domingo, 16 de outubro de 2011

Sérgio Buarque de Holanda: A Imaginação Geográfica dos Portugueses

«C'est l'extraordinaire faculté d'extension du concept de l'Inde à tout pays fabuleux quel qu'il soit dans la géographie médiévale, qui permit ao royaume du Prêtre-Jean d'être aussi aisément déplacé vers le Congo. Les Portugais l'ont cherché sur la côte occidentale de l'Afrique, et Vasco de Gama fit voile dans cette direction, passa au large du cap de Bonne-Espérance, découvrit en mer non pas le prêtre-roi mais bien les véritables Indes orientales. /Que l'espace nécessaire à une terre nouvelle se trouve sur cette terre, et que non seulement le temps, mais aussi l'espace porte son utopie en soi, c'est ce que sous-entendent les fondements d'un monde meilleur, du point de vue de la recherce de l'Eldorado-Eden géographique.» (Ernst Bloch)

Infelizmente, ainda não consegui adquirir nenhum dos livros de Sérgio Buarque de Holanda: o que quer dizer que tenho um conhecimento em segunda mão da sua obra. Além da sua obra Raízes do Brasil (1936), aquela que mais me interessa é, sem dúvida, Visão do Paraíso: Os motivos edénicos no descobrimento e colonização do Brasil (1959). Numa nota de rodapé, Silva Dias descarta-se da hipótese elaborada por Sérgio Buarque de Holanda sobre as correlações dos Descobrimentos e da Utopia: a mente de Silva Dias é, filosoficamente, atrofiada, perversa e maldita. O seu complexo de inferioridade leva-a a atribuir aos descobridores portugueses um complexo de superioridade que tenta minar, acusando-os de não terem feito aquilo que os outros - os franceses - fizeram. Mas quem é Silva Dias para rejeitar a autoridade de Ernst Bloch? Silva Dias deve reduzir-se à sua própria mediocridade e usar umas orelhas de burro, até mesmo depois de morto. Não sei se ele consultou efectivamente toda a bibliografia que apresenta nas suas obras, mas de uma coisa estou certo: Silva Dias não possui estofo intelectual para compreender a novidade radical que se revela nas obras seminais dos intelectuais portugueses dos Descobrimentos. A chave de leitura que usa é demasiado arcaica e simplicista para merecer qualquer tipo de atenção: a mente de Silva Dias situa-se aquém da mente dos intelectuais portugueses dos Descobrimentos que conheciam muito bem a literatura antiga. Os historiadores portugueses empobrecem a História de Portugal. É por isso que admiro a ousadia teórica de alguns historiadores brasileiros, entre os quais destaco Sérgio Buarque de Holanda e Afonso Arinos de Mello Franco: ambos trataram de dois mitos - o do Éden e o do Bom Selvagem - que não são estranhos um ao outro, como o próprio Silva Dias reconhece. A Utopia Geográfica encontra a sua forma mais completa n'Os Lusíadas de Camões: «Eis o mundo de Camões que ele, ao longo do Poema, define no seu tríplice aspecto, geográfico, naturalístico e humano. /E aqui chegados, bem podemos concluir que esta não é, essencialmente, a epopeia da imitação greco-latina: mas a que anuncia os Tempos Modernos. Este não é o poema do Renascimento. Os Lusíadas são o poema do Nascimento. Dum Novo Génesis. Duma Nova Idade. Ainda agora o Espírito flutuava sobre as águas; e já o mundo se ergue do Caos. O Poeta animou com o sopro da inspiração a multidão caótica dos factos, das coisas, das ideias novas, e deu-lhes vida, sentimento, continuidade com o passado e projecção no futuro. Nas páginas do Poema passa o frémito augusto, a singularidade do milagre, a aparição sublime e por vezes terrífica da Criação. /Não: Os Lusíadas não representam a cultura dum passado morto, mas a soma imensa de experiências, de sofrimentos, de conceitos, colhidos ao longo de todos os mares e de todos os continentes, que educaram, poliram, prepararam o Homem para uma vida mais embebida de espírito e humanidade» (Jaime Cortesão). Infelizmente, Ernst Bloch não conhecia em primeira mão esta obra da epopeia dos feitos portugueses, a epopeia da «fusão do Homem com o Universo» (Jaime Cortesão): o seu conhecimento ter-lhe-ia permitido articular todas as utopias geográficas - Éden e Eldorado - numa única Casa do Homem - toda a Terra como pátria do Homem (Heimat, terra natal, lar, pátria). (Wanderson Lima publicou um post sobre este historiador brasileiro: veja aqui.)

J Francisco Saraiva de Sousa

15 comentários:

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Parece que me arranjam uma obra do SBH! :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Monções - a obra que trata das bandeiras. :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Agora arranjei um amigo em Cabo Verde - estive a teclar com ele. :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Quanto aos amigos americanos, repito: sou a favor da ocupação de Wall Street mas não vejo um projecto revolucionário. É esta a minha posição! Mas estamos solidários!

Zekzander disse...

No 4Shared existe alguma coisa do Sergio BH em PDF. Não gosta de ler em computador?
Grande Abraço!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Zekzander

Ontem tinha lido alguns artigos dele num certo site, em especial um onde ele discute a questão da agricultura entrando em confronto com Gilberto Freyre. Vou ver esse novo site. :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Já li partes substanciais... de Raízes.

Buarque de Holanda nem sempre capta o espírito lusitano nos seus tipos ideais. O Estado em Portugal sempre foi muito forte, a começar no papel que desempenhou nos Descobrimentos. E as cidades portuguesas não correspondem à descrição que delas faz. Por exemplo, a colonização de Angola e de Moçambique mostram outra vertente da alma lusitana. Mas acho graça ao facto de recorrer aos tipos ideais de Max Weber. Buarque não conheceu o colonialismo alemão! Um bom começo para reescrever a história.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

É a força da organização estatal que explica o regime do privilégio que sufoca o mérito.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Outra coisa: os portugueses exploraram os interiores dos continentes. Somos uma cultura litoral, mas, a partir de determinado momento da colonização, os interiores foram explorados e criaram-se cidades interiores. É preciso ler os livros dos intelectuais das descobertas...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Pelo que li até agora, formulo esta chave de leitura: Buarque de Holanda destaca 4 aspectos, 4 raízes portuguesas do Brasil que, no seu entender, impedem a modernização, a saber:

1. A cultura da personalidade = frouxidão dos laços sociais: o indivíduo autónomo sobrepõe-se à coesão social, à solidariedade dos laços sociais. Este indivíduo sente repulsa pelo trabalho. O português desconhece a ética ou moral do trabalho, donde resulta o predomínio do privilégio em detrimento do mérito.

2. A ética do aventureiro: os portugueses foram aventureiros e não trabalhadores. Negaram a estabilidade e o planeamento. Preferem a cultura do ócio, o que os levou a escravizar o negro. O português é um semeador, enquanto o espanhol é um ladrilhador: o caso da construção das cidades.

3. O ruralismo: predomínio da família patriarcal.

4. O homem cordial: o predomínio da relação social sem formalidade. Donde a fraqueza do Estado entre os portugueses. O homem cordial guia-se mais pelas emoções do que pela racionalidade.

Enfim, o conjunto destas 4 raízes leva ao conservadorismo que bloqueia a modernização do Brasil.

Não revejo os portugueses nestes 4 aspectos: um ou outro traço é correcto mas não integrado do modo como o fez Buarque.

A família patriarcal é um traço muito contestado: aqui suspeitamos que a família portuguesa é mais matriarcal do que patriarcal. Ou pelo menos é preciso estabelecer um contínuo de formas familiares.

As Descobertas portuguesas não resultaram de uma ética da aventura. Há estabilidade e planeamento.

No fundo, se Buarque de Holanda quisesse reter a lição de Weber, teria de condenar o domínio da Igreja Católica e lamentar a fraqueza da Reforma: é aqui que reside a ética do trabalho que é uma ética económica.

Arcaísmo nobiliárquico? A ideia de privilégio tem aqui a sua origem. Mas essa é uma característica da Europa quando comparada com o Ocidente Mundial.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Acho interessante o fomento do diálogo luso-brasileiro. Afinal, a partir de uma herança comum, podemos aprender a conhecer melhor quem somos, donde vimos e para onde queremos ir.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

A colonização de Angola e de Moçambique, já no século XX, revela outro padrão que afinal sempre foi o padrão português: nenhuma colónia portuguesa pode responsabilizar Portugal pelo seu desenvolvimento ou falta dele depois da independência. Aliás, o que os portugueses não fizeram foi desenvolver o território donde partiam... Essa é a chaga do império.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Como é evidente, quando intitulo este post A Imaginação Geográfica dos Portugueses, estou a pensar em Bloch. O Eldorado do Brasil Central é um caso dessa imaginação...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Mas concordo em abstracto que há algo no legado português que se opõe ao desenvolvimento em sentido anglosaxónico, que, no caso do Brasil, é agravado por outros factores. Tenho escrito muito sobre esse atraso estrutural...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Aliás, o que eu condeno em Portugal é a falta de indivíduos autónomos: a sociedade portuguesa abafa os seus indivíduos. Neste aspecto, oponho-me completamente à tese de Buarque de Holanda.