domingo, 30 de outubro de 2011

Visconde de Vila-Moura e o Porto Escondido

Visconde de Vila-Moura (1877-1935)
Desenho de António Carneiro
«Paris!
«Uma grande Cidade é um atelier, onde o estranho vai tratar, esmaltar, seu ânimo.
«Para os apóstolos da Sensibilidade - um Museu de Imprevisto, onde estes vão, através de todos os perigos (nenhuma doença mais contagiosa do que a loucura do Civilizado) profundar, experimentar a subtil ciência da Alma.
«Onde mais delicada e espantosa Ciência?» (Visconde de Vila-Moura, Luz Fremente, Porto, 1924)


A investigação que estou a levar a cabo sobre os Quadros Portuenses conduziu-me até à obra do Visconde de Vila-Moura, que morreu no Porto sem ter deixado descendentes. Esperava encontrar na sua vasta obra uma imagem do Porto, uma imagem original capaz de conter, como que encerrada no seu âmago, a semente destinada a germinar posteriormente. Folheei a sua novela A Luz Fremente em busca dessa imagem-experiência originária. Sabia - como é evidente! - que encontraria aí a imagem de Paris, digna de ser confrontada com a experiência originária de Baudelaire, mas não encontrei uma imagem explícita do Porto, a não ser a da sua ausência. Afinal, quem são os apóstolos da sensibilidade? São os viajantes - ou, como diríamos hoje, os turistas - que se deslocam para lugares distantes em busca da sombra que trazem dentro de si, na tentativa desesperada de abrir novos mundos. Mas que mundos são esses que o Visconde de Vila-Moura desejava abrir? A imagem de Paris esboçada pelo Visconde de Vila-Moura é uma imagem nocturna, que toma a forma de apontamentos da noite parisiense.  A noite funciona na obra do Visconde de Vila-Moura como uma categoria estética demasiado subtil: a sombra que trazia consigo mandava-o viajar para terras descobertas - isto é, civilizadas -, onde pudesse abrir novos mundos. Os mundos a abrir tanto se encontravam fora como dentro do corpo animado pelo desejo secreto - "patologicamente sensual"! - do Visconde de Vila-Moura. O seu romance de patologia sensualNova Safo:  tragédia estranha (1912), menciona e nomeia explicitamente a sua sombra - ou o seu demónio? - pelo seu verdadeiro nome: a homossexualidade. É neste jogo subtil de sombras-desejos eróticos que se chocam na grande cidade à noite, em encontros imprevistos ou casuais, que aquilo que eu julgava estar ausente - a imagem do Porto - se torna subitamente presente. Meus amigos, se eu resolver incluir a obra do Visconde de Vila-Moura no meu projecto dos Quadros Portuenses, darei ao seu quadro portuense o título - Porto Gay, onde a imagem de Paris e a imagem do Porto se fundem numa cópula que abre ao mundo o mundo clandestino das homossexualidades femininas e masculinas.


Anexo. Duas longas citações extraídas da Nova Safo do Visconde de Vila-Moura (1912):


"Conheceis, de certo, até pelas nossas conversas, a poetisa Sapho. Muito se tem escripto sobre ella. Não ha noticias claras da sua vida e obras. Pertence, principalmente, á lenda. As suas Odes, como cerca de setenta fragmentos reunidos nas Lyrici graeci de Bergk—não são de molde a dar notas seguras acerca do que foi.
"Um facto é assente—o valor da sua extrema figura. Qual a reproducção mais legitima segundo a Arte? O Vaticano possue uma estatua de Sapho, sentada num rochedo, meditando; em Napoles ha uma pintura encontrada em Herculanum e um busto em bronze; modernamente occuparam-se della muitos auctores. Tenho reproducções dos trabalhos de Gros, Ramey, Duret, Diebolt, Clesinger, etc. Trataram em opera a tragedia de Sapho—Angier (musica de Gounod); e Salm (musica de Martini). A idéa dos seus presumidos defeitos deu ainda logar a um romance de Daudet—aliás inferior, pois que o artista trata incidentemente de Sapho em duas linhas, dando a Fanny Legrand, a heroina, aquelle nome, porque ella veste uma historia que tanto podia ser a de Sapho, como a de qualquer nevrotica, dada a volupias e violencias. O que é assente, emfim, é que a critica tem oscillado na sua maneira de entender a poetisa, sem ver nella o contraste do espirito grego num largo instincto de generalização e triumpho pelo amor exotico.
"Assim a considero e vou cantá-la.
"Para mim, Sapho foi a mulher de genio que acceitou como um facto a homosexualidade grega, o desprezo transitorio pela mulher, e tirou dahi estimulos para a sua campanha de amor, independentemente de preconceitos de sexo—fundando a sua escola para levar á civilização áttica a quota parte que lhe devia a adolescencia feminina, o mundo-feminino, em uma demonstração de vicio e genio que eram parallelos ao genio e vicio que contrastavam as maiores figuras do hellenismo.
"Ver do conflicto entre o seu valor e o desprezo pelo sexo, sentir o culto de si propria, historiar e reproduzir a hypercivilização grega e fazer dessa mulher sublime o ponto culminante, a expressão de synthese da sensualidade dum povo que aspirava ao contrôle da civilização do mundo—tal é, meus amigos, a razão do meu Poema, a concepção do livro que tenciono publicar com o titulo—Nova Sapho. Porque é uma nova Sapho, concluiu, a que espero desvendar."

‎"—Eu te digo, Edgar, ha duas maneiras de considerar a Vida:—vivê-la para o espirito, para a Arte—numa tensão firme de Belleza, e vivê-la como o commum da gente—almoçando, dormindo, trabalhando á hora, realizando num dia trabalho egual ao do dia seguinte, e talhando em vinte e quatro horas o programma, a obra de vinte e quatro ou quarenta e oito annos. Para estes não importa o amor exotico. E convenho que os prejudique se o tentarem... Mas para os outros, os da vida superior, muito longe de lhes prejudicar a obra e o destino, creio que lhes dá em Belleza o que perdem em felicidade. Não leste de certo, o que ha escripto ácerca da cultura dos homens na Grecia? Nietzche, por exemplo, affirma a supremacia do vicio; esclarece—«que as relações eroticas dos homens com os adolescentes foram, duma forma que nem nós chegamos a comprehender, a condição unica, necessaria de toda a educação viril; que todo o idealismo da força na natureza grega se baseou em taes relações; que o commercio sexual regular baixava ao passo que se ia elevando a concepção daquellas relações»."



Raul Leal escreveu Sodoma Divinizada: Leves reflexões teometafísicas sobre um artigo, reeditado em 2010, onde critica o artigo de Fernando Pessoa dedicado a António Botto. A obra do Visconde de Vila-Moura também pode ser incluída nessa literatura que "diviniza" o amor homossexual, como indicador de um elevado nível civilizacional e de uma vida superior dedicada à arte. Mas não pretendo condenar o carácter reaccionário da crítica de Raul Leal, o homófobo que fugia do seu próprio desejo de ser sodomizado por outro homem, como se esse desejo-coisa lhe fosse exterior: o que me fascinou na Nova Safo foi o facto do meu conceito de sexualidades exóticas ter sido antecipado pelo Visconde de Vila-Moura: o amor exótico enquanto amor entre pessoas do mesmo sexo. A minha inspiração foi americana, mas fico feliz por saber que um portuense já tinha utilizado a expressão amor exótico para designar as atracções eróticas entre pessoas do mesmo sexo. No entanto, no universo sensual do Visconde de Vila-Moura, o exótico contrasta fortemente com o civilizado: o amor exótico emerge nos interstícios das grandes cidades civilizadas, quebrando as suas rotinas diurnas, não tendo nada a ver com atracções eróticas entre civilizados e primitivos, algures nalgum lugar dos trópicos. O Visconde de Vila-Moura rejeita normalizar a sexualidade: o Porto Boémio, o Porto sem preconceitos, tem um rosto ousado na obra do Visconde de Vila-Moura. Além do mundo normalizado, o mundo dos preconceitos, há outros mundos: o mundo feminino, o mundo masculino, ambos mundos exóticos que quebram artisticamente a rotina do mundo comum. O hetero-sexo como rotina reprodutiva que garante a reprodução social do sistema capitalista de trabalho? A expressão comércio sexual regular usada pelo Visconde de Vila-Moura para designar as relações sexuais burguesas denuncia desde logo o seu carácter mercantil. Ora, se olharmos para a definição de prostituição dada por Marx e Engels, podemos compreender o seu funcionamento nas obras do Visconde de Vila-Moura e de Baudelaire. Enfim, perante a ousadia deste projecto estético-erótico, sou obrigado a adoptar o Visconde de Vila-Moura para dar rosto ao quadro do Porto Gay.


A noção de Apóstolos da Sensibilidade do Visconde de Vila-Moura reconduz-nos à noção de Apóstolos da Arte em voga na Europa entre 1820 e 1840. Para os artistas europeus, sobretudo os românticos, a cisão que perpassava a sociedade não a dividia entre burgueses e proletários, como explica Engels no Manifesto do Partido Comunista, mas entre burgueses e artistas. O artista afirmava-se contra a burguesia através do culto ao belo: a arte pela arte foi o último gesto de defesa antiburguês dos românticos contra a irrupção da nova classe burguesa. O ódio mortal que os artistas nutriam pela burguesia não era apenas um traço de união que ligava entre si os românticos: a boémia também odiava a burguesia, facilitando - sem disso ter consciência - a estratégia da burguesia para se negar a si própria como classe social. Visconde de Vila-Moura escreveu os Boémios nesse espírito antiburguês, mas a sua boémia tem, como já vimos, uma tonalidade erótico-estética. Em Portugal, o culto do belo - inspirado no culto grego pelo corpo masculino juvenil - foi uma invenção tardia dos escritores homossexuais e de todos aqueles que os seguiam. O ódio mortal pela burguesia aproximou os românticos da aristocracia tradicional: o Visconde de Vila-Moura nada mais fez do que retomar a cisão entre burgueses e artistas, dando-lhe uma coloração erótico-estética. A Peregrina é a heroína anti-burguesa da Nova Safo: ela não procura a felicidade e a riqueza, mas sim a beleza. Walter Benjamin definiu Baudelaire como «um agente secreto - um agente da insatisfação secreta da sua classe com a sua própria dominação». O seu ódio quase sempre camuflado pelas relações capitalistas de produção levou-o - bem como a Heine - a ansiar pela revolução e pelo triunfo das classes oprimidas. O Visconde de Vila-Moura também era um agente secreto infiltrado na sociedade portuguesa, mas a revolução que tanto ansiava era a libertação dos emparedados. O que Marx e Engels disseram sobre a família burguesa no célebre Manifesto do Partido Comunista poderia ser assumido pelo Visconde de Vila-Moura, cujos mundos exóticos ansiavam pela sua libertação da prisão - a condição de emparedados - que lhes era imposta pela família burguesa e pelos seus preconceitos de sexo. Revolução sexual em vez de revolução social? Eis a novidade radical da obra do Visconde de Vila-Moura que lhe valeu o esquecimento, após ter sido acusado de divinizar a sodomia!


J Francisco Saraiva de Sousa

6 comentários:

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Clique sobre a imagem para apreciar o desenho de António Carneiro, pintor portuense!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Se resolver analisar Vila-Moura, serei forçado a riscar as edições originais! :(((

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Bem, este quadro até pode ser articulado com a minha investigação de terreno que sustenta a minha tese de doutoramento.

Por momentos, fui assaltado por uma ficção: um encontro sexual entre o Visconde de Vila-Moura e o marido de Florbela Espanca, com uma cena passada no consultório de Egas Moniz. Um quadro português! :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Nova Sapho pode ser lida online aqui:

http://www.gutenberg.org/ebooks/26371

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Acrescentei um anexo! Sou assim... :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Bem, olhando para os meus quadros portuenses, constato que os portuenses de hoje perderam a raça de outros tempos. Também é isso que quero demonstrar com este projecto.