sábado, 10 de outubro de 2009

Jean-Paul Sartre: o Dandismo de Baudelaire

«A mulher é o contrário do dândi. Portanto deve causar horror. A mulher tem fome e quer comer; sede, e quer beber. Está com cio e quer ser fornicada. O grande mérito! A mulher é natural, isto é, abominável. Assim é sempre vulgar, isto é, o contrário do Dândi». (Charles Baudelaire)
«O que é o amor? A necessidade de sair de dentro de si. O homem é um animal adorador. Adorar, é sacrificar-se e prostituir-se. Assim, todo o amor é prostituição. /O ser mais prostituído é o ser por excelência, é Deus, pois ele é o amigo supremo para cada indivíduo, pois ele é o reservatório comum, inesgotável do amor. /Com efeito, apenas podemos fazer amor com órgãos excremenciais». (Charles Baudelaire)
«A vida apenas possui um encanto verdadeiro: é o encanto do Jogo. Mas se nos for indiferente ganhar ou perder?» (Charles Baudelaire)
Os dois ensaios de Walter Benjamin sobre Baudelaire eclipsaram a obra que Jean-Paul Sartre lhe dedicou. Benjamin e Sartre apresentam duas análises completamente diferentes da mensagem do autor de As Flores do Mal: uma marxista, mais preocupada com a questão da modernidade, a outra existencialista, mais interessada em considerar o próprio homem, isto é, a escolha original que Baudelaire fez de si mesmo, naquele compromisso absoluto mediante o qual cada um de nós decide, em face de determinada situação, o que virá a ser e o que é. Esta diferença revela-se na abordagem que ambos fazem do dandismo de Baudelaire, "o último vislumbre de heroísmo em tempos de decadência" (Baudelaire). Eis um extracto da obra de Sartre:
«(...) A sua apresentação tem para a vista o mesmo valor que as suas mentiras têm para os ouvidos: um pecado retumbante e anunciado com estrondo, que o envolve e dissimula. Ao mesmo tempo, debruça-se sobre a imagem que acaba de inserir na consciência dos outros e sente-se fascinado por ela. Este dândi perverso e excêntrico é ele, apesar de tudo. O simples facto de se sentir alvo daqueles olhos torna-o solidário de todas as suas mentiras. Vê-se, soletra-se nos olhos dos outros e goza irrealmente com o retrato imaginário. Deste modo o remédio é pior do que o mal: por receio de ser visto, Baudelaire impõe-se aos olhares. Fica-se espantado por lhe encontrar, por vezes, ares de mulher e tenta-se descobrir nele traços de uma homossexualidade que nunca manifestou. Mas há de ter-se em conta que a «feminidade» deriva da condição, e não do sexo. A mulher - a mulher burguesa - tem como carácter essencial depender profundamente da opinião. Ociosa e mantida por outrem, impõe-se agradando, prepara-se para agradar, e o seu vestuário, as suas pinturas, tanto a revelam como a dissimulam. Um homem qualquer que, por obra do acaso, se encontrasse em condições análogas, imbuir-se-ia semelhantemente de feminilidade. Baudelaire está nesse caso: não ganha a vida pelo trabalho, o que significa que o dinheiro que lhe permite viver não constitui remuneração de um serviço social objectivamente apreciável, mas depende antes, essencialmente, dos juízos feitos a seu respeito. Por outro lado, a escolha original que fez de si mesmo implica uma preocupação extraordinária e constante com a opinião. Sabe-se visto, sente continuamente os olhares fixados nele; quer agradar e desagradar ao mesmo tempo; o mínimo gesto destina-se «ao público». O seu orgulho sofre com isso, mas o seu masochismo satisfaz-se. Quando sai, ornamentado como um santo de andor, trata-se de uma verdadeira cerimónia; tem de proteger aquele preparo, saltitar por causa das poças de água, salvaguardar todos os seus gestos de protecção, forçosamente um pouco ridículos, conferindo-lhes certa graça; e lá está o olhar envolvendo-o; enquanto executa com gravidade os milhentos actos imponentes do seu sacerdócio, sente-se traspassado, possuído por outrem: e não através dos sinais exteriores de uma função social que ele tenta defender-se, impor-se, mas sim graças ao arranjo pessoal e à elegância dos seus gestos: como poderia deixar de ser simultaneamente mulher e padre, mulher como o padre é? Não teve ele mais do que qualquer outro, sentindo-a em si próprio, a noção dessa união do sacerdócio e da feminidade, visto que escreveu em Fusées: «Da feminidade da Igreja como razão da sua omnipotência.»? Mas um homem-mulher não é forçosamente um homossexual. A passividade de objecto sob os olhares, que ele tenta compensar com uma cuidadosa composição de gestos e de arranjo da sua pessoa, constitui, por vezes, um prazer para ele e é possível que, de tempos a tempos, a tenha transformado, em sonhos, numa outra passividade - a do seu corpo sob um desejo másculo: e aqui temos, certamente, o motivo das suas perpétuas e fingidas acusações de pederastia em relação a si mesmo. Mas se sonhou alguma vez ser possuído à força, foi para satisfazer a sua perversidade e aquele masochismo cujas razões já conhecemos. O que o mito do dandismo encobre não é a homossexualidade, mas sim o exibicionismo.
«Porque o dandismo de Baudelaire, com as suas sujeições ferozes e estéreis, é um mito, um sonho alimentado dia a dia, e que dá lugar a certo número de actos simbólicos, mas que sabemos não passar de um sonho. Para ser dândi, segundo as suas próprias afirmações, é preciso ter sido educado num ambiente de luxo, possuir uma fortuna considerável e viver ociosamente. Mas nem a educação que recebeu, nem a sua ociosidade necessitada, correspondem a essas exigências. Desclassificado é ele, sem dúvida, e sofre com isso: caiu na libertinagem, é o filho «que se transviou» da Srª. Embaixadora. Mas essa desclassificação real não equivale, de modo algum, à ruptura simbólica que o dândi opera: Baudelaire não se colocou acima da burguesia, mas sim abaixo dela. É mantido por ela como o escritor do século XVIII o era pela nobreza. O seu dandismo é um sonho de compensação: o seu orgulho sofre tanto com esta condição humilhada, que tenta viver a sua desclassificação como se esta tivesse outro significado: o de uma dessolidarização voluntária. Mas, no fundo, não se ilude; e quando observa que Guys é demasiadamente apaixonado para ser dândi, sabe bem que essas considerações se podem aplicar a si mesmo. É um poeta. Estas asas de gigante que o impedem de andar são as do poeta, este mau olhado que o persegue é o do poeta. O seu dandismo é a aspiração estéril de um «para além da poesia». (Jean-Paul Sartre)
J Francisco Saraiva de Sousa

11 comentários:

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Há outra razão que justifica os cuidados de Baudelaire com a sua aparência: Baudelaire não tinha dinheiro para comprar roupa; por isso, precisava conservar as poucas peças de vestuário que tinha. A sua vida foi uma cerimónia... :(

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Se Paulo Portas mandasse e se Baudelaire lhe pedisse o subsídio de rendimento mínimo, Portas negava-lhe esse subsídio. Isto é a Direita em acção: insensibilidade social total! Vota contra a direita!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Seria deveras interessante desenvolver este confronto de leituras, de resto reconciliáveis, e terminar com uma crítica da cultura do capitalismo, mas estou com preguiça - não quero pensar! :(

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

A análise de Sartre é demasiado psicológica e derruba facilmente o dandismo de Baudelaire como mito ou sonho. Aliás, nas cartas dirigidas à mãe, Baudelaire confessa a sua pobreza. Porém, o dandismo pode e deve ser visto no quadro da modernidade e, mesmo nesta perspectiva, ele é um fracasso, o que nos conduz à situação social dos intelectuais na sociedade capitalista. Marx descobriu todas estas conexões e Hegel ajuda a clarificar a miséria da cultura burguesa.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

O capitalismo é uma tristeza que se alimenta da pobreza que gera continuamente. :(

Sr disse...

Hallo! :)
O post já ta acabado? entao onde tá a citação ou comentário à posição do w.benjamin pra se fazer a confrontação?
Btw, n deixando de ter alguma razão na analise ao baudelaire, n nos esqueçamos q se este pudesse ter respondido ao sartre, certamente o teria feito com o desprezo q sempre lhe mereceram os realistas e materialistas de visao estreita :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Oi Sr

Benjamin não privilegiou a figura da dândi, mas sim a do flâneur, embora o seu amor ao dandismo (londrino) tenha sido infeliz.

No entanto, não considero as duas leituras incompatíveis, se nos desembaraçarmos da noção demasiado asbstracta de projecto de Sartre.

Mas isso exige um longo estudo; é muito difícil resumir antes de realizar esse estudo, sobretudo a partir das obras de Baudelaire.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

O dandy é uma espécie de homem superior num tempo de decadência = modernidade. Educação, ociosidade e autonomia financeira: eis alguns traços do dandy. Porém, Baudelaire vivia uma ociosidade necessitada: só os gestos são dandy! Esse tema reconduz à situação social do intelectual na modernidade e ao amor lésbico. :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Porém, o estudo de Sartre é excepcional. Sartre afoga os autores que analisa - Jean Genet perde-se no universo de Sartre ou mesmo Flaubert, mas com Baudelaire ele deixa-o ter identidade: a crítica do progresso é o elo que une os dois estudos, levando em conta que Baudelaire finge representar papéis de heróis, dos quais o dandy é um caso. Mas lendo Baudelaire detecto que o dandy é talvez algo mais, mas preciso pensar mais sobre o assunto. :)

Goggly disse...

Francisco,

também gostei imenso deste artigo. Não existirá talvez no conflito dos gestos e do exibicionismo do dandy um pensamento homofóbico? É que o seu Orgulho está tão ferido com todo o "aparato homossexual" e esse exibicionismo que rejeita violenta e absolutamente a sociedade moderna do seu tempo. Ou que esses gestos em que se imbui são apenas um escudo e uma espada, já que os jogos constantes das sociedades modernas estão desde há muito instituídos. Ele passa e sabe que o olham, exactamente.

afonsojr disse...

Só passo pra agradecer a Sartre e aos amigos comentaristas o quanto me auxiliaram com informações preciosas que buscava a respeito da personalidade de Baudelaire. Acho que posso, sim, levá-lo à cena performando un dandi meio efeminado sem estar cometendo um disparate.