terça-feira, 10 de julho de 2012

Prós e Contras: Quem somos nós?

Porto: Funicular dos Guindais
Não sabia que Prós e Contras ia debater hoje (9 de Julho) a descoberta da partícula de Higgs: vi muito rapidamente o debate, no qual participaram três "filósofos" e três físicos. A surpresa surgiu quando vi que dois dos três supostos filósofos eram homens da Igreja Católica, um (Alfredo Dinis) mais inquisitorial do que o outro (Bruno Nobre). Restou apenas uma professora de "filosofia da ciência" que dá por nome Olga Pombo, a qual não soube estar à altura da filosofia, até porque muitas das questões que colocou já têm uma explicação consensual. Com estes falsos representantes, a filosofia ficou sem direito à palavra neste debate moderado por Fátima Campos Ferreira, embora Alfredo Dinis tenha exibido a arrogância de falar em nome da filosofia que identifica com a metafísica. Por momentos, voltámos à Idade Média, como se os homens religiosos tivessem o direito de ditar as regras do jogo científico. Alfredo Dinis exibiu um livro de um físico americano que dispensa Deus para explicar a ordem do mundo. Pelo que disse sobre o livro, vi logo que ele não o tinha lido ou, se o leu, não o compreendeu: Alfredo Dinis é daquele tipo de homens anti-democráticos e maldosos que resolvem tudo dizendo que foi Deus que criou o mundo a partir do nada. E o que é pior: sem corar de vergonha. (Defendeu uma noção de nada que atribuiu à filosofia, como se todas as filosofias partilhassem essa mesma identidade nada = vazio. O falso filósofo desconhece as noções de nada em Heidegger, Sartre e Althusser. O nada em física tem um sentido muito peculiar: o nada de Deus criador, por exemplo. Vazio é uma outra noção. Pascal, filósofo cristão, sabia distinguir entre estas duas noções.) A questão de Deus já não constitui nenhum enigma, sobretudo depois da descoberta científica da electricidade que, ao iluminar a noite, dissipou o medo: o Deus dos monoteísmos não corresponde a nada, ou melhor, é um nada ideológico usado para garantir a dominação do homem pelo homem. A ciência tem uma vantagem em relação à religião: ela pode explicar os comportamentos e as crenças religiosas, sem ser por sua vez explicada pela religião. A religião não explica nada: a teologia é aquela forma bizarra de conhecimento que tem por objecto o nada, ou seja, não tem objecto. Se no imenso universo, incluindo a matéria e a energia escuras, há alguma coisa que mereça o nome de Deus, essa coisa não tem nada a ver com a concepção que estes homens obscuros têm de Deus. Explicar algum acontecimento através de Deus equivale a não explicar absolutamente nada: o Deus dos monoteísmos não explica nada. É por isso que as Igrejas Cristãs foram obrigadas - após longos períodos de lutas e de guerras sangrentas - a capitular perante a filosofia e a ciência, refugiando-se na esfera do simbólico, a esfera do nada de conhecimento. Se Olga Pombo conhecesse a obra de Max Weber, pelo menos, teria evitado improvisar - de forma extremamente leviana e voluntarista-opinativa - sobre a relação entre a religião e a ciência. É deveras estranho que uma "filósofa" (sic) desconheça o nascimento da filosofia na cidade-Estado grega e a luta que travou contra a tradição dogmática. Respeitar as crenças religiosas de pessoas que precisam de ter fé para viver é uma coisa, aceitá-las como parceiros de diálogo em matéria de ciência e de filosofia é outra: a sua fé não traz mais-valia ontológica ao nosso mundo; pelo contrário, privam-no da diferença e da liberdade. Não há à face da Terra nenhum país religioso que tenha avançado para formas mais democráticas de convívio humano ou mesmo de bem-estar material: o monoteísmo é, por essência, totalitário. Ele só permite a diferença lá onde o Estado se afastou da Igreja ou da religião, fazendo delas assuntos privados: o catolicismo entregue a si mesmo é tão talibã quanto o islão. Não há diferença qualitativa entre os três monoteísmos que, ao longo da história, têm levado os homens a derramar sangue, em nome de um nada ideológico que, afinal, é o bezerro de ouro das classes dominantes.

Compreendo a cautela exibida pelos três físicos - João Varela (CERN), Gaspar Barreiro e Carlos Fiolhais - quando falaram sobre o possível impacto da descoberta da partícula de Higgs sobre a física, mas o respeito pelas práticas e crenças religiosas tem limites: a hegemonia das trevas é uma ameaça presente no mundo contemporâneo. A comunidade científica deve estar sempre atenta e pronta a lutar contra os nadas ideológicos das religiões. (Gaspar Barreiro e Carlos Fiolhais lembraram a terrível hegemonia da religião durante a Idade Média!) Não há diálogo possível com a religião. No passado, temendo pela sua vida, os filósofos foram obrigados a "dialogar" com os "queimadores de corpos", mas esse diálogo visava minar por dentro a própria estrutura do pensamento cristão. Ao abraçar a filosofia grega, o cristianismo preparou a sua própria morte: a filosofia nunca foi escrava da teologia. As controvérsias teológicas referidas por Alfredo Dinis tinham um sentido: liquidar subtilmente os nadas teológicos. Ernst Bloch escreveu uma história do materialismo que lança luz sobre o processo de metamorfose subversiva das noções teológicas operado pelos grandes filósofos no seio da própria teologia: o Deus dos filósofos não é susceptível de ser adorado; ele é um conceito-limite que permite pensar a finitude radical do homem. No ocidente, o vector que orientou o pensamento filosófico foi o da expulsão de Deus, desse nada ideológico que não explica absolutamente nada. É com essa grande tradição materialista que a ciência se identifica: a função "política" do materialismo aleatório é impedir a exploração ideológica da ciência, em termos que não são os seus. O fosso entre ciência e religião é intransponível: um cientista que professe uma crença religiosa é uma consciência dilacerada e, profundamente, infeliz, porque lá no fundo da sua consciência ele sabe que o Deus dos monoteísmos é um nada ideológico. A luta contra a religião foi filosófica muito antes de ser também científica. Se a filosofia herdou alguma coisa do cristianismo, essa coisa é a exclusividade: a aliança filosofia-ciência não tolera a presença de um possível rival. Em Portugal, sabemos que esse rival adiou o desenvolvimento do país: o catolicismo predomina lá onde não houve verdadeiro desenvolvimento cultural e económico. Os três físicos presentes no debate mostraram saber isso e muito mais, embora pudessem ter ido mais longe e defender aquilo a que chamo a indiferença teológica como procedimento da ciência. Depois da filosofia e de outras ciências - incluindo a sociobiologia - terem elaborado uma teoria da religião, perspectivada no contexto da estrutura global da sociedade e da sua história, não há mais nada a dizer sobre Deus. Deus evaporou-se no seu próprio nada: a filosofia e a ciência não precisam dele para explicar a ordem do mundo. A presença religiosa distorceu sistematicamente o debate e a "filósofa" nem sequer foi capaz de colocar as perguntas correctas: a descoberta do bosão de Higgs, o qual dá massa às partículas, valida os modelos teóricos existentes das partículas, em especial o modelo-padrão que previu em 1964 a sua existência. A questão que este debate deixou em suspenso é a de saber se esta descoberta poderá vir a desencadear uma mudança de paradigmas. Desconhecemos 96% da matéria que constitui o universo: a matéria escura e a energia escura. O bosão-campo de Higgs poderá abrir uma janela para desvendar esse universo escuro

Anexo: Alguns amigos têm criticado a escassez de informação sobre a partícula de Higgs. É verdade que não tem sido dada a informação suficiente sobre essa partícula, mas não me cabe a mim realizar o seu historial, pelo menos neste comentário. Apesar do seu formalismo matemático, a mecânica quântica é, com algum esforço, acessível. Há obras de divulgação científica que clarificam, em termos simples, a sua estrutura teórica. Steven Weinberg dedicou algumas páginas da sua obra a "descrever" a partícula de Higgs. A minha preocupação - aqui e nos textos anteriores - é outra... e confesso que não tenho paciência para as ordinarices portuguesas. Estou cada vez mais convencido de que os portugueses são efectivamente burros malvados: a nova ideologia nacional dos diplomados e dos génios que não se revelam é uma praga que conduz o país ao colapso total. A teoria do nada ideológico que esbocei aqui não foi compreendida por alguns destes "génios" com cérebro do tamanho de uma pevide. Mas ela não foi elaborada para ser compreendida por cérebros deprimidos: o meu público-alvo é outro. O reconhecimento ocorre entre pares e não entre pessoas afastadas umas das outras pelo abismo intransponível. Há apenas uma ideia que, embora implícita, requer um esclarecimento: os nadas ideológicos produzem efeitos reais - isto é, materiais - nas práticas sociais e nas instituições em que se inscrevem. Afinal, o que adianta dialogar com um burreco que, mesmo na presença da filosofia, não a reconhece? Um burreco deste calibre devia ter vergonha na cara e lançar-se ao rio Tejo! Imagine-se este cenário catastrófico: um estranho vírus elimina toda a humanidade, poupando apenas a vida de um desses génios ocultos portugueses. Um génio cósmico isola-o da civilização material, algures numa nave espacial, e atribui-lhe a missão de refazer a cultura científica e filosófica da humanidade, a partir daquilo que assimilou enquanto teve acesso aos seus arquivos. Conseguem imaginar as patetices que esse génio ultra-diplomado na escola portuguesa da mentira iria dizer e escrever? Furioso com a estupidez brutal do português, o génio cósmico condenou-o ao suplício eterno.

J Francisco Saraiva de Sousa

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Física e Filosofia

Porto: Ponte do Freixo
«O século que agora se aproxima do fim viu na física uma expansão fantástica das fronteiras do conhecimento científico. As teorias da relatividade restrita e geral de Einstein modificaram para sempre a nossa visão do espaço, tempo e gravitação. Numa cisão ainda mais radical com o passado, a mecânica quântica transformou a própria linguagem que utilizamos para descrevermos a Natureza: em vez de partículas com posições e velocidades definidas, aprendemos a falar de funções de onda e probabilidades. Da fusão da relatividade com a mecânica quântica surgiu uma nova visão do mundo, na qual a matéria perdeu o seu papel central. Este papel foi usurpado por princípios de simetria, alguns deles invisíveis no estado actual do universo. Sobre estes fundamentos construímos uma teoria bem sucedida do electromagnetismo e das interacções nucleares fraca e forte entre partículas elementares. Muitas vezes sentimo-nos como Siegfried, que, depois de ter provado o sangue do dragão, descobriu, para sua surpresa, que entendia a linguagem dos pássaros». (Steven Weinberg)

Ontem, a propósito da descoberta da partícula de Higgs, fui levado a reviver os meus tempos de estudante universitário quando estudava física no curso de medicina. Antes disso já tinha realizado um estudo sobre cosmologia intitulado A Vertigem de Empédocles. Tenho muitas obras de física, incluindo os manuais que utilizei para a estudar. Felizmente, como não sou "político profissional", não tive as facilidades de que estas criaturas das trevas desfrutam para obter pseudo-diplomas, ao abrigo dessa terrível burla que é o processo de Bolonha. Embora não me sentisse especialmente atraído pelo programa demasiado extenso de física, tive de a estudar, aprofundando mais a física atómica do que a mecânica, o calor, a acústica, a electricidade, o magnetismo e a óptica. A mecânica quântica atraia-me mais do que os modelos mecânicos clássicos utilizados na fisiologia. O formalismo matemático da mecânica quântica assusta qualquer mortal e, como não estudei numa universidade particular, a Universidade Lusófona por exemplo, permeável aos jogos corruptos do poder estabelecido depois do 25 de Abril, não tive outra saída a não ser mergulhar de cabeça nesse formalismo matemático. O meu professor de física "massacrou" os meus neurónios com a equação de Schrödinger durante todo o ano lectivo. Confesso que a meio do ano já não suportava ouvir o nome de Schrödinger, que também invadiu as aulas de fisiologia e de biologia molecular. Sempre fui um aluno "massacrado" pelos professores: na física era "massacrado" com a função de onda, na fisiologia e biologia molecular com a natureza e origem da vida, e até na anatomia do sistema nervoso com as experiências do cérebro dividido. Utilizei o termo "massacrado" entre aspas porque, na verdade, o conhecimento não me massacra; pelo contrário, alimenta-me. Este "massacre" mostra até que ponto os cientistas precisam da filosofia: eu era convocado nas aulas e nos gabinetes para pensar as implicações filosóficas das grandes descobertas científicas. Infelizmente, na altura, dominava mais a parte científica do que a parte filosófica dessas descobertas científicas. A minha posição tomada nesse período pode ser resumida deste modo: precisamos de avançar mais no terreno científico antes de tentar solucionar problemas filosóficos. De certo modo, esta é a minha filosofia espontânea de cientista: primeiro, fazer ciência de boa qualidade e, depois, elaborar a filosofia mais adequada a essa ciência. (Doravante, ser "político profissional" significa ser burro diplomado: a experiência profissional que lhes dá - aos políticos profissionais - um diploma é, ela própria, uma fraude!)

Althusser defendeu a seguinte tese: as revoluções científicas - entendidas como rupturas epistemológicas - tendem a preceder as revoluções filosóficas. Esta tese não se aplica ao caso de Marx: a revolução filosófica ocorreu antes da abertura do continente-História à ciência. A tese de Althusser é demasiado complexa para ser aqui discutida em pormenor: o que interessa destacar é que, para Althusser, não podemos falar de rupturas na filosofia, porque nela «nada é radicalmente novo» e «nada é definitivamente resolvido». Em filosofia nada é radicalmente novo porque teorias antigas, retomadas e deslocadas, sobrevivem e revivem numa filosofia nova. Em filosofia nada é definitivamente resolvido porque há sempre o vaivém das tendências antagonistas, as viragens imprevistas, e as mais antigas filosofias estão sempre prontas a voltar ao assalto, disfarçadas sob formas novas, até mesmo sob formas mais revolucionárias. Ora, isso acontece porque a filosofia é, em última análise, luta de classes na teoria. Esta formulação da filosofia choca os ouvidos dos filósofos, mas ela constitui a realidade da filosofia. O que torna a filosofia tão difícil à compreensão dos físicos é precisamente o facto dela ser luta de classes na teoria. Ou por outras palavras: os físicos ainda são demasiado platónicos para compreender que a filosofia não tem idade, na medida em que as suas revoluções estão sempre expostas a ataques, a recuos e retrocessos, e até ao risco da contra-revolução, como sucedeu nas últimas décadas com o triunfo do neoliberalismo sobre o marxismo. A ciência é, actualmente, alvo do ataque de certas filosofias irracionais que parecem derivar de Marx. Convém dizer claramente que Marx nunca definiu a ciência como ideologia. A teoria da ideologia de Marx, ela própria uma descoberta científica, é genial. Quando generalizam o sentido da ideologia, fazendo dela um fenómeno ubíquo, os filósofos da desconstrução aniquiladora têm um único alvo a abater: a própria teoria da ideologia de Marx e a sua defesa da ciência. Mas nós sabemos, pelo menos depois da crise financeira de 2007, que a crítica da ciência é, ela própria, ideológica: as filosofias que criticam a ciência estão contaminadas pela ideologia mais reaccionária produzida pela classe dominante. Os físicos sabem que precisam da ajuda dos filósofos esclarecidos para evitar os erros destes filósofos da desconstrução. A grande linha de demarcação não é tanto entre ciência e metafísica mas entre ciência e ideologia. Esta é a função primordial da filosofia: traçar linhas de demarcação entre o científico e o ideológico. Desgraçadamente, devido à indigência cognitiva predominante, os filósofos não desenvolveram a teoria da ideologia de Marx: a filosofia está condenada a aperfeiçoar essa teoria enquanto intervém na prática científica, no seio da qual ela representa a política. A tese de Althusser permite-me defender outra tese: a mecânica quântica exige uma nova filosofia ou, por outras palavras, a revolução científica em curso só estará concluída quando der origem a uma imensa revolução filosófica. Os físicos estão convencidos de que a epistemologia é a única plataforma que lhes permite estabelecer um diálogo produtivo com os filósofos: eles ainda não compreenderam que a epistemologia sofreu o impacto poderoso da teoria da ideologia de Marx, embora já tenham entendido que a "sociologia" é tão ou mais importante do que a "psicologia". A análise da lição inaugural de Jacques Monod permitiu-me avançar com um modelo crítico. Pretendo agora aperfeiçoá-lo com a análise crítica das obras revolucionárias dos físicos. O facto de já ter estudado a teoria do Big Bang inclina-me a escolher a obra de Steven Weinberg: o objectivo da intervenção filosófica no domínio da física é, em última análise, elaborar uma Filosofia da Natureza. Já existem muitas teorias da realidade propostas pelos próprios físicos, uma das quais é a teoria da ordem implicada de David Bohm. Depois de um longo divórcio, a física regressa ao seio da própria filosofia. Aliás, é muito difícil distinguir entre física teórica e filosofia. Filosofia e Física não são, portanto, duas disciplinas avessas uma à outra: ambas são actividades teóricas que visam acrescentar ao mundo as suas determinações de conhecimento. Da sua cooperação resultará uma nova filosofia da natureza e do próprio conhecimento. 

J Francisco Saraiva de Sousa

quinta-feira, 5 de julho de 2012

A Descoberta da Partícula de Higgs


Peter Higgs no CERN
(4 de Julho de 2012)
Reproduzo aqui a entrevista que Carlos Fiolhais concedeu ontem ao Jornal de Notícias. Eis a entrevista:

JN: Que importância tem esta descoberta para a Ciência?

Carlos Fiolhais: A descoberta da partícula de Higgs, anunciado hoje no CERN com algumas cautelas ("uma nova partícula compatível com a partícula de Higgs") é o coroar dos esforços de muitos físicos de todo o mundo. Hoje é um grande dia para a ciência, já que foi dado mais um passo no grande esforço humano de descobrir o mundo. O acelerador do CERN, a maior máquina jamais construída pelo ser humano para realizar uma experiência científica, revelou aparentemente a partícula que se procurava e que é necessária para compreender a física das partículas. Não é a primeira vez que no CERN se descobrem novas partículas confirmando previsões teóricas, mas, no caso presente, a busca tem sido particularmente difícil, dada a enormidade e a complexidade da tarefa. A física teórica avança, de forma imaginativa (em ciência, já Einstein dizia, a imaginação é mais importante do que o conhecimento), descrições do mundo, mas só a experiência pode confirmar essas descrições. A descoberta mostra o poder da física teórica, quer dizer do cérebro humano, para compreender o mundo. Ao contrário de outros casos, desta vez a teoria não previa a massa da nova partícula, pelo que houve que a procurar num grande domínio de energia (equivalente a massa, segundo a célebre fórmula de Einstein), como quem procura uma agulha num palheiro. 

Em colisões a altas energias forma-se o Higgs mas este decai logo a seguir decai. Observam-se em grandes detectores os resultados desse decaimento, que são uma espécie de assinatura do Higgs. Tudo leva a crer que a partícula está lá a 125 Gigaelectrõesvolt, uma massa muito grande para uma partícula elementar, equivalente a um átomo de bário que tem 56 protões e 81 neutrões (ambos feitos de quarks), para já não falar dos 56 electrões, que são muito leves em comparação com os protões e neutrões. Porque é que o Higgs é importante? Essa partícula é afinal a responsável pelas diferentes massas de todas as partículas elementares. Sem ela não existiriam os quarks, os electrões e os neutrinos, tal como os vemos, partículas elementares de diferente massa, que formam os átomos e, portanto, toda a matéria conhecida.

JN: Se esta era a última peça para explicar a origem do Universo, o que sabemos agora sobre a génese do Cosmos?

CF: Não era a última peça, há mais peças que faltam. A física tem muitas peças por encaixar (felizmente, significa trabalho para os físicos, que assim não ficam desempregados!). Aliás em ciência quando se responde a uma pergunta (neste caso: existe o Higgs, responsável pela massa de todas as partículas?) surgem logo várias outras perguntas. Falta agora provar inequivocamente que é o Higgs determinando as suas propriedades. Mal comparado, é como se tivéssemos um suspeito e tivéssemos agora que o interrogar: "Quem é o senhor? O que faz? O senhor é o responsável pela massa das partículas"? Se for mesmo o que se procura, isso será bom para o chamado modelo padrão das partículas, mas não mata a nossa curiosidade. A verdade é que muitos físicos acham esse modelo largamente insatisfatório. Como o conceito de simetria está por trás do modelo e há alguns problemas conceptuais, muitos físicos estão desejosos por ver esse modelo falhar, para se lançarem em alternativas "mais elegantes". Sobre a génese do Cosmos: sim, o nosso conhecimento das partículas elementares e das forças fundamentais exercidas entre elas ilumina o nosso conhecimento do cosmos, pois, segundo a teoria do Big Bang, no início era a energia e só depois apareceram as partículas - quarks, electrões e neutrinos, e só mais tarde estas se agruparam (os quarks em protões e neutrões, os protões e neutrões em núcleos atómicos e os núcleos com os electrões para formar átomos). Mas persistem grandes interrogações a respeito do início do mundo. Sabemos que houve um início e sabemos que houve uma expansão com organização progressiva da matéria. Mas não sabemos, por exemplo, o que há além da matéria e energia que conhecemos: há fortes indícios de haver matéria escura e energia escura no Cosmos, que, como o próprio nome indica, nos são, por enquanto desconhecidas. E essa matéria e energia escuras devem formar a maior parte do Cosmos. Talvez o Higgs nos forneça uma pista... 

JN: O que existia antes dela? Quem criou a partícula de Higgs?

CF: Energia é equivalente a matéria. Nos instantes primordiais, há cerca de 13 700 milhões de anos, só havia energia no espaço e no tempo. Energia significa forças. Os físicos acreditam, tal como Einstein, na unificação total das forças. Mesmo no início, só devia haver uma força, que se desdobrou noutras. Só depois apareceram as partículas elementares, criadas à custa da energia e dotadas de massa. Não faz sentido dizer o que existia antes do Big Bang, pois ele é o início do espaço e do tempo. Antes do tempo não há tempo. Para sermos rigorosos: a pergunta do "antes do Big Bang" não pode ser respondida pelos físicos ou, se responderem, só podem, para serem honestos, dizer que não sabem. Dizer que "Alguém" criou as partículas é uma visão religiosa, que não tem lugar em ciência. 

JN: A designação partícula de Deus faz sentido?

CF: Não faz. O nome foi avançado por um físico laureado com o Nobel norte-americano, Leon Lederman, que deu esse título a um dos seus livros. Ele próprio brincou com o título... Esse nome pode ter muito poder mediático, mas não faz qualquer sentido do ponto de vista científico. Os físicos são humanos e, como conhecem bem os humanos, recorrem a esse tipo de truques para chamar a atenção. É, por assim dizer, invocar o "santo nome de Deus" em vão!  

JN: Esta descoberta é uma aproximação entre a Física e a Metafísica, entre a Ciência e Religião? Ou esta dicotomia não faz sentido?

CF: Não é uma aproximação entre Física e Metafísica e muito menos entre ciência e religião. Essas dicotomias fazem sentido. Uma coisa é a física, outra é a metafísica. Uma coisa é a ciência e outra é a religião. Pode-se ser cientista e ter fé em Deus. Ou pode-se ser cientista e não ter. A ciência nem aproxima nem afasta de Deus, conforme tentei recentemente explicar num diálogo com o Bispo de Coimbra na Biblioteca Joanina. As duas actividades humanas  podem coexistir pacificamente. É curioso que um dos autores da teoria do Big Bang tenha sido um sacerdote católico, o belga Georges Lemaître. Foi ele que declarou: "Num certo sentido, o cientista prescinde da sua fé no seu trabalho, não porque essa fé pudesse entorpecer a sua investigação, mas sim porque não tem a ver directamente com a sua actividade científica."

Anexo: Hoje estou demasiado preguiçoso para me entregar a uma reflexão filosófica em torno do bosão de Higgs. Steven Weinberg defendeu a tese de que a filosofia não tem utilidade para a física, excepto os trabalhos de alguns filósofos que ajudam os físicos a evitar os erros de outros filósofos. Esta tese não merece grande credibilidade, até porque os exemplos dados para lhe dar forma apontam na direcção contrária à pretendida: a importância da filosofia para a elaboração das teorias da física. No entanto, a sua formulação só é possível porque tem havido um divórcio entre filosofia e ciência, pelo menos fora do mundo anglo-saxónico. O distanciamento dos filósofos em relação à revolução científica ainda-não-concluída protagonizada pela física empobrece a própria filosofia. A filosofia não pode abdicar da Filosofia da Natureza: a comunidade dos físicos tem produzido muitas obras sobre as suas descobertas, nas quais fazem filosofia espontânea de cientistas. Cabe aos filósofos criticar essa filosofia espontânea e elaborar a filosofia adequada à física unificada. A filosofia não é um género literário: os cientistas precisam da filosofia para se orientarem no mundo social. Devemos expulsar os literatos do campo filosófico e reactivar a grande tradição ocidental. Nesta entrevista, Carlos Fiolhais faz filosofia, sobretudo quando refere as "dicotomias" ciência-metafísica - oriunda do neopositivismo lógico que marcou Heisenberg, por exemplo - e ciência-religião. Estas dicotomias implicam uma determinada visão da evolução das ideias: o conhecimento científico deveria já ter eliminado o conhecimento teológico e o conhecimento metafísico. Mas a verdade - como ele próprio o reconhece - é que estas formas mais antigas de conhecimento persistem. O facto do bosão de Higgs ter sido chamado de partícula de Deus mostra que a física ainda não superou o modelo teológico da criação: ainda há teologia no seio das grandes teorias da física. A revolução científica só estará concluída quando for completada por uma revolução filosófica: a colaboração entre físicos e filósofos é fundamental para consumar a revolução em curso. Até lá devemos ser cautelosos com aquilo que dizemos: a matéria escura do universo ainda nos é estranha.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Reviravolta da Filosofia do Mal

Sé-Catedral do Porto
«No sentido rigoroso do termo, o mal moral - o pecado na linguagem religiosa - designa o que torna a acção humana objecto de imputação, de acusação e de repreensão. A imputação consiste em consignar a um sujeito responsável uma acção susceptível de apreciação moral. A acusação caracteriza a própria acção como violação do código ético dominante na comunidade considerada. A repreensão designa o juízo de condenação, em virtude do qual o autor da acção é considerado culpado e merece ser punido. É aqui que o mal moral interfere no sofrimento, na medida em que a punição é um sofrimento infligido». (Paul Ricoeur)

O Holocausto tem alimentado a reflexão filosófica em torno do problema do mal. Porém, dada a sua singularidade, o Holocausto não constitui o terreno propício a partir do qual se pode elaborar uma filosofia do mal. A vacilação de Hannah Arendt entre o mal radical e a banalidade do mal mostra precisamente os limites da utilização do holocausto como modelo para pensar o mal. O mal deve ser estudado lá onde ele se manifesta em toda a sua visibilidade. Como se sabe, o terramoto de Lisboa inspirou a teodiceia (Leibniz, Voltaire). Hoje, nós compreendemos o sentido desta inspiração: Portugal é, por excelência, a terra da maldade humana. A imbecilidade dos portugueses foi pensada por ilustres pensadores que tiveram o azar de nascer em Portugal, dos quais destaco Guerra Junqueiro e Teixeira de Pascoaes. Conhecemos bem a associação existente entre imbecilidade e malvadez. O terramoto de Lisboa não teve o mesmo impacto destrutivo em todas as regiões de Portugal: o seu maior impacto destrutivo fez-se sentir no Sul de Portugal, exibindo todo o seu poder destrutivo em Lisboa. Os efeitos destrutivos do terramoto fizeram-se sentir na direcção sul-norte, com o norte a ser menos atingido do que o sul. A gradação dos efeitos destrutivos do terramoto de Lisboa permite esboçar uma geografia da maldade portuguesa: o sul de Portugal é mais malvado do que o norte. A primeira tentativa planeada de exterminar os judeus foi levada a cabo em Lisboa. A Inquisição portuguesa implantou-se mais no sul do que no norte de Portugal: as populações portuenses exibiram resistência contra a inquisição. E a PIDE foi um fenómeno especificamente lisboeta. O sul de Portugal concentra terríveis forças malévolas que não deixam o país progredir e construir uma história da liberdade. Não estou a defender as populações do norte de Portugal, até porque, para mim, os portugueses são todos malvados. As ex-colónias portuguesas devem abandonar rapidamente o espaço da lusofonia: importar portugueses é importar imbecilidade malvada. Nenhuma filosofia do mal possui uma grelha conceptual capaz de explicar a maldade demoníaca dos portugueses: a fenomenologia da experiência do mal proposta por Ricoeur não se aplica a Portugal, porque, nessa terra demoníaca, a maldade é protegida pela "lei". Em Portugal, a acção humana que gera o mal não é objecto de imputação, acusação e punição: aquele que comete o mal triunfa sobre aquele que sofre o mal. Os portugueses carecem de um código ético e, talvez por isso, não conseguem discriminar entre uma conduta boa e uma conduta má. Encarnações da potência demoníaca, os portugueses são, por natureza, catalisadores e promotores do mal e, por isso, devem ser severamente punidos pela comunidade internacional. 

A história de Portugal é a história do mal e, como tal, constitui o modelo adequado para elaborar uma filosofia do mal. A imoralidade demoníaca dos portugueses evidencia-se no facto destas criaturas do mal condenarem automaticamente a validade do discurso moral. Os portugueses fogem da ética e do pensamento como o Diabo foge da Cruz. O filme O Exorcista podia ter sido realizado em Portugal, tendo como cenário de fundo paisagens do sul. Estou convencido de que, se salpicarmos os portugueses com água benta, eles reagem como a personagem possuída pelo Demónio reagiu nesse filme: os portugueses são efectivamente criaturas malévolas que espalham a maldade impune pelas redes sociais. Até as novas tecnologias da informação e da comunicação os portugueses utilizam para cometer o mal e alastrá-lo pelo espaço virtual. A imbecilidade portuguesa que não suporta a diferença qualitativa é genética: o genoma português deve conter genes demoníacos - ou arcaicos - responsáveis por tanta malvadez. Os americanos conhecem bem a malvadez dos portugueses. Em termos gerais, os homens heterossexuais são mais agressivos do que os homens homossexuais. Mas em Portugal a malvadez também é um atributo dos homens homossexuais, dois dos quais a exibiram no Hotel Intercontinental em New York: um jovem gay português assassinou e mutilou barbaramente o seu "namorado" mais idoso, estando actualmente preso numa cadeia americana. Fugiu do Hotel antes de ser seduzido pela ideia macabra de grelhar os testículos da vítima e de os devorar. Os turistas estrangeiros não desfrutam de segurança nas praias do sul de Portugal, territórios de roubos, de sexo perigoso e de violência. O mal tem raízes biológicas e genéticas: a debilidade das filosofias contemporâneas do mal reside no facto de não terem levado em conta os conhecimentos biológicos sobre a agressividade humana. A secularização do pecado não é suficiente para formular uma filosofia do mal: o quadro teológico deve ceder o seu lugar ao quadro biológico. Esta mudança de quadro de referência permite pensar o mal de um modo mais coerente e sistemático e, acima de tudo, liberto das aporias da problemática tradicional. Como tenho defendido nos últimos textos, o nexo que define a filosofia é a sua relação com a ciência: uma teoria filosófica do mal deve ter como fundamento a biologia da agressividade humana. E, para distinguir entre agressão benigna e agressão maligna, deve tomar como objecto de estudo a sociedade destrutiva dos portugueses malignos. Portugal é, ao longo da sua história, um laboratório de maldade maligna. Se quiserem conservar uma moldura teológica para o problema do mal, então serão obrigados pela força da argumentação lógica a considerar os portugueses como figuras diabólicas que devem ser punidos pela comunidade internacional. Doravante, a luta contra o mal passa pela punição dos portugueses malignos que forjaram instituições que perpetuam a maldade. Esta raça maldita não inventou nada de novo que tenha contribuído para a libertação da humanidade: lá onde os portugueses malignos se instalam a luz é eclipsada. O povo português é um povo sem qualidades. Duas palavras são suficientes para definir a sua natureza: inteligência reduzida e malvadez, dois traços que permitem compreender todos os outros atributos que definem este grupo de malvados malignos. Com a ridícula ideia de Quinto Império, os portugueses malvados e loucos sonham com o seu domínio maligno do mundo: um povo medíocre, pobre e estúpido - um povo feio e sujo que não sabe produzir um pensamento - a sonhar com a dominação mundial, ideia patológica digna de figurar num tratado de Psiquiatria. D. Afonso Henriques matou - simbólica ou realmente a mãe, tanto faz! - para se apoderar da teta produtora de leite: o Quinto Império mais não é do que uma reminiscência desse crime que fundou Portugal, mamar o leite produzido pelos outros. (O mal já foi definido como carência de ser. Não concordo com as implicações filosóficas de um tal conceito teológico, mas sou tentado a definir os portugueses malvados como criaturas deficitárias de ser. O predomínio da oralidade na sua vida sexual justifica uma tal definição. Tal como o ilhéu das ilhas Trobiand, o português malvado - o "carlitos-pá" de "jesus" sem Cristo, o Anti-Cristo, logo o Diabo em pessoa! - absorve o sémen do seu parceiro sexual como se estivesse a incorporar a sua virilidade ou a sua essência identitária. O português malvado carece de vida psicológica e, por isso, comporta-se como um zombi.) 

Chessman & Francisco Saraiva de Sousa

terça-feira, 3 de julho de 2012

Encerramento para o público português

Francisco Saraiva de Sousa

Vou encerrar a minha actividade na blogosfera por tempo indeterminado. Estou em viagem... em busca das minhas origens. Portugal é uma terra de loucos primitivos e maldosos. Já não suportava lidar com estes tubos digestivos ambulantes. Tenho muito nojo dos portugueses. A sua presença contamina o ar que respiro. É impossível encontrar a serenidade entre estes seres esquecidos por Deus. Portugal é um país maldito que irá arrepender-se de ter nascido: a existência de portugueses é um atentado contra a humanidade dos verdadeiros homens. Só seremos livres quando apagarmos Portugal do mapa do mundo. Lutar contra esta maldição personificada neste povo zombi: eis o sentido da vida. Ou melhor: não precisamos de lutar porque o governo necrófilo de Passos Coelho já está a fazer esse trabalho sujo que é matar os portugueses através de políticas de empobrecimento. Vai chegar o dia em que os portugueses terão de se matar uns aos outros para saciar a fome ou de devorar as carnes putrefactas dos moribundos que morrem nos hospitais sem assistência médica adequada. Só precisamos de ligar a TV para assistir à destruição planeada de um país que não merece existir. O nome de Portugal será esquecido, ficando apenas uma lenda difundida por um filme de terror: Zombis contra Zombis. Uma voz de outro mundo dirá em silêncio: Malditos Portugueses! Até depois de mortos os portugueses continuarão a ser amaldiçoados!

Quanto às pessoas que frequentaram assiduamente este blogue, deixo-lhes um conselho: cada pessoa deve descobrir o seu próprio rumo na vida num diálogo não-ilusório consigo própria, e esse rumo não está aqui na Internet. Eu sempre fui um anti-modelo: tudo o que faço faço-o para aperfeiçoar a minha mente. Nunca procurei ser seguido: a minha caminhada é profundamente solitária. Eu só aprecio a minha própria companhia. Sempre vivi nas imediações do abismo, o meu próprio elemento. Nem todos conseguem viver no abismo: os nossos rumos são diferentes, eu mergulho cada vez mais no fundo do abismo, os outros preferem viver na mentira. Eu sou o filósofo da funda meia-noite: anuncio o fim do mundo e não uma nova aurora. Este pensamento pertence ao meu próprio núcleo existencial: sou a própria meia-noite. Quando iniciei esta actividade na blogosfera, tinha a intenção de sistematizar as categorias da filosofia da funda meia-noite, mas depressa compreendi que não tinha uma audiência à altura. A filosofia da funda meia-noite foi exposta de modo encoberto: cobri-a com o manto da minha própria noite. Não adianta procurar destapar a noite porque nunca encontrareis luz. A filosofia da funda meia-noite é, toda ela, nocturna.

Chessman & Francisco Saraiva de Sousa 

segunda-feira, 2 de julho de 2012

A Ditadura da Estupidez

A Europa e o mundo ocidental perderam o juízo. Há muitas formas de totalitarismo e uma delas é a perda do bom-senso. A democracia ocidental produziu nas últimas seis décadas uma sociedade inviável e, o que não deixa de ser sintomático, anti-democrática. A turba pseudo-democrática é totalitária: a ideologia nefasta dos direitos humanos produziu a ditadura da estupidez. Cada elemento da turba de cidadãos anónimos é um inquisidor. Vivemos numa sociedade inquisitorial, a pior sociedade alguma vez produzida pelos homens ao longo da sua história violenta. Platão já sabia que a democracia produz a sua própria destruição: o que ele não sabia é que a democracia banaliza o mal radical. Este é o momento oportuno para introduzir uma inflexão radical: os agentes ideais desta mudança radical devem estar para além da Direita e da Esquerda. Embora não seja um agente secreto, sou suficientemente inteligente para detectar por detrás dos sites mundiais de esquerda a presença de uma ideologia terrorista: as redes sociais são palcos de manobras obscuras, terrivelmente obscuras, algumas das quais abusam do bom nome de Karl Marx para promover o terrorismo. (E onde há x, há também y, o seu arqui-inimigo, que só se unem contra z, neste caso, a Alemanha!) As forças do bem tornaram-se impotentes perante a prepotência das forças do mal que capturaram as redes sociais. O Mal exterior e interior organizou-se para derrubar o ocidente. Se o ocidente não inflectir o seu rumo, será presa fácil das forças exteriores do mal que agem com a cumplicidade de uma população interior envelhecida, egoísta e terrivelmente inculta. Só vejo uma alternativa: a ditadura. E, quando só temos esta alternativa, já não podemos sonhar: o futuro foge do nosso controle. Eu tenho sido sincero quando digo que sou o filósofo da funda meia-noite: não há filosofia sem um público inteligente restrito. As sociedades ocidentais de hoje não são sociedades sem escola; são sociedades sem ensino e sem educação, são sociedades capturadas pela mediocridade, pela inveja e pela maldade. Infelizmente, estamos rodeados de carrascos que elegeram como inimigo a abater o pensamento independente. Uma sociedade envelhecida sem pensamento não tem futuro. O ocidente tal como o conhecemos não tem futuro. (A situação em Portugal é terrivelmente obscura. O povo português é, profundamente, estúpido, invejoso e maldoso; daí a sua incapacidade para produzir uma sociedade civilizada. Infelizmente, o 25 de Abril não produziu o efeito desejado; pelo contrário, banalizou a maldade radical do povo português. Tenho em mente uma geografia da maldade portuguesa, mas esta deixou de ser a minha luta. Portugal não é a pátria de seres inteligentes, Portugal é a pátria dos zombis anti-cognitivos e da sua brutalidade.)

J Francisco Saraiva de Sousa

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Projecto Filosofia Ecológica

Porto: Jardins do Palácio de Cristal
«O mesmo conhecimento que levou o dilema ao seu clímax, contém a solução.» (Edward O. Wilson)

Em Portugal, as pessoas que me conhecem dizem que «o Saraiva tem um temperamento difícil», o que quer dizer que eu sou muito exigente, sobretudo em matérias científicas e filosóficas. É provável que este dito seja uma espécie de censura, mas eu tomo-o como um elogio: ser exigente neste país parado no tempo é ser contra o sistema que bloqueia o seu futuro. Não há grandes dissonâncias entre o que penso e o que faço: critico o carácter nacional tanto na teoria como na prática: não suporto o jogo de fingir ser aquilo que não se é. A minha actividade teórica e prática confronta as pessoas com a sua própria mediocridade. E elas detestam ser testadas porque sabem que são fraudes diplomadas: os diplomas pouco valem quando os seus portadores não estão à sua altura. Um cientista ou um filósofo não precisam de diplomas fraudulentos para vencer na luta pelo reconhecimento: o que conta é o seu desempenho na resolução de problemas. Tinha prometido escrever um texto sobre a imagem do homem na ecologia. Porém, quando me preparava mentalmente para cumprir essa promessa, descobri que tinha ao meu dispor diversas vias de abordagem do tema. A ecologia é uma ciência extremamente complexa e os seus dispositivos teóricos não são conhecidos pelas pessoas banais que a identificam com o ecologismo e as campanhas verdes. Convém distinguir entre ecologia e ecologismo. A palavra "ecologia" foi, pela primeira vez, utilizada por E. Haeckel em 1866 para designar «a ciência que estuda as relações entre o ser vivo e o meio em que ele se encontra». De certo modo, esta definição continua a ter valor, embora os ecólogos possam diferir quanto à delimitação do campo da ecologia: Paul R. Ehrlich apresenta uma definição de ecologia muito mais ampla fazendo dela a combinação das disciplinas da chamada biologia populacional. A ecologia aparece assim como uma ciência de síntese que pode ser definida nestes termos: o estudo das condições de existência dos seres vivos e das interacções, de qualquer natureza, existentes entre esses seres vivos e o seu meio. Ou, numa única expressão: o estudo da economia da natureza (Ricklefs, 1993). O facto da maior parte dos ecólogos serem ecologistas contribui para a confusão entre a ciência da ecologia e o ecologismo. As crises do mundo contemporâneo têm causas ecológicas e, por isso, ajudam a fomentar uma consciência ecológica que está, de algum modo, na base do aparecimento da biologia da conservação. Os movimentos ecologistas que surgem por todo o mundo representam a "ecologia-forma de pensamento" e não a "ecologia = ciência do meio": o seu objectivo primordial é agir de modo a assegurar a conservação do meio e a sobrevivência da civilização. O ecologismo é, portanto, uma nova política. Nestas matérias ecológicas aconselho o estudo das obras dos ecólogos anglo-saxónicos, tais como H. G. Andrewartha & L. C. Birch (1954, 1984), J. H. Brown & A. C. Gibson (1983), C. Elton (1927), J. L. Harper (1977), G. E. Hutchinson (1978), C. J. Krebs (1978), J. R. Krebs & N. D. Davies (1978), R. H. MacArthur (1972), E. P. Odum (1971), R. E. Rickfels (1979), J. Roughgarden (1979), M. E. Soulé & B. A. Wilcox (1980), R. H. Whittaker (1975), e Paul R. Ehrlich (1986). Os autores franceses (Roger Dajoz, por exemplo) tendem a acompanhar Schröter (1896, 1902) quando dividem a ecologia em Auto-Ecologia e Sinecologia: a primeira estuda a influência dos factores externos sobre o animal ou o vegetal, enquanto a segunda estuda as comunidades naturais, de que fazem parte animais e vegetais. A Sinecologia subdivide-se, por sua vez, em dois ramos: a Demecologia que estuda o crescimento, as variações de densidade e o declínio das populações animais ou vegetais; e a Biocenótica que estuda as biocenoses, isto é, as comunidades de seres vivos que habitam uma porção da paisagem, estando adaptados às condições médias deste meio natural. Esta divisão da ecologia é artificial: a utilização dos modelos dos níveis hierárquicos de organização ecológica dispensa esta divisão. A pátria da ciência é a língua inglesa: é uma estupidez publicar traduções de obras francesas em detrimento das obras "inglesas", porque todo o conhecimento verdadeiramente produtivo está nas segundas e não nas primeiras. Ecologia e evolução formam uma aliança que possibilita o estudo aprofundado da ecologia fisiológica, da ecologia populacional, da ecologia do comportamento, da ecologia das interacções (predação, mutualismo e competição), da biogeografia, da ecologia das comunidades e da ecologia dos ecossistemas

No mundo anglo-saxónico, as universidades oferecem cursos de Filosofia Ambiental (Environmental Philosophy). Dale Jamieson (2001, 2003) coordenou o seu manual de texto mais conhecido: A Campanion to Environmental Philosophy. Como é evidente, não concordo com muitos dos contributos particulares desta obra colectiva, mas o que me levou a escrever este texto foi a necessidade de impugnar a designação dada à nova disciplina filosófica. Prefiro claramente a expressão Filosofia Ecológica ou Eco-filosofia para designar este novo campo da investigação filosófica. A ecologia substituiu o termo "natureza" por um novo conceito: a biosfera. A biosfera é a parte do globo terrestre em que vivem os animais e os vegetais. Compreende a atmosfera até uma altitude de cerca de 15 000 m, o solo (litosfera) até algumas dezenas de metros de profundidade, as águas doces e as camadas superficiais (menos de 1000 m) das águas marinhas (hidrosfera). A substituição da natureza pela biosfera implica, pelo menos no plano filosófico, uma distinção entre filosofia da natureza e filosofia ecológica. Na Enciclopédia das Ciências Filosóficas de Hegel, a filosofia da natureza compreende a mecânica, a física e a física orgânica (geologia, botânica e zoologia). Poderíamos recorrer também à filosofia da natureza dos românticos para mostrar que o âmbito objectual da filosofia da natureza é mais vasto do que o da filosofia ecológica. A filosofia da natureza integra a filosofia ambiental ou ecológica, cujo objecto de estudo é apenas a biosfera. Infelizmente, a filosofia contemporânea tende a estar mais próxima das "letras" do que das "ciências", correndo o risco de se converter num género literário. Chegou a hora de expulsar esses literatos do campo da filosofia e de reactivar a Grande Tradição: o vínculo primordial entre filosofia e ciência. Não consigo conceber um filósofo destituído de conhecimentos científicos. Em Portugal, aqueles que dizem ser "filósofos profissionais" (sic) são idiotas culturais que nem sequer conhecem a história da filosofia nas suas ligações orgânicas com a ciência e a política. Quando pretendem passar da ecologia-ciência para a ecologia-política, os ecólogos precisam da mediação filosófica que não se esgota na mediação ética: Sem filosofia não há verdadeiramente política ecológica, porque é a filosofia que representa a política na esfera da ciência. Ora, uma tal mediação filosófica é extremamente elaborada: ela implica desde logo uma ruptura entre o saber ecológico e a ciência da ecologia. O saber ecológico de um pescador ou de um índio da Amazónia, por exemplo, constitui o objecto de estudo da etno-ecologia. A ecologia humana ocupa-se do saber ecológico das comunidades humanas, mas este conhecimento em primeira-mão não é suficiente para elaborar uma teoria da ecologia. Este aspecto não tem sido compreendido pelos ecologistas que defendem o regresso às origens, isto é, às comunidades primitivas. O primitivismo de certas políticas ecológicas deve ser desmistificado pela filosofia: a luta contra o progresso não implica necessariamente um retrocesso civilizacional. É perfeitamente ridículo opor outras tradições culturais - indígenas, chinesa, indiana, budista, islâmica, etc. - à civilização ocidental, como se as primeiras tivessem o monopólio das "boas" práticas ecológicas. A civilização ocidental é a única civilização capaz de salvar a natureza. Assim, por exemplo, os eco-feminismos - estas aberrações do espírito humano! - esquecem que nunca poderiam ter germinado fora da tradição ocidental: a imagem da mulher ocidental no mundo extra-ocidental não é nada favorável às feministas. O feminismo é uma ideologia nefasta que deve ser desconstruída, até porque está a degradar os pilares fundamentais da civilização ocidental. A ética ambiental proposta pelo eco-feminismo é uma espécie de ética de cabaret. Têm sido propostas diversas éticas ambientais - meta-ética, ética normativa, sencientismo, ética da terra, ecologia profunda e eco-feminismo, das quais a mais infrutífera é, sem dúvida, a perspectiva eco-feminista, que, além de prostituir a filosofia, mistifica o ambiente, desviando a atenção dos verdadeiros problemas ecológicos. Não sou completamente avesso à tentativa de elaborar uma ética ambiental, embora saiba que ela não resolve os problemas ecológicos. O Projecto Filosofia ecológica propõe-se abrir caminho para o nascimento de uma visão teórica integrada da ecologia, capaz de orientar as práticas políticas adequadas, em defesa do controle da população, da biodiversidade e da conservação biológica.

J Francisco Saraiva de Sousa

terça-feira, 26 de junho de 2012

O Homem e as Orquídeas

Orquídea Baunilha
«Tal como o homem, a orquídea, controlando os nascimentos, espalhou-se pela Terra: mesmo nos climas mais frios, pois existe uma orquídea-das-neves. Como o homem, a orquídea é social: vive em relação com os outros. Como o homem, a orquídea sabe pôr os outros a trabalhar: a árvore que a suporta, o insecto que a fecunda, o cogumelo que a alimenta. Agora até faz trabalhar o homem, o seu antigo destruidor, que já não lhe faz guerra, mas lhe dedica amor. Não só a fecunda, mas também inventou para ela um meio açucarado em que pode germinar! E até um sistema para alimentar o bebé orquídea sem o tal cogumelo». (Jean-Marie Pelt & Jean-Pierre Cuny)

Não sei se já repararam que em Portugal não há traduções das grandes obras de botânica. Quem queira estudar botânica tem de recorrer aos originais publicados em língua inglesa. É muito difícil dedicar a vida à ciência e à filosofia num país habitado por "burros" que não sabem fazer uso cognitivo do cérebro, a não ser para danificar a vida dos outros. O povo português é, por natureza, avesso ao conhecimento. Embora sejam destituídas de cérebro, as plantas são mais "inteligentes" do que os portugueses: elas inventaram mais coisas do que os portugueses durante toda a sua história. A botânica não é uma ciência atractiva devido à sistemática: a classificação das plantas afasta sistematicamente os alunos do estudo da botânica. Mas a classificação é fundamental para compreender o mundo das plantas, porque classificar as plantas é contar a sua história evolutiva. A aventura das plantas passou do oceano cinzento ao oceano verde, das algas aos musgos, dos musgos aos fetos, para depois conceber a folha, o caule, a raiz e a semente de madeira e, finalmente, inventar a flor. A passagem do oceano para a terra firme não foi nada fácil: as algas verdes (filo Chlorophyta) representam provavelmente os ancestrais do filo Tracheophyta, que inclui todas as plantas que dominam nos nossos dias toda a terra firme. Estas plantas desenvolveram sistemas radiculares para retirar a água e os nutrientes do solo, folhas para a fotossíntese ao ar livre e um caule ou sistema vascular - xilema e floema - para o transporte da água e dos nutrientes da raiz para as folhas. Os musgos e as hepáticas do filo Bryophyta são as únicas plantas que se adaptaram à vida terrestre sem um sistema vascular, sobrevivendo pelo facto de serem pequenas e de viverem num meio húmido. São plantas terrestres avasculares, entre as quais temos as hepáticas, os antóceros e os musgos. As plantas vasculares incluem dois grupos: as plantas vasculares com e sem semente. O segundo grupo inclui as psilófitas, as microfilófitas, as artrófitas e as pterófitas, enquanto o grupo das espermatófitas inclui as angiospermas ou plantas frutíferas e as gimnospermas. Na história da evolução biológica, a orquídea é o equivalente ao homem no reino vegetal. O homem e a orquídea são, pois, as duas invenções mais recentes da natureza. O reino animal e o reino vegetal podem ser imaginados como duas montanhas fundadas no mesmo continente da vida, no topo das quais se encontram o homem e a orquídea, respectivamente, que surgiram na Terra há apenas uns milhões de anos. O facto curioso é que, tendo chegado ao cimo da evolução, o homem e as plantas partilham a mesma obsessão pelo abrigo. A orquídea não é a planta do futuro, porque, pelo menos aparentemente, já não evolui. A planta do futuro parece ser um estranho bolbo que, na selva profunda, enterra a sua flor numa carapaça hermética, como se desconfiasse do futuro. Hoje quase todos os homens desconfiam do futuro: a necessidade de construção de abrigos já não é apenas ditada pela ameaça nuclear, mas sobretudo pelo imperativo da sobrevivência. O sistema capitalista é de tal modo destrutivo no seu funcionamento que, ao destruir a natureza, coloca em perigo a continuidade da aventura biológica na Terra, incluindo a própria aventura humana. As plantas surgiram há cerca de 3 biliões de anos e passam bem sem o homem. Mas o homem que apareceu só há 5 milhões de anos não pode sobreviver sem as plantas que lhe dão o oxigénio que respira, os alimentos, os têxteis, os materiais, os perfumes, os medicamentos, as drogas e as flores. O homem é a única criatura da Terra que possui a chave do futuro, tanto do seu próprio futuro como também do futuro de toda a biosfera. A reconciliação entre o homem e a natureza implica uma mudança radical de vida, mudança esta que só pode ser realizada mediante a destruição do sistema capitalista. O maior inimigo da vida é o capitalismo: a crise ecológica é, efectivamente, a crise da economia capitalista.

Os portugueses descobriram e colonizaram o Brasil, mas - tanto quanto sei - nunca foram "caçadores de orquídeas": a insensibilidade botânica e estética dos portugueses já tem uma longa história. A sua inteligência reduzida não lhes permitiu ver que a orquídea valia fortunas enquanto era selvagem. Nas florestas tropicais, as orquídeas vão buscar sol ao cimo das mais altas ramagens, porque no sub-solo não entra nenhum raio solar. Para subir pelos troncos das árvores, as orquídeas desenvolveram lianas compridas, cujos caules se enrolam às ramagens, de modo a levá-las para mais perto do sol. Algumas instalam-se directamente nas forquilhas das árvores e aí criam raízes. No entanto, as raízes das orquídeas não chegam ao chão, para tirar daí a água e os nutrientes que precisam para sobreviver. As raízes das orquídeas estão penduradas à planta, como se fossem apêndices inúteis: a água da chuva escorre por elas e vai formar gotas na ponta, penetrando na raiz através de um tecido especial chamado véu, graças ao qual a planta tira directamente a água da chuva. A função do véu varia em função do período do ano. No tempo das chuvas, o véu funciona como uma espécie de esponja, formando um sobretudo hidrófilo à volta da raiz que lhe permite absorver a água. Mas, com a chegada do tempo mais seco, o véu desidrata-se e as células achatam-se, formando uma parede protectora que retém a água. Existem 20 000 espécies de orquídeas diferentes e, ao contrário do que se pensa, elas estão espalhadas por todos os lados, incluindo a Europa, e em todos os climas. As orquídeas das regiões temperadas - a orquídea casco-de-vénus e a orquídea-celha, por exemplo - não são tão exuberantes e belas como as orquídeas-lianas das selvas tropicais. No entanto, apesar desta diversidade, elas partilham o mesmo tipo de flor: uma flor aperfeiçoada para viver na companhia dos insectos. Como se sabe, os insectos alimentam-se do néctar fabricado pelas flores e, em troca, transportam o seu pólen. A superioridade das orquídeas em relação às outras plantas de flor reside no facto de terem inventado diversos meios para atrair o mensageiro. A floração das plantas é desencadeada por determinadas mudanças químicas sob a influência da luz, podendo envolver um mecanismo hormonal sensível ao fotoperíodo. A flor é o órgão reprodutor tanto das angiospermas como das gimnospermas. As flores das orquídeas pintam-se de modo a atrair os insectos. Quando chega perto da flor, o insecto tem de aterrar. Para o ajudar a aterrar no local certo, a orquídea desenvolveu o labelo, isto é, uma pétala balizada por tufos de pêlos, por estrias e por pontos coloridos, ao mesmo tempo que o orienta até ao néctar mediante balizas odoríferas. A baunilha é uma orquídea originária do México. Quando se tentou cultivar esta orquídea no oceano Índico, descobriu-se que ela só podia ser fecundada por um insecto mexicano, o melipone. Embora tenha sido importado para as novas terras, o insecto não se adaptou: o homem teve de inventar um método artificial de fecundação da baunilha para que a planta desse vagens. O caso da orquídea baunilha mostra que há plantas que estão em perigo pelo facto de serem demasiado especializadas: o desaparecimento do insecto melipone encurrala a orquídea baunilha, porque, sem ele, não pode reproduzir-se. A cooperação entre insecto e planta é uma das maravilhas da natureza. As orquídeas inventaram o labelo para atrair o insecto e guiá-lo na aterragem. Porém, há orquídeas que se transformaram em insecto: as sua pétalas adquirem visivelmente o aspecto do insecto. Cada uma delas atrai o seu próprio insecto, adoptando o aspecto da sua fêmea - cor, tacto, pêlos do labelo - e produzindo o seu perfume. O insecto em questão não resiste aos encantos da flor-fêmea: aterra nela e copula com ela, deixando lá os seus espermatozóides. As orquídeas não espalham o seu pólen pelo vento: ele é apresentado numa massa única e compacta que se agarra à cabeça do insecto através de uma espécie de cimento fabricado por uma glândula. Quando o insecto viaja para outra orquídea, um dispositivo inclina a massa do pólen, para que no fim da viagem caia exactamente no estigma viscoso de outra orquídea. Quando a fecundação acontece, a flor murcha e cai. A orquídea fecundada já não precisa de atrair os insectos: o pequeno ovo resultante dessa fecundação está contido numa semente minúscula. As orquídeas são plantas evolutivamente paradoxais: produzem vários milhões de sementes, as mais pequenas do mundo vegetal, cada uma das quais tem o seu próprio embrião mal formado e sem reservas alimentícias. Ora, no momento da germinação, o embrião-orquídea encontra-se numa situação dramática: não pode plantar uma raiz no solo e não tem nada para comer dentro da semente. Se não fosse a natureza a dar-lhe uma ama-seca, o embrião-orquídea estava condenado. No chão, próximo das orquídeas, há um cogumelo que serve de raiz ao embrião-orquídea e que o alimenta através de um filamento que lhe dá o que o cogumelo tira do solo. No entanto, quando a pequena orquídea cresce e planta a sua própria raiz, deixa de precisar da ajuda do cogumelo e tenta desembaraçar-se dele. Mas o cogumelo recusa ser expulso e incrusta-se na planta, dando origem a uma competição entre ambos. Para evitar ser invadida pelo cogumelo, a orquídea desenvolve grossas raízes tuberculizadas - duas raízes redondas no chão - que dão o nome à família das orquídeas: "Orchis", em grego, significa "testículo". A aventura das orquídeas ainda não está concluída: há orquídeas que regridem, perdendo a sua clorofila. Estas orquídeas deixam de ser verdes e não produzem folhas. Incapazes de se alimentar a partir da água do chão e do anidrido carbónico do ar, como fazem as plantas normais, alimentam-se de cadáveres de animais e de plantas, tal como os cogumelos ou mesmo o homem. Esta orquídea necrófila pode ser vista nos pinhais, na pequena Neotia das florestas temperadas. Actualmente, o homem e as orquídeas reconciliaram-se, porque o homem passou a dedicar-lhes cuidados especiais, fecundando-as e dando-lhes um meio açucarado onde elas podem germinar, em vez de lhe fazer guerra. O futuro das orquídeas estará garantido enquanto o homem souber cuidar da natureza, usando a sua capacidade de previsão consciente

J Francisco Saraiva de Sousa

segunda-feira, 25 de junho de 2012

De regresso à Botânica

Ceropegia woodii, Corações unidos

Flor de Cera 

Tenho andado a fazer uma campanha de sensibilização botânica: os portugueses são de tal modo seres brutos que carecem de sensibilidade estética. A minha paixão pelo mundo das plantas remonta à minha infância quando o meu pai me brindava com plantas exóticas. Sou por vocação mais zoólogo do que botânico, mas nessa altura as pessoas pensavam que iria seguir engenharia agrónoma, até porque já fazia experiências botânicas ousadas para a minha terna idade. As trepadeiras sempre me fascinaram: a minha estufa era toda ela coberta por trepadeiras. A frescura e a humidade resultantes permitiam-me cultivar plantas exóticas, quase todas elas provenientes de África. As violetas africanas - dobradas e singelas - predominavam, embora tivesse uma boa colecção de begónias, de gloxínias, de orquídeas, de jarros e de tantas outras plantas exóticas. Os canteiros que tinha no interior da estufa foram palco de algumas experiências engenhosas: a competição entre plantas fascinava-me e eu sabia que, para ter sucesso na reprodução das violetas, devia plantar as folhas - praticamente sem caule - à sombra de outras plantas. (Raramente as colocava num frasco ou copo com água, como faziam certas pessoas!) A exploração desses espaços interiores e escondidos pela luxuriante verdura das grandes plantas justifica o sucesso da reprodução das violetas africanas. Alarguei este princípio a outras plantas e verifiquei que os corações unidos conseguem eliminar todas as outras concorrentes tomando posse total do canteiro. Até mesmo as begónias eles conseguiram eliminar. Depois dos quatorze ou quinze anos de idade fui forçado a concentrar-me na minha real vocação zoo-antropológica. No entanto, a minha tese de mestrado ainda dedica algumas palavras à nova botânica. Hoje não tenho praticamente plantas, com excepção de violetas africanas ou de orquídeas. As plantas exigem muitos cuidados e, por vezes, é difícil tratá-las e libertá-las das suas doenças: os tratamentos recomendados também as podem matar. A vigilância constante é o melhor meio de conservar a saúde das plantas de interior. Quem tenha violetas africanas sabe que pode libertá-las dos parasitas usando um simples cotonete.

A prática da biologia esteve sempre ligada à biofilia. A emergência da biologia molecular quebrou esta união orgânica, fazendo desaparecer o naturalismo. Hoje em dia há milhares ou mesmos milhões de "amigos de tudo e de nada", e, nas redes sociais, proliferam inúmeras causas. A maior parte dos utentes dessas redes limita-se a seguir as "manadas virtuais", colocando automaticamente os seus "likes" em diversas causas incompatíveis entre si. Se há alguma coisa que as liga entre si, desconfio que, além da estupidez, é o ódio pelo homem. São "amigos dos animais ou das plantas" porque odeiam o homem: o seu niilismo antropológico é sintoma de antropofagia ou mesmo de desejo de aniquilação humana. Na verdade, os utentes da Internet não sabem nada de nada. Às vezes sou levado a pensar que estou a dialogar com programas de computador estúpidos. Mas não são os programas e as plataformas que são estúpidos; os utentes é que são absolutamente estúpidos. Alguns dos "amigos dos animais" auto-denominam-se de "zoófilos", sem suspeitar que a zoofilia é classificada como uma parafilia. Acho que nunca houve na longa história do homem uma era tão povoada de burros diplomados como a nossa. Em Portugal, eu só vejo burros, uns diplomados, outros não diplomados, mas todos são burros que cultivam a ignorância activa. A burrice está tão alastrada que, por vezes, quando vou ao café, sou forçado a escutar lições de biologia, de medicina ou de história dadas por um burreco que nem o décimo segundo ano concluiu. Não adianta usar um argumento de autoridade, porque os burros alegam que têm "direito à opinião". Estou cansado desta ralé portuguesa. E estou cada vez mais elitista: o meu desejo é aniquilar a ralé, mesmo que para isso tenha de defender uma ditadura pedagógica ou mesmo o eugenismo. Já não suporto ouvir as vozes destes burros portugueses. O eugenismo foi pensado desde Platão até hoje para proteger os mais aptos das investidas da turba medíocre. Cultivar o mérito já é uma forma de eugenia. Infelizmente, a esquerda contribuiu para o triunfo da mediocridade, destruindo desde logo o ensino e a educação. O fracasso total do 25 de Abril fornece uma nova chave de leitura da ditadura de Salazar. Por vezes, suspeito que Salazar conhecia demasiado bem a natureza arcaica dos portugueses, dando-lhes o tratamento adequado: o regime do silêncio. A gritaria que reina desde o 25 de Abril leva-nos a apreciar esse bem precioso que é o silêncio, sem o qual não conseguimos pensar. Os portugueses são zombis que gritam de manhã à noite. Não teríamos chegado a este estado caótico de gritaria se o sistema de educação tivesse desempenhado o seu papel de triagem: seleccionar os melhores. As escolas não são centros de igualização: a função da escola é realizar uma triagem, separando os dotados dos não-dotados, os quais devem ser encaminhados para outras funções. A realidade social vigente implica uma mudança de função da teoria crítica. Se no passado defendeu a igualdade, ela é hoje forçada a defender a mudança radical que permita aos melhores dominar a ralé. As massas não fazem a história; as massas são moldadas pela história realizada pelos homens mais criativos. Para garantir a evolução do conhecimento científico, é preciso vedar o seu acesso. As vozes dos "amigos de tudo e de nada" devem ser silenciadas. Precisamos de silêncio para pensar o futuro da humanidade e do planeta. Pensar é um exercício solitário; não é uma actividade colectiva. O conhecimento exige esforço e disciplina; é uma actividade penosa. O chicote deve ser usado para disciplinar as massas nas actividades produtivas.

Lá por defender o chicote para disciplinar as massas não deixei de ser um homem de esquerda; pelo contrário, estou a atribuir à esquerda um novo projecto político. O meu conhecimento biomédico - e filosófico - foi precedido por um longo período de educação, cuja escola foi a própria natureza. Esta educação informal - realizada no terreno sob orientação dos pais - é mais rica do que a educação formal dada pela escola. Quando escutava as lições do professor de biologia, tinha consciência de que sabia mais do que ele, que nunca tinha explorado uma floresta, uma savana ou a região africana dos grandes lagos. De certo modo, auto-eduquei-me e os meus pais fomentaram sempre o meu espírito de independência, sem permitir que ele fosse eclipsado por acção de professores medíocres. O ensino administrado pelas escolas portuguesas foi sempre uma merda: o que me salvou da mediocridade portuguesa foi o contacto com estrangeiros, sobretudo com ingleses e alemães. Mesmo quando realizei uma experiência "aristotélica" para explicar a origem da vida, eles apoiaram-me, embora soubessem que estava no caminho errado, porque a minha experiência demonstrava a impossibilidade de surgir vida lá onde ela já existe. Compreendi rapidamente o meu erro e fiz uma dissertação quase-molecular. Não tinha mais de oito anos de idade e já falava a linguagem da biologia molecular. Apesar de ser muito analítico e reducionista, nunca senti essa oscilação entre uma vocação molecular e uma vocação naturalista: a biologia foi sempre para mim a arte de conjugar essas duas vocações. Porém, confrontado com a miséria dos programas de biologia em vigor, sou forçado a privilegiar a base naturalista da biologia. Hoje os alunos não sabem nada: se lhes dermos uma folha para classificar, eles não o sabem fazer, porque não aprenderam classificação do reino vegetal. Aliás, eles não aprendem realmente as bases morfológicas, fisiológicas e evolutivas das ciências da vida. Em Portugal, a ralé que ascendeu com o 25 de Abril justifica o carácter minimalista dos programas, alegando temer a traumatização das crianças. O conhecimento é, por natureza, um trauma. E, sendo assim, é preciso poupar as crianças desse trauma, usando a escola mais como um meio para conversar e socializar do que como um centro difusor de conhecimento. O resultado desta política da educação sem trauma é a produção em massa de pessoas diplomadas sem conhecimentos. Todos são iguais à luz da ausência de conhecimentos: a igualdade implantada é a igualdade da burrice. A passagem do analfabetismo do Estado Novo ao analfabetismo funcional do Estado Democrático é tida como um progresso da sociedade portuguesa. Mas lá onde a ralé triunfante vê progresso, eu vejo regressão: os burros mais insuportáveis são precisamente os diplomados. Estarão as novas gerações portuguesas preparadas para conquistar o futuro? Infelizmente, não estão... Portugal não tem futuro. Com este texto dou início ao estudo da botânica.

Anexo: A minha campanha de sensibilização botânica dos portugueses começou no facebook e na página comunitária Eu Amo o Porto, onde escrevi: "Com as Descobertas Portugal teve todas as oportunidades para desenvolver a exploração geográfica da terra e a ciência natural, mas não as soube aproveitar: a brutalidade dos portugueses é genética. O povo português é arcaico e saloio. O 25 de Abril fez emergir a brutalidade dos portugueses, seres destituídos de inteligência cultivada e castrados de sensibilidade estética. Acho que foi durante a ditadura de Salazar que apareceu uma tentativa de educar a sensibilidade dos portugueses: os concursos dos jardins mais bonitos das estações ferroviárias. Hoje não há jardins: há porcos". Gostava de ver o Porto a liderar um programa de exportação de plantas e flores exóticas: a genética - aliada à tecnologia - permite fazer milagres. Mais: desejo o regresso de canteiros floridos à cidade do Porto, embora saiba que os portugueses são ladrões. Sim, roubam as plantas dos jardins públicos! As orquídeas adaptam-se bem ao clima do Porto. Ainda recentemente tive diversos vasos de orquídeas na varanda e elas floriam abundantemente todos os anos. Infelizmente, não consegui combater uma praga que as matou: agora só tenho orquídeas exóticas dentro de casa. E, neste momento, têm cachos de flores. Elas não gostam muito de sol directo, pelo menos no verão. Quanto às violetas africanas, não as tenho reproduzido, porque plantas e livros nem sempre se articulam bem. Para ter plantas saudáveis em casa, é necessário adaptar a própria casa: as plantas não gostam de estar sozinhas, isoladas umas das outras. Elas querem companhia para formar um micro-sistema ecológico dentro de casa. As plantas socializam umas com as outras. Se tiver espaço em casa, recomendo vasos comunais: misture plantas compatíveis num mesmo vaso e saiba conservar a humidade. Mas não ponha os corações unidos nesses vasos com outras plantas, porque o seu crescimento acaba por eliminar as outras plantas. Eles ocupam sozinhos um desses vasos e, mesmo assim, se estiver distraído, tentam conquistar o território dos vasos anexos.

J Francisco Saraiva de Sousa

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Darwinismo Social, Racismo e Anti-semitismo

Human Brain
«Os progressos do hemisfério austral foram realizados pelo espírito filantrópico da nação inglesa. Um inglês não poderá deixar de sentir um enorme orgulho e uma profunda satisfação ao visitar estas longínquas colónias (Austrália e Nova Zelândia). Uma bandeira inglesa içada é garantia de prosperidade, riqueza, civilização.» (Charles Darwin)


Este será um texto extremamente irónico que deve ser lido com inteligência. Eu sou contra a ideologia igualitária dos direitos humanos, a qual é responsável pela decadência do Ocidente. Para levar a cabo a desconstrução dos direitos humanos, convém fazer uma nova leitura das teorias raciais, de modo a captar o seu momento de verdade. Embora o mundo tenha sido moldado pelo liberalismo desde finais do século XIX até aos nossos dias, o alvo da minha ironia não será o liberalismo impregnado pela ideologia socialdarwinista, mas a biofobia da esquerda alucinada. O momento de verdade das teorias raciais capta-se facilmente se o leitor pensar na actual divisão da Europa em duas regiões: a Europa do Sul, atrasada e mafiosa, e a Europa do Norte, desenvolvida e esclarecida. Esta divisão vai ao encontro da escala das raças estabelecida por Galton: os povos periféricos do continente europeu tendem a ser "inferiores" aos povos centrais. O facto de serem periféricos já testemunha a sua "inferioridade racial", agravada pela mestiçagem com povos semitas e negróides. Em Portugal, essa clivagem racial tende a acentuar-se à medida que vamos do Norte para o Sul periférico, onde a mestiçagem é mais evidente. Não adianta recorrer aos argumentos da igualdade e da solidariedade para tentar esconder aquilo que é evidente: os povos do sul da Europa não conseguem acompanhar o ritmo de desenvolvimento da Europa do Norte e, até mesmo quando foram potências colonizadoras, as suas colónias não alcançaram o brilho das colónias inglesas. Darwin limitou-se a constatar a evidência. Se olharmos para o mapa mundial do desenvolvimento, verificamos que os pólos de desenvolvimento mundial estão ou estiveram sob influência anglo-saxónica. Os ingleses levaram a civilização ocidental para fora das fronteiras europeias: USA, Canadá, Austrália e Nova Zelândia. A esquerda alucinada não esmorece diante da evidência, acusando os ingleses de terem "exterminado" os tasmanianos e os índios e elogiando a política de mestiçagem dos portugueses e dos espanhóis na América Latina. Porém, quando faz as suas reivindicações alucinadas, a esquerda esquece novamente a evidência: a mestiçagem não produziu colónias desenvolvidas. E, no caso português, as últimas colónias a conquistar a independência - Moçambique e Angola - eram pelo menos nessa altura mais desenvolvidas do que a velha metrópole atrasada e racialmente medíocre. Não há maneira de contornar a evidência: a teoria do desenvolvimento deve levar em conta factores raciais, étnicos e biológicos. 

Francis Galton e a aventura colonial inglesa. Não basta acusar uma teoria de ser racista, em nome dessa treta que são os direitos humanos, para a refutar, porque lá onde se revela o racismo reside um momento de verdade incontornável, que denuncia o carácter ideológico da própria crítica. Em 1869, Galton publicou a sua obra The Hereditary Genius, onde recorre ao esquema do seu primo Darwin para explicar a existência de raças hereditárias. Após ter definido as raças humanas por caracteres morfológicos - tamanho e forma do crânio, cor da pele, cor dos olhos, cor e forma dos cabelos - e por caracteres mentais ou culturais, Galton utiliza os caracteres físicos para determinar uma escala de valores entre as raças: no topo dessa escala, temos os Brancos, feitos biologicamente para conceber e dirigir, e nos lugares de baixo os Amarelos e sobretudo os Negros, feitos para obedecer e trabalhar. O mundo branco é, por sua vez, dividido numa série de povos hierarquizados, cujo topo é ocupado pelos ingleses. (:::/:::)

Vacher de Lapouge e o racismo moderno. Michael Jackson dizia que não era negro: era apenas uma pessoa que frequentava a praia para ficar mais morena. A negação das diferenças raciais conduz a ideias absurdas como esta de Michael Jackson. Não adianta querer tapar o sol com a peneira: as raças humanas são fenotipicamente visíveis e, como se sabe, um casal negro (genuíno) não gera filhos brancos e um casal branco (genuíno) não gera filhos negros. (Narrar aqui um acontecimento ocorrido no Porto no século XVI: uma mulher branca deu à luz um filho negro e o suposto pai branco deixou a mulher e reclamou a "prenda da noiva".) (:::/:::)

Gobineau e os pólos da selecção: Arianos e Semitas. Os ideólogos do nazismo são injustamente acusados de terem inventado o anti-semitismo quando, na verdade, este é muitíssimo antigo, tendo sido tematizado por Gobineau - Joseph Arthur, conde de Gobineau - no seu Essai sur l'Inégalité des Races Humaines, publicado em 1853. A partir de dados linguísticos e culturais, Gobineau descobriu a raça ariana, que viveu no Norte da Índia, no segundo milénio antes de Cristo. Eis aqui o epicentro privilegiado a partir do qual surgiram todas as civilizações: a chinesa, a hindu, a mediterrânica e a europeia. Os alemães são - segundo Gobineau - os descendentes mais puros da raça ariana. O valor de um povo depende directamente da quantidade de "genes arianos" que possui. Apesar de ter criado o chamado "mito ariano", Gobineau não foi um anti-semita. (:::/:::)

Em construção. J Francisco Saraiva de Sousa

quarta-feira, 20 de junho de 2012

A ideia das Humanidades no plural

Porto: Caminhos do Romântico
Chegou a hora de demolir a ideia de uma única humanidade. Há humanidades no plural, cada uma das quais com a sua própria história filogenética e cultural. Nos últimos textos, tenho omitido a ideia de cultura como processo de pseudo-especiação, mas deve-mos retomá-lo e reformulá-lo, de modo a mostrar as especi-ficidades de cada uma das humanidades existentes e da sua evolução cultural. É um erro fatal - o mais fatal de todos os erros - pensarmos a humanidade no singular, como se todos os homens pertencessem a uma única humanidade. No passado ainda recente, essa ideia levou-nos a classificar as sociedades em primitivas e civilizadas, como se todas elas pertencessem a um mesmo processo contínuo de evolução social e cultural. Porém, a verdade é que as sociedades primitivas não pertencem ao círculo de evolução da civilização ocidental: as nossas próprias sociedades arcaicas pertencem ao passado, mas a distinção que fazemos entre sociedades primitivas e sociedades civilizadas pertence ao presente, um presente que permanece igual a si próprio, apesar da difusão da ideologia igualitária. Não podemos abdicar de dizer a verdade para contribuir para a difusão de uma mentira que ameaça mergulhar o mundo na catástrofe. É urgente reformular a biologia das raças humanas, de modo a elaborar sociobiologias humanas particulares. (Os continentes estiveram isolados uns dos outros durante milhares e milhares de anos e as diferenciações culturais geraram barreiras etológicas que são refractárias aos cruzamentos entre pseudo-espécies. A hibridização não é futuro. Não é o racismo que gera barreiras; é a própria biologia que as gera. Qualquer cultura híbrida é decadente.) O fracasso da implantação da democracia liberal nos espaços ocupados por culturas não-ocidentais aponta nessa direcção. O discurso do racismo ou do etnocentrismo está gasto e já não convence ninguém: lá onde se iludem a violência predomina. Devemos ser corajosos e ousar dizer a verdade: a grande narrativa da humanidade unida é uma mentira. Precisamos pensar as bifurcações antropológicas e culturais, se quisermos pacificar a vida na Terra. Meus amigos, a minha missão é mostrar-vos o caminho da salvação.

Advertência. Muniram-me dos instrumentos necessários para reformular a biologia das raças humanas. O conceito de humanidades no plural não colide com a "unidade" da espécie Homo sapiens, embora acentue a relatividade dessa unidade. Em 1941, Julian Huxley propôs a substituição do termo raça pela expressão mais neutra de grupo étnico. Compreendo a pertinência desta sugestão, mas os dois conceitos referem-se a realidades diferentes, embora interligadas entre si. Tal como o usa, o conceito de grupo étnico está mais próximo da realidade que designo de humanidades no plural. Em princípio, aceito a definição de raça dada por Dunn e Dobzhansky (1946): as raças humanas como populações que diferem na frequência relativa de alguns dos seus genes. Este conceito permite pensar as raças não em termos de diferenças fenotípicas absolutas, mas em termos de diferenças relativas na distribuição de frequências de caracteres ou genes. O que interessa é compreender o mecanismo de raciação: os grupos humanos isolados estão - ou estiveram - sujeitos a processos de mudança evolutiva, nos quais entraram em jogo os seguintes factores: selecção natural, mutação, isolamento, oscilação genética, hibridação, selecção sexual e selecção social. Eu sou contra o racismo, isto é, contra a doutrina ideológica que usa as diferenças raciais para justificar e legitimar a dominação de uma raça sobre outras raças. No entanto, não podemos acusar uma pessoa de ser racista por não considerar os membros de outra raça eroticamente atractivos, por exemplo. Estou convencido de que o estudo biológico das raças humanas pode ajudar a dissolver muitos preconceitos negativos.

J Francisco Saraiva de Sousa