fiz catequese durante toda a infância e juventude), que as crianças põem quando lhes "impõem" a bíblia.
Acho q a polémica que se fala, é uma falsa polémica e um falso debate e isso foi patente no debate.

Aveugle.Papillon disse...

E, no que diz respeito à interpretação protestante da bíblia, esse aspecto da discussão é muito interessante, porque nos leva à hegemonia cultural de hoje e à actualíssima questão meridional: o Norte prostestante, burguês e capitalista tem-se imposto ao Sul católico, popular, pobre e "ignorante" - como nos fazem crer -, mas isso deve ser desmistificado e superado!

Sr disse...

3. "A maligna natureza do sujeito". Eis outra noção desconcertante de Saramago, mas de grande profundidade filosófica. De que sujeito? Do sujeito humano-criatura ou do Sujeito-Deus-criador do mundo e do homem? Trata-se no texto sobre a adoração do bezerro de ouro do sujeito humano, mas também e primordialmente do Sujeito divino. Insinua-se aqui uma ambiguidade que é, à primeira vista, desconcertante, como se Saramago aceitasse a noção de que a história do homem é uma história da maldade depois da queda ou da expulsão do paraíso, mas esta noção não rompe cabalmente com o cristianismo e, a partir dela, Deus pode ser ilibado da crueldade que lhe atribui Saramago. No entanto, no romance de Saramago, surge a crítica da ideia de obediência: Deus testa as suas criaturas para ter a prova da sua obediência, isto é, da sua fé. Mas as criaturas bíblicas revelam alguma resistência, o que significa que Deus - talvez ciente dessa resistência devida à liberdade humana - é forçado a testá-las constantemente.



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pela descrição franciscna do livro, esta é mesmo a ideia q achei mais interessante, ainda assim peca tb, como de resto notou aí atrás papillon, por um grande desconhecimento dos txt especificamente teologicos e/ou filosoficos. Sim, porque tou em crer q se assim n fosse ele nunca abordaria esta temática deste modo.
No fundo, fá-lo mesmo como um velho marxista preso às suas pp categorias ilusorias de sempre... ahaha

Noção fundamental pra perspectivar o qt o saramago é superficial mesmo só como romancista, coisas como a reflexão(vivencia) sobre o "paradoxo", em... kierkegaard ;)



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Papillon, pareceu-me ter escrito algo como estar "onde a europa acaba". entao, isso seria a bretanha, axo :)


http://www.youtube.com/watch?v=yU7IZM6hHBA&feature=player_embedded

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Hmmmm... Acho que não leu tudo, porque Saramago tem uma outra mensagem radical e original.

Sr disse...

Li pois! maioria dos txt eu ate começo do fim pro principio, lol
refere-se à ideia da intima relação dialogal(tensional) Deus-Homem e a historia de resistencia deste?
N axei tao interessante, mas compreendo bem q um marxista a ache a mais importante :)

Sr disse...

ah o ipsilon tem dedicado gr atenção à polemica atraves do facebook e hj mesmo saiu la esta entrevista http://ipsilon.publico.pt/livros/texto.aspx?id=243680
Tb ha uma critica do eduardo pitta ao romance, tente encontrar

Sr disse...

ja viram o ultimo lars von trier, antichrist?

Chaos Reigns
http://www.youtube.com/watch?v=4L2ooG_MX9E&NR=1

postei link pro filme la no topico de cinema do meu forum o.O

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Sim, acabei de ler o Pitta aqui

http://daliteratura.blogspot.com/2009/10/jose-saramago.html

mas não é uma análise séria ou interessante. :(

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Bem, eu conheço bem a teologia e seria fácil chamar alguns teólogos para este debate, cujas matrizes hermenêuticas não estão distantes do espírito que move Saramago.

Mas esse é um velho costume do tuga invejoso: falar daquilo que desconhece, ou melhor, nomear sem verdadeiramente nomear.

Sr disse...

sim, a resenha do E.Pitta, lol, eu mesmo mandei boca no facebook ao ipsilon, pq eles destaca pra titulo "n ha tradição teologica em Pt", mas depois, ao longo do txt, o gajo limita-se a aludir à ausencia dessa tradição exclusivamente na literatura tsc tsc


Bem, ja tou entediado co saramagogo :). Vou postar um filme do Ozu no meu forum e c'est fini :)

http://video.filestube.com/video,461ca930724eddb203e9.html


8/10 no imdb ;)

Aveugle.Papillon disse...

Ainda bem q temos um tuga nao-invejoso e conhecedor da teologia.

Bom, Sr., sim os bretões são atlânticos como nós. :)
Estou onde acaba a Europa para os franceses da Grand Tour. :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Ah, mais logo acrescento o sinal - ninguém pode matar caim. Tinha esquecido...

Afinal, onde está a borboleta? :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Curiosamente há um argumento teológico contra a tese de Saramago: a comunidade dos mortos não se liberta de deus. Podemos bloquear o fluxo dos nascimentos, impedindo que nasçam novas criaturas, mas não podemos fazer com que essa decisão se aplique aos que já morreram. Ai mas hoje tenho a cabeça muito solta para pensar - vou tentar.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Bem, o post está definitivamente concluído. :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Bem, o FCPorto venceu a Académica, mas os rapazes precisam ser mais seguros, agressivos e atentos: o lema é vencer sempre com segurança e cabeça na bola! :)

Sr

Afinal, sempre fiz uma referência indirecta a Kierkegaard! :)

Sr disse...

:)
Mesmo n lendo o livro, mas tendo lido as entrevistas do saramagogo, continuo a n perceber pq é q ele n refere a nuance substantiva q pauta todo esse episodio de abel e caim. Refiro-me à questão de a oferenda de abel ter sido, ao contrario de caim, efectuada com fé. Ta bem explicito em "Hebreus", n percebo pq ninguem fala nisso?? Ou então é msm pq n li o livro...


Quanto à qustão do sinal, tb li q poderia não ser tanto um sinal de protecção mas sim de identificação. Daí mts associarem o sinal negro aos povos africanos. No entanto, e tanto qt sei, caim nao deixou descendentes..
Outra coisa q li, mas no episodio de Abraao, o q também é chamado de sinal ou marca de Deus é a circuncisão - embora esta interp n me pareça oferecer gr cabimento para o episodio do caim :)


Ah! ontem postei aqui a Sociedade do espectaculo :)
http://ipsons.forumeiros.com/geral-open-f1/documentario-musical-ficcao-literario-cinematografico-bandas-sonoras-t8-30.htm#bottom

nestes dias postarei tb um Socrates, do Rosselini, mas ainda quero ver 1º*

Sr disse...

aahhh, é verdadeeee!!
antes da sociedade do espectaculo nesse link do forum, veja o vd q tá antes, o Religulous :P

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Bem, o Caim de Saramago é simplesmente um romance baseado no Antigo Testamento.

1. Deus "colocou um sinal sobre Caim, a fim de que não fosse morto por quem o encontrasse" (Génesis).

2. Caim teve um filho - Henoc.

Enfim, o que interessa é compreender a mensagem do Caim de Saramago!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Agora vou dedicar-me novamente a Géza Róheim, porque um dos meus posts sobre ele é citado na Wikipédia e pretende esclarecer essa noção cultura = humanidade que Róheim usa para afirmar a unidade do género humano e a universalidade do seu psiquismo (inconsciente) contra a tese culturalista da relatividade cultural.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Ah, quanto a este último romance de Saramago, ficou aqui bem patente que o ateísmo implica uma postura diferente da marxista perante a história, o que significa que o ateísmo é incapaz de superar a religião, dado ser a outra face da mesma moeda. Ora, o ateísmo de saramago tal como o explicitei é, além disso, profundamente pessimista! É isto que está em jogo no seu Caim!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

numa perspectiva marxista adulta, devemos saber apreender a dialéctica teísmo-ateísmo em função do campo de forças da conjuntura política ou mesmo histórica: a crítica está mais preocupada com o carácter da intervenção religiosa nos assuntos do mundo do que com a questão de Deus - a afirmação ou a negação da sua existência. Além disso, a crítica encara a história como resultado da acção dos homens e não de Deus. Porém, Deus pode desempenhar um papel revolucionário sempre que é usado para protestar contra a ordem estabelecida. A teoria crítica é deveras tolerante. :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Sr

Marvin Harris faz uma crítica muito profunda da introdução de Lévi-Strauss ao "Ensaio sobre a Dádiva (Dom)" de Marcel Mauss, obra que introduz o princípio de reciprocidade - a forma arcaica da troca - e a teleologia inconsciente do espírito, portanto, uma espécie de antecipação daquilo que interessa a Lévi-Strauss.

Mas nós sabemos que o ensaio está desorganizado! Outra obra que retoma esse princípio é a de Karl Polanyi, mas numa perspectiva económica. Harris é um antropólogo marxista conhecido pela criação do paradigma do materialismo cultural e da ecologia cultural. :)

Sr disse...

Começando pelo fim :)
n conheço esse harris, mas o ter-me esclarecido q é marxista faz-me logo ve-lo como invejoso... ahah


Sobre o saramago


2 - teve Henoc mas a descendencia terá acabado com o Diluvio e Caim possivelmente morto por Lameque.

1 - Os mormons, por ex, criticam essa passagem do sinal como protecção http://pt.wikipedia.org/wiki/P%C3%A9rola_de_Grande_Valor



Quanto à tal passagem em Hebreus q ainda n vi ng comentar e axo bueeee esquisito esse esquecimento
"Pela fé Abel ofereceu a Deus um sacrifício superior ao de Caim. Pela fé ele foi reconhecido como justo, quando Deus aprovou as suas ofertas." (Hebreus 11:4)

tê.lo sido por FÉ faz toda a diferença*

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Harris invejoso? Não, porque se o fosse não tinha escrito a melhor história das teorias antropológicas: a crítica que faz do estruturalismo é pertinente e profunda. E Mauss não foi estruturalista, dado fazer parte da escola sociológica de Durkheim.

Sr disse...

ah! mas dir-me-á "é um romance e blabla". Right, so q eu vi mais q uma entrevista do saramago em q ele afirma ser uma idiotice(ou algo assim) deus ter preferido uma oferenda a outra, mas em momento algum ele refere essa tal nuance de abel o ter feito com fé*
E pior é q n vi ng objectar-lhe isso. nem teologos, LOL

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

E a fé como obediência cega a deus é objecto do tratamento crítico de Saramago! Daí a sua simpatia por Caim e pela sua coragem: Caim não foi cobarde! :)

Sr disse...

Teria q ler harris, mas, como sabe, mesmo em levi-strauss, o estruturalismo n corresponde bem ao q os seus criticos mais encarniçados dele disseram. Tenho entrevistas q o provam*

Well, tenho q trab. Entretanto, ja bx o socrates e logo se n for tarde pra casa ainda tentarei ver
http://www.youtube.com/watch?v=7cdwp3sIAYA :)

c ya later 0/

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Ya, o Sr é um paradoxo - simultaneamente cristão e nietzscheano! blablabla... :)

Sr disse...

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Blogger J Francisco Saraiva de Sousa disse...

E a fé como obediência cega a deus é objecto do tratamento crítico de Saramago! Daí a sua simpatia por Caim e pela sua coragem: Caim não foi cobarde!



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LOL, serio?? entao o saramago é mesmo abécula e revela uma total incapacidade de perceber(n so entender) a dimensao da experiencia religiosa.
Por isso eu suspeitei e falei logo em kierkegaard o.O

E, n sou cristao, lol Mas, yep, fiz ensino basico numa escola SUD huehuehe

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Bem, em termos estéticos, compreender o sentido-mundo de uma obra artística não é apreender a própria leitura que o artista faz da sua obra. No caso do Caim de Saramago, a obra não é uma exegese, um estudo filosófico, mas uma obra de arte. Saramago fala de ateísmo, mas à luz da obra este ganha o sentido que lhe dei e não aquele sentido vulgar que é discutido na blogosfera. Convém respeitar a autonomia da obra de arte e é enquanto obra autónoma que deve ser analisada.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Ah, até mesmo Kierkegaard é mais crítico perante o cristianismo do que o Sr, porque ele escreveu já na era da dúvida, sim a que vem de Descartes, sabendo que a fé se tornou problemática. O Sr parece não querer questionar a fé, refugiando-se na esfera da experiência religiosa.

Penso que em Saramago o paradoxo tem um outro sentido: a consciência da impossibilidade de eliminar deus sem eliminar tb o homem. Daí que a dialéctica deve cultivar a abertura... Aliás, a crítica kierkegaardiana do sistema aponta já no sentido dessa abertura na era da dúvida e tb da incerteza! :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

O que concluo da polémica blogosférica sobre Saramago é que os seus "críticos" ou difamadores empobrecem a sua obra devido à sua - deles - ignorância activa ou escassez de conhecimentos. :(

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

É o que digo ao longo deste post, nomeadamente aqui (7.6):

"No mundo ocidental, talvez devido ao triunfo do neoliberalismo e do pensamento único, as pessoas estão a ficar muito pouco receptivas à crítica: querem abolir a crítica, querem silenciar as vozes dissonantes, em nome da trivialidade, da frivolidade e da mediocridade metabólica. A crítica incide basicamente sobre conteúdos objectivos de conhecimento e situações injustas, mas nas actuais circunstâncias de eclipse da crítica os anti-críticos devem ser alvo privilegiado da crítica: os burrecos devem ser silenciados, porque a sua existência é inútil, gratuita e desperdiça energia. Eles não distinguem entre a sua pessoa e as suas opiniões e, quando as últimas são criticadas, reagem brutalmente como se estivessem a ser alvo de um ataque mortal. Ora, isto é sintoma de regressão cognitiva e talvez de perturbações mentais difusas: o animal metabolicamente reduzido não foi talhado para pensar."

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

A revista americana Travel dedica mais outro artigo à cidade do Porto, que classifica como única e muito bonita - única na sua beleza, destacando diversas áreas que devem ser vividas, respiradas e apreciadas. (O canal Travel tb elogia constantemente o Porto, convidando as pessoas a viajar até à cidade única e bonita.) :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

O benfica venceu o Nacional com a ajuda do árbitro: o terceiro golo do benfica corrupto resultou de um falso penalty. A partir daí não vi mais o jogo viciado do benfica, com os seus jogadores simuladores. O benfica vai pagar essa mentira com uma longa pena ditada por uma maldição carismática!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

O benfica não marca golos, marca penalties inventados pelos árbitros; os jogadores do benfica não jogam à bola, simulam penalties, dando indicação ao árbitro para os marcar. Apito encarnado! O benfica é uma vergonha! Machado tem razão quando deu nome aos bois: o benfica é um bando de bandidos. Verdade, honestidade, serenidade, competitividade, esforço, mérito... são palavras ausentes do seu vocabulário! Assim, com clubes deste perfil não se vai longe: Portugal afunda cada vez mais; empobrece alegremente! :(

Sr disse...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Ah, até mesmo Kierkegaard é mais crítico perante o cristianismo do que o Sr, porque ele escreveu já na era da dúvida, sim a que vem de Descartes, sabendo que a fé se tornou problemática. O Sr parece não querer questionar a fé, refugiando-se na esfera da experiência religiosa.

Penso que em Saramago o paradoxo tem um outro sentido: a consciência da impossibilidade de eliminar deus sem eliminar tb o homem. Daí que a dialéctica deve cultivar a abertura... Aliás, a crítica kierkegaardiana do sistema aponta já no sentido dessa abertura na era da dúvida e tb da incerteza! :)

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Eu n questiono a fé??
LOL, mas pra quê se ela ja foi tão questionada e dissecada até à redundancia e ruido actuais?
Deve tratar-se agora é de abordar a religião para além da dicotomia razão-fé, pois, como alguns pensadores q eu referi perceberam, é ainda uma dimensao da realidade suficientemente forte e subsersiva para surgir como alternativa possivel ao dominio capitalista e do materialismo estreito em geral.
kierkegaard pode-se considerar tb um epigono disso mesmo, pois a sua abordagem tá mt proxima da da mistica e n é por acaso q o wittgenstein(outro mistico) disse q ele foi, de longe, o pensador mais complexo do sec XIX.
Resumindo, parece-me evidente q esta dimensao foge ao entendimento do saramago, tal como tb parece fugir a tda essa turba imensa q o tem criticado pela persepctiva errada, imho.



Qt ao Benfica, é a mistica a renascer.. :)))

Sr disse...

Antes q me venha acusar de ayatollah pra cima, lol, q fique claro q o q defendo e axo fascinante é como a partir do estudo e conhecimento dessas sociedades mais primitivas é possivel projectar-se uma serie de alternativas reais(e ja testadas) ao pessimismo e fatalismo instalados na socied actual.
A cena do Dom, entao, é msm crucial para o entender*

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Ah, o benfica não tem mística, tem - isso sim - caganeira. Bah, detesto o benfica e o que representa - o fascismo e o atraso.

Sr disse...

Yep! vou passar apoiar a equipa dos pescadores q vai jogar contra o sporting :)


Ah, é verdade! ontem cheguei a casa há meia-noite, comecei a jantar e a ver o filme do socrates.
Foi tiro e queda, adormeci sentado no sofa,lol É mesmo como o nietzsche disse dele - um potente narcoticozZzZz :))

Aveugle.Papillon disse...

Ahah! N é nada, n diga asneiras. Leia os diálogos de Platão, as fontes. Nietzsche deu a sua "opinião" sobre Sócrates, mas Sócrates é o mestre, sempre. N é com filmecos de merda que se percebem os verdeiros sábios, aliás, o único sábio.

Klatuu o embuçado disse...

Sempre que se meteu pela religião, o Saramago denunciou falta de conhecimento teológico. Mas pronto. Não me apetece discussões em dias de velório.

Gostei do artigo.
Abraço.

Denise disse...

De Saramago aproveito a verve literária. Teologicamente, e independentemente do seu ateísmo, Saramago enche-se de falácias que descurto vivamente, pois mistura Deus com religião. Bah!
I love Saramago escritor.