terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Máscaras e Carnaval

A melhor análise histórico-cultural do Carnaval que conheço é a obra de Júlio Caro Baroja. Opondo-se às teorias folclóricas que o filiam às saturnais, Baroja defende a teoria de que “o Carnaval é filho do cristianismo”. Isto significa que, sem a ideia de Quaresma, o Carnaval não teria existido tal como o conhecemos desde os tempos obscuros da Idade Média. Os três dias que precedem a Quarta-feira de cinzas constituem o período do Carnaval, o período da carne e do carnal, durante o qual se realizavam várias festas “pagãs” que glorificavam os valores carnais da vida, especialmente os prazeres carnais, por oposição aos valores cristãos do período seguinte, o da dor.
Assim sendo, Baroja pode retomar a tese defendida já em 1914 por Jean-Richard Bloch e afirmar que “o Carnaval está morto”, não porque tenha sido morto pelo auge do espírito religioso ou pela acção das “esquerdas”, mas porque foi superado pela secularização, mais precisamente pelo “laicismo burocrático”.
É certo que actualmente são muitas as cidades que festejam o Carnaval, mas o Carnaval festejado em desfiles e festas de foliões perdeu irremediavelmente o “espírito” que movia essas “festividades carnais”, embora o seu tempo continue a estar ligado ao calendário cristão. Em última análise, somos levados a afirmar que o Carnaval tornou-se, nas sociedades de consumo, uma “indústria cultural” e, como tal, assegura a integração social total, ao mesmo tempo que garante o lucro de outras indústrias do ócio, em detrimento do seu anterior potencial negativo. Neste sentido, o Carnaval é, à luz do pensamento independente, uma irracionalidade, pior ainda, um anacronismo irracional e reaccionário.
Tudo no Carnaval é negócio, diante do qual até a “mascarada” perdeu o seu sentido original. Hoje o traje de fantasia já não pode ser visto como a transgressão daquilo que é normalmente interdito. Recalcamento e retorno do recalcado, silêncio e tumulto, esta parece ter sido a dinâmica que caracterizava os dias de demência do Carnaval. Mas, nos dias de hoje, o espírito do Carnaval já não é o da inversão dos usos sociais, da intuição de um anonimato que, provisoriamente, permite todas as extravagâncias e autoriza todos os desregramentos, porque o capitalismo se mostra extremamente maleável na sua capacidade de colonizar e neutralizar as “distracções” e de as converter em negócios lucrativos.
Como exemplo deste fracasso explicativo da teoria da festa, elaborada por Roger Caillois, diante das novas festividades carnavalescas, podemos alegar que, numa sociedade aberta e de consumo, já nem os trajes travestis constituem uma válvula capaz de possibilitar o retorno do recalcado. Primeiro, porque vivemos numa sociedade que fomenta a liberdade sexual e, pelo menos no plano do direito, garante as diferenças sexuais. Isto significa que um homem ou uma mulher já não precisam encobrir as suas identidades sexuais e, portanto, já não precisam de aguardar pelo Carnaval para satisfazer as suas “fantasias íntimas”. A sociedade de consumo comercializa todas as fantasias e coloca-as no mercado a preços acessíveis ou mesmo grátis. Os travestismos carnavalescos já não têm razão de ser, a menos nos casos de indivíduos homofóbicos e/ou casados heterossexualmente. Segundo, porque, numa tal sociedade, todos os dias são dias carnavalescos, visivelmente mediatizados pelos mass media, pelo menos no que se refere às máscaras usadas pelas vedetas nacionais que, tal como o Diabo, são criaturas dos mil rostos. Terceiro, numa sociedade secular, visceralmente anti-cristã, pelo menos ao nível do discurso, já não faz sentido viver o Carnaval como se fosse uma "festa anti-cristã", simplesmente porque as pessoas desconhecem, teórica e praticamente, os preceitos cristãos.
A “festa dos loucos” tornou-se na festa dos “pobres de espírito”, daqueles que já não precisam do pensamento ou mesmo da fantasia para viver. O seu corpo e os usos que fazem do corpo já não constituem objecto de estudo da filosofia mas da epidemiologia, para posterior entrega aos cuidados das indústrias médicas. A mediatização do Carnaval e o seu uso "bairrista" ou "regionalista" representam a força e a primazia da "cultura popular" comercializada, em detrimento da cultura superior.
J Francisco Saraiva de Sousa

26 comentários:

Manuel Rocha disse...

Uma crónica interessantissima do H Eco que abordava o Jogo e o Carnaval, referia-se à "carnavalização da vida", para dizer que o carnaval já não eram só três dias mas o ano todo, tal como o Francisco afirma.E dava como exemplo os mass-media,os reality shows, a relegião,o turismo de massas e o próprio trabalho, onde a classe operária se deixou adoptar pela "indústria da carnavalização".

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Concordo, então, com essa tese de Eco, mas não conheço a crónica. "Carnavalização da vida" é mesmo o termo certo. :)

Manuel Rocha disse...

E olhe que este carnaval ( tal como "este" natal, este...) poderão ser anacrónicos em relação aos paradigmas em que foram criados, mas o uso actual que deles hoje é feito é muito "racional"!
:)
A "cultura popular" de que fala é a filha dilecta desta "racionalidade" que necessita de bons comsumidores, seja do que fôr.Ela deixou de ser genuina. É fabricada e vulgarizada para criar e manter uma adesão muito receptiva também a todo o tipo de demagogias...Acho que não foi nada disto que passou pela cabeça do Marx quando imaginou a nolilitação da classe operária...:))

Aveugle.Papillon disse...

Li ontem isto: http://serpenteemplumada.blogspot.com/2008/02/pieter-brueghel-combate-entre-o.html

Toda a gente concorda que a festa da carne tornou-se um mero símbolo.

O seu corpo e os usos que fazem do corpo já não constituem objecto de estudo da filosofia mas da epidemiologia, para posterior entrega aos cuidados das indústrias médicas.

Isto é feio de se escrever, sr. higienista. Desde que há "amor" há "epidemias"...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Sim, concordo consigo, Manuel.
De facto, tenho estado a pensar que as próprias teorias elaboradas, com recurso à psicanálise, estão desactualizadas, e talvez, nalguns casos, também possam ser "responsabilizadas" por esra "racionalização funcional" da sociedade.
O conceito de indústria cultural foi elaborado por oposição a certo tipo de cultura popular, mas nenhuma das culturas está livre de ser comercializada e consumida como mero "bem de consumo". A colonização capitalista do "mundo da vida" está a ameçar seriamente a nossa tradição. Temos aqui uma nova frente de luta contra o capitalismo destrutivo! :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Basta ir a um grande supermercado e ver como certos dias são explorados para vender "mercadorias": dia dos namorados, dia das bruxas, Natal, Páscoa, ir para a escola, etc. Veneno puro!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Ok, Papillon
Hoje sou "higienista"?!
Amor é o que não existe no Carnaval! Amor e sexo nem sempre se cruzam! :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Papillon
Li o texto desse endereço e, francamente, aquilo que diz é precisamente aquilo que denuncio neste post como desactualizado: Caos e Ordem são noções ausentes do pobre imaginário popular, se alguma vez estivaram presentes.
era aquilo que eu e o Manuel debatiamos: as teorias "aéreas"!

Aveugle.Papillon disse...

Eros nasceu de Poros e Pínia (expediente e indigência)... os males físicos do homem, as doenças, sempre existiram. No Carnaval há amor e há sexo, como há em qualquer dia do ano. Não chegou à conclusão que o Carnaval é o cúmulo do que acontece durante todo o ano?

Ok, então peço desculpa por n ter entendido o seu texto. Mas talvez alguém que passe, queira fazer uma leitura comparada.

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Mas era o que diziamos, usando o termo de Eco: "carnavalização da vida"!
E, como diz, "carne" ou "sexo" podemos ter todos os dias: isto significa que a comercialização do Carnaval, a sua mediatização e a sua secularização roubaram-lhe o "sentido". Alguns aproveitam para fazer férias! Segundo Callois, as "férias" tendem a substituir as "festas". Tem alguma razão! :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Papillon
As noções de Caos e Cosmos (ordem), transgressão, etc., só fazem sentido num "universo sagrado". Ora, nós vivemos numa sociedade secularizada, dominada pelo capitalismo, cujo único objectivo é fazer lucros.
E, onde há a possibilidade de contrair doenças, não há "racionalidade". Esta aconselha-nos a valorizar a vida e a alegria e não o prazer anónimo e momentâneo!

Aveugle.Papillon disse...

Consigo perceber o que diz e concordo, com alguma tristeza. Mas é a verdade.
Contudo, n percebo porque insiste na "contracção de doenças". Quero dizer: acho pertinente diante da epidemia avassaladora que é a SIDA, mas sempre houve doenças sexualmente transmissíveis e mortais. Mesmo no tempo em que a máscara dionisíaca, aquele instante anónimo e irracional, era libertador...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Sim, é verdade, mas actualmente vivemos numa sociedade reflexiva e, dado as ameaças presentes, mais vale "prevenir do que remediar".
Baroja demonstra que as festas do carnaval não derivam das saturnais, embora possam ter semelhanças.
A minha tese é a de que, no nosso tempo secularizado, o carnaval é mais uma indústria cultural, apenas isto, sem magia, sem encanto.

Aveugle.Papillon disse...

Sim, mesmo que n derivem, propõem-se ao mesmo: qualquer civilização tem celebrações dionisíacas... a iniciação pelo sexo.
Tem o encanto de qualquer outra noite. Podemos potenciá-lo, ainda assim...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

O capitalismo desencantou o mundo e desencanta-o cada vez mais, a ponto de estar a destruir tudo! :(
Sim, são as chamadas "constantes" das festas. Contudo, sem interditos, não há transgressões. Veja o caso do S. João do Porto: nesse dia, dizem, perdia-se a virgindade; hoje é mera folia destituída de sentido (violação dos interditos) e folia comercializada, até para fins turísticos. Vivemos num mundo desencantado! Esta é a nossa realidade!

Aveugle.Papillon disse...

Hmmmm... eu acho o mundo encantador, em limite, porque o mistério da vida persiste.
Mas é difícil voltar a "sacralizar" o sexo, quando o que vemos diariamente é um mostruário que o banaliza e desvirtua...

Há pouco falava da psicanálise... e agora penso: a grande mudança que ela imprimiu, paradoxalmente, n fez as pessoas mais saudáveis, livres e felizes; o que daqui infiro que o homem é mesmo ser-para-morte, e o capitalismo é a expressão mais radical desta condição.

Manuel Rocha disse...

Reparem que nos dias que correm o turismo que se pratica se faz mais de expectativas do que de vivências. Experiencia-se uma viagem por antecipação, estuda-se o percurso, sabe-se exactamente onde se vai, com quem e a que horas. Fazer a viagem é um género de complemento de certificação. Há quem volte do Chile sem ter nada para contar que não esteja no roteiro turistico, já depois de papagueado pelo "guia" de serviço.Pela simples razão de que por norma a expectativa ( criada pela manipulação da imagem fraudolenta ) não existe como onde se esperava. O resultado só pode ser o "desencanto", até porque se perdeu o sentido de descoberta - como é que se descobre o que já se "viu" de todos os ângulos ?

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Acordo absoluto convosco! Que Fazer? Eis o nosso problema!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Tenho dedicado muitos posts ao Cristianismo, porque estou cada vez mais convencido que o cristianismo tem dentro de si uma força explosiva capaz de erguer "montanhas", de resto mais potente do que a de qualquer ideologia política! Essa era a ideia de ernst Bloch! :)

Manuel Rocha disse...

Quem foi que disse que as duas únicas concepções do mundo eram o Cristianismo e o Marxismo ? Engels ?

Manuel Rocha disse...

E o religioso não é ele mesmo uma via politica alternativa ?

Aveugle.Papillon disse...

Manuel,

Isso é um "tipo" de viajante e de viagem. Garanto-lhe que nem toda a gente ambiciona apenas pelo carimbo no passaporte...

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Não sei se foi Engels, mas talvez tenha dito algo semelhante. Kautsky explorou mais essa via, posteriormente retomada por E. Bloch e tantos outros, como por exemplo Sorel.
De facto, há algo comum ao cristianismo e ao marxismo: a insatisfação com o presente e o mundo, além de um certo modelo de filosofia da história.
O cristianismo como alternativa política? Não sei, porque nesse caso corriamos o risco de ser tomados pelas igrejas cristãs!

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Mas precisamos reler a gnose e a mística em chave política e marxista! São explosivas e podem ser "usadas" como armas de luta! Aliás, o general García Leandro pondera a possibilidade de "liderar" o movimento de cidadãos contraa corrupção! :)

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Depois desta cena bizarra em torno da morte do rei, o Carlos, e da monarquia, pode ser que o povo português acorde para a política da mudança radical e qualitativa. Porque a corrupção até já quer branquear a monarquia!

Manuel Rocha disse...

Papillon,

Claro !
Mas esses são os viajantes ( raros ).
O resto é turismo de massas - o mais longe possível, durante tanto quanto possível, pelo minimo possível !

...

Por acaso tb achei giro ver a Répública a homenagear a Monarquia!

:))