sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Hegel: Estado e Crise Financeira

O mundo actual é, de certo modo, hegeliano às avessas, no sentido de voltar, neste momento de crise financeira e económica, após três pesadas décadas de predomínio exclusivo e totalitário do neoliberalismo, a afirmar a realidade e o valor do Estado. A crítica hegeliana do liberalismo económico continua a ser pertinente, embora o Estado presente não coincida inteiramente com o Estado racional de Hegel: o Estado que se realizou depois de Hegel, especialmente o Estado actual, é a grande casa da corrupção, onde perdura a ausência de horizontes e onde a burocracia revela a sua essência que Max Weber descreve como uma jaula de ferro. A racionalização do mundo pela ciência, pela administração e pela gestão produz uma servidão que ameaça a dignidade do homem, porque o sistema de produção eficaz é também um sistema de dominação e de exploração do homem pelo homem. A humanidade foi despojada das suas virtudes mais elevadas e, neste mundo desencantado, o homem encontra-se só e dilacerado, diante da escolha do seu próprio destino.
Saber burocrático e força bruta são as duas faces do Estado Moderno. Saber e poder harmonizaram-se de tal modo que se identificam com a Razão. Os homens de Estado têm necessidade de informações que usam com o objectivo de manipular os cidadãos, ou melhor, as multidões solitárias e ruminantes, privando o Estado das tarefas humanistas que conservava em Hegel. Com a organização social da ciência e da investigação, as ciências foram inseridas nos aparelhos de produção, de consumo e de controle, e o saber foi relegado para um ghetto que, em Portugal, já não é a Universidade. Os homens de Estado dispõem dos seus próprios serviços de informação e de equipas especializadas. Para estas criaturas privadas, egoístas e abusadoras do património nacional e da dignidade do Estado, o saber funciona como um banco de dados: o conhecimento foi reduzido a um saber institucional que, em vez de ocupar o centro, como sucedia na filosofia política de Hegel, foi relegado para uma posição marginal. O saber institucional serve duplamente, na materialidade (produção) e na idealidade (política), mas já não reina. O Estado serve-se do saber e torna-se cada vez mais a grande casa civil onde os políticos e os funcionários públicos perseguem os seus próprios interesses particulares, de modo a tornarem-se empresários, mediante uma sofisticada engenharia financeira, manipulação perversa das leis, tráfego de influência, cunhismo e abuso do poder, e a garantirem o seu futuro, bem como o das respectivas famílias. Aceitar esta situação de monstruosidade política é colocar-se ao serviço destes falsos homens de Estado, seleccionados corruptamente, em quartos escuros, pelos seus próprios aparelhos políticos e partidários. Os chamados "entendidos" formam conselhos e tornam-se conselheiros dos governantes, a título privado e/ou público, enquanto os que não são competentes em coisa nenhuma, mas revelam uma habilidade na manipulação dos homens, na feitura das leis e dos decretos e na utilização das competências, se tornam chefes ou lideres políticos. Porém, todos eles deixaram de zelar pelo interesse comum, isto é, pela universalidade: o seu objectivo é satisfazer os seus próprios interesses particulares. Paradoxalmente, a distinção hegeliana entre Estado e Sociedade Civil tende a desaparecer ou a esbater-se num oceano de corrupção generalizada, o qual parece ser refractário à própria astúcia da razão. Ou, na minha terminologia, a actual sociedade metabolicamente reduzida não tem história: um eterno retorno do mesmo.
Hegel concebe o Estado como uma entidade essencialmente separada e distinta da sociedade civil (Die bürgerliche Geselschaft), a qual é constituída pelo conjunto dos homens privados, separados do grupo natural que é a família e carentes de consciência nítida de quererem a sua unidade substancial. A função da sociedade civil é conferir "segurança e protecção à propriedade (privada) e à liberdade pessoal" e o seu fim último reside no interesse do indivíduo. A sociedade civil é a sociedade da burguesia, aquela que foi implantada em 1789 e aplaudida por Adam Smith, na qual, segundo o liberalismo económico, os fins egoístas dos indivíduos acabariam por criar, sob a orientação da célebre mão invisível de Smith, a comunidade de interesses da sociedade, mais precisamente, um sistema de dependência mútua, no qual cada indivíduo perseguindo as suas próprias vantagens acabaria por promover naturalmente o interesse do todo. De acordo com esta descrição liberal do esquema social, tão grata ao pensamento do século XVIII, a sociedade como um todo progride através da interacção automática de interesses divergentes num mercado livre, sem necessidade da intervenção do Estado. A sociedade civil é, como viu Hegel, o Estado do liberalismo económico. Porém, a doutrina económica liberal não produz uma filosofia política capaz de garantir a associação livre dos homens. A economia capitalista de mercado desregulada não é efectivamente uma "economia da compaixão", mas uma economia de exploração que, apesar de gerar riqueza, não é suficientemente rica "para pagar o tributo ao excesso de pobreza e à sua consequente plebe" que gera continuamente. Ciente da conexão material entre o domínio da lei e o domínio da propriedade privada, Hegel é levado a superar a doutrina liberal, tal como foi elaborada por John Locke, bem como a rever criticamente a teoria do contrato social de Rousseau. O mundo das necessidades e da riqueza deve ser superado por um Estado suficientemente forte para encerrar em si mesmo a sociedade civil e garantir a realização e o reconhecimento da liberdade subjectiva do indivíduo.
A função do Estado é totalmente diferente: integrar e criar uma ordem que não dependa da cega correlação entre as necessidades e os esforços particulares para a sua perpetuação. O Estado tem como tarefa fundamental fazer coincidir os interesses particulares e o interesse geral, de modo a garantir e preservar o direito e a liberdade dos seus cidadãos. A ordem económica não constitui uma verdadeira associação e, por isso, o Estado tem como finalidade criar esta associação verdadeiramente livre e racional. Embora seja capaz de sustentar o direito inalienável do indivíduo, de expandir as necessidades dos homens e os meios para as satisfazer, de organizar a divisão do trabalho e de antecipar o domínio da lei, a sociedade civil é impelida para além dela mesma na direcção da realização do universal. Isto significa que todos esses elementos que já estão presentes na sociedade civil devem ser separados dos interesses particulares e submetidos a um poder situado acima do sistema competitivo da sociedade. Este poder que supera, conservando-a, a sociedade civil é o Estado, que, "como realidade em acto da vontade substancial, realidade que esta adquire na consciência particular de si universalizada, é, segundo Hegel, o racional em si e para si: esta unidade substancial é um fim próprio absoluto, imóvel, nele a Liberdade obtém o seu valor supremo e, assim, este último fim possui um direito soberano perante os indivíduos que em serem membros do Estado têm o seu mais elevado dever". O liberalismo tende a confundir o Estado com a sociedade civil, "destinando-o à segurança e protecção da propriedade e da liberdade pessoais". E, quando isto acontece, "o interesse dos indivíduos enquanto tais é o fim supremo para que se reúnem, do que resulta ser facultativo ser membro de um Estado". Nesta perspectiva liberal, portanto, individualista, que remonta ao cristianismo, o Estado e as suas instituições manifestam-se como coacções contra as quais os indivíduos particulares se revoltam, de modo a defender a sua liberdade empírica e o seu mundo da particularidade. O Estado hegeliano supera esta forma de relação do Estado com o indivíduo: "Se o Estado é o espírito objectivo, então só como seu membro é que o indivíduo tem objectividade, verdade e moralidade". O homem enquanto membro de um tal Estado universal deixa de ser "burguês" (Bürger) e torna-se cidadão: um homem plenamente satisfeito, formado pelo Estado no qual vive e age e no qual reconhece e é reconhecido por todos os outros cidadãos. Esta ideia hegeliana foi conservada pelo "marxismo ocidental" (Merleau-Ponty): "O indivíduo totalmente desenvolvido é a consumação de uma sociedade totalmente desenvolvida. A emancipação do indivíduo não é uma emancipação da sociedade, mas o resultado da libertação da sociedade da atomização" (Max Horkheimer), que atingiu o seu extremo na moderna era da cultura de massas e do consumo irracional. (Precisamos urgentemente de uma Declaração Universal dos Deveres do Homem e do Cidadão!)
A concepção hegeliana do Estado é dialéctica e, por isso, não pode ser vista como uma idolatria do Estado autoritário, geralmente atribuída a Thomas Hobbes e terrivelmente consumada no pensamento político de Joseph de Maistre. A dialéctica é, por natureza, avessa à reificação social e conceptual, bem como ao próprio sistema absoluto tecido por Hegel. O Estado de Direito ou o Direito da Razão de Hegel nasce do atomismo dos interesses egoístas, da "cruz do presente", cuja contrapartida é a "rosa dialéctica". Hegel não confere ao Estado uma dignidade absoluta, mas somente uma dignidade objectiva. O Estado hegeliano encarna o espírito objectivo e, enquanto tal, subordina-se ao espírito absoluto: a Arte, a Religião e a Filosofia. A razão não está, portanto, condenada a consumar-se no Estado. Embora não seja limitado pelo Direito Internacional, o direito de Estado não é o direito final, porque, na filosofia hegeliana da História, está claramente submetido ao "direito do Espírito Universal que é o incondicional absoluto". O Estado hegeliano encontra o seu conteúdo real na História Universal (Weltgeschichte), isto é, no reino do espírito universal que contém "a verdade suprema absoluta". A relação entre os Estados nacionais autónomos é mediada pelo Espírito que se eleva acima deles e, deste modo, os unifica. Para Hegel, "a história universal é o progresso na consciência da liberdade". Isto significa que o verdadeiro sujeito da história não é o indivíduo mas o universal. A essência do universal é o espírito e a essência do espírito é a liberdade. Esta começa com a propriedade, expande-se no domínio universal da lei que reconhece e assegura igual direito de propriedade e completa-se no Estado que enfrenta, reconciliando-os, os antagonismos que acompanham a liberdade de propriedade. O Estado é, para Hegel, "a realização da liberdade". Dominando a sociedade civil, o Estado garante a liberdade do indivíduo e do seu verdadeiro interesse: "o destino dos indivíduos está em participarem na vida colectiva". Embora tenha uma ou outra feição musculada, o Estado hegeliano não abandona "os pobres ao seu destino", entregando-os "à mendicidade pública" e assistindo passivamente à "facilidade para concentrar em poucas mãos riquezas desproporcionadas". Não é, portanto, um Estado liberal, "um Estado extrínseco, o Estado da carência e do intelecto", que zela unicamente pelos interesses privados de uma classe que acumula riquezas descomunais a expensas da pauperização alargada da plebe, mas um Estado que, superando os antagonismos do "reino animal espiritual" (Das geistige Tierreich), o mundo da riqueza, visa garantir o "pleno desenvolvimento do indivíduo", mais precisamente de todos os indivíduos, independentemente da sua proveniência social.
A análise hegeliana do mundo económico é profética quando descreve as suas contradições imanentes e, antecipa, em alguns aspectos, a crítica marxista da economia política. A liberdade que o homem privado atinge na procura do seu interesse pessoal é insuficiente para garantir a realização do universal: a "harmonia" assente na divisão do trabalho e nas leis de mercado ameaça romper-se a todo o momento. Hegel estava ciente de que a "doutrina económica" era insuficiente para produzir uma filosofia política: a sociedade civil, o mundo económico, é incapaz de resolver as suas contradições imanentes e, por isso, Hegel elabora uma concepção autónoma do Estado, atribuindo-lhe a missão superior de unificar os interesses privados e o interesse universal, de modo a salvaguardar a ordem social dos antagonismos que a dilaceram e que a ameaçam destruir. Embora tenha assimilado muito bem a economia clássica burguesa (Smith, Say, Ricardo), Hegel parece não compreender que o capitalismo, além de ser uma imensa troca de equivalências, é também, a um nível superior e mais profundo, uma imensa troca de não-equivalências. Na sociedade civil, manifestam-se forças de desproporção e de ruptura que tendem a desequilibrar periodicamente o sistema capitalista. Foi Marx que descobriu que o capitalismo contém um conflito essencial entre forças que tendem a equilibrar-se e forças que tendem a desequilibrar-se: a contradição fundamental do sistema capitalista, que não produz para satisfazer as necessidades humanas mas para obter lucro, não reside entre a produção e o consumo, mas sim entre o carácter socialmente produtivo do trabalho e a apropriação privada dos produtos do trabalho, da qual resulta uma série de conflitos económicos, sociais, ideológicos e políticos. Isto significa que, segundo Marx, "a tendência interna do capitalismo para o equilíbrio apenas se manifesta durante e através da crise". Sem um "plano", as proporções determinadas por Marx entram necessariamente em crise. Neste aspecto, o pensamento de Marx não se distancia muito do de Hegel, pelo menos ao nível dos meios: compete ao Estado impor um "plano" capaz de controlar e regular o mundo económico constantemente ameaçado pelas desproporções. É certo que os marxistas têm razão quando destacam a natureza de classe do Estado, afirmando que, nos períodos de crise como o actual período de crise económica geradora de desemprego, miséria e conflitualidade gratuita (não-essencial), o Estado intervém de modo a "socializar o prejuízo dos capitalistas" (Lenine, Sweezy), mas o Estado hegeliano pretende estar situado acima dos interesses privados. Enquanto não tivermos uma alternativa económica viável capaz de substituir a economia capitalista de mercado, convém defender a soberania radical do Estado e o seu papel regulador na esfera económica, exigindo-lhe que garanta efectivamente o interesse universal e a liberdade dos seus cidadãos. Hegel sempre foi solidário com a causa dos "mais pobres", ou seja, sempre lutou contra a pobreza gerada pelo mundo da riqueza, isto é, pelo capitalismo desde a sua origem sangrenta no processo de acumulação primitiva do capital (Marx): o seu ideal de juventude acompanhou-o durante toda a sua vida. A filosofia do Direito de Hegel defende os princípios da publicidade na administração pública e no tribunal, defende a emancipação dos judeus, a igualdade de direitos de todos os cidadãos do Estado, a autonomia administrativa do município, a representação popular, e, acima de tudo, defende um regime constitucional. Ao colocar o Estado acima da sociedade civil, Hegel afirma a autonomia total da esfera política, confiando-lhe a nobre missão de impedir que os conflitos gerados na esfera da produção colapsem a ordem social, ampliando a mendicidade e a miséria, e, portanto, de defender uma ética que desperte o contacto do homem com a ágora, com a praça pública, com a res publica, com a colectividade. O Direito hegeliano é a negação da negação, isto é, a realização da verdadeira liberdade.
Contudo, há algo no seio do Estado hegeliano que subverte a sua lógica de funcionamento: o corpo de funcionários do Estado que devia zelar pelo interesse universal pode, em vez disso, procurar usar todos os seus "aparelhos" e dispositivos em função dos seus interesses privados. "Sob o capitalismo, o poder e o dinheiro tornaram-se duas grandezas comensuráveis. Uma determinada quantia de dinheiro é convertível numa determinada forma de poder, e é possível calcular o valor de troca de qualquer poder". Walter Benjamin usa o termo corrupção para designar a aplicação deste procedimento que conecta diversas entidades entre si, através de um "sistema de distribuição" que funciona em curto-circuito: uma verdadeira teia de interesses privados que liga os poderes públicos aos poderes económicos privados. Os corruptos denunciam-se sempre que comparam o "governo da economia nacional" com o "governo da economia doméstica". Com esta "analogia", não só reduzem tudo ao mundo privado, como também subordinam a política à economia, amaldiçoando a economia política, a verdadeira missão do Estado. A corrupção ameaça a autonomia do Estado e a sua supremacia universal sobre a sociedade civil: os sectores mais elevados de funcionários do Estado, em particular os governantes, podem usar o poder político para enriquecer e formar uma "nova classe dirigente" que se identifica com o poder económico e o mundo da alta finança. Todos estes indivíduos que usaram e continuam a usar o poder político para se converterem facilmente em "empresários", com depósitos chorudos em bancos de investimento, aqueles que geram grandes fortunas, como estamos a descobrir neste momento de crise financeira e económica, traíram a confiança do povo e lesaram a dignidade do Estado, o Estado de um Povo. Hegel não podia prever este desenvolvimento nefasto do Estado, que o amarra ao princípio da subjectividade emocional e do egoísmo predominante na sociedade civil, porque lutava pela definição de um Estado que começava a nascer no seu tempo. Porém, o seu elogio da guerra permite-nos criar um mecanismo interno ao Estado que previna a corrupção e liberte o futuro da presença nefasta desta classe de "novos-ricos", ou melhor, de criminosos de colarinho-branco: a Pena de Morte.
J Francisco Saraiva de Sousa

43 comentários:

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Bem, amigos, estou indeciso, mas já decidi: vou dedicar outro post à filosofia política de Hegel, de modo a libertar este de uma exposição mais técnica. Já devem ter reparado que procuro salvaguardar Hegel da Direita: a razão dialéctica é herança exclusiva da Esquerda. Hegel pertence-nos: a sua negatividade ajuda-nos a libertar o futuro da corrupção reinante. A violência e a guerra contra o sistema estão justificadas. Devemos ser solidários com os que protestam contra a corrupção na Grécia, embora a sua consciência política seja diminuta: apenas querem uma fatia do bolo! Mas a sua violência pode ser contagiante e parteira de um novo futuro! :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Ah, para os mais distraidos ou mesmo para aqueles que nunca queimaram os neurónios a estudar, lembro que a dialéctica que opera nos meus posts é absolutamente negativa, ou seja, recorrendo ao esquema da tese, antítese e síntese, ela privilegia a negação determinada, embora não tema a síntese. Aliás, penso que devemos procurar a reconciliação positiva, avançando com novas propostas políticas.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Poderei demorar algum tempo a concluir este post, porque há uma ideia que o persegue: Hegel supera, conservando-a, a sociedade civil, isto é, a economia de mercado capitalista. O Estado de Direito é pensado de modo a reconciliar os interesses particulares e o interesse universal. Ou seja, o Estado deve intervir na economia, de modo a criar a cidadania liberta do atomismo social e conflitual inerente à sociedade civil. Contudo, a corrupção envolve não só a sociedade civil mas também o Estado: a burocracia defendida por Hegel em nome do interesse universal corrompe-se, alargando a esfera da sociedade civil no âmbito da esfera do Estado. Isto significa que devemos pensar um outro momente capaz de salvaguardar o universal na sua dignidade objectiva. Uma medida é racionalizar o Estado, simplificando a burocracia e encolhendo o corpo de funcionários públicos. Estes devem ser avaliados nas suas competências alargadas em função de critérios não-burocráticos e não-economicistas. Além disso, a carreira pública não pode ser vista como algo adquirido e garantido, porque, quando isso acontece, este grupo tende a constituir-se em classe com os seus sindicatos para-estatais. O interesse universal é soberano.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Como se sabe, Marx defendia precisamento o definhamento do Estado e a sua substituição pela "administração". Da sua concepção devemos reter apenas o emagrecimento do Estado e a sua racionalização. A democracia deve ser fortalecida pela verdadeira educação e, neste âmbito, o Estado deve orientar os rumos da economia, de modo a salvaguardar a humanidade do homem e da cultura: a sociedade de consumo é um monstro, bem como a sua ideologia do crescimento económico. O atomismo egoísta criticado por Hegel alastra-se, qual virus, pelo tecida desta sociedade, reduzindo o homem à sua animalidade. Desta crise deve inferir-se o fracasso do modelo económico vigente: este tipo de capitalismo globalizado a todas as esferas da sociedade, bem como o seu Estado liberal, não serve os reais interesses da Humanidade.

Fräulein Else disse...

Querido F.,

Desejo-lhe um ano novo auspicioso e brilhante - à sua medida!

Auf Wiedersehen!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Oi Else

Também lhe desejo um bom ano novo. Que os sonhos se realizem num mundo cada vez mais transparente!

Beijinhos

Fräulein Else disse...

Neste mundo transparente, os sonhos têm só a aparência de serem realizados. Sociedade duplamente fantasmática.

Fräulein Else disse...

O seu blog está cheio de "mariquices" aqui do lado. ;P

Fräulein Else disse...

N o chateio mais, só para o ano................................

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Ya, o mundo está mesmo chato e com tiques paranóicos: as pessoas estão chatinhas e falam muito sem escutar os outros. Monólogos intermináveis, interrompidos por uma tentativa reduzida de diálogo: "Estás a ouvir-me?" Os que não sabem escutar querem ser ouvidos. Em suma: estamos muito fechados no nosso egoísmo atroz.

Quero entrar no novo ano sozinho, talvez com Hegel! Esta última semana foi um martírio! :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Ya, isto está cada vez mais maricas. Deve ser o espírito do mundo actual... :)

Denise disse...

Olá F.,
Retribuo-lhe os votos de boas entradas e desejo a todos os amigos um 2009 recheado de surpresas intensamente agradáveis!

Muitos beijinhos,
D

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Obrigado Denise. Também lhe desejo um óptimo Ano Novo e, com unidade viva, vamos conseguir superar a crise que já está instalada. Vai ser um ano difícil para todos, infelizmente. Mas pode ser que os corruptos recorram ao suicídio e, deste modo, abrem as portas a um futuro novo. O poder português está contaminado e dominado por criaturas acéfalas e medíocres. Que morram de vez! Precisamos da sua morte para encarar de frente um novo Portugal!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

A maior alegria que Deus poderia dar a Portugal seria ligar a televisão para assistir à morte destas criaturas diabólicas que mantêm o país no atraso e na estupidez. Que morram: este é o meu desejo para 2009. :)

Carreira disse...

Bom 2009!!!
Abraço,
José Carreira

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Carreira

Obrigado. Também lhe desejo um excelente Ano Novo.

Abraço

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Pretendia analisar a consciência infeliz na fenomenologia de Hegel, mas esta secção está incluída no espírito subjectivo, no momento em que a consciência acede à auto-consciência através do trabalho. Esta análise devia ser relida à luz das figuras do espírito objectivo e, depois, do espírito absoluto. Ela clarifica a relação da filosofia hegeliana com o cristianismo ou a religião, permitindo compreender a afirmação "Deus está morto". Esta leitura mostra que Hegel consumou a filosofia, neutralizando a suposta originalidade de Feuerbach e de Nietzsche. Mas não a de Marx!

Não sei que fazer, talvez vá tratar do nascimento da ciência moderna. Ou do capítulo VIII da PhG mas é longo. :(

Bom Ano Novo!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Ah, Nietzsche é o filósofo/louco que precisa ser aniquilado: a sua negação inconsequente da história fez dele o cão doméstico do pensamento tecnocrata: a burguesia reaccionária delira com Nietzsche, porque ele é inofensivo. Mera glorificação da sociedade estabelecida que elevou ao primeiro lugar a lei do coração, uma figura superada por Hegel que renasce na sua pluralidade natural: diversas leis do coração articuladas com a fruição! Pura verborreia opinativa!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Ah, sempre me considerei um filósofo/sage pós-hegeliano. Afinal, posso subverter a filosofia hegeliana..., porque acabei por o fazer no comentário anterior: a dialéctica não está concluída! Mas não dá gozo fazer filosofia numa epoca indigente como a nossa!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

O meu animal metabolicamente reduzido regressa regressivamente à forma mais arcaica de consciência exterior, como se tivesse lido Hegel e captado a circularidade do seu sistema: o fim da história é o reino do animal metabolicamente reduzido, da consciência dilacerada feliz! Um monstro!

Fräulein Else disse...

Oi Francisco, "le sage",

Já percebi que pelos seus últimos comentários, o "sage" pos-se a delirar. É óbvio que a história e o ocidente acabaram... No entanto, Hegel foi dos filósofos mais mal interpretados, dado ser bastante difícil.

Mas vim cá, porque devemos estar solidários com os nossos irmãos gregos, eles ao menos têm tomates (ou coragem) para afrontar o poder! Jovens com excesso de qualificações a exercer trabalhos precários e a serem explorados! Tal como aqui! Mas aqui toda a gente leva no c* e nem geme! Admiro a valentia grega! Só mesmo os "novos bárbaros" podem abrir caminho para a liberdade!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Oi Else

Estava a (Re)ler Hegel e a procurar decifrar a sua crítica da frenologia que é uma crítica da ciência, a razão observadora da natureza e de si mesma: reificação.

Sim, mas essa é também a perspectiva de Hegel, liberto do seu sistema: a violência como arma.

Sim, Hegel é o filósofo mais "obscuro" da Filosofia: muito difícil.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Ou seja, a crítica da frenologia é uma críticas das ciências humanas. Na frenologia descobrimos o erro da razão observante. O crâneo não é um signo expressivo da individualidade consciente; é pura coisa e é nesta coisa que a razão observante pretende descobrir a exterioridade própria do espírito humano. O resultado deste absurdo é a forma do juízo infinito: a realidade do espírito é um osso, assim o enuncia Hegel. Ou seja, o espírito é uma coisa. Reificação! Alienação! Materialismo grosseiro!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Else

O maior filósofo do século XX foi Georg Lukács e ele escreveu uma excelente introdução a Hegel: "O Jovem Hegel e os problemas da sociedade capitalista", além de ter escrito o belíssimo livro sobre "Goethe e a sua Epoca". Ele analisou todas as reacções negativas a Hegel/Marx na sua obra "A Destruição da Razão", onde critica Nietzsche e Heidegger, entre outros. "Ser e Tempo" de Heidegger traz a marca de "História e Consciência de Classe" de Lukács, a obra mais fértil do século passado, juntamente com "O Princípio Esperança" de Bloch.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Um comentário sobre a sua afirmação:

"Mas aqui (em Portugal) toda a gente leva no c* e nem geme! Admiro a valentia grega! Só mesmo os "novos bárbaros" podem abrir caminho para a liberdade!"

Sim, aqui levam no c* sem gemer, primeiro porque gostam de levar no c* com gemido de prazer, e segundo, porque são bajuladores e submissos. Este é um traço do carácter nacional português: levar no c* para arranjar trabalho. O sistema nunca é questionado e o sistema diz: dá o c* se quiseres conquistar um lugar ao sol e não protestes. Guerra Junqueiro captou bem este traço nacional!

Fräulein Else disse...

É verdade! É uma tristeza..., ninguém tem orgulho aqui. Orgulho no bom sentido: ser fiel a si mesmo e lutar pelo que se acredita. Preferem morrer com o cu gordo e vendido... e quem não entra no jogo é mal-visto ou desprezado. Enfim. :(

Não conheço esse livro de Luckacs! Vou procurar!

Fräulein Else disse...

Mas falando concretamente: devemos - os "contra-sistema" -, dar sentido aos acontecimentos na Grécia! Fazer ver que, provavelmente, a única via de fracturar o sistema é pelo confronto e violência! As imagens e informação que passa é que eles são uns meninos rebeldes e vândalos (tal como os filhos de emigrantes árabes que incendiavam carros nos subúrbios de Paris há 3 anos), mas eles são a força! Não devemos ter medo! Não devemos ansiar pela paz! O desejo pela paz (instilado pelos órgãos mundiais) é o que tem feito envenenar-nos e paralisar-nos! A violência é o antídoto.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Ya, eu luto mas acabo por ficar sozinho.

Um dos problemas de Portugal é que nunca houve guerra civil e não participou activamente nas Guerras Mundiais: a corrupção estabeleceu-se e nunca houve verdadeiramente circulação de "moscas". Sempre as mesmas! A mafia portuguesa!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Eu estou do lado dos rebeldes gregos e também estive do lado dos franceses. É preciso incendiar o sistema e decepar as suas cabeças, tal como fizeram com o ex-presidente do Iraque: os europeus apoiaram, bem como outras condenações nos países do Leste. O mesmo destino lhes deve ser reservado! Guilhotina! Se os gregos começarem a matar, eles triunfam ou, pelo menos, criam um precedente mundial. A guerra traz mudança qualitativa, de sangue, de ideias e novas oportunidades sociais. Abaixo os velhos instalados!

Fräulein Else disse...

«eu luto mas acabo por ficar sozinho»

Isso faz parte do sistema! A falta de comunicação! As "revoluções" acontecem avulsas e sem ligações umas com as outras! Os irmãos gregos sofrem como nós, mas como podemos tornar comum esse sofrimento, comunicar? No auge do comunismo e socialismo, pela imprensa, era mais fácil reunir pessoas e ideias, agora através dos media digitais parece impossível!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Ya, a luta de vida ou de morte à Hegel: a força do entendimento feita Terror colocada ao serviço da nossa libertação! Sorel dá mais conselhos sobre a violência! :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Else

Os meios digitais ajudam. Por isso, tenho o blogue! :)

Fräulein Else disse...

Não me parece assim tão evidente! Os blogues são exercícios individualistas! Não sei... :(

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Se escrevessemos em inglês, tinhamos maior audiência. Escrever português é ficar isolado!

Contudo, Portugal pode ser a imagem do futuro triste do Ocidente. Portugal nunca irá conseguir colocar-se ao nível da Europa, mas esta acabará por "imitar" Portugal e a sua inércia estupidificante e corrupta. Agora, a Europa já aceita portugueses a fingir que a dirigem: sinal de decadência europeia. A Europa forte nunca contou com a ajuda deste país miserável! Somos o futuro do destino europeu: a regressão cultural, a decadência e a corrupção!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Sim, tem razão, porque já vivemos numa era reduzida...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Só com muitas cenoras à frente consegimos fazer mover os burrecos! :(

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

No comentário anterior faltam os "u's": cenouras, conseguimos...

Estou com vontade de traduzir Bloch! Vou escrever sobre Hegel e apresentar a fenomenologia como um acesso à Filosofia, portanto, uma iniciação composta por 14 etapas da consciência, cada uma das quais corresponde a um mundo específico de visão, numa linha ascendente de identificação progressiva do sujeito e da substância. Repetitio mater studiorum. :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Amigos(as) anónimos(as)

Aconselho vivamente a leitura de uma obra de um autor injustamente ignorado: "Ludwig Feuerbach e o Fim da Filosofia Clássica Alemã" de F. Engels, cuja leitura deve ser acompanhada pela leitura de outra obra, "Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico".

Sei que a maior parte dos leitores carecem de preparação filosófica para compreender a subtileza filosófica destas duas pequenas (em tamanho ou número de páginas), embora grandes em termos de lucidez conceptual e de pensamento. Porém, se seguirem esta ordem de leitura, lendo atentamente a primeira, começam a ser iniciados na Filosofia e estão preparados para ler

os capítulos 8 (A Jornada do Trabalho), 11 (Cooperação), 12 (Divisão do Trabalho e Manufactura), 13 (A Maquinaria e a Indústria Moderna) e 24 (A Chamada Acumulação Primitiva),

da grande obra de Karl Marx, "O Capital".

Só depois de terem lido estas obras estão preparados para compreender o mundo moderno e orientar-se nesse mundo de modo autónomo e racional.

É a minha "prenda" de Bom Ano Novo!

Fräulein Else disse...

Há o curso do David Harvey sobre o Das Kapital disponível on-line. Já o lecciona há 40 anos! :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Não conheço esse curso!

Tenho um link sobre o marxismo que disponibiliza as obras, embora as que recomendo possam ser compradas a preços baixos.

Fräulein Else disse...

http://davidharvey.org/

É muito bom! São 13 sessões, onde ele expõe claramente (para qq tipo de formação de base que se tenha) a linha de pensamento do livro maior de Marx. Ele fá-lo consecutivamente há 40 anos e há menos de um ano disponibilizou-o gratuitamente on-line. É um grande senhor. :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Obrigado. Já linkei o site e pode ser consultado a partir daqui.

Estive a reler Engels e acho a obra uma verdadeira preciosidade histórico-filosófica: a crítica de Feuerbacho é pertinente e a sua "moral" é associada à Bolsa.

Claro, apresenta uma leitura diferente de Hegel, muito diferente da que fiz neste post.

Há uma tentação no pensamento de Engels: o positivismo que reduz o conhecimento ao conhecimento científico, como se a história da filosofia fosse uma preparação para a ciência ou o sistema empírico das ciências. O Fim da Filosofia é o Fim da Metafísica e da Ciência Coleccionadora (estática). Com a descoberta da História na natureza e no homem, emerge uma nova ciência, cuja filosofia é o sistema das leis gerais dos processos históricos naturais e humanos. Isto é positivismo.

Contudo, Engels termina com esta frase: "O movimento operário alemão é o herdeiro da filosofia clássica alemã", a qual resistiu durante tanto tempo "à angustiosa preocupação com a carreira e com os vencimentos, que chegam ao arrivismo mais vulgar". Com esta frase, Engels abre outra via: a dialéctica opõe-se ao sistema da lógica hegeliana que a aprisionou. E nesta via o "materialismo" não é de todo uma filosofia adequada. A fenomenologia de Hegel resiste ela própria ao sistema hegeliano da maturidade. Engels não viu isso...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

O Althusser "hospitalizado", depois de ter morto a mulher, recorre a Lucrécio para pensar uma nova filosofia materialista para o marxismo, esquecendo que, nesta obra, Engels substituiu o astúcia da razão hegeliana pelo acaso que, por acaso, já se encontra em Hegel.

Althusser tinha criticado essa noção anteriormente numa nota de rodapé: o momento da consciência que se revela na história dos homens e não na natureza. Depois vai tentar introduzi-lo novamente. Curiosamente, Engels, apesar de criticar o idealismo hegeliano, nesse momento, não consegue "superá-lo": a coordenação das vontades particulares, os diversos "visados", é o acaso na história humana que pode ser estudado empiricamente, como ele faz a seguir destacando a economia, o estado, o direito e a religião: excelentes sumas da história moderna em poucos parágrafos.