sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Júlio Dinis: A Tristeza de nascer em Portugal

Júlio Dinis (Porto: 1839-1871)
«O conselheiro partiu no dia seguinte para Lisboa, para tomar parte na pilotagem da nau do Estado. Estive tentado a dizer, para satisfação de ânimo dos meus leitores, que, sob a direcção dos talentos e aptidões do novo estadista, se locupletou a fazenda pública, prosperou a agricultura e a indústria, refulgiram as artes e as letras; e que Portugal, como a Grécia de Péricles, causou o assombro das nações do mundo.
«Mas receei que, fantasiando no nosso país um governo fecundo e próspero, a inverosimilhança do facto prejudicasse no espírito dos leitores a dos outros episódios narrados, e lhes entrasse com isto a desconfiança no cronista. Resolvi pois ser franco, declarando que, sob a direcção do conselheiro e dos seus colegas, Portugal regeu-se como se tem regido sob as dúzias de ministérios, que nós todos havemos já conhecido.» (Júlio Dinis)

Este comentário desiludido de Júlio Dinis sobre o conselheiro que vai para o ministério encontra-se na conclusão da sua obra A Morgadinha dos Canaviais (1868). Vitorino Magalhães Godinho foi o único historiador português que utilizou a obra literária de Júlio Dinis para compreender as três impossibilidades do século XIX português, a saber: a industrialização falhada, a irrealizada sociedade burguesa e a cultura sem eficácia social. Mas neste comentário desiludido Júlio Dinis aponta para uma causa permanente do atraso estrutural de Portugal: as classes dirigentes que bloqueiam a transformação para não perder o seu próprio domínio. Portugal tem sido governado ao longo dos tempos por bandidos sociais que, desde há muito tempo, vivem apoiados no contexto externo do capitalismo industrial e financeiro, sem estarem interessados em modernizar de lés a lés a economia, a sociedade e a cultura nacionais. Mas o que mais choca os intelectuais portugueses, sobretudo os do Porto, é a imbecilidade da plebe portuguesa que nunca tomou a iniciativa espontânea de se constituir como povo. Nascer num país imbecilizado é, para qualquer intelectual digno deste nome, uma fatalidade que, no caso português, é agravada pela concentração de bandidos sociais em Lisboa: os "conselheiros" reúnem-se todos em Lisboa para partilhar - entre si - o orçamento do Estado. E os seus ideólogos oficiais tratam de falsificar a História de Portugal, silenciando todas as vozes que denunciaram a corrupção nacional. Júlio Dinis foi mais um vencido da vida, cujo nome desaparece da História da Literatura Portuguesa por causa de ser portuense: a única cidade portuguesa que sonhou com a realização de uma civilização burguesa. Os malditos sulistas moçárabes e oportunistas do Norte que vivem das migalhas do orçamento do Estado especializaram-se na "arte de perseguir o mérito". A obra literária de Júlio Dinis é, toda ela, revolucionária, no sentido de se posicionar ao lado das forças sociais que desejavam modernizar Portugal. A sua preferência pela paisagem rural não deve eclipsar o ímpeto revolucionário dos seus romances: o Porto Burguês e as suas figuras típicas são magnificamente descritos na sua obra Uma Família Inglesa (1868). Tudo aquilo que os sulistas saloios escreveram sobre Júlio Dinis deve ser queimado. A ideologia sulista é o maior inimigo de Portugal - o seu inimigo interno nº. 1. 

J Francisco Saraiva de Sousa

3 comentários:

Zekzander disse...

É verdade: "a nau do Estado caminha sobre um vulcão". Adoro a frase, mas esqueci onde li... Não importa, é uma frase de uma lucidez tremenda! O amigo vive em uma cidade linda e limpa. Por aqui as cidades são muito sujas... E vocês tem por aí excelentes vinhos. Não há de ser tão ruim assim. São nuvens passageiras, como dizia minha avó, até nos enterros! Bom fim de semana.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Olá

Ando em luta contra o sistema e as palermices deste governo de Direita!

Thanks! Bom-fim-de-semana!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Sim, também conheço essa frase: não será grega? Júlio Dinis tem esta versão platónica da pilotagem da nau do Estado, daí pensar ser grega a imagem.