terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Prós e Contras: O Dia Seguinte às Eleições

«A opressão divide o mundo em dois grupos: há aqueles que edificam a humanidade lançando-a além de si mesma, e os que são condenados a vegetar sem esperança apenas para manter a colectividade. A sua vida é pura repetição de gestos mecânicos, o seu lazer serve apenas para a recuperação das suas forças. O opressor nutre-se da sua transcendência e recusa-se a prolongá-la por um livre reconhecimento. Não resta ao oprimido senão uma solução: negar a harmonia dessa humanidade da qual se pretende excluí-lo, provar que é homem e que é livre revoltando-se contra os tiranos». (Simone de Beauvoir)

Prós e Contras reiniciou o Ano de 2011 com dois debates muito fracos que não acrescentaram mais-valia cognitiva à realidade portuguesa que se pretende conhecer e mudar: o debate anterior entre jornalistas (17 de Janeiro) discutiu banalidades, como se todos vivêssemos internados num hospício de alienados mentais, e o debate de hoje (24 de Janeiro) mostrou que não podemos mudar de rumo escutando as vozes oficiais do discurso economicista. Hoje em dia fala-se muito do discurso da verdade. Porém, este discurso da verdade esgota-se na sua mera enunciação, porque logo a seguir escutamos um enorme rol de meias-verdades, mentiras e falsidades. Chegou a hora de dizer a verdade: o problema de Portugal não é primordialmente económico, uma vez que o fraco desempenho da economia portuguesa - crescimento económico anémico - resulta da falta de imaginação produtiva das classes dominantes. Silva Peneda exigiu uma cultura de negociação e de compromisso. Negociar com quem?, o quê?, onde?, em que linguagem?, com que finalidade? Silva Peneda argumenta que o restabelecimento da confiança mútua entre portugueses - entenda-se: entre governantes e governados - depende da negociação de um consenso alargado, mediante o qual os governados mais débeis - os deserdados de Portugal - aceitam o seu próprio sacrifício em benefício da gula das classes luso-sorridentes que utilizam os recursos do Estado em proveito próprio. A Utopia - a perspectiva futura de um mundo melhor - é desalojada do seu lugar de honra a favor do conformismo: Silva Peneda e Fernando Ulrich temem de tal modo a conflitualidade que a negam em pensamento. O horror que os luso-privilegiados decadentes exprimem pela Utopia, sobretudo pela sua realização política, revela o lugar onde devemos procurar a origem matricial da crise estrutural e histórica de Portugal: na malvadez das suas classes dirigentes e das suas elites do poder, que recusam governar no interesse nacional e partilhar de modo justo e equilibrado os recursos nacionais. A aversão das elites nacionais do poder à Utopia demonstra claramente que elas não desejam operar a mudança social qualitativa de Portugal: a sua ideologia visa conservar e manter o sistema vigente que gera continuamente a corrupção que as enriquece. Duas situações serão suficientes para evidenciar o carácter cinzento e medíocre destas elites nacionais amigas da corruptela. Com excepção de André Freire, os outros participantes condenaram a campanha eleitoral pelo facto de ter sido mais uma campanha de casos do que uma campanha de temas (Manuel Caldeira Cabral): a "honorabilidade" dos homens cinzentos do sistema vigente não pode ser questionada, mesmo quando a evidência não abona a seu favor. Em Portugal, os corruptos não querem deixar de ser corruptos, e a despolitização (António Murta) é a arma que usam para não serem privados dessa rede de ouro de vasos comunicantes que os enriquece de um dia para o outro, em detrimento dos interesses do todo nacional. O discurso economicista dos vigaristas nacionais é claramente anti-político: em vez do conflito gerador da Grande Transformação, prefere a negociata em torno da mesa de um restaurante de luxo. O discurso de João Rodrigues contra a perspectiva de Fernando Ulrich - que elogiou a liderança alemã na condução do destino europeu - evidenciou uma clivagem geracional. Porém, Silva Peneda soube contornar esta clivagem quando afirmou demagogicamente que as novas gerações eram "muito competentes", mais outra mentira muito difundida: o "elogio" visa recrutar, submetendo-as ao regime vigente da negociata fraudulenta, as novas gerações, lembrando-lhes que, em Portugal, o que é recompensado não é o mérito mas a subserviência. De facto, quem queira conquistar facilmente um lugar ao sol - um emprego bem-remunerado - precisa ser bajulador e subserviente, fazendo o jogo dos opressores e dos vigaristas: as elites do poder não suportam a crítica, e quem ouse criticar a ordem estabelecida e a "honorabilidade" dos seus homens pardacentos - os "mouros" de António Murta! - é automaticamente excluído da partilha em circuito fechado da riqueza nacional. Os protagonistas do discurso economicista dizem que a economia nacional carece de competitividade, mas como pode haver competitividade num país em que as suas elites do poder bloqueiam a circulação das elites e a mobilidade social, vedando o acesso do mérito e da competência ao poder? A aversão à Utopia e a aversão à Mudança são uma só e mesma aversão: as luso-elites do poder - esse terrível aglomerado de calhaus dotados cada um deles de um par de olhos - sacrificam o destino nacional para conservar os seus próprios privilégios conquistados de modo fraudulento, corrupto e criminoso. A corrupção é um fenómeno transversal a toda a sociedade portuguesa: não há apenas uma economia informal mas duas economias clandestinas, embora ambas sejam filhas dessa corrupção universal. A causa primordial da desgraça de Portugal - o seu triste fado que as classes dirigentes converteram ao longo do tempo histórico em fatalidade letal - está identificada: a natureza corrompida, degenerescente e degradante da "raça portuguesa" que António Murta perspectivou como herança dos mouros! (Por isso, escolhi este quadro de David Alfaro Siqueiros: "Suicídio Colectivo", 1936.)

J Francisco Saraiva de Sousa

7 comentários:

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Hoje estou com grande audiência russa: o tema da corrupção atrai todo o mundo! :(

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Ah, a reacção pré-formatada de Manuel Caldeira Cabral ao testemunho de António Murta - 11 irmãos dos quais sobreviveram 7, um deles o único a estudar, o próprio - foi demasiado ridícula e revela indigência cognitiva crónica! Um horror! :(((

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Com esta não esperava: tb tenho audiência na Indonésia! :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Acrescentei em epígrafe um texto de Simone de Beauvoir: os portugueses só serão dignos de respeito se se revoltarem contra estes tiranos.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

O português não propõe soluções; candidata-se ao cargo para depois deixar tudo na mesma ou pior! Esta criatura não merece consideração: é uma coisa sobre a qual deve ser exercida a violência que a suprima!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Estou impressionado e agradecido com a audiência da América Latina - Venezuela, Colômbia, etc. O Brasil é um caso à parte, porque não distingo entre a audiência portuguesa e a audiência brasileira. :)

Bem, tenho visto o debate Contraste da SicNotícias e ele presta-se ao meu estilo de comentário, mas não tenho tempo, talvez um ou outro...

Jorge Ferreira disse...

Sou Jorge da Silva Ferreira
Democrata e socialista
Cumpridor das minhas obrigações

como é que se justifica a anulação do ordenado por categorias, o que acontece hoje em dia. Todos nós sabemos que um individuo formado hoje em dia recebe o ordenado mínimo nacional na melhor das hipóteses, para agrado dos (pezudos patões). Foi o melhor que conseguiu o actual governo em 4 anos de governação. porque razão tem que governar mais 4 anos para fazer o mesmo. acho que nem o PS e o PSD/CDS devem ser chamados a governar porque vai continuar tudo na mesma. Agora pelo menos vamos, hipoteticamente, ter uma hipótese de alternativa. o meu conselho é que governem para os portugueses e não para os partidos ou para os srs do capital. este é um dos casos que ninguém fala, será porque teem medo ou será por terem pouca visão ou ainda porque nós os PORTUGUESES somos todos a raia miúda que descontamos para os srs do poder estarem bem na vida.