terça-feira, 14 de outubro de 2008

Prós e Contras: Respostas aos Dias de Incerteza

«A eclosão da actual crise financeira ficou oficialmente datada em Agosto de 2007. Foi por esta altura que os bancos tiveram de intervir de modo a produzir liquidez para o sistema bancário». (George Soros)
Hoje (13 de Outubro de 2008) Prós e Contras debateu novamente a crise financeira, com a participação, via satélite, de Durão Barroso, Presidente da Comissão Europeia, numa entrevista dada antecipadamente a Fátima Campos Ferreira, e, depois o debate propriamente dito entre os presidentes dos quatro maiores Bancos Nacionais: Ricardo Salgado (Banco Espírito Santo), Carlos Santos Ferreira (Banco Comercial Português), Fernando Ulrich (Banco Português de Investimento) e Faria de Oliveira (Caixa Geral de Depósitos).
A partir da questão básica, "
Os nossos depósitos estão seguros?", Fátima Campos Ferreira colocou outras questões fracturantes, usando expressões tais como "fim de um ciclo", "alteração sociológica", "mudança ideológica", enfim "crise de um certo modelo de economia de mercado", mas sem efeitos polémicos: os quatro presidentes fizeram eco das "palavras de confiança" de Durão Barroso e, como já estamos habituados a ver constantemente em Portugal, comportaram-se como "senhores feudais" muito "cinzentos", entrando em "consenso total", ao abrigo do aval do Estado. Os portugueses são "pessoas sensatas" (Ricardo Salgado), e, como "a banca é o coração da economia" (Faria de Oliveira), não lhes resta outra alternativa a não ser confiar nos seus eternos dirigentes. Em termos lineares e simplórios, a crise financeira deve-se ao "laxismo" do sistema de supervisão e regulação americano: o epicentro está nos USA, cujas "agências de rating" devem prestar contas ao mundo (Ulrich), porque não souberam regular os mercados financeiros, permitindo o subprime e os produtos tóxicos, a bolha imobiliária e, finalmente, a crise financeira, a superbolha, tal como a vamos conhecendo dia-a-dia. A situação da Europa é diferente, porque, se nos USA o dinheiro era demasiado barato, aqui na Europa é menos barato e, que tristeza!, em Portugal sempre foi caro: nenhum dos bancos nacionais tem problemas com o crédito ao consumo ou o crédito à habitação, o que deveria significar que não há endividamento das famílias portuguesas. Está tudo bem na "terra dos tugas", este magnífico "povo de sensatos", quer dizer, de "estúpidos"! Apesar da crise vir a ter efeitos nefastos na economia real, sendo muito difícil "fugir à recessão" (Fernando Ulrich), os dias não serão incertos: os bancos nacionais não emprestam barato e, apesar dos escândalos ocorridos recentemente nos três maiores bancos privados portugueses, eles não arriscam e nunca arriscaram. Até os gestores bancários portugueses têm remunerações abaixo das médias europeias e americanas: gente honesta que vive em condomínios de luxo, enquanto a maior parte dos portugueses sensatos contam os tostões para pagar as prestações da casa.
As respostas dadas às questões fracturantes foram deveras conservadoras. A actual crise financeira, isto é, a globalização e a superbolha, começou nos anos 80, quando Ronald Reagan e Margaret Thatcher chegaram ao poder: as suas políticas neoliberais conduziram a esta crise que, conforme questionou Fátima Campos, pode ser vista como um "fim de ciclo". Ricardo Salgado não é nem nunca foi neoliberal, porque sempre defendeu a regulação da economia de mercado, em especial dos mercados financeiros, por instituições públicas de supervisão. Segundo Carlos Santos Ferreira, esta crise não põe em causa nada, nem o modelo neoliberal de economia de mercado, nem o capitalismo. Trata-se de uma crise americana que, devido à "quebra da confiança" (Ricardo Salgado), gerou uma "quebra de liquidez", que o Plano Europeu exposto por Durão Barroso e, alguns dias antes, o governo português souberam prevenir exemplarmente, garantindo as poupanças e os depósitos dos portugueses em todos os bancos nacionais, sejam públicos ou privados. Daqui deriva que não haverá nem alteração sociológica nem mudança ideológica. Embora seja uma "crise sistémica" (Ulrich), não é preciso fazer grandes alterações, bastando "alguns afinamentos", não no sentido de uma reorganização da banca portuguesa, mas apenas ao nível da regulação. Durão Barroso reconheceu a "soberania" do Banco Europeu, ou seja, a subordinação da política à economia, neste caso ao monetarismo, aquilo que George Soros denuncia como uma "doutrina falsa", porque "o dinheiro e o crédito não andam de mãos dadas". O Estado não é solução nem fonte do problema, mas, com o seu aval, torna-se possível regular o "sector não-regulado", nomeadamente os bancos de investimento, garantindo e deixando o sistema funcionar: financiar a economia portuguesa e ajudar todos os portugueses, como se estes acreditassem neste sistema que nem coragem teve para cometer os "exageros" atribuídos às falhas do sistema de regulação americano, quando na verdade alguns efeitos do subprime foram visíveis aqui bem perto de nós, em Espanha e em Inglaterra, algum tempo antes de estalarem nos USA. Porém, todos reconheceram que a administração Bush termina "rota" ou desgastada, depositando um voto de confiança em Obama! Ironia total! A China e a Índia afirmam-se como economias emergentes; cá em Portugal os nossos lideres preferem conservar certos privilégios de que desfrutavam as elites chinesas e indianas nos seus anteriores, já quase pré-históricos, modos de produção asiáticos. A Europa não é feudal mas profundamente asiática!
J Francisco Saraiva de Sousa

5 comentários:

F. Dias disse...

As actuais incertezas inserem-se numa crise de um sistema que se tem tornado cada vez mais hipercomplexo. Podemos ver a actual globalização social hipercomplexa como o estadio de um sistema vivo que se tornou único, que é toda a sociedade humana actualmente existente no globo, mas as metáforas de Dawkins são sem dúvida as ferramentas epistémicas menos apropriadas para o percebermos. Talvez nos ajudem mais metáforas do género de Heinz Von Foerster, Henri Atlan ou René Thom.

Um sistema hipercomplexo é um sistema que diminui as suas restrições ao mesmo tempo que aumenta as suas aptidões organizativas, designadamente a sua aptidão para a transformação. Foi o que aconteceu com os mamíferos e depois dentro destes com os primatas com o seu sistema imunitário e sistema nervoso. Tal como eles, o actual sistema social globalizado tem uma margem de automatização que tolera a desordem até um certo ponto. A partir desse ponto de tolerância entra em acção um sistema especializado e hierarquizado (nesta fase o equivalente do sistema imunitário) que tenta forçar o restabelecimento da ordem através da produção de ‘anticorpos’ (instâncias públicas hipergovernamentais) reprimindo a desordem e tentando destruir os desorganizadores (os vírus malignos).

Um mamífero vivo com idade e saúde ainda suficiente, isto é, com um sistema nervoso e sistema imunitário ainda viáveis, é capaz de debelar a doença e continuar a prosseguir a sua vida com desordens, ruídos e margens de erro toleráveis. O que falta saber é se o actual organismo social global ainda está nessas condições. E é aqui que as ideologias de dividem.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Fernando Dias

Sim, é isso mesmo: "O que falta saber é se o actual organismo social global ainda está nessas condições. E é aqui que as ideologias de dividem."

Contudo, a avaliar pelo programa de ontem, com a presença de Durão Barroso, "nada vai mudar": a ideologia predominante será sempre o pensamento único. Com estes homens já não vamos a lado nenhum: a velhice é um obstáculo à modernização e à mudança. Mesmo como organismos são muito cinzentos! :(

Manuel Rocha disse...

Pois…Mas não são tb os sistemas mais simples aqueles que revelam maior flexibilidade e maior capacidade de adaptação à mudança ? Confesso alguma hesitação em admitir que nesse aspecto os sistemas complexos estejam melhor apetrechados, e a ecologia está bem recheada de exemplos desses. Veja-se para exemplo o enorme diferencial de impacto das tecnologias agro-químicas, em que os organismos responsáveis pelas pragas e doenças que se pretendem combater se adaptam ao novo ambiente e persistem, enquanto se extinguem os organismos mais complexos que nem sequer eram alvo. O edifício sócio económico da modernidade caracteriza-se claramente por um elevado nível de complexidade. Mas é monolítico e completamente interdependente. Não é uma complexidade que se traduza em diversidade e independência, essas sim características dos sistemas duráveis.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Manuel

Acordo total: "Não é uma complexidade que se traduza em diversidade e independência, essas sim características dos sistemas duráveis."

Num comentário que fiz no post anterior chamo a atenção para isso recorrendo ao projecto genoma humano e procura de terapias para o cancro: redução da diversidade humana é o conceito subjacente!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Um aspecto que não referi mas merece atenção foi acentuado (e bem) por Durão Barroso: a responsabilidade não está toda do lado dos "privados" mas também do lado das instituições públicas que não souberam regular os mercados e prevenir a crise. Deverão todos ser responsabilizados e foi bom escutar isso da boca de Durão Barroso.

Esta incapacidade pública pode ser manifestação de um processo mais preocupante que tenho denunciado: a promiscuidade entre público e privado, cujo rosto visível é a corrupção.