segunda-feira, 12 de maio de 2008

Estética da Recepção: Uma perspectiva geral

«Os meus poemas têm o sentido que se lhes dê». (Paul Valéry)
«A obra literária faz apelo, de um modo essencial, à leitura». (Hans-Georg Gadamer)
A estética da recepção surgiu na República Federal da Alemanha, nos anos 70, onde adquiriu o estatuto de escola na Universität Konstanz: a Escola de Konstanz, cujos teóricos mais destacados são Hans Robert Jauss e Wolfgang Iser, ambos discípulos de Hans-Georg Gadamer, cujos princípios hermenêuticos ou mesmo fenomenológicos adaptaram à crítica literária.
A história da literatura moderna pode ser sumariamente periodizada em três fases em função do triângulo Autor, Obra e Leitor e do seu elemento privilegiado:
1. Uma preocupação com o autor manifestada pelo romantismo e predominante no século XIX, girando muito em torno da estética do génio de Kant: o autor é visto como um génio que cria sem regras e o sentido tende a ser descoberto na intenção desse génio criativo.
2. Uma preocupação exclusiva com o texto protagonizada pela Nova Crítica: o texto literário é visto não como documento biográfico ou histórico ou simples soma de influências literárias exercidas sobre ele, mas como obra de arte sujeita e submetida às suas próprias leis estéticas.
3. E, nas últimas décadas, uma transferência acentuada da atenção para o leitor e o público tematizada pela teoria da recepção: Segundo Paul Valéry, não existe sentido pré-estabelecido num texto; o sentido concretiza-se em cada acto de leitura e com cada leitor de um modo novo e inesperado. Como escreveu Hans Robert Jauss:
«No triângulo formado pelo autor, a obra e o público, este último não é de forma alguma um elemento passivo, que reagiria em cadeia, mas antes uma fonte de energia que contribui para fazer a própria história (da literatura). A vida da obra na história não é pensável sem a participação activa daqueles a quem se dirige. É a sua interpretação que faz entrar a obra na continuidade de um horizonte dinâmico de experiência, na qual se opera a permanente passagem de uma recepção simples a um comportamento crítico, de uma recepção passiva a uma recepção activa, e das normas estéticas reconhecidas a uma produção nova».
Neste triângulo comunicacional, o leitor foi o elemento menos privilegiado pelas teorias estéticas. Coube à estética da recepção destacar o seu papel na história da literatura, porque sem leitor não há (verdadeiramente) textos literários. Estes textos são processos de significação que só se "concretizam" ou se "actualizam" (W. Iser) na prática de leitura. A leitura é um processo activo em que o leitor está sempre a formular hipóteses construtivas sobre o significado do texto, estabelecendo conexões implícitas, preenchendo "lacunas", "rupturas" ou "hiatos", fazendo deduções e comprovando suposições. Esta actividade hermenêutica do leitor só é possível graças ao uso de conhecimentos tácitos do mundo em geral e das convenções literárias em particular. O texto em si convida o leitor a dar-lhe sentido. O leitor concretiza a obra literária que, em si mesma, mais não é do que uma cadeia de marcas negras organizadas numa página e que, por mais sólida que pareça, se compõe de "hiatos", fracturas ou "indeterminações". Para terem efeitos, os elementos indeterminados do texto dependem da interpretação do leitor, podendo ser interpretados de várias maneiras, por vezes conflituais entre si. Quanto mais informação transmite o texto, mais indeterminado ele se torna: a mais-valia informacional desencadeia reacções diferentes em diferentes leitores e, em vez de fazer o texto mais preciso e transparente, torna-o mais indeterminado, portanto mais aberto ao diálogo produtivo com os seus leitores de todos os tempos.
A leitura é um movimento dinâmico complexo que se desdobra no tempo. Segundo Roman Ingarden, a obra literária apenas existe como uma série de "schemata" (ou orientações gerais) que o leitor deve tornar realidade efectiva, com o recurso a determinadas "pré-compreensões" e a um amplo horizonte de crenças e de expectativas a partir das quais, dentro das quais e com as quais as várias características da obra devem ser avaliadas. A continuação da leitura exige necessariamente a modificação das expectativas iniciais até que o "círculo hermenêutico" (da parte ao todo e do todo à parte) comece a ficar solucionado, revelando um sentido coerente. O leitor esforça-se por estabelecer um sentido coerente a partir do texto e, para levar a cabo essa tarefa, selecciona e organiza os seus elementos em todos coerentes, excluindo alguns elementos e destacando outros, de modo a concretizar a obra. Sob poderosa influência da fenomenologia, Wolfgang Iser fez uma distinção fundamental entre "texto", considerado como pura potencialidade, e "obra", considerada como conjunto de sentidos constituídos pelo leitor ao longo da leitura. Desta distinção não resulta o relativismo ou a arbitrariedade do sentido, mas a concepção produtiva da leitura como a constituição do sentido a partir do texto, isto é, segundo as regras de jogo inscritas no texto. Isto significa que a estrutura do texto não determina o sentido, mas somente o ritmo, isto é, a forma da constituição do sentido.
A leitura não é, portanto, um movimento linear progressivo e cumulativo, mas um trabalho activo no decurso do qual as expectativas iniciais do leitor geram um quadro de referências para a interpretação do que vem a seguir. Porém, o que vem a seguir pode transformar retrospectivamente a sua compreensão original, ressaltando certos aspectos e colocando outros em segundo plano. À medida que prossegue a leitura, o leitor abandona certas suposições, revê crenças, realiza revisões de sentido, enfim faz deduções e previsões cada vez mais complexas: cada frase abre um horizonte que é confirmado, questionado, problematizado ou destruído pela frase seguinte. O leitor lê simultaneamente para trás e para a frente, recordando e prevendo, consciente de outras concretizações possíveis do texto negadas pela sua leitura. Isto significa que o leitor é, de certo modo, uma espécie de co-autor do texto que concretiza em obra (W. Iser). Esta actividade produtiva de leitura é realizada em muitos níveis ao mesmo tempo, dado o texto ter segundos e primeiros planos, diferentes pontos de vista narrativos, camadas alternativas de significado, entre as quais o leitor se move constantemente. Segundo W. Iser, a obra literária mais eficiente e valiosa é aquela que obriga o leitor a formular uma nova consciência crítica dos seus códigos estéticos e das expectativas habituais, ou seja, que transgride os modos normativos de ver e ensina novos códigos de entendimento. A função da leitura é, como já tinha sido mostrado por Gadamer, levar o leitor a uma auto-consciência mais profunda e catalisar uma visão mais crítica da sua própria identidade, como se aquilo que lê ao avançar na leitura de um livro fosse ele próprio.
Hans Robert Jauss disse de outro modo a missão da leitura: «Reduzir a arte a um simples reflexo é limitar o efeito que ela produz no reconhecimento do já conhecido: vingança da mimesis platónica, essa herança que se renega. Deste modo, ficaria precisamente vedada à estética marxista a possibilidade de compreender o carácter revolucionário da arte: o poder que ela tem de libertar o homem de preconceitos e representações arreigadas na sua situação histórica e de o abrir a uma percepção nova do mundo, à antecipação de uma realidade nova». Ou então: «A experiência da leitura pode libertá-lo de exigências de adaptação, preconceitos e constrangimentos da sua praxis da vida, conduzindo-o a renovar a sua percepção das coisas. O horizonte de expectativa próprio da literatura distingue-se do da praxis histórica da vida pelo facto de não apenas conservar os traços das experiências feitas mas de antecipar também as possibilidades ainda não realizadas, alargando os limites do comportamento social, ao suscitar aspirações, exigências e objectivos novos, e abrindo assim as vias da experiência futura».
Existem algumas variações no seio da estética da recepção, mas aquilo que foi analisado neste post é suficiente para mostrar que, no âmbito da literatura, esta teoria soube demarcar-se da explicação imanente da obra literária, conhecida nos USA com a designação de Nova Crítica (Leo Spitzer), produzindo uma verdadeira teoria estética preocupada com os efeitos da experiência estética, aliás muito próxima das estéticas marxistas. Hans Robert Jauss converteu efectivamente a teoria da recepção numa estética da recepção entendida como teoria da comunicação, vendo a experiência estética como consciência produtiva (poiesis) que cria um mundo como sua própria obra; como consciência receptiva (aisthesis) que aproveita a oportunidade para renovar a sua percepção interna e externa da realidade, e como abertura à intersubjectividade (katharsis), à qual dedicaremos outro post.
Anexo Crítico. A estética da recepção surgiu no seio da sociedade de consumo (Jean Baudrillard): o leitor das estéticas clássicas era uma espécie de filólogo solitário. Como a educação está actualmente em regressão, o leitor é hoje qualquer um desde que funcione em manada neste horizonte metabolicamente reduzido: muita opinião mas escassez cognitiva. As leituras não-orientadas podem privar o texto literário da sua verdade, sendo reduzido a uma mera mercadoria. Aqui reside o núcleo da crítica que faço à teoria da recepção na sua versão banal: uma estética da indigência de espírito e da privação activa de conhecimento.
A teoria da recepção assenta (ou devia assentar) na fenomenologia social da vida diária (Schutz), a qual destaca a multiplicidade de realidades: o leitor possui o seu próprio acervo de conhecimentos prévios (Husserl, Heidegger, Gadamer, Schutz) historicamente efectivo que preenche as lacunas do texto literário, dando-lhe um sentido coerente. Ao acentuar o papel do leitor/público, a estética da recepção tornou-se teoria da comunicação: autor (produção), obra e leitor (recepção), privilegiando o papel do leitor na constituição do sentido. No contexto da indigência cognitiva predominante nas nossas sociedades, o diálogo entre a obra e o público tende a transformar-se numa palhaçada, porque o público finge que lê, é destituído de conhecimentos e o sistema de educação já não desempenha o seu papel crítico e orientador na formação cultural, deixando de cuidar do desenvolvimento psicológico e cognitivo das crianças: regressão cognitiva. Esta é a ameaça que pende sobre a reactualização criativa da tradição.
J Francisco Saraiva de Sousa

71 comentários:

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

André

Se passar por aqui, deixe uma mensagem a dizer se já está melhor dos seus problemas respiratórios.
Sempre que alguém se ausenta ficamos todos aqui preocupados.

Abraço

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

A teoria da recepção possibilita uma nova abordagem crítica da literatura também para a infância, como diz a Denise.
A (pseudo)descoberta da infância teve como resultado a criação de um mundo autónomo das crianças alimentado pelo sistema das indústrias juvenis: a infância tende a prolongar-se ao longo do ciclo vital. Os seres humanos permanecem infantilizados de modo a serem manipulados pelo sistema capitalista.
Surgem autores dedicados à literatura infantil: escrevem livros para criações, onde revelam a sua própria concepção da infância. Perde-se de mira o objectivo da educação: educar para a liberdade e a vida (adulta) autónoma. Mas qual a leitura realizada pelas crianças? Os pais ainda lêem em voz alta para os filhos? As crianças lêem? Tantas questões cujas respostas constituem um X total...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

A criança é um ser em desenvolvimento, um ser em passagem para a vida adulta, um ser que busca a sua própria identidade, um ser que procura participar activamente no mundo comum de todos... A leitura possibilita alcançar esses objectivos.
Mas o que observamos é que os professores de português e de línguas não estão preparados para orientar os jovens nessa missão vital, porque estão infantilizados e, portanto, incapazes de pensar criativamente.

André LF disse...

Olá, Francisco! Grato pela preocupação de todos vocês.
Os sintomas ainda não me deixaram em paz. Estou tentando marcar uma consulta com um pneumologista, mas está difícil. Recusei-me a comprar aqueles medicamentos recomendados por aquele médico louco de que lhe falei. Não acredito que o tratamento médico deva se basear em achismos e em probabilidades.

Sempre tive problemas
respiratórios, mas desta vez eles estão mais graves. Estou fraco, sem disposição para a maioria das atividades que nutrem a minha existência (freqüentar este espaço é uma delas:))
Faço aniversário amanhã (29 anos) e não sei se terei ânimo para receber visitas :(
Vc tem notícias do Fernando Dias?
Abraço a todos!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

André

Infelizmente, nenhum de nós tem notícias do Fernando Dias. Também estamos preocupados com o F. Dias. Espero que esteja bem de saúde a gozar um tempo de férias nos trópicos.
Parabéns! Muita saúde e felicidade!

André LF disse...

Concordo consigo sobre o importante papel da leitura sobre a formação da criança.
Lamentavelmente, noto que muitos professores perderam o gosto pela leitura :(
As crianças precisam ter contato com narrativas míticas e histórias que contenham temas arquetípicos. Para que este contato se realize, é preciso que os mestres tenham a capacidade de lhes transmitir o amor por tais histórias. Ultimamente é raro encontrar professores com este dom.

André LF disse...

Obrigado! Ganhei um presente muito valioso neste ano: encontrar amigos como vocês!

Aveugle.Papillon disse...

N concordo com o q acabou de dizer sobre a relação literatura/infância mas já volto depois de almoço para lhe responder.

André,

Faz anos a 13 de Maio! Outro Touro!
Amanhã dou-lhe os meus parabéns, pois a tradição (por aqui) diz que dá azar antes da data! :)
As suas melhoras! Pensei q viver no Brasil curaria todas as maleitas, mas era preconceito meu... ;)

Manuel Rocha disse...

Olha ! Outro Touro !
Parabéns André, e bem vindo à "manada"...:))

Recomedação: saia dessa cidade e vá a ares rurais. Procure as pampas de Londrina, que voltará recuperado. Sugestão: convide o F, que tb anda a precisar de mudar de ares...;)

Frnacisco,

Já cá volto para o ler com calma.

Aveugle.Papillon disse...

Ah ah ah... a manada é só constituída por si e pelo André, Manuel, que eu sou Aquário com ascendente Escorpião... "sou osso duro de roer" como dizem os brasileiros...

E o Francisco, q signo será? Morcego? Flamingo? Porco-espinho? :)))

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Papillon

Eu sou do signo Touro: 24 de Abril; já fiz anos mas este ano praticamente não festejei. Ando com aquela "depressão" racional!

André LF disse...

Papillon, viver no Brasil não cura todas as maleitas. Ao contrário, produz maleitas desconhecidas pela medicina :)

Manuel,
a sua sugestão é muito boa! Terei prazer em recebê-los na minha cidade!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Papillon

Sei que não concorda comigo quanto à relação infância e literatura, porque a minha perspectiva decorre em parte da de Hannah Arendt com a qual discorda.
Vejo na criação de "mundos (pseudo)autónomos), tais como o da infância ou o da adolescência, estratagemas capitalistas que visam sujeitar/submeter os seres humanos aos seus caprichos lucrativos sem ter em conta o desenvolvimento saudável das pessoas.
Cresci a ler Pinóquio e as fábulas de la Fontaine, vivi a minha infância como criança curiosa, mas já lia literatura adulta: Flaubert, Gogol, Dostoiévski. Gorki, Kafka, Balzac, Man, etc...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

É a sonhar para a frente que desabrochamos: uma literatura muito específica pode entrar esse projecto de sonho e de esperança (docta spes) que somos, fazendo regredir as nossas capacidades intelectuais, devido à falta de uso dos circuitos neurais.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

"entrar" era Entravar...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Porém, seguindo a linha do meu pensamento devo avançar com o conceito de regressão ou atrofia estéticas: o homens consumidor/devorador está a perder o sentido do "belo" e do prazer da experiência estética. Nem sequer já sabe desfrutar das obras de arte!
O que está em causa é a crise cultural ou o parlamento da cultura: as capacidades ou funções corticais superiores funcionam em assembleia ou em "sociedade"; a sua regressão devido à falta de uso condena a cultura ao esquecimento activo. Na origem está sempre o capitalismo... :(

Manuel Rocha disse...

Voltamos sempre ao mesmo. Fim de ciclo ?

Aproveitei o after lunch e a secagem da primeira demão de tinta das portadas para postar. E também voltei ao "mesmo". Por outra via.
;)

Aveugle.Papillon disse...

Manuel,

É realmente uma manada - são todos Touros!

Francisco,

Parabéns atrasados!
Sobre o texto:
Precisamente, parte de uma tese, a qual não subscrevo, que é considerar o estágio existencial da infância como meramente potencial. Não foi o capitalismo que criou esse mundo autónomo; Rousseau e Pestalozzi já identificavam explicitamente o ponto de vista da criança, o qual foi severamente criticado por Hegel e (para mim) superado por Kierkegaard.
Aliás, essa sua ideia de que o mundo capitalista é infantil, é mesmo sua, porque, por exemplo, Benjamin, defendia que o mundo moderno capitalista seria o mundo cinzento e monótono, em oposição à época gloriosa e infantil da humanidade, que os românticos e Nietzsche, por exemplo evocaram: o "pais paizon" de Heraclito, «O Jogo como símbolo do Mundo» - Fink.

Aveugle.Papillon disse...

Por sua vez, o capitalismo como sistema super-adaptável que é, é que transforma a infância ou a criança e o adolescente como potenciais consumidores; ora isso resulta, como bem viu, do ponto de vista do educador (professor ou pai) já viciado. A mesma coisa acontece com a arte e a estetização da vida de uma forma não-autêntica ou não-primordial.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Papillon

Não se trata de "negar" a infância: a infância é antes de tudo uma fase do nosso ciclo vital, portanto um programa genético em acção.
O capitalismo infantiliza os seus "sujeitos" no sentido de os tornar "pueris" (Devereux) e de reter as crianças numa fase artificial prologada de infância.
O jogo é mais complexo: a dimensão lúdica do homem. Podemos sempre "jogar" com o mundo...
Preferia abordar isso a partir da teoria da vinculação de John Bowlby. A piagetização da infância não compreendeu bem a psicologia do desenvolvimento cognitivo de Jean Piaget.
Penso que o "infantil" de nietzsche se refere mais à época trágica dos gregos do que à infância propriamente dita: infantil no sentido de mais "originário", não?

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Manuel

Faço o que posso para evitar o "fim de ciclo", mas as alterações climáticas e o imprevisível humano deixam-me muito perplexo face ao "destino do homem"... Já o vou ler...

Aveugle.Papillon disse...

Sim, precisamente, mais originário. O ponto de vista infantil é fundador e fundamental. E muitas estéticas a partir do século XIX e ao longo do século XX o demonstraram.
O facto do capitalismo prolongar a infância, dá-se porque a criança é ser colonizável e influenciável, deve ser educada, mas o rpoblema é que n há educação q faça frente ao sistema vigente, logo o fenómeno acontece. Portanto, a autonomia da criança n deixa de existir com ou sem capitalismo, n é uma fábula. ;)

Aveugle.Papillon disse...

Sim em termos de pedagogia, Piaget foi levado ao extremo não benéfico. Mas superá-lo ou transformá-lo n é negar a autonomia da criança.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Papillon

Estamos de acordo e aparentemente em desacordo devido a um erro categorial: a infância como fase ou período do ciclo vital do homem e a infância como o mais originário em termos sociais e culturais ou mesmo civilizacionais.

Nós humanos somos seres dependentes: precisamos de cuidados especiais. À medida que crescemos e se tudo correr bem, aprendemos a ser mais autónomos e a cuidar de nós mesmos sem estar tão dependentes dos outros. Somos seres em crescimento e em desenvolvimento: mental, físico e cognitivo. Se não fossem os cuidados prestados pelos adultos, os pais, as criancinhas morriam, porque nasceram imaturas e despreparadas. Da concepção à pessoa adulta vai um longo caminho de autonomização crescente o qual termina com a morte. Cabe-nos cuidar das crianças e abrir-lhes o nosso mundo comum. (Sabe que até aos oito anos de idade certas áreas do cérebro "responsáveis" pela formação das memórias a longo prazo não estão amadurecidas!?)

De resto, respeito a visão de Nietzsche e assimilei muitos dos seus conceitos, mas continuo a pensar que o pensamento da infância (artificial) decorre de certos desenvolvimentos sociais impostos pelo capitalismo...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Deixei no blogue do Manuel Rocha este comentário ao seu último post, cuja leitura recomendo:

"Gostei da (sua) ideia cibernética: Face à mediocridade cognitiva dos consumidores/devoradores, o mundo é uma "caixa negra". Se um génio maligno matasse os fabricadores do mundo, a manada metabolicamente reduzida regressava à Idade da Pedra: a uma sociedade anterior ao pacto social atravessada pela violência. Aliás, esse é o procedimento do behaviorismo, a psicologia do capitalismo: matar a alma!" :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Portanto, Papillon, preciso saber o que entende por "autonomia da infância". Porque se o projecto não é ser um adulto responsável, então não sei o que se passa... :)

Aveugle.Papillon disse...

O ponto de vista da criança ganha valor quando somos adultos ou independentes do cuidado dos outros. Mas há o paradoxo: ao sermos "com", pois n temos outra forma de existir, vamos sendo menos criativos e originais, porque o mundo se torna mais banal. Portanto, para mim existe uma tensão: sair da infância é efectivamente uma perda e ser adulto é efectivamente um ganho. N há um "auge" histórico da existência: a voz autêntica pode soar a qq altura, mesmo durante a infância - vide: "Autobiografia psíquica" do austríaco Hermann Broch

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Mas a autobiografia é escrita por um cérebro adulto e responsável e a memória não é um depósito mas um processo activo: construímos tb o passado.
Benjamin tem ensaios em que trata desse regresso à infância, muito na peugada de Proust, mas é uma construção adulta.
Sim, a infância tem a sua magia, aliás todas as idades têm a sua magia: A Mulher de 30 Anos de Balzac é "magia"!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Contudo, esses "regressos à infância ou à adolescência" têm uma leitura política e histórica: um regresso a uma espécie de "paraíso perdido", a "idade do Ouro" da Humanidade, algo indiferenciado sem lutas.

Aveugle.Papillon disse...

O projecto é sermos responsáveis, mas n é só sermos responsáveis e cidadãos do mundo.
O que deve determinar a nossa vida é o momento inaugural, em que sozinhos connosco mesmos, encontramo-nos em flagrante acontecimento irredutível e intransmissível, em que reconhecemos os nosso limites, em que separamos o real do irreal (a experiência platónica-apolínea fundadora da filosofia) e tingimos nossa vida com esta experiência. Ora, esta é a nossa redenção e estas experiências vão ocorrendo ao longo do nosso desenvolvimento até adultos. Muitas das vezes o adulto já está contaminado e submerso na vida quotidiana e atemática. Já está irremediavelmente perdido. Portanto ser adulto por si mesmo n significa nada naquilo q eu compreendo ser o sentido da vida.

Aveugle.Papillon disse...

Mas n é "magia" - é verdade!

Aveugle.Papillon disse...

Ser adulto é interpretar o que de fascinante e revelador nos aconteceu durante a infância e adolescência. Logo são duas fases mutuamente necessárias e relacionais.

Aveugle.Papillon disse...

E de igual modo pela descoberta da solidão do eu, eu tinha encontrado ao mesmo tempo um antídoto para todos os anteriores desejos infantis de suicídio, não apenas porque a ela estava a descoberta da existência da alma e da sua inviolabilidade, mas também porque a tarefa recém-descoberta do conhecimento precisava de muito tempo, sim, precisava mesmo de uma existência terrena particularmnte longa. Ob. cit.

Aqui o autor fala de um momento em que sente a Solidão, em que se descobre abandonado, mas a partir dessa experiência n se deixa vencer em resignação passiva, mas lança-se no mundo, porque reconhece q a história do conhecimento, no sentido metafísico, estava por acontecer: o homem n acaba na infância, mas ela é estrutural e n só porque está implicada, mas porque é redentora! Isto é o que eu penso, e como pode notar, subscreve a leitura existencialista. :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Sim, estamos de acordo, até porque não nascemos "adultos".

Quando o Ariés diz que a infância é uma invenção recente estremeço, porque os progenitores/pais amam e amaram e amarão sempre os seus filhos/crias, não só humanos mas também animais. O que varia são determinadas concepções e convenções sociais, talvez mesmo os paradigmas. Contudo, a infãncia não é uma construção social: é uma fase do desenvolvimento do programa genético em acção que somos. Esquecer isso é ser irrealista: ópio capitalista! :)))

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Os bebés a partir de certa idade sentem essa angústia da separação, até quando são hospitalizados. A solidão e depois o isolamento são terríveis: uma descoberta que fazemos no decurso da nossa vida. Afinal, morremos sozinhos... :(

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

No fundo, somos as crianças que fomos... :)

Aveugle.Papillon disse...

N é preciso ficar "de acordo cmg". Apenas pretendo dar a ver aquilo que refuto no que diz e aquilo q eu, por sua vez, defendo. :)

O facto do capitalismo prolongar a infância, percebe-se agora (espero), q n é no sentido autêntico q eu compreendo a infância: livre e libertadora. O capitalismo, pelo contrário, domestica as nossas crianças e fá-las submeterem-se ao jugo do consumo e do capital. Logo, perverte-as, mais do que prolongar um estado "natural".

Aveugle.Papillon disse...

Precisamente, pelas nossas crianças serem tão facilmente "colonizáveis" é que deveríamos, enquanto adultos RESPONSÁVEIS, educadores e formadores, privá-las da engrenagem asfixiante do capitalismo.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

O "estado natural" ainda não pode ser prolongado; é cirurgiado mas soa sempre de modo dissonante.

E a nossa sociedade europeia é mais de velhos do que de jovens: todos iludidos com o consumo.

Aveugle.Papillon disse...

Se um jovem for bem educado e bem formado ele buscará sempre a sua independência e autonomia - a todos os níveis. :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Exacto: educar, mas como o fazer se não nos deixam?

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Esse é o projecto da emancipação responsável! Sempre foi um projecto filosófico e político.
Porém, o capitalismo sabe neutralizar as nossas críticas e convertê-las em bens de consumo inócuas! :(((

Aveugle.Papillon disse...

Temos de ser criativos! Aí buscamos a força da imaginação criadora da infância! (Benjamin) ;)

Aveugle.Papillon disse...

Sim, o problema do capitalismo é q é como um vírus: adapta-se a uma velocidade estonteante, a qq forma de vida e pensamento.

Temos de pensar nisso!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

O capitalismo rouba-nos a alma, a vida, o corpo, aliena-nos de tudo até de nós mesmos.
Eu bem desejo ser um projecto encantado e reencantar o mundo, mas a qualquer momento o capitalismo absorve-me (a todos, entenda-se) com tarefas monótonas, repetitivas, embrutecedoras: sinto-me sem-abrigo, fora de mim, embora consciente e resoluto a não desistir. Porcaria de vida a nossa: não poder criar um mundo sem angústia.

Aveugle.Papillon disse...

É difícil! Como o entendo!
Aliás, neste momento, debato-me com isso: como viver (nesta sociedade) e ser fiel a mim mesma? E como fazê-lo? Porque, as acções, a praxis devem ser libertadoras, mas como fazê-lo?

Esta é a questão!

André LF disse...

Francisco, sei muito bem como se sente. Também sonho em "ser um projecto encantado e reencantar o mundo". Porém nossos sonhos são maculados pelo pesadelo da vida cotidiana que nos impõe a adaptação a um sistema sórdido, embrutecedor, agressivo e doentio.

Papillon, sinceramente não acredito que seja possível viver nesta sociedade e ser fiel a si mesmo. Não conseguimos servir a dois senhores, a não ser que eles possuam ideais semelhantes.

André LF disse...

Enfrento muito dilemas pelo fato de ser psicólogo. No ano passado uma pessoa muito sensível me procurou. Ela se queixava de não conseguir se adaptar à sociedade, ao mundo capitalista. Para mim, foi muito difícil atendê-la porque eu também não me adapto bem ao sistema. Tive vontade de lhe dizer, "parabéns, minha cara, não se adaptar a uma sociedade profundamente patológica é sinal de inteligência e de saúde da alma"! É claro que não lhe disse isso.

André LF disse...

Ando em crise com a minha profissão. Eu pensando em ser agricultor :), uma vez que me é penoso cuidar de jardins da alma

André LF disse...

Leia-se: "Estou pensando"

Aveugle.Papillon disse...

Pois, André, se calhar tem razão! Por isso, já pensei em emigrar para um país não-capitalista, para o deserto ou ir mesmo para um convento. :) São os meus planos de fuga, desde sempre!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

André e Papi

Somos um clube de românticos! Eu até sou muito racional mas desde um determinado momento não me apetece socializar com pessoas sem alma. Não quero perder-me ou trocar-me por uma existência metabólica e pardacenta. Por isso, deixei a cyberpesquisa e uso a net para comunicar na esperança ainda que remota de dar o meu contributo para a mudança qualitativa do mundo. Perdi o medo de morrer: arrisco...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Somos muito românticos mas temos a via política: não podemos desistir. Podemos imaginar um modo de levar avante as nossas ideias, usando o capitalismo...

Aveugle.Papillon disse...

Tem um coração tão nobre este Francisco. Nota-se que foi bem educado e bem formado. :)))

Prefiro fazer parte do clube de Humanistas. Alguém quer fazer parte cmg?

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

O "pior" é que a nossa maneira temperamental de ser nos pode condenar ao fracasso numa sociedade doentia e néscia como a nossa! Sendo assim, somos cativos do nosso próprio castelo genético abandonados num mundo que nos é hostil... :(

André LF disse...

Amigos, prefiro ser um romântico inadaptado a ser um bruto bem adaptado :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

E há diferença entre o romantismo que bebemos nos mestres e o "humanismo"!?

Aveugle.Papillon disse...

Sim, sim, mas é a nossa fortaleza mental q nos garante a sanidade!

André LF disse...

Francisco disse: O "pior" é que a nossa maneira temperamental de ser nos pode condenar ao fracasso numa sociedade doentia e néscia como a nossa!

Será que o "fracasso" numa sociedade como a nossa não é uma vitória?
Afinal, que tipo de "vitória" podemos obter num mundo crepuscular? Seria uma vitória nobre?

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Sim, fortaleza mental...

Aveugle.Papillon disse...

Há, porque eu adoro seres humanos. Com os seus defeitos e virtudes, loucos e doentes, velhos e jovens, qq manifestação humana me é querida, me é íntima. E romantismo soa-me a individualismo e marginalidade, hermetismo e eremitismo. Só como "plano de fuga" eu coloco essa hipótese.

E tb porque gosto de ser do contra e de implicar consigo, dá-me pica.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

André

Para mim, é uma vitória que sinto sempre que acordo; os outros lá bem no fundo sabem que somos vitoriosos e heróicos. Talvez nos invejem por isso...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Papillon, má, mé, mi, mó muuuuuuuu

Aveugle.Papillon disse...

Sim, sou má, mas o Francisco gosta. ;)

Bem, gostei muito, é sempre um prazer, tenho de ir.

André LF disse...

Interessante a concepção papilloniana sobre o romantismo!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

André

A Papillon tem um modo de ser peculiar. :)))

Aveugle.Papillon disse...

André,

O meu mano por adopção, Francisco-Polinices, é muito querido e lacónico.

Denise disse...

Já li o post, Francisco e já me diverti com os comentários. O texto agrada-me mas há coisinhas que quererei esmiuçar. Daqui a umas horas. Agora estou estoirada. Vou morrer um bocadinho, sim?
Abraço e uma boa noite par todos.

Denise disse...

Amigos e amiga,
Chego atrasada, mas chego...

Francisco,
Agradeço-lhe este post que enriquece sobremaneira o meu texto sobre o conceito de Literatura como introduçao às minhas (futuras) reflexões sobre a Literatura (também) para a Infância.
Gostei da síntese que efectuou sobre a Estética da Recepção. Muito clara e bastante esclarecedeora. Quanto aos sues apontamentos críticos, compreendo e subscrevo a sua preocupação sobre a incompetência de leitura apresentada por uma grande parte dos jovens portugueses. É um problema cíclio porque com a au^sencia de referentes incapacitam-se no esrecício hermenêutico e, assim, também para a reinterpretaçãodo mundo.
O prblema que surge é a validade, ainda que pertinente, de uma leitura orientada. Orientada por quem? Sobe isso há que reflectir sobre a autoridade e a responsabilidade a imputar a cada um de nós; sobre o perigo para a intiição de uma "ditadura esclarecida" (palavras suas)...
O problma reside, efectivamente, nas questões da educação que entaram numa espiral cuja solução nem o meu optimismo consegue antever.
permita-me que discorde consigo quanto à sua opinião generalizada sobre os professores de português. Eu sou professora de português e tenho-me em conta, assim como à maior parte dos colegas que tenho vindo a conhecer ao longo dos anos. Há sempre a ovelha ronhosa, é claro, ou o professorzeco que que limita a ler o que vem no programa. Mas esses são raros, ou eu tenho tido a sorte de os não conhecer. A verdade é que o sistema está viciado e há sempre novas oportunidades que abrem o caminho ao facilitismo.
O Francisco retoma um aspecto importantíssimo ao referir s leituras que fez durante a sua infância, que é o da não compartimentação das Literatura (embora existam as especificidades da LTPI) e o conceito de apropriação. La Fontaine e os outros não escreviam para crianças. Mas as crainças não são seres estúpidos que as devam trancar num mundo infantil (daí a minha recusa do adjectivo infantil para classificar a LTPI)...

Papillon, inscrevo-me no seu clube humanista. Parece-me bem mais amplo e generoso que o romântico proposto pelo F. ;-)

E junto-me à manada, mas em curral diferente. Sou carneiro.
De todos aqui do grupinho, só não sei a idade do Francisco. Vai em quantos, F? Eu já conto 32 :(

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Denise

Concordo consigo quanto ao problema da educação... :(

A leitura orientada não é sinónimo de impor uma chave hermenêutica padrão, mas fornecer previamente os horizontes de conhecimento necessários, aliás tarefa da educação, de modo a despertar a memória, a sacrificada pelo actual sistema educativo. De resto, a leitura deve ajudar a libertar o self e a aprofundá-lo...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Denise

Sim, a a-propriação é fundamental: tornar o "estranho" próprio. Nesse caminho encontra-se a autonomia e a emancipação. :)