terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Prós e Contras: O que vem aí?

O debate de Prós e Contras (15 de Dezembro de 2008) foi dedicado à actual crise financeira e económica e, entre os seus convidados, destaco as participações de Dom José Policarpo, e Luís Campos e Cunha (economista), além de Walter Oswald (moral), Carlos Fiolhais (físico) e Rui Pena Pires (sociólogo). Desta vez, Fátima Campos Ferreira procurou dar voz a outras pessoas que não são economistas e o próprio Luís Campos e Cunha frisou a necessidade de introduzir o ensino da "verdadeira" Filosofia nas escolas para evitar a ingenuidade das abordagens ditas técnicas que confundem o modelo com a realidade, referindo o papel fundamental da teoria do conhecimento na estruturação de uma atitude crítica e prudencial diante da sociedade estabelecida e dos projectos de mudança social.
Devo dizer que a análise feita por Dom José Policarpo aproxima-se muito das análises que tenho feito neste blogue a propósito da crise financeira, sobre a qual falei muito tempo antes deste assunto entrar na agenda política portuguesa. Quem está minimamente atento ao que se passa no mundo e deseja lutar por uma sociedade mais justa encontra facilmente informação disponível on-line sobre a actual crise financeira cujas peripécias recuam aos anos anteriores a 2007, quando foi datada oficialmente. E, como sempre defendi neste blogue, esta crise coloca em questão o capitalismo, a globalização e a corrupção. Dom José Policarpo considera que a crise é uma crise do modelo e não uma mera crise dentro do modelo. Por isso, pôde defender a ideia de que esta crise pode vir a ser uma "revolução", no sentido de levar toda a "sociedade civil" (e não unicamente as chamadas "classes médias") a repensar um novo futuro para Portugal e o Ocidente. Neste sentido, como já tenho dito, a actual crise do capitalismo permite repensar criticamente o actual modelo de sociedade vigente, precisamente aquele que foi implementado pelo neoliberalismo a partir dos anos 80, e substituí-lo por um novo modelo capaz de melhorar o futuro da humanidade e de fazer face aos novos desafios do mundo global. Isto significa que a crise financeira e económica é a crise do modelo económico vigente e, como lembrou Walter Oswald, da sociedade de consumo que leva as pessoas a recorrer a empréstimos, portanto, a endividarem-se, para satisfazer necessidades supérfluas enquadradas num estilo de vida metabolicamente reduzido. Contudo, a crítica moral do modelo predominante é insuficiente para ajudar a melhorar o mundo, na medida em que a moral irrompe sempre-já num mundo decadente e corrupto que a usa como justificação ideológica das misérias e das desigualdades. A crítica só é produtiva quando os seus conceitos negativos são trasladados e realizados pela praxis política, não só a praxis dos lideres políticos, mas também a praxis de toda a sociedade civil. A crise da educação e o poder irracional dos mass media minaram e continuam a minar a dialéctica da libertação. É preciso dizer que os mass media "moldam" a chamada opinião pública à custa da perda da experiência e do bom senso. Em Portugal, a comunicação social é um cancro maligno. As personagens que se exibem nos ecrãs da televisão ou nas folhas da imprensa carecem das qualidades necessárias referidas por Dom José Policarpo para o exercício do poder político e público: competência, sentido de serviço e sabedoria, completamente distinta da racionalidade instrumental científica. São personagens degradantes, corruptas e de inteligência reduzida, a personificação da vulgaridade que, em Portugal, raptou as esferas do poder, perseguindo a inteligência criativa. Esta mediocridade humana, profundamente ladra e invejosa, instalou-se na sociedade portuguesa e, se não for afastada das posições que raptaram paulatinamente depois do 25 de Abril, Portugal continuará a ser indefinidamente um país adiado. As pseudo-elites portuguesas nunca estiveram ao serviço do bem público. A actual crise financeira revela a crise do elemento humano português e da sua anti-cidadania.
Carlos Fiolhais defendeu um optimismo pseudo-científico exagerado, tendo sido acompanhado pelos convidados da plateia que vêem nesta crise a oportunidade para repetir os "mesmos erros", tais como "ensinar e gerir talentos", os "direitos humanos", o papel da ONU, o multiculturalismo ou a "igualdade", que conduziram à presente situação de miséria e de decadência, portanto, uma oportunidade de conquistar um lugar ao sol, tal como o fizeram os gestores corruptos. O optimismo é uma patologia da alma, pelo simples facto de levar as pessoas a afastar do seu horizonte de visão e de compreensão a miséria humana. Conquistar Marte não é expandir a humanidade: a expansão espacial não implica necessariamente a expansão espiritual ou cultural, como observou discretamente Dom José Policarpo, além da ciência por si só não poder garantir um futuro melhor, a menos que seja inserida numa dimensão cultural mais vasta capaz de orientar a humanidade. A expansão espiritual do Ocidente exige uma renúncia ao mundo: a crise possibilita a emergência dessa renúncia, pelo menos no espírito das pessoas que precisam nascer duas vezes para se reconciliarem com o mundo. Só uma mente pessimista pode nascer duas vezes e, deste modo, opor-se às chamadas "mentes equilibradas" que nasceram uma única vez, apropriando-se e instalando-se no mundo que controlam em função dos seus interesses particulares, sem levar em conta o "bem público". O optimismo, sobretudo o optimismo tecnológico, nega o lado negro da existência: o mal é sistematicamente negado, como se não existisse, e, por isso, nada se faz para o eliminar. O optimismo é, em última análise, justificação ideológica das desigualdades sociais, da injustiça, do sofrimento e da miséria humana. O pessimismo metódico é a única atitude adequada à tarefa da libertação: o homo consumens precisa morrer para uma vida irreal, aquela que vive no âmbito de uma sociedade de consumo, idolatrada pela ideologia perversa difundida pelos mass media, a fim de nascer para uma nova vida real. Isto significa que, sem contracção material, não pode haver expansão espiritual. A alma ocidental só pode ser reanimada pela prática da ascese: a renúncia do mundo irreal e irracional em que vivemos e que ameaça a saúde de Gaia.
Controlar a todo o custo os efeitos negativos produzidos pela crise financeira na economia real pode significar perder a oportunidade de criar um mundo firme, estável e equilibrado, a partir do actual momento de tempestade, tensão e incoerência: a actual crise financeira ajuda a clarificar os erros viscerais do modelo de sociedade vigente e, se o Estado fizer intervenções irracionais para suavizar os seus efeitos, em especial na bolsa dos corruptos e dos "muito ricos", perde a oportunidade de nascer uma segunda vez. Este segundo nascimento só pode ser alcançado através da renúncia sistemática do modelo económico neoliberal e da sociedade de consumo, bem como de uma concepção "gorda" do Estado. Só o horror mortal que podemos experienciar diante dos efeitos nefastos desta crise constitui a reacção adequada à situação: o sofrimento redime, libertando-nos desta agonia impotente. É preciso lutar com todas as armas por um "mundo melhor". O optimismo é inadequado como teoria filosófica, porque os factos maus que rejeita constituem uma porção genuína da realidade e talvez a chave adequada para o sentido da vida e os únicos despertadores capazes de abrir os nossos olhos para os níveis mais profundos e elevados da verdade. O que vem aí só pode ser redimido e exorcizado por um olhar pessimista, o único que garante a esperança.
J Francisco Saraiva de Sousa

11 comentários:

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Oi amigos

Cheguei ontem e ainda assisti ao programa Prós e Contras. Prometo retomar este tema. Agora estou com dores de cabeça e deveras cansado. :(

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Ah, não sou contra os transexuais, como foi insinuado por uma pessoa que deixou comentário num post recuado no tempo. Porém, sou mais amigo da verdade: o meu temperamento não me permite fugir da verdade. Enfim, sou um asceta! :)

F. Dias disse...

Olá Francisco,

Espero que recupere esse físico e melhore rapidamente das dores de cabeça.

Então por onde tem andado?
Pela Montanha?

Pelo que diz, ser um asceta, e a avaliar pelos seus últimos textos (meditação e experiências místicas), bem fez o Francisco em ter ido até à ‘Montanha’ e ter-se abstido dos doces venenos da vida. Espero que tenha conseguido a tal visão unitária ao fundir o místico com o monístico.

F. Dias disse...

Os arrebates entusiastas e extasiados de Fiolhais não me convenceram. A sua embriaguez contrastou com a sobriedade de Policarpo.

O discurso de Fiolhais é completamente inútil quando se trata de partilhar com o resto da sociedade contemporânea ocidental as suas preocupações com a corrupção e os vícios da sua elite rica e poderosa.

Estes debates podiam servir para encontrar terapêuticas alternativas às que têm sido levadas a efeito por padres e polícias destes dois últimos mil anos. Mas este psico-drama é de tal modo complexo, e o ponto está de tal modo viciado, que os terapeutas profissionais já estão mas é a fechar os seus consultórios porque já perceberam que vêm aí outra vez as batalhas campais. Vai andar tudo à pancada.

Precisamos de gente sóbria e não de gente embriagada para enfrentar os manipuladores que têm distibuído de forma batoteira e injusta o escabroso peso deste mundo.

Quanto aos filósofos, desde Platão, precisamente por terem abandonado a embriaguez de Eleusis, cá está um paradoxo, já não têm nada a dizer sobre a embriaguez dos ‘fiolhais’. Em Eleusis existiam autênticos sábios, admitiu Platão, mas ele já não passava de um amador da sabedoria. Platão limitou-se a revelar o segredo do ofício, e Aristóteles com a Lógica deu-lhe a machadada final. Xamãs e místicos para um lado, matemáticos e merceeiros para o outro. Os actuais terapeutas profissionais que dão pelo nome de economistas são herdeiros bastardos destes antigos merceeiros. Isto é modesta filosofia analítica e não elaborada filosofia crítica, pelo que não tem qualquer alcance ofensivo.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Olá Fernando Dias

De facto, as "tiradas" de Fiolhais deixaram-me com uma má imagem dele: mais parecia um "tolinho" (sem ofensa) do que um homem sério. Sim, também apreciei a seriedade de D. Policarpo.

Os da plateia foram simplesmente "oportunistas": buscam um lugar ao sol, repetindo em proveito próprio os eternos erros da humanidade.

A filosofia de Platão pode ser relida em nova chave: o ascetismo espiritual está lá e Marx, apesar de criticar certas práticas da filosofia, nunca negou esse impulso asceta. A decadência da filosofia deve-se à massificação e ao carácter indigente do nosso tempo. Em tal tempo indigente, é difícil fazer filosofia, porque todos pensam ser filósofos. :(

Já estou um pouco melhor, mas não foram férias mas trabalho. Vou ver se dou continuidade ao post sobre meditação. :)

André LF disse...

Olá, Francisco! Faço votos para que consiga exorcizar as dores de cabeça.
Acho que estou a me tornar um asceta também :)
Ainda não tive tempo para ler os seus posts anteriores, mas o farei assim que puder.
Um abraço!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Olá André

Voltou a nevar e aqui na cidade o nevoeiro está de tal modo espesso que não se vê nada: muita humidade, aliás um convite ao ascetismo!

Fräulein Else disse...

Ah ah ah! Pensei que "humidade" fosse um convite ao não-ascetismo... ;)

Mas de que coisa falam, os caríssimos? Da "askesis" no sentido original, ou do ascetismo enfermo do Cristianismo?
Não foi esse o ensinamento de Sócrates, nem de Jesus Cristo. A sabedoria não está em recusar o mundo, mas em aceitá-lo e vivê-lo regradamente. Lembrem-se do Symposium de Platão: Sócrates não é aquele que não bebe, antes, é aquele que bebe mais e que nunca se embebeda, controla-se e nunca perde a visão, a theoria.
Ou se preferirem as Sagradas Escrituras: Jesus Cristo dá a outra face, não foge cobardemente e responde de maneira controlada...: é de coragem e vida, meus senhores, de que é feita a mais divina sabedoria!
O ascetismo é a disciplina dos fracos e moribundos! Mas isso também sabeis vós!

E allora, vado via... :) buona sera

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Oi Else

Eu referia-me à necessidde de romper com o modelo de consumo que consome a terra e o homem, portanto, à criação de uma sociedade mais virada para a espiritualidade do que para a materialidade. É sair da prisão em que vivemos e respirar ar puro!

Marcelo Minutti disse...

Oi Francisco,

Ótimo texto. Claro e exato como sempre.

Abs,

MM

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Oi Marcelo

Obrigado. Há algum tempo que não editava um post, mas já editou e sempre com novas sugestões e desafios. :)